Citações

Boa vontade com todos, mas não amizade com todos, faz de um homem o que ele deve ser. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXX

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Capítulo XXX

Feliz Natal

 

Lydia acessou a sua conta no site de relacionamento e seguiu para a sua página de recados. Leu todos e respondeu aqueles que achou importante. Em seguida, passou a xeretar a página de recados de seus amigos, e amigos de amigos no site. 
Ao abrir a o perfil de Lexi, revirou os olhos para a foto dela. Mas ainda assim acessou a sua página de recados. Ao ler a última mensagem postada ali, teve sua curiosidade aguçada. Lexi estava recriminando suas amigas por usarem sua página de recados para falar de Catherine e Zackary.

--Kitty, olha isso aqui! – Exclamou, excitada, abaixando o mouse e procurando o inicio daquele diálogo.

Morgan: Eu ainda não entendi o que Zack vê em Kitty... Ela é uma garota tão sem sal!

S@ssy: Eu nem acreditei quando o vi lá na porta da escola, esperando por ela. Tem umas garotas que são sortudas!

Morgan: Nem me fale! Quem me dera um gato daquele me dá bola... Ai, me abana! Rsrs...

Tristan: Eita que estas meninas estão desesperadas. Sabiam que qualquer um pode ler estas mensagens?! Inclusive ele.

Morgan: Se ele lê, melhor ainda. Assim fica sabendo que sou solteira e acho ele um gato!

S@ssy: Eu também! Rsrs...

Robbie: Se liga, ele tem namorada! Dah!

Morgan: Namoro mais morno que já vi. Nem um beijinho! Passam o tempo todo falando de livros...

S@ssy: Eu, no lugar dela, tinha era tascado um beijão nele.

Robbie: Hei, Kitty é tímida. Ou não percebeu como ela sempre fica toda vermelha quando ele pega na mão dela...

Morgan: Lerda!

Lexi: Dá para parar de usar a minha página de recados para falar de Zack e Kitty?! A próxima pessoa deixar um scrap a respeito deles aqui será excluída da minha conta de amigos!

--Invejosas! – Lydia resmungou, desdenhosa. Pensativa, disse. – Talvez ele seja gay.

Ao pensar nisso, voltou a sua página e, por ela, acessou o perfil de sua irmã. Na página de recados de Catherine havia uma mensagem de Zackary datada do dia anterior. Ele perguntava-lhe se já começara a ler o 3º livro da saga Percy Jackson e os Olimpianos – A Maldição do Titã, e se estava gostando.

Ao olhar para a foto dele, ponderou que seria mesmo um desperdício se um garoto como ele fosse gay. Mas não encontrava nenhuma boa explicação para um garoto querer namorar uma menina de mentirinha sem tentar tirar nenhuma lasquinha. Pior, não conseguia pensar em um único menino que aceitaria namorar uma garota de mentirinha.

--É, ele deve ser gay. E precisa de Kitty para disfarçar, senão seus amigos poderiam desconfiar. Já que ele não fica com nenhuma menina. – Deduziu. – O que você acha, Kitty? – Voltou o rosto na direção da irmã.

Catherine estava sentada ao sofá, lendo o livro de Zackary.

--Hum? – Questionou, distraidamente, sem erguer a cabeça.

--Quer parar de ler este livro e me dar atenção! – Exigiu, irritada. – Qual é o seu problema? Você tem que passar todo o tempo com a cara enfurnada neste livro? – Perguntou-lhe, quando Catherine ergueu o olhar assustado para ela. – Já me basta ter de passar o filme inteiro ouvindo você reclamar que o livro não era daquele jeito.

--Mas o livro conta a história de forma diferente. – Catherine se defendeu.

--Eu estou pouco me importando em como o livro conta a história. Fui ao cinema para ver o lindo Logan Lerman! – Lydia contestou. – Do jeito que você vai, daqui a alguns dias vai preferir ir a biblioteca com Mary a sair comigo para ir ao shopping.

Catherine não refutou. Marcou a página que estava lendo e fechou o livro. Ia se aproximar de Lydia e lhe dar a sua total atenção, mas uma figura surgiu à porta do escritório de seu pai, capturando a sua atenção e a de Lydia.

--Priminhas queridas, o que estão aprontando aí? – Adolfo perguntou-lhes, bem humorado, adentrando o recinto.

Catherine pôs-se de pé de imediato e Lydia fechou a sua página de relacionamentos, desconectando-se da Internet. E apressou-se em desligar o computador.

--Oh, não precisa sair daqui só porque cheguei. – Adolfo disse, amigável.

--Nós já estávamos de saída. – Catherine apressou-se a dizer, já atravessando a porta.

--Tchauzinho. – Lydia não demorou em segui-la. Assim que se viram ao corredor, sozinhas, Lydia cochichou. – Já reparou que ele anda saindo muito de casa à noite?

--Ouvi Lizzie conversando com Jane sobre ele e Charlotte. – Catherine respondeu. – Parece que estão namorando.

--Ui! Que mau gosto! – Lydia desdenhou. – Bem que eu sempre achei que Charlotte não batia bem da cabeça.

--Ela é estilista. Todos eles não são meio esquisitos? – Catherine ponderou, pensativa.

--Excêntricos. – Ouviram a voz de Mary e voltaram suas atenções para ela, quem estava arrumando a árvore de Natal na sala.

--O que disse? – Catherine lhe perguntou.

--A palavra é excêntrico. – Mary repetiu. – A palavra “esquisito” é um adjetivo ofensivo demais.

--Esta é a idéia. – Lydia repudiou, como se estivesse lhe apontando o obvio.

--Se você quer ser uma pessoa famosa, não pode ter um vocabulário prolixo, Lyd. – Mary a recriminou. – Se não percebeu, até mesmo modelos precisam apreender a falar bem se querem se desenvolver na profissão. Afinal, vocês precisam fazer comerciais de TV, dar entrevistas... E ninguém quer contratar uma modelo que não sabe se expressar articuladamente.

Lydia e Catherine fitaram Mary em silêncio, abobalhadas. Era a primeira vez que Mary lhes dava um conselho a respeito de suas profissões que as duas cogitavam em acatar.

Mary, no entanto, voltou a sua antiga atividade. Esquecendo-se de suas irmãs mais novas e focando sua energia e concentração em decorar a árvore de Natal.
Quando se recuperou do susto, Lydia puxou Catherine pelo braço e a guiou para o quarto que dividiam, dizendo:

--Eu já sei porque Zack ainda não te deu um daqueles beijões. – Em tom de confidência.
~#~

Na noite da Véspera de Natal, Caroline Bingley estava sentada ao sofá da sala da casa de seus pais em Mayfair. Seu irmão informara a seus pais que estaria trazendo Jane Bennet para jantar com eles nesta ocasião, aproveitando a oportunidade para apresentá-la oficialmente como sua namorada.

Caroline não podia estar mais irritada com esta situação. Até este momento, o envolvimento de seu irmão com Jane não a preocupava tanto quanto o relacionamento de Darcy com Elizabeth. Mas esta novidade finalmente despertou o seu radar para confusões. Esta atitude de seu irmão decididamente demonstrava o quão sério este relacionamento estava se tornando.

Por isso, decidiu chegar mais cedo à casa de seus pais e abrir-lhes os olhos para o que estava preste a acontecer. Certamente, precisaria da ajuda deles para deter Charles antes que seu irmão assumisse um compromisso de real valor com esta moça.

Mas a chegada de Charles e Jane antes que seus pais se juntassem a ela na sala a impediu de precavê-los quanto aos charmes de Jane. Foi remoendo sua raiva em silêncio que testemunhou seus pais ficarem encantados por Jane Bennet durante o jantar.
Segurando o sorriso no rosto, observou com olhos de águia Jane atuar com maestria o papel da jovem tímida. Respondendo apenas quando lhe era dirigida a palavra e dando respostas perfeitamente ensaiadas.

Caroline precisou se dominar, para não se engasgar com a sua água, quando Jane alegou ter intenção de voltar a estudar, cursar uma universidade e mudar por completo a sua carreira profissional. Mas quanta conversa fiada!

Jane não iria conseguir enganá-la, como estava conseguindo com os seus pais e seu irmão apalermado. Sabia muito bem quais eram suas intenções ao contar tais mentiras. Estava tentando criar uma imagem perfeita perante seus pais, para conseguir seu apoio e fisgar o bobo do seu irmão com mais facilidade. Mas não permitiria que seus planos se concretizassem!

Assim que seu irmão foi embora, levando Jane consigo, Caroline começou a sua campanha frente a seus pais para minar o relacionamento de Charles com Jane Bennet.

--O que vocês acharam dela? – Perguntou, sondando.

--Garota adorável. – Sua mãe, Norah Bingley, respondeu.

--Educada, bonita, gentil... – Seu pai, Anthony Bingley, enumerou.

--Mas dificilmente a pessoa ideal para Charles. – Caroline refutou, tentando transparecer tranqüilidade e segurança em seu comentário. – Afinal, sua família não é de grande importância. E ela é uma modelo!

--Não seja esnobe, Caroline. – Sua mãe a recriminou. – Seu pai veio de uma família de classe média e isso não o tornou desmerecedor do meu amor, ou me impediu de me apaixonar por ele.

--E quanto a sua atual profissão... – Seu pai contestou. – ela mesma declarou sua intenção de tomar um rumo diferente.

--Ahh papai, o senhor não acreditou realmente em suas palavras. – Caroline se exaltou um pouquinho diante da defesa de seus pais. – Ela estava apenas dizendo aquilo que acreditava que vocês queriam ouvir, tentando impressioná-los.

--Ela soou sincera para mim. – A sua mãe continuou a defendê-la.

--Eu concordo com você, Norah. – O sr. Bingley disse a sua mulher. E, em seguida, voltou o rosto para a sua filha. – Caroline, eu não consigo entender o que você possa ter contra esta moça.

--Eu não tenho nada contra Jane. – Caroline declarou, obstinadamente. – Só não acredito que ela esteja à altura do meu irmão, desta família. – Justificou-se, com o tom de voz moderado. Mas não demorou a voltar a se exaltar. – E vocês não percebem que o bobo do seu filho está levando este relacionamento muito a sério, a ponto de trazê-la aqui para que pudessem conhecê-la. Não me surpreenderia nada se ele viesse a pedi-la em casamento no futuro não muito distante.

--Eu não vejo nada de alarmante nesta sua declaração. – Norah declarou, calmamente.

Um olhar na direção de seu marido foi o bastante para saber que ele também concordava.

--Jane Bennet é uma moça, como eu já disse, educada, bonita e gentil. Se o seu irmão vir a se casar com ela, não vejo motivos para que ela não possa corresponder as expectativas de uma futura sra. Bingley perante nós e a sociedade. – Anthony proclamou, confiante. – Tenho a certeza de que será uma boa mãe e o que lhe faltar em termos de traquejo social, tenho certeza que sua mãe e você poderão orientá-la.

Diante do olhar abismado de sua filha com suas declarações, Anthony completou.

--Eu vejo Jane Bennet como uma pedra bruta. Só precisa ser lapidada e teremos uma jóia rara.

Caroline engoliu sua indignação em silêncio. Já percebera que não teria o auxilio de seus pais em seu intento de separar o casalzinho enamorado. Pois, poria um fim nesta história de um jeito ou de outro. Nem que precisasse agir sozinha!

~#~

À mesa dos Bennets, naquela noite de Véspera de Natal, a ceia em família não estava sendo tão calma como de costume. Primeiro, havia a presença irritante de Adolfo Collins e suas divagações eternas sobre as pessoas importantes que conhecia através do seu trabalho – em especial a sra. De Bourgh.

Em segundo lugar, a sra. Bennet estava extremamente desgostosa com Elizabeth desde que, ao inquirir a filha o motivo do sumiço de Darcy, soube que os dois haviam rompido o namoro.

--Gostaria de aproveitar esta ocasião para dar uma notícia um pouco triste a vocês. – Collins disse, cheio de pompa, ganhando a atenção de todos à mesa. – É chegada a hora de minha partida.

Catherine e Lydia trocaram olhares e prenderam a risada, Elizabeth olhou para o seu pai e se comunicaram em silêncio. O alivio era grande. Por um momento, temeram que ele estivesse estendendo sua permanência por mais um mês na Inglaterra.

--Sim, devo partir. – Collins repetiu, fazendo uma careta. – Sei que minha estada aqui foi maravilhosa. Vocês, meus queridos familiares, me acolheram com muito carinho e atenção, e com todas as regalias que sua condição financeira lhes permitiu... neste lar humilde. E sou muito grato!

--E quando exatamente você estará de partida, Adolfo? – O sr. Bennet inquiriu.

--Assim que terminar as festas de fim de ano. – Ele informou, ainda com o seu ar melancólico. – Sei que sentirão muito a minha falta por aqui, mas prometo-lhes fazer outra visita assim que o me for possível.

Lydia fez uma careta diante desta promessa e Catherine precisou segurar o riso novamente. Mas Collins não viu, estava devotando sua total atenção ao sr. Bennet.

--Mas não tenho como determinar isto, já que minha permanência na América nos próximos meses, porque não dizer anos, será fundamental. – Collins continuou, voltando a sua pompa e auto-proclamação. – Pois sim, a sra. De Bourgh necessita que eu volte para casa e comece a executar o seu mais novo projeto...

E passou os próximos minutos discorrendo sobre as ordens da sra. De Bourgh em enigmas. Sempre alegando precisar manter o sigilo das informações que a poderosa senhora lhe encarregou.

--É uma pena que minha cara prima Jane não esteja aqui hoje. – Disse, sentido. – Em vista de minha partida iminente, teremos tão pouco tempo para passá-los juntos em família desta forma.

--Bem, a minha Jane não poderia faltar ao jantar na casa de seus sogros, não é Adolfo? Seria uma desfeita. – A sra. Bennet a defendeu.

--Ahh sim, sim. Claro! – Ele concordou, apressadamente. – Ela não deve desperdiçar esta oportunidade, afinal, quem sabe quando terá outra oportunidade como esta? Nunca, certamente!

Elizabeth foi poupada de lhe dar uma resposta malcriada por sua mãe, quem exclamou.

--Ahh a minha Jane é uma menina esperta. Eu lhe ensinei muito bem! – Alegremente. – Ao contrário de você, Lizzie! – E logo voltou a sua carranca na direção da segunda filha. – Como foi capaz de deixar uma partidão como o sr. Darcy lhe escapar?! Eu não entendo!

--Mamãe! – Elizabeth resmungou.

--Ahh querida tia, ... – Collins requisitou a sua atenção. – Não creio que prima Elizabeth poderia fazer muita coisa para evitar que isto acontecesse. Temo que sua história com o sr. Darcy estivesse fadada ao fracasso. – Declarou, convicto. – Homens importantes como ele buscam mais em uma mulher que beleza e carisma. Eles precisam de berço, renome... Alguém como a filha da estimada sra. De Bourgh.

--Viu? – Elizabeth resmungou com a mãe, com um ar cínico. – Collins está absolutamente certo. Então não vamos perder tempo discutindo sobre temas tristes, não é? Não, não vamos. – Declarou, decidida. – Vamos falar sobre algo alegre. Como, por exemplo, a sua partida! – Voltou o rosto sorridente para Collins e inquiriu. – Quando é mesmo que você vai embora?

Lydia e Catherine explodiram em gargalhadas, que depois tentaram disfarçar fingindo estarem se engasgando com a água.

~#~

Richard chegou à casa dos seus tios em Kensington relativamente cedo. Mas já encontrou no estacionamento o carro de seus pais, seu irmão e o carro de William. Sabia que era o último a chegar e certamente sua mãe lhe chamaria a atenção por isto.

A sra. Jenkinson abriu a porta para ele e o recebeu, guiando-o até a sala onde os outros se encontravam. Paige, sua sobrinha, correu em sua direção e jogou-se em seus braços.

--Tio Rich, você finalmente chegou. – Exclamou alegre.

--E aí, Pimentinha? – Abraçou-a e beijou-lhe o rosto antes de pousá-la no chão.

--Antes tarde do que nunca, não é, irmãozinho? – Noah caçoou.

--Paige, isto é modo de receber o seu tio? – A mulher de seu irmão recriminou a sua filha. – Onde está a sua educação?

--Oh Meredith, ela só estava alegre em ver o tio. – O avô, sr. Christopher Fitzwilliam, defendeu. – Não precisa brigar com ela dessa forma.

--São os hormônios que a deixam assim, papai. – Noah explicou, em confidência; para que sua mulher não ouvisse e contestasse.

Meredith estava à espera do segundo filho deles. E faltava muito pouco para que ele nascesse.

Richard não demorou em cumprimentar mais atenciosamente seus familiares. Ao falar com seu pai, este não perdeu tempo em lhe aconselhar.

--Vá falar com sua mãe, ou Alice vai lhe dar um puxão de orelha pelo seu atraso.

Quando se aproximou de sua mãe, quem estava conversando com a sua tia Emily, ela realmente o recriminou pelo seu pequeno atraso. Embora Richard contestasse, alegando ter chegado exatamente no horário combinado.

O jantar em família transcorreu alegre e festivo, como a ocasião pedia. Mas, pela primeira vez, Richard se sentia melancólico. Olhava a sua volta, principalmente para a família de seu irmão – que estava aumentando com o passar dos anos – e sentiu inveja. Esta era a primeira vez que se sentia assim.

Nunca se incomodara com o fato de ser solteiro. Até chegara a preferir assim, não desejoso de assumir tamanha responsabilidade. Mas já estava se cansando das enumeras mulheres que conhecia em bares, das noitadas inconseqüentes e de ter de voltar para um apartamento vazio.

Via-se, pela primeira vez, desejando algo a mais em sua vida. Esperando mais de si mesmo.

Contudo, não era isso que o aterrorizava. Na verdade, sabia que isso um dia ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. O que o assustava era a constatação de que quando pensava na mulher com quem queria dividir estes planos futuros de família e filhos, só conseguia enxergar Moira. E ela não o queria de forma alguma!

Então, o que poderia fazer? Ficaria eternamente sozinho?!

Observou o primo. William encontrava-se numa situação não muito diferente da sua. Ambos estavam separados das mulheres que amam por escolha própria e atitudes impensadas.

Sabia que William também estava sofrendo. Embora disfarçasse muito bem, como ele mesmo se redobrava para parecer alegre na presença de familiares e amigos. Mas estava familiarizado demais com os sinais de angustia que via estampado nos olhos do primo para não notar.

Mas não podia fazer muito para ajudá-lo. Após conversar com William sobre Elizabeth e saber as novidades sobre Wickham, tentou aconselhá-lo. Mas William não quis ouvir. O que mais poderia fazer? Não podia forçá-lo a procurar Elizabeth e tentar uma reconciliação.

Quanto a si mesmo, já não tinha mais certeza se deveria continuar tentando reconquistar Moira ou desistir por completo de tê-la de volta e tentar esquecê-la definitivamente.

Nunca tentara esquecê-la de verdade, porque sempre soube que queria terminar os seus dias ao seu lado. Mas talvez não tivesse outra escolha. Talvez precisasse esquecê-la.

--Tio, é verdade que o senhor nunca vai se casar? – Paige questionou-lhe, pouco depois do jantar. – Mas já deve ter muitos filhos espalhados por aí?

--Quem lhe disse isso, Pimentinha? – William questionou-a.

--Minha mãe, tio Will. – Paige respondeu, em tom de segredo. – Eu a ouvi conversando com papai. Mas ela disse que não era para dizer a ninguém. Só que eu queria saber se já tenho uma priminha. Qual é o nome dela, quantos anos ela tem, o senhor pode levar ela lá em casa para a gente brincar de boneca? – A menina declarou, em toda a sua inocência.

--Eu não tenho nenhum filho por aí, Pimentinha. – Richard refutou, sorrindo para ela.

--Não que ele tenha conhecimento, pelo menos. – William contestou, brincalhão.

--Isso é coisa que se diga para a menina, Will! – Richard o recriminou, quando Paige retornou para perto de Georgiana. – Ela vai ficar imaginando se tenho um filho ou filha que não conheço.

--Isso não seria assim tão impossível, não é? – William ainda disse, rindo-se de Richard.

Ao deixar a casa de seus tios aquela noite, Richard adentrou o seu carro e ficou pensando ainda parado no estacionamento. Não queria ir para casa, de volta ao seu apartamento vazio. Mas também não queria ir para um bar qualquer, procurar uma companhia feminina. A única companhia que queria estava a quilômetros de distância de Londres e não queria vê-lo.

Ligou o carro e retirou-o do estacionamento, ganhando as ruas desertas àquela hora da madrugada. Calculava na cabeça o tempo que levaria para chegar a Derbyshire pelas estradas cobertas de neve. E, num impulso desesperado, decidiu arriscar.

O dia já estava amanhecendo quando cruzou os portões de Pemberley. A manhã estava bastante fria e, embora houvesse neve para todos os lados, o céu estava limpo de nuvens.

Estacionou o seu carro enfrente a casa grande, que estava fechada, e tomou o caminho lateral para a casa anexo. O pé de roseira da sra. Reynolds não possuía um botão da flor para contar história. Seus galhos estavam secos e cobertos de neve.

Ao se aproximar da porta de entrada, viu uma guirlanda de Natal a enfeitando. Hesitou um instante antes de bater, mas logo decidiu-se em enfrentar os seus medos. Afinal, não viera até ali para voltar sem falar com ela.

Bateu a porta e aguardou. Não houve resposta. Então bateu mais uma vez. Poucos minutos depois a sra. Reynolds estava abrindo a porta, ainda vestida com um grosso robe de inverno por sobre o seu pijama.

--Richard! – Ela exclamou, surpresa. – O que está fazendo aqui, menino?

--Bom dia, Jean. – Cumprimentou-a com o seu mais charmoso sorriso.

--Meu Deus, entre! – Comandou, vigorosa. – Entre! Você deve estar congelando.

Richard não demorou a obedecer. Ansioso e temeroso quanto a reação de Moira quando o encontrasse ali.

 

bidi-f�wi�A�.�>--Uma das condições impostas pelo juiz ao conceder a liberdade condicional de Wickham fora de que ele devia manter-se afastado do meio fotográfico, como uma medida inibidora de futura reincidência de delito. – O advogado explicou. – Se ele está dando aulas de fotografia, ele violou uma das condições de sua condicional e esta poderá ser revogada.

 

William respirou aliviado. Aquilo parecia uma manobra fundada em tecnicalidades, mas pouco lhe importava. Se retirasse aquele crápula das ruas, estaria satisfeitíssimo.

--Eu preciso que você me informe precisamente onde ele trabalha, para que eu possa dar esta informação ao seu oficial da condicional com o pedido de revogação de sua condicional. – Rousco pediu a William.

Ele deu-lhe o endereço exato do prédio em que Elizabeth tomava aulas de fotografia e a ligação foi encerrada pouco tempo depois; Rousco garantindo-lhe que tomaria as providências necessárias com bastante urgência.

--Então, George Wickham conhece a sua Elizabeth? – Alexander perguntou-lhe assim que encerrou a ligação com o advogado.

--Sim. – William replicou, imaginando a direção que aquela conversa finalmente tomaria.

--Como? – Seu pai prosseguiu com o interrogatório, fitando o filho com atenção.

--Ele é o instrutor dela. – William sentia-se insatisfeito com aquelas perguntas e gostaria de não respondê-las.

--Eles são amigos? – Seu pai notou o seu desconforto, mas nem por isso deteve-se.

William sacudiu a cabeça negativamente, contrariado, mas respondeu.

--Sim.

--Ela sabe...? – Seu pai iniciou a pergunta, mas William o interrompeu.

--Não. – Conciso.

--Você vai...? – O feito mais uma vez se repetiu.

--Não.

--É por isso que ela não virá para o jantar? – Sua mãe se intrometeu na conversa pela primeira vez.

--Sim. – William foi sincero, deixando transparecer em seu tom de voz a mescla de sentimentos que o dominava: raiva e tristeza. – Eu preciso ir para o meu apartamento. – Declarou em seguida, para mudar o teor da conversa.

--Por quê? – Sua mãe protestou. – Pensei que ficaria aqui para receber sua irmã.

--Eu não tenho roupa para ficar aqui o dia inteiro. – Alegou, apontando para a roupa que estava usando naquele instante (o conjunto de moletom da equipe de remo da faculdade, o qual estava até justo no peitoral e mangas da blusa, já que não possuía mais aquele físico um tanto esguio da época da faculdade). – Eu voltarei para o jantar, pode ficar tranqüila.

Dizendo isto, deixou o escritório do pai e seguiu para o quatro. Precisava trocar aquela roupa pelo terno da noite passada para poder ir embora.

 



[1] Chardonnay é uma uva da família da Vitis vinifera, a partir da qual é fabricado vinho branco de qualidade. A chardonnay é usada na composição do vinho champagne, como responsável por seu aroma.

 

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