Citações

Todos gostamos de ensinar os outros, embora só possamos transmitir o que não é digno de ser ensinado.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXIX

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Capítulo XXIX

Boas e más notícias

 

Betsy surgiu à sala, trazendo de seu quarto a sua mala já pronta. Rebecca vinha logo atrás, aparentando estar atrapalhada com as suas próprias coisas.

--Tem certeza de já está com tudo pronto, Betsy? – Rebecca perguntou-lhe pela milionésima vez. – Russell estará chegando a qualquer momento.

--Já estou com tudo pronto. E você? – Betsy colocou sua mala perto a porta e voltou-se para a amiga. – Precisa de ajuda aí?

--Não. – Rebecca colocou suas coisas junto às de Betsy e voltou para o seu quarto, esbarrando-se em Georgiana que trazia sua própria mala de seu quarto. – Foi mal. – Desculpou-se apressada, já sumindo pela porta do quarto.

Georgiana se aproximou de Betsy no instante que a outra amiga terminava de mandar uma mensagem pelo celular.

--Pronto. – Betsy disse. – Problema resolvido.

--Que problema? – Georgiana questionou-a, colocando sua mala junto à das amigas.

--O problema com Max. – Betsy respondeu. – Sabe, fiquei pensando na reação de vocês porque ficamos e percebi que seria melhor não deixar margens para que mal entendidos ocorressem entre nós, Max e eu, sabe? – Explicou, argumentativa. – Então, enviei um torpedo para ele, explicando que o que rolou entre a gente foi coisa do momento e que somos melhores como amigos, e tal.

Georgiana não estava preparada para aquela revelação e por isso não soube esconder seu espanto.

--Foi melhor assim. – A amiga se defendeu veemente. – Seria muito pior se ele ficasse pensando que vamos namorar, ou qualquer coisa parecida. Afinal, o principal motivo para eu tê-lo agarrado daquele jeito foi para me livrar de Caleb. E não para Max tomar o lugar dele!

--Mas vocês são amigos... – Georgiana protestou. – Não seria melhor você conversar com ele com um pouco de tato, ao invés de lhe enviar um simples torpedo?

--Minha mensagem foi bem bonitinha. Tinha até um smile face. – Betsy resmungou.

Rebecca voltou do seu quarto de mãos vazias e Betsy aproveitou-se daquela desculpa para mudar o foco da conversa.

--Você não foi buscar algo no quarto?

--Fui conferir se tinha esquecido algo, mas estava já tudo aí. – Rebecca argumentou.

E no instante seguinte ouviram o som da campainha da porta, anunciando a chegada de Russell. Betsy abriu a porta e Rebecca passou a sua frente, atirando-se nos braços de Russell e tascando-lhe um beijo na boca, animada.

Ele entrou no apartamento rindo e cumprimentando as outras meninas. Claramente satisfeito que a tensão da noite anterior não mais existia. Ajudou Rebecca e Betsy com a mala, prometendo voltar para buscar a de Georgiana.

Enquanto as meninas certificavam de ter fechado todas as janelas, trancado as portas e desligado o aquecedor, Russell já estava fazendo a segunda viagem com as malas.

Russell estaria dando uma carona a Betsy antes de seguir com Rebecca para a casa dos pais dela, onde passaria os primeiros dias do recesso de inverno antes de seguir para a casa dos pais dele. Georgiana despediu-se de suas amigas ainda ao estacionamento enfrente ao prédio em que moravam.

Sozinha, entrou no seu carro e dirigiu o Campus universitário. Mas, ao invés de pegar a estrada de volta a Londres logo de imediato, fez um pequeno desvio. Resolveu ir até o apartamento de Eric e conversar pessoalmente com ele antes de ir para casa. Sabia que se optasse por ir para Londres e só voltar a vê-lo quando voltasse do recesso, lhe daria a impressão de estar lhe evitando. E ele poderia desistir dela, cansado de suas desculpas e evasivas.

Embora estivesse consciente das complicações que um envolvimento mais sério com Eric poderia trazer em sua vida, conforme mais íntimos se tornassem, não conseguia negar a si mesma a chance de poder viver aquela paixão. Decidiu que aproveitaria aquele momento de felicidade boba enquanto durasse.

Foi ele quem abriu a porta do apartamento, ainda vestido com calça e blusa de moletom. Os cabelos desordenados e o rosto amassado. Não foi difícil perceber que acordara há pouco.

--Oi. – Sorriu-lhe.

--Oi. – Ele respondeu com uma expressão indefinida. – Entre. – Pediu, abrindo mais a porta e permitindo a sua passagem.

Georgiana entrou e o seguiu até a cozinha, onde ele começou a preparar o seu próprio café.

--Eu te acordei com a campainha?

--Não. Eu já estava de pé. – Ele respondeu. – Café? – Ofereceu, enchendo uma caneca para si.

--Não. – Georgiana respondeu, atenta aos seus movimentos.

--Eu decidi dormir um pouco mais hoje para poder pegar a estrada mais descansado. – Ele argumentou, após tomar um gole de seu café.

--Betsy vai estar comendo na palma da sua mão até o fim do recesso, vai por mim! – Patrick entrou na cozinha dizendo isso, inconsciente da presença de Georgiana.

--Por que Betsy viria comer na palma de sua mão? – Georgiana perguntou, sobressaltando-o.

--Ei, eu não tinha lhe visto aí! – Patrick riu, tentando disfarçar o seu susto ao vê-la.

--Eu percebi isto. – Georgiana retorquiu. – Mas ainda estou curiosa. Por que minha amiga vai comer na palma da sua mão?

Georgiana assistiu Patrick se volta para a porta da cozinha, onde ela já podia ver a silhueta de Max, e depois olhar para Eric. Por fim, Patrick se aproximou dela, dizendo.

--Nós vamos ter que estabelecer algumas regras aqui, já que sua presença neste apartamento vai ser constante agora que vocês dois estão namorando. – Ele indicou Georgiana e Eric com um lance de olhar, sorrindo de forma divertida ao falar com ela.

Georgiana não falhou em perceber que Eric não parecia nada contente com aquela abordagem de Patrick.

--Que regras? – Ouviu Eric interrogá-lo, frio.

E Georgiana corou. Sua mente imaginou milhares de coisinhas constrangedoras que Patrick poderia mencionar naquele momento e entendeu perfeitamente porque Eric não parecia satisfeito com isso.

--Na verdade é uma só. – Patrick esclareceu, continuando a olhar para Georgiana. – A regra é: o que você ouvir neste apartamento, fica neste apartamento. – Patrick declarou, firme. – Certo?

--Não prometo nada. – Georgiana replicou, aliviada. E não demorou a se justificar antes que Patrick protestasse. – Se o que eu ouvir prejudicar qualquer uma das minhas amigas, eu não vou guardar segredo.

--Agora você está me ofendendo. – Patrick retorquiu, fingindo-se de magoado. – Acha que seria capaz de fazer algo que prejudicasse qualquer uma de vocês? – Exclamou, exagerado.

Georgiana riu, totalmente relaxada diante de seu ar matreiro.

--Então, temos um acordo? – Ele persistiu na charada, estendendo-lhe a mão.

--Temos um acordo. – Georgiana retribuiu o gesto e o cumprimentou com um aperto de mão. – Agora, explique-se.

--Bem, é simples. – Patrick começou a dizer despreocupado. – Você já deve ter percebido que Max tem uma quedinha pela Betsy. Na verdade, gamou nela desde a primeira vez em que a viu.

Georgiana olhou para Max e viu que ele preferia não discutir este assunto abertamente, fosse com ela ou com o próprio Patrick. Mas o amigo fazia de tudo para ignorar suas caretas de mau humor.

--Daí, sua amiga o agarra na noite passada e tasca-lhe um beijo com bastante afinco. Deixando o bichinho todo eriçado. – Patrick prosseguiu com a sua narrativa dramática, deixando Max e Georgiana ruborizados com as implicações de suas palavras. – Só que esta manhã, ele recebe um torpedo dela, expressando o seu desejo de permanecerem apenas bons amigos.

Georgiana ficou constrangida em olhar para Max neste momento. Ela e Rebecca sabiam que aquela história só ia dar em confusão.

--E eu o aconselhei a, ao contrario de ligar para ela e tentar conversar, lhe enviar outro torpedo. Soando tão tranqüilo e descolado quanto ela. – Patrick defendeu o seu ponto de vista. – Como ela está esperando que ele fique correndo atrás dela, esta atitude dele vai deixá-la desnorteada.

Georgiana não sabia o que responder. Não queria dar falsas esperanças a Max, mas não queria desencorajá-lo. Então, apenas sorriu-lhe.

--Então, vê? Ele não vai fazer nada para prejudicá-la, nem nada. – Patrick concluiu. – Apenas está cortejando a sua amiga.

--Cortejando-a? – Perguntou, incerta se aquela definição era apropriada a estes joguinhos de conquista.

--Claro. Cortejando-a com estilo. – Patrick gabou-se, indo até o armário, pegou um pacote de biscoito. – E aí? Quais são os seus planos para o recesso de inverno?

Enquanto Georgiana trocava algumas idéias com Patrick e Max sobre os feriados de fim de ano, Eric terminava de tomar café e saia da cozinha.

Quando ele reapareceu na cozinha, já estava com os cabelos arrumados e roupa trocada. Neste momento seus amigos se retiraram, alegando ter de arrumar suas mochilas para a viagem até em casa. Deixando Georgiana a sós com ele de novo.

--Ansiosa para voltar para casa? – Eric perguntou, aproximando-se dela.

--Hum-hum. Já estou com tudo pronto. Minha mala já está no carro. – Respondeu, ainda com uma sombra de riso no rosto por causa das loucuras de Patrick.

--Conversou com as meninas?

--Conversei. – Informou-lhe; finalmente podia se sentir a vontade perto de Eric, sem ter mais que se preocupar em serem vistos e em magoar Rebecca. – Elas reagiram melhor do que eu esperava.

--Até mesmo Becca? – Ele parecia surpreso.

--É. – Georgiana riu gostosamente. – Ela disse que ia quebrar suas pernas se você não quisesse me namorar! – Disse, em tom de piegas.

Eric ergueu uma sobrancelha, estranhando aquela revelação.

--E porque ela acha que eu não vou querer namorar você? – Disse isso, aproximando-se ainda mais.

--Eu não tinha certeza se voc... – Georgiana começou a dizer, mas ele a interrompeu.

--Como você ainda pode ter dúvidas? – Questionou-a, fitando-a nos olhos de forma penetrante.

--Você nunca me pediu... – Georgiana disse, com a voz falhando e as bochechas coradas.

Eric segurou em sua cintura, dizendo.

--Seja minha namorada. – E a beijou, sem esperar que ela aceitasse.

--Isto não soou como um pedido. – Georgiana fingiu protestar, enquanto seus braços o envolviam pelo pescoço.

--Como ela é perspicaz! – Ele disse, beijando-a novamente.

~#~

William estava certo de que Moira estava pronta para assumir a função executiva de sua sociedade com um grau maior de responsabilidade. Sua idéia tinha se provado um tremendo sucesso e ela excedera qualquer uma de suas expectativas.

Após revisarem alguns contratos juntos, passaram a discutir o balanço financeiro daquele ano. Precisava que a Sociedade estivesse em perfeito estado de organização no inicio daquele novo ano.

Logo no começo de Janeiro, Charles e ele estariam viajando a trabalho para Milão, Itália, deixando Moira como chefe executiva de sua Sociedade na sua ausência. Ela seria responsável não apenas pela função executiva perante os clientes atuais e vindouros, como administrativa com relação aos seus subordinados. E tinha inteira confiança de que ela se saíra muito bem.

O projeto da restauração do Museu de Exposição de Milão – Cívico Planetário Ulrico Hoepli – fora o único a que ele conseguira se dedicar durante os últimos tempos. E meses atrás estivera esperando esta viagem com muita expectativa.  No entanto, agora via esta viagem como uma oportunidade de afastar sua mente de alguns problemas que tanto o perturbavam ultimamente.

Uma vez que aceitara o que estava sentindo por Elizabeth, sentimentos estes que nenhuma outra mulher despertara nele até então, soube que teria de estabelecer um relacionamento mais que casual com ela. Verdadeiramente, não havia escolha com relação a ela. Ele a queria, desejava, simples assim. Tudo mais teria de ser desvendado com o tempo, de um jeito ou de outro.

Agora via que deveria ter sido mais cauteloso com suas atitudes. E esperava que cinco meses longe de Londres fosse o suficiente para esquecer Elizabeth. Certamente, a distância física arrancaria de vez esta mulher de sua mente e sonhos. Afinal, estava certo de que estaria muito ocupado com todo o trabalho que teria para ficar pensando nela.

Ao terminarem aquela reunião, Moira não se apressou a sair de sua sala. Ficou sentada a cadeira a sua frente, observando-o em silêncio por alguns instantes. Darcy organizava uns últimos papéis de cabeça baixa, mas tinha consciência de sua presença.

Cansado de fingir que não a notava ainda ali, ergueu a cabeça e questionou.

--Mais alguma coisa?

--Você não me contou como foi o jantar de família este fim de semana passado. – Moira comentou com tranqüilidade. Sabia que o fato de ele ainda não ter mencionado o assunto denunciava que algo estava errado.

--Eu ainda não entendi por que você não foi ao jantar. – Ele replicou, mudando o foco da conversa para ela.

--Era um jantar de família. – Ela desconversou.

--Você é da família. – Darcy protestou, não entendendo o fundamento daquela resposta.

--Eu estava cansada. – Defendeu-se, embora soubesse que sua desculpa não fosse convencê-lo. – Você há de convir que estamos correndo contra o tempo para colocar tudo em ordem antes da sua viagem.

Darcy decidiu aceitar sua justificativa pelo momento.

--Georgie sentiu sua falta. – Informou-lhe apenas isto. – A sua e a de Richard.

--Ele não foi ao jantar? – Moira questionou, surpresa.

--Não. Deu uma desculpa qualquer e prometeu que estaria presente na reunião de Natal. – Darcy respondeu, notando a reação dela àquela noticia. – Foi por isso que você não foi ao jantar? Por que acreditava que ele estaria lá?

--Não, não, não. – Moira negou, veemente. – Claro que não. Imagina! – E, em seguida, fez-lhe uma promessa. – Diga a Georgie que irei vê-la antes de ir para Pemberley passar as festas de fim de ano com os meus pais.

Como Darcy continuou a olhá-la, desconfiado, disse.

--Me diga: como foi o jantar. – Mudando novamente o foco da conversa para ele.

--O jantar foi tranqüilo. – Darcy respondeu, evasivo a principio. Depois acrescentou, com um tom mais suave na voz. – Conversamos muito sobre os estudos de Georgie e suas experiências no Campus Universitário. Ela parece estar se dando muito bem com a sua nova rotina.

--O que seus pais acharam de Lizzie?  E Georgie? Elas se deram bem? – Moira fez-lhe esta pergunta com grande expectativa.

--Elizabeth não foi ao jantar comigo. Nós tivemos um desentendimento. – Neste ponto, sua voz assumiu um tom mais frio.

--Que tipo de desentendimento? – Ela inquiriu, cautelosa, lembrando vagamente do mal estar que presenciara entre Charles e Jane na exposição das fotos de Luigi ao inquirirem sobre William e Elizabeth.

Darcy respirou fundo e após uma breve pausa, decidiu contar-lhe toda a verdade. Passando a lhe relatar todo o episodio da Galeria e da discussão no carro. Depois a conversa com o advogado e a decisão de manter a soltura de Wickham em segredo de Georgiana.

--E o que você pretende fazer com relação à Lizzie?

--Absolutamente nada. – Darcy disse, conciso.

--Por quê? – Moira exclamou, confusa com aquela reação apática dele.

--Ela fez a sua escolha. – Darcy protestou, ficando impaciente.

--Ela não o conhece. – Moira a defendeu.

--Mais uma razão para não lhe dar ouvidos. – Ele contestou.

--Se você lhe contasse... – Moira começou a dizer, mas Darcy a interrompeu.

--Eu não vou remexer no episodio mais dolorido da vida de minha irmã, o qual Georgie nunca desejou que ninguém soubesse a respeito, somente porque Elizabeth é incapaz de me dar um voto de confiança. E prefere acreditar num cara que mal conhece ao invés de acreditar em mim!

Moira calou-se. Ela não podia contestar suas razões. Embora acreditasse que com um pouco de tato ele poderia contornar a situação com Elizabeth sem precisar contar-lhe nada a respeito de Georgiana.

--Isto só serviu para me fazer perceber que deveria ter dado razão às minhas reservas com relação a um envolvimento com ela. – Ele continuou, amargo. – Mas não. Fui idiota e escolhi ignorar a minha racionalidade. Preferi agir conforme um impulso inconseqüente, um desejo quase infantil e olha só no que deu!

Moira permaneceu em silêncio, escutando o seu desabafo.

--É melhor que tenha terminado agora, sem maiores e sérias conseqüências. – Declarou por fim, incerto se tentava convencê-la disto ou a si mesmo.

 

 

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