Citações

Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXXIV

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Capítulo XXXIV

Arrependimentos

 

Elizabeth atravessou o saguão de entrada do Savoy Hotel e se dirigiu a recepção. Estava apreensiva, estranhando o motivo de ele ter escolhido aquele lugar para se encontrarem para conversar. Imaginava que se teriam aquela conversa, seria melhor que fosse num lugar onde pudessem ter privacidade. Quem sabe o apartamento dele. Nunca imaginara que seria em um quarto de hotel.

Identificou-se na recepção e a atendente lhe entregou a chave magnética de um dos apartamentos. Caminhou até o elevador ainda sentindo aquele friozinho na barriga incômodo. O seu sexto sentido lhe dizia para ter cautela, algo estava errado.

Desceu do elevador no andar que a recepcionista lhe indicara e caminhou para a porta do apartamento. Experimentou a chave magnética e instantaneamente ouviu a porta se destrancar. Alcançou a maçaneta e abriu a porta, entrando no apartamento.

Era um apartamento muito elegante e sofisticadamente decorado. Mas estava vazio, ele ainda não estava lá. Fechou a porta a suas costas e passeou por seus cômodos. À porta do quarto, viu uma decoração especial sobre a cama de casal king size. Pétalas de rosas vermelhas estavam cobrindo o lençol e ao lado da cama havia um balde de gelo, contendo uma garrafa de champagne. Duas taças estavam sobre o criado-mudo.

Seu estômago se contraiu, preenchendo-a de nervosa expectativa. Ficara evidente que ele tinha planos para aquela noite que iam além de uma mera conversa.

Foi então que viu a sombra de um homem a varanda do quarto. Aproximou-se da porta da varanda, sentindo seu coração galopar em seu peito mais rápido a cada passo que dava. Parou a porta da varanda e admirou-o. Ele estava debruçado no parapeito e vislumbrava a cidade ali abaixo, estando de costas para ela.

--Oi? – Chamou por ele, com a voz tremida.

Ele se virou e se aproximou, com um sorriso imenso no rosto.

--Eu sabia que você viria. – George Wickham disse, animado, estendendo os braços em sua direção.

--George? – Elizabeth deu um passo para trás, confusa. “O que ele está fazendo aqui?”, ela se perguntava.

Mas ele calou as suas dúvidas, ao prendê-la pela cintura e beijar-lhe a boca com grande ímpeto.

--Quando eu soube que você terminou com Darcy por minha causa, você não pode imaginar a minha alegria! – Ele exclamou, depois lhe sapecou outro beijo nos lábios.

Elizabeth lutou contra a sua força e conseguiu impedir que ele continuasse a lhe beijar. Mas ainda se viu presa em seus braços.

--Será que você pode me soltar? – Resmungou, contrariada, tentando fazê-lo libertá-la de seus braços.

--Então foi por isso aí que você me trocou?! – Ouviram a voz furiosa de Darcy.

Assustada, Elizabeth empurrou George para longe de si, até que conseguiu si ver livre de seus braços, e voltou-se na direção da voz de Darcy. Encontrando-o a soleira da porta do quarto.

--Foi pra isso que você me chamou aqui? – Indagou com desgosto em sua voz.

E, sem esperar por uma resposta, deu-lhe as costas e saiu do quarto.

--William, espere! – Elizabeth gritou, dirigindo-se a porta do quarto.

Mas George a alcançou antes que pudesse escapar e a segurou pelo braço, atirando-a na cama.

--Preparei uma noite especial para nós dois, querida. – Ele disse.

Elizabeth ergueu o olhar alarmado para ele e viu que George tinha uma câmera fotográfica nas mãos.

--Vamos começar nossa sessão de fotos? – Ele questionou, animado.

Elizabeth olhou-se e notou que estava completamente nua, sobre a cama daquele quarto de hotel. Tentou se cobrir, mas George não demorou a começar a tirar fotos suas assim.

Despertou assustada. Ergueu o edredom e verificou se estava vestida. Depois olhou a sua volta e percebeu que estava em seu próprio quarto, na segurança de sua casa. Alcançou o seu celular sobre o criado-mudo e viu que ainda era de madrugada, apenas duas horas da manhã.

Sabia que custaria a dormir novamente. Não conseguia esquecer a sensação horrível que aquele pesadelo lhe deixara. E sua mente teimava em remoer o remorso que sentia ao pensar em como tudo acabara entre ela e Darcy.

Odiava pensar que ele poderia acreditar que sua atitude para com ele em relação a Wickham fosse um sinal de predileção de sua parte.  Especialmente após o relato que ouvira de Luigi a respeito de Wickham, somados às reportagens que andara lendo antes de dormir.

Após a conversa que teve com Luigi a respeito de George, passou a analisar cada acontecimento e fato que passara em sua vida desde que o conhecera. Cada informação que tinha a seu respeito. Tentando contestar ou confirmar o que ouvira sobre ele.

E acabou se lembrando de algo que sua irmã, Jane, lhe dissera.

--Eu conversei com Charles e ele me contou que... – Jane passou a relatar a conversa que tivera com o namorado a este respeito. – Se George Wickham for a pessoa a que Charles se referiu, houve um processo. Então George não é tão “inocente” como ele fez com que acreditasse. – Jane apontou, com seriedade em seu tom de voz. – Há mais nesta história do que ele lhe contou. E você devia conversar com William, descobrir a verdade.

Viu-se diante da tela do computador, procurando no Google alguma informação sobre este tal processo. Por a família de Darcy ser tão importante e George Wickham ter certo grau de fama, devido a sua carreira de modelo, sabia que os jornais estariam interessados em uma escândalo envolvendo os dois.

E, voulá, encontrou vários artigos sobre o assunto. Realmente existira um processo legal envolvendo a família Darcy e o fotógrafo, antigo modelo. No qual George Wickham fora processado e condenado pelo crime de extorsão[1] mediante coação. Exigiu uma grande soma de dinheiro da família Darcy para manter umas fotografias longe da imprensa.

A reportagem não sabia informar o conteúdo das fotografias, já que o processo em si correu em segredo de justiça e as tais fotografias nunca foram divulgadas. Mas não impediu as especulações.

Algumas teorias afirmavam que as fotos revelavam um membro da família Darcy envolvido com alguma amante. Uns apontavam William Darcy sênior como o ator nesta trama; outros, o filho – quem, na época, relacionava-se com Anne De Bourgh.

E havia aqueles que alegavam que Richard Fitzwilliam era o motivo do escândalo. Aparentemente solteiro convicto, sempre visto rodeado por mulheres lindas. Ninguém duvidaria que algum dia seria o pivô de algum escândalo cabeludo. E, como na época, estava assumindo a direção da Darcy e Fitzwilliam Corporation – juntamente com o seu irmão – após a declarada aposentadoria de seu pai e do seu tio. Nenhuma das famílias desejaria que o nome da companhia fosse arrastado para lama juntamente com a imagem do mais novo CEO.

Mas não havia nenhuma referência a Georgiana Darcy.

Ainda assim, Elizabeth continuava a acreditar que ela estava envolvida. Não conseguia imaginar William reagindo daquela forma por alguma confusão em que o primo, o pai ou, até, a si mesmo se envolvera.

Outro fato que veio a sua mente só neste momento era que desde que retomara as suas aulas de fotografia, não encontrara mais George. Havia um novo instrutor assumindo suas funções no estúdio.

Achara aquilo estranho na primeira aula. Mas logo ficou satisfeita, porque já não tinha mais o desejo de reencontrá-lo e aprofundar a amizade. Por isso, sequer se dera o trabalho de inquirir Hank, seu outro instrutor do curso, o motivo de sua ausência.

Tentando esquecer aquele assunto, fechou os olhos e se forçou a dormir.

Acordou novamente com o celular tocando. Desligou o seu alarme e ergueu-se da cama, saindo do quarto. Tentou abrir a porta do banheiro, mas esta estava trancada. Bateu à porta e ouviu Lydia reclamar, antes de abrir a porta e sair – ainda vestida de pijama.

--Vê se não demora. – Sua irmã mais nova ordenou. – Eu ainda tenho que tomar banho para ir à escola. – Disse, seguindo em direção a cozinha.

~#~

Georgiana estava deitada no sofá da sala de seu apartamento, de volta ao Campus Universitário de Cambridge, tentando ler o romance Emma[2] da autora Jane Austen. Sentia-se ligeiramente cansada após retomar a rotina diária de aulas ao fim daquele recesso escolar de inverno.

Conseguia ouvir o barulho de pratos e talheres na modesta cozinha, onde Rebecca se encontrava naquele momento preparando um lanchinho da tarde. E tentava ignorar os sons de impaciência de Betsy, quem estava sentada em outra poltrona e brigava com o controle remoto. Os dedos apressados, apertando botões e mudando de canal de televisão sequencialmente. Sem que ela conseguisse encontrar algo de seu agrado para assistir.

Georgiana tinha a desconfiança de que o mal-humor de Betsy não se limitava à incapacidade televisiva de lhe manter entretida àquela tarde. Sua amiga voltara para o apartamento este dia já bastante irritada. O único mistério agora era o motivo.

Rebecca saiu da cozinha com uma tigela contendo algum tipo de salada de frutas com cereais e sentou-se no finzinho do sofá em que Georgiana estava sentada.

--Betsy, dá para parar! – Rebecca reclamou, pouco tempo depois de se sentar. – Assim eu não consigo assistir nada.

A resposta de Betsy foi deixar a televisão sintonizada do canal onde passava uma reportagem sobre pesca.

--Fala sério, você não quer assistir isso! – Rebecca reclamou de novo.

--Você pediu para não mudar, então pronto! – Betsy resmungou.

--Deixar num canal que passe alguma coisa que preste, não nisso aí! – Rebecca justificou-se. – Me dá o controle.

Betsy atendeu ao seu pedido contrafeita e observou a amiga ficar mudando os canais, sem encontrar nada que lhe chamasse a atenção.

--Não tem nada de interessante passando, viu?! – Betsy voltou a resmungar.

--Qual é o seu problema hoje, hem? – Rebecca questionou, desligando a televisão e voltando sua total atenção para ela. – Eu já não estou aguentando este seu mal-humor.

--Eu não estou de mal-humor. – Betsy negou.

Georgiana abaixou o livro e a fitou. Betsy leu em seu olhar, assim como no que Rebecca lhe dirigia naquele instante, que as amigas não acreditavam em sua palavra.

--Você acredita que Max passou por mim hoje perto do pavilhão C e não parou para falar comigo? – Betsy reclamou, indignada. – Ele passou acompanhando de uma garota lá e só me deu um tchauzinho. Nem quis saber como eu tinha passado o meu feriado em família, nem nada!

As suas amigas trocaram um olhar entendido e Rebecca apressou-se a justificar a atitude dele.

--Talvez ele estivesse atrasado.

--Não. – Betsy contestou imediatamente. – Eu passei enfrente a sala dele nem dois minutos depois e o encontrei conversando com a mesma garota, sentado num banquinho do lado de fora da sala. – Parecia cada vez mais furiosa.

As meninas voltaram a trocar outro olhar e, segurando-se para não rir, Georgiana perguntou.

--Você está com ciúmes dele?

--Claro que não! – Betsy praticamente gritou a resposta. – Eu só pensei que ele teria um pouco mais de consideração por mim. Eu pensei que ele fosse meu amigo... Um amigo verdadeiro! – E afundou-se no sofá, cruzando os braços sobre os seios, com uma grande carranca dominado o seu rosto. – Imagine! Eu? Ciúmes dele! Ha! Era só o que me faltava! – Resmungou, desdenhando.

Georgiana escondeu o rosto atrás do livro e tentou abafar uma risadinha, enquanto Rebecca enchia a boca de salada de frutas para não poder rir ela mesma. Mas Betsy não se deixou enganar e saiu da sala batendo os pés, revoltada com as amigas.

Georgiana e Rebecca riram quando se viram sozinhas.

--Ela está morrendo de ciúmes. – Rebecca garantiu.

--Eu sei. – Georgiana concordou. – E eu que não acreditei que o plano de Patrick ia dar certo. – Georgiana comentou, pensativa.

--Que plano? – Rebecca quis saber.

--Oh-ouh! – Georgiana murmurou.

--Agora você vai ter de me contar. – Rebecca comandou, animada com a novidade. – Eu juro que não conto a ninguém. – E fez um gesto sobre a boca, como se passasse um zíper sobre ela.

--Patrick convenceu Max a dar um gelo em Betsy, por assim dizer. Pra ela perceber que o que aconteceu entre eles não foi insignificante, etc. – Georgiana confidenciou. – Ele gosta dela. Max.

--Eu sei. – Rebecca riu-se, divertida. – E ela gosta dele.

--Pelo visto, mais do que ela quer admitir. – Georgiana argumentou.

--Vamos ver até quando. – Rebecca sentenciou.

Após uns minutos em silêncio, em que Georgiana voltou a ler o livro e Rebecca a comer, Rebecca perguntou.

--Como é que você consegue ler este livro? – Recuperando a atenção da amiga. – Eu sempre achei Emma tão chata!

--Verdade. – Georgiana concordou. – A primeira vez que eu li, demorei um tempão para terminar. Lia um ou dois capítulos, me irritava com Emma e deixava o livro de lado. Me prometendo que não voltaria a lê-lo. – Georgiana começou a explicar. – Mas, como não consigo deixar nada pela metade, acabava com o livro de novo nas mãos. E, no fim, não é que gostei da história.

Rebecca discordou, com um sutil aceno de cabeça.

--Gostei da história e não de Emma. – Georgiana especificou. – Garanto que você gosta de Orgulho e Preconceito. – Contestou.

--Não há como não gostar!– Rebecca protestou. – Além do mais, um romance não tem nada a ver com o outro. – Argumentou.

--Como não? Se os personagens são muito parecidos. – Georgiana argumentou. – O orgulhoso aristocrata que separa o seu grande amigo de uma jovem que não acredita estar à sua altura; enquanto que Emma separa a Srta. Harriet Smith do Sr. Robert Martin pelo mesmo motivo. Os dois acabam se arrependendo depois, porque os amores de suas vidas reprovam sua atitude... entre outros pormenores. Claro!

--Nunca tinha pensado nisso. – Rebecca declara, pensativa. – Não é que você tem razão! – Afirma, por fim, admirada.

As duas escutam a campainha da porta e Rebecca se levanta, para abrir a porta.

--Georgie, visita para você. – Diz, ao permitir que Eric adentre no apartamento.

Georgiana se sentou ao sofá e ele se curvou em sua direção, beijando-lhe suavemente a boca, antes de se sentar ao seu lado. Rebecca fechou a porta e voltou para o seu lugar ao sofá, continuando a comer a sua salada de frutas.

--E aí, Eric? Como foi o seu feriado de fim de ano? – Perguntou-lhe, dando inicio a uma nova conversa.

Embora os três se sentissem um pouco desconfortáveis com a situação, conversaram por alguns minutos cordialmente. Sabiam que aquela sensação esquisita só deixaria de existir quando se acostumassem com as circunstâncias.

Pouco tempo depois de terminar de comer, Rebecca deixou o casal sozinho na sala e seguiu para o seu quarto. Permitindo que Georgiana e Eric matassem a saudade que sentiam um do outro.

~#~

Darcy estava tendo uma conferência com Moira através do webcam do seu laptop, no apartamento em que ele e Charles estavam dividindo em Milão. Discutiam sobre o progresso da obra e sobre as providências que ela deveria tomar em sua ausência.

--Nós recebemos um convite formal de Catherine De Bourgh para participar da construção dos seus hotéis hoje. – Moira lhe informava. – Haverá uma espécie de concurso para determinar quem ficará responsável pela obra. Os arquitetos devem apresentar suas propostas até Abril, quando ela apresentará o projeto vencedor em um evento em um dos hotéis que será reformado. Fica em Las Vegas, Nevada.

Darcy não estava surpreso. Imaginava que Catherine não se daria por vencida tão facilmente.

--Eu preferi conversar com você antes de mandar uma resposta formal, recusando a oferta. – Moira tornou a explicar.

--Fez bem. – Darcy afirmou, pensativo.

Neste instante, Bingley juntou-se a ele.

--O que estamos discutindo? – Perguntou.

--A proposta de Catherine De Bourgh. Sobre a reforma dos hotéis. – Darcy esclareceu.

Moira não demorou a repassar as mesmas informações que dera a Darcy sobre o convite formal de Catherine para Bingley.

--Nós ainda estaremos aqui em Abril. – Bingley proclamou. – E não há como viajarmos até os hotéis, avaliá-los e fazer um projeto realmente bom para ganhar um concurso nas atuais circunstâncias. – Disse, expondo os problemas imediatos.

--Eu sei disso. – Darcy concordou. – Mas este seria um bom projeto para nós. – Bingley concordou em silêncio. – E eu sei que Catherine espera que eu lhe dê certa primazia devida à relação de amizade entre as nossas famílias, além do fato de que namorei Anne por muitos anos.

--E você não quer que ela guarde rancor de você... por mais isso – Moira atestou.

Embora Darcy não proclamasse sua concordância, estava pensando o mesmo. Sabia muito bem que sua ex-sogra desaprovava o fim de seu relacionamento com sua filha. E ficaria extremamente ofendida se Darcy não se esforçasse para atender o seu desejo quanto a este novo projeto.

--Como eu devo responder? – Moira questionou-os.

--Aceite o convite. – Darcy respondeu, após pensar um pouco.

--E como vamos resolver nosso pequeno problema? – Bingley interrogou-o, imaginando que ele já encontrara uma solução.

--Nós vamos enviar Howard Welberg e Franklin Gairkill aos hotéis e eles ficaram encarregados de fazer o projeto, representando a nossa sociedade. – Darcy expos o seu plano. – Moira supervisionará o progresso do trabalho deles de casa e nós avaliaremos o projeto deste jeito, através de conferências via webcam.

Howard Welberg e Franklin Gairkill são jovens arquitetos brilhantes contratados por Darcy e Bingley há algum tempo. Ambos possuem um conhecimento pretérito da estética de trabalho de Darcy e Bingley, permitindo que Darcy se sentisse tranqüilo que estariam à altura deste projeto.

--Tenho certeza de que Catherine estará esperando vê-lo no evento em Las Vegas em Abril. – Moira salientou.

--Não há como um de nós sair daqui, principalmente em Abril. Estaremos quase dentro do prazo de concluir a obra aqui e você sabe como tudo fica corrido neste período. – Darcy argumentou. – É quando problemas inimagináveis começam a surgir.

--Exatamente. – Bingley concordou.

--Eu sei... Eu só estou... – Moira interrompeu sua própria fala e virou-se de lado, olhando em outra direção. – Está na segunda porta da direita, prateleira de cima. – Então, voltou a lhes dar sua atenção. – O que eu estava dizendo mesmo?

--Richard está aí com você? – Darcy questionou-a, adivinhando o motivo de sua distração.

--Sim. Está fazendo o meu jantar. – Moira informou, sorrindo.

--Menina corajosa. – Darcy comentou, brincalhão. – Boa sorte!

--Eu ouvi isso! – Richard gritou, aparecendo instantes depois atrás de Moira. – Para o seu governo, eu sei cozinhar!

Bingley riu.

--Como se você não soubesse, aprendemos a cozinhar com a mesma pessoa. – Richard continuou com os seus protestos. – Só não sou um maluco por cozinha como você!

Bingley explodiu em uma gargalhada sonora.

--Com quem vocês aprenderam a cozinhar, afinal? – Quis saber, quando conseguiu controlar o seu riso.

--Minha mãe. – Moira esclareceu.

--Quando estávamos perto de irmos para a faculdade, a sra. Reynolds decidiu que era o momento de nos ensinar algumas coisinhas sobre cozinha e etc. Cuidados básicos que uma pessoa que mora sozinha deve ter. – Darcy completou.

Pouco tempo depois, a conferência foi encerrada. Bingley se recolheu em seu quarto e foi ligar para Jane. Darcy foi para o seu, mas não conseguiu dormir. Resolveu ligar para casa.

A sra. Jenkinson, governanta dos Darcy, atendeu ao telefone e ele pediu para falar com o pai. Após conversarem uns minutos sobre sua viagem e o progresso de seu trabalho em Milão, Darcy entrou no assunto que ainda o perturbava.

--Sr. Sharp deu alguma noticia sobre como anda a questão Wickham?

--Rousco me informou que o oficial de condicional de Wickham esteve no estúdio de fotografia a sua procura, confirmou que ele trabalha lá, mas não o encontrou lá em sua visita. – O seu pai o informou. – Procurou-o no endereço que possuía, no qual estaria residindo e não o encontrou novamente. Retornou aos dois lugares mais duas vezes e o resultado foi o mesmo.

--Se o acaso o impediu de encontrá-lo na primeira visita, é obvio que Wickham soube a respeito dela e decidiu que não esperaria para ver o resultado. Deve ter fugido. – Darcy resmungou, inconformado.

--É a mesma conclusão que tivemos. – Seu pai confirmou. – Rousco já prosseguiu com as ações cabíveis, baseando-se no resultado destas diligências. E o juiz declarou-o como fugitivo da justiça, devendo ser levado de volta para a penitenciária para cumprir o restante de sua pena logo que capturado.

--Se for capturado. – Darcy contestou.

--Tenha um pouco de fé. – Seu pai pediu, paciente.

--E Georgiana? – Questionou, preocupado.

--Ela está segura no campus universitário. – Seu pai atestou. – Wickham seria louco de ir atrás dela nestas circunstancias. Sabe que estão em seu encalço e que onde ela estiver, estaremos atentos a qualquer tentativa de aproximação sua.

--Eu ainda me sentiria mais tranqüilo se ela estivesse em casa. – Contra-argumentou.

--Eu também. Mas não posso impedir a sua irmã de prosseguir com a sua vida. Não estaremos ajudando sua irmã se agirmos assim. – Alexander explicou, calmamente.

Darcy sabia que seu pai tinha razão. Não tinha dúvidas que ele e sua mãe conversaram sobre isto e ponderaram todas as possibilidades. Mas sabia também que não se sentiria satisfeito até que Wickham fosse capturado.

Após encerrar a ligação, ficou deitado na cama. Tentando não pensar em Elizabeth e falhando miseravelmente. “Se arrependimento matasse, estaria morto e enterrado.”, pensou, depreciativo. “Deveria ter tentando conversar com ela.”.



[1] Extorsão: (art. 158 CPB) Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica (...). Pena: reclusão, de 4 a 10 anos, e multa. É crime formal; consuma-se independentemente da obtenção da vantagem indevida; consuma-se no instante em que a vítima , após sofrer violência ou grave ameaça, toma a atitude que o agente desejava (faz, deixa de fazer ou tolera que se faça algo), ainda que este não consiga obter qualquer vantagem econômica em sua decorrência.

 

[2] Emma: Emma Woodhouse é uma jovem aristocrata que vive na companhia do pai idoso e viúvo. Certa de que permanecerá solteira a vida inteira, esquece os próprios anseios amorosos e passa a atuar como “casamenteira”. Incorpora os costumes da Inglaterra vitoriana ao apoiar ou desaprovar namoro conforme seu juizo de valores.

 

 

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