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Até o grande dia

Escrito por Duda Bennet Ligado . Publicado em Até o grande dia

Trilha Sonora Sugerida: À Procura de um Par – Lorena Chaves

http://www.youtube.com/watch?v=JIGHyJltHU4

 

               Sim, estava tudo uma correria e ela já não sabia se haveria tempo para dar conta de todos os afazeres. Ainda tinha que encomendar as flores, pagar a banda, fazer a última prova do vestido... Tudo isso em apenas três dias. O arrependimento de ter resolvido cuidar das coisas do casamento praticamente sozinha já tinha começado há dias.

“Vou acabar entrando descabelada na igreja e com o vestido todo amarrotado”, pensava Jane, enquanto encarava a lista de telefones que ainda tinha para ligar.

               Como se isso não bastasse, tinha sua mãe, que rodopiava de um lado para o outro gritando aos quatro cantos do mundo que sua filha iria se casar com um empresário poderoso e rico. E ainda pressionava Jane para que comesse o tempo inteiro, já que, dizia ela, do jeito que a filha ia, o vestido iria vesti-la, e não o contrário.

               Assim, a vontade de Jane era de jogar tudo para o alto e casar-se apenas no civil. “Não sei por que eu tinha esse bendito sonho de ter festa de casamento”, pensava ela.

               Foi com esses pensamentos que seu telefone tocou, e no visor do seu celular logo apareceu a foto do seu amado noivo, Charles Bingley.

-Oi meu amor. Tudo bem? – falou ele, assim que ela atendeu a ligação.

-Oi amor.

-O que houve? Por que você está com essa voz?

-Não houve nada, meu amor. E esse é o problema. Porque eu sinto que as coisas do casamento não ficarão prontas até sábado. Acho que vou enlouquecer.

-Vamos contratar alguém para fazer essas coisas por você. Assim você ficará menos estressada, meu amor.

-Eu já comecei a fazer tudo sozinha, meu bem. Sempre quis cuidar de cada detalhe do meu casamento. E se eu deixar que outra pessoa faça por mim me sentirei extremamente frustrada. Vou dar um jeito. Peço a Lizzy para me ajudar, ou a Lydia... Enfim, vai ter que dar certo.

-Vai dar certo sim, amor. Mas se não der, não se preocupe. Pra mim só importa que você esteja lá no sábado. Se todas as outras coisas faltarem mas você estiver lá, valerá a pena.

-Hum... Mesmo?

-Com certeza. Minha tia Catherine vai reclamar de tudo que sair errado, mas não me importo com ela, e sei que você também não.

-Com ela um pouco, mas me preocuparei muito mais se algo der errado no nosso casamento.

-Não vai dar nada errado, amor. Não precisa se preocupar. Amanhã à noite chego de viagem e ajudo você a resolver o que precisar, combinado?

-Ok. Combinado.

-Agora tenho que desligar, amor. Eu te amo. Até amanhã.

-Eu também te amo. Beijos.

               E assim desligaram. Ela continuou com o celular na mão, olhando para a foto que servia como papel de parede no seu aparelho. Os dois sorriam para a foto, abraçados. Ele tinha um sorriso tão feliz... ela estava com muitas saudades. O fato é que somente de pensar que daqui a 3 dias estariam casados... aquilo tudo valia a pena. E só em pensar que por muito pouco eles quase não se casavam... ou melhor, nem iniciavam nada...

*Flashback*

               A noite era fria, e ela sentia seus ossos tremerem dentro de si. Por mais que ela tentasse conter a ansiedade, não parava de tremer. Mas não era frio o que ela sentia, era a sensação de que algo maior do que ela estava acontecendo e ela não sabia como agir. Resolveu conversar com Lizzy. Se pudesse haver alguma solução para o seu problema, ela com certeza lhe ajudaria a encontra-la.

               Sua irmã estava em seu quarto, deitada na cama lendo um livro e ouvindo música com fones de ouvido.

-Lizzy, Lizzy! Preciso de você!

-O que houve, Jane? Por que você está com essa cara espantada? – perguntou Elizabeth, sentando-se e retirando os fones de ouvido.

-Aconteceu algo terrível. E maravilhoso. Não sei o que dizer, ou o que fazer... Tem tanta coisa passando pela minha cabeça agora, que...

-Calma! Espera! Você vai respirar fundo e me contar tudo o que aconteceu, ok?

-Certo, certo. – respondeu a irmã mais velha, puxando o ar para dentro com tanta força quanto podia, e se preparando para falar. – Charles, hoje, enquanto estávamos com nossos amigos, soltou uma “direta” gigantesca para mim. Tudo isso olhando nos meus olhos, e na frente de todo mundo, inclusive de Caroline.

-Inclusive de Caroline? O que ele disse?

-Estávamos falando sobre relação de homem e mulher, e ele de repente disse exatamente assim: “Discordo que a mulher deva tomar a iniciativa, não gosto disso; mas ela deve dar pelo menos uma abertura ou um sinal para o homem saber o que ela quer”. E disse essa última frase olhando bem dentro dos meus olhos. Todos perceberam.

               O que acontecia é que Jane e Charles eram amigos há quase um ano. Tinham o mesmo grupo de amigos, que não se desgrudavam nos finais de semana, e o fato é que eles se gostavam. Nem sabiam a quanto tempo e muito menos se aquilo algum dia daria certo, mas aquele sentimento só fazia crescer a cada dia.

               Mas no meio dessa meiga provável história de amor havia um problema, que para Jane era muito grande. Caroline, sua melhor amiga, era completamente apaixonada por Charles. Ela, inclusive, já tinha se declarado para ele, que afirmara que o que havia entre eles era só amizade. Porém, ainda assim Caroline insistia em ficar sempre grudada nele, mesmo sabendo que ele estava gostando de Jane e esta dele.

               Assim, Jane se sentia no meio de uma grande Guerra Mundial. De um lado, estava disposta a começar alguma coisa com Charles, para ver se poderia dar certo; e de outro estava sua amiga, a quem não queria decepcionar.

-O que você falou quando ele disse isso? – perguntou Elizabeth.

-Nada! Nem tive coragem. O que faço, Lizzy?

-Acho que você deveria falar com ele, e conversar sobre o que vocês dois estão sentindo.

-E se for um engano e ele não estiver sentindo nada?

-Como ele não está sentindo nada se toda noite manda mensagens para você e te trata diferente de todas as outras garotas?

-Hum... Mas e se ele disser que não está sentindo nada? Eu vou me entregar, dizendo que estou gostando dele?

-Ai, Jane! Você deve se jogar um pouco, não ser medrosa! Faça o seguinte: você diz para ele que notou que ele tem agido diferente com você, que as pessoas têm notado, e pergunta se existe algo a mais por trás disso.

-Hum...

-E quanto a Caroline?

-Caroline vai ter que entender que não há nada entre eles, e que ele gosta mesmo é de você. E ela sabe que ele gosta de você.

-Me sinto culpada por magoá-la.

-Converse com ela também depois e acerte as coisas. Ela entenderá e tudo ficará bem.

-Ok Lizzy. Obrigada.

Assim, tão nervosa quanto na hora em que chegara em casa, Jane mandou uma mensagem para Charles, marcando uma conversa entre eles no dia posterior, mas sem, no entanto, dizer o assunto a ser tratado.

E assim foi. Charles sempre brincava, dizendo que naquele dia Jane tinha lhe colocado na parede, mas a real versão da conversa é a seguinte:

-Charles, já faz algum tempo que eu tenho notado que você tem agido um pouco diferente comigo em relação às outras meninas que são suas amigas, e minhas amigas mais próximas também já perceberam isso. Eu gostaria de saber se realmente existe alguma coisa. – falou Jane, com a voz trêmula, e depois de ter demorado bastante para começar a falar. Estava muito nervosa, nunca lhe acontecera algo do tipo antes.

Ele lhe olhou com uma cara meio espantada pela pergunta que acabara de ouvir, mas respirou um pouco e falou:

-Bom, Jane... Eu realmente tenho te tratado diferente, porque você me chama a atenção, você tem as características da mulher que eu imagino para mim, acho você interessante, linda...

               Somente nesse momento é que Jane percebeu que tinha se preparado para dizer um milhão de coisas naquela conversa, mas que não tinha se preparado para a resposta que Charles lhe daria. Talvez quisesse que ele lhe dissesse que ela estava enganada, que eles não tinham nada a ver... Mas e agora?

               Praticamente gaguejando, ela respondeu a ele, dizendo que também o achava interessante, e que sentia o mesmo por ele. Seus corações batiam forte e rapidamente de tanta felicidade e ansiedade. A boca dela estava seca.

-Mas e quanto a Caroline? Você sabe que ela gosta de você, e sendo minha amiga... – perguntou ela.

-Nós conversamos com ela e explicamos a situação. Ela vai entender.

               Ela não entendeu. Ficou com raiva de Charles e Jane e deixou de falar com os dois. Jane sofreu muito com a perda, já que elas eram muito próximas. Mas entendeu a posição da amiga e resolveu tentar ver no que daria o relacionamento mesmo assim, já que gostava muito de Charles e eles estavam se entendendo muito bem.

               Lembrou-se de quando eles começaram a falar em casamento, depois de alguns poucos meses de namoro.

-Eu te amo demais, sabia? Queria passar com você todos os dias da minha vida. – falou ele, olhando para ela com tanto amor que não cabia num só olhar.

-Eu também te amo, Charles. Você é o melhor namorado do mundo. – respondeu ela, sorrindo e depositando um beijo apaixonado nos lábios dele. Amava-o loucamente, como jamais pensara que amaria alguém em toda a sua vida. Ele era o melhor presente que ela já tinha recebido.

-Vou ser um marido melhor ainda para você. Quero te fazer a mulher mais feliz todos os dias, meu amor. Quer se casar comigo?

               Com uma grata surpresa ela olhou espantada para ele.

-Claro que sim, meu amor.

-Eu estou falando sério, amor.

-Como assim? Você está mesmo falando sério?

-Você não quer se casar comigo? Pode estar cedo, eu sei, mas...

-Não, não. Tudo o que eu quero é me casar com você. – falou ela, sorrindo, e radiante de alegria. Sabia que ele era o homem da sua vida e que com ele queria ficar pro resto da sua existência.

               Beijaram-se assim, selando esse compromisso de felicidade. Fazia apenas seis meses que haviam começado a namorar, ele pediu sua mão em casamento e ela aceitou.

               Mas o fato era que nem tudo tinha sido flores no relacionamento dos dois. Eles tinham superado juntos o problema com Caroline no início do relacionamento, a perda do pai de Charles, que controlava todas as finanças da família – encargo que agora era deste -, a família de Jane, que sempre dava opiniões demais no relacionamento dos dois...

               Enfim, o importante era que eles haviam conseguido passar ilesos por todas essas coisas. Além de mais maduros e convencidos do que sentiam um pelo outro.

               Pensando nessas coisas, ela terminou de fazer algumas ligações e resolver umas coisas para o casamento. Sentia-se exausta. Tinha pedido férias do trabalho há uma semana, mas estava ainda mais cansada. Precisava descansar um pouco, então se deitou e finalmente adormeceu.

Trilha Sonora Sugerida: O Amor que eu Quero – Lorena Chaves

http://www.youtube.com/watch?v=du9v3Gd9SX8

               No dia seguinte, acordou com o som de uma voz conhecida, e logo abriu um sorriso quando percebeu de quem se tratava.

-Bom dia, meu amor. Vim te acordar. Er... na verdade eu não queria acordar você, sei que está muito cansada, mas eu gostaria de ser a primeira pessoa que você visse hoje. E gostaria também de trazer seu café da manhã. – disse ele, sentando-se à beira da cama dela e sorrindo.

-Bom dia, meu amor. Melhor do que dormir é ter você aqui comigo. Eu estava morrendo de saudades. – respondeu ela, sentando-se como podia e abraçando-o o mais forte que conseguia. – Mas você não só iria voltar à noite?

-Consegui resolver o que era necessário e peguei o primeiro voo disponível pra te ver e te ajudar.

               Feliz, ela sorriu para ele e novamente o abraçou, como querendo matar toda a saudade que sentia em apertá-lo nos seus braços.

-Eu te amo. – disse ele.

-Eu também te amo.

               Assim, eles tomaram juntos o café da manhã, e logo começaram a resolver o que faltava para o casamento.

               O fato é que o estado natural deles era de fofura eterna. Sempre se tratavam com tanto amor, carinho e ternura que as pessoas ao seu redor se perguntavam se alguma vez eles já haviam brigado. Sim, brigavam como qualquer outro casal, mas a certeza de que não havia algo melhor do que estarem juntos os fazia prosseguir amando e perdoando um ao outro.

              

               Esse era o motivo principal pelo qual estavam casando. Queriam ficar juntos sempre e para sempre, tinham imenso prazer na companhia um do outro e, o principal: eram melhores amigos. Tinham muito em comum, adoravam conversar um com o outro e o simples fato de se separarem por alguns dias já tornava a saudade demasiadamente grande.

               E assim se passaram os dias anteriores ao casamento. Enfim Jane se sentiu menos sobrecarregada com a ajuda e calma de Charles, que resolvia tudo de bom humor; e as coisas tomaram o rumo que deveriam tomar. Os últimos ajustes foram feitos e então chegou o grande dia.

               Ansiedade era o nome de Charles naquele momento. Já estava esperando Jane do outro lado da nave da igreja, ao lado do pastor que celebraria o seu casamento e na frente de tantos de seus amigos e familiares. Para ele, parecia que fazia uns quarenta minutos que esperava sua noiva chegar; entretanto, segundo a cerimonialista, há apenas dez minutos ele havia entrado na igreja.

               E sua agonia só aumentava. Seu melhor amigo, William Darcy, enquanto esperava a chegada da irmã mais velha da noiva, Elizabeth, que era a madrinha, tentava acalmá-lo, afirmando que Jane jamais lhe abandonaria no altar, e que provavelmente já estava chegando. Além disso, sua mãe jamais lhe deixaria desistir de um casamento tão lucrativo quanto aquele, mas é claro que William não iria dizer aquilo a Charles – não naquele momento.

              

               Mas após alguns minutos, as portas foram fechadas, a música começou a soar. O pobre Charles não sabia o que fazer, ali parado, cada músculo do seu corpo parecia que havia contraído.

As portas se abriram. E lá estava ela. Como poderia estar mais bonita? Era possível ela estar ainda mais linda?

Sorridente, o Sr. Bennet trazia sua filha pelo braço enquanto sua esposa chorava copiosamente no altar. E Jane sorria para todos, emocionada por aquele dia finalmente ter chegado, e por ele estar ali, lhe esperando, com aquela linda carinha nervosa e quase chorona. Naquele momento ela teve certeza, mais do que nunca, de que o amaria para o resto de sua vida. Intensamente, apaixonadamente, infinitamente.

Quando chegou ao altar, e seu pai lhe deu um beijo carinhoso na testa enquanto tentava disfarçar uma lágrima, ele entrelaçou sua mão na dela e sorriu. “Você está linda demais”, disse.

               Eles sorriram um para o outro com lágrimas nos olhos, agradecidos por terem encontrado o amor de suas vidas, ansiosos para começar a nova vida juntos, sonhando com o que estaria por vir. E seria muito bom. Muito bom...

S2 FIM S2