Capítulo XXI
Dúvidas Cruéis
Georgiana não conseguiu dormir. Ficava revirando na cama, com milhares de perguntas sem respostas em sua cabeça. E uma raiva desconhecida a dominou por completo.
Levantou-se da cama e ligou o laptop. Entrou em seu e-mail e abriu a caixa para uma nova mensagem. Permaneceu fitando a tela do computador por um minuto, hesitante. Depois digitou:
“Quem lhe deu a liberdade de me agarrar e me beijar? Por acaso há um letreiro luminoso na minha testa dizendo: ‘sinta-se a vontade, beije-me!’, para todos – Patrick, Vincent e você – simplesmente me beijarem sem pedir a minha permissão?!”
Apertou o botão de enviar e se levantou da cadeira enfrente a escrivaninha. Deu a volta na cama, se aproximou da janela e, com um sobressalto, voltou para a cadeira enfrente a escrivaninha.
“Como você soube que era eu? Há quanto tempo sabe? Por que nunca me disse?!”
Apertou de novo o botão de enviar e saiu do seu e-mail, desligando o laptop logo em seguida.
Ficou imaginando se ele responderia. Afinal, estivera estes dias todos sem lhe mandar um e-mail sequer. Não tinha como saber se ele não os apagava sem ler ou se ainda estava recebendo-os. Podia muito bem ter bloqueado o seu endereço eletrônico.
Prometeu-se que se ele não respondesse, o procuraria e arrancaria as respostas dele de qualquer jeito.
Sabia que não ia conseguir dormir, estava muito agitada para isso. Saiu do quarto e andou pelo apartamento quieto, invejando as amigas que dormiam tranqüilas em suas camas.
O piano em um canto da sala parecia gritar por ela e sem pensar caminhou até ele. Sentou-se no banquinho e deixou os dedos sobrepostos ao teclado, mas sem pressioná-los. Sentia-os rígidos e sabia que teria mais dificuldade em tocar uma música com a mesma habilidade da época do ginásio.
Tentou tocar algumas notas e o barulho a sobressaltou no inicio. Era mais alto que imaginara, já que a acústica do apartamento ficava ainda melhor quando todos estavam em completo silêncio.
Perguntou-se se alguma das meninas acordaria. E ficou imóvel por uns instantes, esperando escutar algum novo barulho. Mas não houve, então voltou sua atenção ao piano.
Respirou fundo e começou a tocar. Uma música melancólica e um pouco sombria que parecia traduzir o seu estado de espírito preencheu todos os cômodos.
Betsy abriu os olhos, assustada. Ficou deitada na cama tentando identificar o que era aquele barulho. Até que compreendeu que era uma melodia. Confusa, levantou-se da cama e saiu do quarto, preocupada em não fazer muito barulho.
Estava no corredor quando a porta do quarto de Rebecca se abriu e a amiga surgiu, com os cabelos soltos e emaranhados, esfregando os olhos. Juntas, as duas seguiram em direção a sala.
Ao verem Georgiana sentada enfrente ao piano, tocando, inconsciente de sua presença, entreolharam-se e decidiram permanecer em silêncio.
Georgiana tocou a última nota e permaneceu imóvel pelos segundos seguintes, sentindo aquela nota final preencher o espaço como um último lamento. Quando deixou o banquinho enfrente ao piano e voltou-se para o corredor dos quartos, encontrou-o vazio.
Foi para o próprio quarto e deitou-se na cama. Sentia-se exausta, mas ainda demorou a conseguir dormir.
Quando acordou na manhã seguinte, já não tinha certeza se teria a coragem para procurar Eric e exigir-lhe as respostas que precisava. Tinha quase certeza de que ele não responderia seus e-mails e até se arrependera de enviá-los.
Foi tomar café arrasada. Quando entrou na cozinha, sentiu o olhar de suas amigas convergirem em sua direção e elas pararam de conversar de repente. Se estivesse normal esta manhã, teria desconfiado deste comportamento de Rebecca e Betsy.
Mas como estava mais aérea que o normal, não deu muita importância a qualquer segredinho que elas pudessem estar compartilhando em sua ausência.
As três trocaram algumas palavras a respeito da festa da noite passada. Nenhuma delas parecia ter notado o que aconteceu entre ela e Eric. Betsy parecia ter passado a noite tentando evitar novas investidas de Caleb, usando Max como escudo. E Rebecca parecia estar caminhando nas nuvens com cada gesto amoroso de Russell.
Quando discutiram os planos de cada uma para aquela manhã, Georgiana não pestanejou ao alegar que precisava estudar. E assim que terminou o café se recolheu em seu quarto.
Espalhou os livros sobre a cama e começou a fazer um resumo da matéria. Mas sua mente vagava continuamente para a possibilidade de Eric ter respondido o seu e-mail. Sabia que não teria sossego sem que tivesse suas suspeitas comprovadas.
E, irritada consigo mesma, sentou-se diante do laptop e o ligou, acessando a conta de seu e-mail. Fitou a tela do computador, incrédula, quando viu que ele havia respondido.
Lentamente, posicionou a seta do mouse sobre o endereço eletrônico de Ikarus e clicou na mensagem. Lendo:
“Comecei a ficar desconfiado desde o momento em que você me contou aquela história da Guinness e do seu primo naquela sala de bate-papo. E me lembrei de ter ouvido aquela mesma história da sua própria boca naquela noite, quando você ganhou o Bartender’s Kiss.
Comecei a repassar mentalmente cada uma de nossas conversas, reavendo cada detalhe que sabia ao seu respeito. E a cada nova coisinha que descobria, apenas reafirmava as minhas suspeitas. Comecei a lhe fazer perguntas sobre coisas que já sabia a seu respeito, por conhecê-la pessoalmente; como quando lhe perguntei se sabia tocar algum instrumento e você confirmou que sabia tocar piano. E me lembrei de ter ouvido Holly dizer que você tocava piano.
Por que eu nunca lhe contei? Razões não me faltaram, lhe garanto.
Você não queria me conhecer. Desconversava e inventava milhares de desculpas sempre que eu sugeria que devíamos nos encontrar pessoalmente. Pensei que se você soubesse quem eu era deixaria de se corresponder comigo e passaria a me evitar quando nos encontrássemos pessoalmente. Eu não queria isso!
Sem falar em toda aquela história com Rebecca. Sabia que sua reação não seria aquela que desejava. Você pode afirmar que estou errado?!”
Foi só neste momento que Georgiana se lembrou de Rebecca. Imaginou que confusão seria revelar a amiga que o cara com quem esteve se correspondendo é, na verdade, Eric Walker. O mesmo Eric por quem ela, Rebecca, tinha uma paixonite aguda não correspondida.
Rebecca pensaria que Georgiana a traiu, roubando-lhe o pretendente ao se corresponder com ele por e-mails aquele tempo todo.
O que poderia fazer agora?
~#~
Elizabeth ouviu o seu celular tocando e se perguntava por que não desligara o despertador. Na verdade, não se lembrava de tê-lo acionado na noite passada antes de ir dormir. Então, por que estava tocando?
Irritada, pegou o celular e automaticamente pressionou a tela, para que ele parasse. Colocou-o de volta no criado-mudo e virou-se na cama, cobrindo-se com a coberta preguiçosamente.
Sentia seus olhos fechando pesadamente quando o celular voltou a tocar. Furiosa, pegou-o decidida a desligá-lo por completo. Quando viu no visor que se tratava de uma ligação e não o despertador.
Atendeu-o.
--É bom que tenha um bom motivo para estar me acordando. – Avisou, irritada, sem se incomodar em descobrir primeiro com quem estava falando.
--Hum... você não é uma pessoa que acorda de bom humor? – Respondeu com uma pergunta, com um tom de voz divertido.
--Darcy? – Elizabeth se surpreendeu, abrindo bem os olhos para se manter acordada.
--Saiba que já passou das oito horas da manhã há muito tempo. – Ele lhe informou com tranqüilidade.
--É um sábado e gosto de dormir até tarde quando posso. – Elizabeth argumentou, já com o bom humor renovado.
Ponderou que não era ruim ser acordada com o som daquela voz, mesmo que por telefone. E rindo, recriminou-se por um pensamento tão bobo.
--O que foi? – Ele quis saber o motivo daquela risada gostosa.
--Nada. – Tentou soar menos risonha ao respondê-lo. – A que devo este telefonema?
--Quero saber se você tem alguma preferência entre carne ou frango. – Darcy respondeu, prático. – Eu vou fazer o seu almoço hoje aqui em meu apartamento.
--Almoçar em seu apartamento? – Ela repetiu, com aquela conhecida apreensão.
--Você não precisa se preocupar com os meus dons culinários. Prometo não envenenar sua comida. – Ele brincou, percebendo o tom hesitante em sua voz. – Se precisar de referências, pode perguntar a Charles... É costume ele, Richard e Moira virem ao meu apartamento almoçar aos fins de semana.
--Então, todos eles vão estar aí também? – Elizabeth quis saber.
Sentia-se meio estúpida por preferir não ficar a sós com ele em seu apartamento ainda, perguntando-se se ele não pensaria que ela estava sendo um pouco infantil.
--Eu não tenho muita certeza de quais são os planos deles para hoje. – Darcy respondeu, ciente de que ela ainda se mostrava hesitante em estar a sós com ele em um ambiente fechado. – Posso perguntar. – Propôs, sem real intenção de insistir no convite.
Na verdade, faria questão de deixar subentendido que preferia que não comparecessem ao almoço.
--Eu pergunto a Jane, não se preocupe. – Elizabeth assegurou-o. – Tenho quase certeza de que ela e Charles vão aprovar o programa.
--Ahh... claro. – Darcy replicou, já não tão animado.
--Qual era mesmo a pergunta que você me fez?
--Ham? ...Ah.. é frango ou carne? – Ele repetiu a pergunta, tentando aplicar na voz a mesma animação de quando começaram a conversar. – Filé de Frango ou Filé Mignon ao molho de uva?
--Os dois parecem deliciosos. – Elizabeth respondeu. – Eu confio na escolha do chef.
Ainda conversaram por alguns minutos acertando os últimos detalhes. Parecia à Elizabeth desnecessário Darcy sair de seu apartamento para vir buscá-la se era provável que Charles e Jane fossem para o mesmo lugar.
Depois que desligou o celular não conseguiu mais dormir. Saiu da cama e foi ao banheiro. Viu no reflexo do espelho de meio corpo sobre a pia que estava com um sorriso nos lábios que parecia esculpido em seu rosto daquela forma exultante. As bochechas coradas e os olhos com um brilho meio delirante.
Tapou o rosto com ambas as mãos, escondendo-se daquelas evidências. Ponderou que nenhum namorado pretérito conseguiu com que sentisse aquele tipo de excitação quase infantil antes.
Ao sair do banheiro, com a intenção de ir tomar o café da manhã na cozinha, passou pela porta do pequeno escritório de seu pai. Ouviu Lydia e Catherine discutindo entre si enfrente a tela do computador arcaico que possuíam.
--Você não precisa de uma desculpa para aparecer por lá. – Lydia argumentava com emoção. – Ele deixou um scrap na sua página de recados lhe dando permissão para ir assistir um ensaio da banda quando quisesse.
--Mas eu não tenho certeza se é certo. – Catherine contra-argumentava. – Talvez já tenhamos deixado esta coisa rolar por mais tempo que necessário. ...As pessoas já estão começando a ficar desconfiadas, porque nós nunca estamos juntos.
--Você quer dizer: Lexi está ficando desconfiada. – Lydia foi mais especifica. – E é por isso mesmo que acho que você devia ir vê-lo. Assim ela cala a boca.
--Acho que devia dizer que terminamos.
--Não seja boba, Kitty. – Lydia exaltou-se. – E dar este gostinho a Lexi. Nunca! Não permito!
Lydia, como se desse aquela discussão por encerrada, voltou sua atenção a tela do computador.
--Olhe, Kitty! – Exclamou, ao mover o mouse e clicar duas vezes em um link.
Catherine juntou a sua cabeça à de sua irmã e juntas fitavam a tela do computador em completo silêncio por alguns minutos, concentradas.
Elizabeth desviou sua atenção das duas, despreocupada com as travessuras de adolescente em que se enfiavam, e continuou em direção a cozinha. Tomaria café e depois ia conversar com Jane sobre o almoço no apartamento de Darcy.
--Lizzie! – Catherine gritou. – Corre aqui. Vem ver!
Elizabeth fingiu que não ouviu, prosseguindo o seu percurso. Acreditava que não haveria nada de tão interessante na Internet que merecesse sua atenção antes de ter tomado o café da manhã.
--Lizzie! – Catherine apareceu na cozinha quando começava a se servir e pegou pelo braço, arrastando-a consigo. – Você precisa ver isso!
--Ver o que, Kitty? – Elizabeth resmungou. – Eu ainda nem tomei café. O que pode ser tão importante? – Questionou, cética.
--Isso. – Lydia afirmou, cedendo o seu lugar a cadeira enfrente ao computador.
“Parece Que O Solteirão Mais Cobiçado Do Momento Já Não Está Mais Tão Livre, Leve E Solto Afinal.”
Elizabeth leu a manchete de destaque da página do site da revista Profile na Internet. Instigada por Lydia, Elizabeth clicou duas vezes sobre a manchete e outra página se abriu, revelando a matéria que se seguia.
“Questionado anteriormente por que se encontrava solteiro por tanto tempo após o fim de seu relacionamento com Anne De Bourgh (28), William Alexander Darcy III (30) afirmou, em entrevista para a Profile (pág. 32, ed. 87), ‘ainda não tive o prazer de encontrar a pessoa certa para mim...’. O que nos leva a pergunta seguinte: seria Elizabeth Bennet (24), jovem modelo, esta mulher?
Pelo jeito decidido com que a prende em seus braços e parece relutante em soltá-la, creio que o Sr. Darcy acredita que sim. O arquiteto foi flagrado indo buscá-la ao centro, em um estúdio onde a modelo toma curso de fotografia. Juntos seguiram para um pub, onde curtiram a noite londrina entre um joguinho de snooker e muitos beijos apaixonados.
Sabemos o que todos devem estar se perguntando agora: como se deu este envolvimento? Sabe-se bem que o amigo e sócio do Sr. Darcy, o sr. Charles Bingley (28), está namorando a Srta. Jane Bennet (27), irmã de Elizabeth Bennet, também modelo, há mais de um mês. O casal já foi flagrado inúmeras vezes em ambientes sociais e nenhum dos dois nega o fato de estarem envolvidos.
Não é difícil de imaginar que o sr. Darcy conheceu a Srta. Elizabeth através da namorada do amigo e sócio, vindo a cair de amores por ela em seguida.
Que se tratam de duas beldades não há como negar, mas fica sempre aquela dúvida: o que as Srtas. Bennets têm que as outras mulheres não têm para cativar tais partidos assim tão facilmente?
Às nossas leitoras resta a simples certeza: o partidão foi fisgado e não está mais no mercado.”
Havia fotos dos dois no pub, comendo, jogando snooker e aos beijos. O que fez com que Elizabeth se perguntasse como não notara ninguém tirando fotos suas naquela ocasião.
Em uma foto pouco nítida, por ter sido tirada em um ambiente pouco iluminado e a uma considerável distancia – ampliado por meios mecânicos – estava à imagem de Elizabeth e Darcy, aos beijos, enfrente a agencia de modelos.
Eram quase irreconhecíveis as figuras enamoradas, porque boa parte de seus rostos estava oculta graças à atividade a que se dedicavam no momento. Mas as fotos menores, subseqüentes, mostravam-na entrando no prédio e ele indo embora de carro. Identificando claramente os seus rostos e, ainda, a placa do carro dele.
E a legenda dizia:
“Darcy Deixando Sua Mais Nova Namorada, Elizabeth, Em Casa Após Um Programinha A Dois Em Um Pub Local”.
Lydia fez questão de mandar Elizabeth clicar no link sobre o nome de Jane e Charles. Ao fazê-lo, outra página foi aberta e uma segunda matéria reportava o romance entre Jane e Charles.
--Mas esta é da semana passada. – Catherine explicou.
Elizabeth viu que a matéria estava mesmo datada da semana passada.
--Nós já mostramos a Jane e a mamãe também. – Lydia comentou. – Mas a sua... – Lydia assobiou. – É novinha!
Elizabeth se ergueu da cadeira sem se manifestar e Lydia voltou a ocupá-la, clicando sobre o botão que faria a página anterior voltar a aparecer. E, rindo, comentou.
--Quem olha para o sr. Darcy, todo sério, não diria que por debaixo daquele terno impecável há um homem com pegada.
--Lydia! – Elizabeth a recriminou, perturbada pelo comentário.
--Não seja puritana, Lizzie! – Lydia a reprovou, enquanto Catherine caia na risada. – Você, nesta foto, parece tão relutante a sair de seus braços quanto ele em permitir.
Elizabeth deixou o quarto sem fazer nenhum outro comentário. Quando chegou a cozinha, encontrou Jane.
--Você viu o artigo que saiu no site da revista Profile?
--Sobre Charles e eu? – Jane perguntou com naturalidade. – Sim. Lydia já me mostrou.
--Há um agora sobre William e eu. – Comentou, desgostosa. – Eu nem percebi que estava sendo seguida e que estavam tirando fotos nossas.
--Não se preocupe muito com isso. – Jane a aconselhou. – Quando comentei com Charles sobre o artigo, ele não pareceu surpreso. Disse-me que sabia que isso ia acabar acontecendo, mais cedo ou mais tarde. E com Darcy ainda é pior, já que todas as revistas de fofocas andaram discutindo o fim do relacionamento dele com Anne De Bourgh.
--Eu sei. – Elizabeth concordou, mais ainda se sentia contrariada. – Mas... Foram muitas fotos de nós dois nos b... Eu não queria ver aqueles momentos íntimos espalhados em sites e revistas de fofocas.
--Então, dá próxima vez reserve estes momentos íntimos para quando estiver certa de que estão completamente a sós. – Jane ponderou, observando a irmã atentamente, risonha.
--Vou tentar manter isso em mente.
Elizabeth não deixava de dar razão a sugestão de Jane. Mas sabia que teria dificuldade de manter esta decisão em mente quando estivesse perto de Darcy. Ele tem esta habilidade inerente de fazer com que sua mente ficasse em branco sempre que a segurava nos braços.
~#~
Ao concluir o telefonema que fizera a Elizabeth, Darcy estava resignado com a idéia de ter de convidar Richard e Moira para almoçarem em seu apartamento. E, ainda, ligar para Charles para convencê-lo a desfazer quaisquer outros planos que tiver com Jane para hoje e concordar em vir almoçar em seu apartamento também.
Consolou-se ao imaginar que após almoçarem podia dar um jeito de se livrar deles e ficar com Elizabeth só para si. Convencido de que, uma vez estando em seu apartamento, faria com que ela sentisse o mesmo que ele e ansiasse por estarem a sós também.
Moira foi a primeira a chegar ao seu apartamento e Darcy percebeu que ela lhe lançava olhares engraçados de tempos em tempos, mas ainda não comentara nada a respeito de suas desconfianças.
Pouco tempo após a chegada de Richard – quem não demorou muito a selecionar uma garrafa de vinho para provar enquanto assistia aos outros dois trabalharem no almoço – Moira finalmente se manifestou.
--Então... – Começou a dizer, como se estivessem no meio de uma conversa. – eu vi uma notícia muito interessante no site da revista Profile.
Darcy fitou Moira com a testa franzida.
--Eu não sabia que você tinha o costume de visitar estes tipos de sites na Internet. – Richard comentou.
--Agora eu entendo seu excelente humor a semana inteira. – Moira prosseguiu, fitando Darcy e ignorando o comentário de Richard. – Eu aprovo.
Darcy começou a ponderar suas palavras. Parecia-lhe obvio que o que quer que Moira tenha visto no site da revista Profile estava relacionado a ele. E por esta revista tratar de assuntos relacionados à vida particular de celebridades, deduziu que a matéria a seu respeito devia envolver a sua vida particular.
“O que poderia virar matéria para a Profile ultimamente?”, perguntou-se em silêncio. “E que me deixaria de bom humor, segundo Moira?”. Não era assim tão difícil de adivinhar.
--Há uma matéria? – Perguntou a Moira, que o analisava atentamente.
--Sim.
--Hum. – Darcy voltou ao que estava fazendo, pensativo.
Depois voltou a olhar para Moira, dizendo:
--E você aprova? – Tinha uma sobrancelha erguida, com uma sombra de sorriso nos lábios.
--Hum-hum. – Moira riu.
--Me perdi totalmente. – Richard informou-lhes. – Do que vocês estão falando? Que notícia?
--Pensei que você tivesse uma informante infiltrada na Profile que lhe mantinha a par das novidades deste tipo. – Moira comentou, com um tom banal, olhando para Richard.
--Já não tenho mais tanto contato com a minha amiga, Cinthya, editora da Profile. – Ele esclareceu, com seriedade em seu tom de voz. – Mas o que não estou sabendo?
--Não dá para você imaginar? – Moira insinuou.
Richard levou apenas um minuto para entender aquele olhar, e, abismado, voltou-se para Darcy.
--Mentira!
Darcy fitou-o confuso. Como Richard poderia saber do que conversavam. Tinha vaga lembrança de que Richard parecia ter suas desconfianças, mas daí a ter certeza sem maiores esclarecimentos do que exatamente estavam falando era demais.
--Já era hora, eu digo! – O primo continuou a exclamar. – Já estava começando a crer que você ia deixar a intromissão de Caroline empatar o seu lance definitivamente com Lizzie.
Darcy fitou-o, assombrado. Como Richard sabia disso? Nunca mencionara a ninguém a interferência de Caroline entre Elizabeth e ele na Escócia.
--Agora sou eu que estou perdida. – Moira disse. – Do que você está falando?
E Richard finalmente revelou que vira Darcy e Elizabeth aos beijos na pista de dança, uma vez que Moira o abandonara sozinho ao final da música lenta. E que também assistira ao momento em que Caroline se interpusera entre os dois.
--Pensei que suas suspeitas se resumissem ao fato de Lizzie ficar chamando por Will enquanto dormia no avião, na volta da Escócia. – Moira alegou.
--Peraí, calma lá. – Darcy se pronunciou, ganhando a atenção dos outros dois.
Os quais conversavam entre si como se ele não estivesse presente.
--Como é?! – E sorrindo, deliciado com a novidade, perguntou. – Ela ficou chamando por mim... enquanto dormia?
--Ela falou enquanto dormia – Richard relatou. – Não frases completas... Mas deu para ouvir direitinho o seu nome... Mais de uma vez.
Moira reafirmou com acenos de cabeça. E Darcy só soube sorrir.
--Cachorro, malandro! – Richard brincou. – Olha só a felicidade dele!
Moira gargalhou, gostosamente, quando Darcy voltou a dar sua atenção ao almoço; dando-lhes as costas, constrangido.
--Diga-me: você não inventou este almoço só para ter uma desculpa para me ver, não é? – Richard quis saber.
Moira riu, debochada.
--Ela virá almoçar aqui. – Darcy respondeu, ainda preparando o almoço. – Assim como Charles e Jane.
--Devia ter adivinhado que você não me acordaria com um telefonema, convocando-me para almoçar aqui à toa! – Richard resmungou, fazendo-se de ofendido.
--Me admira que você não tenha feito brincadeirinhas de mau gosto sobre Will e Lizzie, já que sabia mais coisas do que deixou transparecer. – Moira comentou com Richard.
--Não que ele tenha ficado calado. – Darcy argumentou. – Mas também esperava por mais indiretas de sua parte.
--Eu acho que um homem tem o direito de cortejar a mulher que deseja em paz. – Richard se justificou.
Ao cruzar olhares com Moira ao final de seu comentário, ela o desviou, corando.
Darcy terminou o que estava fazendo e se aproximou do primo, tomando uma taça de vinho e enchendo o copo com o liquido da garrafa que o primo tinha próximo a si.
Quando ergueu a taça aos lábios, ouviu.
--Você devia estar tomando isto? – Moira quis saber, preocupada.
--Verdade. Não estava seguindo prescrições médicas? – Richard também se interessou.
--Não estou mais me medicando. – Darcy informou-lhes, tomando um gole do vinho e o degustando com cuidado.
--Desde quando? – Richard perguntou.
--Quarta-feira. – Darcy respondeu.
Por sua mente passou a lembrança de quando deixou Elizabeth em casa e voltou para o seu apartamento, sentindo-se estranhamente leve.
--Esqueci de tomar o remédio e ainda assim não tive problemas para dormir uma noite inteira. – Esclareceu, tardiamente, ao perceber o olhar curioso que Richard e Moira trocaram diante de seu repentino silêncio. – Resolvi fazer um teste: não tomei o remédio para dormir no dia seguinte e o mesmo ocorreu. Então, decidi parar por completo.
--Will, você não devia fazer isso! – Moira o recriminou-o. – É muita irresponsabilidade. Não sabe que interromper um tratamento médico pode agravar a doença?
--Ele sofre de insônia, Moira. – Richard argumentou, em defesa do primo. – Não um problema cardíaco.
--Privação de sono pode desencadear uma série de outras doenças mais graves. – Moira rebateu. – Você não devia tratar este assunto levianamente. – Completou, voltando sua atenção a Darcy.
--Eu vou conversar com o meu médico na próxima consulta. – Darcy prometeu para aliviar sua consciência diante do olhar professoral que Moira lhe dirigia.
--Você não devia ter parado de tomar o remédio antes de falar com o seu médico. – Moira contrapôs.
--Agora é meio tarde, não é? – Richard interrogou. – Ele já parou. Se voltar a tomar, para depois parar de novo pode ser pior, não?
Moira não saberia dizer, não era médica.
--Marque a consulta logo e converse com o seu médico. – Aconselhou-o.
--Eu vou fazer isso. – Darcy confirmou, solenemente, tomando outro gole do vinho logo em seguida.
Foi neste pequeno instante em que ficaram em silêncio e Moira começou a arrumar a mesa do almoço, que o som do elevador chegando ao andar do apartamento de Darcy soou. E, pouco tempo depois, Charles trouxe as irmãs Bennet até a cozinha, onde os outros os aguardavam.
Uma satisfação dominou-o quando viu Elizabeth atravessar a porta da cozinha e olhar diretamente em sua direção. Uma sensação primitiva de posse arrebatou-o ao tê-la ali em seu apartamento, seu território.
Viu-a sorrir-lhe timidamente e depois olhar para os demais. Seu ar matreiro entrou em ação e disse, brincando.
--Sabia que é feio falar das pessoas quando elas não estão presentes?
Darcy deduziu que ela pensou que se calaram quando perceberam a sua chegada, porque estiveram falando a seu respeito.
--E quem lhe disse que estávamos falando de você? – Richard correspondeu à brincadeira, rindo. – Haveria algum motivo para tanto? – Arqueou a sobrancelha, sugestivamente, caminhando em sua direção.
Elizabeth não replicou. Assistiu-o acercar-se dela e cumprimentá-la com beijinhos no rosto. Depois ele repetiu o mesmo feito com Jane e ofereceu uma bebida a Charles.
Seguiram-se os cumprimentos de praxe entre os recém-chegados e os ali já presentes. E enquanto os outros pareciam se distrair com assuntos paralelos propositalmente, Darcy se aproximou de Elizabeth. Enlaçou a sua cintura com uma das mãos e beijou os seus lábios suavemente.
--Oi. – Disse a ela, num murmúrio intimo. – Tem sonhado muito ultimamente? – Escondendo um sorrisinho no canto dos lábios.
Elizabeth fitou-o nos olhos, levemente confusa. Então, ouviu um risinho de Richard e olhou em sua direção. Ele estava observando-os e tinha uma expressão de “eu sabia” estampada no rosto. Então, compreendeu o comentário de Darcy.
--Você e o seu bocão! – Reclamou com Richard.
Quem riu e disse:
--Você não me pediu para guardar segredo. – Erguendo as duas mãos, como se estivesse se rendendo. – Na verdade, deu-me permissão para contar a quem eu quisesse!
Charles perguntou a Moira do que eles estavam falando e Moira explicou a ele e Jane, reservadamente. E os outros riram da situação, deixando Elizabeth mais constrangida.
--Venha. – Darcy a puxou consigo. – Vou lhe servir alguma coisa. – Ofereceu-lhe uma bebida.
--Você devia estar bebendo? – Elizabeth lhe perguntou, quando ele pegou novamente sua taça de vinho e tomou outro gole.
E logo todos discutiam sobre o fato de Darcy ter parado de tomar seu remédio para dormir sem ter falado com o seu médico antes.
Em determinado momento, Richard se ofereceu para mostrar o apartamento de Darcy às irmãs Bennet.
--Eu acho que Will vai querer fazer isto ele mesmo. – Moira contrapôs.
--Mas ele está cuidando do nosso almoço. – Richard argumentou.
--Eu posso fazer isso. – Ela se ofereceu. – Vá mostrar o apartamento a elas. – Encorajou-o.
Darcy concordou e, acompanhado por Bingley, levou as irmãs Bennet por um tour em seu apartamento.
--Não foi com eles? – Moira perguntou a Richard, quando este ficou para trás.
--Não. Eu já conheço o apartamento do meu primo. – Richard replicou. – Prefiro ficar aqui... com você. – Completou o discurso olhando-a nos olhos.
Moira se apressou em desviar o olhar e fingir-se ocupada com a comida.
~#~
Darcy realmente preferia mostrar o seu apartamento a Elizabeth pessoalmente. Queria que ela se sentisse a vontade ali. E gostou de notar o seu interesse em coisas que parecia refletir algo a seu respeito – como quando mostrou-lhe seu escritório e ela fez-lhe perguntas sobre esboços de projetos antigos, da época da faculdade – ao invés de coisas que tinham apenas valores materiais, como peças de esculturas.
Ao mostrar-lhes o seu quarto, Charles apressou-se a levar Jane até a varanda e ficar por lá por alguns minutos. O que Darcy agradeceu, porque queria mostrar aquele lugar sozinho a Elizabeth.
--Esta é sua irmã? – Ela perguntou, ao ver uma foto de Georgiana à peça ao lado de sua cama.
--Sim. – Sorriu ao responder. – Ela tinha dezessete anos nesta foto. – Esclareceu, perdendo o sorriso dos lábios logo depois.
Ele sabia que Elizabeth tinha percebido a mudança em sua expressão, mas ela não lhe fez perguntas. Talvez percebesse que se tratava de um assunto delicado.
E, voltando a olhar para as fotos, disse.
--Ela é muito bonita.
--Eu sei. – Ele respondeu, orgulhoso.
Elizabeth o fitou, contemplativa. O orgulho que via estampado nos seus olhos não era de esnobismo. Transmitia admiração. E sorriu diante desta constatação. “Talvez nem todo tipo de orgulho seja errado”, pensou consigo mesma.
--Este é seu pai. – Afirmou, diante da foto do senhor de cabelos brancos e um olhar penetrante. – Você tem o mesmo olhar.
--Você acha? – Ele lhe perguntou, curioso com tal comentário.
--Não é só a cor dos olhos. – Ambos, pai e filho, têm olhos azuis. – É o jeito de olhar... Chega a ser desconcertante. – Ela olhou para ele, brevemente. – Às vezes, quando você olha para mim assim... – Depois voltou o olhar para a foto. – parece que você pode enxergar através de mim.
--E lhe incomoda? – Ele quis saber, recuperando o seu olhar.
--Costumava. – Ela respondeu com sinceridade.
--E agora?
Elizabeth sustentou o seu olhar. Parecia-lhe impossível desviá-lo naquele instante.
--Eu gosto. – Murmurou, corando logo em seguida. Não conseguia acreditar que havia dito aquilo. – É estranho. – Completou, finalmente virando o rosto e fitando a fotografia.
--Bem... – Darcy se aproximou mais, sussurrando em seu ouvido. – eu gosto de olhar para você. – Deixando as suas bochechas ainda mais rosadas.
Aproveitando-se da proximidade, ele deu-lhe um beijo molhado no pescoço. Sentindo os pelos se eriçarem com o contato.
--E esta é sua mãe? – Elizabeth tentou prosseguir com a conversa, apontando a fotografia seguinte. A sua voz estava tremida.
--Sim. – Darcy riu por dentro, satisfeito por conseguir mexer com ela assim.
Mas Charles e Jane retornaram ao quarto neste instante, impedindo-o de continuar com o seu plano de sedução. Ao menos, temporariamente.
Em pouco tempo o almoço estava pronto e todos se encaminhavam para a mesa posta por Moira. Até que o interfone da cozinha tocou e Darcy precisou atendê-lo. Os outros seguiram para mesa e ele ficou para trás, na cozinha, falando ao interfone.
Quando Darcy surgiu à sala de jantar, onde os outros o aguardavam, não se dirigiu a mesa como todos esperavam. Continuou seguindo adiante pelo corredor.
Richard perguntou-lhe.
--Algum problema? – Detendo Darcy por um instante.
--Caroline está lá embaixo. – Darcy informou.
--Minha irmã? – Bingley estranhou, erguendo-se da cadeira em que já estava sentado.
--Ela está subindo. – Darcy esclareceu.
--Ela deve estar querendo falar comigo. – Bingley argumentou. Mas não parecia muito seguro de suas palavras.
Ele seguiu Darcy até a sala, onde juntos esperaram o elevador.
Curiosa, Elizabeth desistiu de se sentar. Ficou circulando próxima ao corredor, onde podia ver e ouvir o que acontecia na sala. Todos notaram, mas ninguém falou nada. Até que Richard se juntou a ela, não negando a sua própria curiosidade.
Elizabeth parou de andar quando a porta do elevador se abriu e assistiu ao momento em que Caroline saiu dele sorridente, apressando-se a cumprimentar Darcy com dois beijos demorados no rosto – beirando os lábios.
Ela retirou o seu sobretudo, entregando ao irmão sem lhe dar um olhar demorado e adentrou mais no apartamento, desfilando um modelito lindo. Um vestido justíssimo na cor acerola. O que ressaltou o tom alvo de sua pele e seus cabelos ruivos.
Elizabeth constatou que ela tinha um gosto excepcional para escolher roupas. E sabia muito bem explorar sua beleza física, abusando dos vestidos e saias curtas ou justas. De forma a estar sempre exibindo aquelas pernas longas.
--Caroline, aconteceu alguma coisa? – Charles lhe perguntou, ganhando a atenção da irmã. – Você precisa conversar comigo sobre alguma coisa?
Caroline voltou-se para ele, deixando de olhar o apartamento a sua volta – como se procurasse alguma coisa, discretamente.
--Não, Charles. – Caroline respondeu, sorridente. – Apenas, quando você mencionou esta manhã que viria almoçar aqui, pensei comigo mesma... ‘que idéia magnífica!’ Como não tinha feito planos ainda, pensei em aparecer e juntar-me a todos vocês.
E fingiu não notar o olhar constrangido que o irmão lançou a Darcy.
--Ahh, Elizabeth, aí está você! – Caroline prosseguiu com seu fingimento, sorrindo amorosamente para Elizabeth e caminhando em sua direção. – Estava me perguntando se havia chegado muito cedo e ninguém mais estava aqui, além do meu irmão.
Cumprimentou Elizabeth com dois falsos beijinhos no rosto e se dirigiu aos demais.
--Oh, estão todos aqui! – E se apressou a cumprimentá-los, adentrando a sala de jantar.
Elizabeth ficou onde estava, dividida em olhar a encenação de Caroline ou os cochichos que Darcy e Bingley trocavam, ainda parados ao elevador.
--Ela anda muito irritada há dias. Culpando-me pelo que está acontecendo entre você e Lizzie. – Charles explicava a Darcy. – Diz que se eu não o tivesse arrastado para aquele desfile, você não teria conhecido Lizzie. E se eu não houvesse convidado as irmãs Bennet para Escócia, vocês não teriam se aproximado. E quando ela me ligou esta manhã, resmungando sobre umas fotos suas... Eu já estava sem paciência e queria desligar o telefone... Acabei deixando escapar que estava de saída, que estava vindo para cá. – E, em tom exasperado, completou. – Eu não imaginava que ela ia aparecer aqui. – E uma expressão culpada se apoderou de seu rosto.
--Tudo bem, Bingley. – Darcy assegurou-o. – Vamos almoçar.
Os dois seguiram para a sala de jantar a tempo de ouvir uma pequena discussão entre Caroline e Elizabeth.
--Vejam só como William é generoso. – Caroline dizia. – Convidar a todos para almoçar aqui. Não concorda, Elizabeth?
--Ahh sim, muito! – Elizabeth afirmou, energética. – Na verdade, se ele não houvesse nos convidado, creio que Jane e eu estaríamos muito preocupadas se viríamos a almoçar hoje. – Comentou, sarcástica.
--Lizzie! – Jane a repreendeu, mais com o olhar que com palavras.
Mas Elizabeth, como sempre, fingiu-se de desentendida. Continuou a fitar Caroline com uma expressão inocente.
--Eu acredito que você me entendeu mal, Elizabeth. – Caroline se justificou; tentando soar amorosa, mas com um olhar felino. – Eu apenas quis dizer que Darcy é um excelente cozinheiro e que vocês terão a oportunidade de elevar o seu paladar com uma culinária de alto escalão. O que não é algo que lhe aconteça todos os dias, você há de concordar comigo.
--Na verdade, tem acontecido com bastante freqüência ultimamente. – Elizabeth prosseguiu com o mesmo jeito. – Por exemplo, Domingo passado fomos jantar no The Goring, não foi William?
Aproveitado que Darcy e Charles tinham acabado de surgir à sala de jantar e dirigiu-se a ele com amorosidade excessiva. Darcy fitou-a com um brilho divertido nos olhos, entendendo o seu jogo, e concordou com um aceno de cabeça. Embora sua expressão continuasse neutra e não revelasse seu divertimento.
--Eu lhe garanto, Caroline, a comida de lá é excelente. – Darcy disse, com naturalidade. – Um restaurante especializado em culinária inglesa de muito bom gosto. Se você não teve o prazer de jantar lá, eu lhe recomendo.
Caroline silenciou-se diante desta resposta e engoliu sua indignação.
Darcy informou aos demais que ia a cozinha pegar pratos e talheres adicionais, para que Caroline se juntasse a eles naquele almoço. Quando retornou a sala de jantar, todos já estavam sentados.
Os únicos lugares vagos ficavam do lado da mesa em que Caroline estava sentada, próxima a Charles e Jane.
Um olhar para o primo e Richard pôs-se de pé, trocando de lugar com ele. Ao passar por Darcy e pegar os pratos e talheres em suas mãos, disse-lhe.
--Você me deve. – Num murmúrio.
Darcy foi ocupar o lugar que o primo vagou, entre Elizabeth e Moira, e Richard sentou-se ao lado de Jane. Ficando ainda um banco vazio entre ele e Caroline.
O almoço prosseguiu com tranqüilidade. Caroline se comportou da melhor maneira possível, não parecendo estar incomodada com a troca de lugares entre Darcy e Richard. E esquecida da discussão com Elizabeth.
Uma conversa gostosa e coesa tomou conta da mesa e todos pareciam estar se divertindo durante toda a refeição. Até mesmo Caroline.
Ao fim do almoço, Richard e Charles recolheram os pratos, enquanto Darcy guiava os outros para a sala, onde se acomodaram. Richard e Charles não demoraram a se juntar a eles e continuaram a conversar com a mesma sintonia de quando estavam almoçando.
Tudo parecia finalmente estar dando certo àquela tarde. Tanto que logo os demais tinham esquecido a repentina aparição de Caroline e a pequena confusão entre ela e Elizabeth.
Próximo do fim de tarde, Elizabeth foi ao banheiro. E quando estava saindo deste, deparou-se com Caroline.
Suspirando, resignada, fitou-a com tranqüilidade. Estava estranhando o seu comportamento e esperando por mais um combate.
--Você acha que me venceu. – Caroline comentou. – Está enganada.
--Não sabia que estava em uma competição. – Elizabeth replicou.
--Você pode se fazer de desentendida o quanto quiser. Mas a mim você não engana. – Caroline rebateu. – Você sabe do que estou falando. Você e William não vão durar muito tempo como casal. – Ela proclamou, solenemente.
Elizabeth decidiu ouvi-la de uma vez, antes de dar-lhe uma resposta.
--Ele sabe o que é melhor para ele e com certeza não é uma modelozinha qualquer.
Caroline não estava com ânimos de ser politicamente correta e pela primeira vez, desde que a conheceu, falou para ela exatamente o que pensava a seu respeito.
--Ele está apenas experimentando... Extravasando uma fantasia que é comum todos os homens terem... De levar uma modelo para cama. – E não teve medo de ser cruel. – Mas, uma vez que satisfizer sua curiosidade, ele vai querer ter uma relação de verdade com uma mulher a sua altura. E ele vai se livrar de você sem pensar duas vezes. – Sentenciou. – Então, trate de aproveitar. Porque esta sua felicidade não vai durar muito tempo.
--Mesmo que isto seja verdade, o que a faz pensar que ele vai querer ter algo com você? – Elizabeth interrogou-lhe, cruzando os braços sobre o peito e a encarando com frieza. – Ele teve esta opção por todos estes anos, queridinha. E, no entanto, nunca quis nada com você. – Sentiu Caroline se enfurecer, pela forma que assumiu uma postura defensiva. – O que a faz pensar que algum dia irá querer?
--Eu sei. – Garantiu, mas Elizabeth pôde ver em seus olhos que ela não se sentia segura. – Você vai ver. – Ela disse, dando-lhe as costas em seguida e retornando a sala.
Elizabeth ainda ficou ali, sozinha, recompondo-se. Não queria retornar a sala zangada, pois iam perceber o que tinha acontecido. E não queria deixar Charles desconfortável por causa de sua irmã.
~#~
Quando Caroline voltou à sala, viu que Richard e Moira já tinham partido. E Charles e Jane estavam de pé, próximos ao elevador, vestindo seus sobretudos e despedindo-se de Darcy.
--Já estão de saída? – Perguntou ao irmão.
--Sim. – Charles respondeu. – Estávamos a sua espera. Eu lhe dou uma carona.
--Não será necessário. – Garantiu-lhes, sorridente. – Eu vim com o meu carro.
Viu o irmão e Darcy trocarem olhares alarmados. Sabia que eles deviam estar se perguntando se ela pretendia ficar.
Para a surpresa deles, ela pegou o próprio sobretudo e também embarcou no mesmo elevador que o irmão e Jane.
--Você não vai esperar por Elizabeth? – Questionou o irmão, com o tom de voz mais inocente possível.
--Eu vou levá-la para casa... – Darcy respondeu. – quando ela quiser ir embora.
--Foi um almoço muito agradável, William. – Caroline disse, amável. – Devíamos repetir a dose.
--Certamente. – Darcy concordou, educadamente, antes das portas do elevador se fecharem.
Darcy caminhou pelo seu apartamento, perguntando-se por que Elizabeth estava demorando e o que ela ia dizer ao notar que estavam sozinhos em seu apartamento.
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O caminho do apartamento de Darcy ao prédio em que Moira mora foi feito em silêncio dentro do carro de Richard. Ele já estava começando a ficar impaciente com aquele processo de reconquista. Moira não se abria e, sempre que ficavam sozinhos, tornava-se praticamente uma muda.
Ele ligou o rádio do carro para que ouvissem algum barulho além do motor suave de seu carro. A cantora dizia:
--Guess this means you take back… (acho que isso quer dizer que você volta atrás)
All you said before... (no que você disse antes)
Like how much you wanted… (Como o quanto você queria)
Anyone but me... (qualquer uma, menos eu)
Said you'd never come back… (Disse que você nunca voltaria)
But here you are again… (mas aqui está você novamente)
Ele olhou para Moira e ela parecia não ter notado a letra da música, porque continuava a olhar para a janela e não lhe dar atenção. Então deixou a música tocar, sem se incomodar em trocar a estação de rádio.
-- I know that I've got issues… (Eu sei que tenho problemas)
But you're pretty messed up too… (mas você também é muito enrolado)
Either way, I found out I'm nothing without you… (De qualquer forma, eu descobri que não sou nada sem você)
Esta parte da música, no entanto, finalmente lhe chamou a atenção e ela olhou para o aparelho de rádio como se ele a estivesse ofendendo profundamente.
--You got a piece of me… (Você tem uma parte de mim)
And honestly... (e, honestamente,...)
My life (My life!) would suck (Would suck!) without you… (minha vida seria uma droga sem você)
Moira estendeu a mão para o rádio e mudou a estação. Mas não fez comentário algum a respeito. Richard seguiu o seu exemplo e manteve-se calado.
Quando parou o carro diante de seu prédio, ela se apressou em retirar o cinto de segurança. Ele desligou o carro e também retirou o cinto. Ela estendeu a mão para a maçaneta e ele repetiu seu gesto.
--Não precisa me levar lá em cima. Eu sei chegar ao meu apartamento sozinha. – Ela disse, fria. – Creio que não corro risco de ser atacada daqui para ali.
--Eu queria conversar com você um pouco. – Ele pediu.
--Não temos sobre o que conversar. – Ela rebateu, em negativa.
--O que há de errado em conversarmos um pouco, Moira? – Ele foi direto ao assunto. Realmente, não tinha paciência para ser sutil. – Não podemos ser amigos?
--Nós nunca fomos amigos. – Ela não cedeu.
--Vai ser sempre assim, então? – Ele não desistiu e não permitiu que ela saísse do carro quando tentou. – Você vai viver fugindo de mim? Evitando ficar a sós comigo?
--Nós estamos sozinhos agora. – Ela replicou de má vontade. – E ficamos sozinhos hoje no apartamento de Will em alguns momentos.
--Nos quais você praticamente me ignorou por completo. – Ele resmungou.
--Não exagere. – Moira revidou, irritada. – Eu estou cansada, quero entrar e relaxar um pouco. – Disse-lhe, impaciente. – Posso? – Pretendendo sair do carro novamente.
--Eu estou tentando... – Richard disse, quase desistindo. – Estou me esforçando, se você não percebeu.
--Eu não lhe pedi nada. – Moira reclamou, saindo do carro e batendo a sua porta com força.














