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Um raio de sol

Escrito por Angraína Ligado . Publicado em Um raio de sol

               Ao leitor mais distraído

               Talvez isso não fique entendido

               Reza a lenda que numa certa feita

               Um moço bonito como se suspeita

               Coração trancado a sete chaves

               Deu de cara com a mais bela dama

               Mas a vida com seus entraves

               A afastou dele por sua fama

              

               A noite estava serena e calma quando Eliza entrou no baile acompanhada de sua irmã Jane e sua amiga Charlote. Ao fundo podia se ouvir a orquestra sinfônica da cidade tocando músicas clássicas. Era outono, o que dava ao ar um belo frescor. Lá fora o vento tocava sua própria canção regendo as folhas das árvores que balançavam de um lado para o outro fazendo seu próprio baile.

               A ideia de um baile de máscaras foi de sua mãe. No início ninguém levou a sério, pois a Sra. Bennet era do tipo que parecia viver no “mundo da lua”. Mas ao que parece, tornou-se uma boa opção para que a ONG Emílias pudesse arrecadar fundos para a ampliação da escolinha comunitária do bairro.

               Todos estavam colaborando para o sucesso do evento. A orquestra, os garçons, as cozinheiras, os vigilantes, a decoradora e muitos outros ajudantes, que se prontificaram para voluntariamente fazerem daquela noite, uma ocasião especial e única.

               Eliza abriu o baile agradecendo a todos pelo trabalho. As moças mais belas do bairro dariam uma dança aos cavalheiros que se prontificassem a oferecer o lance mais alto. A entrada para o baile era franca, mas a mesa tinha um valor estipulado e com isso a ONG conseguiria arrecadar o valor necessário, além de  trazer animação para seus vizinhos. O casarão onde o baile estava acontecendo era de estilo clássico e foi reformado recentemente por uma empresa que resolveu permanecer anônima e que havia cedido o uso do  casarão para a festa e ainda doado uma quantia de grande relevância para a execução do projeto.

               Aos poucos, homens e mulheres mascarados cobriam todo o salão, aqueles que não tinham condições de alugar uma roupa tiveram a oportunidade de pegar emprestado da loja Florata que vende e aluga roupas para festas – de tempos em tempos a loja renova seu estoque e doa coleções antigas para serem vendidas no bazar da Igreja.

               Jane e Charlote recepcionavam os convidados, enquanto Eliza conferia todos os detalhes da festa. A Sra. Bennet chegou toda animada, informando aos quatro ventos sobre os rumores de que os donos da empresa que havia comprado o casarão estaria no baile esta noite. A notícia não foi levada a sério por Eliza, mas Charlote e Jane criaram uma certa expectativa quanto à isso.

-       Não acredito que eles virão aqui. Pois se mantiveram o anonimato durante todo este tempo, por que apareceriam por aqui agora? Não faz nenhum sentido.

-       Ah, Eliza... Às vezes eles mudaram de ideia e resolveram que seria interessante a integração com a comunidade. As pessoas podem mudar de ideia. Ou não?

-       É Jane, podem sim... Vamos esperar e ver o que acontece.

-       Este casarão ficou lindo após a reforma... E o jardim? Ficou perfeito. Mudou a cara do bairro.

-       É verdade. Além disso, para a manutenção do casarão foi necessário contratar cinco funcionários e todos eles são do bairro e isso é muito bom.

-       Com a ideia de todos estarem usando máscaras, há algumas pessoas que não estou conseguindo identificar... Você reconhece aquele rapaz ali na frente...

-       Qual Jane?

-       Aquele de cabelo loiro? Ele está conversando com Charlote...

-       Não. Não o reconheço. Vamos lá falar com Charlote, assim ela nos apresenta.

-       Oi, Charlote!

-       Oi, Eliza, Jane. Posso apresentar a vocês Charles Bingley?

-       Bingley, estas são as irmãs Bennet. Meninas, Bingley é um dos responsáveis pela reforma do casarão.

-       Oi é um prazer conhecê-las... Já tinha ouvido falar da beleza de vocês e estou encantado! Quer dizer, já tinha ouvido falar que o trabalho que vocês fazem na ONG é encantador.

-       É algo que gostamos muito de fazer. Cada uma tem sua profissão, mas gostamos de nas horas vagas contribuir de alguma forma para o desenvolvimento das pessoas. Nem todos tem a oportunidade de nascerem em famílias estruturadas e com boas condições financeiras.

-       É verdade Eliza. Eu estava explicando à Charlote que a ideia de reformar o casarão não foi minha, mas de um amigo que gosta muito de arquitetura clássica... Ele iria gostar de ver como ficou a reforma.

-       Ele não veio com você?

-       Não. Ele estava com outros compromissos para esta noite. Mas vou fazer ele se arrepender disso.  Charles soltou seu sorriso e Jane ficou fascinada...

               A conversa seguiu por mais de uma hora e Eliza pediu licença a todos, mas precisava se retirar para checar os detalhes do leilão das danças. Jane e Charles conversavam entusiasmados, então Charlote resolveu ir com Eliza e deixou o casal a sós.

-       E então Eliza... Você disse que os donos da empresa não apareceriam e Charles está aqui... Você percebeu que está rolando um clima entre Jane e Charles?

-       Quando conheci Charles imaginei que ele seria o par perfeito para Jane...

-       Como assim? Você o conheceu agora!

-       Não, Charlote... Conheço Charles já há algum tempo... Acho que faz mais ou menos seis meses, mas não podia comentar com ninguém porque como você sabe, a empresa queria se manter anônima. Eles não gostam de chamar a atenção.

-       Puxa Eliza! Você sabe mesmo guardar um segredo, heim!?

-       Ai Charlote, não fique chateada. Também não comentei nada porque na ocasião em que conheci Charles, ele estava com um amigo, que ao contrário de Charles é uma pessoa esnobe e muito orgulhosa e não é apenas eu que falo isso. Todos comentam por aí. Andei pesquisando sobre ele na internet e posso afirmar que a fama dele não é boa.

-       Humm... Se você se deu ao trabalho de fazer pesquisa sobre o moço, é poque ele chamou sua atenção... Você gosta dele, Eliza... Será que finalmente você se apaixonou por alguém?

-       É claro que não Charlote... Pare de falar besteiras. Vamos, temos que reunir os convidados no salão principal. Tá na hora da valsa...

-       Boa noite, senhores e senhores! É uma alegria estar com vocês esta noite. Este é o nosso primeiro baile de máscaras e toda a renda arrecada nesta noite será em prol da ampliação da escola comunitária. Como todos sabem a escola Casa Engraçada é uma escola onde crianças e jovens têm aulas de reforço escolar, aulas de violão, de balé, além de cursos técnicos profissionalizantes à noite. Aqui presentes as mais belas mulheres do bairro que hoje estarão leiloando uma dança para os cavalheiros que estiverem dispostos a dar o maior lance. Então, sem mais delongas, vamos iniciar o leilão.

               O leilão se iniciou e foi sucesso total. Quando chegou a vez de Jane vários cavalheiros deram lances, mas nenhum pôde competir com o lance de Charles. O lance mínimo iniciou com R$ 1.000,00 e finalizou com R$ 30.000,00. Foi o maior lance da noite. Jane ficou super animada e Charles a olhou com aquele olhar de quem diz: eu não disse que você dançaria somente comigo esta noite? Jane ainda não acreditava, parecia um sonho existir alguém tão amável e simpático como Charles.

               Eliza saiu de fininho após o término do leilão. Todos se perguntaram porque Eliza não estava no meio das moças que leiloaram uma dança. Mas a verdade é que apesar de ninguém perceber, já havia algum tempo que ela estava se sentindo triste e vazia. Ela só ainda não conseguia admitir o porquê disso. A conversa com Charlote fez Eliza lembrar de coisas que ela pensava já ter superado.

               Ela se afastou da multidão e se viu sozinha em uma sala escura e silenciosa. Começou a lembrar daquele dia em que havia visto o Sr. Darcy pela primeira vez. Ele nunca tinha sido apresentado a ela, mas tinha cometido o disparate de ficar falando dela com Charles. Ela ouviu quando Darcy disse a Charles que Eliza não era bonita o bastante para tentá-lo. Que ideia! Por que eles estavam conversando sobre ela? Por que ele se achava tão superior e por que ela iria querer tentá-lo? Eliza saiu da sala sem que Charles e Darcy pudessem vê-la e desde então ela procurou evitá-lo de todas as maneiras possíveis.  Eliza teve seus devaneios interrompidos pela sensação de que havia mais alguém ali, então resolveu retornar ao salão principal.

               Alguns minutos depois, um homem alto passou por Eliza e chamou sua atenção. Ele parecia familiar, mas ela não conseguia lembrar de onde o conhecia. Logo depois, ela foi pega de surpresa quando sentiu que alguém tocava em seu ombro. Era ele. O homem que passara por ela agora a pouco.

               -       Boa noite senhorita. A dama me concede esta dança?

-       Eu o conheço?

-       Talvez queira conhecer. Vamos dançar?

 

               Sem palavras, Eliza estendeu a mão. Ao fundo a música “All I Do Is Dream of You” na voz Michel Bublé. O charmoso mascarado, de olhos azuis, olhou-a nos olhos e tomou-a nos braços. A música não era uma balada romântica, mas tinha uma letra bem sugestiva. Eles não falaram nada, apenas dançaram. Quando a música terminou. O mascarado a cumprimentou beijando sua mão e se afastou.

               Eliza não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que havia uma energia entre eles. Era como se o seu corpo estivesse este tempo todo ansiando pelo toque daquele homem misterioso. Ela pôde sentir o perfume dele. Era tão bom. Um cheiro de capim silvestre e ervas. Quando a mão dele tomou a sua cintura, o seu corpo estremeceu e quando os lábios dele tocaram a sua mão, foi impossível não pensar como seria aqueles lábios acariciando os seus. - O que está acontecendo comigo? Nunca me senti assim antes. - Pensou Eliza.

               Já passava das quatro da manhã e ainda havia muitas pessoas no salão. Eliza achou que precisava de um pouco de ar.  Depois da dança ela procurou o misterioso cavalheiro por todos os lados e não o encontrou. O jardim era lindo, àquela hora o cheiro das folhas tomava conta de todo o ambiente. A lua estava se despedindo de um lado, enquanto do outro o céu já se mostrava avermelhado, revelando que daqui a pouco os primeiros raios do dia surgiriam. Eliza sentou-se em um dos bancos que ali existia e fechou os olhos. Sentiu um cheiro familiar. Era ele. Ela abriu os olhos. Já havia tirado a sua máscara, mas o cavalheiro ainda continuava com a dele.

-       Não me canso de admirar seus olhos. Eles me fascinam e me perturbam desde a primeira vez que a vi.  Prometi a mim mesmo que nunca mais abriria o meu coração para alguém, mas jamais imaginei que você poderia invadi-lo desta maneira. Você tomou o meu corpo e minha alma e não vejo como posso seguir adiante se não for contigo. Tentei te evitar desde a primeira vez que te vi...

-       Não entendo. Eu não o conheço. Como posso ter despertado tais sentimentos, se nunca nos falamos. Se nunca nos vimos. E hoje foi a primeira vez que nos tocamos.

-       Talvez seja verdade que você nunca tenha me visto até hoje. É verdade que até hoje nunca havíamos nos tocado e nos falado. Mas eu te conheço e você me conhece também. Estamos sempre nos correspondendo e acredito que você também goste de mim...

-       Você é?

-       Sim. Pemberley1813.

-       Por que esse mistério todo? Por que simplesmente não se apresentar?

-       Tive medo porque sei o que você pensa de mim e eu não sou a pessoa que dizem que eu sou. Poucos me conhecem... Eu não queria correr o risco de... perder isto que somos agora um para o outro...

               Eliza levou sua mão ao rosto dele e ameaçou tirar sua máscara. Mas ele não a permitiu fazer isso, interrompendo-a...

-       Sei que posso estar pedindo muito, mas gostaria de provar algo antes de tirar a minha máscara.

-       O que você...

               E antes que Eliza pudesse pensar ela sentiu o rosto do mascarado se aproximar do seu. Seus olhos azuis encaravam os dela com um brilho intenso e quente. Seus lábios macios tocaram os dela e ela sentiu um arrepio percorrer todo o seu corpo. Que sensação era aquela? Quem era aquele homem?

               Ela nunca havia comentado com Jane ou Charlote, mas já faz uns cinco meses que ela se correspondia com o usuário Pemberley1813 pelo facebook. No início sentiu um pouco de receio, mas depois de tanto tempo sem que ele tivesse tentado nada que a deixasse insegura, ela resolveu acreditar que ele era uma pessoa legal. Além disso, suas conversas eram sempre tão boas, tão ricas, ela podia falar com ele sem reservas e ele a entendia como ninguém. E os amigos dele eram pessoas conhecidas da sociedade, então não parecia ter problema algum. Ela já havia perguntado a ele qual o seu nome, mas ele apenas dizia que na hora certa ela saberia.

               Então havia chegado a hora...

               Ainda mascarado ele tomou o rosto de Eliza em suas mãos, seus lábios não queriam se separar dos dela, mas era preciso. Ele acariciou seu rosto, tocou seu queixo e a fez olhar para ele. Ela viu que a boca dele era linda e seu cabelo castanho claro estava arrepiado. Ele puxou a máscara revelando o seu rosto. E junto com o primeiro raio de sol o rosto de William Darcy se iluminou sob o olhar de Eliza.

-       Você?! Eu não entendo. Achei que você me detestasse...E você parece ser tão metido, tão esnobe? Como pode ser isso?

-       Eliza. Eu te disse... As pessoas falam muito sobre mim, mas poucos me conhecem. Que tal você me conhecer? A única coisa que detestei quando te conheci foi saber que poderia te amar tanto, como nunca havia me permitido sonhar antes... Eu proponho que não nos separemos de hoje em diante...

               Eliza se aproximou de Willian, tocou seu rosto, olhou para seus olhos azuis intensos e se permitiu sentir a paz e a segurança que este contato lhe trazia. ..

-       Que mãos frias... - disse ela ao tocar as mãos de Willian.

              

               O conto acabou

               Mas o sonho ficou

               Obrigada leitor!