Capítulo XXXIII
Janeiro
Richard sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Sentia o sono se esvair aos poucos. Relutante em despertar, puxou as cobertas mais para perto de si, quase cobrindo o rosto, e abraçou o corpo quente de Moira mais forte. Nem mesmo assim foi capaz de impedir-se de despertar.
Suspirando, abriu os olhos e sorriu ao constatar que os cabelos castanhos e perfumados de Moira estavam quase cobrindo o seu rosto por completo. Delicadamente, retirou o cabelo dela de seu rosto e encostou o nariz em sua nuca. Respirou fundo e, inconscientemente, apertou ainda mais o corpo dela de encontro ao seu.
Não saberia precisar quanto tempo permaneceu assim, abraçado a ela, perdido entre dois mundos. Sabia estar desperto, mas sentia como se estivesse sonhando. Até o instante em que ela começou a se mover, tentando se espreguiçar entre seus braços.
Não se apressou em soltá-la, esperando que Moira fizesse algum comentário. Tinha quase certeza de que ela sabia que já estava acordado. Mas percebeu que o quanto mais alerta ela ficava, menos se movia em seus braços. Era como se temesse despertá-lo com seus movimentos agitados.
Estava preste a chamar a sua atenção, quando percebeu que ela tentava sair de seu abraço sem correr riscos de acordá-lo, ao julgá-lo adormecido. Como se estivesse temerosa com a possibilidade de ter de enfrentá-lo naquela circunstância.
Temendo o significado deste seu ato, fechou os olhos e fingiu que estava dormindo. Magoado e hesitante, permitiu que ela escapasse de seus braços e se afastasse dele na cama. Podia sentir seus movimentos, até que percebeu o instante em que ela se ergueu e levantou-se da cama.
Permaneceu de olhos fechados, escutando atentamente cada um de seus barulhos. Quase capaz de dizer com certeza cada um de seus passos. Quando ela caminhou em direção ao banheiro e entrou, fechando a porta. Todos os seus sons enquanto estava trancada lá, até o instante em que retornou para o quarto.
Podia sentir sua presença contornando a cama, catando suas roupas no chão do quarto e depois se vestindo. Em seguida, caminhando em direção a porta do quarto, a abrindo devagarzinho e cuidadosamente, para não fazer muito barulho. Saindo e fechando a porta tão lentamente quanto quando a abriu.
Estava furioso. Não conseguia acreditar que ela fora capaz de abandoná-lo desta forma. Se ela queria ser covarde, ele não seria. Não a deixaria fugir dele mais uma vez. Faria ela enxergar que não ficaria correndo atrás dela, esperando que o perdoasse. Estava cansado disto. Era agora ou nunca. Ela teria que se decidir.
Abriu os olhos e se levantou da cama. Procurou por suas próprias roupas no chão do quarto e ficou confuso ao não encontrar peça alguma. Olhou a sua volta e viu um amontoado de roupas devidamente dobradas em cima de uma poltrona do outro lado do quarto. As suas roupas e as dela.
Enquanto se vestia, perguntava-se como Moira poderia voltar para a casa anexo naquela fria manhã de janeiro, atravessando uma grande camada de neve que estaria cobrindo o chão do lado de fora, sem as suas roupas.
Olhou para o banheiro e, por entre a porta aberta, notou a ausência de seu roupão. Permitiu ser dominado por uma onda de alivio. Ela não partiu, como imaginara.
Apressou-se mais ao se vestir e saiu do quarto a sua procura. Encontrando-a na cozinha, procurando o que comer. Encostou-se a soleira da porta da cozinha e ficou a admirá-la, enquanto Moira abria as portas superior do armário da despensa e ficava na ponta dos pés para poder enxergar melhor as guloseimas ali estocadas.
Sorrateiramente, aproximou-se dela e a envolveu pela cintura. Moira pulou e gritou, em plena força de seus pulmões, lutando para se soltar dos braços que a prendiam. E Richard gargalhou alto, sem deixá-la escapar-lhe.
--... – Moira proferiu um impropério ao reconhecer sua voz. – Esta tentando me matar de susto?
--Quem você imaginou que estaria te “atacando” a esta hora da manhã, meu amor? – Quis saber, ao fazê-la voltar-se de frente para si sem sair dos seus braços. A sombra do riso ainda estava presente em seus lábios. – Se estamos sozinhos aqui em casa. – E ficando sóbrio, acrescentou. – Luke?
--Ahh, pelo amor de Deus, de novo não. Não estava acontecendo nada entre mim e Luke. – Moira argumentou. – Nunca aconteceu nada entre nós.
--Porque eu me certifiquei disso sempre que aquele pateta ousava lhe cortejar. – Replicou, estufando o peitoral, satisfeito consigo mesmo. – Mas isso não o impediu de ficar lhe rondando desde que você veio para cá.
Moira revirou os olhos, impaciente.
--Ainda não consegui entender como você pôde se interessar por aquele Zé Mané algum dia! – Desdenhou, ciumento. – Pois ele que se meta à besta, pra vê o que vou fazer com ele! – Ameaçou com seriedade.
--Já imaginou se eu resolver procurar briga com cada uma de suas ex-namoradas? – Ela propôs, contra-argumentando.
--Eu não tive namorada alguma além de você. – Defendeu-se, ele.
--As mulheres que você levou para cama, então. – Rebateu ela, enraivecida. – Brigarei com metade da Inglaterra com toda certeza. – E começou a tentar se desvencilhar dele de novo.
Richard a impediu, selando sua boca com um beijo ardente. Acabando com sua tentativa inútil de se soltar dele.
--Por que saímos da cama? – Ele resmungou, entre um beijo e outro.
E começou a guiá-la em direção a porta da despensa para a cozinha. Mas ao alcançá-la, ao invés de atravessá-la, fechou-a e prosseguiu com suas atividades ali mesmo – no escurinho da despensa.
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Charlotte assistia Elizabeth admirar a sua nova calça jeans diante do espelho do provador da loja. Elizabeth a convidara para acompanhá-la até o shopping, para que pudesse trocar alguns presentes de Natal.
--A sua mãe não sabe o tamanho que você veste? – Questionou-lhe, encontrando o seu olhar através do espelho.
--Sabe. – Elizabeth respondeu. – Mas de vez em quando compra algo com a numeração menor, para me “encorajar” a fazer dieta.
--Ela nunca percebeu que você sempre as troca? – Charlotte se admirou, divertida.
--Eu tomo o cuidado de arrancar a etiqueta e só usar a roupa em sua frente umas semanas depois. – Elizabeth explicou. – Assim ela fica imaginando que fechei a boca por alguns dias e perdi uns quilinhos.
--Tudo bem. Mas você é modelo. Há sempre aquelas tomadas de medidas na agência e etc. E nem assim ela desconfia? – Charlotte continuava incrédula quanto a ingenuidade da sra. Bennet, quem sempre lhe pareceu bastante atenta a tudo.
--Até a ocasião da tomada de medidas, ela me deixa em paz. O que pra mim já é uma vantagem. – Elizabeth argumentou, displicente.
Após deixarem a loja, efetuada a troca das peças, as duas amigas foram lanchar na praça de alimentação. Como se estivesse se sentindo culpada por estar enganando a própria mãe, Elizabeth convenceu Charlotte a almoçar em um restaurante de comida mais saudável.
Enquanto comiam, Charlotte lhe contava as suas próprias novidades.
--Você não vai acreditar em quem ligou pra mim, marcando uma visitinha para tomar um chá.
--Quem? – Elizabeth se animou com a fofoca.
--Anne De Bourgh.
--O que ela queria? – Questionou, estranhando a novidade.
--Eu lhe disse que ela ficou me crivando de perguntas sobre o que eu fazia trabalhando com Ariel Choo durante a festa de Ano Novo. – Charlotte começou a lhe explicar. – Durante o chá, ela me fez uma proposta.
Ao ouvir isto, Elizabeth se inclinou mais sobre a mesa, em expectativa.
--Ela quer financiar a minha linha de roupas e acessórios. Quer montar uma butique, para que possamos vender aquilo que eu criar. – Charlotte continuou, como se ainda não conseguisse acreditar. – Eu ficaria responsável pelas criações das peças e ela gerenciaria a loja.
--Uau! – Foi só o que Elizabeth conseguiu dizer.
--Eu sei... – Charlotte concordou. – Eu poderei assinar minhas próprias criações e não trabalharei mais em função da visão de outra pessoa. Sabe o que isso significa?
--Independência. – Elizabeth exclamou, sorrindo. – Era tudo o que você queria, Char! – Declarou, feliz pela amiga. – Você aceitou, não? Você tem de aceitar!
--É claro que aceitei. – Charlotte prontamente respondeu.
--Meus parabéns, amiga! Estou tão feliz por você! – Elizabeth estava genuinamente feliz; mas percebeu que Charlotte parecia contida demais para uma pessoa que teve seu desejo mais intimo realizado. – O que você não está me contando? – Perguntou-lhe, desconfiada.
--Anne está indo morar com o namorado em Los Angeles. E quer instalar a butique lá, assim poderá estar mais envolvida com o projeto. – Charlotte informou-lhe. – Eu terei de me mudar e montar o meu ateliê lá.
--E quando você vai? – Elizabeth quis saber, já não tão animada com a novidade.
--Daqui a duas semanas. – Charlotte disse, triste. – Tenho que conversar com Ariel e informar que estarei me desligando de seu ateliê. Preciso sublocar o meu apartamento e organizar a minha partida com os meus pais.
Elizabeth ficou em silêncio, sem saber o que dizer.
--O seu primo prometeu me ajudar a encontrar um lugar para morar lá. – Charlotte acrescentou, sorrindo; como se estivesse lhe dando uma boa noticia.
--Por favor, não me diga que está cogitando morar com ele. – Elizabeth implorou, com uma expressão de desgosto no rosto.
Tinha esperanças que com a partida de Collins para os EUA, sua amiga ficaria livre dele e poderia encontrar alguém que realmente lhe merecesse. E só agora percebeu que ela estando nos EUA também, a possibilidade do relacionamento se tornar algo mais sério crescia a cada instante.
--Não. – Charlotte riu-se de seu comentário. – Parece que não conhece o seu primo. – Admirou-se. – Ele me pediria em casamento primeiro. – Concluiu, debochada. – Seria um sacrilégio vivermos sob o mesmo teto em pecado! – Gargalhou por fim.
Elizabeth não acompanhou a sua risada. Essa resposta não a deixou mais contente com a perspectiva.
As duas ficaram em silêncio. Até Charlotte resolver mudar o assunto, para desanuviar o clima.
--E Jane, como está? Charles já viajou?
--Amanhã. – Elizabeth informou. – Ele partirá para Milão amanhã. Ele é Jane estão aproveitando cada segundo que lhes resta destes dias e passando juntos. Mamãe está convencida de que ele a pedirá em casamento antes de partir. – Elizabeth comentou, cética.
--Você parece duvidar.
--É muito cedo ainda. – Elizabeth defendeu.
--Você acha que Jane aceitaria, se ele pedisse? – Charlotte estava curiosa.
--Sim! – Elizabeth riu-se. – Sem hesitar.
--E nenhum sinal do sr. Darcy? – Charlotte perguntou com cautela.
--Não. – Elizabeth respondeu, fria.
Outro silêncio incômodo pairou entre elas, caso em que aproveitaram para retornar suas atenções para a comida.
--Este lugar está ocupado? – Ouviram uma voz masculina perguntar.
As duas amigas voltaram o olhar para o homem de pé ao lado de sua mesa, com uma bandeja com comida.
--George! – Elizabeth exclamou, retribuindo o sorriso que via estampado no rosto dele.
--Parece-me que estamos fadados a nos encontrar por acaso. – Ele brincou.
--Por favor, sente-se. – Elizabeth o convidou. – Sinta-se a vontade.
--Olá, como vai? – George cumprimentou Elizabeth e em seguida Charlotte.
--Oh, perdoe-me. Esta é minha amiga, Charlotte Lucas. – Elizabeth os apresentou. – Char, este é George Wickham.
Charlotte lançou-lhe um olhar cheio de significados, antes de responder aos cumprimentos de George.
--Conte-me: como passou os feriados de fim de ano? – Ele quis saber, soando cordial.
--Tranqüilo, em família. – Elizabeth respondeu e Charlotte deu a entender que consigo acontecera o mesmo. – E você?
--Igualmente tranqüilo. Mas, como não tenho família por aqui, passei com alguns amigos.
E assim se seguiu o almoço, eles tendo uma conversa agradável sobre nada de grande importância.
--Eu vim trocar alguns presentes. – Elizabeth esclareceu-lhe o motivo de se encontrarem no shopping.
--Eu vim pegar alguns instrumentos novos na loja de materiais fotográficos, mas preferi almoçar primeiro. – George informou-lhes.
--Talvez nós pudéssemos acompanhá-lo até a loja. – Charlotte propôs, com segundas intenções; tentando criar uma oportunidade para amiga conhecer melhor George Wickham fora do ambiente do curso de fotografia que freqüenta. – Lizzie sempre dá uma passadinha por lá quando vem aqui, mesmo que seja só para olhar a vitrine.
--Ficarei muito feliz com a companhia de duas lindas mulheres. – Ele gracejou, dirigindo um olhar mais demorado na direção de Elizabeth.
Após terminarem de almoçar, seguiram para a loja de materiais fotográficos. À porta da loja, encontraram outra pessoa que estava saindo desta com uma sacola de compras.
--Lizzie. – Luigi sorriu-lhe, acercando-se dela. – Estava mesmo querendo falar com você. Nós nunca marcamos aquele encontro, se lembra?
--Claro. Com a exposição e as festas de fim de ano, ficou meio difícil. Eu sei. – Ela concordou, já dando uma justificativa por ele.
--Exatamente. – Ele olhou para suas companhias e Elizabeth tratou de apresentá-los.
--Esta é minha amiga Charlotte Lucas e este é George Wickham.
Luigi cumprimentou os dois e demorou-se um pouco mais no aperto de mão com George.
--Eu não lhe conheço? – Questionou-lhe, ao soltar a sua mão.
--Não. – George respondeu, tranqüilo. – Embora eu tenha ido a sua exposição há algumas semanas, nós nunca fomos apresentados antes.
--Seu nome me soa familiar. – Luigi declarou, ainda olhando para George fixamente.
--George é fotógrafo, como você. E foi modelo. – Elizabeth informou-lhe, tentando ajudá-lo a desvendar aquele mistério. – Ele costumava fazer campanhas para Calvin Klein.
Luigi fitou-o por mais um longo momento, em silêncio, depois um ar de reconhecimento perpassou o seu olhar.
--Ah sim, claro. Eu já ouvi falar. – Declarou. – Como vocês se conheceram? – Perguntou a Elizabeth.
--Ele é meu instrutor naquele curso de fotografia que lhe falei a respeito. – Elizabeth replicou, prontamente.
--Ahh. – Luigi voltou a dirigir um olhar penetrante a George, que parecia totalmente à vontade na sua companhia. E depois voltou sua atenção a Elizabeth. – Por que a gente não se encontra amanhã na Galeria? Assim eu dou uma olhada nas suas fotografias e colocamos a conversa em dia.
--Absolutamente. – Elizabeth concordou, contente. – Amanhã pela tarde está bom para você?
--Maravilhoso. – Luigi confirmou.– Foi um prazer conhecê-los. – Disse, ao se despedir de Charlotte e George. – Até amanhã, então. – Despediu-se de Elizabeth, permitindo-lhes entrar na loja e prosseguir com suas atividades.
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Darcy estava sentado no saguão de embarque do aeroporto, aguardando o instante de embarcar. Charles e Jane estavam sentados ao seu lado. E ele podia entreouvir a conversa dos dois.
Fingia não perceber a tentativa do casal de manter fora da conversa o tema mais importante em suas mentes, a partida de Charles para outro país. Pessoalmente, questionava por quanto tempo duraria o relacionamento deles após a partida deles para Milão.
Conhecia pouco de Jane e não saberia dizer como ela lidaria com um relacionamento a distância. Mas conhecia bem Charles e sabia que seria muito difícil para o seu amigo se manter fiel a Jane estando a quilômetros distância. Charles sempre fora muito rápido em se encantar por uma linda mulher e não tinha dúvidas de que estariam cercados por várias delas quando chegassem a Milão.
Ficaria extremamente impressionado se o relacionamento deles sobrevivesse há estes cinco meses. Só assim seria capaz de apostar na possibilidade deste relacionamento evoluir para algo consideravelmente sério, um real compromisso.
O seu vôo foi anunciado e Darcy se ergueu do banco, caminhando em direção ao portão de embarque sem esperar por Charles. Queria dar ao casal a chance de se despedir em privacidade.
Mas parou ao portão para aguardar o amigo e voltou-se em sua direção, ficando a observá-los abraçados.
Charles deu-lhe um profundo beijo apaixonado, sussurrando em seguida.
--São apenas cinco meses. – Numa tentativa de consolá-la, mas soando inseguro.
--Vai passar rápido, eu sei. – Jane replicou, mais firme que ele.
Charles deu-lhe outro beijo intenso e apertou-a firme em seus braços. Quando ouviram a segunda chamada do vôo, souberam que teriam de se separar. Mas ainda assim, foi difícil consegui-lo.
--Eu ligo para você assim que chegar lá. – Ele prometeu, ao se afastar.
Jane concordou com um aceno de cabeça, segurando firme um sorriso no rosto. Não queria chorar em sua frente. E preferiu ir embora assim que o viu atravessar o portão de embarque. Não via sentido de permanecer ali e assistir ao avião decolar. Preferia estar na privacidade do seu quarto para desabafar a sua tristeza.
Ao sentar-se ao lado do amigo no avião, Darcy reparou no semblante sofrido de Charles. Era estranho vê-lo desta forma por causa de uma separação amorosa – ainda mais sendo esta temporária. E começou a cogitar a possibilidade de Charles conseguir sobreviver aos cinco meses em Milão sem se envolver com outra mulher.
Afinal, qualquer coisa é possível. Se seu primo conseguira reconquistar Moira, por que Charles e Jane não poderiam conseguir manter um relacionamento à distância?
Como ficara surpreso quando Moira retornara a Londres para assumir a chefia de sua sociedade em sua ausência. Ela parecia o oposto da mulher que fora passar o feriado natalino com os pais no interior e tinha dúvidas quanto a sua capacidade em comandar tudo sozinha em sua ausência. Quem parecia abatida e descrente com sua sorte no amor.
Retornara tão contente e segura; ele diria até que radiante. E descobriu o motivo de sua felicidade quando Richard veio lhe buscar para um almoço no meio do expediente. Ele também parecia feliz. Na verdade, bastante satisfeito consigo mesmo. E Darcy não teve mais dúvida que algo havia acontecido entre eles durante a sua estadia em Pemberley. Eles estavam juntos novamente.
Ao pensar nisto, sentiu uma pontada de inveja. E ponderou que talvez ele estivesse sendo tão cético com relação a Charles por causa das suas próprias experiências amorosas. Talvez estivesse amargurado.
Restava-lhe apenas esperar que o tempo lhe fosse gentil e ajudasse-o a tirar estes pensamentos inconvenientes com certa mulher de olhos castanhos em fogo da cabeça; apagasse a lembrança da sensação de tê-la em seus braços e o gosto dos seus lábios de sua boca.
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Elizabeth chegou a Galeria no finzinho daquela tarde. Luigi a agradava e juntos passearam pela Galeria, revendo as fotografias. Luigi lhe confidenciou que a exposição fora um sucesso e que a maioria dos quadros já fora vendido; aguardando apenas o fim do período de exposição para ser entregue aos seus respectivos donos. Elizabeth ficou extremamente feliz pelo sucesso do amigo e assim o demonstrou.
Em seguida, Luigi convidou-a para um lanche em uma casa de chá elegante próxima a Galeria. Passando a examinar as fotografias de Elizabeth e discutir o seu progresso, dando-lhe novas dicas e referências nesta ocasião.
Quando retornavam a Galeria, onde Luigi ainda tinha alguns negócios a tratar com o proprietário, Elizabeth foi surpreendida pela pergunta do amigo.
--Como estão as coisas entre você e o sr. Darcy?
--Ham... – Elizabeth pestanejou, fitando o amigo de forma desconcertada. – Ham... Não estamos mais juntos. – Por fim, replicou.
--Por quê? – Ele quis saber; não parecia surpreso com sua revelação, apenas desconfiado.
--Você sabe... Incompatibilidades. – Respondeu, evasiva.
--Por acaso o fim de seu relacionamento não tem nada a ver com aquele George Wickham, tem Lizzie?
Elizabeth fitou-o, em silêncio, incapaz de entender como ele fora capaz de adivinhar. Ou ele sabia algo que ela desconhecia?
--Está acontecendo alguma coisa entre vocês dois? – Luigi pressionou-a; percebera os olhares que George lançava a Elizabeth no dia anterior, quando esteve em sua companhia no shopping.
--Ele é meu instrutor, nada mais. – Elizabeth informou-lhe, estranhando o seu comportamento.
--Assim é melhor. – Luigi afirmou, parecendo aliviado.
--Por que diz isso? – Elizabeth quis saber. – Eu não tenho nada com ele agora, mas e se eu viesse a me interessar por ele?
--Não deve! – Luigi foi veemente.
--Por quê? Por que você me parece tão contrário a George?! – Ela estava decidida a ter uma resposta direta.
Estava cansada de enigmas. Primeiro William Darcy, agora Luigi Wolfman. O que existia de tão sombrio em George Wickham para desencadear este tipo de reação nas pessoas?
--O que você sabe a seu respeito? – Luigi perguntou-lhe, ao guiá-la para dentro da Galeria, a fim de fugir dos ouvidos alheios das pessoas que circulavam pela rua àquela hora.
--O que eu lhe disse ao apresentá-los: que ele era modelo, agora é fotógrafo e trabalha como instrutor no estúdio em que tomo o curso de fotografia. – Ela replicou, exasperada.
Luigi suspirou, ficando em silêncio. Pensativo.
--Será que você pode me explicar por que você está agindo assim? O que você sabe sobre ele? – Ela interrogou.
--Lembra-se quando eu estava me afastando do mundo da moda? – Ele começou a explicar, continuando a guiá-la pela Galeria adentro, a procura de um lugar mais recluso. – Lembra-se que eu não pretendia cortar todos os vínculos com este meio logo de imediato?
--Sim, mas você mudou de idéia depois. – Ela completou.
--Sim. E o motivo foi... A agência com a qual eu estava vinculado havia contratado este novo fotógrafo. Um novato, inexperiente no ramo da fotografia, mas renomado no mundo da moda. Um ex-modelo.
--George Wickham? – Elizabeth indagou e Luigi confirmou com um curto aceno. – Como isso pode ter sido o motivo...? – Começou a perguntar, mas ele a interrompeu.
--Tudo parecia estar dando certo com o novo fotógrafo. Ele tinha talento e estava trazendo publicidade para a agência por causa do seu passado como modelo. – Ele prosseguiu com a narração. – Novas modelos apareciam a cada dia, procurando assinar contratos com a agência. Ele fazia muito sucesso com as mulheres em geral, sempre cheio de charmes e galanteios. Não demorou muito para que surgissem boatos de envolvimentos dele com as modelos.
Elizabeth não conseguia entender como isso poderia ser significante para a sua reação. Ela sabia muito bem o quanto isto era comum neste meio. E não possuía fantasias de que George fosse um santo.
--Um dia, meses depois, uma mãe de uma das modelos apareceu na agência. Ela estava histérica, alegando que um dos fotógrafos contratados da agência estava abusando de sua filha de apenas quatorze anos. – Luigi declarou, sombrio, e Elizabeth sentiu o seu coração se contrair. – Ela tinha encontrado o diário da filha, onde a menina narrava um encontro clandestino com tal fotógrafo em seu apartamento para uma “sessão de fotos” privada.
Elizabeth estava muda, pasma.
--Logo novos casos similares começaram a aparecer. Todos envolvendo meninas entre seus treze, quatorze e quinze anos, e o mesmo fotógrafo. – Luigi prosseguiu.
--O que aconteceu? – Questionou, aflita; agora que sabia disso, precisava conhecer toda a verdade.
--A agência conseguiu convencer as famílias a não prestar queixa contra o fotógrafo ou processar a agência. Alegou que seria um trauma ainda maior para as meninas ter de enfrentar um processo como aquele e ainda teriam a imagem manchada por causa deste ocorrido. Acabando, assim, com qualquer possibilidade de prosseguir naquele meio.
Elizabeth não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
--Eles fizeram um contrato de dez anos com as modelos, onde elas se comprometiam em manter o assunto confidencial, e a agência se responsabilizaria em promovê-las no mundo da moda praticamente de graça. – Luigi disse.
--E o fotógrafo? Ficou impune? – Elizabeth se exaltou.
--Eles o despediram e cuidaram para que nenhuma outra agência viesse a lhe contratar, pintando-o como um péssimo profissional.
--Inacreditável!
--Foi aí que eu decidi me desligar completamente deste meio. Abrindo exceção recentemente a pedido de uma amiga, vindo a tirar aquelas suas fotos. Lembra?
--Sim. – Elizabeth murmurou; sentia sua mente rodar. Como poderia ter se enganado tanto com uma pessoa? – Você tem certeza que este fotógrafo é George Wickham?
--Tenho. – Luigi confirmou, convicto. – Eu lhe disse ontem que me lembrava do nome dele. Quando os deixei no shopping, fiquei tentando me lembrar de onde o conhecia. E, por fim, quando lembrei, não pude acreditar. Porque ele esteve meio que sumido nos últimos anos, então... Eu liguei para um amigo que trabalhou comigo na agência naquela mesma época e ele me confirmou que se tratava da mesma pessoa.
Elizabeth estava pálida, sentindo-se perdida naquele momento.
--Por isso, Lizzie, você deve me prometer que não irá se envolver com ele. – Luigi pediu.
--Claro que não. – Ela replicou. – Eu não poderia.
Depois desta resposta, Luigi ficou mais aliviado. E minutos depois, eles se despediram.
Ao deixar a Galeria, Elizabeth repassava a história que acabara de ouvir em sua mente. Ainda assombrada.
Estancou no meio do passeio, quando a voz de Wickham soou em seus ouvidos, como se ele estivesse parado ao seu lado.
--...eu cometi o incrível erro de registrar o momento em que um membro da família Darcy se encontrava... Como eu posso dizer? – Fez uma pausa, aumentando o suspense. – Bem, em maus lençóis.
E lembrou-se do almoço no apartamento de Darcy, quando ele a levou para conhecer o seu quarto e viu a foto de sua irmã.
--Esta é sua irmã? – Ela perguntou, ao ver uma foto de Georgiana à peça ao lado de sua cama.
--Sim. – Sorriu ao responder. – Ela tinha dezessete anos nesta foto. – Esclareceu, perdendo o sorriso dos lábios logo depois.
E sentiu as suas pernas perderem a força. Ouvindo em sua mente as vozes dos dois se sobressaltando.
--...cometi o incrível erro de registrar o momento em que um membro da família Darcy se encontrava... Bem, em maus lençóis. – George, com um tom de fingida amargura.
--Ela tinha dezessete anos nesta foto. – Darcy, com pesar e dor em seu tom de voz.
Sentiu seus lhos pinicarem, ao lembrar da discussão que tiveram em seu carro no dia da exposição das fotos de Luigi. Das acusações que lhe fizera.
--George me contou tudo sobre as fotos. – Escapou da sua boca sem que ela pudesse impedir.
E mais uma vez, viu nos olhos de Darcy aquela mesma sombra de incredulidade.
--Contou? – Ele perguntou, alarmado. – O que ele lhe contou, exatamente? Porque eu duvido que se ele tivesse lhe contado a verdade, você estaria defendendo aquele crápula para mim esta noite! – Explodiu, revoltado.
--O que eu fiz? – Se perguntou, pondo as mãos na cabeça.
“Como pude ter sido tão injusta? Tão cega? William tinha toda a razão por ter agido daquela forma comigo. E agora era tarde demais. Ele já deve ter partido há esta hora e com certeza não irá querer ter mais nada comigo mesmo depois de voltar.”
Seguiu para casa, esperando encontrar sua irmã abatida após a sua despedida com Charles. E saberia que também não se encontrava em um estado melhor que Jane.














