Capítulo 3
Poderia se dizer que Elizabeth nunca passara um fim de semana inteiro ansiando pela segunda-feira antes. E a segunda nunca demorou tanto a chegar.
A caminho da escola, dentro do trem, acompanhada pela irmã e a amiga, aguardava a parada em que William subiria no trem. Ela não sabia o que esperar daquele reencontro.
Ficar com alguém em uma festa é comum para os adolescentes na sua idade. Na maioria das vezes, não passava disso. Algo passageiro e totalmente fugaz. E William não tinha lhe dito ou feito algo que pudesse sugerir o contrário. Ao invés disso, se fosse tomar o seu completo silêncio durante o fim de semana como sinal, poderia afirmar que o interesse dele nela era temporário. E, provavelmente, já estava extinto.
Dizia a si mesma para não alimentar expectativas. Mas seu coração batia cada vez mais veloz enquanto o trem se aproximava de sua estação. Até que finalmente parou e ele subiu.
Charles estava à frente e, ao passar ao seu lado, levou sua irmã para se sentar em um banco mais atrás. Richard veio em seguida e, desta vez, foi Charlotte quem decidiu abandoná-la sem convite. Seguindo-o e sentando-se ao lado de Richard.
William lhe dirigiu aquele olhar analítico que revirava suas entranhas. Por um instante Elizabeth acreditou que ele iria seguir adiante e procurar outro lugar para se sentar, como fizera na semana passada.
Mas ele alcançou a mochila e retirou-a de suas costas, vindo a ocupar o lugar vago ao seu lado. Descansando a mochila no colo, como ela. Virou o rosto em sua direção e disse.
--Bom dia.
--Bom dia. – Elizabeth respondeu, com a voz falhando de nervosismo.
Enquanto se fitavam, o costumeiro silêncio incômodo recaiu sobre eles. E, entristecida com este fato, Elizabeth virou o rosto na direção da janela e ficou fitando o vazio, decepcionada.
Em silêncio, xingava-se de estúpida. Como pudera se deixar fantasiar com este momento? Acreditar que seria diferente?
E sabia que não fora à única. Ao perceber o silêncio de seus amigos, podia deduzir que todos eles os observavam, aguardando alguma indicação de como eles ficariam. E sentiu-se ainda pior, por saber que tinha expectadores para sua humilhação.
Suspirou pesadamente. Ouviu-o pigarrear baixinho. Virou o rosto em sua direção e o viu a observá-la.
--O que foi? – Perguntou-lhe, tentando não soar triste ou zangada.
--Nada. – Ele respondeu daquele mesmo jeito constrangido e estranho de sempre.
Permaneceu a fitá-lo, tentando desvendar o que ele queria. Imaginou se ele não poderia desejar lhe dizer alguma coisa e não soubesse como, ou não se sentisse a vontade com aquela platéia – já que se dizia tímido. Mas aquele olhar azul penetrante continuava tão misterioso quanto antes.
No entanto, tinha a desconfiança de que ele conseguia lê-la claramente. Adivinhando seus pensamentos e sua decepção. E talvez isto estivesse alimentando ainda mais o seu ego masculino e satisfazendo-o. Certamente devia se deliciar com as menininhas bobas que se apaixonavam por ele por tão pouca coisa, como alguns míseros beijos.
Engolindo a indignação, voltou a virar o rosto para janela. Mas sentiu-o alcançar a sua mão, que estava sobre a sua mochila ao seu colo. E virou o rosto para poder observar o que ele faria. Talvez ele lhe desse um bilhete.
Assisti-o virar a sua mão, com a palma para cima, e segurá-la, entrelaçando os dedos com o seu. Surpresa, olhou para ele. William deu-lhe o mais perfeito e íntimo sorriso que já vira agraciar o seu rosto, assim como apertou suavemente a sua mão. E este simples gesto falou mais alto que mil palavras.
Presa naquele mesmo olhar que fazia o pêlo de sua nuca se arrepiar, Elizabeth podia sentir o rubor tomando conta de suas bochechas. Mas não pôde conter o próprio sorriso em resposta ao dele.
*
O seu dia-a-dia na escola mudou a partir desta manhã. O seu grupo de amigos agora era inseparável, até mesmo dentro da sala sentavam-se juntos. E pelos corredores, William estava sempre ao seu lado – segurando a sua mão ou com o braço envolta de sua cintura.
Não demorou muito para Elizabeth descobrir o quanto ele era reservado e discreto. Embora demonstrasse o carinho imenso que sentia por ela através de gestos e pelo grau de atenção que lhe dispensava, quase nunca lhe beijava em público. E quando o fazia, não passava de um simples roçar de lábios. Ele sempre guardava aqueles beijos ardentes para quando estavam sozinhos – e sempre achava um jeito de ficar a sós com ela, nem que fosse por alguns minutinhos apenas.
Mas, como qualquer casal de sua idade, o seu relacionamento não estava definido. Quando alguém os perguntava se estavam namorando, ela dizia:
--Eu não sei. Estamos? – Redirecionando a pergunta a ele.
--Não sei. – Ele replicava, sem preocupação.
Ela não se incomodava com isso, no entanto. E daí que ele não tomava a iniciativa de pedi-la em namoro? Por que se importaria com rótulos, quando sabe que ele só quer ficar com ela e ela só quer ficar com ele? Pois sim, disto ela tinha certeza. Sabia das outras meninas que tanto o perseguiam e, entretanto, era ela quem ele desejava e com quem estava.
Durante um mês inteiro eles namoraram, se divertiram, conversaram bastante e começaram a se conhecer de verdade.
Numa tarde no meio da semana, William convidou a todos para ir ao seu apartamento assistir a um filme. Elizabeth adorou esta oportunidade de conhecer onde ele morava, já que nunca estivera em seu apartamento antes.
Os pais dele estavam trabalhando e só encontraram a irmãzinha dele de sete anos em casa, além dos empregados. Enquanto seus amigos discutiam o que deviam assistir dentre o acervo de DVDs que William possuía e ele providenciava o lanche daquela tarde na cozinha com sua empregada, a irmã dele se aproximou de Elizabeth.
--Qual é o seu nome? – Elizabeth perguntou-lhe, sorrindo para a menina que a observava em silêncio.
--Georgiana. – A menina respondeu, tímida.
--Meu nome é Elizabeth. Mas todo mundo me chama de Lizzie.
--Você quer ver uma coisa? – Georgiana perguntou, murmurando.
--Claro. – Elizabeth respondeu, levemente curiosa.
Georgiana segurou em sua mão e a guiou para um corredor, seguindo em seguida para os quartos. Passou direto enfrente a porta de um quarto decorado com fadas, parando diante de uma porta fechada. Abriu a porta e as duas entraram num quarto com uma decoração masculina – com detalhes em azul e preto.
Elizabeth adivinhou tratar-se do quarto de William e quase retrocedeu seus passos, incerta se ele gostaria daquela invasão de privacidade. Mas Georgiana continuou a puxá-la pela mão em direção a um mural de fotos próximo a uma estante de livros e o computador. Sua curiosidade falou mais alto e Elizabeth permitiu-se ser arrastada até o mural.
Georgiana apontou para um desenho pregado no mural, feito numa folha de caderno. E Elizabeth ficou deslumbrada ao deparar-se com um retrato a lápis dela mesma. Um retrato que não se lembrava de ter pousado.
Ela estava com o rosto levemente virado para o lado, o olhar perdido e distante. O seu cabelo moldurava o rosto e de alguma forma William conseguira dar o efeito da luz e das sutis ondas de cachos a ele– embora o desenho não fosse colorido.
Perguntou-se quando ele desenhara. Viu uma inscrição na base do desenho, na sua letra apertada e elegante. Estava escrito:
“Ela não estava muito feliz hoje.
05.10. 2009”
Elizabeth voltou a olhar para o desenho, tentando ver o que ele vira nela naquele dia para pensar daquela forma. Era tristeza que ele enxergava no seu olhar? Tentou se lembrar de algum motivo para tê-la feito ficar triste neste dia, mas não conseguia pensar em nada. Fora há tanto tempo.
--Como ele sabe que eu estava triste? – Perguntou-se em voz alta.
--Você estava muito calada. – Ouviu a voz dele.
Assustada, voltou-se na direção da voz. Encontrando-o parado a porta, encostado ao batente, observando-a.
A irmã dele riu baixinho, constrangida – Elizabeth viu muitas semelhanças entre eles neste momento. E, em seguida, ela se apressou a sair do quarto dele, como se temesse uma bronca de sua parte.
--Você está insinuando que eu falo demais? – Perguntou-lhe, disfarçando o seu próprio constrangimento com aquele flagrante.
--Você é muito comunicativa. – Ele argumentou, entrando no quarto e se aproximando dela. – Eu não me lembro de ter ouvido a sua voz neste dia.
Elizabeth se voltou para o desenho de novo e tentou se lembrar daquele dia, ou do motivo para tê-la deixado triste. Mas continuou sem conseguir.
--Está datado do ano passado... Outubro do ano passado. – Comentou, olhando para ele.
--Hum-hum. – Ele murmurou; provavelmente já adivinhando onde ela queria chegar.
--Eu não me lembro de ter pousado para você. – Ela continuou a fazer estas pequenas afirmações, rodeando o assunto.
--Você estava distraída. Sempre olhando pela janela do trem. – Ele explicou.
--Você desenhou isto a caminho da escola, dentro do trem? – Questionou, surpresa; imaginara que ele fizera o desenho na escola, na sala de aula ou durante o intervalo.
--Voltando da escola. – Ele esclareceu.
Ela ficou em silêncio, olhando para o desenho e maravilhada com a sua habilidade.
--Você já gostava de mim naquela época, hem? – Perguntou em seguida, com um sorriso faceiro nos lábios.
Ganhou um de seus risinhos constrangido, junto com a resposta:
--Você foi a razão de eu ter começado a tomar o trem como condução para ir e voltar da escola.
Elizabeth ficou ligeiramente boquiaberta com esta confissão.
--Eu não fazia idéia. – Comentou. – Por que você nunca tentou conversar comigo? Se aproximar?
--Eu não sabia o que dizer. – Ele esclareceu, com simplicidade.
--‘Olá!’. – Ela propôs.
--Isto teria lhe conquistado? – Ele inquiriu, incrédulo.
--Praticamente. – Elizabeth replicou, séria.
Ele riu, passando a mão no cabelo com charme.
--Este sorriso teria me conquistado definitivamente. – Ela acrescentou.
Ele ficou sério e se aproximou, beijando-a com aquela paixão que reservava para os momentos em que estavam completamente a sós.
*
Não havia mais dúvidas. Se alguém se desse o trabalho de lhe perguntar se estavam namorando, agora Elizabeth saberia exatamente o que responder. Seria um ressonante sim. Mas ninguém parecia mais interessado nisso. Até mesmo as antigas fãs dele esqueceram-nos e encontraram outro objeto de admiração para personificar suas fantasias diárias.
Após este episódio, Elizabeth decidiu que o apresentaria a seus pais. Marcaram um cinema e ao invés de encontrá-lo no shopping como de costume, pediu para que fosse buscá-la em casa. Aproveitando-se dos poucos minutos em que esteve em sua casa para apresentá-lo aos pais. Não como um colega de escola ou amigo, mas como namorado. E William não pestanejou ou pareceu remotamente contrariado.
No dia seguinte, para sua surpresa, foi o seu dia. Recebeu o convite de almoçar em sua casa e então o jogo foi revertido. E, enfim, o namoro evoluiu para algo mais sério.
Com a proximidade do fim do ano, não era o seu relacionamento com William que a preocupava. E sim o curso universitário. Parecia-lhe que todos a sua volta sabiam o que queriam fazer, exceto ela. William, em particular, parecia ter o seu futuro acadêmico todo planejado e estava animado com a perspectiva de ir à faculdade.
Ela chegava a invejá-lo. Ele e a sua própria irmã. Jane sabia o que queria e, como ele, ansiava por aquela nova experiência. Enquanto Elizabeth a temia.
Em termos de estudos, Elizabeth era como a maioria dos outros garotos da sua idade. Havia aquelas matérias que se empenhava para compreender e secretamente amaldiçoava quem as tivesse inventado. Existiam aquelas que era boa sem muito esforço. E uma ou duas que podia se considerar talentosa. No entanto, não podia dizer que lhe atraiam o suficiente para lhe desperta o desejo de aprofundá-las.
Cerca de um mês antes do começo do período de avaliações de fim de ano, recebeu a resposta a inscrição em um programa de intercambio que fizera assim que começou a fazer o curso de línguas estrangeiras, quando ainda era primeiro ano. Algo que sequer se lembrava mais.
Remoeu a idéia em sua mente por duas semanas sem comentar com ninguém, antes de abordar a irmã e, em seguida, os pais com o assunto. E mais uma semana para informar William a respeito.
Coma aproximação do verão, a temperatura começou a elevar-se. E em dias realmente quentes, era possível sair até mesmo à noite com apenas um casaquinho fino para se proteger. E, nestas noites, ao invés de se manterem reclusos dentro de casa, Elizabeth e William aproveitavam para passear pela praça perto da casa dela. Longe dos olhos de seus pais, eles se sentiam mais a vontade para beijar.
Naquela noite em particular, sentados no banquinho da praça em que se podia ver as poucas estrelas do céu da cidade, Elizabeth procurava uma forma de trazer o assunto a baila.
Por fim, insegura, simplesmente disse.
--Eu tenho uma coisa que preciso te contar. – Ganhando sua total atenção de imediato.
William estava com o braço por detrás de seu ombro, descansado no banco. E apenas voltou o rosto com uma expressão tranqüila em sua direção. E logo começou a acariciar o seu cabelo.
--Quando estava no primeiro ano, me inscrevi junto com Jane num programa de intercâmbio do curso de línguas estrangeiras que faço. – Começou a explicar, enquanto ele a escutava em silêncio. – É um programa muito disputado e como nenhuma de nós recebeu resposta alguma por tanto tempo, chegamos a nos esquecermos dele.
Sabia que estava dando voltas no assunto, mas não sabia como evitar.
--Mas recentemente... eu recebi uma resposta. Duraria um ano. – Ao dizer isso, sentiu-o para de mexer em seu cabelo e o sua expressão facial começar a ficar sombria. – Seis meses em Roma e outros seis meses na Grécia.
Ela esperou que ele dissesse algo, mas William permaneceu em silêncio. Olhando-a nos olhos com aquele tão conhecido olhar analítico e intenso.
--Eu ficaria hospedada na casa de outro integrante do programa de intercâmbio, que estaria vindo se hospedar na minha casa pelo período idêntico ao meu. Tudo funciona numa espécie de rodízio. – Ela esclareceu, procurando preencher aquele silêncio com algo. – De forma que os meus pais só gastariam com a passagem de vôo e me dariam algum dinheiro para qualquer necessidade que tivesse por lá.
Ele ainda permaneceu em silêncio.
--É uma oportunidade que talvez eu nunca mais tenha de conhecer estes lugares. – Ela argumentou. – Eu não digo visitar por uma semana como um turista qualquer. Mas realmente vivenciar o local e conhecê-lo.
--Quando você ficou sabendo? – Ele enfim perguntou.
--Cerca de algumas semanas. – Ela respondeu, temerosa.
--Semanas? – Ela podia detectar na sua voz a sua mágoa. – E só agora decidiu me contar?
--Eu não tinha certeza se iria ou não. – Elizabeth respondeu, sentindo-se culpada.
--Agora tem. – Ele afirmou, retirando o braço do encosto do banco às suas costas e desviando o seu olhar.
Ela sabia o que ele estava pensando. Sabia o que aquilo significava para o relacionamento deles e que ele conseguia ver isso tão bem quanto ela.
Enquanto acreditava que no máximo que teriam de enfrentar seria freqüentarem faculdades diversas e não poderem mais se ver todos os dias, existia uma chance de continuarem juntos. Mas agora, em países diferentes por tanto tempo, não enxergava como poderiam sobreviver.














