CAPÍTULO 14
O trabalho na Editora Gardiner era bastante tranquilo. A sua função era ler as propostas de livros que autores desconhecidos lhe enviavam através de e-mails e avaliá-los. Se encontrasse algum material de extrema qualidade, passava este material para a sua supervisora de departamento – ela selecionava os melhores manuscritos e propunha a publicação deles diretamente com o sr. Gardiner.
Se o material apenas demonstrasse potencial, Elizabeth escrevia de volta para o autor aconselhando-o nas alterações necessárias e encorajava-o a enviar outros materiais para futuras avaliações.
O único momento em que Elizabeth não se sentia confortável com o seu trabalho era quando precisava fazer uma crítica negativa; quando deparava-se com um trabalho de qualidade duvidosa ou simplesmente repetitiva – o que era bastante comum, principalmente com esta febre de lobisomens e vampiros. Parecia até que as pessoas não conseguiam escrever sobre mais nada. Originalidade e inventividade pareciam ser talentos escassos.
Ela tinha um próprio sistema para organizar o seu dia de trabalho. Pela manhã, lia todos os mateiras que possuísse um volume menor de arquivos. Assim podia ler, em média, cinco pequenos projetos e enviar-lhes as respostas condizentes com suas avaliações. E, após o almoço, abria os arquivos mais volumosos. Lia entre dois a três capítulos de cada, para avaliar aqueles que despertavam o seu maior interesse e a instigavam a querer ler o restante, para depois imprimir um ou dois deles. Levando-os para casa, para ler com mais cuidado.
Hoje não tinha sido muito diferente. A manhã havia sido tranquila, até mesmo engraçada. Recebera um projeto de livros com cinco capítulos de uma comédia romântica que quase a levara a fazer xixi nas calças de tanto rir.
Fora almoçar com Eleonora e surpreendera-se quando George Wickham se juntou a elas – pareceu-lhe que sua amiga e cunhado estavam se envolvendo amorosamente. Embora nenhum dos dois houvesse admitido isso em voz alta, Elizabeth conseguira identificar aquela tensão sexual vibrando no ar entre os dois.
Após o almoço, abriu os arquivos mais volumosos e começou a lê-los. Estava na metade da tarde, quando selecionara um que despertara seu interesse e começou a imprimi-lo.
Foi diante da impressora que a sra. Gardiner a encontrou.
- Srta. Bennet, será que você poderia me acompanhar até a sala do sr. Gardiner?
- Há algum problema, sra. Gardiner? – Elizabeth estranhou.
O seu patrão nunca se dirigira a ela pessoalmente, a não ser quando discutiram os detalhes do contrato de publicação de seu livro. No tocante a sua função dentro da editora, era a sua Supervisora, do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, ou a Supervisora de Recursos Humanos quem a contatava.
- Não há problema algum. – A sra. Gardiner garantiu, sorrindo cordialmente. – Por favor, por aqui. – Insistiu, indicando o caminho até a sala do sr. Gardiner.
Ao atravessar a porta do escritório, encontrou o sr. Gardiner acompanhando por uma senhora na casa dos seus sessenta anos, com um ar austero e soberbo. A senhora a fitou dos pés a cabeça, avaliativamente, antes de voltar-se para o sr. Gardiner.
- Elizabeth, esta é Catherine De Bourgh. Ela é co-fundadora da Rosings Park Telecomunicações.
A qual Elizabeth sabia se tratar de uma produtora famosa dona de uma cadeia de Canais de TV e Redes de Jornais. Assim como produtora de filmes e séries televisivas.
- Sra. De Bourgh, esta é Elizabeth Bennet. Autora de Bewitched, Amaldiçoada.
O sr. Gardiner lhe explicou que a sra. De Bourgh parecia impressionada com o seu livro e requisitara uma entrevista com Elizabeth. Então, o sr. Gardiner saiu do seu próprio escritório, fechando a porta às suas costas e deixando as duas mulheres sozinhas.
- Estou certa que você não está nem um pouco surpresa com a minha presença aqui. Com certeza já sabe o porquê de eu ter vindo lhe ver. – A Sra. De Bourgh declarou, com ar superior.
- A senhora se engana. Eu não sei a que devo esta honra. – Elizabeth replicou, sincera; em sua ingenuidade, perguntava-se se seria possível que ela estivesse interessada em transformar o seu livro em um filme.
- Eu lhe aviso, srta. Bennet, não gosto que brinquem comigo. Sou uma mulher muito ocupada e não tenho tempo para desperdiçar com gracinhas. – A sra. De Bourgh anunciou, raivosa. – A notícia mais alarmante chegou ao meu conhecimento e fui obrigada a encurtar a minha viagem de negócios em Nova York e retornar a Londres só para resolver este problema.
- Temo que haja algum mal entendido acontecendo, sra. De Bourgh. Eu não faço idéia como qualquer problema que a senhora esteja enfrentando possa estar relacionado comigo. – Elizabeth respondeu, surpresa com o tom da senhora.
- Ora, se foi você mesma quem o causou. – A sra. De Bourgh praticamente gritou a réplica. – Ou você vai tentar negar que pretende se unir em matrimônio ao meu sobrinho, William Darcy, este próximo Sábado?
Elizabeth ficou momentaneamente sem palavras. Aquela era a tia de Darcy? E, por Deus, como o casamento deles poderia ofendê-la?
- Eu não nego. – Elizabeth, por fim, respondeu.
- Muito bem. – A sra. De Bourgh disse, recompondo-se. – Finalmente estamos chegando a algum lugar. – Declarou com um ar profissional.
E indo se sentar à cadeira do Sr. Gardiner, abriu uma pasta com vários documentos e os colocou na mesa, voltados para Elizabeth.
- Rubrique em cada uma das folhas e assine na última. – Demandou, entregando-lhe dois contratos. – Não precisa ler.
E, abrindo a bolsa, retirou uma caneta, entregando a Elizabeth. Depois retirou o talão de cheque da própria bolsa e ocupou-se em preenchê-lo.
- O que é isso? – Elizabeth preguntou, sem nem mesmo pegar os documentos que ela lhe entregara. Continuando a observá-la, espantada com sua atitude.
- Este aqui é um contrato em que você se compromete a se afastar definitivamente do meu sobrinho e abrir mão total da guarda de seu filho em favor de Darcy após o seu nascimento, mediante, é claro, a confirmação da paternidade pelo exame de DNA. – A senhora explicou com tom frio, típico de uma transação de negócios. – E este aqui é um contrato em que eu me comprometo em transformar o seu romancezinho de banca de revista em um filme recorde de bilheteria.
Ao terminar de preencher o cheque, ela também o entregou-o a Elizabeth. Quem deparou-se com um valor astronômico.
- Este é o seu primeiro pagamento. Você receberá a segunda parte com o nascimento com vida da criança e a sua subsequente renuncia da guarda. – A senhora prosseguiu, indiferente à imobilidade de Elizabeth. – É claro, você também terá direito aos lucros arrecadados do filme. De forma que você terá a vida tranquila e abastada que tanto almeja alcançar através do casamento com o meu sobrinho.
- A senhora enlouqueceu. – Elizabeth pronunciou. – Eu não quero o seu dinheiro. E não vou assinar contrato algum. – Elizabeth disse, abandonando o cheque sobre a mesa com os demais contratos.
Elizabeth se afastou em direção a porta, dando aquela entrevista como encerrada. Ainda atordoada com a audácia da mulher em vir ao seu trabalho lhe fazer aquela proposta absurda.
- Um momento aí, mocinha. – A sra. De Bourgh se ergueu da cadeira e contornou a mesa, elevando a voz ao se aproximar de Elizabeth. – Com quem você pensa que está lidando?
- Com uma mulher insana! – Elizabeth rebateu, na mesma moeda.
- Insolente! – A sra. De Bourgh resmungou. – O que você acha que irá ganhar me enfrentando? Garanto-lhe: nada!
Elizabeth manteve sua posição, negando-se a abaixar a cabeça para a preposição da mulher.
- Eu já lidei com muitas mulheres interesseiras como você. E, asseguro-lhe, o melhor para você é sentar-se naquela cadeira e assinar aqueles documentos sem objeções. Pois se acredita que permitirei que este casamento que você aspira acontecer, engana-se! Eu farei tudo que estiver ao meu alcance para impedi-lo e nada, nem ninguém irá me impedir de alcançar o meu objetivo.
- Faça o que bem entender. – Elizabeth replicou, furiosa. – A senhora já me ofendeu o bastante. Já não tenho mais nada a lhe dizer. Faça o favor de ir embora. Eu tenho trabalho a fazer. – Ao dizer isto, abriu a porta da sala do sr. Gardiner e saiu, sem esperar que a sra. De Bourgh fizesse o mesmo.
Passou pelo sr. e a sra. Gardiner sem dizer nada, seguindo em direção ao seu cubículo, ignorando os gritos e protestos da sra. De Bourgh. Quem seguia em seu encalço.
- Guarde minhas palavras, srta. Bennet. Você irá se arrepender de não ter feito negócios comigo. Sei exatamente o que preciso fazer agora!
Elizabeth sentou-se em sua a cadeira e liberou um suspiro frustrado. Tentou retomar o trabalho e levou a mão ao mouse do computador, vindo a notar que sua mão tremia. Depositou as duas mãos trêmulas no colo e percebeu que suas pernas também tremiam.
Fechou os olhos e respirou fundo de novo, notando as batidas apressadas do seu pobre coração. Estava quase conseguindo se acalmar, quando detectou o silêncio mortal a sua volta. Não havia um ruído ou burburinho de conversas entre os seus colegas de trabalho. Estavam todos quietos, quietos demais para o seu gosto.
Não precisou olhar a sua volta para adivinhar que estava sendo observada. Forçando-se a ignorá-los, pousou a mão sobre o mouse, decidida, e continuou a trabalhar como se nada houvesse acontecido.
#
Darcy estava enfrentando a semana mais movimentada de sua vida desde que assumira a direção da Editora. Em vias de seu casamento, decidira adiantar ao máximo os seus trabalhos para que pudesse ficar uma semana, ao menos, afastado da Editora, em lua de mel.
E agora via seus preciosos planos interrompidos pela chegada abrupta de sua tia.
- Sr. Darcy, perdoe-me interrompê-lo. Mas a sua tia, a sra. De Bou...
A sra. Hill sequer tivera tempo suficiente para anunciá-la direito antes de sua tia entrar em sua sala, tempestuosa.
- Eu exijo conversar com você a sós, imediatamente! – E, lançando um olhar maligno a sra. Hill, comandou. – Retire-se.
A sra. Hill fitou o patrão, alarmada, e recebeu um discreto aceno de Darcy em concordância. Permitindo a sua saída.
Assim que a assistente de Darcy fechou a porta à suas costas, Darcy se manifestou.
- Por favor, minha tia, sente-se. – Darcy indicou uma das poltronas enfrente a sua mesa. – Posso servir-lhe algo? – Prontificou-se, erguendo-se de sua cadeira e indo até o aparador onde colocava as suas bebidas; expressando uma cordialidade que estava longe de sentir no momento.
- Eu dispenso esta sua desenvoltura de bom anfitrião. – A senhora resmungou, tomando o assento que lhe foi indicado. – Esta não é uma visita social, Darcy. Eu vim aqui com um proposito. E serei ouvida.
- Sendo assim... – Darcy retornou a sua cadeira. – a que devo a honra de sua visita, minha tia?
- A surpreendente e alarmante notícia do seu casamento este próximo sábado. – A mulher, prontamente, replicou. – Tão inesperada quanto absurda.
- Falho em perceber como a perspectiva do meu iminente casamento seja inesperada ou absurda, minha tia. Os convites do casamento foram entregues há mais de um mês. Como a senhora pode estar surpresa com a proximidade do evento, escapa a minha compreensão. – Darcy pontuou.
- Ora, ora! Parece-me que você se tornou um comediante, Darcy. Eu esperava que você encarasse este assunto com mais seriedade. – A mulher resmungou.
- Não estou fazendo piadas, minha tia. – Ele replicou, com o seu tom mais frio. – Na verdade, eu estou confuso quanto ao motivo da sua aparição tardia.
- Eu estava viajando a negócios. E você sabe muito bem que o meu assistente pessoal tem ordens específicas para não me incomodar com convites para eventos sociais quando estou ocupada com assuntos mais sérios. – A senhora explicou-se a contragosto.
- Pois a senhora devia explicar ao seu assistente que o meu casamento não é um simples evento social. – Darcy rebateu.
- Isto pouco importa agora, Darcy. – A sra. De Bourgh refutou. – Eu quero uma explicação sua, meu jovem. Onde você estava com a cabeça quando propôs casamento àquela mulher? – Dirigindo-se a ele como se Darcy ainda fosse um adolescente. – Uma mulher sem consequência, filha de um servidor público aposentado que não passa de um ermitão esquisito e uma dona de casa sem sequer um diploma de segundo grau! Uma interesseira, aspirante à escritora, que está tentando se alçar no mundo literário através do casamento com o dono de uma das Editoras mais famosas do Reino Unido.
Darcy escutou-a em silêncio. Conhecia bem demais a sua tia para tentar interrompê-la e contradizer as suas noções equivocadas. Se o fizesse, estaria apenas lhe dando mais combustível para prosseguir com aquela discussão.
O melhor a ser feito é deixá-la ventar as suas frustrações, enquanto a ignora descaradamente. Um momento ou outro, ela perceberia que ele estava fazendo-se de surdo e pararia com aquela diarreia verbal. Então Darcy poderia dar-lhe a resposta que merecia.
- Como você se deixou cair na armadilha mais antiga do mundo? O truque da barriga, Darcy? – A sra. De Bourgh prosseguiu. – Será que você não percebeu que foi tudo premeditado por ela para lhe forçar a pedi-la em casamento? O repentino afastamento dela da Editora Darcy para ir trabalhar numa editorazinha obscura de segunda categoria; o encontro de você naquele hotel de luxo que eu duvido que ela já tenha terminado de pagar as prestações....
Darcy ergueu as sobrancelhas, espantado. Sua tia, pelo visto, não perdera tempo em fazer o seu dever de casa e andara investigando tudo a respeito do seu relacionamento com Elizabeth.
- Aposto que ela fez os cálculos certinhos para poder te arrastar para a cama quando as chances de ela poder engravidar fossem as maiores. – A sra. De Bourgh sugeriu, venenosa. – Mas você cometer o erro infantil de não se proteger de uma circunstância como esta me aterroriza. Até parece que não apreendeu nada com o exemplo do seu pai!
- O que para senhora não passa de um exemplo, para mim foi uma experiência de vida. Então não venha me dar sermões a este respeito. – Darcy refutou, a voz como gelo.
A sra. De Bourgh não se deixou abater, no entanto. Replicando:
- Você não foi o único afetado por aquele tormento, sobrinho. Eu sei exatamente ao que estou me referindo!
Era a primeira vez que a sua tia admitia algo mais significativo quanto ao passado de ambos. Darcy, certamente, não esperava que sua tia viesse a fazer tais declarações a esta altura da vida. Mas muitas de suas suspeitas estavam sendo confirmadas ali.
- O seu pai podia ser muito inteligente e implacável quando se tratava de negócios, mas era um tolo quando se referia a mulheres! – Ela prosseguiu. – Saindo de uma armadilha para cair em outra! – Resmungou com desgosto.
- Não vamos esquecer que a primeira esposa de meu pai, ...minha mãe, era também sua irmã. – Darcy rebateu, espantado com o total abandono da discrição por parte da tia quanto a este assunto.
- Ela foi um erro. O primeiro erro dele. – A sra. De Bourgh declarou, fria, ressentida. – E a segunda foi um erro ainda pior!
Ela o fitou analiticamente e disse de forma cruel:
- E você está indo pelo mesmo caminho que ele!
- A sua opinião neste assunto pouco me interessa, minha tia. – Darcy pontuou. – Ao contrario do meu pai, eu não vou permitir que a senhora interfira na minha vida. Meu casamento acontecerá neste sábado como planejado, não há nada que a senhora possa dizer ou fazer que me obrigue a mudar de ideia.
Ao invés da explosão de fúria que ele esperava em reação a esta declaração, a sra. De Bourgh dirigiu-lhe um sorriso debochado de pena.
- Agora eu entendo por que ela estava tão segura em me enfrentar. Aquela garota insolente! Ela sabe que lhe tem na palma da mão! E por que ela aceitaria as migalhas que eu lhe ofereci se tem todas as suas posses de bandeja?
- Do que a senhora esta falando?
- Da sua noiva, é claro. – Catherine continuou a sorrir. – Eu fui falar com ela antes de vir aqui. Esperava encontrar uma mulher razoável e realista. Mas percebo agora que eu fui a ingênua aqui. Ela sabia exatamente o que estava fazendo, sempre soube!
- Você procurou Elizabeth? – Darcy já estava em seu limite.
- Eu não sou uma criança inexperiente, sobrinho. Eu não faço nada pela metade! – E, com calma, pôs-se de pé. – Escute bem o que vou lhe dizer, sobrinho. Esta mulher a quem você pretende se comprometer por uma vida será a sua ruína! Não espere que eu compareça a este casamento e tome o lugar ao seu lado no altar, para assistir a sua destruição em silêncio. Como se nada de errado estivesse acontecendo! Como se estivesse de acordo com esta sua loucura.
- Não precisa se preocupar, minha tia. Se eu fosse convidar alguém para subir ao altar ao meu lado, no lugar da minha mãe, não seria a senhora. E sim a sra. Reynolds!
- A governanta? – A sra. De Bourgh exclamou, ultrajada.
- Sim, a governanta. Por que ela foi a única figura materna constante em toda a minha vida. Aquele lugar de honra é dela de direito.
- Isso é ridículo! – A sra. De Bourgh gritou, furiosa.
- A senhora é bem vinda a comparecer a cerimonia, no entanto. – Darcy ignorou os seus protestos.
- Eu não vou participar de nenhuma charada de casamento, Darcy. Não conte comigo!
E, esbravejando, a sra. De Bourgh saiu da sala, batendo a porta à suas costas.
Darcy imediatamente alcançou o seu celular e ligou para o de Elizabeth. Ouviu as chamadas intermináveis até que teve acesso a sua caixa de mensagem. Mas não queria lhe deixar um recado e sim falar diretamente com Elizabeth. Então tentou a segunda vez. Mas na terceira chamada a ligação foi interrompida. Surpreso, ligou uma quarta vez só para cair diretamente na caixa de mensagens.
Elizabeth havia desligado o celular. Ela não queria falar com ele!
LAST_UPDATED2














