Todos os dias Elizabeth Bennet saía do trabalho pontualmente às 18 horas e pegava o metrô das 18:10. Subia e sentava sempre no mesmo lugar, ou próximo a ele, quando seu assento preferido não estava disponível. E assim que se sentava, abria um livro e afundava o rosto nele, apenas voltando à realidade quando perto da sua parada. Não precisava ficar atenta ao trajeto – já conhecia o tempo do trem de cor - não olhava nada ao redor, esquecia-se do mundo e apenas prestava atenção ao que lia. De vez em quando parava de ler para ceder à passagem para quem quisesse sentar ao seu lado, mas logo em seguida voltava os olhos para o livro. Esse era o seu tempo de ler – uma de suas atividades favoritas -, pois sempre que chegava em casa tinha tantos afazeres que simplesmente não conseguia fazer mais nada.
E essa era a sua rotina: ia do trabalho para casa, e da casa para o trabalho e assim passavam-se os dias. Nos finais de semana visitava seus pais e via sua irmã mais velha, Jane, e seu marido. Mas durante a semana a única companhia que tinha era de seu gato amarelo Félix que sempre a recebia na porta do apartamento. O gato era um ótimo companheiro e dormia com ela na cama, amenizando suas longas noites de solidão.
Naquela noite, sairia um pouco da rotina: iria jantar com sua amiga Charlotte, que estava ansiosa para lhe entregar seu convite de casamento. Quem diria: Charlotte casaria enquanto que ela continuava solteira e nem sequer namorado tinha! Ela, a mais bonita da turma de faculdade (como todos enfatizavam sempre) continuava solteira e sem nenhuma perspectiva de arranjar um namorado, sem nenhuma paquera sequer. No trabalho praticamente só havia mulheres, e os únicos homens disponíveis ela só encararia se estivesse muito desesperada. Mas esse não era o caso: ela sentia-se muito bem sozinha. E se seguia sua rotina do trabalho para casa, diariamente, sem fugir muito disso, como arranjaria um namorado? Onde conheceria alguém?
- Lizzy! - Charlotte chegou pouco depois da amiga, sentando-se na mesa com ela. – Então amiga? Como vão as coisas?
- Tudo normal. Sem nenhuma novidade. – os dias pareciam sempre iguais.
- Ah... Mas eu tenho um amigo para te apresentar. Acho que ele é perfeito para ti! – discorreu empolgada, com um sorriso nos lábios.
- Não, Charlotte! Nem vem que eu não caio mais nessa, nunca mais irei deixá-la marcar um encontro para mim! – fez uma careta lembrando-se do tormento que foi seu encontro com Tom, “um desses amigos” arranjados por Charlotte. – Estou muito bem sozinha.
- Sei... Mas posso te dar um conselho, amiga? Você promete que irá me ouvir dessa vez? Por favor? – ela suplicou.
- Dependo do conselho. Mas prometo que te ouvirei e se for viável tentarei segui-lo.
- Assim, Lizzy... Lembra da vez que eu fui contigo até o teu trabalho e nós voltamos juntas de metrô? Eu reparei em algumas coisas... Eu reparei em como você age... E acho que posso te dar um conselho, Lizzy.
- Hum... O quê? – levantou os olhos do cardápio e a encarou, curiosa.
- Lizzy, amiga, você simplesmente não olha para os lados, não nota o que se passa ao teu redor... Se alguém se sentar ao teu lado no metrô todos os dias você é capaz de nem perceber...
- Ah, que é isso, Charlotte, não é bem assim...
- É assim sim, e você sabe que é.
- É... Talvez seja assim, mas essa é a única hora que eu tenho para ler...E eu adoro ler...
- Lizzy, eu sei que você gosta de ler, mas me promete uma coisa?
- O que Charlotte?
- Todos os dias, a partir de amanhã, você irá levantar os olhos do livro e olhar ao redor por pelo menos cinco minutos.
- Cinco minutos? Está bem, Charlotte. Acredito que consigo fazer isso por cinco minutos – respondeu, achando graça do pedido desconexo da amiga.
No dia seguinte, Lizzy seguiu sua rotina normalmente, mal se lembrando da conversa do dia anterior. Mas quando o trem já estava na metade do caminho até sua casa, lembrou-se do pedido de Charlotte. Cinco minutos – ela repetiu para si mesma – creio que cinco minutos não me farão tanta falta assim. Penso que o livro pode me esperar por cinco minutos – reforçou tal pensamento, já levantando a cabeça para olhar ao redor.
Um homem de meia idade dormia com a cabeça escorada na janela, uma mulher brigava com sua filha pequena que não queria ficar quieta num banco próximo ao dela, um homem mastigava um resto de sanduíche de boca aberta – que nojo, ela pensou, desviando rapidamente os olhos.
Em menos de dois minutos, já tinha observado quase todos os cantos do trem em movimento e logo perdeu o interesse. E ainda faltavam três minutos, constatava vendo os lentos ponteiros de seu relógio de pulso, impaciente para voltar ao seu romance.
Ok Charlotte, o que eu não faço por você – pensou, resistindo bravamente a vontade de voltar ao livro.
E então algo chamou sua atenção: nos últimos bancos, nos assentos disponíveis na parte de trás do trem, havia um homem sentando lendo um enorme jornal. O jornal em que ela trabalhava! Concentrou toda atenção sobre ele e quando viu já havia passado mais de três minutos. E nesse tempo todo ele sequer se mexeu ou tirou os olhos do jornal. Ele parecia com ela – concluiu, achando graça.
Ficou esperando - mesmo tendo passado mais de cinco minutos - ele virar a página. Queria ver se enxergaria o seu rosto, pois tudo que conseguia ver até aquele momento eram suas mãos. Belas mãos – e pelas mãos imaginou que o resto também fosse bonito. E ele não tinha aliança, percebeu rapidamente.
Então ele fez um movimento e virou uma página, mas mesmo virando a página, pouco se mexeu e ela não pôde ver nada além do jornal. Cansou de esperar, e logo voltou sua atenção para o livro. Amanhã teria mais cinco minutos e quem sabe visse algo diferente? E quem sabe amanhã conseguisse ver melhor o homem do jornal? Sim – era assim que o chamaria daquele dia em diante: o homem do jornal! E será que alguém a chamava da “garota do livro”- concluiu por fim, com vontade de rir.
No dia seguinte, tão logo subiu no metrô, percebeu que ele já estava lá: sentado, no mesmo lugar, com um jornal em frente ao rosto. Curiosa, resolveu “gastar” seus cinco minutos antes mesmo de iniciar a leitura. Mas como no dia anterior, não conseguiu ver nada, e logo voltou sua atenção ao livro. E assim passou a semana inteira, sem que ela conseguisse ver a face do “homem do jornal”.
Charlotte tinha razão – concluiu olhando para ele – quantas pessoas podem ter reparado em mim sem que eu sequer as notasse.
Mas na semana seguinte algo aconteceu: um toque de celular! Ela virou logo para trás, na esperança que fosse o celular do homem do jornal. E era! Mas ele atendeu sem tirar o jornal de sua frente.
Como ele consegue fazer isso: atender o celular sem largar o jornal? – ela pensou, com raiva e com vontade de correr até lá e arrancar o jornal. Mas então se acalmou, ouvindo pela primeira vez a voz dele.
A voz do homem do jornal era simplesmente linda! E ela logo imaginou aquela voz rouca ao seu ouvido, aquela voz rouca falando exclusivamente para ela. E pela conversa de trabalho, deduziu que ele deveria ser advogado.
Só posso estar ficando louca – puniu-se em pensamento – sonhando com um homem que eu sequer vi! E resolveu que não olharia mais para ele, estava cansada de ficar imaginado o que havia por trás daquele jornal.
E assim passaram-se os dias, e diariamente, por mais que não quisesse, ela gastava os seus cinco minutos inteiros olhando para ele. Já conhecia três de seus pares de sapatos, já conhecia seu estilo de calça – porque calças, sapatos e as mãos, era tudo o que ela conseguia ver. Era tudo o que o enorme jornal deixava descoberto. Mas havia perdido a esperança que ele espontaneamente largasse o jornal e já fazia planos de sentar-se ao lado dele. Fazia planos de iniciar uma conversa, só para conseguir olhar para ele. Mas sempre que tencionara fazer isso, lhe faltava coragem. E afinal, o que diria?
Um dia, sem que ela precisasse se esforçar para isso, o que ela mais desejava aconteceu. Simplesmente aconteceu quando ela já estava desistindo... Após mais de três semanas de intensa curiosidade, ela finalmente o viu.
Uma mulher de meia idade entrou no trem com uma criança que mais parecia sua neta. Uma menina linda, com cabelos loiros cumpridos e encaracolados, que aparentava ter por volta de seis anos de idade. Uma criança com um encantador sorriso no rosto, que parecia se divertir com uma pequena boneca que trazia à mão. Uma criança alegre e simpática, que cativava e seduzia quem estivesse por perto.
Se a menina não tivesse entrado nos cinco minutos que Elizabeth tirava para observar ao redor, com certeza não repararia nela. Mas naquele momento, Elizabeth prestava atenção e a seguiu com o olhar. A seguiu e percebeu quando ela se dirigiu para sentar ao lado do homem do jornal. E vendo a criança ao seu lado, aquela criança linda e encantadora, ele baixou o jornal e iniciou uma conversa com ela.
Elizabeth não acreditou, e não conseguiu disfarçar seu espanto: ele enfim baixou o jornal! – fixou o olhar sobre ele, sem conseguir desviar. O homem atrás do jornal era lindo! Com os cabelos castanhos e olhos de um intenso azul, feições agradáveis e simétricas, ele era simplesmente perfeito! E sorria para a criança, e seu sorriso parecia o sorriso mais belo do mundo!
Elizabeth fixou os olhos sobre ele, sem perceber direito o que fazia, sem conseguir disfarçar. Apenas não conseguia não olhar para ele, estava paralisada, e só o que queria fazer naquele momento era continuar olhando. Estava boquiaberta, atordoada, e sua expressão revelava tudo o que sentia naquele momento. E foi então que ele a viu.
O homem do jornal virou-se para a frente e percebeu os olhos dela fixos sobre ele. Era claro e nítido que ela já o observava há algum tempo. E por alguns segundos, seus olhares se cruzaram. Antes que Elizabeth, envergonhada, como se tivesse sido pega em flagrante, rapidamente baixasse o rosto e fingisse prestar atenção ao seu livro. Seu coração batia com agitação e precisou de vários minutos para voltar ao normal. Tomou fôlego e coragem, e novamente virou para trás.
Desta vez, ele mantinha o jornal ao seu lado e fitava uma janela, parecendo distraído, com um suave sorriso no rosto. Ele estava sorrindo – Elizabeth constatou, sem vontade de desviar os olhos. Por que será que ele está sorrindo? – ela se perguntava, agitada e nervosa. Então ele novamente olhou para ela, e desta vez ela não desviou o rosto tão rápido. Ficaram se encarando por quase um minuto, quando por fim a vergonha venceu e ela baixou a cabeça. Tentou retomar a leitura, mas não conseguiu prestar atenção em mais nada.
O homem do jornal era lindo e olhara para ela! E agora, como seria nos próximos dias? Como seria nas próximas vezes em que se encontrassem? Mas já era sexta-feira e teria que esperar passar o fim de semana para descobrir.
Durante a semana seguinte, ele continuou a ler o jornal, apenas cuidando para deixar o rosto descoberto, e ela continuou a ler seu livro, ou fingindo que lia. E por várias vezes durante todos os dias que se encontraram, trocavam olhares. Às vezes ela percebia que ele a olhava e às vezes ocorria o contrário. E por vários momentos seus olhares se cruzavam.
E assim, com esse clima de paquera no metrô, a sexta-feira chegou novamente. Só que nessa sexta-feira, ele não desceu em sua habitual estação e sim antes dela. E ao passar por ela, bateu delicadamente em seu braço e lhe estendeu um cartão, que ela demorou um pouco mais que o normal para pegar, pois ficou sem reação com a surpresa. Ele apenas sorriu e nada disse, ao lhe alcançar o cartão, e logo se afastou e saiu do trem em seguida sem virar para trás.
Elizabeth ficou o resto do trajeto com os olhos fixos no pequeno cartão branco acinzentado. Tinha o tamanho exato de um cartão de visita, mas estava escrito à mão.
“Encontre-me sábado no bar do Joe às 20 horas.” – embaixo havia o endereço e uma sigla que devia ser o nome dele: W. D.
Ela não conhecia a rua, nunca havia ouvido falar no tal de bar, mas estava decidida a ir. Iria de qualquer jeito! Afinal, não era um encontro com um homem qualquer, era um encontro com ele: o homem do jornal. O homem W.D. do jornal! Tentava imaginar o nome dele pelas iniciais, mas não chegou a nenhuma conclusão e logo desistiu e decidiu chamá-lo de o homem W.D. lindo do jornal.
(Continua)
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