Capítulo XXVIII
Verdade Inconveniente
As horas pareciam se arrastar, embora ela soubesse que já avançara madrugada adentro. Uma hora inteira passara desde a saída de Richard e eles ainda continuavam no mesmo pub. Mark questionou-lhe se desejava mais uma bebida.
--Não. Acho que já está na hora de irmos embora. – Respondeu amistosamente.
--Para minha casa ou para a sua? – Mark questionou-a, sem rodeios.
Moira sorriu, sem graça. Não esperava por esta pergunta direta. Ele pareceu notar sua surpresa com sua ousadia e acrescentou.
--Pensei que estávamos nos entendendo bem e que você estaria interessada em continuar a nossa conversa em um local mais reservado, para que pudéssemos ficar mais a vontade.
--E está certo. – Moira disse, decidida. – Minha casa. – Completou, concisa.
--Ótimo. – Mark dirigiu-lhe um sorriso cafajeste e apressou-se em pedir a conta, para que pudessem ir embora.
Moira indicou-lhe o caminho de seu apartamento e passou o percurso convencendo a si mesma de que estava fazendo a coisa certa. De que precisava se certificar que a fraqueza que sentia quando estava perto de Richard estava ligada a carência. E que esta carência poderia ser curada ou, ao menos, saciada por qualquer homem que considerasse atraente.
E viu em Mark a oportunidade de tirar a prova. Certamente não teria que se preocupar com a possibilidade de ele desejar aprofundar a relação, caso algo venha a realmente acontecer entre eles.
Chegaram ao seu apartamento sem demora e convidou-o a subir, oferecendo-lhe uma bebida. Em seu apartamento, deixou-o à sala enquanto ia a cozinha descobrir o que tinha alcoólico para lhe oferecer.
Encontrou uma garrafa de Chardonnay[1] e, retirando duas taças de vinho do armário, serviu a bebida. Por um breve momento, ao voltar-se em direção a porta da cozinha e o seu olhar vagar pela mesa em um canto, lembrou-se de Richard sentado ali, jantando, ainda aquela mesma noite.
--No que está pensando? – Uma voz masculina chamou-a de volta a sua presente realidade.
Moira olhou para porta e viu Mark ali, encostado ao batente, as pernas cruzadas e com um ar despojado. Ele já havia retirado o blazer do seu terno alinhado, a gravata e desabotoado os alguns botões da blusa, tanto na gola quanto nos pulsos. Parecia estar relaxado e se sentindo bastante a vontade.
--Chardonnay? – Fez-lhe outra pergunta, quando Moira não lhe respondeu a primeira.
--Sim. – Moira finalmente despertou de seu devaneio e caminhou em sua direção, entregando-lhe uma das taças cheias.
Juntos, retornaram para a sala, onde se sentaram ao sofá. Muito próximos um do outro. A principio, Moira considerou que ficariam daquela forma por algum tempo: bebendo e dançando um envolta do outro – ele tentando seduzi-la e ela fingindo estar sendo seduzida por ele.
No entanto, alguns goles da bebida foram o suficiente para Mark, que depositou sua taça sobre a mesinha de centro e retirou a de Moira de suas mãos, dando a ela o mesmo destino que dera a sua. Então voltou sua atenção para ela e sem mesuras, tomou-lhe os lábios em um beijo ardente.
Moira ficou surpresa mais uma vez com a sua ousadia, por isso deixou-se beijar. Quase sem reação. Sentia-se mais como uma expectadora e não uma agente participante. Enquanto Mark parecia se envolver cada vez mais no momento e aumentasse a intensidade do beijo, indo além e aventurando-se em caricias mais impetuosas; Moira meramente avaliava o beijo, procurando encontrar nele qualidades – como quanta pressão ele colocava nos lábios ao beijá-la; se os movimentos de sua língua eram sutis ou afoitos.
Não demorou muito para perceber que não devia estar tendo este tipo de pensamento ao ser beijada por um homem como Mark. Devia estar perdida em mundo de sensações agradáveis e torturantes, como quando se sentia quando Richard a beijava.
--Isto está acontecendo porque você queria que fosse eu a estar te beijando agora. – Ouviu a voz de Richard ao seu ouvido, como se ele estivesse sentado ao sofá ao seu lado, assistindo-a sendo beijada por Mark.
Alarmada, afastou Mark e olhou na direção em que ouvira a voz de Richard. Mas não encontrou ninguém ali, naquela sala, além deles dois.
--Algum problema? – Mark interrogou-lhe, confuso com sua atitude.
--Não. – Respondeu, voltando a concentrar toda a sua atenção nele. – Vamos para o quarto. – Comandou, pondo-se de pé e segurando-o para mão, levou-o para o seu quarto.
Não estava disposta a deixar Richard ganhar mais uma vez. Provaria para ele que o que sentiu por ele no passado já não existe mais.
Mal passaram pela porta do quarto e Mark não perdeu tempo em puxá-la para si com força, e retomar a maratona de beijos. Desta vez, no entanto, suas caricias foram mescladas com tentativas de despi-la e despir-se.
Atingiram a cama sem demora e Moira passou a analisar o progresso que estavam fazendo. Os beijos eram agradáveis e Mark certamente tinha experiência em como despir uma mulher sem parar de acariciá-la. Mas, ainda assim, Moira não conseguia fazer desaparecer a sensação de que não era para ser assim.
A sua pele não reagia ao toque de Mark da mesma forma que reagia ao toque de Richard. O seu cheiro, a sua respiração e os seus beijos não lhe faziam perder o controle e a razão. Pelo contrário, era a primeira vez em que fazia sexo e sentia que poderia passar o tempo inteiro analisando a situação como se estivesse fazendo um experimento cientifico.
Por exemplo, enquanto sentia os músculos do peito nu de Mark pressionados contra os seus seios, pele contra pele, sua mente vagou por caminhos tortuosos. Pegou-se a ponderar o quanto estava suando. Será que sempre suava desta forma quando estava em pleno ato do sexo? E aquele cheiro! Ao invés de inebriá-la, estava a deixando zonza.
Perguntava-se quanto tempo demoraria. Certamente, precisaria tomar um banho demorado se quisesse se livrar daquele cheiro. Ou não conseguiria dormir.
Irritada consigo mesma, comandou a sua mente a esquecer estas ponderações. Isso era coisa a se pensar enquanto estava sendo acariciada com tanto afinco por um homem como Mark? Certamente que não.
--Ora, por favor! – Ouviu a voz de Richard novamente ao seu ouvido. – Quando você vai admitir que o que sente não é carência, mas amor?
Moira interrompeu o beijo insistente de Mark, que dirigiu os lábios ao seu pescoço, e voltou o rosto na direção da voz de Richard. E para seu completo espanto, viu-o deitado a sua cama, ao seu lado, como um holograma fantasmagórico; a cabeça apoiada sobre os braços, fitando o teto, com um sorrisinho cruel nos lábios.
--Você me ama. – Ele voltou o rosto em sua direção e estreitando o olhar, comandou. – Mande o parar! Agora!
Assustada, Moira empurrou Mark para longe.
--O que foi? – Mark fitou-a, pasmo.
Moira voltou o olhar na direção de Richard, mas ele desaparecera.
--Moira, qual o problema? – Mark interrogou-a, trazendo o seu corpo para perto do dela e acariciando sua cintura.
--Pare. – Moira murmurou, distraidamente.
--O que?
--Eu lhe disse para parar! – Comandou, segurando sua mão e a retirando de sua cintura. – Você precisa ir embora.
Mark ainda permaneceu fitando-a, abobalhado, por uns instantes. Depois exclamou, incrédulo.
--Isso é brincadeira?
--Vá embora. – Moira exigiu, sentando-se a cama e erguendo-se desta logo em seguida.
Procurou pelo chão a sua roupa. Encontrou o sutiã aos pés da cama e sua blusa próxima a porta do quarto. Recuperou os dois itens e vestiu apenas a blusa, indo colocar o sutiã no cesto de roupa suja no banheiro.
Ao retornar ao quarto, encontrou Mark a abotoar a sua calça. Depois, recolheu a sua blusa do chão e a vestiu, deixando-a aberta enquanto passava a calçar os sapatos.
--Isso nunca me aconteceu antes. – Resmungou. A voz mesclada em indignação e escárnio.
--Igualmente. – Moira replicou, constrangida.
Recebendo um olhar frio dele em resposta. Mark terminou de calçar os pés e saiu do quarto, dizendo-lhe um conciso “boa noite”. Alguns minutos depois, Moira pôde ouvir o barulho da porta batendo e soube que ele havia partido.
Retornou a sala e trancou a porta, voltando-se a mesinha de centro da sala e recolhendo as taças. Levou-a para a cozinha, depositando-as na pia de lavar pratos. Deixaria para fazê-lo na manhã seguinte, a única coisa que queria agora era tomar um banho e tentar dormir. Fingir que esta noite nunca aconteceu. Quem sabe assim conseguisse parar de se sentir enojada consigo mesma.
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Georgiana decidiu ficar um pouco mais na cama naquela manhã, pensando no desfecho da noite passada. Não conseguia apagar da mente a imagem da expressão horrorizada de Rebecca ao flagrá-la aos beijos com Eric, ou o sorrisinho sínico que Holly lançou em sua direção.
Nada foi definido naquela noite entre Eric e ela. Depois do beijo, ao notarem a platéia que os observava, Georgiana apressou-se a sair de seus braços. Não sabia o que dizer a ele, ou às suas amigas. Por isso, ficou calada. Foi Russell quem recomendou que seguissem logo para casa. Estava tarde e frio, não faria bem a nenhum deles permanecer ali.
Ele também trocou algumas palavras em particular com Rebecca, antes de ela entrar no carro. Tudo o que Georgiana ouviu foi a promessa feita por ele de ligar para Rebecca no dia seguinte e a amiga concordar com um curto aceno de cabeça.
Georgiana demorou alguns minutos para conseguir recuperar a fala. E quando finalmente o fez, despejou tudo de uma vez. Tudo o que aconteceu e todos os seus receios desde que descobriu a identidade de Ikarus. Mas só o que recebeu em troca das amigas foi o silêncio.
Foi uma das piores situações que já esteve. Talvez não a pior de todas – nada poderá se comparar com o que passou há alguns anos nas mãos de Wickham. Mas a noite passada não fora moleza. A idéia de arruinar a sua amizade com Rebecca por causa do que aconteceu ontem, e talvez com Betsy também, a aterrorizava.
Ao chegar ao apartamento, Rebecca logo se recolheu em seu quarto. Betsy hesitou um pouco, lançou-lhe um sorriso nervoso e também se recolheu em seguida. Deixando Georgiana sozinha, atormentada com suas dúvidas. Crucificando-se por se permitir gostar de Eric e, por isso, ter magoado uma de suas melhores amigas.
Agora estava ali, deitada na cama, com medo de se levantar e tomar o café da manhã com as amigas. Receava a recepção que teria delas. Não conseguia decidir se é um fato favorável ter de ir embora para casa ainda hoje para passar os feriados de fim de ano em família. Se a distância entre elas serviria para aliviar os ânimos e colocar as idéias em ordem. Ou se apenas as afastaria ainda mais.
Tinha certeza apenas de uma coisa: não poderia ir embora sem conversarem antes. Conversarem no sentido de ouvir o que elas têm a dizer e não ser a única a falar.
Tentando ser corajosa, decidiu sair da cama e parar de fugir do inevitável. Caminhou até a porta do quarto e a abriu. Passou pela porta do quatro de Betsy que ainda estava fechada e entrou no banheiro. Fez sua higiene pessoal e saiu do banheiro.
Seguiu para a cozinha e começou a preparar o seu café da manhã. Não demorou muito para que suas amigas se juntassem a ela. Ambas ainda mudas. Sentaram-se as três e comeram em silêncio absoluto.
Quando Rebecca terminou de tomar café e se ergueu da cadeira, seguindo em direção a pia de lavar pratos, Georgiana interrogou.
--Vocês vão continuar a me dar o tratamento de silêncio? – Com certo desespero em seu tom de voz.
Rebecca colocou os pratos na pia e suspirou, mas não se voltou de frente para Georgiana.
--Nós só não conseguimos entender por que você manteve esta história em segredo por tanto tempo. – Betsy argumentou.
--Eu tive medo que vocês pensassem que eu fiz tudo de propósito, que dei em cima de Eric sabendo que Rebecca gostava dele. – Georgiana se defendeu.
--A sua atitude de manter segredo nos faz crer justamente nisso. – Rebecca ponderou, voltando-se para olhá-la.
--Mas não fiz. – Georgiana reafirmou. – Eu não sabia quem ele era e quando descobri já era tarde... – No calor da discussão, acabou confessando mais que pretendia.
--Você já tinha se apaixonado. – Rebecca terminou a explicação dela, lendo nos seus olhos o que ela havia omitido.
--Me perdoe. – Disse com a voz embargada. – Vocês duas são minhas melhores amigas e eu nunca faria nada que pudesse magoar uma de vocês de propósito. Acreditem em mim. – Implorou, por fim.
Nenhuma das meninas replicou nada por alguns minutos. Até que Betsy inquiriu.
--Então... você e Eric estão namorando? – Como quem deseja esclarecer todos os fatos de uma vez.
--Eu não sei. – Georgiana respondeu, encabulada e incerta do que as amigas prefeririam ouvir. Optando por ser o mais sincera possível.
--Como assim não sabe? – Betsy exclamou, genuinamente interessada naquela fofoca.
--Nós não conversamos direito e eu não sei se Eric... – Georgiana começou a dizer, mas Rebecca a interrompeu.
--Era só o que faltava, o Eric não querer lhe namorar! – Reclamando. – Eu admito que fantasiei toda a história com ele, mas vocês dois... Se depois daquele beijo que vimos ontem ele não quiser namorá-la, vou quebrar as duas pernas dele! Ele não pode fazer isso com você!
Deixando Georgiana boquiaberta, completamente abismada, e arrancando uma risada gostosa de Betsy.
--Então... você não... está chateada... porque eu gost... – Georgiana tentou formular uma pergunta, mas estava surpresa demais para proferir as palavras certas.
--Não nego que foi estranho vê-los juntos ontem e que vai ser por algum tempo. – Rebecca disse. – Mas eu não estou mais apaixonada por ele e se você gosta dele, e ele de você...
Georgiana se ergueu de sua cadeira e correu a abraçar amiga, interrompendo sua fala e tomando-a de surpresa.
--Obrigada. – Disse, aliviada.
--Nossa. – Betsy murmurou, também surpresa com aquela atitude.
--Sério, Georgie. – Rebecca fingiu-se de contrariada, ao se soltar dela. – Não é para tanto. – Mas incapaz de esconder o sorriso. – Vai me dizer que você não ia querer namorá-lo se eu fosse contra?
--Não namoraria. – Georgiana não pestanejou em replicar. Diante do olhar de incredulidade da amiga, explicou. – Eu tentaria não gostar mais dele. – Tímida ao fazer tão clara confissão.
Mas suas amigas continuaram a fitá-la com incredulidade. Não por não terem acreditado em suas palavras. Viam nos olhos de Georgiana a sua sinceridade. Mas incrédulas que ela se oferecia a se submeter a tal tortura apenas para agradar a amiga. Nenhuma delas conseguia entender como Georgiana era capaz de uma atitude tão altruísta como esta.
Mas, desde que perdera a amizade de Holly – embora soubesse que não era uma amizade inteiramente sincera por parte dela – Georgiana se fizera uma promessa. Nunca mais se poria numa situação em que disputasse as atenções de um rapaz com nenhuma amiga.
No fundo, ainda guardava um sentimento de culpa pela forma que sua amizade com Holly terminou. Em seu intimo, ainda acreditava que a atitude de Holly para com ela era fruto de um ressentimento profundo. Por se sentir traída por Georgiana, quando ela ficou com Wickham quando era Holly quem o queria primeiro.
Embora Georgiana soubesse que Holly tivera sorte por Wickham não tê-la preferido, já que não desejava a ninguém – nem mesmo a Holly – o destino que teve nas mãos de George Wickham.
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William estava à espera de seus pais muito cedo àquela manhã. Depois do pesadelo que tivera, não conseguira mais voltar a dormir. Vindo a sair da cama e ir assistir ao nascer do sol de inverno da janela do quarto – estava encontrando-se fechada para evitar que o ar gelado daquela manhã invadisse o seu quarto aquecido.
Emily não demorou muito a notar a olheiras escuras em seu rosto e a sua expressão de mau humor ao sentarem-se a mesma mesa para tomar café da manhã.
--Passou a noite em claro? – Questionou-lhe.
---Tinha muitas coisas na minha cabeça para conseguir dormir tranquilamente. – William respondeu.
O café transcorreu sobre aquele clima tenso da conversa da noite passada. E ao fim dele, Alexander e William recolheram-se no escritório do Darcy sênior e ligaram para o advogado da família que havia cuidado do processo que moveram contra George Wickham, o sr. Rousco Sharp.
A sra. Darcy juntou-se a eles quando discutiam, através do vivo a voz, as medidas que Rousco tomaria a seguir.
--A liminar proíbe que George Wickham se aproxime de qualquer membro de sua família, sejam em suas casas ou em ambientes de trabalho. No entanto, a presença dele na Galeria pode ser considerada mera coincidência e a sua atitude de sumir de sua presença será bem vista perante o juízo, acaso desejem realmente levar este fato a conhecimento do judiciário. – Rousco argumentava.
-- Ele tem me seguido, tirando fotos minhas com Elizabeth. – William protestou, enfurecido. –Eu sei que é ele o paparazzo que anda me seguindo por aí!
--Você tem testemunha que possa identificá-lo? – Rousco questionou.
--Bem, não. – William respondeu a contragosto. –Ele permaneceu de gorro e com a câmera cobrindo o seu rosto, mas eu sei que era ele! – Por fim, exclamou, alterado.
--Creio que sem uma testemunha imparcial, será a sua palavra contra a dele.
--Ele estava na Galeria. Não me falta testemunhas para a sua presença lá. – William atestou.
--Como já expliquei, ele alegará que fora coincidência e que assim que o viu, foi embora.
--Não foi mera coincidência. Ele é o instrutor de fotografia de Elizabeth, sabia que eu estaria com ela lá e foi à exposição para me afrontar! – William continuou com os seus protestos, silenciando o advogado por alguns instantes. – E foi embora com medo de que eu retomasse de onde parei anos atrás e deixasse tão irreconhecível que nem mesmo uma plástica reconstrutora conseguiria colocar aquele sorriso insosso naquela cara de novo!
Após esta exaltação, William permaneceu em silêncio. A menção ao nome de Elizabeth pela segunda vez não escapou a percepção dos pais de William. Entretanto, ambos preferiram focar suas atenções no assunto em baila e deixar suas suspeitas quanto aquele outro fator para mais tarde.
--Ele é instrutor de fotografia? – Rousco perguntou-lhe, retomando a conversa como se não houvesse escutado o último desabafo de William.
--Sim. – William respondeu, prontamente.
--Tem certeza?
--Tenho. – William não conseguia compreender como aquele pequeno detalhe pudesse estar cativando a atenção do advogado entre tantos outros fatos mais importantes que mencionara. – Ele dá aulas em um curso de fotografia no Centro. Eu descobri isto ontem. – Ainda assim, William esclareceu as dúvidas do advogado.
--Esta informação eu posso usar. – O advogado declarou, satisfeito.
--Como você pode usar esta informação? – Alexander intrometeu-se no diálogo que estivera, até então, apenas escutando.
--Uma das condições impostas pelo juiz ao conceder a liberdade condicional de Wickham fora de que ele devia manter-se afastado do meio fotográfico, como uma medida inibidora de futura reincidência de delito. – O advogado explicou. – Se ele está dando aulas de fotografia, ele violou uma das condições de sua condicional e esta poderá ser revogada.
William respirou aliviado. Aquilo parecia uma manobra fundada em tecnicalidades, mas pouco lhe importava. Se retirasse aquele crápula das ruas, estaria satisfeitíssimo.
--Eu preciso que você me informe precisamente onde ele trabalha, para que eu possa dar esta informação ao seu oficial da condicional com o pedido de revogação de sua condicional. – Rousco pediu a William.
Ele deu-lhe o endereço exato do prédio em que Elizabeth tomava aulas de fotografia e a ligação foi encerrada pouco tempo depois; Rousco garantindo-lhe que tomaria as providências necessárias com bastante urgência.
--Então, George Wickham conhece a sua Elizabeth? – Alexander perguntou-lhe assim que encerrou a ligação com o advogado.
--Sim. – William replicou, imaginando a direção que aquela conversa finalmente tomaria.
--Como? – Seu pai prosseguiu com o interrogatório, fitando o filho com atenção.
--Ele é o instrutor dela. – William sentia-se insatisfeito com aquelas perguntas e gostaria de não respondê-las.
--Eles são amigos? – Seu pai notou o seu desconforto, mas nem por isso deteve-se.
William sacudiu a cabeça negativamente, contrariado, mas respondeu.
--Sim.
--Ela sabe...? – Seu pai iniciou a pergunta, mas William o interrompeu.
--Não. – Conciso.
--Você vai...? – O feito mais uma vez se repetiu.
--Não.
--É por isso que ela não virá para o jantar? – Sua mãe se intrometeu na conversa pela primeira vez.
--Sim. – William foi sincero, deixando transparecer em seu tom de voz a mescla de sentimentos que o dominava: raiva e tristeza. – Eu preciso ir para o meu apartamento. – Declarou em seguida, para mudar o teor da conversa.
--Por quê? – Sua mãe protestou. – Pensei que ficaria aqui para receber sua irmã.
--Eu não tenho roupa para ficar aqui o dia inteiro. – Alegou, apontando para a roupa que estava usando naquele instante (o conjunto de moletom da equipe de remo da faculdade, o qual estava até justo no peitoral e mangas da blusa, já que não possuía mais aquele físico um tanto esguio da época da faculdade). – Eu voltarei para o jantar, pode ficar tranqüila.
Dizendo isto, deixou o escritório do pai e seguiu para o quatro. Precisava trocar aquela roupa pelo terno da noite passada para poder ir embora.
[1] Chardonnay é uma uva da família da Vitis vinifera, a partir da qual é fabricado vinho branco de qualidade. A chardonnay é usada na composição do vinho champagne, como responsável por seu aroma.














