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Sentar-se à sombra em um belo dia e olhar para o campo é o descanso perfeito. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XLVIII

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Capítulo XLVIII

Família

 

Emily Darcy exalava uma aura de autoconfiança ao adentrar o apartamento de seu filho. Elizabeth não queria demonstrar que a presença da sua sogra ali pudesse deixá-la desconfortável em função dos eventos da noite passada. Mas não conseguia tratá-la com nada mais que mera cordialidade.

--Vocês devem estar surpresos com a minha visita e perdoem-me se atrapalho em alguma coisa. – Emily lhes disse, serena.

--Nós íamos jantar. – William explicou.

--A senhora aceita nos acompanhar? – Elizabeth convidou.

--Por favor, me chame de Emily. – A sra. Darcy pediu, sorrindo. – Obrigada pelo convite, mas já jantei. Eu apenas queria conversar com você um pouco. – Ela disse, olhando para o filho.

--Então vou deixá-los a sós. – Elizabeth se prontificou a voltar para a cozinha.

--Eu preferia que ficasse. O que tenho a dizer lhe diz respeito também. – A senhora solicitou, detendo Elizabeth.

O casal trocou um olhar e William disse.

--Por favor, minha mãe, venha se sentar. – Indicando o sofá da sala.

A senhora aceitou e dirigiu-se a um sofá. O casal seguiu o seu exemplo e também se sentou, lado a lado.

--O jantar de ontem não saiu exatamente como eu desejava e imagino, tampouco, como vocês esperavam. – A sra. Darcy não fez rodeios antes de adentrar no assunto a que viera tratar. – A atitude de seu pai foi excessivamente reprovável e eu me sinto envergonhada a este respeito. Tenho certeza de que ele também.

Ela disse isso olhando de William para Elizabeth.

--Por isso, vim lhe pedir desculpas pelas coisas horríveis que foram ditas em um momento de pouca reflexão. – Direcionou estas palavras para Elizabeth. – Eu espero que, assim que esta confusão seja resolvida, possamos nos conhecer melhor e termos uma relação familiar de estima e confiança.

-- Eu também, sra. Darc...Emily. – Elizabeth replicou.

--Ótimo. – A senhora ficou genuinamente contente com a sua resposta. – Agora, eu gostaria de esclarecer o porquê de meu marido e eu deduzirmos que você estava grávida ao tomarmos conhecimento de seu casamento. Ao contrário do que ficou subentendido ontem, não teve nada a ver com a sua profissão... Ou com você, particularmente, para ser sincera.

Diante do olhar de incompreensão dos ouvintes, a sra. Darcy esclareceu.

--Nós não somos preconceituosos e, uma vez que você nos conheça melhor, terá certeza disso. Não somos do tipo de pessoas que julgam as outras por causa de sua origem ou pela profissão que escolheram exercer. – A sra. Darcy garantiu. – O mal-entendido de ontem deveu-se mais ao seu comportamento, a qualquer outro fator. – Ela apontou, olhando para o filho.

--O meu comportamento? – William estava surpreso e por que não dizer ultrajado com aquela alegação? Se fora seu pai quem começara a insultar Elizabeth sem nenhuma provocação e ele apenas defendera a sua mulher daqueles abusos verbais.

--Você sempre foi uma pessoa racional e muito responsável. Até mesmo na adolescência, agia com mais maturidade que qualquer um de seus primos, por exemplo. – A sra. Darcy comentou. – E a esta altura da vida, decidiu se casar no exterior com uma mulher que sequer havia nos apresentado ainda.

Elizabeth olhou de esguelha para William. Imaginava, pela sua expressão, que ele não estava acostumado a receber sermão dos pais há muito tempo e, em especial, nunca na frente de terceiros. Ponderou que ao menos tivera o privilégio de ter a conversa com o seu próprio pai longe dos ouvidos de William.

--Nós sabíamos do relacionamento de vocês dois no ano passado. – A sra. Darcy prosseguiu, voltando o seu olhar para Elizabeth. – Sabíamos que tiveram um desentendimento e se afastaram. E, ao sermos informados do casamento, imaginamos que você descobrira a gravidez após a separação e que, ao se encontrarem nos EUA, conversaram a este respeito. Decidindo superar quaisquer diferenças que possuíram no passado e dar mais uma chance ao relacionamento de vocês, optando por se casarem imediatamente.

Prevendo que aquela explicação não estava soando satisfatória para os dois, completou.

--Pareceu-nos a única explicação cabível para que o nosso filho optasse por nos excluir, assim como você a seus pais, de um momento tão importante em sua vida.

Esta alegação, finalmente, fez com que ambos expressassem culpa em suas feições.

--E quando você não aceitou nenhuma bebida antes do jantar, acreditamos que nossa dedução a respeito da gravidez estivesse correta. – A sra. Darcy acrescentou.

--Elizabeth não está acostumada a tomar bebidas alcóolicas, mamãe. – William esclareceu.

--Não? – A sra. Darcy parecia genuinamente surpresa, como se aquela possibilidade nunca houvesse lhe passado pela cabeça.

--Quase nunca. Talvez uma taça de vinho ou champanhe, mas só em ocasiões especiais. – Elizabeth acrescentou.

--Bom, agora que este mal-entendido foi esclarecido e, espero, você tenha aceitado as minhas sinceras desculpas... – A sra. Darcy disse e Elizabeth acenou em concordância.

Sabia que não conseguiria esquecer as ofensas que sofrera, mas preferia não ficar remoendo rancor dos pais de William. Sabia que não deveria fazê-lo, se realmente quisesse que este casamento desse certo.

--Gostaria de pedir a você, Will, para que vá almoçar amanhã no Apsleys[1] e conversar com seu pai. – A sra. Darcy solicitou. – Num ambiente neutro, eu tenho a certeza de que vocês deixaram de lado a natureza do macho alfa e conversaram racionalmente. Como dois adultos.

--Eu estarei viajando para Milão amanhã, mamãe. – William desculpou-se.

--À tarde. Eu liguei para Moira hoje mais cedo e me informei. – A sra. Darcy replicou. – Terá tempo suficiente para ir ao encontro de seu pai, se assim o desejar.

Diante do olhar contrariado do filho, ela completou.

--Nós somos a sua família, Will. Mas cedo ou mais tarde, você terá de enfrentá-lo. – Com isto, ela se ergueu do sofá. – Bom, não vou tomar mais o tempo de vocês e impedi-los de jantar. – Contornando o sofá e se dirigindo ao elevador.

--A senhora não vai me perguntar porque nós nos casamos? – William a questionou ao acompanhá-la até o elevador.

A sra. Darcy voltou a olhar para ele e com um sorriso cheio de segredos, disse.

--Eu já sei. – Lançando um olhar perspicaz na direção de Elizabeth, em seguida direcionando o mesmo olhar ao filho. Um olhar que parecia enxergar dentro dele. – Deveria ter adivinhado desde o começo.

Elizabeth olhou para Darcy e percebeu que ele ficara constrangido com o olhar penetrante de sua mãe.

As portas do elevador se abriram, Emily entrou e, no instante em que as portas começaram a fechar, ela disse:

--Gosto de pensar que conheço você muito bem. – Rindo-se, por fim.

William e Elizabeth retornaram para a cozinha, começando a jantar sem debater a visita da sra. Darcy a principio. Até que, cansada daquele silêncio, Elizabeth perguntou.

--Você vai se encontrar com o seu pai amanhã?

--Não. – William respondeu, somente.

--Por que não?

--Porque se o meu pai estivesse realmente arrependido e quisesse se desculpar, ele teria nos procurado. – Darcy argumentou, contrariado. – É a minha mãe quem quer resolver o problema por ele. Sempre agindo como uma mediadora entre nós dois. – Rindo, sem real humor, acrescentou. – Não ouviu o que ela disse? Para nos encontrarmos no restaurante, porque assim iremos conversar ao invés de discutir.

--E o que há de errado nisso, William? – Elizabeth contestou. – Ele é o seu pai. Por que você iria preferir ficar resguardando raiva do seu próprio pai? Quando pode conversar com ele e resolver tudo?

--Ele te ofendeu, Elizabeth! – Darcy exclamou, zangado.

--Ofendeu, sim. E se é com isso que você está preocupado, eu lhe dou permissão para ir ao seu encontro e conversar com ele. Na verdade, eu quero que você vá e converse com ele.

--Não, Lizzie. Não vou.

--Por que foi a sua mãe quem teve a iniciativa e não ele? É por isso? – Interrogou-o, já perdendo a paciência com a sua recusa. – Você não quer dar o braço a torcer.

William não contestou suas conclusões.

--Pois bem, sr. Darcy. – Elizabeth disse, zangada. – Daqui a 10 anos, quando você acordar e perceber que é um completo estranho para a sua própria família, ao menos tenha a decência de admitir que foi por culpa do seu ego masculino e não por minha causa. – Ergueu-se de sua cadeira à mesa, recolhendo o seu prato e levando-o para a pia.

--Elizabeth, volte para a mesa e vamos terminar de jantar. – William pediu.

--Eu perdi o apetite. – Alegou, ao sair da cozinha e seguir para o quarto.

Será que ele não podia entender que ela não queria ser motivo de discórdia entre ele e a sua família? Que preferia engolir, mesmo a contragosto, todos os insultos, a ser a razão do distanciamento entre pai e filho?

~#~

Moira o deixara ao balcão do bar do restaurante pedindo os drinques, enquanto esperavam que a mesa que reservaram vagar, e foi ao banheiro retocar a maquiagem que ele borrara ao lhe sapecar um beijo antes de descerem do carro. Fora um impulso incontrolado que ele precisou atender.

Tudo parecia estar dando certo entre eles. Richard estava exultando de felicidade, sentindo-se confiante. Até que alguém deu-lhe um tapinha no ombro.

--Richard, há quanto tempo. – Mark Lyman cumprimentou-o, sorridente. – Como tem andando?

--Bem. – Richard respondeu, ficando sério. – Você?

--Ótimo. – Mark respondeu. – Quer vir se sentar a minha mesa, acabou de ficar pronta. E assim eu te apresento... – Começou a dizer, indicando uma mulher mais adiante que estava os observando, quando Richard o interrompeu.

--Eu estou acompanhando. – Conciso.

--Não faz mal. É só juntar mais cadeiras. – Retorquiu, jocoso. – E assim poderemos comparar nossas acompanhantes...

--Tenho certeza que a minha reserva logo ficará pronta. – Richard cortou a sua brincadeira logo de inicio.

Mark encarou-o, estranhando sua atitude.

--É impressão minha, ou você está mesmo zangado comigo? – Por fim, questionou-o.

--Tenho razão para estar? – Richard respondeu, azedo.

Mark pareceu pensar, antes de dizer.

--Eu não sabia que ela era importante para você. – Justificando-se.

--Sabia sim. E foi exatamente isso que tornou a sua conquista mais excitante. – Richard retorquiu. – E a última coisa que eu quero agora é você perto da minha mulher.

--Sua mulher? – Mark repetiu, surpreso.

--Sim, minha mulher. – Richard frisou.

--Há algum problema acontecendo aqui? – Moira questionou, ao retornar e encontrar os dois naquele dialogo hostil.

--Nenhum. – Richard respondeu, entregando-lhe a sua bebida quando Moira voltou a ocupar o banquinho ao seu lado.

--Você não contou a ele? – Mark dirigiu-se a Moira assim que se recuperou da surpresa de vê-la ali. Como Richard estava guardando rancor dele justamente por sua causa, não imaginara que os dois houvessem se acertado.

Moira olhou para Mark, engoliu o gole de seu drinque e disse.

--Não há nada para contar.

--Realmente. – Mark constatou, fitando-a nos olhos. Por fim, olhou para Richard e disse. – Não houve nada mesmo.

Mas a animosidade estampada na face de Richard não desapareceu. Então Mark disse.

--Tenham uma boa noite. – E se afastou.

Moira esperou que Richard fizesse algum comentário ou a questionasse. Mas ele não o fez. Degustou do seu drinque em silêncio. Quando o maitrê os chamou para ocupar a mesa, ele a guiou pelo salão com a mão em suas costas, num gesto de posse. E no decorrer do jantar recuperou o seu bom o humor por completo, como se o encontro com Mark nunca houvesse ocorrido.

--Você me surpreende. – Moira comentou, ao entrarem no apartamento.

--Por quê? – Richard perguntou, mas o olhar dela respondeu a sua pergunta. – Se eu queria pular em cima dele e quebrar cada um de seus ossos por sequer olhar para você? Sim! Se vou arruinar a nossa noite brigando com você por causa disso? Não. – Ele esclareceu, se aproximando dela e a segurando pela cintura. – Prefiro não pensar em você com outros homens, se você me permitir.

Roçando os lábios nos dela, sussurrou:

--Há tantas coisas mais interessantes para fazermos! – Antes de capturar os seus lábios em um beijo interminável e apaixonado.

Quando a levou para cama esta noite, fez de tudo para apagar qualquer vestígio de outro homem de seu corpo, mente e alma. Até que cada pedacinho de seu ser estivesse marcado como seu.

~#~

Quando Darcy se juntou a Elizabeth na cama, ela não se voltou para ele. Mas ele sabia que ela não estava dormindo, embora fingisse muito bem. Sua respiração estava tranqüila. Mas, quando seu peso afundou o colchão, viu as costas de Elizabeth ficar rígida de tensão.

Darcy estava cansado. Queria apenas abraçá-la e fazer as pazes, embora adivinhasse que Elizabeth não seria muito receptiva. Desde que voltaram de Las Vegas, cada noite um problema diferente surgia entre eles para ser resolvido. E só o que ele queria era desfrutar de uma lua-de-mel. Desde quando isto era pedir demais?

--Devíamos ter ficado em Las Vegas. – Comentou em voz alta.

Mas Elizabeth não disse nada, embora Darcy soubesse que ela o escutara.

--Você realmente quer dormir zangada comigo?

Ela continuou sem responder.

Darcy hesitou por um instante apenas, antes de se aproximar dela pelas suas costas. Levantou a coberta, afastando-a de seus corpos. E, sem a sua permissão, levantou a borda da blusa de flanela, a única parte do pijama que Elizabeth estava usando, desnudando as suas nádegas e parte das costas.

--O que você pensa que está fazendo? – Elizabeth questionou-o, contrariada, no instante em que sentiu os dedos de Darcy contornando as bordas de sua calcinha.

--Ahh, então você não está dormindo? – Darcy gracejou, deitando a mão por completo sobre as nádegas da sua mulher e a acariciando. – Cansou de me ignorar? – Levou a boca até ela e a mordeu levemente.

--William! – Elizabeth protestou, retorcendo-se, até conseguir se virar de frente para ele. – Pare! – Tentando olhá-lo nos olhos na penumbra do quarto.

--Não. – Darcy disse, voltando a puxar a borda do blusão dela para cima, descobrindo a calcinha.

--Não? – Elizabeth repetiu, erguendo a sobrancelha.

Darcy desceu os lábios sobre a pele sensível entre o umbigo e a borda da calcinha, começando a beijá-la ali.

--Eu vou passar três semanas sem te ver e me recuso a passar a minha última noite aqui zangado com você. – Murmurou de encontro a sua barriga.

--Isso é jogo sujo! – Elizabeth suspirou, derretida.

Ele riu, baixinho, antes de dizer.

--Eu jogo para ganhar, querida! – Descendo os lábios sobre o triângulo tentador e beijando-a ali por sobre a calcinha, arrancando-lhe um gemido.

Darcy enroscou os dedos nas laterais da calcinha e a puxou para baixo. Elizabeth não ia precisar dela para o que ele tinha em mente.


[1] Apsleys é um restaurante italiano no The Lanesborough Hotel, Hyde Park Corner London.

 

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