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Não é uma incivilidade generalizada a verdadeira essência do amor? (Jane Austen)

A Garota do Metrô - Parte II

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Chegou ao bar quinze minutos antes da hora marcada, olhou em volta e não o encontrou. Resolveu então sentar no balcão e pedir uma coca cola com limão e gelo. Não beberia nada de álcool, queria estar completamente lúcida quando ele enfim aparecesse. Acabou seu refrigerante e ficou distraída brincando com o copo vazio, fazendo movimentos circulares com um dedo sobre um cubo de gelo.

 

Reparou novamente nas pessoas ao redor, para ver se a sua roupa era mesmo adequada ao ambiente. Levara um longo tempo para decidir o que vestir, e ainda não estava bem certa da escolha. Fazia calor durante o dia, e a noite a temperatura caia um pouco. Optou por um vestido preto de alcinha com um detalhe em branco na região do busto e um insinuante decote. O vestido terminava na altura no joelho e combinavam com o preto de seus sapatos quase sem saltos. Não gostava de usar saltos e era assim que ele a vira todos os dias, então não precisava colocar um sapato mais alto e ficar desconfortável apenas para conquistá-lo. Para finalizar a escolha, colocou um casaco fininho de mangas cumpridas branco. O casaco era mais curtinho e amarado bem no meio com um laço. Deixou seus cabelos compridos e castanhos soltos. Ele sempre a via de cabelos presos – será que gostaria de vê-los soltos?


E assim ficou, distraída e brincando com o cubo de gelo e quando ele por fim derreteu pediu outro copo de coca cola.


- Oi. Desculpa, eu demorei um pouco... – ele enfim chegou, agitado, mas pontualmente no horário marcado. Estava com os cabelos esvoaçados, provavelmente por ter corrido para conseguir chegar. E seus olhos estavam ainda mais brilhantes e azuis do que ela se lembrava.


Olhos lindos – ela pensou e conclui que facilmente se perderia naquele olhar.


- Oi – ela respondeu, sorrindo timidamente, sem desviar os olhos do dele.


Ele chegou próximo a ela, mas ficou indeciso quando ao lugar onde se sentar. Reparou numa mesa vazia num canto, onde teriam mais privacidade. E ele parecia nervoso, talvez mais nervoso até do que ela. Olhou para ela e olhou para a mesa e Elizabeth logo percebeu sua intenção.


- Você quer sentar lá? – ela indagou, já que ele se mantinha em silêncio, parecendo pouco à vontade. E se ele fosse mais tímido do que ela, como eles conversariam?


- Hum rum. – ele concordou sem dizer mais nada e então ela se levantou e ele a seguiu.


Sentaram-se à mesa e ele pediu uma dose de uísque, que bebeu rapidamente, num gole só. Ela então colocou os cotovelos sobre a mesa, apoiando a cabeça num dos lados, passando a olhar fixamente para ele. Ele percebeu e correspondeu ao olhar.


- Como é o teu nome?


- Meu nome? – ela indagou achando graça do inusitado da situação. Estava num bar, com um homem que não sabia sequer o nome e que também não sabia o nome dela. – É Elizabeth Bennet. – ela respondeu, sorrindo.


- Você fica linda sorrindo – ele observou, fitando-a com atenção. Parecia encantado por ela. Tímido, mas fascinado. – Meu nome é William Darcy.


- W. D. – ela frisou, lembrando das iniciais do cartão.


- É – ele respondeu, sem saber como continuar a conversa – Você vai querer terminar a tua coca cola? – inquiriu, observando o copo ainda pela metade.


- Não sei, por quê?


- Por que gostaria de te levar a um lugar.


- Um lugar? Para onde? – indagou curiosa.


Ele deu um leve sorriso como resposta, deixando-a em suspense. Mas ela sabia que podia confiar nele. Mesmo sem conhecê-lo direito, o seguiria para qualquer lugar.


- Não quero mais terminar a minha coca cola. Podemos ir, se você quiser.


- Está bem,vamos então. – ele levantou, depositando dinheiro sobre a mesa para pagar a conta. Ela não reclamou e deixou que ele pagasse sua parte também, gesto que não aceitaria de nenhum outro homem. Mas naquele momento, estava inebriada e não reclamaria de nada que ele fizesse.


- Para onde nós vamos? – repetiu a pergunta ao chegarem fora do bar.


- Para lá – apontou para o lado direito. Ele estava sério, parecia preocupado.


- Mas vamos a pé?


- Sim. O local que eu quero te levar fica há uma quadra daqui. Escolhi o bar do Joe por ser perto.


- Ah... – seguiram calados, lado a lado. Até que ele parou em frente a uma galeria de arte.


- É aqui que nós vamos? – ela indagou um pouco surpresa.


- É sim. Nesta semana estou expondo meus quadros. – ele respondeu, com um olhar perdido na parte de dentro.


- Você pinta? – perguntou espantada e empolgada ao mesmo tempo. Nunca imaginaria que o homem atrás do jornal era um artista!


- Nas horas vagas.


- E o que você faz nas outras horas?


- Sou advogado. E você?


- Eu sou jornalista. Escrevo uma coluna semanal naquele jornal que você sempre lê e outras reportagens sobre os acontecimentos diários.


- Sério? Mas não me lembro de ter lido nada no teu nome: Elizabeth Bennet... – repetiu o nome, tentando recordar de alguma vez ter visto o nome dela no jornal.


- É que eu uso meio que um pseudônimo. Assino com outro nome.


- Qual?


- Liz Stevens, que é o meu sobrenome do meio. Não gosto de ser reconhecida.


- Você é a Liz Stevens? – inquiriu, assombrado. – Nossa, eu adoro a tua coluna! Quem poderia imaginar? – ele a encarou e sorriu, extasiado e encantado. Quem diria, a garota do metrô era uma de suas escritoras favoritas!


Sentiu-se mais disposto, mais seguro para enfim convidá-la para entrar.  Durante o tempo todo estava nervoso, esperando por esse momento. Mas agora estavam ali e era tarde demais para voltar, ele não podia mais desistir. Tomou coragem e a convidou para entrar.


- Vamos?


- Sim! – ela respondeu, com os olhinhos brilhando, encantada por ele. Ela estava ansiosa para ver seus quadros, para conhecer um pouquinho mais sobre o seu homem do jornal.


Nos primeiros quadros de sua exposição havia figuras humanas, paisagens e animais de diversas espécies. Pinturas retratadas com uma impressionante fidelidade, dignas de um verdadeiro profissional e não de um pintor amador.


- Nossa! – ela comentou, sem tirar os olhos das telas, admirada – Você pinta muito bem. É a sua primeira exposição?


- É sim – ele respondeu, chegando pelas costas dela, quase encostando seu corpo no dela – Nunca me senti pronto antes para expor. Mesmo essa galeria sendo da minha família e estar disponível para mim, não me achava bom o suficiente.


- É? – ela pensou um pouco, e enfim virou-se para ele e o encarou - E agora, por que resolveu expor?


- Digamos que eu encontrei a coragem que eu precisava nesses últimos dias.


- Ah... – voltou então a fitar os quadros, sem saber o que pensar. Será que veio dela a coragem que ele precisava? Não, não podia ser. Ela concluiu sem querer se iludir. – E há quanto tempo você pinta?


- Há um ano.


- Seus quadros são lindos! – virou-se novamente para ele, maravilhada pelos quadros e pela proximidade com aquele homem. Ele era alto, e em pé, frente a frente, ela batia quase em seu ombro. Devia ter vindo de salto – pensou – para ficar mais próxima a ele.


- Isso que você ainda não viu os meus preferidos. Eles estão em destaque em outro setor.


-Ah é? Então o que a gente está esperando, vamos lá agora! – ela exclamou, já querendo ir. Mas quando estava saindo, ele a segurou pela mão, fazendo-a parar.


- Espere – ele pediu, parecendo novamente nervoso.


- O que foi?


- Não sei o que você achará deles, não sei se devo te mostrar...


- Ah... – ela ficou com receio que ele não quisesse mais mostrá-los e estava tão curiosa, tão ansiosa, que simplesmente não ficaria mais parada esperando pela iniciativa dele. Com um movimento rápido, soltou a mão presa e rumou em seguida para onde pensava que fosse o outro setor. Mas o que viu – quem poderia imaginar - a deixou estática, boquiaberta, sem reação.

(Continua...)

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