Citações

Não desesperar nunca do que se quer esperar: Por uma aplicação infatigável alcançaremos o fim.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXIII

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

Capítulo XXIII

Lobo em pele de cordeiro

 

Mary estava penteando os cabelos enfrente ao espelho do banheiro. Tentava prender os fios de cabelo no coque que estava fazendo, quando Catherine postou-se ao seu lado e começou a pentear o próprio cabelo.

Catherine estava vestida com o seu uniforme da escola particular que freqüenta e o seu cabelo estava em perfeita desordem, repleto de nós. Lydia entrou no banheiro em seguida usando o mesmo uniforme e empurrou Catherine para o lado. Esta, por sua vez, empurrou Mary para o lado até que ela já não pudesse se enxergar no espelho do banheiro.

--Ei, eu estava aqui primeiro. – Mary protestou, tentando retornar para a sua antiga posição enfrente ao espelho, mas sendo detida pelas duas meninas mais novas.

--Pra que você precisa de um espelho para pentear este cabelo? – Lydia reclamou, empurrando Mary para longe. – Está sempre com ele preso. Já devia saber fazer este penteado sem precisar se olhar no espelho. – E, em seguida, retornar para sua antiga posição enfrente ao espelho.

--Mary, por que você não deixa o seu cabelo solto? – Catherine lhe questionou, voltando-se de lado e olhando para Mary, enquanto tentava desprender a escova de um nó em seu cabelo. – Você ia ficar mais bonita, sabia?

Lydia fitou Mary e analisou-a com cuidado.

--É. Kitty tem razão. – Afirmou. – O cabelo solto esconderia sua testa enorme e este pescoço de girafa. – Argumentou.

Mary saiu do banheiro, indignada, esbarrando-se nas duas ao tentar chegar até a porta do banheiro.

--Que grosseria! – Lydia reclamou ao vê-la partir. – Vai ver se eu tento te ajudar de novo! – Ameaçou.

Mary seguiu a rotina de sua manhã como outra qualquer. Terminou de se arrumar no quarto, sem voltar ao espelho do banheiro porque sabia que Lydia e Catherine ainda estariam lá. Depois saiu de casa com os seus materiais de estudo e pegou o metrô até a universidade.

As suas aulas daquela manhã transcorreram de forma tranqüila. E como tinha os dois últimos horários vagos, foi para a biblioteca trabalhar em sua tese. Desde que começou a se encontrar com os meninos no laboratório dias de quinta-feira, muitas das suas opiniões e descobertas em pesquisas foram postas a prova. Agora precisava fazer uma série de alterações no trabalho antes de apresentá-lo ao profº Kraven para a 1º avaliação.

Enquanto passava a limpo a sua tese, lutava com os fios de cabelo que teimavam em cair sobre o seu rosto e entrar em contato com os seus olhos. Sabia que havia feito um pobre trabalho ao penteá-los aquela manhã graças às suas duas irmãs mais novas.

O seu estômago começou a roncar e decidiu fazer uma pausa nos estudos. Iria almoçar na cantina da universidade e depois retornava. Como estudar em casa era muito complicado, graças à presença de suas duas irmãs mais novas, preferia passar as suas tardes livres na universidade. Mesmo que não pretendesse se encontrar com Lucian e Craig.

Recolheu seu material e, após devolver os livros emprestados à estante de livros, seguiu em direção a saída da biblioteca. Mal dera dois passos para fora da biblioteca, ouviu.

--Mary?

Olhou a sua volta e viu um rapaz à suas costas. Ele apressava os passos para conseguir alcançá-la. Parecia ter saído às pressas da biblioteca e lutava consigo mesmo para colocar os livros que tinha em mãos dentro de sua mochila.

Mary não o reconheceu, então continuou andando.

--Mary? Espere. – Ele pediu, detendo-a.

Mary parou e voltou-se de frente para ele. Embora não o reconhecesse, deduziu que se tratava de um colega de classe que estivesse precisando de alguma ajuda com relação a alguma atividade do fim de primeiro semestre.

--Oi. – Ele a cumprimentou, esbaforido, terminando de fechar o zíper de sua mochila. – Como vai você?

--Ok. Você precisa de ajuda com o que? – Prática, foi direto ao assunto; estava com fome e não queria perder muito tempo jogando conversa fora.

--Ham? – O rapaz replicou, franzindo a testa. – Ohh nada não... Você não se lembra de mim, não é?

E foi a vez de Mary de franzir a testa. O rapaz tinha cabelos castanhos claros e olhos cor de mel, quase verdes. Mais alto que ela, de forma que Mary precisava ergueu um pouco a cabeça para olhá-lo nos olhos estando assim tão perto. Físico esbelto, certamente pratica algum esporte.

--Deveria? – Questionou-o.

--Eu sou Johnny Hawk... Faço Economia. Nós nos conhecemos há alguns dias aqui na biblioteca. – O rapaz esclareceu. – Você estava com suas irmãs...

Ao ouvi-lo dizer isto, uma expressão de compreensão perpassou no rosto de Mary.

--Você me chamou de espertinho. – Ele continuou, desta vez rindo como se recordasse uma boa lembrança.

--Não foi um elogio. – Mary esclareceu, com o semblante sério e voltando a andar.

--Eu sei. – Johnny a seguiu, ainda alegre. – Mas foi engraçado.

--Minha resposta é não! – Mary foi categórica, apagando o sorriso do rosto de Johnny.

--Você nem sabe o que eu vou lhe pedir. – Contrapôs, defensivo.

--Não vou lhe dar o número do meu telefone ou enviar algum recado seu para nenhuma das minhas irmãs. Elas são muito novas para você. – Mary refutou, sem diminuir seus passos.

--Concordo, elas são. – Johnny continuou a segui-la e voltou a sorrir. – Mas se eu fosse pedir o seu telefone, não seria para falar com nenhuma delas. – Argumentou, charmoso. – Mas para falar com você.

--Para que? – Mary parou de andar pela segunda vez e fitou-o nos olhos. – Nós não freqüentamos as mesmas classes, então não haveria motivo para eu lhe ajudar com estudos.

--E este é o único motivo para um rapaz querer o seu telefone? – Perguntou-lhe, sedutor.

--Entendo. – A expressão do rosto de Mary ficou ainda mais sombria. – Você está participando de algum trote ou fez alguma aposta com seus amigos? ... Vou poupar-lhe o tempo e a paciência... Minha resposta continua sendo não. Tchau! – Tentou mais uma vez seguir o seu caminho e deixá-lo para trás.

Mas Johnny continuou a segui-la.

--Não é nada disso. – Ele refutou. – Não posso me inter...

--Não, não pode. – Mary interrompeu-o. – Rapazes do seu tipo não se interessam por garotas como eu. Então, deixe-me em paz.

Foi tão concisa e fria que o tomou de surpresa, detendo-o no meio do caminho. Permitindo que entrasse no refeitório sozinha.

Atravessou a cantina em direção ao balcão e selecionou o seu lanche. Só então permitiu que seus olhos vagassem pelo refeitório e procurasse uma mesa vazia para que pudesse se sentar. E viu que Craig e Lucian estavam ali também, acompanhados de outras meninas.

Já estava tão acostumada com a companhia deles que não se importava de dividir ocasionalmente a mesa com garotas de cabeças-ocas como suas irmãs mais novas. Por isso, seguiu em direção a mesa deles e sentou-se uma cadeira vaga ao lado de Lucian.

Algumas garotas lhe dirigiram olhares tortos, mas os dois meninos lhe cumprimentaram com a cortesia costumeira.

Estava no meio da refeição, quando aqueles mesmos fios de cabelo começaram a entrar em contato com seus olhos e em sua boca de novo. Atrapalhada, tentou prendê-los atrás da orelha. Mas os fios teimavam em continuar a cair em seu rosto.

Sentiu, antes mesmo de ver, a mão de Lucian tocar a sua bochecha. Ele capturou os fios e começou a enrolá-los entre os dedos, antes de colocá-los atrás de sua orelha. Roçando na pele sensível atrás de sua orelha, causando-lhe um leve tremor no corpo inteiro.

Mary tentou disfarçar seu embaraço da melhor maneira possível, agindo como se nada demais estivesse acontecendo e não parou de comer. Embora seu coração galopasse em sue peito e sentisse sua face arder de vergonha. Sabia que estava mais vermelha que uma beterraba.

--Mary, como é que eu nunca te vi de cabelo solto? – Craig questionou-lhe, após assistir esta cena.

--Eu não gosto... – Replicou, desajeitada. – Eles só servem para ficar caindo nos olhos e na boca, atrapalhando tudo.

Os dois meninos riram, enquanto as meninas faziam caretas de discordância.

--Mas eu gostaria de ver você de cabelo solto. – Lucian disse, displicente, voltando dar atenção ao seu lanche.

Mary sentiu seu estômago dar uma reviravolta incomoda diante deste comentário de sua parte.

--Embora, o cabelo preso tenha lá suas vantagens. – Craig argumentou, pensativo. – Permite ter livre acesso ao pescoço... – Completou, sonhadoramente.

Mary não sabia o que pensar deste comentário. Ainda que ele estivesse olhando para ela, Craig não parecia estar lhe enxergando. Parecia perdido em uma lembrança agradável.

Mas isso não impediu que Mary se sentisse constrangida por ser o foco daquela discussão entre os garotos. Principalmente em vista do que suas irmãs mais novas falaram a seu respeito esta manhã.

~#~

Da escola, Catherine e Lydia foram para a casa de Sunny. Haviam informado a sra. Bennet que passariam a tarde na casa de sua amiga, estudando. No entanto, após almoçarem e descansarem um pouco, Lydia e Sunny tentaram convencer Catherine a ir à casa de Zackary.

--Eu não posso ir sozinha. – Catherine contrapôs. – Por que vocês duas não vêm comigo?

--Kitty, pare de ser medrosa. – Lydia a recriminou. – Se nós duas formos com você, vai ficar mais difícil para Zack conseguir ficar a sós com você.

--Exatamente. Os amigos dele já vão estar lá ensaiando com a banda. – Sunny ajudou na argumentação. – Se livrar deles já vai ser difícil... Mas ele não poderia pedir para que nós fossemos embora... – Sinalizou com as mãos, abarcando Lydia e ela apenas. – sem que você imaginasse que ele estará incluindo você junto.

--Por que ele vai querer ficar a sós comigo? – Interrogou, confusa.

--Não seja obtusa. – Lydia perdeu a paciência. – Para te beijar, oras.

--Quantas vezes eu preciso dizer a vocês que não estamos namorando de verdade? Que ele não quer me beijar? – Protestou, zangada.

--Nenhum menino finge namorar uma garota sem querer nada em troca. – Sunny rebateu, enquanto Lydia concordava com a cabeça.

--Vai por mim, mais cedo ou mais tarde, ele vai querer beijar você. – Lydia afirmou, confiante. – E como eu sei que você quer ser beijada por ele, não custa lhe dar uma mãozinha.

Após muita persuasão da parte das duas meninas, Catherine aceitou ir à casa de Zackary para assistir ao ensaio de sua banda sozinha. Juntas, as três meninas saíram da casa de Sunny. Sua irmã e a amiga iam passear no shopping, enquanto Catherine se aventurava até a casa de Zackary.

Ao si ver parada enfrente a fachada da casa dele, começou a ficar em dúvidas quanto a sua decisão. Por que se deixara convencer por Lydia e Sunny?

Pensou em fazer o caminho de volta e se encontrar com as meninas no shopping. Mas ponderou que elas ficariam lhe aporrinhando a tarde todo por causa de sua covardia. Como não poderia voltar para casa sozinha sem que sua mãe lhe fizesse perguntas inoportunas, viu-se em uma encruzilhada. Teria que bater a porta da casa dele, querendo ou não.

Caminhou até a soleira da porta e bateu três vezes. Não houve resposta. Acionou a campainha e aguardou mais um pouco. Começou a imaginar se não haveria alguém em casa e fizera aquela viagem em vão. Mas a porta logo foi aberta por uma senhora idosa com uma expressão facial bondosa.

--Oi... Boa tarde. Ham... Zack está em casa? – Perguntou-lhe, tentando se acalmar.

--Sim. Ele está lá embaixo. – A senhora replicou. – Entre, por favor.

Catherine entrou e a senhora fechou a porta a suas costas.

--Você veio para o ensaio? – Perguntou-lhe, simpática.

Catherine confirmou com um aceno de cabeça. E a senhora guiou-a por uma sala até a cozinha. Ao passar pela sala, Catherine viu um senhor idoso sentado em uma poltrona enfrente a televisão ligada, com um jornal aberto em suas mãos, cobrindo-lhe a visão da TV.

Ao chegarem à cozinha, a senhora lhe mandou seguir adiante por uma escada que a levaria até o porão. Catherine desceu a escada e ao surgir ao porão, deparou-se com um cômodo amplo em formato de L.

Em um lado existiam duas camas de solteiro, um armário de roupas e uma estante – repleta de livros e CDs. Um rack com uma TV e um vídeo-game estava em outro canto, rodeado por puffs pretos.

E no outro canto estavam montados todos os apetrechos e aparelhos da banda. O ensaio já havia começado e nenhum dos meninos parecia ter notado a sua presença. Catherine ficou ouvindo-os, surpresa. Pois do andar de cima não dava para escutá-los tocando ali embaixo. Imaginara que o ensaio ainda não havia começado.

Rachael se encontrava ali também. Estava sentada em um dos puffs, com a cabeça envergada, lendo um livro que tinha aberto em seu colo. Mas balançava a cabeça ao ritmo da música de tempos em tempos.

Catherine se aproximou dela e tocou-lhe o ombro, chamando sua atenção. Rachael ergueu a cabeça e fitou-a, surpresa. Mas logo a encorajou a puxar um puff para perto dela e se sentar.

Catherine largou sua mochila com os materiais escolares ao lado de Rachael enquanto ia buscar o puff. Depois se sentou ao seu lado.

--Zack estava achando que você não apareceria aqui nunca. – Rachael informou-lhe, indicando-o entre os meninos com um aceno de cabeça. – Há tempos que lhe deixou o scrap e você nunca vinha assistir a nenhum dos ensaios.

Ao olhar na direção de Zackary, Catherine percebeu que ele estava olhando em sua direção e parecia genuinamente surpreso com sua presença. O costumeiro frio na barriga lhe embrulhou o estômago quando Zackary lhe sorriu de longe, cumprimentando-a com um aceno de cabeça.

--Foi por causa das avaliações de fim de primeiro semestre. – Justificou-se para Rachael, mentindo, sem desviar o olhar de Zackary. – Ficava difícil de sair de casa tendo de estudar para as provas.

--Compreensível. – Rachael afirmou.

Quando a banda fez uma pausa entre as músicas, Zackary colocou o baixo de lado e se aproximou das meninas – sendo imitado pelos demais.

--Bonequinha, você veio. – Parecia muito satisfeito, ao curvar-se em sua direção e lhe dar aquele beijo de canto de boca que fazia as mãos de Catherine suar frio.

--Eu disse que viria. – Replicou, corada.

--Ela parece mesmo com uma bonequinha. – Ralph, o baterista, comentou, fitando-a dos pés a cabeça.

--É. Minha irmã tem uma boneca de louça igual a você. Com uniforme e tudo. – Saul, o tecladista, concordou.

Catherine olhou para os próprios pés, envergonhada. Esquecera-se de trocar o uniforme da escola.

--Vocês estão deixando a menina sem graça. – Rachael protestou, fazendo os meninos gargalharem, descontraídos.

E no mesmo instante começaram a discutir sobre o ensaio e o repertório das músicas para o próximo show – que seria na festa de comemoração do aniversário de dezoito anos de um amigo.

Catherine, aos poucos, começou a se sentir a vontade entre eles. Os amigos de Zackary são hilários, vivem fazendo palhaçadas e brincadeiras uns com os outros.

Em menos de meia hora, estavam a imaginar um futuro não muito distante em que a banda estará fazendo vídeo clipes de suas músicas. E criando cenas imaginárias divertidas uns para os outros.

--...Ralph está correndo na praia em câmera lenta e do outro lado, vindo em sua direção, também correndo em câmera lenta, está Saul... – Adam brincava, entre gargalhadas.

--Eles se chocam e saem rolando na areia da praia, abraçados e sorridentes. – Zackary completou, divertido.

E os dois garotos, ao invés de se incomodar, começaram a interpretar a cena ali mesmo. Correndo um ao encontro do outro, em câmera lenta, arrancando risos das meninas.

Quando o ensaio terminou, Catherine se viu sozinha com Zackary pela primeira vez. Adam fora levar Rachael em casa e os outros dois meninos, após organizarem seus instrumentos, foram embora por livre e espontânea vontade.

Zackary lhe apresentou o quarto que divida com o irmão. Informando-lhe que quando os avôs maternos vieram morar com eles, o irmão e ele se mudaram para o porão.

--Não que a gente tenha se incomodado com esta alteração. – Explicou. – Foi até melhor. Meu avô reformou o porão pra gente, revestindo a parede com material anti-ruído... isolante. Para que pudéssemos ensaiar com a banda aqui sem incomodar ninguém lá em cima ou os vizinhos.

Era a primeira vez que se encontrava no quarto de um menino e estava excessivamente curiosa quanto ao que poderia encontrar ali. Ela esperava que houvesse pôsteres de mulheres semi-nuas e coisas do gênero nas paredes do quarto dele. Mas os poucos pôsteres ali presentes eram de bandas de rock das quais os irmãos eram fãs e um ou dois pôsteres de filmes de ação.

Catherine começou a xeretar as coisas dele que estavam na estante – CDs e livros. Ele possuía uma vasta coleção de livros – os sete de Harry Potter[1], os de Percy Jackson e os Olimpianos[2], os livros de Stephen King, tais como a coleção A Torre Negra[3], e uma série dos Romance De Clã[4], uma compilação de histórias sobre vampiros de diferentes autores.

--Você gosta de histórias de vampiros? – Ele quis saber quando Catherine retirou da estante o Romance de Clã: Toreador, volume I da compilação.

--Eu adorei Crepúsculo! – Catherine respondeu, animada.

--Este livro não tem nada a ver com Crepúsculo. – Ele refutou, fazendo uma careta. – Para ler este livro você teria que conhecer o mundo do RPG[5]... Por isso, acho que você gostaria mais deste aqui. – Puxou o primeiro volume da coleção A Torre Negra, O Pistoleiro.

Catherine colocou o livro que tinha em mãos devolta na estante, mas não tomou aquele que Zackary lhe indicara. Pensou em dizer-lhe que as únicas coisas que costuma ler com frequência são revistas de moda. Mas preferiu reter tal comentário, temendo que ele pensasse que ela era uma menina boba.

--Ou... Sei lá. Você já leu O Ladrão de Raios? – Ele perguntou em seguida, sem graça. – Se leu Harry Potter e gostou, vai gostar deste aqui. – Retirou o livro que mencionara, da coleção Percy Jackson e os Olimpianos, da estante e lhe estendeu.

Notando o disconforto dele com a sua reação ao seu comentário sobre Crepúsculo, aceitou o livro que lhe ofereceu em seguida.

--Depois que você terminar de ler este, eu te empresto O Mar de Monstros. – Que é o segundo volume da saga de cinco livros.

Catherine logo percebeu que viria a repetir estas visitas, mesmo que fosse somente para devolver-lhe os livros que ele viria a lhe emprestar.

A avó dele apareceu no topo da escada do porão, chamando por ele. Oferecendo-lhes um lanchinho. E os dois seguiram-na para a cozinha. Pouco tempo depois, Adam retornou e ofereceu-se a levar Catherine ao encontro de Lydia e Sunny no shopping de carro. Pois já estava anoitecendo e Catherine teria que voltar para casa.

~#~

Elizabeth saiu do estúdio de fotografia naquela noite se sentindo exausta. O dia fora longo, tudo o que queria era ir para casa e cair na cama. Por um segundo permitiu-se imaginar se Darcy estaria esperando por ela do lado de fora. E sorriu.

Mesmo estando cansada, estava disposta a adiar o descanso por umas horinhas regadas por muitos beijos. E sentiu um leve desapontamento quando, ao sair do estúdio, não o encontrou ali do lado de fora, esperando por ela encostado ao seu carro.

--Ei, Lizzie, está indo na direção da estação do metrô? – Wickhan questionou-lhe, apressando-se a acompanhá-la.

--Hum-hum. – Respondeu, pausando em suas andanças para esperá-lo.

--Se importa se acompanhá-la? – Pediu-lhe, charmoso. – Estou indo encontrar um amigo no bar um pouco depois da entrada de acesso ao metrô. – Explicou-se. – Ou você acha que o seu namorado se sentiria afrontado com a minha ousadia?

--Tudo bem. Adoraria ter companhia. – Respondeu, amistosa, voltando a andar quando ele já estava ao seu lado.

--Naquele dia... Era William Darcy aquele cara que veio lhe buscar, não era? – Ele questionou-lhe, com um tom corriqueiro.

Limitou-se a confirmar com um aceno de cabeça. Desde que saíram as fotos dos dois nas revistas, notara a curiosidade de pessoas com este assunto. Até mesmo aquelas que mal lhe conheciam, como as suas colegas de classe naquele curso de fotografia, sentiam-se no direito de lhe fazer perguntas a este respeito.

--Quase não o reconheci naquela noite. – Wickhan prosseguiu, diante do silêncio dela. – Ele está mudado.

--Você o conhece? – Perguntou-lhe, levemente curiosa.

--Quem não conhece William Darcy? – Wickhan rebateu, displicente. Como se tencionasse mudar o foco da história. – Especialmente com a publicidade que vem recebendo nos últimos meses.

E isso só serviu para aguçar mais a curiosidade de Elizabeth. Ela sentiu em seu tom de voz que ele estava medindo suas palavras.

--Interessante. Você soou como se o conhecesse pessoalmente. E não como alguém que apenas soubesse coisas a seu respeito através de jornais e revistas. – Contrapôs, tranqüila.

Ele apenas sorriu, preferindo não comentar a respeito.

--Você está me deixando curiosa. – Riu-se, brincalhona, diante de seu silêncio.

--Você sabe aquele ditado: “a curiosidade matou o gato”? – Ele replicou, galante. – Eu não gostaria que nada de mau lhe acometesse. – Flertou com ela.

--Sabia que gatos têm nove vidas? – Sorriu-lhe, mas de forma contida. E com ar de superioridade, continuou. – Então, não se preocupe comigo. Vou sobreviver.

--Ha-ha-ha. – Wickhan gargalhou.

Quando cessou o seu riso, olhou para ela. Elizabeth ainda estava na expectativa de ouvir o seu relato.

--Não é uma boa história. – Alegou, desconversando. – Creio que a minha experiência com a família Darcy não é uma das melhores.

--Sua hesitação só está servindo para aguçar a minha curiosidade. – Redargüiu, sincera. Tinha a vaga impressão de que ele estava gostando de toda aquela atenção.

--Se você insiste. – Ele, enfim, cedeu. – Eu não sei se você sabe, mas eu já trabalhei como modelo. Foi assim que vim a me interessar por fotografia.

--Eu já ouvi algo a este respeito. – Elizabeth confessou, preferindo não ser especifica quanto ao assunto.

--Pois bem. Na minha inocência, quando me vi apaixonado pela fotografia e decidi mudar de profissão, pensava que tudo seria muito fácil. – Ele iniciou o seu relato cheio de floreios. – Mas a realidade que enfrentei foi outra. Passei por maus bocados até conseguir me firmar na profissão.

Elizabeth escutou-o com atenção. Ele tinha um charme e ar de sedutor ao falar. E a sua voz entoava uma honestidade imensa.

--Fiz alguns amigos no meio e recebi muita ajuda deles. Foi um amigo em particular que conseguiu minha primeira entrevista de emprego numa agência de modelos... Ele é redator, conhecia algumas pessoas importantes e, quando soube que precisavam de um fotografo substituto, me indicou para o trabalho.

--Na época, eu trabalharia como freelancer por um período e, com o tempo, seria discutida uma contratação definitiva. Era uma excelente oportunidade e eu estava felicíssimo...

Ele estava empolgado em seu discurso até este momento.

--Mas o trabalho de freelancer não é tão certo assim. E havia meses que o dinheiro ficava curto. Foi aí que um colega de profissão me explicou que quando ele ficava sem dinheiro, apelava para as fotos de artistas e famosos nas atividades de cotidiano.

--Que as revistas de fofocas sempre compravam fotos de atrizes enquanto estão na lavanderia ou fazendo compras de mercado. Que era um dinheiro fácil de conseguir. Bastava ter sua câmera sempre a mão e contar com a sorte de se encontrar com um famoso pelas ruas.

--Pareceu-me simples, realmente. Então, decidi seguir o seu conselho. E passei a andar sempre com a minha câmera aonde quer que eu fosse. Inicialmente, não tive muita sorte. Mas, antes que pudesse desistir da idéia, a minha maré de azar parecia ter mudado.

À medida que relatava sua história, seu tom de voz ficava mais sério e agourento. Elizabeth já previa que algo de ruim estava por vir.

--Eu fui à festa de um playboy da alta sociedade, convidado pelo meu amigo redator. Lá eu cometi o incrível erro de registrar o momento em que um membro da família Darcy se encontrava... Como eu posso dizer? – Fez uma pausa, aumentando o suspense. – Bem, em maus lençóis. – Completou, azedo.

Elizabeth ficou surpresa com este fato. Estaria ele se referindo a William? Ou a outra pessoa. Era difícil imaginar Darcy em uma situação comprometedora em um local público e ser flagrado por um fotógrafo.

As fotos dos dois encontradas nas revistas recentemente eram embaraçosas. Mas não a ponto de causar escândalo, como deduzia estar sendo aludido por Wickhan.

--Meu erro seguinte foi tentar vender as fotos. – Ele prosseguiu, evidentemente ressentido. – A única coisa que consegui foi ser dispensado como fotógrafo freelancer e informado que a possibilidade de vir a ser contratado por qualquer agência no futuro próximo era inexistente a partir daquele momento.

Visivelmente irritado, prosseguiu.

--Minha vida se tornou um inferno. Eu não conseguia um emprego, não conseguia vender as fotos que tirava e não conseguia pagar o aluguel do apartamento.

Elizabeth estava impressionada. Não sabia o que dizer. Então, permanecia calada.

--Como não tenho família aqui, fui obrigado a viajar para o exterior e tentar a vida lá fora. Vivi os últimos anos nos EUA.

--Isso é terrível. – Falou, por fim.

--Bem, a vida não é cor de rosa. – Sorriu-lhe, sem jeito.

--É inacreditável que algo assim possa acontecer. – Proclamou; ainda custando em acreditar que William Darcy poderia ser a pessoa a que ele se referia. Afinal, Wickhan não o mencionou especificamente, afora no começo da conversa.

--Os ricos são sempre assim, Lizzie. – Wickhan declarou. – Eles não se importam com os outros, apenas consigo mesmos.

--Você não foi nenhum santo, George. – Rebateu, eriçada. – Tenho certeza de que não gostaria de ter uma foto minha estampada em um jornal ou revista, acaso eu fosse flagrada em uma situação comprometedora.

--A diferença é que você não se poria numa situação com aquela, tenho certeza. – Ele disse, zeloso.

Ela ficou em silêncio. Ele prosseguiu.

--Quer ver que isto é comum entre eles? Você viu a capa da Profile recentemente? – Questionou-lhe, com ar superior. – William Darcy estava nela.

Elizabeth confirmou com um curto aceno, temerosa com o que pudesse vir a ouvir.

--Este meu amigo redator me contou que ele foi à festa de Mark Lyman, que é outro playboy da alta sociedade, e aconteceu de encontrá-lo lá. Darcy.

--Meu amigo cometeu um erro parecido com o meu. Ele tirou a foto de Darcy num banheiro com uma dançarina e tentou publicar a foto, junto com um artigo, na própria revista. Mas parece que Darcy fez um acordo com a revista. Aceitando dar uma entrevista e sair na capa, caso a sua foto com a dançarina não fosse publicada. E como a revista não queria ter problemas com a família Darcy, aceitou o arranjo.

Desta vez, Elizabeth parou de andar e fitou-o longamente, abismada.

--A sorte é que meu amigo não é freelancer e a revista não poderia despedi-lo sem correr riscos de enfrentar uma ação judicial. Então, ele só foi repreendido verbalmente e impedido de publicar a história.

Wickhan respirou fundo, como se tentasse se recompor, antes de dizer.

--Desculpe-me. Avisei que não era uma boa história. Sabia que você não ia gostar. – Sorrindo-lhe com remorso.

--Não... Ham... Está tudo bem. – Mentiu, voltando a andar. – Bem, eu já estou vendo a entrada de acesso ao metrô. Vou andando sozinha. Boa noite. – Apressou-se a se despedir e seguiu o resto do caminho, atordoada.

Não olhou para trás momento algum. O que a impediu de ver a felicidade estampada no rosto de Wickhan.

Ao lembrar-se da capa da revista Profile e do artigo a seu respeito, as poucas dúvidas que tinha quanto à veracidade dos fatos que lhe foram relatados pareciam sumir diante de seus olhos. Agora entendia o porquê de um homem como Darcy, que sempre lhe transpareceu ser uma pessoa reservada, aceitar dar uma entrevista como aquela a uma revista de fofocas.

Elizabeth queria acreditar que Darcy não era uma pessoa capaz de cometer uma atrocidade como aquela contra alguém como Wickhan. Sim, sabia que não gostaria de ter uma foto sua comprometedora estampada em um jornal ou revista. Mas também concordava com Wickhan quanto a nunca se submeter a uma situação em que pudesse levar até este ponto.

Pensar que não só Darcy se envolveu numa situação embaraçosa ao extremo, ainda destroçou a vida de outra pessoa por causa de seu próprio erro era enervante. E pelo que Wickhan relatara, não fora uma única vez.

Isto a fazia questionar-se se o conhecia bem. E se ele era alguém a quem devia entregar o seu coração.

~#~

Quando sua mãe ligou para o seu celular e convidou-o para jantar em sua casa esta noite, Darcy imaginou o motivo para este convite repentino. Sabia que seus pais já tinham conhecimento do seu envolvimento com Elizabeth Bennet, graças à imensa propaganda que as revistas de fofoca estavam lhe dando estes últimos dias. E agora estariam interessados em descobrir o quão sério seria este envolvimento.

Ao chegar a casa de seus pais, no bairro Kensington , a sra. Perkins, governanta, abriu a porta para ele e o cumprimentou. Guiou-o até a sala, onde os seus pais já o aguardavam.

--Boa noite, mãe. – Caminhou em sua direção e curvou-se sobre ela, beijando-lhe a face. – Boa noite, meu pai.

--Boa noite, Will. Como você está? – Sua mãe questionou-lhe, com aquele familiar sorriso nos lábios.

Darcy não tinha dúvidas, ela queria saber sobre Elizabeth.

--Bem. – Respondeu, conciso, sentando-se ao seu lado.

--Não vai beber nada? – Seu pai perguntou-lhe, erguendo-se de sua poltrona e caminhando até o bar.

--Aceito o que o senhor estiver tomando. – Respondeu, tranqüilo.

--Ela é bastante bonita. – Sua mãe iniciou a conversa, recuperando a sua atenção.

Como sabia muito bem sobre o que ela estava falando, não tentou fingir-se de desentendido.

--Eu concordo. – Mas também não queria entrar em muitos detalhes sobre o quão bonita Elizabeth Bennet é para ele.

Emily parecia satisfeita com o fato de ele não se negar discutir o assunto.

--Há quanto tempo vocês estão namorando? – Tentou aprofundar-se mais no assunto.

--Um pouco mais de uma semana. – Declarou.

--Então é verdade que estão namorando?

--Tenho certeza de que a senhora viu as fotos, mamãe. – Darcy foi evasivo.

--Vi sim. Mas você sabe como são estas revistas de fofocas. Nem sempre o que se é relatado ali é cem por cento verdadeiro. – Ela argumentou.

Darcy não fez comentário algum a este respeito. Seu pai trouxe-lhe um copo com uísque e voltou para a sua poltrona.

--Há alguma chance de nós virmos a conhecê-la? – Sua mãe logo prosseguiu, com o seu ar sagaz.

--Se a senhora houvesse feito este convite com certa antecedência, talvez eu trouxesse Lizzie comigo esta noite. – Respondeu, calmo.

Embora, em seu interior, estivesse um pouco surpreso com o grau de honestidade em sua afirmação. E não pôde deixar de notar que ambos seus pais também o estavam.

Sua mãe recostara-se ao sofá, permitindo que uma expressão de surpresa dominasse o seu rosto. Enquanto o seu pai fitou-o nos olhos, desconfiado.

--Não me diga. – Sua mãe disse, por fim. – Bem, então, terei que marcar um novo jantar logo, logo. Assim você poderá trazer Lizzie com você. – Afirmou, imitando-o ao dirigir-se a ela de forma mais intima.

--Faça isso. – Foi só o que disse.

--Quem sabe na próxima semana. Georgie vai chegar a casa para passar as férias de inverno. – Emily prosseguiu, empolgada. – Tenho certeza de que está curiosa em conhecer sua mais nova namorada tanto quanto eu e seu pai.

Darcy voltou o olhar sobre o pai novamente. Ele não parecia estar curioso de forma alguma. Na verdade, estava contemplando o seu copo de uísque, com um ar distante. Perdido em pensamentos.

Darcy estava estranhando o seu silêncio quanto a este assunto. Alexander nunca fora um homem de guarda para si seus julgamentos. Imaginou que seu pai devia estar esperando conhecer Elizabeth para manifestar sua opinião quanto ao seu envolvimento com ela.

E então, tinha certeza, ele não mediria suas palavras.



[1] Harry Potter são uma série de aventuras fantásticas criadas pela escritora britânica J. K. Rowling sobre bruxos.

[2] Percy Jackson e os Olimpianos é uma série de cinco livros juvenis de aventura de Rick Riordan, baseada na mitologia grega. O Protagonista é Percy Jackson, que descobre ser um semi-deus, filho de Poseidon, deus do mar. O Ladrão de Raios é o primeiro livro da série.

 

[3] A Torre Negra, no original The Dark Tower, é uma série dividida em sete volumes escrita por Stephen King; mistura ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea. O Pistoleiro (The Gunslinger), é iniciado com a fuga do mago chamado de Homem de Preto pelo deserto, com um pistoleiro em seu encalço. Roland Deschain é o ultimo dos pistoleiros de seu mundo, com rígidos códigos de conduta e honra.

 

[4] Romance De Clã é uma compilação em 13 romances sobre o mundo proibido dos vampiros. Um volume para cada Clã de Vampiro: A Máscara, mostrando os eventos que culminarão na destruição inevitável do Mundo das Trevas. O clã Toreador é conhecido por seu amor à arte. São os vampiros sensuais e mais parecidos com aqueles descritos por Anne Rice em suas Crônicas Vampirescas. Os personagens principais da trama são Leopold, um neófito que desconhece sua Senhora e até mesmo seu espaço nas intrigas políticas, e Victoria Ash, uma anciã que trama para conseguir o apoio em Atlanta.

[5] O role-playing game (RPG, traduzido como "jogo de interpretação de personagens") é um tipo de jogo em que os jogadores assumem os papeis de personagens e criam narrativas colaborativamente. O progresso de um jogo se dá de acordo com um sistema de regras predeterminado, dentro das quais os jogadores podem improvisar livremente. As escolhas dos jogadores determinam a direção que o jogo irá tomar.

 

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje84
Neste mês2421
Desde Março de 200985443
Brazil flag 63%Brazil (49612)
United States flag 6%United States (4824)
Portugal flag 5%Portugal (3763)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1438)
Ukraine flag <1%Ukraine (473)
Germany flag <1%Germany (353)
France flag <1%France (318)
Netherlands flag <1%Netherlands (302)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (302)
Latvia flag <1%Latvia (152)