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Cerejeiras em Flor

Escrito por Helena Sanada Ligado . Publicado em Cerejeiras em Flor

Cerejeiras em flor

 

As flores das cerejeiras representam para os japoneses a celebração da beleza, da impermanência e do renascimento, pois invariavelmente a cada ano após o rigoroso inverno no início da primavera, elas voltam a florescer gloriosamente por todo o Japão.

 

Londres

 

A empregada, após bater levemente à porta, entrou no quarto de Lizzy. Porém, ao ver o aposento mergulhado no escuro e no silêncio, retornou à sala de visitas e disse à bela loira que a aguardava.

 

– Sra. Bingley, a Sra. Darcy ainda está dormindo.

 

– Impossível! Já são mais de dez horas, Lizzy nunca dorme até tão tarde. Vou ver o que está acontecendo com minha irmã.

 

Jane Bingley subiu as escadas com passos decididos, em direção ao andar onde se localizavam os dormitórios da luxuosa residência dos Darcy. Ao chegar ao quarto da irmã, abriu a porta abruptamente e sem maior cerimônia descerrou as pesadas cortinas que impediam a entrada da luz.

 

O quarto se inundou com a claridade da manhã de início de abril.

 

Houve um movimento no lado esquerdo da larga cama de casal onde um corpo coberto num edredom azul se moveu lentamente e uma voz queixosa murmurou:

 

– Jane, por favor, deixe-me em paz. Quero dormir.

 

– Lizzy, são dez e meia, esqueceu que combinamos sair juntas? Você nunca dorme até esse horário, o que está havendo? Pretende passar o dia inteiro nesta cama ruminando sua dor?

 

– Por favor, Jane, me deixe em paz...

 

– Esqueça! Não vou deixá-la em paz. Você vai se levantar desta cama, tomar um banho e se arrumar. Vamos às compras e depois almoçar juntas, como havíamos combinado ontem.

 

– Não tenho disposição para nada. Deixe-me, Jane, por favor.

 

– Você vai sair desta cama já. Vamos sair, sim. Não quero vê-la prostrada o dia inteiro.

 

Jane arrancou o edredom e puxou Lizzy pela mão obrigando-a a se levantar.

 

Após o casamento com Charles Bingley, levada pela necessidade de se defender da influência dominadora das irmãs do marido, a meiga Jane havia se transformado numa mulher decidida.

 

– William ligou para você? – perguntou sabendo de antemão a resposta da irmã pelo seu aspecto desanimado.

 

– Não.

 

Durante alguns instantes de um pesado silêncio, Jane pensava em qual seria a melhor forma de abordar um assunto tão delicado. Mas antes que dissesse mais alguma coisa, Lizzy voltou para a irmã os olhos marejados e continuou a falar enquanto tentava controlar as lágrimas.

 

– Ele sempre ligou para mim, assim que chega ao destino, mesmo quando vai à Paris que fica a menos de uma hora de Londres. Ele me liga para dizer que chegou bem e para perguntar se estou bem. Agora que foi à Tóquio, do outro lado do mundo, não me ligou uma única vez e já faz mais de 24 horas que saiu de casa.

 

– Não precisa ser necessariamente ele que deve ligar, não acha? Por que você não liga desta vez para variar?

 

– O pior é que já liguei, preocupada que pudesse ter acontecido algo com ele, mas as ligações no celular não se completam. Deixei recado na recepção do hotel onde está hospedado, pedindo que ele retornasse a ligação para mim, mas ele não me ligou.

 

– A briga que tiveram foi tão séria assim?

 

– Foi...

 

– Lizzy, quer me explicar direito o que aconteceu? Você só me disse que brigaram e que ele viajou para o Japão, como já estava anteriormente programado. Não entendi o porquê da briga. Não quer me contar tudo? Para ajudá-la preciso saber o que aconteceu.

 

– Você jura que não irá contar nada para o Charles?

 

– Lizzy, não se esqueça que antes de ser mulher do Charles, sou sua irmã e sua amiga. Não direi nada a ele e farei tudo que puder para lhe ajudar.

 

– Pois bem, estou desconfiada... ou melhor, estou certa de que William está tendo um caso com Caroline.

 

– Oh! Não! Caroline! Você sabe muito bem que William nunca se interessou por ela, e ela, por sua vez, já desistiu de conquistá-lo, pois sabe que não terá a mínima chance. Tire esta bobagem da cabeça.

 

– Pois acho que você está enganada. Há uma semana ao entrar na biblioteca, eu o encontrei conversando animadamente com ela ao telefone.

 

– Caroline está empenhada em obter fundos para aquele orfanato da qual é uma das patronesses. O pessoal de lá está em campanha arrecadando fundos para a reforma do prédio que está em péssimas condições. Ela deve ter ligado para pedir a ajuda de William, sabe que ele é sempre generoso em seus donativos, inclusive ela também já pediu ajuda ao Charles. Não vejo nada de suspeito no fato dela ter ligado para William.

 

– Pode até ser, mas não gostei da forma animada com que conversavam.

 

– Elisabeth, desde quando deu para ser ciumenta?

 

– Não terminei de contar a estória toda...

 

– Tem mais? Então conte logo...

 

– Ouvi William combinando para ela ir buscar o donativo no escritório dele. Aí, ela deve ter sugerido aparecer na hora do almoço do dia seguinte. Ele concordou e a convidou para almoçarem juntos.

 

– Não vejo nada de mais, seria como um almoço de negócios.

 

– Almoço de negócios, uma ova! Queria ver se fosse o Charles que estivesse combinando um almoço com uma mulher se você ficaria tranqüila...

 

– Aí, dependeria da mulher. – ponderou Jane.

 

– Acontece que Caroline sempre deu em cima do William, desde antes de eu conhecê-lo.

 

– Mais um motivo para você ficar tranqüila. Se ele sentisse algum tipo de atração por ela, poderia até ter se casado com ela, sem ter dado a mínima chance a você. – comentou Jane tentando apaziguar o ânimo da irmã.

 

– Acontece que existe um detalhe importante que eu não te contei. Eu e o William andamos meio brigados há algum tempo.

 

– Brigados? Eu não tinha percebido nada. Vocês disfarçam muito bem.

 

– Eu tenho andado zangada com ele porque quase não pára em casa, trabalha demais, viaja quase toda a semana a negócios e tem dado pouca atenção a mim.

 

– Lizzy, seu marido é presidente de uma corporação, é um homem ocupado com muita responsabilidade sobre seus ombros, não tem tempo de ficar lhe paparicando como você gostaria.

 

– Jane, estou farta de estar sempre sozinha. Quando quero sair, raramente tenho a companhia dele, tenho que sair com amigos ou com você e Charles, é muito frustrante.

 

– Concordo. Mas quando se casou com ele, sabia o tipo de vida que ele ia lhe oferecer, não se casou enganada. E crises no casamento todos os casais do mundo inteiro têm, isso é normal num relacionamento a dois. O importante é superar esses obstáculos, ir se ajustando e não deixar que o amor morra.

 

– Não foi uma briguinha à toa, Jane. Na véspera de William partir para o Japão, tivemos uma discussão horrível e eu... eu explodi e disse que estava farta de estar sempre sozinha, que se fosse para viver assim preferia que ele me desse o divórcio.

 

– Divórcio? Você enlouqueceu, Lizzy? E o que William respondeu?

 

– “Quando eu voltar do Japão, você terá o divórcio se é isto o que quer. A última coisa que quero é viver ao lado de uma mulher contrariada que não me ama.” Foram as últimas palavras dele ao sair de casa. Jane, o que faço? Não quero perder William porque o amo. E tem mais... – lágrimas corriam pelas faces de Lizzy.

 

– Mais o quê?

 

– Estou grávida. O Dr. Liberman confirmou ontem, estou com seis semanas de gestação.

 

– Lizzy, parabéns, que notícia maravilhosa! Vou ser tia. Um bebê é a maior benção que Deus pode dar a um casal e é por isso que anda tão nervosa, os hormônios estão à flor da pele. – Jane abraçou e beijou a irmã com carinho.

 

– Mas o que faço para sair desta enrascada em que meti? Briguei com meu marido e não consigo entrar em contato com ele para fazer as pazes e contar sobre o bebê.

 

– Em primeiro lugar, você tem que sair deste estado de prostração e tratar de agir.

 

– O que você acha que eu devo fazer então, Jane? Pensei até em ir atrás dele ao Japão para me reconciliar com ele e contar sobre o bebê...

 

– Eu, em seu lugar, não hesitaria um minuto. O seu relacionamento com William é mais importante que o seu orgulho. Indo atrás dele, você estará dando uma prova de que está arrependida. E depois, precisa contar logo a ele sobre o bebê. Ele ficará eufórico.

 

– Você acha que ele ficará feliz, depois das coisas horríveis que eu disse a ele em nossa última briga?

 

– Tenho certeza de que após uma boa conversa e um pedido de perdão, vocês farão as pazes. Afinal qual o casal que quando briga não fala o que não deve? Vá atrás dele e façam as pazes.

 

– William já havia prometido me levar para o Japão, país que ele acha tão lindo e que admira tanto, mas queria que fôssemos numa época em que ele tivesse mais tempo para podermos passear juntos.

 

– Vá agora. É o momento certo.

 

Após alguns momentos de reflexão, o rosto de Lizzy se iluminou.

 

– Obrigada, Jane, você me animou.

 

Lizzy ligou para a secretária de William e pediu para que ela providenciasse sua passagem para Tóquio no primeiro avião que partisse de Londres.

 

– Mas, por favor, não conte a meu marido que estou indo, quero fazer uma surpresa a ele, nem comente com ninguém do escritório de Tóquio.

 

Em poucas horas, tudo foi providenciado. Lizzy voaria na noite daquele mesmo dia, chegando 12 horas depois ao Japão.

 

– A senhora não acha melhor que alguém do escritório da Darcy Corp. em Tóquio a esteja aguardando no aeroporto para levá-la ao hotel?

 

– Não, não quero. Eu prefiro tomar um táxi e chego sozinha ao hotel.

 

Apesar do conforto da primeira classe do avião, a ansiedade não permitiu que Lizzy pregasse o olho durante o longo vôo. Ficou lendo uma revista atrás de outra, até os olhos arderem e foi com imenso alívio que ouviu, finalmente, a voz do comandante anunciar a chegada da aeronave ao aeroporto internacional de Tóquio.

 

 

Tóquio

 

Lizzy tomou um táxi que a levou do aeroporto ao Hotel New Otani, onde William estava hospedado, segundo informações da secretária, mas aí começaram suas dificuldades.

 

William não estava no hotel e como é de regra, o pessoal da recepção só permitiria que ela ocupasse a suíte dele com sua autorização. Então, Lizzy ligou para o escritório de Darcy em Tóquio e ficou sabendo que ele também não se encontrava lá.

 

A atendente do telefonema falou num inglês carregado de forte sotaque japonês:

 

– Mr. Darcy foi à confraternização do escritório no Parque Ueno, eles foram comemorar o Hanami.

 

“Hanami? O que poderia ser?” – pensou Lizzy, mas aflita por não ter encontrado William ela perguntou à atendente: - A senhora sabe se ele ainda volta ao escritório hoje?

 

– Provavelmente não, senhora.

 

“Por que não o avisei que estava vindo? Não teria acontecido este desencontro. Ele estaria me esperando.”

 

Lizzy agradeceu a informação e desligou o telefone e perguntou à recepcionista do hotel:

 

– O que vem a ser Hanami?

 

– Hanami é um costume tradicional japonês muito antigo de contemplar a beleza das cerejeiras em flor. Os japoneses se reúnem sob as árvores floridas, estendem uma cobertura, onde se sentam para admirar a beleza das flores, comem, bebem, conversam e cantam. As cerejeiras só florescem apenas uma vez ao ano e a floração costuma durar no máximo de uma semana a 10 dias. É uma festa muito bonita. Hana em japonês é flor e Mi, ver, contemplar.

           

 

– Deve ser realmente uma festa muito linda. – comentou Lizzy à recepcionista - E onde fica o Parque Ueno?

 

– É aqui em Tóquio, um parque enorme muito conhecido e freqüentado, principalmente agora que é época do Hanami, pois há uma quantidade enorme de cerejeiras floridas lá.

 

A Lizzy restou duas alternativas: ou ficava no lobby do hotel aguardando a volta de William do Hanami; ou ia até o Parque Ueno tentar encontrá-lo em meio à multidão que deveria se encontrar lá.

 

Ficar sentada sabe-se lá quantas horas, depois de um vôo de 12 horas, não lhe parecia uma perspectiva muito agradável. Optou por tomar um táxi e tentar encontrar o marido no Parque Ueno.

 

Já anoitecia quando o motorista do táxi deixou Lizzy numa das entradas do parque.  Como ela esperava uma quantidade imensa de pessoas circulavam pelas alamedas repletas de cerejeiras lindamente floridas e bonitas lanternas de papel vermelho iluminavam o parque. Sob as cerejeiras em flor, as pessoas sentadas no chão forrado com coberturas se confraternizam como a recepcionista do hotel havia lhe explicado.

 

Não seria tarefa fácil encontrar William naquela multidão, embora fosse pequeno o número de ocidentais presentes. Mas, Lizzy estava determinada a encontrar o marido e iniciou sua busca. Ao longo das cerejeiras floridas as coberturas se estendiam uma próxima a outra, cada espaço reservado a um grupo familiar, colegas de escola ou de trabalho. Eram centenas de pessoas sentadas sobre as pernas, no tradicional costume japonês, conversavam, comiam, bebiam e cantavam, em alegre confraternização.

 

Lizzy caminhava lentamente pelas alamedas observando cuidadosamente o rosto das pessoas para ver se encontrava William, quando já estava quase desistindo de encontrá-lo naquela multidão. Eis que o viu conversando animadamente em meio a um grupo numeroso.

 

Ela ficou paralisada por alguns instantes, observando-o. Nunca ele lhe parecera mais belo, os cabelos desalinhados, vestindo apenas a camisa branca sem o paletó, a gravata afrouxada e a expressão de seu rosto relaxada sorrindo para os companheiros que conversavam com ele.

 

Por fim, Lizzy criou coragem e o chamou: “William”, mas em meio ao barulho das pessoas não foi ouvida. Chamou novamente desta vez mais alto. “William!”. Um dos japoneses que estava ao lado de William, notou-a e chamou a atenção dele. Ao focalizar Lizzy, a primeira expressão dele foi de surpresa. Depois se levantou e se dirigiu em sua direção, sem se preocupar por estar descalço, pois segundo o costume japonês não se entra em locais reservados com calçados com os quais se andou na rua.

 

– Lizzy, o que aconteceu? – havia um tom de preocupação na sua voz.

 

– Eu preciso conversar com você.

 

– Como conseguiu me encontrar?

 

Ao invés de perguntas, ela esperava que ele a tomasse em seus braços e a beijasse, mas William apenas ficou olhando longamente para ela, sem nada dizer, a expressão de seus olhos azuis indecifráveis.  Após alguns instantes de silêncio, ele tomou o braço de Lizzy e a conduziu em direção ao grupo.

 

– Lizzy tire seus sapatos, antes de entrar na cobertura. É o costume daqui.

 

William apresentou a esposa a todos os seus funcionários. Ela foi muito bem recebida com a cordialidade típica do povo japonês. Mas teve pouca oportunidade de conversar com os funcionários de William, pois logo ele pediu licença a todos e deixou a festa levando-a consigo.

 

O percurso de táxi ao hotel foi feito no mais completo silêncio.  Observando o perfil circunspecto do marido, Lizzy achou melhor ficar calada, deixando a conversa para quando estivessem a sós.

 

Assim que chegaram, William providenciou junto à recepção o check-in da esposa e em seguida subiram à suíte que ele estava ocupando. Mal a porta se fechou, William se voltou para Lizzy e perguntou-lhe, num tom frio e irônico, que chegou a assustá-la porque não era a forma a que estava acostumada a ser tratada por ele:

 

– Veio se certificar se eu trouxe alguma amante comigo ao Japão? Pois pode constatar que estou sozinho. – A fisionomia fechada lembrava o William Darcy que ela conhecera no baile em Meryton.

 

– William, por favor, acalme-se, eu vim para fazer as pazes com você.

 

– E você não poderia esperar mais alguns dias até eu voltar a Londres?

 

Lizzy não esperava este tipo de recepção, acreditava que William se alegraria com sua presença, mas o tom agressivo e irritado de sua voz fez com que ela se sentisse acuada e medrosa. Ela, que tinha sempre resposta para tudo se sentiu sem palavras e após um longo silêncio só conseguiu balbuciar:

 

– É sobre a nossa última conversa... Eu...

 

– Veio trazer os papéis do divórcio para eu assinar?  Está com pressa? – perguntou ainda com ironia em sua voz. 

 

– William, por favor, não dificulte as coisas....  Eu não quero o divórcio.

 

– E o que quer então?

 

– Vim para pedir perdão por todas as bobagens que falei, eu estava muito nervosa naquele dia, me descontrolei. Estou sinceramente arrependida pelo meu comportamento e pelas minhas palavras.

 

Havia um tom de súplica e desespero na voz de Lizzy, pois a postura fria do marido não era a recepção que ela esperava dele. Seguiu-se um longo silêncio em que parecia que William não a perdoaria e que tudo estava acabado entre eles, mas por fim ele falou:

 

– Lizzy, não fiz nada que merecesse sua desconfiança! Eu seria um verdadeiro canalha se tivesse um caso justo com Caroline, que é a irmã de meu melhor amigo e meu cunhado. Seria uma falta de respeito para com você, com ela e com Charles. Você é a única mulher em minha vida, Lizzy, não tenho nenhuma outra.

 

A verdade transparecia na voz e expressão facial de William. Lizzy sentiu que ele voltava a ser o marido amável e amoroso, por isso se sentiu mais tranquila ao dizer:

 

– Tudo começou porque eu estava me sentindo muito insegura e solitária por causa de suas constantes viagens. Tenho me sentido abandonada, relegada a segundo plano. Quando quero sair tenho que ir com Charles e Jane e já me cansei das pessoas perguntando: “E o William?” Algumas chegam até a perguntar com uma ponta de maldade: “O Darcy está viajando?”

 

– Quando nos casamos você sabia como seria nossa vida. Sou um homem de negócios, sou presidente de uma corporação com filiais espalhadas pelo mundo. Não viajo porque gosto, mas porque preciso resolver problemas que envolvem muitos interesses financeiros meus e de milhares de pessoas que dependem das empresas que administro para suas sobrevivências.

 

– Pois preferia que você não fosse tão rico e que pudesse ficar mais tempo em casa e me dar mais atenção...

 

– Infelizmente, então, você se casou com o homem errado. Não posso mudar quem sou, meu trabalho, minhas responsabilidades. Deveria ter procurado se casar com um funcionário que trabalha das nove às cinco, bate seu ponto e volta para casa.

 

Lizzy lutava para não deixar as lágrimas que começavam a marejar seus olhos a rolarem por suas faces, pois queria tentar manter uma conversa séria entre pessoas maduras.

 

– Talvez você tenha razão. Mas não me apaixonei por um funcionário deste tipo, me apaixonei por você, é você que eu amo.

 

– Então, infelizmente, terá que me aceitar como sou.

 

− Acho que sim. Então você perdoa as tolices que falei na nossa última conversa?

 

– Discussão. Não foi uma conversa. – arrematou, mas Lizzy que o conhecia bem notou um brilho de riso nos olhos azuis e no tom da voz um claro sinal de que a muralha que existia entre eles estava desmoronando.

 

– Prometo não discutir mais com você por bobagens e se alguma vez eu encontrar uma loura estonteante sentada em seu colo, antes de ter um acesso de ciúmes, irei perguntar calmamente o que ela está fazendo ali. E tentarei aceitar a sua explicação.

 

William soltou uma gargalhada, só mesmo Lizzy para fazê-lo rir dessa maneira. Percebendo que finalmente havia sido perdoada, ela  se jogou nos braços do marido que a envolveu num abraço apertado e procurou seus lábios, numa exploração lenta que provocava ondas de prazer que percorriam seus corpos. Ela deslizou as mãos pelo peito largo do marido, até alcançar-lhe a nuca e enroscar os dedos nos cabelos escuros e ligeiramente encaracolados, moldando seu corpo ao de William e sentindo uma satisfação bem feminina ao perceber a rigidez do volume que crescia junto ao seu ventre.

 

– Você sabe que tem o poder de me tirar do sério, meu amor. Estou tão feliz por que veio se encontrar comigo. Sinto tanto tua falta quando estou viajando. – disse William numa voz rouca e sensual.

 

– Por que não me ligou quando chegou e nem respondeu os recados que deixei na recepção do hotel?

 

– Porque estava muito zangado com você. Queria castigá-la. Agora vamos para a cama, estou exausto e amanhã terei que acordar cedo porque tenho uma reunião importante às nove e os japoneses são muito rigorosos em questão de pontualidade, como nós ingleses.

 

– Espera um pouco, William. Tenho mais uma coisa importante que não falei e que também me trouxe ao Japão.

 

– O que é? – William perguntou intrigado.

 

– Eu estou grávida. Estou na sexta semana de gestação. Vamos ter um filho ou uma filha.

 

– Grávida? E por que não me disse logo. Como ficou sabendo?

 

– Minha menstruação estava atrasada e eu estava me sentindo diferente, fiz aquele teste de farmácia que deu positivo. Aí, marquei consulta com o Dr. Liberman que confirmou a gravidez.

 

– Lizzy, você não poderia me dar uma notícia melhor! Este filho é a realização de um de nossos sonhos. Obrigada, meu amor.

 

As pazes do casal foram seladas na cama do bonito e luxuoso do hotel, não sem antes William ter o cuidado de perguntar:

 

– Você perguntou ao Dr. Liberman se podemos continuar tendo relações?

 

– Sim, podemos fazer amor, ele só não recomendou sexo selvagem.

 

– Fique tranqüila, apesar da minha ansiedade vou procurar me conter, afinal preciso zelar agora pela sua saúde e a de nosso bebê.  

 

Depois do amor, apesar da satisfação e do cansaço, Lizzy não conseguiu conciliar o sono. Ela ficou aninhada  um longo tempo nos braços de William, sem se mover para não despertá-lo, chegando a conclusão que a causa de sua falta de sono se devia ao relógio biológico modificado pelo fuso horário. O dia já estava amanhecendo quando finalmente conseguiu dormir vencida pelo cansaço. O som do telefone na mesinha de cabeceira da cama a despertou na manhã seguinte. Ainda tonta de sono atendeu à chamada de William.

 

– Bom dia, meu amor. Quando saí de manhã cedo, você dormia e não quis acordá-la. Peça o café da manhã no quarto. Eu só poderei voltar ao hotel no fim da tarde, lá pelas seis horas. Se quiser conhecer um pouco de Tóquio, informe-se na recepção do hotel sobre um passeio pela cidade. Deixei dinheiro para você sobre a mesinha da cabeceira, caso não tenha trazido ienes.

(*) iene = é a moeda japonesa

 

– Obrigada, William. Vou ver o que faço, mas não se preocupe comigo, estarei aguardando você chegar à tarde.

 

– O dia vai custar a passar para mim. Preciso desligar, Lizzy, a reunião vai começar. Tenha um bom dia. Eu te amo.

 

Lizzy ficou feliz pelo fato dele haver ligado, era próprio de William dispensar aquelas pequenas atenções que faziam dele, um homem tão especial.

 

Um marido especial. Seu marido amado.

 

Após o café da manhã, Lizzy resolveu seguir a sugestão de William e contratou uma agência que a levou a fazer um passeio pela cidade.

 

Quando voltou ao hotel, William ainda não havia retornado do trabalho.

 

Lizzy tomou um banho rápido e ligou a TV para se distrair, mas a programação toda falada em japonês pouco ajudou. Por fim, William voltou, a expressão amorosa de seus olhos, aqueceu a alma de Lizzy.

 

– Olá, William, como foi seu dia? – perguntou com um sorriso após receber e compartilhar um beijo caloroso.

 

– A mesma chatice de sempre, negócios e negócios em reuniões intermináveis e você?

 

– Eu me diverti muito, fiz um city tour pelos principais pontos de Tóquio.

 

– Aonde você foi?

 

– Conheci os jardins do palácio imperial, o templo xintoísta de Asakusa, o parque Ueno, a torre de Tóquio e o bairro de Guinza.

 

– E gostou do passeio?

 

– Fiquei encantada com a beleza dos lugares e a organização dos japoneses.

 

– E o que programou para nossa noite?

 

– Não vamos sair, William, prefiro jantar num dos restaurantes do hotel e depois voltar para cá e... fazer amor, como na noite passada.

 

– Ótimo, mas tem certeza de que o Dr. Liberman liberou fazermos amor com esta freqüência?

 

– Ele me disse que podemos levar uma vida sexual normal.

 

Lizzy não deixou de notar a delicadeza e o cuidado com que William a tratava durante a relação.

 

Nesta noite Lizzy conseguiu pegar no sono logo, mas no meio da madrugada despertou sentindo uma forte cólica no ventre, semelhante às cólicas menstruais que costumava ter. Foi ao banheiro e ao urinar viu que estava tendo sangramento vaginal. Desesperada ela chamou por William que despertou imediatamente.

 

– William, acho que há algo errado comigo. Estou tendo um sangramento.

 

O que aconteceu em seguida foi um corre-corre do qual Lizzy guardou vagas lembranças, devido ao desespero que tomou conta dela ao ver que a hemorragia ao invés de ceder só aumentava.

 

William providenciou uma ambulância que a levou em poucos minutos a um hospital onde foi prontamente atendida. Algumas horas depois voltou à consciência. William estava seu lado, no rosto uma expressão que era a máscara da preocupação e da tristeza. Como ele permanecesse calado, ela perguntou com um fio de voz:

 

– Perdi o nosso bebê, não foi?

 

– Sim, meu amor, não foi possível salvá-lo. Você sofreu um aborto espontâneo.

 

– Por que isto foi acontecer justo conosco?

 

 – O médico me explicou que é muito difícil especificar os motivos deste tipo de aborto involuntário, que é muito comum acontecer no início da gravidez e cuja causa mais comum é um defeito cromossômico que impede o desenvolvimento normal do feto.

 

Lizzy ficou um longo tempo em silêncio, de olhos fechados, e de vez em quando uma lágrima escorria por suas faces. William ficou ao seu lado, calado, com o coração oprimido e sentindo-se impotente diante da sua própria dor e da mulher que amava.

 

– Eu queria tanto este filho. Ele foi gerado com tanto amor. Por que foi acontecer isto comigo?  Será que foi a longa viagem de avião que casou o aborto? Será que fiz algo que não devia?

 

– Não, não fez nada errado, Lizzy. Não fique se culpando, meu amor, nem a viagem e nem o fato de termos feito amor foi a causa deste aborto, foi mesmo a má formação do embrião. O médico disse que nesses casos a própria natureza se encarrega de eliminá-lo.

 

– William, será que não vamos poder ter outros filhos? Será que não vou ser capaz de lhe dar um filho? – Lágrimas amargas escorriam pelo rosto sofrido de Lizzy.

 

– Chore, Lizzy, ponha para fora esta tristeza. Sei que está sendo difícil para nós, mas vamos ter que superar esta dor. O Dr. Ishimura me disse que este problema não impedirá de termos outros filhos mais tarde, pois somos jovens e saudáveis. Este hospital é um dos melhores de Tóquio e o médico um conceituado ginecologista, você foi bem assistida e ficará boa logo.

 

William segurava uma das mãos de Lizzy e com a outra tentava consolá-la passando a mão em sua testa.

 

– William, já é de manhã. Você deve ir trabalhar.

 

– Não se preocupe com isto, já cancelei todos os meus compromissos. Não sairei de seu lado hoje.

 

– Eu só vim aqui no Japão para te atrapalhar.

 

– Você nunca me atrapalha. Foi melhor que isto acontecesse aqui do que em Londres, onde você estaria sozinha.

 

– Você tem razão, eu me sentiria muito pior se não tivesse você ao meu lado.

 

– Depois, o Dr. Ishimura, que fala um inglês quase perfeito, vai vir te explicar tudo o que aconteceu e te dizer que poderemos ter quantos filhos quiser porque este problema ocorre com muitas mulheres no início da gravidez. Entendeu?

 

– Entendi, William. Mas estou muito triste porque eu queria tanto este bebê e já o amava.

 

Lizzy fechou os olhos, mas as lágrimas não cessavam e ela sentia um vazio imenso, pois a vida que carregava dentro de si se fora.

 

Naquela mesma tarde, o médico deu alta para Lizzy, após conversar com ela, reafirmando o que William já lhe havia dito sobre a perda do bebê e recomendando que ela permanecesse pelo menos mais uns três a quatro dias em Tóquio por precaução, antes de fazer a longa viagem de volta à Inglaterra.

 

Londres

 

O casal retornou a Londres numa manhã cinzenta e chuvosa, e o sombrio tempo londrino parecia refletir o seu estado de ânimo.

 

Seguiu-se um longo período até a cicatrização das feridas abertas pela perda do bebê. Apesar do Dr. Liberman, ginecologista de Lizzy confirmar os diagnósticos do médico japonês, havia períodos em que ela sentia uma tristeza profunda e um vazio muito grande e chegava involuntariamente a invejar Jane e as amigas que não tiveram problemas durante a gravidez.

 

William tinha seus compromissos, mas sentindo que a mulher não tinha condições psicológicas para ficar sozinha em casa, superar a tristeza e retomar a vida, resolveu levá-la em suas viagens. Recusou a oferta dos Bingleys para que Lizzy ficasse na casa deles durante suas ausências. A filhinha de Charles e Jane, uma saudável menina de um ano e meio e a segunda gravidez de Jane que transcorria normalmente lembrariam Lizzy de sua gravidez mal sucedida.

 

Lizzy acompanhava o marido em suas viagens, alternando momentos de energia e de abatimento, de alegria e de tristeza, mas graças à mudança de ambientes, o tempo e o marido atento e carinhoso, ela conseguiu superar aquela fase depressiva, normal em mulheres que sofrem um aborto espontâneo.

 

Após longos meses, Lizzy engravidou novamente. A princípio ficou temerosa de sofrer nova perda, mas seus receios foram aos pouco desaparecendo ao constatar que a cada exame pré-natal, seu filho crescia forte e saudável.

 

O pequeno Matthew William Darcy nasceu numa linda manhã de abril, dois anos após a perda do primeiro filho, trazendo muita alegria para seus ansiosos pais. Era um bebê perfeito e com um apetite voraz. Enquanto amamentava o filho ainda na maternidade com o orgulhoso pai assistindo ao filho fazer sua refeição, na televisão uma reportagem chamou a atenção do casal, mostrava as cerejeiras que naquele ano voltaram a florescer gloriosas por todo o Japão.

 

– William, os japoneses têm razão ao celebrar o hanami, pois elas representam o renascimento da vida e da beleza. E ele deve ser sempre comemorado. Quando tivermos oportunidade gostaria de voltar ao Japão, pois já superei o trauma do que me aconteceu lá.

 

– Voltaremos, sim. É um país que merece ser visitado por suas belezas naturais, suas tradições e cultura milenares até hoje tão bem preservadas.

 

 

FIM