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Acho muito, recordar à tarde todas as tolices que se ouviram de manhã.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXXVII

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Capítulo XXXVII

Dia dos Namorados

 

A primeira noite de Jane em Milão foi bastante exaustiva. O reencontro no aeroporto com Charles teve uma grande sobrecarga emocional para ambos. Depois de ter sido alojada no apartamento dele e trocar poucas palavras com Darcy, Jane ligou para Elizabeth.

Queria lhe informar de sua chegada a Milão em segurança e da presença de Charles no aeroporto. Mas não pôde satisfazer a curiosidade da irmã quanto ao motivo por detrás do comportamento estranho de Charles, pois ainda não haviam discutido o assunto.

E, mesmo estando muito cansada, Jane não conseguiria dormir sem esclarecer todo aquele mal entendido. De forma que ela e Charles passaram praticamente a madrugada inteira conversando.

Jane ficou bastante magoada com suas desconfianças a seu respeito e Peter Firestone, e ressentida com sua atitude fria durante aqueles dias. Mas Charles pediu-lhe perdão continuamente, tornando impossível para Jane permanecer zangada com ele por muito tempo.

De forma que, quando o sol da manhã anunciou o inicio de mais um dia, o casal se ocupou em atividades mais agradáveis. Tentando recuperar o tempo perdido e matar as saudades.

Ambos acabaram dormindo até o inicio da tarde. E quando finalmente deixaram o quarto, encontraram-se com Darcy a sala – por se tratar do fim de semana, nem ele ou Bingley estariam indo trabalhar naquele dia.

Jane ficou um pouco constrangida, imaginando o que Darcy poderia estar pensando deles – por terem passado tanto tempo trancados no quarto. Mas Darcy foi bastante discreto e fingiu que não notara.

Após comer alguma coisa, Jane voltou para o quarto e ligou para Elizabeth novamente. Desta vez, para conversar com a irmã calmamente.

--Eu sabia! – Elizabeth comentou, zangada. – Aquela cobra tinha que estar envolvida nisto!Não lhe avisei que ela estava tentando separar vocês dois?

--Lizzie, eu não acho que ela tenha feito isso de propósito. – Jane argumentou, defensiva.

Ficara chateada com a interferência de Caroline na sua relação com Charles, mas não queria acreditar que a irmã dele fosse capaz de ato tão malicioso.

--Ahh, pelo amor de Deus, minha irmã. Qual é a justificativa você dará para as mentiras que ela andou espalhando a seu respeito? – Elizabeth a interrogou, impaciente.

--Ela pode ter me visto com Peter naquela noite e pensado o pior. – Jane argumentou. – Eu não gosto do fato de ela ter pensado que eu seria capaz de trair o seu irmão ou da forma como interferiu na minha relação com Charles... Mas eu fico pensando, se fosse eu e você... Se você tivesse visto algo neste teor envolvendo Charles, tenho certeza de que não hesitaria em me contar. E eu teria acreditado em você, como Charles acreditou na irmã.

--Você é muito boa, Jane. Boa até demais. – Elizabeth lamentou.

--O que importa é que está tudo certo agora. Não há mais nenhum mal entendido. – Jane exclamou, feliz.

--É. Mas você precisa tomar cuidado com Caroline. – Elizabeth a aconselhou. – Ela não vai ficar feliz quando descobrir que o planinho dela não deu certo e vocês continuam juntos. Vai por mim, abra os olhos, minha irmã! – Implorou. Não queria que sua irmã continuasse cega para as tramóias de Caroline por escolha própria.

--Como você sabia que Charles estaria esperando por mim no aeroporto? – Jane perguntou, para mudar o foco da conversa.

--Intuição. Elizabeth explicou. – Charles nunca hesitou em demonstrar que estava apaixonado por você. Eu não conseguia acreditar que ele seria capaz de lhe dar as costas sem maiores explicações.

--Você quer falar com Charles? – Jane propôs. – Ele queria lhe agradecer por ter me convencido a vir para cá.

--Claro. Adoraria! – Disse, animada.

Jane retornou a sala com o celular nas mãos, encontrando Charles e Darcy sentados ao sofá da sala, justamente conversando a respeito do mal entendido entre eles. Ambos ficaram calados ao vê-la se aproximar.

--Aqui, Charles, fale com Lizzie. – Jane disse.

Clicou em um botão do celular e colocou no viva-voz, depositando em seguida o celular sobre a mesa de centro. E se sentou no sofá ao lado de Charles, tendo uma visão clara de Darcy – sentando na poltrona do outro lado da mesa de centro, a sua frente.

--Oi, Lizzie. Como você está? – Charles exclamou, animado.

--Oi, Charles. Eu estou bem. E você? – Elizabeth replicou, com a mesma animação do cunhado.

Jane observou o semblante de Darcy, atenta a sua reação. Ele estava fitando o aparelho eletrônico com um olhar vidrado e feições duras.

--Muito melhor agora. – Charles respondeu, passando o braço envolta de Jane e puxando-a para perto. – E soube que devo lhe agradecer por ter convencido Jane a vir para cá. Eu lhe devo a minha felicidade. Estarei sempre em dívida com você. – Proclamou, exagerado, arrancando uma risada gostosa de Elizabeth.

Jane viu Darcy dar um suspiro involuntário ao ouvir a risada de sua irmã.

--Confesso que só estava pensando na felicidade da minha irmã. – Elizabeth respondeu em seguida.

--De qualquer forma, ainda estou em dívida com você. – Charles insistiu. – O que posso fazer por você? – Perguntou, erguendo o olhar para o amigo pela primeira vez.

--Umas férias bem que seria bem-vinda agora. – Elizabeth disse, suspirando em seguida. – Estou tão cansada.

--Seu desejo é uma ordem. – Bingley afirmou. – Vou mandar a passagem via correio para você. Qual o destino a senhorita prefere? Milão?

Darcy ergueu o olhar para o amigo neste instante e percebeu que estava sendo observado pelo casal. Constrangido, ergueu-se do sofá e foi para a cozinha. Mas até mesmo de lá conseguiu ouvir a conversa entre eles.

--Ohh... bem que eu queria aceitar. – Elizabeth se lamuriou. – Mas não posso. Estou tão atolada de trabalho que precisei pedir demissão na loja de sapatos. E já faz duas semanas que não vou ao curso de fotografia.

A conversa prosseguiu por mais um tempo e depois foi encerrada. Darcy ainda ficou na cozinha tentando se recompor antes de retornar para a sala. Mas viu-se encurralado lá após a ligação ter sido encerrada, porque Charles e Jane começaram a conversar a seu respeito.

--Isto foi um pouco cruel, você não acha? – Charles perguntou a Jane, quando a sua namorada recolheu o celular e desligou o aparelho.

--Como assim? – Jane questionou, estranhando aquele comentário.

--Você fez isso de propósito. Para atormentar o meu amigo. – Charles afirmou, calmo. – Você viu como o pobre coitado saiu daqui? Cabisbaixo!

--Como eu poderia adivinhar que ele reagiria assim? – Jane protestou.

Charles sorriu, malicioso, e Jane se rendeu.

--Tudo bem, eu confesso. Eu fiz de propósito. – Declarou. – Eu queria saber se ele ainda se importava com a minha irmã. – Justificou-se. – Lizzie não acredita nisso e depois da forma indiferente com que ele a tratou logo após a briga dos dois, eu comecei a acreditar que ela tinha razão. Que pra ele foi fácil o fim da relação.

--Fácil? – Charles interrogou. – Ele tem estado arrasado desde então! – Exclamou.

--Ele não me pareceu arrasado. – Jane contestou.

--Darcy sabe disfarçar bem. Não é do tipo de desmoronar aos olhos alheio. – Charles argumentou. – Ele se fecha feito um caracol e se enfurna no trabalho.

--Bem, eu não tinha como adivinhar isto. – Jane replicou, encolhendo os ombros. – Muito menos a minha irmã.

Os dois ficaram em silêncio. Até que Charles perguntou.

--Você acha que ela daria outra chance a ele se Darcy voltasse a procurá-la?

--Eu não sei. – Jane respondeu. – Muitas coisas podem acontecer nos próximos meses, enquanto eles continuam separados.

--Se ao menos ela tivesse aceitado a minha proposta de vir para cá. – Charles lamentou. – Nós poderíamos trancá-los no quarto até que se acertassem, como nós. – Ele completou este discurso beijando Jane.

Darcy desistiu de voltar para sala depois de ouvir isto e se recolheu em seu quarto.

~#~

Darcy tentou retomar a sua rotina em Milão. Mas o que parecia difícil, tornou-se impossível após a chegada de Jane.           A presença da namorada de seu amigo em seu apartamento sempre que voltava do trabalho era uma lembrança constante da existência de sua irmã.

E agora nem mesmo focar-se na reforma do Museu estava conseguindo bloquear os seus pensamentos de Elizabeth. Não havia um segundo do seu dia em que ele não pensasse nela. Ela era a primeira coisa que lhe assolava a mente quando acordava e era o seu rosto que via antes de adormecer. E, como um homem atormentado, não houve uma noite sequer em que não sonhou com ela.

Darcy podia ver que a vinda de Jane a Milão não atrapalhava nem um pouco o progresso do amigo em seu trabalho. Já que ela também precisava equilibrar o seu tempo entre os desfiles e os passeios que fazia com Charles. Para Darcy, no entanto, a felicidade do amigo com a presença da namorada ao seu lado era uma constante lembrança do quanto ele se sentia solitário.

Mas os dias passavam rápidos e logo a estadia de Jane em Milão estava terminando. Após o Dia dos Namorados ela estaria seguindo o seu itinerário e viajando para Berlim.

Nos dias seguintes à chegada de Jane, Darcy ponderou as palavras trocadas entre o amigo e a namorada a respeito de seu relacionamento com Elizabeth. Sabia que Jane tinha razão. Por mais que se arrependesse de sua atitude de não procurá-la para acertarem suas diferenças, não podia voltar no tempo.

E na presente circunstância, o tempo não estava a seu favor. Seria tarde demais esperar até estar de volta a Londres para reatar o romance. Mas o que fazer? Não podia simplesmente pegar o telefone e ligar para ela.

Estava a caminhando de volta ao apartamento no final da tarde de sábado, véspera do Dia dos Namorados, vendo nas vitrines a sua volta propagandas daquela data. O comércio estava fervilhando. Perfumarias, lojas de roupas, doceiras e, em especial, as floriculturas estavam com as portas abertas e com decorações chamativas e convidativas – exalando um clima romântico e mágico.

Darcy estava passando enfrente a uma loja de flores quando ficou paralisado, como se tivesse sido atingido por um raio invisível. O qual acendeu uma idéia em sua mente.

Incerto do que estava fazendo, voltou-se de frente para a floricultura e entrou. O movimento na loja estava grande. Escutava pedidos de flores serem feitos às atendentes naquele sotaque italiano carregado. Pessoas caminhavam a sua volta, várias vezes esbarrando-se nele sem a intenção e desculpando-se em seguida apressadamente. Atendentes agitadas e eficientes faziam arranjos dentre canteiros de flores, separando buquês, enfeites e efetuando vendas ao balcão.

Olhou a sua volta, esperando ser atendido por alguém. Ao mesmo tempo em que se questionava o que estava fazendo ali, tentava adivinhar qual o tipo de flor é a favorita de Elizabeth.

Diz à tradição que um buquê de rosas vermelhas transmite a idéia de paixão. E as mulheres parecem adorar recebê-las. Mas queria dar-lhe algo diferente, especial. Algo marcante.

Estava olhando as diferentes flores e seus arranjos, quando uma jovem parou ao seu lado.

--Come posso aiutarla (como posso ajudá-lo)? – Ela perguntou, ganhando o seu olhar.

A jovem estava vestida com uma calça preta, blusa de manga longa branca e um avental de jardineiro verde. Ela sorriu-lhe, simpática, como se percebesse que ele se sentia perdido ao si encontrar naquela situação.

Darcy então disse a jovem com o seu italiano fluente.

--Eu quero dar um buquê de flores a uma pessoa. – E um novo empecilho lhe ocorreu naquele momento; algo que superava a sua indecisão quanto a que tipo de flor devia lhe presentear. – O problema é que ela está em Londres.

--Nós temos uma filial em Londres, senhor. – A jovem afirmou, confiante. – Pode-se fazer o pedido pela Internet aqui mesmo e as flores serão entregues no endereço que o senhor fornecer no dia de sua escolha.

--Ótimo. – Darcy exclamou, aliviado.

--O senhor gostaria de fazer o seu pedido agora? – A jovem indicou o balcão ao fundo da loja, onde ficava o computador.

--Eu não sei que tipo de flor dar a ela. – Darcy confessou, constrangido.

--Ela tem alguma preferida? – A jovem questionou, tentando ser prestativa.

--Não sei.

--O buquê de rosas vermelhas é um clássico e é praticamente a prova de falhas, exceto em casos de alergia. – A jovem recomendou.

Darcy nunca pensou na possibilidade de Elizabeth ser alérgica a flores. Poderia perguntar a Jane, mas não queria levantar perguntas quanto ao que estava fazendo. Não antes de saber como Elizabeth reagiria a esta sua tentativa de reaproximação. Então, decidiu torcer para que ela não fosse alérgica a flor alguma.

--Eu queria dar algo especial. – Replicou, olhando a sua volta e coçando a sua cabeça. – Eu nem tenho certeza se um buquê de flores seja o recomendado. Visto que com alguns dias irão murchar e ela terá de jogar fora. Eu queria lhe dar algo que durasse. – Pensou em voz alta. E, em inglês, completou. Algo que quando ela visse todos os dias a fizesse pensar em mim. –“Só assim ela não me esquecerá enquanto eu não voltar”.

--Uma planta. – A jovem questionou, calma e eficiente.

--Uma planta? – Darcy estranhou, voltando a falar em italiano. Quando pensava em uma planta, a imagem de uma árvore imediatamente vinha a sua mente.

--Sim, senhor. – A jovem reafirmou. – Uma planta. Gostaria de dar uma olhada? – Propôs, indicando-lhe o caminho até o outro lado da loja.

Darcy a seguiu até os canteiros, onde vasos de plantas estavam arrumados – hortênsias, violetas, lírios, begônias e vários outros tipos de flores, de todas as cores; dispostas em vasos de todos os tamanhos e formatos. Vasos de barro, madeira e de vidro.

Darcy sentiu-se ainda mais perdido. E se viu tentado mais uma vez a procurar Jane e lhe perguntar qual o tipo de flor Elizabeth gosta – se tem alguma preferência ou aversão. Mas resistiu a este impulso e fez um esforço para se decidir.

A jovem atendente foi bastante paciente e ajudou-o no que lhe foi possível. E, após meia hora de indecisão, Darcy escolheu um vaso de orquídea da família phalaenopsis, na cor lilás.

A atendente o guiou até o balcão e se dirigiu até o computador. Fez o pedido pela Internet, questionando-lhe as informações necessárias – o nome da pessoa a ser presenteada, o endereço e o dia da entrega. Em seguida, perguntou-lhe se queria enviar um cartão junto com as flores.

--Sim. Claro. – Darcy afirmou, agradecido por aquela lembrança. Havia se esquecido deste detalhe.

--O senhor prefere cartões com versos e poemas impressos, ou gostaria de escrever algo o senhor mesmo?

--Acho que eu mesmo escrevo. – Este era um passo crucial e Darcy não queria correr o risco de parecer impessoal.

A atendente estendeu-lhe um papel em branco no tamanho de um cartão e entregou-lhe uma caneta. Informando-lhe que scanearia a mensagem e enviaria por e-mail junto com o pedido das flores.

Darcy não fazia idéia do que escrever. Havia tantas coisas que queria dizer a ela, mas nenhuma delas cabia naquele cartão pequenino.

Pondo em sua cabeça que aquele era apenas o primeiro passo, escreveu. E depois entregou o cartãozinho a atendente.

Ela prosseguiu com o seu trabalho, colocando o cartão no scanner e depois enviando o pedido pela Internet. Por fim, Darcy pagou pelo serviço e saiu da loja sentindo-se ainda mais ansioso que quando entrara na floricultura.

~#~

Domingo. Finalmente Elizabeth estava tendo o seu merecido descanso.  Dormiu até mais tarde. Acordou com o rosto amassado, cabelo emaranhado e o corpo preguiçoso. Demorou-se a sair da cama e seguir com a sua rotina matinal.

Tomou o café da manhã sentada ao sofá da sala, fitando a tela da televisão que passava a programação de Domingo, mas sem realmente lhe dar a sua atenção. Estava tentando decidir o que faria neste dia. Sabia que poderia ficar em casa até certo momento sem que sua mãe começasse a se lamuriar pela sua falta de sociabilidade ultimamente – tradução: homens.

Mas não sabia o que fazer depois, quando precisasse fugir dela. Com Jane viajando, Charlotte nos EUA e Moira enamorada por Richard – em pleno Dia dos Namorados, é claro que eles teriam alguma coisa para fazer. E, certamente, Elizabeth não tinha interesse em se transformar em castiçal particular de ninguém.

Não restava a Elizabeth muita companhia para passar à tarde de seu Domingo. Decidiu sair sozinha, dar uma volta pela cidade e tirar algumas fotos pelos parques. Por não estar indo ao curso de fotografia há algum tempo, acreditava que ficaria muito enferrujada se não aproveitasse esta oportunidade.

Sabia que havia uma grande probabilidade de encontrar inúmeros casais pelo seu caminho, mas acreditava que não se deixaria abater.

Após um almoço tardio, arrumou-se. Estava a caminho de sair de casa, quando cruzou caminho com suas irmãs mais novas. Lydia e Catherine estavam fazendo mais uma de suas algazarras. Estavam bem vestidas e se maquilavam diante do espelho do banheiro.

O toque do interfone despertou as duas, que gritaram em união e começaram a juntar seus pertences, antes de correr para o quarto. Elizabeth seguiu para a sala e abriu a porta, estava preste a sair quando foi ultrapassada pelas duas meninas. As quais seguiram pelo corredor e escada aos pulinhos de alegria.

Para sua maior surpresa, sua mãe veio logo atrás. Descendo a escada em sua companhia.

--O que está acontecendo? – Perguntou-lhe, porque sua mãe estava ansiosa e sorridente.

--O namoradinho de Kitty veio buscá-la. – A sra. Bennet esclareceu, animada.

Elizabeth parou de andar e voltou-se de frente para a mãe, detendo-a temporariamente.

--Ah mamãe, a senhora não vai lá conhecer o menino, não é?

--Mas é claro que vou. – A sra. Bennet afirmou, estranhando a sua atitude.

--Por favor, não, mãe. A senhora vai deixar Kitty envergonhada. – Elizabeth tentou argumentar com ela.

Era o primeiro namoradinho de sua irmã. E, como ela, devia ser um adolescente. E um adolescente desconhecido não saberia lidar com a sua mãe.

--Você está sugerindo que sou motivo de constrangimento para você e suas irmãs? – A sra. Bennet questionou, ofendida.

--Não, mamãe. – Elizabeth apressou-se a contestar aquela acusação. – Mas ele é um adolescente. Ela deve ser sua primeira namorada também e conhecer os pais da namorada sempre é algo... delicado. – Completou, aliviada por ter encontrado um adjetivo melhor que “traumático”. – Kitty e Lydia podiam tê-lo convidado para subir, mas preferiram encontrá-lo lá embaixo. Provavelmente porque não sabem aonde este namoro vai dar e devem querer esperar mais um pouco antes de apresentá-lo a senhora e a papai.

--E este é maior motivo pelo qual eu devo descer e conhecer o garoto. Descobrir o que ele quer com a minha filhinha. – E, dizendo isto, desviou de Elizabeth e seguiu descendo a escada.

Mas, por sorte, eles já haviam ido embora. O que fez a sra. Bennet ficar irritada com Elizabeth por tê-la atrasado. Mas Elizabeth ficou aliviada ao seguir com os seus planos de passear pela cidade.

Elizabeth pegou um ônibus e seguiu para o Hyde Park. Passeou com sua câmera fotográfica nas mãos, tirando fotos. As árvores ainda estavam desfolhadas e com o aspecto seco do inverno. Mas o chão já não estava mais coberto pela neve. E algumas flores amarelas e roxas davam os primeiros sinais da chegada da primavera.

Elizabeth sabia que quando chegasse abril, aquele parque estaria repleto de flores desabrochando e perfumando o ar. Uma das visões mais lindas que ela se lembra de ter visto.

Com o finalzinho da tarde, o tempo começou a esfriar. Embora o inverno já estivesse se aproximando de seu fim, o clima ainda estava frio. Por isso, fez o caminho de volta até a saída do parque.

Passou por um café e decidiu entrar. Comer alguma coisa doce e completamente contra as recomendações de sua mãe, antes de voltar para casa. Viu-se cercada por vários casais, aproveitando a temperatura acolhedora do ambiente e o clima romântico das mesas redondas para dois lugares apenas.

Sentou-se sozinha em um cantinho, fez o seu pedido e lanchou em silêncio. Implorando para que a torta de chocolate realmente suprisse a sua carência nesta data. Depois tomou o caminho de casa.

Ao entrar em casa, encontrou Mary sentada a sala, lendo um romance. Sua mãe estava ao seu lado, assistindo a televisão. Estranhou o fato de Mary estar ali, ao invés de ficar no quarto – aproveitando a ausência de suas irmãs mais novas para ter um pouco de privacidade.

Ao vê-la entrar, Mary baixou o livro e a sra. Bennet abriu um largo sorriso, pondo-se de pé e aproximou-se da mesinha de centro da sala. Carregou um vaso de flores que se encontrava ali e contornou a mesinha, aproximando-se de Elizabeth.

--Chegou para você pouco tempo depois de você sair. – Afirmou, entregando-lhe o vaso de flores.

Elizabeth franziu o cenho, ao aceitar o vaso de flores. Segurou-o longe do corpo e fitou demoradamente as delicadas orquídeas de pétalas com bordas brancas, interior lilás e o centro num tom de roxo vivo. Lindas!

Mas quem poderia enviar flores para ela nesta data? Seu coração deu um pulo, enchendo-se de esperanças de que fosse de William. Mas a razão insistia para que não se rendesse a esta fantasia.

Pensativa, considerou a possibilidade de ser um presente de George Wickham. Com certeza não aceitaria aquelas flores se fosse presente dele. O que seria uma pena, porque o vaso de flores é lindo.

--Abra o cartão! – Sua mãe urgiu.

Elizabeth ergueu o olhar para mãe e depois o lançou sobre Mary. Ambas a observavam com expectativa. E logo entendeu o motivo de Mary estar ali na sala, ao invés de estar lendo o seu livro no sossego do seu quarto.

--Vamos, leia o cartão! – Sua mãe lhe atiçou novamente.

Elizabeth pegou o envelope pequeno branco e percebeu que já fora aberto.

--A senhora leu o cartão? – Perguntou, indignada.

--Eu? – Sua mãe corou. – Claro que não. Imagina! – Dando-lhe as costas, evitando fitá-la nos olhos, e foi se sentar no sofá.

Elizabeth soube ali que a sua mãe já lera o seu cartão e sabia quem estava lhe enviando flores. Tentou ignorar a sua própria raiva com a sua intromissão.

Suspirando, equilibrou o vaso de flores no quadril com uma mão e abriu o cartão com a outra. Seus olhos não podiam acreditar no que estava lendo.

“Perdoe-me.

Eu estou com saudades de você.

William Darcy. “

Suas pernas ficaram bambas e o seu coração galopou em seu peito.

Alguém estava tentando lhe pregar uma peça. Fazê-la acreditar que Darcy estava lhe enviando um vaso de flores no Dia dos Namorados depois de ignorá-la por completo durante todos aqueles meses só podia ser uma brincadeira de muito mau gosto.

Mas o seu coração continuou a bater cada vez mais apressado, enquanto seus olhos percorriam aquelas poucas frases. Demorando-se um pouco em “Perdoe-me”. Para depois recair sobre o “Eu estou com saudades de você”.

As palavras estavam impressas em letras douradas, mas, de alguma forma, pareciam terem sido escritas a mão. A ponta do dedo polegar de Elizabeth percorreu os contornos em alto relevo do nome dele. “William Darcy”.

--E então? – Sua mãe chamou-lhe a atenção.

Elizabeth ergueu o olhar para ela, ainda confusa. E, aparvalhada, deu-lhe as costas e seguiu pelo corredor em direção ao seu quarto.

--Lizzie? – Sua mãe protestou, mas Elizabeth não lhe deu atenção. – Que menina!

No meio do corredor, Elizabeth cruzou caminho com seu pai. Ele estava à porta do seu pequeno escritório, tentando descobrir o motivo daquela gritaria. Ao ver a filha com o vaso de flores, deduziu do que se tratava.

Elizabeth corou sob o seu olhar, mas seu pai não lhe fez perguntas. Permitindo que ela seguisse seu caminho para o seu quarto. Ao ultrapassá-lo e olhar para dentro do escritório, viu sua mesa repleta de papeis. Imaginou que ele devia estar corrigindo exames ou trabalhos de seus alunos da universidade em que dá aulas.

Ao entrar no quarto, fechou a porta a suas costas e a trancou. Encostou-se a porta e suspirou, ainda segurando o vaso de flores em mãos. Após conseguir acalmar-se um pouco, caminhou até o outro lado do quarto. Contornou a cama e se aproximou da janela. Abriu um espaço na mesa logo abaixo da janela e depositou o vaso ali.

Afastou-se dois passos e ficou a admirá-la. Sentou-se na cama, largando sua bolsa com a câmera fotográfica sobre o colchão e voltou a sua atenção ao cartão em suas mãos. Tentando se decidir o que fazer.

Ficou tentada em ligar para ele e lhe perguntar se realmente lhe enviara aquelas flores. Mas depois se questionou o que faria se ele dissesse que não fora ele. Pensou em ligar para Jane e pedi-la para descobrir, mas imaginou que sua irmã estaria ocupada naquele momento com o próprio namorado.

Sem conseguir se decidir, ergueu-se da cama e foi colocar o cartão sobre e mesa, ao lado do vaso de orquídea. Em seguida, foi guardar sua câmera fotográfica e destrancou a porta do quarto. Indo para o banheiro, tomar um banho. Talvez se conseguisse relaxar o corpo e a mente, encontrasse uma solução.

De cabelos úmidos e despenteados, caiu na cama já vestida com algo mais confortável. Ainda confusa quanto ao que fazer, virou o rosto na direção do vaso de orquídea e viu o contorno de suas pétalas sob a luz tênue do crepúsculo.

Inquieta, ergueu-se da cama e começou a andar pelo quarto. Num impulso, tornou a trancar a porta do quarto e retornou para perto do vaso de orquídea. Pegou o seu celular e, com dedos trêmulos, discou o numero do celular dele.

Sentou-se na beirada da cama, tensa, enquanto escutava a chamada ser completada. O telefone tocou inúmeras vezes antes de ser atendido. O coração de Elizabeth falhou uma batida quando ela imaginou como seria ouvir a voz dele novamente. Mas a resposta ao seu “alô” foi um baque surdo e a ligação foi interrompida.

Incrédula, ficou olhando a tela do celular, perguntando-se, alarmada, se ele teria mesmo desligado a ligação em sua cara. Pois imaginava que o número do seu celular ainda devia estar registrado na agenda dele e, por isso, seria facilmente identificado.

Decepcionada, apertou o botão de encerrar a ligação em seu celular e ergueu o olhar para o vaso de orquídea. Aquelas flores não eram dele. Ele sequer queria falar com ela. Quem dirá lhe enviar flores. Devia saber!

O celular vibrou em sua mão e a capainha soou alto no silêncio soturno do seu quarto, assustando-a. Elizabeth vislumbrou a tela do celular e viu o nome dele ali exibido. Ele estava ligando de volta.

Respirando fundo, para acalmar-se, atendeu a ligação; dizendo a si mesma que teria de inventar uma desculpa plausível para explicar porque estava ligando para ele.

--Elizabeth? – Ouviu a voz rouca dele e seu coração voltou a galopar em seu peito.

--William. – Respondeu, tentando soar calma e não terrivelmente abalada.

--Desculpe... Eu estava tentando atender ao telefone e deixei o celular cair, interrompendo a ligação. – Ele se explicou, nervoso.

--Não faz mal. – Ela replicou; controlando-se para não demonstrar o quanto aquela afirmativa lhe deixava aliviada.

Darcy sabia que ela devia ter recebido as flores. Estava tentando planejar o seu próximo passo. Pensou em lhe enviar um e-mail, desculpando-se melhor e explicando tudo – ainda não sabia como abordar o tema envolvendo a sua irmã ou até que ponto lhe revelaria do ocorrido. Mas sabia que lhe devia uma explicação pelo seu comportamento.

Deduziu que o e-mail seria muito frio e impessoal. Por isso, estava decidido a ligar para ela no dia seguinte. Assim ela teria tido tempo de absorver a mensagem que queria transmitir com aquelas flores e estaria mais disposta a escutá-lo – assim esperava. Caso contrário, se ela não quisesse conversar com ele por telefone, teria que recorrer ao e-mail mesmo.

Ficou muito surpreso quando o seu celular tocou e a tela exibiu o nome de Elizabeth. Estava tão nervoso ao atender que derrubou o celular no chão. Quando percebeu que interrompera a ligação, praguejou feito louco. Apressando-se a ligar de volta.

E agora os dois estavam em silêncio total, incertos quanto ao que dizer ao outro. Elizabeth esperava que ele perguntasse por que ela estava ligando para ele e Darcy tentava encontrar uma forma de dizer-lhe tudo aquilo que queria.

--Você recebeu as flores? – Darcy, por fim, questionou.

--Sim. – Elizabeth respirou a palavra, liberando a respiração que sequer se dera conta de estar prendendo. – São lindas. – Disse, emocionada, tentando segurar as lágrimas; embora ninguém estivesse ali para vê-la chorando.

--Lizzie, eu... – Darcy murmurou; pigarreando, recomeçou. – Perdoe-me, Lizzie. Eu sinto muito. Eu não queria que as coisas terminassem daquela forma entre nós.

--Nem eu. – Elizabeth concordou, com a voz falhando.

--Eu sei que você só queria conversar, entender o que estava acontecendo, por que eu estava reagindo daquela forma. E eu descarreguei a minha raiva em você, sem perceber que era isto o que eu estava fazendo. E eu lhe devo uma explicação por isso. – Darcy argumentou; malmente parando para respirar depois de ter começado a falar.

--Você não me deve nada, William. – Elizabeth respondeu, mais controlada. Por mais que estivesse curiosa quanto ao que ele viesse a lhe revelar, sabia que fora tão errada quanto ele; porque dera ouvidos a George Wickham.

--Devo sim. – Darcy contestou, veemente. – Quando você defendeu aquele canalha para mim naquela noite, eu me descontrolei. Eu estava com tanta raiva que sequer pensei no que estava fazendo, o que estava dizendo.

Depois de ter começado a se explicar, Darcy quase não tinha controle do que estava dizendo. As palavras simplesmente saiam de sua boca, misturadas a raiva e mágoa que aquele assunto despertava dentro dele.

--Não conseguia entender como você era capaz de ficar do lado dele... Mesmo sabendo que você não sabia o que ele tinha feito... Como ele tinha se aproveitado da minha irmã, destruído a sua inocência.

Elizabeth arfou ao ouvir esta parte, tendo suas suspeitas confirmadas. E a sua reação o fez perceber o que tinha acabado de revelar e fazer uma pausa em seu discurso, para acalmar-se e retomar o controle sobre si mesmo.

--Mas esta é uma história tão delicada que não tenho certeza se pode ser tratada pelo telefone. – Ele disse, claramente indicando que não pretendia aprofundar a conversa nesta direção.

--Eu devia ter tentando lhe escutar. Devia ter adivinhado que você teria uma boa razão para agir daquela forma. – Elizabeth se recriminou. – Devia ter confiado em você. – Esta confissão não era fácil de ser feita e o desgaste emocional de fazê-la transparecia em sua voz.

Ambos permaneceram em silêncio depois disso. Cada um ponderando as palavras do outro. Tentando adivinhar como deviam prosseguir deste ponto.

--Perdoe-me por tê-la feito se sentir insignificante. – Darcy prosseguiu, rouco pela tensão. – Você não é. ...Se você soubesse o quanto é importante para mim. O quanto eu senti a sua falta.

--Eu também senti a sua falta. – Elizabeth afirmou, com a voz baixa e chorosa; enxugando as lágrimas que rolavam pelo seu rosto com uma das mãos.

Ela deitou-se na cama e apoiou a cabeça no travesseiro.

--Eu tentei não pensar em você, não sentir a sua falta. Mas foi impossível. – Darcy confessou; já sem medir as palavras. – Não consegui parar de pensar em você. E ver Jane aqui só me fez sentir mais saudades suas. Eu queria ouvir a sua voz, te ver, sentir o seu cheiro, tocá-la...

Aquelas palavras dele reacenderam uma chama de paixão dentro dela. Embora Darcy não houvesse dito que a estava apaixonado por ela, esta confissão valia muito mais que a simples admissão de tal sentimento.

--Eu queria que você estivesse aqui agora. – Elizabeth admitiu, sem medos.

--Eu também.

--Quando você vai voltar? – Perguntou, sabendo que devia estar soando desesperada.

Sabia quanto tempo ele devia ficar em Milão, por causa de sua irmã e Charles. Mas, no fundo, tinha esperanças de que Darcy dissesse que arranjaria um jeito de voltar mais cedo que o planejado só para estar com ela. Mesmo que fosse só por um dia.

--Eu tenho que ficar aqui até Maio. – Ele respondeu, decepcionando-a. – Venha para cá você. – Ele pediu em seguida.

--Não posso, não agora. – Elizabeth respondeu; e foi a vez dele de ficar decepcionado. – Eu estou atolada de trabalho, sequer tenho tido tempo de respirar direito.

Darcy já ouvira esta justificativa dela, mas tinha esperanças que fosse apenas uma desculpa que dera a Charles para não aceitar o seu convite; já que não sabia como ele a receberia.

--Há semanas eu não vou ao curso de fotografia... – Elizabeth estava dizendo e interrompeu-se de repente.

Darcy conseguiu adivinhar o motivo mesmo antes de ela se explicar.

--Ele não está lá. – Elizabeth não queria que ele continuasse a pensar que ela ainda mantinha contato com George.

--Eu sei. – Darcy afirmou, consiso.

E, embora estivesse curiosa como ele poderia saber disso, Elizabeth controlou-se para não desrespeitar sua vontade e se intrometer neste assunto novamente.

--Vamos ter que esperar até Maio para nos reencontrarmos, então? – Elizabeth questionou, mudando o foco da conversa de George Wickham para eles dois novamente.

--Não quero esperar até Maio para te ver de novo. – Darcy afirmou, estranhando a si mesmo por não conseguir mais conter as suas palavras e anseios. – Temos que descobrir um jeito de nos vermos antes disso. – Afirmou, consciente da vontade que sentia de ir direto para o aeroporto e voltar para Londres esta mesma noite.

Um novo silêncio recaiu sobre eles. Mas não um silêncio melancólico. Desta vez, ambos sentiam apenas o prazer de poder ouvir a respiração do outro.

Relutantes em desligar, continuaram conversando sobre qualquer coisa, apenas para poder continuar ouvindo a voz do outro.

“Eu deveria saber que não devia brincar com fogo pela segunda vez

Mas estou pensando...

Talvez, sim, talvez você possa

Me amar...

Talvez...”

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