Citações

Minhas ambições são modestas. Quero ser feliz como todo o mundo. (Jane Austen)

Por Uma Noite Apenas - Capítulo VII

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CAPÍTULO 7

Darcy acordou desorientado. Possuía uma vaga lembrança de um dos seus sonhos eróticos com Elizabeth Bennet. Decidindo que gostava bastante de seu sonho, permaneceu deitado e de olhos fechados. Revivendo-o em sua mente, desejando ainda estar dormindo e sonhando com ela.

Suspirou e sentiu o seu doce aroma invadir a sua narina. Lambeu os lábios e jurou que podia até sentir o gosto dela em sua boca. Isso é estranho.

Abriu os olhos e constatou que a cama em que se encontrava não era a sua. Sentou-se na cama e observou o ambiente ao seu redor. Estava no quarto de Hotel com que sonhara.

- Não foi um sonho, então. – Disse em voz alta, ao olhar para si mesmo e constatar que estava tão nu quanto quando veio ao mundo.

Então, onde ela está? Voltou o seu olhar para a porta do banheiro, que estava aberta, e ficou esperando que ela a atravessasse com um sorriso estampado no rosto, desejasse-lhe um bom dia e voltasse para cama, para que pudessem retomar as atividades de onde pararam na noite anterior. Esta simples expectativa serviu para despertar a sua libido.

Mas levou apenas alguns segundos para ele constatar que estava completamente sozinho naquele quarto de Hotel. O total silêncio a sua volta chegava a ser perturbador.

Irritado, levantou-se da cama e atravessou o quarto, indo para o banheiro. À sua porta, viu que o banheiro estava vazio. Mas, voltando-se para o quarto, encontrou mais evidências de não fora apenas um sonho, que ela estivera mesmo ali com ele.

As suas roupas ainda estavam largadas no chão do outro lado do quarto, próximo à mesa onde desfrutaram de um lanchinho noturno. A torta de chocolate com nozes desmoronara completamente e agora um amontoado indistinto ocupava o seu lugar. Seu baixo ventre se contraiu quando se lembrou do que fizera para conseguir esta façanha, imprensando Elizabeth contra ela.

A cama estava desfeita, lençóis embolados, um travesseiro caíra da cama e descansava solitário no chão. Foi então que viu aquele pedaço de pano ameixa entre os lençóis brancos de algodão egípcio. Caminhou até a cama e pegou a echarpe de seda, levando-a até o rosto e inspirando profundamente. O cheiro dela estava impregnado nele.

Qualquer dúvida de que não se tratava de mais um de seus sonhos desapareceu ali. Tivera mesmo a noite mais excitante de sua vida, realizando muitas de suas fantasias sexuais justamente com o objeto delas. E, mais, ela ainda lhe dera o presente de não ter de lidar com a manhã seguinte.

Quantas mulheres fizeram isso antes? Nenhuma. Todas elas o perseguiam, esperando mais dele do que Darcy estava disposto a dar. Ele até já perdera a conta de quantas vezes acordou no meio da noite, pegou suas coisas e sumiu antes que sua parceira pudesse despertar.

Então porque ele não estava satisfeito? Devia estar aliviado, exultante! E não se sentindo... ultrajado?

Darcy decidiu catar as suas roupas, tomar um banho e sair dali.

Ao entrar no táxi e dar o endereço da Editora, já que fora lá que deixara o seu carro na noite passada, ponderou que não estava ultrajado. E, sim, meramente contrariado. Afinal, nunca acordara sozinho em uma cama antes sem ter sido por escolha própria.

Quem Elizabeth Bennet pensa que é, afinal? Para descartá-lo deste jeito! Era ele quem dispensava as mulheres e não o contrário!

“Ela não é uma mulher normal!”, concluiu. Uma mulher normal não age desta forma. E, pensando a respeito, quando foi que Elizabeth Bennet agiu conforme o que ele esperava? Nunca.

Lembrava-se perfeitamente de quando se conheceram. Ele não lhe dirigira um segundo olhar, julgando-a precipitadamente como outra de suas subordinadas sem muito a oferecer. Ao cruzar com ela pelos corredores da Editora, até chegou a classificá-la como comum, de uma beleza ordinária. Desprovida de nenhum atrativo significante para despertar uma paixão em um homem como ele.

Meses mais tarde, Bingley se encantou pela irmã dela e o convidou para um happy hour em um pub local. A princípio, a intenção de Darcy era recusar o convite. Mas depois decidiu que um drinque não lhe faria mal. Além do que, estava curioso a respeito da suposta beldade por quem Bingley se dizia apaixonado. Se ela se assemelhasse a Elizabeth, pensara na ocasião, não seria lá grande coisa.

No entanto, pagara com a língua. Jane Bennett é simplesmente estonteante! Capaz de parar o trânsito, de virar a cabeça de qualquer homem. Na verdade, já havia virado a cabeça de Bingley completamente, pela forma que o seu amigo se desdobrava para agradar a mulher naquela noite.

E a Darcy restou à companhia não tão estimulante da irmã da beldade, Elizabeth, e de uma grande amiga, Charlotte Lucas – quem também trabalha na Editora, no departamento de Recursos Humanos.

Dizer que Darcy esperava que a sua noite fosse um tédio, uma completa perda de tempo, seria pouco. Depois de cinco minutos na companhia daquele pequeno grupo de pessoas já se sentia pronto para encerrar a noite e ir embora. E não fazia questão alguma de disfarçar o seu mau humor. Pelo contrário, fez de tudo para demonstrar que ali era o último lugar em que queria estar. Assim, quando declarasse estar indo embora ninguém ficaria surpreso.

No entanto, quem se surpreendeu naquela noite fora ele. Porque diante de seu comportamento, ao invés de se ofender – como a maioria das mulheres teria feito – Elizabeth parecia se divertir às suas custas. Flagrou-a olhando para ele com um brilho diabólico no olhar e um sorriso de canto de boca matreiro mais de uma vez, como se o fato de Darcy achar a companhia dela inteiramente desinteressante algo hilário!

Que tipo de mulher se diverte com uma rejeição como aquela? Afinal, Darcy tinha certeza de que ela sabia que Bingley o convidara aquela noite com a esperança de que algo acontecesse entre os dois.

E a partir daí, Darcy se viu olhando para ela sempre que a encontrava. Analisando suas atitudes, observando os seus movimentos, capturando fragmentos de sua personalidade nas conversas que entreouvia. Saboreando cada segundo, milésimo de instante de cada dia em que era agraciado com a sua presença.

E antes que percebesse, estava obcecado por ela! Inventando desculpas para ficar circulando pelo corredor da Editora, procurando ter um glipse de sua figura sentada em sua mesa em um daqueles práticos cubículos do escritório. Sincronizando a sua saída com a dela sempre que podia, para que pudessem tomar o mesmo elevador. Para que pudesse, muito discretamente, aproximar-se e sentir o seu perfume.

Nossa! Como cheguei a este ponto? Perguntou-se mais de uma vez. Tinha certeza de que ela continuava a ser a mesma mulher que ele próprio julgara comum. Embora agora, aos seus olhos, ela podia ser muitas coisas, menos ordinária.

Então, talvez, fosse ele quem já não era mais o mesmo!

Droga! Só de pensar no beijo que trocaram naquela noite o seu ventre já tornava a se contrair.

Era um evento promocional da Editora, ele estava cercado por empregados, jornalistas e autores filiados a Editora. Devia estar concentrado no seu trabalho. No entanto, assim que pôs os olhos nela, naquele vestidinho preto indecente, perdeu completamente o controle sobre si mesmo. Passou praticamente o evento inteiro comendo-a com os olhos.

Quando percebeu que despertara a curiosidade de Caroline quanto ao motivo de sua distração, levantando as suas suspeitas porque ele ficava olhando tanto para Elizabeth, decidiu que precisava se distanciar dela. Ou acabaria cometendo uma loucura, como: caminhar até ela e se oferecer para levá-la em casa quando tudo acabasse. Tinha certeza de que ela, e quem mais escutasse a sua proposta, saberia que aquilo era muito mais do que um gesto de cavalheirismo de sua parte. Que aquela oferta ia muito além de que uma simples carona desinteressada. Que ele estava imerso em segundas e terceiras intenções.

Por isso se escondera em seu escritório, em seu único refúgio. E por um instante acreditou estar seguro. Até que ela entrou e fechou a porta. Pronto! Aquela atitude de sua parte foi o suficiente para Darcy perder completamente o controle. Pouco lhe importava o que ela viera fazer ali. O mundo poderia desabar em sua cabeça e não faria diferença.  Ela estava ali, seria dele!

Quando a encurralou contra a porta, observou a pulsação errática de uma veia em seu pescoço. Soube ali que o seu coração devia estar disparado. Uma chama ardia em seu olhar quando tocou o seu rosto e contornou os seus lábios com as pontas dos dedos.

Foi tão fácil beijá-la. Os lábios dela cederam de imediato sob a pressão de sua boca, entreabrindo-se para ele. Mais! Correspondendo ao beijo! Ela se agarrara a ele, suspirara com cada toque de suas mãos. Darcy sabia que se não fossem interrompidos, teria possuído Elizabeth ali, de pé, imprensada contra aquela porta.

Uma comichão se apoderou dele, deixando-o desconfortável com aquela nova onda de desejo. Sabia que se não controlasse seus pensamentos teria dificuldades de sair daquele táxi sem atrair olhares de estranhos para a sua “alteração”.

Foi preciso apenas se lembrar de como ela se esquivou de seu toque, como se estivesse enojada dele, e depois fugiu de sua sala, como um bichinho acuado, para que Darcy sentisse a temperatura de seu corpo diminuir.

Como se arrependera daquele ataque. Quando pensava no olhar assustado que ela lhe lançou quando pediu para que parasse, sentia suas entranhas se contorcerem de frustração e culpa.

Tentou se desculpar, mas ela nunca mais confiou nele o suficiente para ficar a sós com ele. Era sempre uma das últimas a entrar na sala de reuniões e a primeira a sair. Sempre circulando pelos corredores ou elevador acompanhada de uma ou duas colegas de trabalho.

Quando Darcy soube do seu pedido de demissão, teve certeza de que fora por sua causa. Por culpa de sua última ofensa. E esperou pelos dias que seguiram ao seu aviso prévio que chegasse a intimação judicial para ele. Tinha poucas dúvidas de que ela o processaria por assédio sexual. E seria mais do que justo! Nunca devia ter tomado aquele tipo de liberdade com ela.

Mas a última coisa que poderia esperar, foi justamente a que aconteceu em seguida. Aquele convite! A noite que tiveram juntos! O ardor e a paixão que compartilharam!

Darcy pagou ao taxista e saiu do carro, caminhando para a entrada do prédio. O segurança abriu a porta para ele e Darcy o cumprimentou, informando que viera buscar o seu carro. Logo em seguida, seguiu para o hall do saguão onde estavam os elevadores. Acionou um dos elevadores e aguardou a sua chegada.

Que tipo de mulher dá a um homem um presente como aquele, só para tomá-lo de volta na manhã seguinte? Uma mulher como Elizabeth, pelo visto!

A porta do elevador se abriu e Darcy entrou. Ergueu a mão e já estava para apertar o botão que o levaria ao nível da garagem, quando tomou uma decisão.

Se Elizabeth Bennet pensa que vou me dar por satisfeito, está muito enganada!

Apertou o botão do 55º andar e sorriu para si mesmo quando as portas do elevador se fecharam, começando a subir.

Ela terá uma surpresa e tanto! Ahh se terá!

Retirando a echarpe do bolso da calça, manuseou-a pensativo. Não precisava de desculpa melhor para procurá-la de novo que a devolução daquele item a sua legítima dona. Tudo o que ele precisava agora era descobrir o seu endereço. Isso não seria muito difícil de conseguir. O departamento de Recursos Humanos devia ter este tipo de informação arquivada. Precisaria apenas acessar um de seus computadores e o problema seria resolvido.

As portas do elevador se abriram e Darcy percorreu os corredores desertos da Editora. Seguiu diretamente para o departamento de Recursos Humanos, abrindo a porta da Supervisora do Departamento.

Contornou a sua mesa, afastou a sua cadeira e se sentou, ligando o computador. Enquanto aguardava que o aparelho se iniciasse, observou a sala da Supervisora – Charlotte Lucas.

Sobre a mesa havia um porta-retratos. Três rostos sorridentes: Jane, Charlotte e Elizabeth. Charlotte segurava um daqueles bolos de aniversário minúsculos com uma vela acesa em cima e fazia biquinho, como se pretendesse apagar a vela. O olhar de Darcy, no entanto, estava preso no sorriso radiante que iluminava o rosto de Elizabeth.

Sacudindo a cabeça para recuperar a concentração, Darcy voltou o rosto para a tela do computador e viu que estava parado no sistema de segurança, pedindo que fosse fornecido o Login do Usuário e a Senha.

- Que inferno! – Darcy esbravejou.

Como iria obter a senha de Charlotte Lucas? Será que ela teria anotado em algum lugar daquela sala? E logo começou a revirar gavetas. Cerca de 15 minutos depois desistiu. Era evidente que ela não anotou a senha em parte alguma. Provavelmente seria algo banal, como a data de seu aniversário.

De súbito teve uma ideia. Agarrou o porta-retratos e virando-o, removeu a sua proteção. Ali, atrás da foto, estava gravada a data. Satisfeito consigo mesmo, digitou o nome de Charlotte na caixa do Usuário e aquela data na senha. Clicou em OK e aguardou alguns segundos. Recebeu a mensagem de erro quase que imediato.

Bom, não tinha mais nenhuma ideia.

Desanimado, remontou o porta-retratos, recolocando-o sobre o seu lugar de direito. Recostou-se na cadeira e ficou olhando a tela do computador, tamborilando os dedos na mesa.

Após alguns minutos assim, decidiu jogar a cautela para o alto. Retirou o celular do bolso do blazer e ligou para a sua assistente.

O telefone foi atendido no terceiro toque.

- Alô?

- Sra. Hill, será que a senhora poderia fazer o favor de me informar o Login e a Senha do computador da Supervisora do departamento de Recursos Humanos da Editora?

- Sr. Darcy? – A mulher parecia surpresa com o telefonema. Mas logo recuperou o ar profissional. – Que tipo de informação o senhor deseja? Talvez eu mesma possa lhe ajudar.

Darcy já cogitara esta possibilidade, mas não queria ter de dar muitas explicações.

- Tenho certeza de que a informação de que preciso está no computador, só preciso poder acessá-la. – Replicou.

- É claro, senhor. – A mulher respondeu. – Se o senhor puder aguardar alguns minutos, eu vou poder lhe dar a informação de que precisa.

- Eu espero.

Após a sua confirmação, Darcy ouviu a linha ficar muda. E imaginou que a sra. Hill estaria ligando para Charlotte para descobrir o Login e a Senha.

- Aqui está, sr. Darcy. – Ela retornou a falar poucos minutos depois, informando-lhe exatamente o que ele queria saber. – O senhor precisa de mais alguma coisa?

- Não, obrigado. – Darcy encerrou a ligação e voltou sua atenção para o computador.

Digitou “Lottie” como Login e a data do aniversário de Charlotte como Senha. A mesma data que consta na fotografia.

Tendo total acesso às informações, não foi difícil achar a ficha de Elizabeth Bennet, onde havia o seu endereço residencial.

Darcy deixou a Editora satisfeito. Iria para o seu apartamento, comeria alguma coisa e dormiria um pouco. Precisava recuperar as energias para esta noite.

 

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