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Um Darcy no Brasil

Escrito por Márcia Leite Ligado . Publicado em Um Darcy no Brasil

 

            James William Darcy admirava do alto do morro de São Bento a vista do porto do Rio de Janeiro. Sua esposa rira da ansiedade em aguardar o paquete que chegava de Liverpool, mas não se importara. Aquele era um grande momento, um dos melhores nos últimos quinze anos.

            A brisa morna da primavera trazia o cheiro do mar e os sons do porto lá embaixo.

            Lembrou-se de sua chegada, não nos modernos navios a vapor que vinham de Liverpool, mas no Intrepid, um navio a vela. Tinha vinte e dois anos e acabara de ser nomeado como assistente comercial na embaixada inglesa. O Brasil lhe parecera na ocasião o portal para uma brilhante carreira diplomática no Império Britânico. Deixara a Inglaterra sonhando em retornar coberto de honras, um motivo de orgulho para seu pai. Charis, sua jovem e bela esposa, possuía a mesma ambição que ele e nem os dois meses de viagem, nem o desconhecido país sul-americano diminuíram as esperanças dos dois.

            Ingênuos... Como éramos ingênuos...

            Quando chegaram ao Brasil em 1841, um jovem e novo monarca, Dom Pedro II, trazia a esperança de um moderno futuro para o imenso país. Charis ficara encantada com tudo na nova terra. O calor que a forçava a usar roupas leves e que revelavam mais seu belo corpo, as comidas de sabor forte que a estimulavam, a cor das alegres crianças que a cercavam a todo o momento... Bem diferente dele.

            James detestara o calor, abominava o tempero picante dos pratos locais e a excessiva intimidade dos brasileiros. Reclamara com Charis que eles gostavam de tocar. Não se limitavam a um civilizado cumprimento com a cabeça, pelo contrário, apertavam sua mão, davam-lhe tapinhas nas costas e chegavam até a abraçá-lo!

            A pessoa que mais evitava e que, aparentemente não notava isso, era o seu intérprete, Herculano Firmino. O gorducho carioca insistia em abraçá-lo, trazer-lhe frutas exóticas e envolvê-lo com sua família e amigos. Os brasileiros o irritavam!

            Ainda assim, tornou-se o funcionário mais dedicado da embaixada inglesa. Era confiável e jamais se esquecia de onde viera, quem era. Contratara um ex-marinheiro irlandês, Paul Whisley, para cozinhar e o homem fazia milagres em servir um prato o mais parecido possível aos da sua terra. Usava suas casacas feitas em Londres em todos os compromissos oficiais. Jamais deixara a educação formal que recebera em Oxford, porém ninguém poderia acusá-lo de ser indelicado ou pouco cavalheiresco. Aquilo aprendera de seus pais: Fitzwilliam e Elizabeth Darcy de Pemberley.

            Rindo, Charis lhe contara do apelido que recebera na própria embaixada: O Lorde.

            Charis, a meiga e sorridente Charis... Para ela tudo não passava de alegria e diversão. Nem mesmo quando percebeu que não havia sinais de bebês em sua vida perdeu aquela alegre volubilidade. Sua mãe sempre dizia que a esposa herdara o pouco compromisso com a realidade de sua mãe, sua tia Caroline Foy, irmã de seu tio Charles Bingley.

            Mas nem mesmo todo o otimismo e alegria de Charis pôde evitar a doença que chegara nos navios europeus.

            Em menos de um mês centenas de pessoas foram levadas pela cólera. A doença levou a muitos: Ricos e pobres, livres ou escravos, em todas as casas havia luto.

            Entre eles sua doce Charis.

            Então James pôde abertamente odiar o Brasil. Odiou o ímpeto e ambição que o levaram até aquela terra, odiou o calor infernal, odiou os risos e música, odiou tudo! Enterrou sua esposa e com ela, todos os seus sonhos.

            Enfurnou-se numa chácara na Tijuca, acompanhado apenas de seu cozinheiro. Não recebia visitas e sequer lia os bilhetes preocupados que chegavam da embaixada. Permanecia horas deitado na varanda, apenas olhando sem realmente ver a floresta que o cercava. Tudo o que desejava era que o embaixador o liberasse do seu serviço para voltar para a Inglaterra. Precisava da firmeza do pai, do carinho da mãe, da tranquila rotina inglesa... Queria esquecer aquele país e toda a desgraça que trouxera com ele.

            Foi então que o roliço Herculano reapareceu. Ignorando a boa educação que o faria esperar um convite, foi até a chácara e invadiu a sua vida.

            Nem toda sua formalidade britânica impediu o senhor Firmino de chegar acompanhado da esposa, Aurélia, e um par de escravos. Sob as ordens da esposa, o forte Pedro e a sorridente Eulália arregaçaram as mangas: o casebre foi varrido, os móveis lustrados e toda a roupa de cama arejada e as suas lavadas. O pobre Paul teve sua culinária totalmente reformulada. No lugar do chá, pão branco e mingau de aveia para o desjejum, Eulália ensinou a servir café, bolos, frutas e um quente mingau de fubá. O almoço e o jantar eram sempre uma surpresa para os seus sentidos. Peixes, carne de porco e galetos servidos com temperos e verduras colhidos no próprio quintal.

            No inicio tentou reagir, mas o que era sua tristeza e fraqueza física contra quatro brasileiros e um irlandês convertido à brasilidade?

            Herculano vinha todas as tardes ver como estava e logo a presença de Pedro e Eulália já não era necessária. Paul se tornara um autêntico criado brasileiro. E ele? Bem, na ausência dos pais, dava graças a Deus pelo cuidado do casal Firmino.

            Dois meses depois da morte da esposa, estava de volta ao serviço. No lugar das pesadas roupas, usava calças e casacas feitas de tecido leve. Abandonou o frio cumprimento por um, íntimo no seu entender, aperto de mão. Ouvia com interesse as histórias de seus conterrâneos de como amavam aquela nova terra, de como o Brasil e sua gente mudaram seus contidos hábitos ingleses... E mudou-se do prédio da embaixada para uma casinha próxima à família Firmino. Assim, o terceiro ano longe da Inglaterra se passou.

            E foi quando o Brasil o surpreendeu.

            No início da primavera, Herculano convidara a vários funcionários da embaixada para o casamento da filha mais velha, Januária. James compareceu à sua primeira festa brasileira.

            Assistiu aos ritos católicos com atenção e procurou acompanhar o máximo possível o animado grupo durante os festejos. Herculano o apresentou a várias pessoas, contudo o seu conhecimento da língua portuguesa pouco ia além dos cumprimentos e agradecimentos.

            Num momento da festa, tentava decidir se gostava ou não de doce de abóbora quando uma voz feminina falando em inglês o pegou de surpresa.

            - Senhor Darcy?

            Virou-se para encontrar uma jovem de pele bronzeada e olhos escuros.

            - Perdoe-me a intromissão. – A jovem pronunciava as palavras com um leve sotaque. –Meu pai pediu que lhe fizesse companhia.

            A jovem pequenina fez um trejeito com a cabeça como cumprimento.

            - Sou Isabel Firmino.

            James ficou um momento sem saber o que fazer. Sua boca estava cheia do doce, que decidira adorar, e suas mãos ocupadas com a colher e o prato. Devolveu o cumprimento, tentando engolir rapidamente o doce.

            - Papai disse-me que está aprendendo nossa língua.

            James sentiu uma dormência na língua quando mordeu alguns cravos e desviou o rosto, tentando evitar que a moça percebesse o quanto estava atrapalhado. A jovem esperava sua resposta.

            James engoliu os cravos picantes e olhou ao redor, procurando um guardanapo. Encontrou um e limpou os lábios.

            - Hã... Sim. É um prazer, senhorita... Senhorita... – Céus, esquecera seu nome!

            - Isabel.

            A jovem o encarou com um olhar nada tímido. Parecia-se mais ao do irmão mais velho quando o irritava.

            - Sim, Isabel. Isso. É uma honra, senhorita. – Falou finalmente, porém a jovem dama repetiu o cumprimento discreto e se afastou dele.

            James ficou surpreso com a indelicadeza da moça. Afinal, não tinha culpa se aquele bendito doce o impedira de cumprimentá-la decentemente!

            Viu-a atravessar o salão e sentar ao lado de outras moças. Percebeu que ela comentara algo e as outras olharam em sua direção. Arqueou a sobrancelha quando Isabel cobriu os lábios com o leque. Estava rindo dele!

            Inspirou profundamente, ajeitou a casaca e voltou ao seu profundo estudo dos doces brasileiros. Observou um feio doce de batata doce e encheu o prato com ele, decidido a ignorar a pouco educada brasileira.

            Do outro lado do salão Isabel observava o sisudo inglês. Desde que voltara da escola em São Paulo o pai só falara de James Darcy. De como era inteligente, o quanto sofrera com a morte da jovem esposa, de como ele e sua mãe praticamente o trouxeram de volta a vida... Logo passou a imaginar o rapaz como um sofrido aristocrata inglês, como os poetas que acompanhava pelos jornais diários.

             Viu-o alguns dias antes no Paço Imperial quando voltavam de tílburi da missa. Ele carregava uma pasta repleta de papéis e um negro livre o acompanhava. Admirou a altura, o porte ereto, o olhar altivo e as faces coradas pelo calor do Rio de Janeiro. Sua mãe lhe dissera que era contra a escravidão e somente tinha às suas ordens negros livres. Aquilo o tornou mais do que um romântico. James Darcy passou a ser seu ideal de homem.

            Com a desculpa de que o pai pedira que o acompanhasse, Isabel decidiu que era sua chance de fazê-lo perceber sua existência. Entretanto, a má vontade que o jovem inglês demonstrou em ao menos cumprimentá-la agiu como um balde de água fria em seu interesse. E sequer prestara atenção ao seu nome!

            Voltou para junto das amigas com o orgulho ferido.

            - Então, Isabel, que tal o inglês galante? – Perguntou-lhe sua amiga Carlota.

            - Intragável!

            As moças riram e ela passou o restante da festa fingindo ignorá-lo.

            James não esqueceu o comportamento da bela brasileira. Nem tinha como. Passava pelo menos duas vezes ao dia diante da porta dos Firmino e, por uma irritante decisão do destino, via a jovem Firmino todas as vezes.

            Pela manhã a via no jardim colhendo flores ou simplesmente caminhando entre os canteiros floridos. À tardinha, Isabel sentava-se à varanda com sua mãe e algumas amigas. Cumprimentava-a fugazmente pela manhã, mas à tarde a senhora Firmino insistia em trocar uma ou duas palavras com ele. E nessas ocasiões não ignorava o fingido desinteresse da moça. Chegou a vê-la rir e torcer o nariz para ele uma vez!

            Se não fosse a bondade de seus pais, daria à petulante jovenzinha uma resposta à altura.

            Isabel se decidira a esquecer do sisudo inglês. Sabia que de poeta romântico ele nada tinha, pelo contrário. O pai vivia elogiando a correção e inflexibilidade do rapaz no serviço. Dizia que até  o embaixador inglês temia quebrar protocolos quando o jovem Darcy estava presente. Na sua opinião, ele não passava de um pedante europeu!

            Entretanto, algo mais forte do que ela a fazia passear no jardim no momento em que ele passaria por ali. Somente voltava para casa após ver sua magra silhueta desaparecer alameda abaixo. À tardinha, gostava de ouvir suas tentativas de dialogar em português com sua mãe. Um dia achara tão melodiosa a voz gutural pronunciando um agradecimento que chegara a sorrir, virando o rosto quando ele a olhara.

            Carlota um dia lhe chamara a atenção.

            - Isabel, creio que logo outros perceberão a péssima impressão que tem do senhor Darcy...

            - Como assim, Carlota? – Perguntou, já sabendo a resposta.

            - Minha querida, você não disfarça o quanto ele lhe desagrada.

            Isabel ficara pensando naquilo. Se Carlota soubesse... Como explicar que na verdade ansiava por vê-lo, por ouvir sua voz? Como explicar o quanto lhe doía o desinteresse do senhor Darcy? Era melhor que pensassem que o desprezava.

            - Ora, Carlota... Deixem que pensem o que quiserem. Vamos passear na praia? Preciso estrear minha sombrinha nova.

             Naquela tarde James decidiu encerrar o trabalho mais cedo. Recebera uma carta de Pemberley e as novidades familiares apenas lhe aumentavam a solidão. Charis partira há mais de um ano e ao retornar ao convívio social notara o quanto sentia falta do sorriso dela, das conversas na penumbra, da palavra animadora quando voltava do trabalho... Nem mesmo o trabalho que levava para casa o distraía de que não havia ninguém para ouvi-lo, ninguém que conhecesse além do metódico e eficiente senhor Darcy.

            As distrações que os bailes e noitadas lhe ofereciam duravam muito pouco. Apesar do sucesso que alcançava na carreira diplomática, se via cada vez mais pensando em retornar à Inglaterra.

            A brisa marítima desviou seus passos para a praia. Chegaria suado e com areia no calçado, mas precisava espairecer sua mente.

            A prainha estava deserta e, num raro impulso, tirou os sapatos e a casaca e caminhou sobre a areia molhada, deixando as ondas suaves lamberem seus pés. Estava perdido em admirar o ir e vir incansável das ondas quando algo bateu em sua cabeça. Levou um susto e se abaixou, pensando ser uma gaivota. À sua frente uma sombrinha colorida rolava pela areia!

            Confuso, levou um momento para perceber os gritinhos atrás de si. Voltou-se e viu duas jovens agitando os braços, enquanto uma menina negra corria em sua direção. Uma lufada mais forte fez a sombrinha voar e a menina gritar. Quando viu, corria atrás da menina e agarrava a sombrinha que cairia no mar.

            A pequena escrava sorriu para ele e, sem agradecer, correu com a sombrinha em direção às  moças.

            Suado, descabelado, com as roupas bagunçadas e agora molhado, James conteve um gemido ao ver quem recebia a sombrinha das mãos da escreva: Isabel Firmino! 

            Isabel caminhava de braços dados com Carlota. A pequena Natalina saltitava ao redor das duas, enquanto Carlota comentava sobre os últimos poemas publicados no seu folhetim preferido.

            Isabel não a escutava realmente. Na verdade, a brisa morna despertava em seu coração uma angústia fina, um desejo por algo desconhecido, uma solidão estranha. Sempre diante desses sentimentos, surgia um rosto pálido, uma voz grave que, sabia, era a resposta para esses sentimentos.

            Quando sua sombrinha nova escapuliu dos seus braços, ela e Carlota gritaram animadamente e Natalina correu atrás do objeto. Viram um homem caminhando pela praia e gritaram quando a sombrinha se chocou contra ele. Rindo muito, ela e Carlota acenaram para o pobre transeunte que se pôs a caçar o colorido objeto com Natalina.

            Ainda havia um sorriso em seus lábios quando percebeu quem era o homem. Seu coração deu um salto.

            O rígido, empertigado e esnobe James Darcy caminhava pela praia não como o jovem aristocrata que era, mas como um satisfeito pescador. Suas calças estavam dobradas e estava descalço! Isabel pôde ver as suas panturrilhas e desviou os olhos para seu rosto. Mordeu os lábios ao perceber que cometera um erro.

            Corado pelo sol da tarde, o rosto do senhor Darcy resplandecia. Os lábios se destacavam, vermelhos, e os olhos brilhavam. Os cabelos negros desarrumados ajudavam a lhe dar aquele ar de poeta romântico que um dia Isabel pensara ter. Estava lindo!

            Ele caminhou hesitantemente em sua direção

            - Senhorita Isabel! Senhorita Carlota! – James começou no seu trôpego português. – Que surpresa!

            Carlota abaixou os olhos recatadamente, porém Isabel não conseguiu desviar os seus.

            - A surpresa é minha, senhor Darcy. - Respondeu em inglês.

            - Eu... Hã... Bem... – Encarou-a. Não devia nenhuma explicação à petulante moça! – Estou caminhando.

            Isabel não pôde conter um sorriso.

            - É o que percebo. - Replicou, observando-o.

            James pensou em sua triste figura e admirou o vestido claro que destacava o tom moreno na pele dela.

            - Obrigada por capturar minha sombrinha.

            Ele notou o divertimento em sua voz.

            - Capturar de fato. Pensei se tratar de um ataque de gaivotas enfurecidas.

            Isabel riu e a risada cristalina o contagiou. Estavam num momento realmente incomum!

            Carlota pigarreou, constrangida.

            -Talvez seja melhor voltarmos.

            - Ah, certamente. – Isabel respondeu. Admirou novamente o constrangido inglês. – Estamos de tílburi, senhor Darcy. Gostaria de nos acompanhar?

            James pensou que nada seria mais agradável na tarde solitária.

            - Não, obrigado. Eu sujaria todo o estofado.

            - Não seria nenhum incômodo.

            James relutou um pouco, dando diversas desculpas, contudo no final concordou em ir sentado na frente, com o condutor.

            Carlota acompanhava o diálogo, ainda que não entendesse tudo. De repente lembrou-se da ojeriza estranha que a amiga demonstrava pelo senhor Darcy, do olhar sempre assustadiço do homem quando encontrava Isabel... Disfarçou um sorriso. Como não notara como um parecia incomodar tanto o outro? Pensou no livro que Isabel ganhara. Como era mesmo o título? Ah, sim. Pride and Prejudice. Talvez não fosse apenas coincidência que os protagonistas se chamassem Darcy e Elizabeth... Sorriu sozinha. Aquela história prometia!

            

             Dia a dia James esquecia as saudades de casa. Antes se sentia muito solitário na sua casinha. Agora, dificilmente passavam muitas noites sem que recebesse um convite para jantar com os Firmino e, quando tinha compromissos com a embaixada, passava após a ceia para trocar uma ou duas palavras com a família. Na verdade, com Isabel. A companhia da bela brasileira tornava seus dias mais excitantes.

           Depois do encontro inusitado na praia, a jovem mudara consideravelmente sua atitude com ele. Não que houvesse abandonado aquele olhar direto e o tom petulante na voz, porém sempre tinham algum assunto para conversar e, ocasionalmente, discordar.

          Em diversas ocasiões, dona Aurélia precisara encerrar a discussão forçando os jovens a participar da conversação em grupo. James saíra diversas noites aborrecido da casa dos Firmino. Considerava inaceitável o comportamento arrojado e independente de Isabel. Na sua opinião, chegava a ofender o decoro. O seu, principalmente.

           Mas não se lembrava do decoro quando ela se inclinava sobre ele para ler um trecho num livro que lhe mostrava, ou quando se apoiava em seu braço nas caminhadas, sem se importar aparentemente com o seio roçando nele. E como era terrível quando percebia que os olhos dela acompanhavam os movimentos de seus lábios enquanto praticava sua pronúncia do português. E discordava dele em quase tudo, sempre discordava! Isabel o mantinha em constante alvoroço.

          Prometia a si mesmo que ficaria um longo tempo sem aparecer, que recusaria os convites de dona Aurélia e aqueles implícitos no olhar de Isabel. Mas no dia seguinte lá estava caminhando devagar à frente da casa e voltando os passos quando ela surgia no jardim!

         O Natal se aproximava e com ele a esperança de rever seus pais. O embaixador o recompensara com a viagem e um período de licença na Inglaterra. Ficara tão feliz que o senhor Firmino organizou uma festa para celebrar sua viagem e seu aniversário. Afinal, não passaria as festas no Brasil.

           Na noite da festa, pouco mais de uma semana antes de viajar, viu-se ajeitando a gravata diante do espelho. No Natal completaria vinte e seis anos. Três longe da Inglaterra. Sentia muita falta de Pemberley, da família, da cultura inglesa, entretanto sabia que não era mais aquele arrogante rapazinho que chegara ao Brasil disposto a vencer na vida. Queria mais do que uma posição invejável ou de fortuna própria... Mas, o que queria mesmo? No momento em que se fez a pergunta, um par de olhos escuros atravessou sua mente.

           Terminou de se vestir e caminhou vagarosamente até a residência dos seus amigos mais queridos. A brisa noturna trazia a maresia misturada ao aroma das flores. Sentia-se acalorado, não por causa das roupas, mas por um pensamento que o incomodava. Logo partiria e ficaria meses sem rever... seus amigos. Sim, era dos amigos que sentiria tanta falta. Dos amigos.

           Entrou na casa toda iluminada por lamparinas. Até o jardim encontrava-se iluminado por archotes que se espalhavam deixando ver as cores brilhantes das flores exóticas.

           Foi recebido com alegria pelos amigos brasileiros. Nada foi deixado de lado. Serviram seus pratos preferidos da culinária brasileira e o delicioso doce de abóbora com queijo mineiro, seu predileto. Um trio de violeiros animava a noite com as canções brasileiras que mais gostava e, mais tarde, dançaram no jardim iluminado.

           Tudo estaria perfeito se não fosse a indiferença de Isabel.

         A moça o cumprimentara educadamente quando chegara e esse fora todo o contato que tiveram. Isabel sequer o olhara. Nem nos brindes durante o jantar, nem enquanto o senhor Firmino narrava como sua amizade começara, nem enquanto acompanhavam os cânticos animados.

          Quando ficou ao lado dos Firmino para despedir-se dos convidados, Isabel desaparecera. Sem cumprimentá-lo.

         Voltou para casa dizendo a si mesmo que não se importaria mais com os caprichos da brasileirinha que fazia questão de constrangê-lo, com ou sem público! Partiria sem sequer enviar-lhe um cartão, faria isso, sim. Isabel era uma criança pirracenta, uma jovem arrogante e egoísta! Afinal, lembrava-se muito bem da noite que dera a notícia de sua viagem e de como ela se retirara da sala sem nem mesmo cumprimentá-lo. Como naquela noite.

         Desfazia o nó da gravata quando algo chamou sua atenção. Isabel estava estranha com ele desde que contara da sua viagem. Será que... Não. Ela não poderia estar aborrecida com sua ausência, poderia?

         O olhar provocante da jovem cruzou novamente sua mente. Seria para ela mais do que um amigo, alguém com quem podia compartilhar seus pensamentos arrojados?

         Tornou a se sentir acalorado. Jogou longe a gravata e o colete e se pôs à janela, admirando a noite estrelada. Lembrou de cada momento ao lado da moça. O mal entendido no dia em que se conheceram, o encontro na praia, as longas conversas, os passeios... E agora ela simplesmente o ignorava. Impossível!

         Olhou para o último baú de viagem ainda aberto para guardar seus pertences pessoais antes de despachar para o porto. Viu seus livros mais queridos e, entre eles, o livro que a senhorita Austen escrevera sobre seus pais. Fora realmente um romance digno de ser escrito. E ele? Teria ainda a chance de amar como eles amaram?

         Inquieto saiu para a noite fresca. Lá no início da alameda podia ver a grande casa de Herculano. As luzes já estavam apagadas, mas desejou que a família estivesse acordada. Assim, poderia inventaria um motivo para voltar à casa e interpelar Isabel. Ela lhe devia uma explicação, não?

         Sem perceber, desceu a rua, aspirando o ar perfumado da noite. Ainda sem se dar conta, chegou até a casa dos Firmino e abriu o portão. Adentrou ao jardim e ficou parado em meio aos arbustos floridos, finalmente sem saber o que fazer. O perfume do jasmim lhe lembrou ao que Isabel rescendia. Arrancou uma flor do arbusto e aspirou profundamente. Ela era como aquele aroma: penetrante, sedutor...

         - O que esta fazendo aqui? - A voz feminina o pegou de surpresa.

        Isabel não conseguira dormir. Revirava-se na cama, pensando em James. Ele logo partiria e ficaria meses sem vê-lo. Voltaria para sua amada Inglaterra, para as frias colinas e, muito provavelmente, encontraria outra jovem inglesa de bochechas coradas e sorriso tímido. Como ele estava feliz quando contara a novidade! Sequer notara como ficara abalada...

        Cansada de revirar na cama, levantou-se e pé ante pé saiu para o jardim. A noite estava linda, estrelada e a brisa fresca trazia os aromas do mar e das flores. Estava descalça e a terra fria lhe causou um arrepio. Caminhou na direção do seu canteiro favorito, o com jasmineiros.

        Parou, espantada com o vulto que se inclinava sobre um arbusto. Aquele não era... Não, não podia ser! Talvez ainda estivesse em sua cama e aquilo não passasse de um sonho.

        Aproximou-se sorrateiramente e distinguiu melhor o vulto. Sim, aquele era James Darcy! Mas o que fazia ali? E àquela hora?

          - O que está fazendo aqui? – Perguntou.

       James se virou em direção à voz. Piscou os olhos com força, imaginando ver uma miragem. Isabel estava à sua frente, o luar fazendo sua camisola fulgurar na noite fragrante. Seus cabelos estavam soltos e, para seu deleite, podia ver os pés livres sob o solo.

          - Eu... O que você faz aqui fora a essa hora?

          - Este é o meu jardim, senhor Darcy. Sua presença é que é estranha.

          James realmente não sabia o que dizer. Como explicar a ansiedade que o movera até ali?

         - Você me viu entrando? Por isso está aqui?

         - Não, não vi até agora. Eu... – Isabel sentiu seu rosto esquentar. - Estava sem sono.

         - Por quê?

      Ele deu um passo em sua direção e distinguiu melhor seu rosto. Os brilhantes olhos escuros pareciam confusos.

          - Por que, Isabel? –Insistiu.

       A moça ergueu o queixo, desafiadora, mas não respondeu. James deu mais um passo e notou a respiração acelerada que fazia seus seios moverem-se sob o tecido fino da camisola.

         - E por que veio, James?

       Era a primeira vez que se tratavam pelos primeiros nomes, porém James não se deu conta. Sentia uma necessidade irresistível de se aproximar dela, tocá-la...

         - Imaginei que estivesse aborrecida comigo. Apenas me cumprimentou... – Reclamou, parando a poucos centímetros dela.

         - Eu... Não estou aborrecida. –Replicou, sentindo um arrepio quando ele tocou seus cabelos.

        - Imaginei que estivesse... - Enroscou o dedo numa mecha dos cabelos negros. - Senti... Eu sinto muito sua falta.

        - Sente? - Isabel estremeceu quando ele a segurou pelos ombros. – Mas parece tão ansioso em partir! Ficará meses ausente. Isso é... Se voltar.

       James reconhecia o inusitado daquele momento. Ele, um cavalheiro inglês, abraçando uma donzela brasileira ao ar livre em plena madrugada! Porém, o corpo quente e cheiroso de Isabel parecia atraí-lo.

         - Acredita realmente que não voltarei?

        Isabel não sabia no que acreditar.

        - Você vive falando da Inglaterra, da falta que sente de seus pais...

         - Contudo, jamais disse que pretendia abandonar o Brasil agora.

        Ela o encarou, magoada.

       - Vê? Não pretende agora, mas em breve desejará voltar para sua pátria, sua família.... E casará com uma dama inglesa.

      Ele não sorriu com o comentário dela. Seu peito encostou-se ao dela e sentiu as batidas fortes do seu coração.

         - Não desejo uma dama inglesa.

        - Deseja, sim. – Isabel mal reconhecia a própria voz que mostrava que estava à beira das lágrimas. – Não é o que pensa? Que as damas inglesas são gentis e educadas? E não debatem com cavalheiros e nem os irritam e...

      James inclinou a cabeça e fez o impensável. Esqueceu-se que era um gentleman, esqueceu-se da confiança de Herculano e tomou os lábios de Isabel.

      Ela se sobressaltou no início, porém no momento seguinte cercou seu pescoço com os braços, trazendo-o para mais perto de si. James gemeu quando ela abriu os lábios para ele e o calor e doçura de sua boca o atingiram como um soco. Sentiu-se zonzo.

      Por instantes ouviam-se apenas os sons da noite. Os grilos cantavam disputando com o farfalhar das árvores, a brisa tornava o ar ao redor deles uma explosão de aromas, mas James sentia apenas o dela.

     Não soube explicar mais tarde como conseguira se afastar de Isabel e de onde surgira a coragem de confessar o seu amor não apenas a ela, mas a um espantado Herculano que o ouvia ainda com o camisolão de dormir e de chinelas.

     Sob os olhares espantados de amigos ingleses e brasileiros, casaram-se na véspera da partida para a Inglaterra. Isabel fizera questão apenas de uma vontade: Que passassem sua noite de núpcias no Brasil.

     E foi na chácara da Tijuca onde amargara sua viuvez que ele recebeu sua nova esposa. Sua amada.

     Isabel se entregou a ele da mesma forma que se tornara sua amiga. Sem timidez, audaciosamente. James não se surpreendeu com a paixão da esposa. Na verdade, esperava por ela. Sabia que Isabel seria assim, como o Brasil.

     Sua viagem de lua de mel foi para conhecer seus pais. Elizabeth e Fitzwilliam tiveram apenas uma carta com poucos dias de antecedência para prepará-los para a novidade, mas foi com uma grata surpresa que receberam a decidida Isabel em Pemberley. Todos os Darcy se reuniram para dar as boas vindas a esposa do caçula e nem mesmo o desprezo de sua ex-sogra diminuiu a satisfação de James. Com toda arrogância e mesquinhez, a atitude de Caroline não causou estranheza, afinal Charis fora sua filha.

     Quando retornaram para o Brasil, Isabel e James levaram de Pemberley a melhor lembrança que poderiam. Isabel concebera em terras inglesas o seu primeiro filho.

     Agora, admirando o moderno vapor inglês que adentrava a baía da Guanabara, James se preparava para receber a visita de seu irmão do meio, Frank. Frank viera conhecer a nova empresa da família, a Importadora Darcy and Sons. Pouco antes de morrer, Fitzwilliam encarregara Frank de auxiliar James no novo empreendimento.

         - Pai, não vamos descer?

        James abaixou os olhos e admirou o filho. Edward acabara de completar onze anos e era o primeiro Darcy nascido em solo brasileiro. Os olhos e cabelos escuros o tornavam muito semelhante ao avô, porém era na firmeza de caráter e no forte temperamento que o pequeno mostrava que era um Darcy.

         Sorriu. Possuía uma esposa por quem se mantinha apaixonado, filhos adoráveis e um futuro promissor no país que adotara como seu. Na carta que recebera da mãe comunicando a morte do pai, Elizabeth lhe assegurara que a mão de Deus estaria sobre ele e sua família para sempre.

          - Vamos, filho. Seu tio está ansioso por revê-lo.

       Segurando firmemente a mão do Darcy brasileiro, James desceu em direção ao porto. Sim, a Mão Invisível de Deus o guiaria e cuidaria de todas as gerações Darcy. Sempre haveria um ser para lembrar da rica e maravilhosa história de amor de Lizzie Bennet e Fitzwilliam Darcy.