Citações

Se eu a amasse menos, seria capaz de falar mais sobre o que eu sinto. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XXII

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Capítulo XXII

Apenas sexo?

 

Quando Elizabeth reapareceu na sala e olhou a sua volta, não viu ninguém. A porta para a varanda estava aberta, então ela caminhou até lá.

Encontrou Darcy sozinho, debruçado no parapeito e vislumbrando as ruas lá embaixo. Encostou-se a porta e ficou admirando-o em silêncio. Ele estava vestido com uma simples calça jeans e um suéter de linho azul marinho. Ombros largos, costas em V e um bumbum redondinho. Um homem apetitoso.

--Onde estão os outros? – Perguntou, para desviar a sua imaginação para alguma coisa menos comprometedora.

Ele voltou-se de frente para ela e respondeu.

--Foram embora. – Aguardando ansiosamente para descobrir sua reação.

--Você os expulsou? – Perguntou-lhe, faceira, ao caminhar em sua direção.

--Definitivamente. – Ele respondeu, sério, surpreendendo-a com a resposta. – Brincadeira. – Disse em seguida, sorrindo, quando ela parou de caminhar em sua direção ainda fora do seu alcance e arqueou uma das sobrancelhas, interrogativa. – Richard adorou a idéia de levar Moira em casa. Charles e Jane pareciam ter outros planos para esta noite. E Caroline foi embora com eles. – Explicou, acercando-se dela.

--Ela foi? – Elizabeth não soube esconder sua surpresa com esta revelação. Seus olhos lhe faziam a pergunta: “fácil assim?”.

--É... – Darcy também deixou transparecer sua admiração com este fato. – De forma que... estamos sós, finalmente. – Completou sedutoramente, ao enlaçá-la pela cintura.

Não daquele jeito displicente, quando os braços rodeiam a cintura. As mãos deles prenderam sua cintura e a puxaram para si, possessivamente.

--Está tentando me seduzir, sr. Darcy? – Quis saber, ao passar os braços envolta de seu pescoço e abrir-lhe um sorriso imenso, gostando da sensação das mãos dele em sua cintura. Os dedos apertando a carne.

--Absolutamente. – Respondeu, com a voz rouca, inclinando a cabeça em sua direção lentamente.

Elizabeth ergueu o rosto ao seu encontro, fechando os olhos e lhe oferecendo os lábios. Pôde sentir o hálito quente dele em seus lábios, depois sentiu a maciez daquela boca máscula roçar a sua, provocativamente. Uma das mãos dele seguiu para a linha de sua coluna, os dedos fazendo uma pressão ali que fazia o seu corpo oscilar para trás. Enquanto os outros enroscavam em seu cabelo, afastando-o de seu pescoço e fazendo os pêlos de sua nuca se eriçarem.

Suspirou, delirante, quando os lábios dele seguiram um caminho diferente e alcançaram seu pescoço. Segurou-se firme a ele quando Darcy cravou os dentes em seu pescoço e o mordiscou, depois o sugou demoradamente. Perguntava-se, em silêncio, se era certo sentir-se assim tão indefesa perto dele.

Foi com surpresa que sentiu suas costas pressionadas contra uma camada macia de algum material irreconhecível naquele instante. Abriu os olhos momentaneamente e soube que fora levada para dentro da sala e estava deitada no sofá, com o peso do corpo dele sobre o seu.

Sequer teve tempo de se perguntar como viera parar ali, pois sentiu os lábios dele navegarem pelo seu pescoço em direção a sua boca. A pele áspera de seu rosto roçando por sua face. Ele mordiscou seu queixo, depois requisitou sua boca em um beijo apaixonado.

Deixou suas mãos passearem pelos cabelos dele, apertando levemente sua nuca, saboreando aquele beijo. Os dedos apreciando a sensação de tocar a pele de seu pescoço e nuca, percorrerem os ombros e descerem lentamente pelas costas largas. Sua mente com aguçada consciência de cada centímetro do corpo dele que pressionava o seu.

Cada fibra de seu corpo, dos dedos dos pés ao último fio de cabelo, vibrou quando ele entrecortou o beijo com uma mordiscada em seu lábio inferior, dando logo inicio a outro beijo lascivo.

Agora entendia o sentido daquela expressão: de tirar o fôlego. Nenhum homem lhe beijara a ponto de lhe roubar o fôlego antes. Mas parecia que Darcy era capaz de muitas coisas que ela não imaginara que alguém pudesse fazê-la sentir.

Como aquele calor, como uma brasa ardendo em chamas na boca do estômago ao sentir a mão dele penetrar por baixo de sua blusa e acariciar a pele sensível de sua barriga. Ou como o calor crescia, acompanhando o caminho de seus dedos pela sua pele, contornado suas costelas e subindo cada vez mais.

Sentiu a mão forte e grande envolver por completo um seio e massageá-lo com carinho, enquanto a boca ainda dominava a sua ininterruptamente. Um prazer incrível explodiu em seu corpo e gemeu em sua boca, sentindo o seu corpo se mover insinuante sob ele. Como se quisesse se encaixar melhor, moldar-se a ele. E não demorou muito para sentir uma pressão inconfundível em seu baixo ventre em resposta aos seus movimentos.

Surpresa consigo mesma, não resistiu mais a tentação de senti-lo por debaixo dos tecidos de sua roupa. Enfiou as mãos por debaixo da blusa e começou a erguê-la, ao mesmo tempo em que acariciava demoradamente suas costas. Sentindo aquela pele quente de homem sob seus dedos.

Darcy parecia ler a sua mente, porque não demorou muito para afastar o seu corpo do dela o suficiente para puxar a sua blusa por sobre a cabeça e arrancá-la do corpo, atirando-a longe. Ainda sustentando o peso do corpo sobre os braços, olhou para baixo e assistiu Elizabeth admirar sem disfarces o seu torso nu.

Ela ergueu as mãos, hesitante, até o seu peitoral e deixou os dedos enroscarem nos fios de cabelo ali presentes e sentir os músculos do peito contrair com o seu toque; apreciando o resultado das horas gastas em sua academia particular. Darcy tinha mais músculos que os ternos de seda italiana deixavam transparecer. Um homem gostoso em todos os sentidos da palavra, na opinião de Elizabeth.

Ao olhar dentro de seus olhos, viu ali refletido um fogo e desejo que fizeram um calafrio percorrer a sua espinha. E seu coração bateu ainda mais valente em seu peito, quando o viu baixar o corpo lentamente sobre o seu. Os lábios dele sobrevoaram os seus, fazendo sua boca se entreabrir, ansiando aquele beijo. Seu pulmão se expandir, inspirando ar de seu hálito. A língua dele percorreu seus lábios, numa provocação infantil. Elizabeth suspirou de novo, de forma delirante.

Ergueu a cabeça de encontro a dele, seus lábios perseguindo os dele, quando sentiu sua boca partir em retirada em mais uma provocação infantil. Parecia ainda mais injusto que ele parecesse inabalável, capaz de provocá-la com aqueles joguinhos, enquanto ela não conseguia retribuir o favor. Sabendo que estava perdendo o controle tão facilmente, sem poder fazer nada para impedir.

Segurou-o pela nuca e puxou-o de volta para si, impedindo-o de continuar a se afastar e provocá-la daquela maneira. Prendeu sua boca em outro beijo demorado e intenso, enquanto o seu corpo repetia os mesmos movimentos insinuantes sob o dele. Sua perna se encaixou entre as dele e sentiu outra resposta imediata em seu baixo ventre. E foi a vez de Darcy gemer em sua boca, delirante.

Ele entrecortou o beijo, arfante. Ergueu uma das mãos até o seu rosto e acariciou a sua face, demoradamente. Fitava-a nos olhos, enquanto os dedos delineavam os contornos de seus lábios.

--Você vai me enlouquecer. – Murmurou, rouco de desejo, antes de beijá-la novamente.

Sua mão acariciou o pescoço dela, os seios e seguiu para a cintura. Acariciou sua coxa e encaixou-se na dobra de seu joelho, puxando a sua perna para cima e fazendo seu joelho flexionar. Sentiu o corpo dele se encaixar ao seu com perfeição, a pressão em seu baixo ventre parecia ter crescido também.

E logo as mãos deles, juntas, estavam fazendo o caminhou de volta para sua cintura. Os dedos se enroscaram na blusa e começaram a puxá-la para cima. Ela sabia o que ele estava prestes a fazer e um alarme soou dentro de sua cabeça. Será que eles estavam indo rápido demais? Se eles fizessem isso agora, o que aconteceria depois? Ele perderia o interesse uma vez que satisfizesse sua curiosidade, como Caroline supunha?

Elizabeth lutou contra o seu próprio desejo e, colocando as mãos de volta em seu peitoral, afastou-o de novo de si. Até que ele parasse de beijá-la e olhasse dentro de seus olhos, interrogativamente. As suas mãos paralisaram-se onde estavam, meio caminho de despi-la de sua blusa.

--O que foi? – Ele perguntou, sua voz ainda rouca de desejo.

Elizabeth sustentou o seu olhar, perguntando-se se estava fazendo a coisa certa ou se devia deixar rolar, ignorando aquelas neuroses.

Darcy ergue uma das mãos e levou-a até o seu rosto, pressionando com a ponta do dedo polegar uma ruga de expressão em sua testa.

--O que está lhe preocupando, Lizzie? – Questionou, fazendo um esforço de recuperar sua própria racionalidade no tumulto de sensações em que estava o seu corpo.

Viu-a morder o lábio inferior daquele jeito nervoso que achava tão sensual. Hesitante, ela perguntou.

--O que você acha que está acontecendo entre nós?

Darcy continuou a olhá-la nos olhos. Os dela estavam abertos de forma ansiosa, de um jeito inocente. E sua mente começou a trabalhar para entender o sentido daquela pergunta. Estaria ela lhe perguntando o que estava acontecendo entre eles fisicamente?

Darcy afastou aquela possibilidade com um leve balançar de cabeça. “É claro que ela sabe o que está acontecendo entre a gente fisicamente. Elizabeth não poderia ser... Ou poderia?”

Quase rindo de si mesmo, Darcy afastou esta possibilidade da mente também. Já que, mesmo que ela fosse – o que ele pensava ser improvável – não teria como ela não saber o que estava acontecendo. Já que adolescentes na puberdade já tinham conhecimento de como este departamento funciona.

Então, não era este o sentido de sua pergunta, concluiu. Qual era, então?

Fitou seus olhos ansiosos e ponderou sobre o assunto. Ela só poderia estar querendo saber uma coisa.

--Eu... – Mas ele se viu em outra encruzilhada. Como lhe responder? – Eu não sei... Eu não posso lhe prometer... – Mas todas as vezes que começava a responder, percebia que ia dizer algo que não queria dizer. – Eu não posso prever o futuro, Elizabeth. – Respondeu, por fim, insatisfeito com sua própria resposta.

--Não foi isso o que eu perguntei. – Elizabeth rebateu, já sem aquele mesmo olhar ansioso e inocente. – Não estou pedindo para me fazer promessas. – Ela argumentou, já demonstrando aquela segurança típica de sua personalidade. – Eu quero saber se nossa relação se resume a atração física. – Explicou. – Se tudo o que você quer de mim é sexo.

Darcy se afastou mais dela, sustentando o peso de seu corpo com os braços, e observou-a com atenção. Não restava mais nenhum vestígio do nervosismo. O que via estampado em seu rosto era uma expressão segura e decidida. Ela estava preparada para ouvir a resposta dele, independente de ser aquela que deseja ouvir ou não.

E começou a se perguntar como ela poderia ter chegado a esta conclusão. Era esta a impressão que ele passara durante seus encontros?

Se ele se sentia atraído por ela? Sem dúvida. Se ele queria transar com ela? Obviamente. Se era somente isso que queria dela? Claro que não!

--Não. – Respondeu. – Não é só isso que quero de você.

Ela suspirou, lentamente. Mas sua expressão não mudou. Então Darcy não soube dizer se aquele suspiro era de alivio ou não.

Ponderou que devia ser mais argumentativo e não deixar nenhuma dúvida remanescente sobre aquele assunto.

--Eu não tenho o costume de me envolver com mulheres baseado-me unicamente em atração física. – Disse-lhe, sério e sincero. – Nunca tive.

Embora não duvidasse da honestidade de suas palavras, para Elizabeth aquela resposta soou fria e racional demais. Ela preferia que ele tivesse dito simplesmente que estava se apaixonando por ela. Afinal, o que impedia que o relacionamento deles fosse igual ao que ele teve com Anne? Ele mesmo afirmara que nunca a amara, embora tivesse namorado-a por quase uma década.

--All the single ladies... All the single ladies…

(Todas as solteiras... Todas as solteiras...)

O som daquela música arrancou os dois do silêncio soturno que recaíra sobre eles após a resposta de Darcy.

--All the single ladies... All the single ladies…

(Todas as solteiras... Todas as solteiras...)

Elizabeth reconheceu de imediato o seu novo toque de telefone. Finalmente encontrara um toque que considerou engraçado e divertido, ao invés daquele irritante com que o celular viera programado.

Desajeitadamente, apressou-se em sair de baixo de Darcy e a si erguer do sofá. Praticamente correu até sua bolsa, em cima de uma peça ao corredor próxima às portas do elevador, do outro lado da sala.

Abriu a bolsa e começou a procurar o celular. A música ficou ainda mais alta.

--'Cuz if you liked it then you should have put a ring on it…

(Porque se você gostasse de mim você teria colocado um anel no meu dedo...)

If you liked it then you should have put a ring on it…

(Se você gostasse de mim você teria colocado um anel no meu dedo...)

Don't be mad once you see that he want it…

(Não fique bravo uma vez que você vê que ele me quer...)

If you liked it then you should have put a ring on it…

(Se você gostasse de mim você teria colocado um anel no meu dedo...)

Retirou o celular da bolsa e o atendeu, sem prestar muita atenção no identificador de chamadas.

--Alô? – Sua respiração estava pesada.

--Lizzie, finalmente! – A voz feminina do outro lado da linha soou aliviada.

--Charlotte?

--Você precisa me ajudar. – Charlotte implorou.

--Acalme-se. O que aconteceu? – Ganhando completamente a atenção de Elizabeth.

--Eu liguei para a sua casa, procurando por você. Para saber se você queria fazer alguma coisa esta noite. Um cineminha ou ir a um pub talvez. – Charlotte começou a explicar. – Sua mãe atendeu e me explicou que você não estava em casa. Eu ia desligar, mas ela meio que... – Ouviu a amiga hesitar nesta parte. – me fez prometer levar o seu primo para dar um passeio mais tarde. Fazer um programa de jovens com ele.

--Charlotte! – Elizabeth gemeu, repreendendo-a.

--Eu não consegui dizer não. – Charlotte se justificou. – Você conhece bem a sua mãe. Ela não me deixou dizer não!

--Por que você não ligou direto para o meu celular? – Elizabeth continuou a repreendê-la.

--Eu liguei. Mas você não atendeu. – Charlotte respondeu. – Então, presumi que estava em casa e seu celular devia estar no seu quarto, enquanto você estava na sala ou perambulando pela agência.

--Não acredito que com uma ligação você conseguiu por abaixo todos os meus esforços desde que ele chegou. – Elizabeth reclamou.

--Você precisa me ajudar, Lizzie. – Charlotte voltou a implorar.

--O que você quer que eu faça? – Elizabeth questionou, solicita. Não imaginava que conseguiria convencer a sua mãe a descompromissá-la com Collins nem mesmo se implorasse.

--Você precisa nos acompanhar. Assim será três de nós e não dois... Desse jeito ele não terá idéias distorcidas. – Charlotte propôs.

--Ele sempre terá idéias distorcidas. – Elizabeth argumentou. – E, além do mais, eu não estou em casa, Charlotte.

--Onde você está, afinal, que não estava atendendo ao celular? – Charlotte quis saber.

--Eu estou no apartamento de William. – Respondeu com um murmúrio, porque sabia que Darcy podia ouvi-la.

Elizabeth voltou-se de frente para ele lentamente. Vendo-o sentado ao sofá, sem camisa e com uma almofada sobre o colo. As duas mãos deitadas sobre a almofada. Sua expressão era igual à de um adolescente que fora flagrado pelos pais fazendo algo comprometedor.

Elizabeth não precisou de muita imaginação para deduzir o que ele estava tentando esconder com aquela almofada. E apressou em desviar o olhar, corando furiosamente.

--William? Você quer dizer, William Darcy? – Charlotte exclamou.

Elizabeth podia jurar que ele podia ouvir Charlotte do outro lado da sala por sua extravagância.

--Então aquelas fotos que eu vi são de verdade e não uma montagem! – Charlotte prosseguiu com suas exclamações exageradas. – Danadinha, escondendo o jogo de sua amiga! – Ouviu a amiga rir do outro lado da linha. – E aí? Como ele é? Gostoso?

Elizabeth estava mais que constrangida. Não sabia para onde olhar. Já que, ao cometer a imprudência de olhar na direção dele, viu-o erguer uma das sobrancelhas, sugestivamente. Definitivamente, ele a escutara também.

--Podemos voltar ao seu problema? – Propôs, alarmada. Se prosseguissem com aquele tipo de conversa, não conseguiria mais encarar Darcy. – Eu sugiro que você o leve a um pub... – Voltou às costas a Darcy novamente, continuando a conversar com Charlotte. – Sabe aquele que nós freqüentamos? ... Ou talvez não. Ele não é bem o cara que gosta destes programas. Nada sofisticado para o seu gosto. – Adentrou o assunto sem deixar chance de ela mudá-lo. – Talvez um cinema. Assim vocês não terão que conversar muito.

--Boa idéia. – Charlotte concordou, com o tom de voz mais moderado, voltando ao seu jeito racional e prático.

--Melhor não. – Elizabeth mudou de idéia. – O escurinho do cinema pode deixá-lo cheio de idéias também...

--Ai, o que eu faço? – Charlotte voltou a se desesperar.

--Eu não sei, amiga. – Elizabeth respondeu, decepcionada em não poder ser de grande ajuda.

--Será que você não pode dar uma escapulida e vir se encontrar com a gente? – Charlotte pediu, com a voz dengosa. – O que estou dizendo? Se fosse eu em seu lugar, também não ia querer sair deste apartamento! – Voltou a exclamar, escandalosa. – Ui, dá até um calorzinho!

--Deixa de fogo, menina! – Elizabeth a repreendeu.

Ouviu baixinho Darcy rir e voltou-se de frente para ele, presenciando o momento em que ele tentava controlar o riso. Também ouvira esta parte da conversa, não tinha dúvidas.

--Vou deixar você voltar para o seu gatão. – Charlotte disse, resignada. – Vê se me liga para me contar tudo... Vou querer saber os mínimos detalhes, hehe! – Riu, soltou um beijo estalado e encerrou a ligação.

Elizabeth voltou para o sofá ainda com o celular nas mãos. Sentou-se ao lado dele e fitou o celular em silêncio.

--Algum problema? – Darcy perguntou-lhe.

--Minha amiga, Charlotte. – Elizabeth começou a responder, colocando o celular sobre a mesinha de centro. – Não sei se você se lembra dela. Ela estava no desfile. A assistente de Ariel Choo. – Voltou o rosto na direção dele e o viu confirmar. – Ela ligou para minha casa, procurando por mim e minha mãe a fez prometer levar o meu primo para passear... Ela queria que fosse me encontrar com eles.

--Você quer ir? – Darcy propôs, erguendo do sofá, ainda segurando a almofada sobre o colo, e pegou a sua blusa que estava caída ao chão ao lado da mesinha de centro.

--Eu... – Elizabeth fitou-o, confusa; como se lhe perguntasse se eles não estavam ocupados com algo mais importante naquele momento.

Darcy vestiu a sua blusa e voltou o rosto em sua direção, esperando a sua resposta.

--Você quer ir? – Elizabeth repetiu a sua pergunta.

--Se você quiser. – Ele respondeu de imediato.

--Adolfo é muito chato. – Elizabeth resmungou; inconformada de ter de terminar o seu dia fazendo um programinha qualquer para agradar o seu primo.

--Eu não estarei indo a este passeio por causa dele, Lizzie. – Darcy replicou, sincero, com um sorriso lindo no canto dos lábios.

Aquele sorriso charmoso que fazia Elizabeth querer beijá-lo até se cansar.

Ela queria permanecer no apartamento dele, mas parecia que ele não estava mais a fim. Talvez as suas perguntas houvessem acabado com o clima gostoso de antes. E fosse por isso que ele estava fazendo força para ir se encontrar com Charlotte e Collins.

--Tudo bem. – Rebateu, resignada. – Mas depois não venha dizer que não lhe avisei. – Ela deixou-o de sobreaviso, pegando o celular e discando para Charlotte.

Enquanto ela fazia a ligação e marcava um local para se encontrar com a amiga, Darcy aproveitou a sua distração para ir ao banheiro.

Ele também preferia ficar no apartamento. Mas as perguntas dela o fizeram repensar muitas de suas atitudes. Estava claro que lhe passara a impressão errada e se prosseguisse com aquelas atividades hoje, Elizabeth continuaria a pensar que tudo o que ele quer dela é sexo.

Quando reapareceu na sala, já recomposto, a encontrou no mesmo lugar em que a deixara. Elizabeth explicou-lhe os planos que fizera com Charlotte e ele foi pegar as chaves do seu carro, para que pudessem sair juntos.

Elizabeth acreditava que deviam ir ao cinema. Estavam em quatro e Collins ainda podia ter idéias distorcidas quanto a este significado. Mas seria mais discreto e não atacaria sua amiga se ela não lhe desse uma concessão expressa de sua vontade. E Elizabeth preferia não ter de conversar com ele o máximo que fosse possível.

Tomaram o elevador até o estacionamento do prédio e Darcy guiou-a até o seu carro. Juntos, ganharam as ruas de Londres no final daquela tarde. Ao estacionarem o carro no estacionamento próximo ao cinema, viram do outro lado da rua um fotógrafo. Ambos desceram do carro e Elizabeth notou que Darcy fitou por alguns minutos o fotógrafo.

Ele estava vestido com uma jaqueta de couro preta, calça jeans azul clara e um gorro preto cobrindo os cabelos. Não conseguiram ver o seu rosto, porque estava coberto com a câmera fotográfica.

Elizabeth perguntava-se se Darcy ficaria incomodado e comentaria com ela. Mas ele apenas cruzou o espaço no estacionamento e postou-se ao seu lado, tomando a sua mão e caminhando com ela como se o fotógrafo não existisse.

Percebeu que Jane tinha razão. Darcy devia estar acostumado com aquilo e ficou despreocupada. Apenas mantendo em mente que não deviam se beijar com tanto afinco quando estivessem em local aberto.

Encontraram-se com Charlotte e Collins na entrada do cinema e foram escolher o filme que queriam ver. Collins não parecia interessado em nenhuma das opções. Os romances e comédias-românticas lhe pareciam filmes com repertórios repetidos. Ficção cientifica, aos seus olhos, parecia algo absurdo e completamente fora da realidade.

Elizabeth sentiu vontade de exclamar: “oi, por isso se chamam ficção cientifica, dah!”, mas conteve-se.

Charlotte e ela não queriam ver dramas e nem filmes de guerra, que apenas as deixariam deprimidas. Ou, tampouco, filmes de ação cheios de efeitos especiais absurdos e, verdadeiramente, improváveis. Então, conseguiram convencer a todos de assistir um filme de ficção cientifica mesmo – Avatar.

Darcy tinha a impressão que ela tinha insistido neste filme para irritar o primo. Quem, naquele instante, ao se sentarem lado a lado dentro do cinema e aguardar o inicio do filme, não parava de resmungar sobre a escolha do filme com Charlotte.

--Você não poderia assistir Lua Nova (New Moon) sem ver Crepúsculo (Twilight) antes. – Elizabeth justificou a Darcy, referindo-se a segunda opção que ela e Charlotte haviam concordado em assistir. – Eu podia até te contar o filme, para você entender a história. Mas não é a mesma coisa. E eu duvido muito que você tenha visto o filme, ou lido o livro.

--É baseado em um livro? – Darcy demonstrou curiosidade; em sua opinião, filmes baseados em livros geralmente eram bons.

--Sabia que você não tinha lido. – Elizabeth exclamou, confiante. – Sim, é baseado em um livro. Que trata de um romance entre uma adolescente normal, na medida do possível, e um vampiro vegetariano.

Ela riu, ao perceber na expressão do rosto dele que ele tinha perdido o interesse no livro.

--Minhas irmãs adoram. – Comentou ainda sorridente. – E confesso que já li algumas vezes os quatro livros.

--Quatro livros? – Darcy parecia ainda mais impressionado que pudesse haver quatro livros sobre uma história como aquela.

--Sim. É uma seqüência. – Elizabeth esclareceu.

--E você a leu mais de uma vez? – Perguntou, não tanto surpreso; lembrava-se de ouvi-la dizer que tinha o costume de ler livros mais de uma vez quando gostava da história quando discutiram Os Pilares da Terra na Escócia.

--Hum-hum. – Ela replicou. – É uma febre mundial, você não sabia? As menininhas no mundo todo morrem de amores por Edward e Jacob.

--E eles são os vampiros? – Os dois estavam tão entretidos que não davam chances de Collins interrompê-los com suas reclamações.

--Edward sim, Jacob é algo parecido com um lobisomem. – Elizabeth respondeu.

--Interessante. – Darcy comentou, não tão sincero, fazendo-a voltar a rir. – E qual dos dois você prefere? – Ele parecia muito interessado em sua resposta.

--Jacob é um amor, mas eu prefiro o mistério que é Edward. – Elizabeth respondeu com sinceridade.

--Isso sim é interessante. – Darcy comentou, desta vez soando sincero. – Você gosta de mistério. – Afirmou para si mesmo, mas olhando para ela.

--Você devia saber. – Ela argumentou em resposta. – Você é o meu mistério predileto.

--Sou? – Ele inquiriu, num murmúrio rouco, aproximando suas bocas.

--Finalmente vai começar! – Charlotte exclamou, contente, interrompendo as lamurias de Collins e o beijo de Elizabeth e Darcy antes mesmo que começasse.

Darcy passou o braço envolta do ombro de Elizabeth e ela relaxou ao seu lado, deitando a cabeça em seu ombro e dando atenção à tela de exibição do cinema. Assistiram ao filme em silêncio. Até Collins parecia ter preferido dar um tempo em seus resmungos.

Mas assim que o filme terminou, ele voltou às suas reclamações. Sequer esperou saírem da sala de cinema e começou a criticar o enredo, os efeitos especiais e a direção. Elizabeth sentiu pena de Charlotte, porque a amiga parecia sentir obrigação em dialogar com ele, já que Elizabeth não fazia muito esforço para ser muito agradável.

Quando lhe dirigia a palavra, proferia um comentário sarcástico que Collins não parecia entender – ou preferia se fazer de desentendido.

Como já anoitecera quando saíram da sala de cinema, decidiram jantar. Collins fez questão de irem a um restaurante e não a um pub, como Elizabeth e Charlotte sugeriram. Alegando que homens como ele e Darcy não podiam se contentar em freqüentar um ambiente como a de um pub londrino. Ignorando Elizabeth quando ela lhe disse que levara Darcy ao seu pub favorito e ele ficara muito a vontade – fazendo-o sorrir para ela em clima de intimidade.

Sentiu-se aliviada quando precisaram dividir-se em duplas novamente para ir até o restaurante, já que não cabiam os quatro dentro do carro de Darcy. De forma que Collins e Charlotte tomaram um táxi.

O restaurante não era tão luxuoso quanto o The Goring, mas ainda era bastante refinado. Elizabeth viu o mesmo fotógrafo do outro lado da rua do restaurante, tirando fotos dele. Mas Darcy realmente não lhe deu atenção desta vez.

Como foram os primeiros a chegar, Darcy pediu a mesa para quatro e logo foram encaminhados a ela pela rosters. Pouco tempo depois, Charlotte e Collins se juntaram a eles. Collins reclamava sobre a incapacidade de encontrarem um táxi quando se precisa de um em Londres.

Enquanto jantavam, Collins dominou toda a conversa. Encheu Darcy de perguntas sobre o seu trabalho, tentando aconselhá-lo quanto a investimentos. Depois seguiu o mesmo roteiro com Charlotte e Elizabeth. Ou então discursava sobre o negocio de seu pai, o quanto era bem sucedido e estava prosperando.

Quando o jantar chegou ao fim, Darcy e Collins dividiram a conta – Collins insistiu, quando Darcy tentou pagá-la sozinha. Fazia questão de pagar a sua parte e a de Charlotte; querendo pagar a de Elizabeth também, já que é sua prima.

--Eu posso pagar as minhas próprias contas, Adolfo. – Elizabeth reclamou, não gostando da forma que o primo tentava pintá-la como uma necessitada de caridades.

--Este é um restaurante muito caro, querida prima. Está fora das suas possibilidades financeiras. – Collins refutou, carinhoso.

--Elizabeth é minha namorada, Collins. – Darcy replicou, antes que Elizabeth pudesse explodir em uma enxurrada de insultos ao primo. – Eu faço questão de pagar o dela.

--Não é necessário, William. – Elizabeth tentou refutar.

--Eu sei. – Darcy assegurou-a. – Mas eu faço questão. – Replicou, sem deixar margem para mais discussão.

Abriu a carteira e retirou algumas notas, colocando-as dentro do livro de cobrança. Deixou-o sobre a mesa e pôs-se de pé. Aproximou-se da cadeira de Elizabeth e puxou a cadeira para ela, para que Elizabeth seguisse o seu exemplo.

Juntos, seguiram em direção a saída. Darcy não ficou esperando troco ou para conferir se Collins acrescentaria alguma coisa entre as suas notas. Deixara ali o suficiente para pagar a conta inteira.

Enquanto a ajudava vestir seu sobretudo, percebeu que Elizabeth ainda estava mal humorada com as coisas que o primo fazia e dizia a respeito dela e de sua família, principalmente com relação a questões financeiras.

Não se surpreendia. Já notara há muito tempo que Elizabeth não gostava de favores e esmolas. Trabalhava duro para conseguir o que queria e gostava de sua independência. Odiando a idéia de outros olharem para ela com pena, ou como se fosse inferior em algum sentido. E a admirava por isso.

Estava saindo do restaurante juntos quando Charlotte e Collins os alcançaram. Collins sugeriu que Elizabeth voltasse de táxi com eles, já que estava indo para casa. Darcy já estava começando a perder a paciência. Foi frio ao afirmar que a levaria para casa ele mesmo, despedindo-se de Charlotte com mais atenção de que quando se despediu de Collins.

O ritual costumeiro na porta da agência já não seria o mesmo. Elizabeth tinha visto o fotografo ali também e não queria mais nenhuma foto sua agarrada a Darcy estampada em tablóides. Perguntava-se por que os paparazzi não procuravam algo mais interessante para fazer, além de xeretar a vida alheia.

Darcy também estava mais contido. Não queria que ela entrasse logo, mas também não estava apertando-a em seus braços com tanto afinco como de costume. Segurava sua mão e a fitava, pensativo.

--Eu lhe disse que o meu primo era um chato. – Ela comentou.

--Sim, disse. – Ele concordou.

Depois voltaram a ficar em silêncio.

Elizabeth deduzia que teria de se contentar em se despedir dele sem beijos e entrar na agencia logo. Mas se surpreendeu quando Darcy se aproximou mais, envolvendo-a pela cintura e inclinou a cabeça para beijar-lhe os lábios.

Era um beijo moderado, mas ainda assim um beijo nos lábios – conscientes de estarem sendo fotografados.

Um táxi parou um pouco adiante e Collins desceu dele, caminhando em direção a Elizabeth e Darcy.

--Oh, vocês ainda estão aí? – Interrompe-os. – Não é seguro ficar na rua a esta hora namorando, prima. – Comentou. – Quer que espere por você para entrarmos juntos?

--Não. – Darcy foi duro e conciso ao responder. – Boa noite, Collins.

--Boa noite, sr. Darcy. – Collins replicou, subserviente, e seguiu o seu caminho.

Quando viu a porta se fechar atrás de Collins, Darcy encostou a testa na de Elizabeth e suspirou, frustrado.

--Como ele consegue ser assim tão chato? – Inquiriu.

--Eu não sei. – Elizabeth respondeu, acariciando-lhe o rosto. – É um talento nato, acho. – Ambos riram.

Trocaram mais um beijo moderado, despediram-se e Elizabeth entrou em casa. Darcy ainda fitou o paparazzi, mas ele continuou com a câmera na frente do rosto, tirando fotos. E àquela distancia, com aquela claridade, ficou ainda mais difícil para Darcy reconhecê-lo.

 

 

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