Capítulo XX
George Wickhan
Georgiana acordou às sete horas daquela manhã de terça-feira, levantou-se da cama e imediatamente ligou o seu laptop. Certamente, ele teria enviado uma resposta. Quando se deitou na cama para dormir ontem, após conferir sua caixa de mensagens vazia, desejou com todas as suas forças que ao acordar hoje, o dia do seu aniversário de 21 anos, ele houvesse respondido ao seu e-mail.
Há dias que não recebia nenhuma mensagem ou conseguia encontrá-lo no site de bate-papo. E embora lhe enviasse milhares de mensagens desde então, ele nunca as respondeu.
A princípio, quando enviou e-mail e no dia seguinte ainda não tinha resposta, ponderou que ele poderia estar ocupado com as avaliações que se aproximavam. Afinal, Medicina é um curso dificílimo.
Quando continuou sem respostas por mais de três dias, considerou a possibilidade de o seu computador ter dado algum defeito. Mas ponderou que ele poderia ter enviando uma mensagem rápida lhe explicando a situação através de algum cyber café próximo ao campus.
Depois imaginou que ele poderia estar doente e por isso estava afastado do computador. Com o passar dos dias e o seu constante silêncio, no entanto, começou a cogitar outras possibilidades.
Talvez Rebecca estivesse certa e Ikarus cansou-se de suas constantes desculpas para não poder se encontrar e desistiu dela. E não estava ocupado demais com os estudos ou com o computador quebrado ou doente. Apenas se cansara dela e não queria mais entrar em contato.
Isso era tão injusto! Logo agora que tinha decidido que queria vê-lo pessoalmente. Que pretendia marcar um encontro e descobrir se o relacionamento deles poderia evoluir para algo mais substancial.
Com os dedos cruzados, abriu seu e-mail. Sua caixa de mensagens estava lotada. Passou a seta do mouse sobre os endereços eletrônicos – encontrando os e-mails de seu irmão, dos primos, de Charles, etc. – menos aquele que procurava.
Decepcionada, saiu do seu e-mail sem ler nenhuma das novas mensagens. E saiu do quarto também. Não podia ficar o dia inteiro diante da tela do laptop esperando que ele desse algum sinal de vida. Tinha um dia turbulento para enfrentar. E não era porque era o dia do seu aniversario que os professores irão lhe dar uma folga.
Tomou o café na companhia de Rebecca, quem não se deu ao trabalho de perguntar se Ikarus respondera algum de seus e-mails. Pela expressão de Georgiana, percebeu que receberia uma negativa como resposta.
Pouco tempo depois, Betsy apareceu à cozinha apressada. Pegou uma fruta e deu um beijo apressado no rosto de Georgiana, desejando-lhe feliz aniversário. E seguiu em direção à porta da rua.
--Você não vai tomar café? – Georgiana a interrogou.
--Sem tempo, sem tempo. – Betsy replicou, parada a porta, conferindo sua mochila; preocupada em estar esquecendo algo de importante. – Tenho uma prova de História da Psicologia II neste primeiro período.
--Ainda bem que a minha avaliação de Fisiopatologia (natureza e mecanismo das doenças) será apenas no terceiro período. – Rebecca comentou. – Assim, pelo menos, posso tomar café tranqüila.
Betsy abriu a porta sem dar muita atenção ao que as outras duas discutiam na cozinha e deparou-se com um entregador uniformizado.
--Srta. Darcy? – Ele perguntou-lhe, olhando uma prancheta que trazia em mãos.
--Georgie! – Betsy gritou da porta, antes de ultrapassar o rapaz e sair.
--Pois não? – Georgiana apareceu à porta.
--Georgiana Darcy? – O rapaz repetiu a pergunta.
--Sim.
--A senhorita pode assinar aqui? – Ele lhe entregou a sua prancheta e enquanto ela assinava, ele sumiu pelo corredor.
Rebecca apareceu para ver o que estava acontecendo no momento exato que quatro rapazes muito fortes, usando o mesmo uniforme, entravam no apartamento carregando um pacote enorme e, aparentemente, pesado.
--O que é isso? – Rebecca se aproximou.
--Onde devemos instalá-lo, Srta. Darcy? – Um dos rapazes que o carregava a questionou.
--Instalar o que? – Georgiana quis saber.
--O seu piano, senhorita. – O mesmo rapaz respondeu, impaciente, enquanto os outros rapazes faziam caretas (já cansados de sustentar aquele pacote).
--Piano? – Rebecca olhou para Georgiana e depois para o pacote que os quatro rapazes lutavam para manter de pé.
E como se percebesse que Georgiana não iria se recuperar da surpresa tão cedo, tratou de encontrar um espaço para que os rapazes colocassem o pacote no chão.
--Quem sabe ali... perto da porta da varanda. – Ela correu a sugerir, indo retirar um vaso de planta do caminho e afastar alguns móveis.
--William. – Georgiana murmurou, raivosa, ao ver os rapazes começarem a abrir o pacote e posicionar o seu mais novo piano de armário.
Sem demora, ela pegou o telefone e discou o numero do celular do irmão. No terceiro toque, ele atendeu.
--Bom dia, maninha. – Ouviu a sua voz animada. – Feliz aniversário!
--Um piano, Will?! – Reclamou, sem preâmbulos. – Um piano!
--Vejo que você já recebeu o meu presente. – Seu irmão replicou, indiferente ao seu tom de voz.
--O que eu vou fazer com um piano, Will?
--Tocar, ora. – Ele não demorou a argumentar. – Você sempre gostou de tocar piano. Só porque não quis prosseguir por este rumo, escolhendo outra carreira, não significa que não pode mais tocar.
--Eu já tenho um piano, não preciso de outro. – Tentou remediar.
--Não aí, com você. – Mas Darcy não se rendeu.
--Isto porque não tenho espaço para acomodar um piano aqui, você sabe disso. – Georgiana continuou a argumentar, mas já sem aquele mesmo ímpeto.
--Por isso encomendei um piano armário e não um piano de cauda[1].
--Georgie, é lindo! – Rebecca exclamou. – Venha ver!
--Viu? Sua amiga já aprovou. – Darcy exclamou, satisfeito. – Vejo você no Natal, maninha. Tenha um bom dia e um feliz aniversário! – E desligou sem dar oportunidade para que Georgiana refutasse.
Assim que os entregadores concluíram o seu trabalho e foram embora, Rebecca pediu.
--Georgie, toca algo pra mim. – Complemente animada.
--Não. – Georgiana replicou de imediato.
Quando Rebecca olhou em sua direção, já sem sorrir, argumentou.
--Eu devia estar estudando e você devia começar a se arrumar. – Tentando ser conciliadora. – Você não vai querer sair daqui esbaforida como Betsy. – E seguiu para o próprio quarto.
Queria esquecer a tentativa nada sutil de seu irmão de fazê-la voltar a tocar piano. Assim como queria parar de pensar em Ikarus. Por isso, sentou-se no meio da sua cama e abriu os livros. Se forçaria a se concentrar nos assuntos de Administração Mercadológica, custe o que custar.
~#~
No curso de fotografia, Elizabeth estava realmente entusiasmada. Era a sua primeira aula de revelação.
Quando acompanharam os dois instrutores ao quarto – escuro, ocupou uma das bancadas ao fundo da sala. Ao seu lado estavam as duas mulheres que um dia ouviu conversando sobre George Wickhan.
Enquanto um dos instrutores explicava o procedimento para trocar os filmes na máquina, antes de começar realmente a aula de revelação, George caminhava entre as bancas e auxiliava os alunos. Fazendo correções no manuseio a que empregavam no filme quando era necessário.
Ao passar ao seu lado, Elizabeth sentiu uma sensação estranha. Sabia que estava sendo observada por ele com muita atenção e isso a deixou levemente apreensiva. Sabia como trocar o filme de uma câmera analógica, tinha anos de prática com a própria máquina. Mas a presença dele a fazia pensar que se sentiria uma boba se errasse.
--Você tem jeito com isso. – Ele comentou, aproximando-se ainda mais e parando ao seu lado. Olhando para as suas mãos enquanto ela manuseava o rolo de filme. – Você já fez isso antes?
--Eu tenho uma Leica M6. – Elizabeth explicou.
--Hum... E já tem experiência num quarto – escuro? – Ele finalmente lhe olhou nos olhos e sorriu.
--Eu tentei montar um... Mas encontrei um obstáculo com relação ao local adequado. – Ela continuou a manusear o filme enquanto conversava com ele. – Não tenho muito espaço lá em casa e minha mãe começou a implicar com os materiais que ficavam na área de serviço. Então, eu tive que... adiar o projeto. – Ao concluir a fala, percebeu que terminara de enrolar o filme corretamente.
--Muito bom. – Ele a elogiou. – Você está indo muito bem. – Dando-lhe outro sorriso antes de prosseguir com sua caminhada, aproximando-se de uma das mulheres que falara a respeito dele.
Quando George se aproximou do outro instrutor à frente de todos, o Hank disse.
--Agora, vamos fazer tudo de novo. Só que de olhos fechados.
Houve um burburinho entre os alunos, estranhando aquela ordem.
--Nenhum de vocês vai enxergar direito com as luzes apagadas, então... Melhor começar a se habituar a fazê-lo sem ver nada. – Hank esclareceu. – Vamos lá, fechem os olhos e repitam a tarefa.
Os alunos, receosos, obedeceram-no. E Elizabeth ouviu risinhos baixos das duas mulheres ao seu lado. Mas concentrou-se no que estava fazendo.
--Vocês precisam ser cuidadosos ao manusear o filme. – Ouviu a voz de George gravitando para perto de si. – Se sentirem as bordas aparecendo em lugares estranhos, ou o filme começar a prender, é provável que tenham feito algo errado. Terão que começar tudo de novo.
Ao fim do discurso, Elizabeth podia sentir a sua presença ao seu lado. Concluiu o que estava fazendo com os dedos trêmulos e abriu os olhos. O viu parado muito mais próximo que imaginara e fitando o seu rosto, e não as suas mãos.
Ao fim da aula, arrumou seus pertences na sua bolsa. Vestiu o seu sobretudo branco e começou a calçar as luvas, enquanto seguia os alunos em direção a saída do curso.
Como a turma em que toma aula era a última, os instrutores costumavam a sair do prédio entre os alunos. Por isso, não estranhou quando ao alcançar a porta da saída, viu George Wickhan parado ao lado dela.
Ele segurava a porta aberta para que as duas mulheres de sua turma pudessem passar. Elas, é claro, aproveitavam a oportunidade para trocar algumas palavras com ele antes de irem embora.
--Tenha uma boa noite, Srta. Bennet. – Ele lhe desejou, com um sorriso galante nos lábios, quando passou por ele.
As duas outras mulheres tinha saído e ele ficara aguardando à porta, segurando-a aberta para Elizabeth.
--Boa noite, sr. Wickhan. – Elizabeth correspondeu ao cumprimento e ao sorriso, antes de atravessar a porta.
Então, todos os seus pensamentos sumiram e tudo que viu a sua frente foi a BMW azul estacionada na vaga enfrente ao prédio do curso. E, em especial, o homem encostado à porta de passageiro do carro, observando-a em silêncio.
Desde o jantar de domingo, Elizabeth não tivera noticias de Darcy. Esperava que ele ligasse, procurando marcar um segundo programa a dois. Se ligasse antes de quarta-feira, pareceria desesperado. Mas se ligasse depois da quarta, demonstraria interesse de menos. Então, estava esperando que ligasse na quarta.
O dia finalmente chegou e começou a ficar ansiosa. Mas não queria ligar para ele. Deixaria que a contatasse. Entretanto, não esperava vê-lo diante de seus olhos assim.
--O que você está fazendo aqui? – Perguntou-lhe, acercando-se dele.
--Vim lhe buscar. – Ele respondeu, desencostando-se do carro.
--Como soube onde me encontrar? – Parou diante dele e ergueu o rosto para poder fitá-lo nos olhos.
Ignorou propositalmente a sua pretensão de que poderia simplesmente aparecer e levá-la embora sem prévio aviso ou declaração de concordância de sua parte.
--Liguei para sua casa e Jane me disse que estava aqui. – Ele esclareceu. – Está pronta para ir? – Perguntou-lhe, indicando o próprio carro.
--Isso depende. – Elizabeth respondeu, detendo-o ao seu lado. – Onde pretende me levar? Não creio que esteja vestida adequadamente para um de seus restaurantes caríssimos.
Ao dizer isto, abriu o sobretudo e permitiu que ele desse uma boa olhada em sua roupa. Estava vestida com uma calça jeans azul claro, suéter violeta, botas de couro cor de café e luvas negras.
No entanto, o gesto para Darcy teve um significado completamente diferente àquele pretendido por ela. Pareceu a ele um convite para tocá-la. E sem hesitar, Darcy segurou-a pela cintura e puxou-a para si.
--Não vejo nada de errado com o que está vestindo. – Comentou com um tom de voz mais íntimo, quase em um murmúrio com a sua voz rouca. – Mas, se preferir, podemos ir para o meu apartamento e eu preparo algo para comermos.
--Ir ao seu apartamento... Hum... – Elizabeth repetiu a proposta que lhe foi feita, tentando não demonstrar seu nervosismo. – Para que você possa me seduzir com mais liberdade? – Fez uma pergunta retórica, tentando acalmar as batidas de seu coração. Sabia que ele podia senti-lo galopar em seu peito.
--Nós podemos ir a qualquer outro lugar... – Darcy acrescentou, diante de sua cautela em aceitar seu convite. – Você escolhe. – Inclinando-se para roçar os seus lábios ao dela provocativamente.
Não encontrou resistência por parte dela diante do seu gesto. E o que era para ser uma pequena provocação, tornou-se um beijo mais demorado quando Elizabeth cedeu-lhe os lábios de bom grado, envolvendo-o pelo pescoço.
--Aonde quer ir? – Sussurrou, com a testa encostada a sua e os olhos fechados.
Elizabeth ainda precisou de alguns minutos para recobrar a consciência e responder a sua pergunta.
--Eu conheço um pub não muito longe daqui... – Sugeriu.
Darcy abriu os olhos e afastou o rosto para poder olhá-la melhor. Elizabeth notou que ele preferia a sua proposta de levá-la ao seu apartamento, mas ele não comentou a respeito.
Soltou a sua cintura e caminhou até o próprio carro. Abriu a porta de passageiro e esperou ela entrar para poder fechá-la, dar a volta no carro e entrar também.
Nenhum dos dois notou a figura masculina que os observava através da porta de vidro por onde Elizabeth tinha saído minutos antes, oculta nas sombras.
Foram ao pub recomendado por Elizabeth, onde encontraram muitos jovens nos seus vinte e poucos anos – em grande maioria, universitários. Darcy olhou a sua volta avaliativamente e concluiu que aquele era um ambiente que não freqüentaria por escolha própria nos dias de hoje.
--Eu não venho a um lugar assim desde a época de faculdade. – Comentou, ao sentar-se em uma mesa em um canto reservado do pub.
--Isto me surpreende. – Elizabeth comentou de bom humor, sentando-se ao banco que rodeava a mesa como um sofá, ganhado o olhar de Darcy por sobre a mesa. – Nunca imaginei você em um lugar como este antes.
--E qual tipo de lugar você me imagina freqüentando? – Ele não demorou a inquirir.
--Um lugar com mais... pompa. – Ela respondeu.
--Você acha que sou esnobe. – Ele afirmou. Não sorria, mas não parecia chateado.
Elizabeth preferiu não responder. Mesmo porque não foi exatamente uma pergunta.
Um garçom não demorou a vir servi-los e ambos demoraram mais que o de costume para escolher o que beber. As bebidas alcoólicas estavam em evidência e com uma maior variedade.
Ambos escolheram uma versão de café diferente da do outro e uma porção de salgados para acompanhar. E, enquanto esperavam, Elizabeth se interessou pelo período da vida dele em que esteve na universidade. Nunca freqüentara uma universidade e aquele tema a fascinava.
Por sua vez, Darcy se interessou pelo motivo que a levou perseguir a carreira de modelo e sobre sua infância no interior da Inglaterra.
Após comerem e conversarem bastante, Elizabeth notou que o olhar de Darcy algumas vezes gravitava para o outro lado do salão – onde havia uma mesa de snooker disposta.
Propôs que jogassem uma partida.
--Você sabe jogar snooker[2]? – Darcy não demorou a questionar.
--Um ex-namorado me ensinou. – Elizabeth respondeu, pondo-se de pé e aguardando ele.
Darcy seguiu o seu exemplo e permaneceu em silêncio, não fazendo perguntas referentes aquele determinado assunto. Elizabeth percebeu que ele não parecia muito curioso com as suas experiências amorosas, como ela demonstrou em seu primeiro encontro com relação à dele.
Ambos se aproximaram de uma mesa de snooker vazia e dispusera-se a jogar. Ao pegar os tacos, atirou um na direção de Darcy.
--Vamos ver se você é bom nisso. – Ela atiçou-o.
Darcy colocou o taco deitado sobre a mesa e começou a despir o seu blazer do terno que estava vestido. Jogou-o sobre um banco ali perto e depois folgou o nó da gravata. Retirou-a e lhe deu o mesmo destino que o blazer. Desabotôo os dois primeiros botões da blusa.
Estava desabotoando os botões da manga da camisa e dobrando as mangas desta, quando notou o olhar cobiçoso de Elizabeth sobre si. Ao ser flagrada, ela ficou corada e desviou o olhar, começando a arrumar as bolas na mesa de snooker.
Darcy terminou o que estava fazendo e, pegando o taco de volta, se aproximou dela com um sorriso satisfeito nos lábios.
Os dois se divertiram bastante durante o jogo. Elizabeth notou que Darcy estava tão relaxado quanto no episódio em que a perseguiu com um saco de farinha na mão na cozinha enquanto estiveram na Escócia.
E concluiu que ele era um homem charmoso com o semblante sério e o ar misterioso. Mas ficava irresistivelmente encantador sorrindo.
Ao final do jogo, quando Elizabeth errou uma tacada e faltavam apenas duas bolas, Darcy disse.
--Você terá que me dar algo se eu fizer estes pontos.
--E o que você quer? – Ela perguntou, erguendo uma das sobrancelhas, desconfiada.
--Humm... – Darcy respondeu, ao acertar uma das bolas e marcar um ponto. – Um beijo seria suficiente. – Posicionou-se e acertou a segunda. – Por ora, pelo menos. – Concluiu, aproximando-se de Elizabeth.
Elizabeth não se fez de rogada. Foi ao seu encontro, ergueu o rosto e subiu na ponta dos pés. Roçou os lábios ao dele e beijou-lhe suavemente o canto da boca. Afastou-se sorrindo.
--Não era o que eu tinha em mente. – Darcy resmungou, prendendo-a em seus braços e impedindo que se afastasse sem satisfazer o seu desejo.
Mas Elizabeth desvencilhou-se dele como um sabão escorregadio que escapa entre os dedos molhados, e caminhou de volta a mesa em que ocuparam no começo da noite. Darcy apressou-se a recolher seu blazer e gravata do banco, e a seguiu de volta a mesa.
Elizabeth ocupou novamente o seu lugar ao banco e assistiu-o depositar suas coisas sobre o lado do banco em que ocupara mais cedo, vindo sentar-se ao seu lado. Darcy passou o braço por detrás dos ombros de Elizabeth, descansando-o no encosto do sofá, e inclinou-se sobre ela para receber o beijo que lhe era devido.
Este beijo foi mais tranqüilo que os beijos anteriores. Darcy parecia ter mais controle sobre o seu ímpeto ao beijá-la e, embora sua outra mão estivesse apertando a cintura dela levemente, ele parecia consciente de estarem em um pub repleto de gente. E moderasse mais em seus gestos.
Sentiu os dedos dela percorrerem seus cabelos e descerem pela sua nuca. Acariciar seu pescoço, contornando o pomo-de-adão e descendo pela brecha feita pela camisa com os dois botões abertos. Até que entraram em contato com alguns fios de cabelo do seu peito.
Seu autocontrole estava perigando por um fio e desejou ter insistido na idéia de irem jantar em seu apartamento.
Como se houvesse lido seus pensamentos, Elizabeth interrompeu o beijo e afastou os seus lábios dos dele, tentando recuperar o fôlego. Nos olhos azuis intenso dele viu espelhado um desejo cru que a fez ficar aquecida por dentro e seu estômago se contrair – em sensações completamente antagônicas. Seu próprio desejo contrapondo-se a sua insegurança.
--Você devia me levar para casa. – Suas incertezas venceram a luta interna. – Está ficando muito tarde.
--Claro. – Darcy concordou, não querendo forçar a barra.
E, educadamente, afastou-se e saiu do banco. Voltou a vestir o blazer do terno, mas guardou a gravata no bolso. Recolhendo o próprio sobretudo e vestindo-o por cima do terno, assistiu Elizabeth na mesma tarefa em seguida.
Juntos, saíram do pub e ele levou-a para casa. Sem antes repetir aquele mesmo ritual de despedida na porta do prédio em que os Bennet mora. Regado de muitos beijos e apertos mais fortes.
~#~
O fim de semana deu uma pequena pausa nos estudos de Georgiana e ela quase se deixou abater pela melancolia. Notando o seu estado de espírito, suas amigas prepararam uma tentativa de reanimá-la. Organizaram uma festinha de aniversário atrasada.
--Eu não estou muito a fim de festas, Becca. – Georgiana reclamou pela milionésima vez. – Tenho que estudar.
--É sexta-feira e amanhã não há nenhuma avaliação. – Betsy argumentou. – Você terá o resto do fim-de-semana para estudar o quanto quiser.
--E é apenas uma reuniãozinha de amigos, nada de muito agito. – Rebecca comentou.
--Só vamos pedir uma pizza e os meninos ficaram de trazer cerveja. – Betsy a ajudou.
--Russell disse que traria Guinness também, já que é a sua preferida. – Rebecca tinha um sorriso satisfeito nos lábios ao falar de Russell que não passou despercebido por nenhuma de suas amigas.
Russell estava se tornando um freqüentador assíduo de seu apartamento desde o encontro em que Rebecca finalmente se deixara beijar por ele. E não só estava conquistando a afeição de Rebecca aos poucos, como a amizade de suas amigas também.
--E depois do trabalho que tive de comprar a torta fria de maracujá com chocolate, você não pode se recusar a participar. – Betsy resmungou.
--Nós já avisamos aos meninos que vai ser uma comemoração modesta, que você não desejava nada extravagante e eles prometeram que sequer iam lhe comprar presentes. – Rebecca comentou, rindo.
O que arrancou uma gargalhada das outras duas.
Suas amigas tinham estranhado o comportamento de Georgiana diante do piano que ganhou de presente do irmão e comentaram sobre isto. Alegando que não lhe dariam presentes se era assim que ela os agradeceria – somente para perturbá-la.
Mas Georgiana não aparentou aversão a nenhum dos outros presentes que ganhou dos pais, primos e até de Caroline Bingley – quem, certamente, não esperava que sequer lembrasse-se de seu aniversário.
O que alertou as amigas que o problema dela estava no piano e não em receber presentes.
--Vincent está vindo também? – Georgiana quis saber e já não estava mais sorrindo.
--Claro que está. – Betsy respondeu, animada, indiferente aos receios da amiga.
--Ahh Georgie, ele não para de perguntar por você. – Rebecca remediou. – Agora que Ikarus virou história, por que não dar uma chance a ele?
Mas o argumento da amiga não serviu para animar mais Georgiana.
Quando os convidados começaram a chegar, as meninas cuidaram de ligar para pizzaria e fazer o pedido. O som da sala estava ligando em um volume razoável, permitindo um clima festivo e ainda assim dando a possibilidade de se conversar sem que fosse preciso gritar.
Russell chegou acompanhado dos seus dois amigos e logo em seguida Max apareceu também. Enquanto as meninas arrumavam talheres e copos na cozinha, os homens conversavam entre si na sala, sentados no sofá.
Quando saiu da cozinha, Georgiana recebeu os cumprimentos de Max e perguntou-lhe por Eric e Patrick. Porque nenhum dos dois tinha chegado ainda.
--Eric disse que tinha muito que estudar. – Max justificou sua ausência de forma desconcertada. – Pediu para desejar-lhe feliz aniversário em seu nome.
--Obrigada. – Georgiana replicou, pensando na possibilidade de Eric ainda estar chateado com o que aconteceu entre os dois na última vez em que se encontraram e ela pedira para que ele fosse embora.
--E Patrick deve estar chegando daqui a pouco. – Max acrescentou, inconsciente de que Georgiana estava perdida em pensamentos recriminatórios e não dava atenção ao que lhe dizia. – Ele foi buscar Holly.
--Que bom. – Disse, distraída, afastando-se logo em seguida.
Permitindo que Betsy pegasse Max pelo braço e puxasse-o para se sentar entre ela e Caleb.
A pizza não demorou a ser entregue e enquanto eles se serviam, Patrick chegou acompanhado de Holly. Georgiana sentiu seu estômago congelar.
O casal se aproximou dela e Patrick, com o seu jeitão descontraído, segurou em sua mão e a fez ficar de pé, para que pudesse abraçá-la e desejar-lhe um feliz aniversário. Quando a soltou, deu espaço para que Holly fizesse o mesmo. E ela não perdeu a oportunidade de ser dissimulada e repetiu o seu gesto, abraçando Georgiana e desejando um feliz aniversário.
Todos notaram que Georgiana ficou imóvel quando foi abraçada por Holly. Sua expressão endureceu e ela prendeu a respiração, fechando os olhos momentaneamente. Como se tentasse se controlar para não explodir ali mesmo na frente de todos.
Assim que Holly lhe deu espaço, Georgiana saiu em direção a cozinha. Onde tentou se recompor antes de decidir voltar a sala. E quando estava preste a fazê-lo, Holly entrou na cozinha, bloqueando a saída.
--Aquilo não foi muito gentil da sua parte. – Provocou-a.
--O que você está fazendo aqui? – Georgiana explodiu. – Como ousa vir ao meu apartamento?
--Querida, que tipo de amiga deixaria de comparecer a comemoração do aniversário da outra? – Holly questionou, sorrindo sinicamente.
--O pior tipo de amiga. – Georgiana retorquiu. – O seu tipo.
--Agora, quem a escutar dizer algo deste tipo vai pensar horrores de mim, não é? – Holly parecia calma e satisfeita. – E nós não íamos querer isto.
E, mudando complemente o tom de voz e suas feições, para uma expressão mais dura e um tom de voz de comando, disse.
--Então é melhor você começar a mudar sua atitude para comigo ou serei obrigada a contar aos seus amigos os seus segredinhos sórdidos. – Ameaçou-a. – E vamos ver se sua imagem de menina inocente persiste depois deles ouvirem como eu lhe vi se comportar naquela festa.
--Você não sabe do que está falando. – Georgiana tentou soar firme, mas seu medo estava escrito em seus olhos; não queria que ninguém soubesse nada a respeito deste episódio. Nunca!
--Eu sei mais do que você, tenho certeza. – Holly debochou. – Ou você já se lembrou do que aconteceu naquela noite... Porque, pelo que me recordo, você não fazia idéia do que lhe tinha acontecido!
--Cale a boca! – Murmurou, raivosa.
--Quero dizer, era de se esperar que a pessoa se lembrasse de uma noite como aquela. – Holly prosseguiu. – Com a rotatividade daquele quarto... Você deve ter se mantido muito bem ocupada, mais até que qualquer profissional!
--Cale a boca! – Ordenou mais alto, com os olhos cheios de lágrimas de fúria contida.
--Eu fico calada, se você ficar, queridinha. – Holly concluiu, sorrindo diabolicamente. – Chama-se reciprocidade.
E saiu da cozinha, deixando Georgiana sozinha. Nervosamente, Georgiana enxugou as lágrimas ao ouvir alguém se aproximando. E quando Vincent atravessou a porta da cozinha, tentou sorrir para ele.
--Oi. – Cumprimentou-o.
--Você está bem? – Ele não se deixou enganar por aquele sorriso.
--Sim. – Georgiana respondeu, caminhando até a geladeira e pegando uma jarra de água.
Ocupou-se em encher um copo e bebê-lo devagar, para não ter que encará-lo e discutir o que tinha acontecido.
--Eu queria ter lhe comprado um presente, mas Becca disse que não devia fazê-lo... – Ele comentou, escolhendo não insistir no assunto.
--Tudo bem. – Georgiana agradeceu seu gesto de não persistir naquela discussão.
--Então... quando encerra suas avaliações? – Ele se encostou à bancada ao seu lado.
--Ah... meado de Dezembro... – Replicou, fitando-o nos olhos, sentindo-se mais calma ao discutir aquele assunto banal. – Alguns professores preferiram adiar ao máximo as suas avaliações, porque querem que seus alunos se dediquem exclusivamente às suas respectivas matérias.
--Eu sei. – Vincent comentou. – Tenho dois professores assim e, embora seja um pouco chato ficar com a expectativa dos exames por tanto tempo, geralmente esta decisão por parte deles tem fundamento. Já que suas avaliações são as mais difíceis.
--Exatamente.
--Mas... assim... – Ele começou, receoso. – Quando você tiver um tempinho livre... a gente poderia...
Alguém surgiu à porta da cozinha e os dois se voltaram para ver quem era.
--Desculpe-me. – Eric disse, sério. – Não quis interromper a conversa. – E já estava se retirando quando Georgiana se precipitou em sua direção.
--Não, Eric. – Chamando-o. – Eu queria falar com você.
--Eu vou... para sala. – Vincent disse, ultrapassando os dois, deixando-os sozinhos na cozinha.
--Feliz aniversário. – Eric desejou-lhe, entregando um embrulho retangular, ainda mantendo aquele semblante duro.
--Eu pensei que Becca houvesse dito que não era preciso comprar nada para mim. – Georgiana comentou, estendendo a mão para pegar o presente.
--Você não quer? – Ele resmungou, recolhendo o presente.
--Não seja bobo. – Georgiana revidou, tomando o presente de sua mão. E não demorou a abri-lo. –“A Mulher do Viajante no Tempo” (The Time Traveler's Wife)! – Exclamou, surpresa, ao fitar a capa do livro. – Como você soube que queria este livro?
--Você deve ter comentado... ou uma das meninas o fez. – Eric desconversou, inquieto.
Georgiana estranhou esta afirmação, já que se lembrava perfeitamente de só ter dito a uma pessoa que queria este livro em particular – Ikarus. Fora a ele que contara que adorou o filme “Eu Te Amarei Para Sempre”, baseado neste livro e que estivera procurando por ele em livrarias sem encontrá-lo – já que estava esgotado.
--Bom, eu já vou. – Ele disse.
E isto a fez se esquecer de suas suspeitas.
--O que? Por quê?
--Eu preciso estudar. – Ele alegou. – Só vim lhe dar o presente, porque me esqueci de enviar por Max.
--Eric, você ainda está chateado comigo pelo que aconteceu da última vez em que nos vimos? – Questionou-o e viu a resposta em seu olhar. – Me desculpe. Eu não devia ter pedido para você ir embora.
--Eu tenho que ir. – Ele desconversou de novo e saiu da cozinha.
Georgiana demorou apenas um minuto para segui-lo. Atravessou a sala sob o olhar atento de Vincent e Holly, e saiu do apartamento atrás de Eric. Viu-o dobrar a esquina que dava acesso a escada, ao invés de tomar o elevador. E foi atrás dele.
--Eric, espere! – Pediu, descendo apressada os degraus em seu encalço. – Por favor, espere! ...Ahh, pelo amor de Deus, você não pode ficar zangado comigo pra sempre por causa disso! – Reclamou, impaciente, quando ele continuou a descer a escada, ignorando seus protestos.
Ele finalmente parou em um degrau e esperou que ela o alcançasse.
--Você realmente não sabe, não é? – Ele questionou, furioso.
Georgiana parou ao seu lado, no mesmo degrau, e voltou-se de frente para ele.
--Sei o que?! – Ela não estava compreendendo tamanha fúria.
--O problema não foi você ter me pedido para ir embora, Georgiana! – Ele esbravejou, olhando-a nos olhos.
--Qual é o problema, então?
Demorou apenas um segundo para que Eric tomasse uma decisão. Segundo em que ela o fitou em assombrado silêncio pelo seu rompante de raiva.
E então ele ergueu as suas mãos até o seu rosto, segurou-o firmemente e a beijou. E neste beijo tentou transmitir a ela a complexidade de todos os seus sentimentos. A paixão que sentia, assim como o profundo ódio que o estava consumindo nos últimos dias.
Soltou-a de forma tão decidida quanto quando a beijou e deu dois passos para trás. Georgiana continuou a fitá-lo, agora com uma expressão bestificada no rosto.
--Eu sou Ikarus. – Ele disse, triste.
Georgiana abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
--E você estava beijando aquele cara! – A raiva voltou com toda a força e ele continuou a descer a escada, sem voltar a parar ou sequer olhar para trás.
Georgiana cambaleou até sentir suas costas baterem contra a parede. Deslizou por ela até ter se sentado no degrau e levou a mão aos lábios. Sentindo-os arderem. Sentia que Eric tinha lhe virado do avesso com aquele beijo.
[1] O piano de armário tem a armação e as cordas colocadas verticalmente. A armação pode ser feita em metal ou madeira. Os martelos não beneficiam da força da gravidade.
O piano de cauda tem a armação e as cordas colocadas horizontalmente. Necessita por isso de um grande espaço pois é bastante volumoso. É adequado para salas de concerto com tetos altos e boa acústica. Existem diversos modelos e tamanhos, entre 1,8 e 3 m de comprimento e 620 kg.
[2] O snooker ou snooker inglês é um jogo de mesa e taco muito popular sobretudo no Reino Unido e Irlanda; jogado numa mesa de forma retangular revestida com baeta e com seis buracos (um em cada canto e um no meio de cada um dos lados maiores). A sinuca, praticada no Brasil, é uma variedade deste jogo.














