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Imagino quem primeiro descobriu a eficácia da poesia em afastar o amor! (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XIX

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Capítulo XIX

Jogos de amor

 

Jane se admirava no espelho de corpo inteiro atrás da porta de seu quarto, sentindo-se insegura quanto à própria imagem de lingerie que ali via refletida.

--Eu não acredito que estou fazendo isto. – Declarou a Elizabeth.

--Charles vai ter um ataque do coração quando lhe vir assim. – Elizabeth replicou, divertida.

Jane lançou-lhe um olhar nervoso. Caminhou até a cama e pegou o vestido envelope azul marinho que havia separado para a ocasião. Era um vestido de noite discreto e, ao mesmo tempo, elegante.

--Eu ainda não tenho certeza se vou conseguir pôr este plano em prática, Lizzie.

--Claro que vai. – Elizabeth assegurou-a. – O plano de Charlotte é simples e não há por que não dar certo. – E, para tranqüilizar ainda mais a irmã, disse. – Vai por mim. Charles quer tanto isto quanto você.

Jane terminou de arrumar-se diante do espelho e passou a pentear os cabelos. A sra. Bennet bateu à porta do seu quarto, chamando por ela.

--Sr. Bingley já está aqui, querida. – Disse a filha, contentíssima, ao abrir a porta do quarto e fitar Jane apreciativamente. – Eu vou lhe informar que você está quase pronta. – E saiu sem muita demora.

Jane lançou outro olhar nervoso a Elizabeth.

--Termine de se arrumar e fique calma. – Elizabeth lhe recomendou. – Eu vou salvar Bingley da amorosidade excessiva de mamãe. – Não tardando a deixar Jane sozinha.

Quando Elizabeth surgiu à sala, deparou-se com a visão de Charles sentado ao sofá da sala cercado pela sra. Bennet e por seu primo, sr. Collins. Como de se esperar, Charles sorria e tratava a ambos com a simpatia que lhe era característica.

Saudou-o e acomodou-se na poltrona da frente.

--Estava justamente dizendo ao sr. Bingley, Lizzie, se não seria maravilhoso se você e seu primo, Adolfo, acompanhassem Jane e Charles neste passeio. – A sra. Bennet lhe informou. – Há dias que seu primo chegou e ainda não teve uma oportunidade de sair à noite para se divertir com os jovens de sua idade. Apenas trabalhando sem parar.

--Ahh, mamãe, é uma idéia boa sim. – Elizabeth apressou-se a comentar. – Mas tenho certeza que meu primo não deseja se intrometer no programa de um casal de namorados. – Afirmou, tentando soar convincente; pois notou, com alarme, que Adolfo parecia muito interessado nesta proposta.

Sua declaração fez o primo lhe lançar um olhar avaliativo. Como se considerasse suas palavras.

--Não tenho nada contra você, Charles. – Sorriu para o namorado de sua irmã. – Mas não acredito que meu primo irá encontrar muito com o que se distrair numa situação como esta.

--Bem, você estaria lá e me faria companhia, querida prima. – Collins argumentou. – Não creio que teríamos problema em descobrir algo para nos distrair. – E lhe dirigiu um sorriso meigo, com um olhar cheio de segundas e terceiras intenções.

Elizabeth notou que a sra. Bennet concordava com a opinião de Adolfo. Comandou seu cérebro a achar uma desculpa convincente para demover tanto sua mãe quanto o seu primo daquela idéia.

--Mas Jane já está praticamente pronta e nós não iríamos querer atrasá-los, não é? – Exclamou, insegura se concordariam com ela.

Jane surgiu à sala naquele instante. Elizabeth suspirou aliviada quando Charles pôs-se de pé sem demora e não se deteve na companhia dos outros. Apressou-se para o lado de Jane, não medindo elogios a ela.

Elizabeth correu a assessorar a irmã, para que a escapada dos dois fosse a mais rápida possível. Entregou-lhe seu sobretudo cinza de Jane e abriu a porta da rua para eles.

--Fujam! – Murmurou para os dois. – Rápido!

Charles não demorou a atender sua sugestão. Encaminhou Jane até a porta com passos apressados, despedindo-se da sra. Bennet e do sr. Collins brevemente antes de Elizabeth fechar a porta às suas costas.

--Que pena, vamos ter que deixar este passeio para outro dia. – Elizabeth declarou, ao voltar-se para fitar a sua mãe e primo. – Boa noite.

E correu para o seu próprio quarto antes que sua mãe sugerisse que ela levasse Collins para um passeio a dois.

~#~

Charles abriu a porta do carro e ajudou Jane a entrar. Fez a volta em seu carro e entrou pela por do motorista. Estava evidentemente satisfeito em ter Jane só para si àquela noite.

Ele conversava animadamente ao seu lado enquanto dirigia, fazendo-lhe perguntas sobre o programa de garotas que tinha feito na noite passada. Mas Jane estava ansiosa demais, respondia suas perguntas de forma distraída.

--Eu fiz reserva no... – Charles ia dizendo, quando Jane o interrompeu.

--Charles, na verdade, eu estou um pouco cansada. – Declarou, fitando-o com atenção para descobrir qual seria a sua reação. Sentia o seu coração bater a mil em seu peito. – Você se incomodaria se não fossemos jantar fora hoje?

--Você quer que eu te leve de volta para casa? – Charles questionou, alarmado.

--Ahh não, não. – Jane assegurou-o. – Mas... eu só pensei... – E quase não conseguiu pronunciar as palavras. – Estava pensando se não poderíamos fazer um programa caseiro... nós dois...

--Ahhh... claro. – Charles ficou aliviado. – Claro. – Voltando a sorrir normalmente. – A gente pode ir para o meu apartamento. – Propôs com naturalidade. – Assim você finalmente o conhece. E podemos pedir comida por telefone.

Jane assentiu em silêncio, soltando a respiração lentamente.

O apartamento de Charles tinha uma decoração moderna e discreta, de muito bom gosto. Ele a levou por um rápido tour enquanto esperavam que a comida – já pedida – fosse entregue. Depois se acomodaram para jantar.

Ele não falhou em notar que Jane estava mais calada que o normal e tentou descobrir se algo a estava incomodando. Ela se apressou em negar.

Após o jantar foram para a sala de estar, onde lhe questionou se queria assistir alguma coisa ou se preferia ouvir uma música e conversar. Jane preferiu assistir televisão, pois temia que o silêncio constrangedor se abatesse sobre eles se optasse pela segunda opção.

A princípio o desconforto entre os dois era evidente. Sentados eretos no sofá com um espaço considerável entre os dois.

--Tem certeza que não há algo lhe incomodando? – Charles voltou a lhe perguntar.

--Não. Nada. – Jane assegurou, frenética.

Charles passou o braço por detrás do ombro dela e se aproximou, enquanto Jane o fitava com um olhar ansioso.

--Jane, você sabe que pode me dizer qualquer coisa, não sabe? – Ele disse. – Se houvesse algo lhe incomodando você me diria, não diria?

Ela respondeu com um aceno curto de cabeça, pressionando os lábios nervosamente. Charles lhe deu um beijo suave na testa e a puxou contra o seu peito, para acomodá-la melhor em seus braços. Voltando sua atenção a televisão quando Jane deitou sua cabeça em seu ombro e suspirou.

Após uns minutos assim, Charles começou a relaxar. Inconsciente de que Jane continuava tensa, embora se esforçasse para parecer à vontade. Em determinado momento, ela lhe perguntou se poderia retirar os sapatos.

--Claro. – Ele não demorou a responder. – Eu quero que você se sinta a vontade aqui. – Disse, sério, como se estivesse lhe dando liberdade em qualquer ocasião que surgisse, não apenas esta.

E, para não deixá-la constrangida, retirou os próprios sapatos.

Assim que ela fez o mesmo, voltou a puxá-la para os seus braços e recostou-se no sofá – ficando quase deitados, abraçados. Jane voltou a encostar a cabeça em seu ombro e fingir que assistia à televisão. Quando, na verdade, reunia coragem para o próximo ato.

Charles não demorou a se distrair com o que assistia. Até que percebeu que Jane não estava dando atenção à televisão, mas estava com o rosto virado em sua direção e o fitava.

Com a respiração presa na garganta, diante da beleza da mulher que tinha nos braços, aproximou seus lábios dos dela e deu inicio a um beijo lento, amoroso, cheio de paixão.

Com a recepção calorosa que recebeu dela, não demorou muito para que estivesse pressionado o corpo quente e macio de Jane no sofá, deitado por cima dela – a televisão completamente esquecida.

As mãos se aventuraram em caricias mais ousadas, percorrendo o colo por sobre o tecido fino do vestido e delineando a cintura, procurando por uma brecha em que pudesse entrar em contato direto com a pele macia de suas coxas. Sua mão se encaixou na dobra de seu joelho e puxou a perna dela para cima, fazendo-a se dobrar e permitir que seus corpos se encaixassem.

Estava distribuindo beijos pelo seu pescoço, sentindo-a abraçá-lo apertado e arfar próximo ao seu ouvido, quando se paralisou.

--Charles... – Jane chamou por ele, num sussurro, quando sentiu imóvel com os lábios em seu pescoço, com a respiração cortante.

--Jane, desculpe-me... – Ele pediu, respirando com dificuldade. – Desculpe-me, eu me descontrolei...

Afastando o rosto de seu pescoço, fitou-a.

--Eu… me descontrolei… Perdoe-me. – Pediu, agitado.

--Charles. – Jane segurou o seu rosto com ambas às mãos, fazendo-o fitá-la nos olhos sem receios.

“É agora ou nunca.”, disse a si mesma, sentindo seu coração galopar em seu peito de apreensão.

--Eu quero que você faça amor comigo.

A surpresa de Charles estava estampada em seu rosto. Ele ficou boquiaberto, fitando-a por alguns minutos. Seus olhos piscando várias vezes de pura incredulidade. E, de repente, afastou-se dela, sentando-se no sofá novamente.

Jane temeu que tivesse dito a coisa errada, imaginando que agora ele devia considerá-la uma mulher fácil e vulgar. Sentiu seus olhos pinicarem e assistiu-o pular do sofá, por cima de suas pernas, através de uma cortina de lágrimas que lutava para impedir que rolassem por seu rosto.

Ele voltou-se de frente para ela, já de pé enfrente ao sofá, e a fitou, ali deitada com o rosto erguido para poder observá-lo. E, inclinando-se sobre ela, passou um dos braços por debaixo de suas pernas e o outro por suas costas, a carregando nos braços com um movimento ágil.

Jane o envolveu pelo pescoço, temerosa e surpresa por sua atitude, enquanto Charles a guiava pelo corredor escuro até o seu quarto, com passos rápidos e decididos.

Depositou-a na cama, beijando seus lábios suavemente. Depois voltou a se afastar. E, afoito, ainda de pé ao lado da cama, tentou se despir o mais rápido que conseguisse.

Jane riu baixinho, quando o viu se atrapalhar com a blusa de manga comprida que estava tentando despir e ficar com o rosto oculto por dentro da blusa, enquanto lutava para livras os braços.

Jane se ajoelhou na cama, de frente para ele, e ajudou-o a despir a blusa. Ele jogou a blusa para longe sem dar muita atenção aonde ela viesse a parar. Olhando para Jane, sentiu a sua agitação adolescente sumir.

Jane acariciou seu peitoral e continuou a ajudá-lo a se despir, agora livrando-se da calça. Não demorou muito para que ele desejasse fazer o mesmo e, com muita delicadeza, desfez o laço e abriu o vestido envelope. Olhou o corpo de pele alva em um lingerie azul marinho de rendinhas extasiado.

Com a mesma delicadeza, despiu-a do vestido e jogou-o para longe por sobre o ombro. Sem desviar por um segundo sequer os olhos de seu rosto e corpo, acariciou a sua cintura, abraçando-a apertado e beijando sua boca. Sentiu as mãos dela percorrerem seus ombros e envolvê-lo pelo pescoço. Juntos, deitaram-se na cama e se amaram sem reservas.

Charles acordou na manhã de Domingo sentindo a ausência do peso e calor do corpo de Jane sobre o seu. Virou-se na cama e viu que ela estava deitada na outra extremidade, completamente coberta.

Aproximou-se dela e acariciou suas costas nuas por debaixo dos cobertores. Ela se mexeu um pouco, murmurando algo inteligível. Afundou o rosto em seu cabelo e respirou profundamente.

Jane virou o rosto em sua direção e abriu os olhos lentamente. Voltando a fechá-los logo em seguida. Quando os abriu pela segunda vez, Charles sorriu-lhe amorosamente.

Estava preste a lhe dar um beijo de bom dia, quando Jane arregalou os olhos e disse.

--Ahh, não olhe para mim! – E escondeu o rosto no travesseiro. – Eu estou horrível!

Charles, que se alarmou a principio com o seu rompante, achou graça do motivo para ela se esconder. Apoiando o cotovelo no travesseiro, deitou a cabeça na palma da mão.

--Você é linda de qualquer jeito. – Declarou, permitindo novamente que sua outra mão vagasse carinhosamente pelas costas nuas de Jane e sentindo os pêlos do corpo dela se eriçarem com o seu toque suave.

--Não sou não. – Jane negou, com a voz abafada pelo travesseiro.

Ele permaneceu em silêncio por um momento, então parou de acariciar suas costas.

--Eu já entendi. – Afirmou com um tom de voz mais sério, afastando-se dela na cama lentamente. – Entendi. Você não quer olhar para mim. – Acusou, deitando-se na cama e fitando o teto de seu quarto.

Jane remexeu-se na cama, mas ainda assim não olhou para ele.

--Sou eu que estou horrível... com este cabelo em pé tal qual palha queimada, olhos cheios de remela e hálito de bode velho. – Pronunciou, de forma depreciativa. – Sei que lhe causo aversão. – E virou o rosto em sua direção.

Jane já o estava fitando e tinha uma expressão horrorizada no rosto; temerosa com o fato de tê-lo feito pensar daquele jeito.

--Não é verdade! – Exclamou veemente.

Charles imediatamente sorriu e voltou a se aproximar, envolvendo com os braços e a beijando.

--Que bom! – Após um beijo mais demorado, no qual conseguiu se manobrar para cima dela, disse. – Porque eu gostei muito de acordar com você do meu lado... e pretendo repetir sempre que for possível! – E voltou a beijá-la.

~#~

Darcy estava passando um dia de Domingo tranqüilo em seu apartamento quando o interfone tocou. Como não estava esperando nenhuma vista, foi atendê-lo incerto de quem poderia estar no saguão de seu prédio.

O porteiro anunciou que a srta. Bingley desejava vê-lo, questionando se poderia permitir acesso ao elevador. Respirando fundo, resignado, Darcy deu permissão. Por mais que não desejasse sua visita, não seria educado negar-se a recebê-la.

--A que devo esta visita? – Questionou-lhe, uma vez que a recebeu em seu apartamento.

--Charles lembrou-me recentemente que o aniversário de Georgiana se aproxima e fiquei me perguntando se você já teria lhe comprado um presente. – Caroline se explicou. – Sei como vocês, homens, sentem dificuldade de comprar presentes... Pensei em oferecer meus préstimos e auxiliá-lo nesta tarefa, agora que você não conta mais com a ajuda de Anne para este tipo de coisa.

--Muito gentil da sua parte, Caroline. – Darcy assegurou-a. – Mas eu já comprei o presente de Georgiana.

--Neste caso, você poderá ir comigo e me ajudar a comprar algo para eu dar a ela nesta data festiva. – Caroline insistiu.

--Não creio que seja necessário. Georgiana não virá para casa em seu aniversário, ficará no campus universitário com suas amigas porque logo estará iniciando os exames deste semestre. – Justificou. – Eu mandei entregar o meu próprio presente a ela lá.

--Mas eu ainda quero lhe comprar uma lembrancinha... – Caroline não desistiu. – E como você conhece o gosto de sua irmã melhor que eu, estou certa que não se negará em me acompanhar.

Darcy realmente não conseguiu se recusar a lhe acompanhar. Todas as suas justificativas pareciam não contar para Caroline.

Ele estranhou bastante este apego súbito que Caroline demonstrava a sua irmã, com quem tivera muito pouco contato nos últimos anos. Mas não via mal algum em Caroline querer lhe comprar um presente. Deduziu que esta era uma tática que imaginara poder usar para conquistá-lo. Não que fosse funcionar, ponderou em silêncio.

Desta forma, saiu com uma Caroline contentíssima por ver que seu plano estava dando certo, até então.

Darcy deixou-se guiar por Caroline. Ela parecia saber exatamente onde queria ir, pela forma que ignorava várias outras lojas por quais passavam pelo caminho.

~#~

Elizabeth estava no meio de expediente em seu trabalho na loja de sapatos. Trabalhar aos fins de semana na loja tinha seus prós e contras. Tinha muito mais movimento nos fins de semana e, por isso, conseguia efetuar mais vendas.

No entanto, os fins de semana muitas vezes eram os únicos dias de descanso que conseguia na agência de modelo. E preferiria passá-los fazendo algo divertido ou, até mesmo, descansando.

Apesar de ainda estarem na metade do mês de novembro, todas as vitrines já estavam enfeitadas para o Natal e as coleções de inverno estavam em alta.

Estava atendendo a uma senhora de gosto peculiar e gênio difícil quando eles entraram na loja juntos. Caroline exibindo um ar superior, com seus cabelos acobreados soltos e suas roupas de alta costura. Darcy com uma expressão de poucos amigos. Embora não estivesse de terno, ainda estava impecavelmente vestido.

Elizabeth estranhou muito quando, ao vê-la, Caroline abriu-lhe um imenso sorriso e veio ao seu encontro. Sendo seguida por Darcy – parecendo surpreso em vê-la.

--Elizabeth, que maravilha encontrá-la aqui. – Caroline exclamou, se adiantando em sua direção e lhe dando dois beijinhos no ar. – Como você tem passado?

--Bem, obrigada. – Elizabeth replicou; correspondendo ao aceno curto e frio que Darcy lhe dirigiu.

--Está fazendo compras também? – Caroline questionou-lhe.

--Não. – Elizabeth não demorou a responder. – Eu trabalho aqui.

O sorriso no rosto de Caroline se expandiu e ela parecia um gato contente por ter engolido um suculento canário.

--Não diga. – Fingiu-se surpresa.

Elizabeth não demorou a perceber que Caroline já sabia disso de alguma forma – possivelmente, Jane comentara com Charles e ele com a sua irmã. Tampouco foi difícil deduzir porque Caroline viera até ali acompanhada de Darcy. Certamente, queria diminuir Elizabeth aos olhos de Darcy e, pela expressão no rosto dele, estava tendo sucesso em seu intento.

--Bem, ...eu vou chamar uma das meninas para lhe atender. – Elizabeth logo se ofereceu. – Fique a vontade.

--Você não poderia nos atender? – Caroline perguntou-lhe antes que pudesse se afastar.

--Eu já estou atendendo uma cliente no momento, Caroline. Não poderia lhe dar minha total atenção. – Elizabeth replicou, segurando um sorriso amarelo nos lábios.

--Oh.. eu não me incomodo em esperar que você termine a sua venda. – Caroline disse, displicente. – Eu sei que estas lojas funcionam por comissão e não me custa nada ajudá-la a atingir sua meta... Não é mesmo? Para que servem os amigos? – A satisfação com aquela situação estava evidente em suas expressões.

--Que gentil da sua parte. – Elizabeth replicou, sarcástica, ainda sustentando um cordial sorriso nos lábios; mas, por dentro, cozinhando uma raiva profunda.

Elizabeth se afastou deles e retornou a sua cliente rabugenta, que estava ainda mais irritada pela sua ausência. Cuidou de sua venda como comumente o faria, tentando ignorar o fato de que Caroline circulava pela loja admirando os sapatos com um ar contentíssimo. E fingindo não perceber que Darcy lhe seguia com o olhar aonde fosse, ainda com a mesma expressão fria e indiferente no rosto.

Quando se reaproximou de Caroline, esta estava tentando arrancar de Darcy uma opinião favorável sobre um par de sapatos – que, na opinião de Elizabeth, eram muito chamativos.

--Acho que ficariam fantásticos nela, não concorda?

--É um belo par de sapatos... – Darcy replicava, sem transparecer muita segurança em suas palavras. – Mas não creio que seja o tipo de sapato adequado para Georgiana... Não tenho certeza se ela se sentiria a vontade para usá-lo. – Argumentou, tranquilamente.

Tinha certeza de que sua irmã não usaria nada tão extravagante.

--Talvez... você esteja certo. – Caroline concedeu. – Acho que vou comprar para mim. – Declarou, por fim, animada, ainda admirando o par de sapatos. E, voltando-se para Darcy sorrindo, viu Elizabeth se aproximando. – Ah querida, você já pode nos atender?

--Estou a sua disposição. – Elizabeth respondeu, tentando transparecer afável.

--Maravilha. – Caroline disse, com a mesma animação.

E não demorou nada em sobrecarregar Elizabeth de pedidos. Queria experimentar diversos pares de sapatos, desfilando pela loja enfrente aos espelhos como se estivesse em uma passarela.

Aproveitava-se das trocas de pares de sapato para exibir suas longas pernas expostas pela saia mostarda justa que estava usando. Cruzava e descruzava as pernas diante do olhar de Darcy, fingindo não notar que estava sendo observada por ele.

--O que acha, Darcy? – Caroline lhe perguntou, sentada, após calçar um par de botas de couro sintético marrom café que podia ser transformado em de cano alto ou de cano curto.

Diante do silêncio de Darcy, Elizabeth sentiu uma fúria borbulhar dentro de si. Certamente, ele estava distraído demais admirando o par de coxas a sua frente para dar atenção ao que lhe era questionado.

--Darcy? – Caroline voltou a chamar a sua atenção, com um tom de voz carinhoso.

Elizabeth olhou brevemente na direção dele, ali de pé ao seu lado e teve a nítida impressão de que ele estivera olhando para ela pelo canto do olho. E não para Caroline, sentada a sua frente, exibindo-se.

Mas não pode ter certeza, porque ele desviou o olhar no segundo em que Elizabeth olhou em sua direção.

--O que você acha? – Caroline agora estava olhando para ele, aguardando sua opinião.

--É bonito. – Ele respondeu, conciso.

E voltou o olhar para Elizabeth, encontro-a a fitá-lo com uma expressão confusa no rosto. Ele desviou o olhar novamente quando Caroline exclamou, já não tão amorosa.

--Vou levar este daqui. – Retirando o par de botas sem se dar o trabalho de passear pela loja, exibindo-se.

Após calçar o seu próprio par de sapatos, ergueu-se do sofá.

--E este... e aquele também. – Concluiu, apontando os pares de sapatos selecionados e seguindo em direção ao balcão do caixa.

Elizabeth ajoelhou-se diante da montanha de pares de sapatos e arrumou-os novamente dentro das respectivas caixas. Carregou consigo aqueles que Caroline selecionara, seguindo-a até o balcão do caixa, onde ela já a aguardava com uma expressão impaciente no rosto.

No balcão, outra atendente terminava de efetuar as vendas e Elizabeth deixou Caroline e Darcy em sua companhia. Voltando para terminava de recolher as outras tantas caixas de sapato e as levar para o estoque.

Ao erguer-se do chão com quatro caixas nos braços e voltar-se na direção da porta do estoque, quase se esbarrou em Darcy. Surpresa, o fitou em silêncio.

--Charles me contou que você começou a tomar aulas de fotografia. – Ele comentou, ainda sem perder o seu ar indiferente.

--Sim. Comecei. – Elizabeth respondeu, começando a andar em direção a porta do estoque.

--Está gostando? – Ele a acompanhou.

--Sim. Muito. – Ela respondeu, ainda estranhando o fato de ele demonstrar algum interesse no que fazia.

Ele ficou em silêncio, mas continuou a acompanhá-la. Elizabeth olhou rapidamente em sua direção e teve a impressão de que ele estava procurando mais alguma coisa para lhe dizer.

Ao chegar à porta do estoque, parou e esperou que ele lhe dissesse. Mas ele não disse nada. Ficou parado, fitando-a, em silêncio. Elizabeth deu-lhe as costas, ainda mais confusa com o seu comportamento, e entrou no estoque.

Quando retornou, Caroline havia efetuado sua compra e chamava Darcy para que a acompanhasse até a saída da loja.

--Eu vi uma pulseira muito delicada outro dia numa loja aqui perto. – Caroline lhe dizia, ao segurar em seu braço e guiá-lo até porta. – Creio que ficará linda em Georgiana.

Elizabeth ficou a observá-los sair da loja, parada diante da porta do estoque. E viu o momento em que Darcy lançou seu olhar em sua direção e a viu ali. No instante seguinte, ele estava desvencilhando-se do aperto de Caroline e caminhando em sua direção, decidido.

Elizabeth não soube dizer o porquê, mas naquele instante seu estômago se contraiu de expectativa. E não conseguiu mover um músculo; assistiu-o abandonar Caroline à porta da loja e se aproximar.

Ele parou em sua frente, fitando-a nos olhos e disse.

--Você quer jantar comigo?

--O-o que? – Questionou, atônita.

--Você quer jantar comigo? – Ele repetiu a pergunta, sem rodeios ou demonstrar o mínimo nervosismo. – Hoje?

Elizabeth olhava de um olho para o outro, esperando pegar um dos dois mentindo. E, por fim, respondeu.

--Sim. – Sem ter consciência do que estava dizendo.

--Eu vou lhe buscar em sua casa às oito horas. – Darcy informou.

--Nove. – Elizabeth corrigiu-o, automaticamente.

Sairia tarde da loja e não teria tempo de se arrumar se ele fosse buscá-la às oito horas.

--Nove horas, então. – Ele concluiu, dando-lhe as costas e se reaproximando de Caroline (quem estava boquiaberta no mesmo lugar em que ele a abandonara).

Elizabeth sentia o seu coração batendo acelerado em seu peito, enquanto o seu cérebro ainda lutava para compreender o que tinha acabado de lhe acontecer. Assistiu o momento em que Darcy passou por Caroline, quem o olhou incrédula, e saiu da loja.

Então, Caroline lançou um olhar assassino em sua direção, ao perceber que o tiro saiu pela culatra. E, furiosa, seguiu Darcy.

Elizabeth continuou sem acreditar que tudo aquilo fosse verdade até o momento de ir para casa. E ainda pensava que devia tê-lo sonhado quando abriu a porta do quarto de Jane e sua irmã, radiante, ergueu-se de sua cama – onde estivera deitada, lendo um livro – e veio ao seu encontro.

--Lizzie, foi maravilhoso! – Jane exclamou.

Elizabeth fitou-a abobalhada. Lutando para entender sobre o que Jane estava falando; ainda não havia lhe dito nada. Completamente esquecida de que quando saiu para trabalhar esta manhã Jane ainda não retornara do seu passeio da noite passada com Charles Bingley.

--Você tinha razão! – Jane prosseguiu, exultada. – Charlotte tinha razão! Foi... – E, suspirando, olhou para a irmã, sorrindo.

E então percebeu que havia algo de estranho em Elizabeth. O olhar dela estava vidrado e ela não parecia estar escutando nada do que dizia.

--Lizzie, o que aconteceu? – Questionou, preocupada.

--Ele me convidou para sair. – Elizabeth respondeu, ainda perdida em pensamentos.

--Convidou?! – Jane se excitou com a novidade.

--E eu aceitei. – Elizabeth continuou, ainda em transe.

--Isso é maravilhoso! – Jane exclamou, feliz. – Isso é maravilhoso, não é? Era o que você queria, não é? – Finalmente conquistando a atenção de Elizabeth. – Eu sabia que seria uma questão de tempo para esse George Wickham reparar em você...

--Não foi ele quem me chamou para sair, Jane. – Elizabeth não demorou em corrigi-la, agora que tinha compreendido a sua confusão.

--Não? – Jane estranhou. – Quem foi, então?

--William Darcy. – Elizabeth respondeu, com um fio de voz.

--Quem? – Jane repetiu a pergunta.

Elizabeth não soube dizer se ela não ouviu a sua resposta ou se custara a acreditar no que estava ouvindo.

--Sr. Darcy. – Repetiu, mais alto. – William Darcy me convidou para jantar... Esta noite... E eu aceitei! – Exclamou, horrorizada.

E percebeu, pela expressão de mudo assombro de Jane, que a irmã a escutara da primeira vez, só não acreditara nos próprios ouvidos.

~#~

Darcy nunca demorara tanto antes ao escolher uma roupa. Experimentara diversos ternos italianos recém comprados, até que se sentiu satisfeito com sua imagem. Estava terminando o nó da gravata quando se lembrou do que Elizabeth pensava sobre a sua aparência.

Era como se Elizabeth estivesse ali ao seu lado, falando:

--“Sempre de terno, com a aparência impecável...” – Em tom contrariado. – “Eu adoraria bagunçá-lo só um pouquinho.” – Em um murmúrio debochado.

Darcy desfez o nó imediatamente, puxando a gravata do colarinho da blusa e atirando-a longe. Desabotoou os dois primeiros botões da blusa e fitou-se no espelho.

--Isto é ridículo! – Reclamou. – É somente um jantar. – Argumentou consigo mesmo, estranhando todo aquele nervosismo. – Ela é apenas uma mulher.

Nunca se sentira tão apreensivo diante da perspectiva de um encontro amoroso antes.  Nem mesmo na adolescência. O que Elizabeth tinha para fazê-lo se sentir assim? Que poder era este?!

Terminou de se arrumar e rumou em direção ao elevador. Estava dentro do horário combinado e, afirmando para si mesmo que não havia motivo para se sentir ansioso, caminhou até o seu carro.

Quando estacionou o carro enfrente ao prédio de três andares onde sabia que ela mora, sentiu seu nervosismo apenas aumentar. Saiu do carro e seguiu em direção a entrada. Viu a fachada da agência; em um arco em vidro em cima da porta estava escrito B&G Modeling Agency.

Acionou a campainha do interfone e aguardou.

--Quem é? - Numa voz esganiçada, num tom mal-humorado.

--William Darcy. – Respondeu, aproximando-se mais do interfone ao responder.

--Ohh... Sr. Darcy! – O tom da voz esganiçado tornou-se amoroso. – Espere um segundo... Um segundinho! – Continuou, evidentemente alegre.

E, não tardou muito, a porta lhe foi aberta por uma sra. Bennet tentando recuperar o fôlego.

--Queria entrar, por favor. – Ela aconselhou-o, solicita. – Lizzie está terminando de se arrumar. – A mulher lhe explicou, enquanto guiava-o pela recepção deserta de sua agência de modelos até uma escada.

Quando adentraram o apartamento, Darcy viu-se diante de uma sala de tamanho razoável, com uma decoração simples demais para o seu gosto. Ficou chocado com a parede pintada de vermelho berrante.

A sra. Bennet indicou-lhe um sofá para que se sentasse, onde um homem já se encontrava.

--Este é Adolfo Collins, sobrinho de meu esposo. – A sra. Bennet tratou de fazer as apresentações. – E este é o sr. Darcy, Adolfo. – Cheia de sorrisos e satisfação.

Os dois homens trocaram um aperto de mão cordial.

--Eu vou ver se Lizzie já está pronta. – A sra. Bennet lhe informou. – Fique a vontade. – E sumiu por um corredor.

--Eu já ouvi muito a seu respeito, sr. Darcy. – Adolfo não demorou a se pronunciar; nunca perderia uma oportunidade como esta de estreitar relações com uma figura tão importante.

--Verdade? – Darcy se perguntava em silêncio se teria ouvido algo a seu respeito através de Elizabeth, sua mãe ou a mídia.

--Ahh sim, mas claro! – Adolfo exclamou, veemente. – Não acredito que exista alguém no mundo que não tenha ouvido falar da família Darcy. – Continuou, reverente e exagerado. – Mas, em se tratando do senhor, posso garantir que a minha fonte o conhece intimamente.

Darcy continuou a se perguntar em silêncio de quem ele se referia – já reduzindo suas suspeitas a sra. Bennet ou Elizabeth.

--Talvez o senhor não saiba, mas eu trabalho com consultoria de investimentos e sou muito bem relacionado com a mui cara sra. Catherine De Bourgh. – Adolfo não perdeu tempo em se gabar, imaginando que o deixaria impressionado.

--Não me diga. – Darcy replicou, com sua corriqueira atitude indiferente.

--Ohh sim, sim. – Adolfo continuou, entusiasmado. – Eu vim para a Inglaterra exclusivamente por um pedido desta estimada senhora. Ela necessita da minha presença para tomar algumas decisões quanto a um novo projeto que está desenvolvendo para o próximo ano e... também queria que eu aconselhasse a sua filha, a Srta. Anne...

Adolfo prosseguiu com suas explicações, inconsciente de que Darcy estava dando pouca atenção ao que lhe dizia. Estivera olhando rapidamente o ambiente ao seu redor e notou um mural de fotografias às suas costas. Estava tentando se decidir se levantava-se para olhar as fotos mais de perto.

--... uma jovem tão elegante e inteligente... – Adolfo continuou a elogiar Anne De Bourgh, ainda sentado ao sofá, mesmo após Darcy ter se erguido e se aproximado do mural de fotos; dando-lhe, assim, as costas. – É uma pena que esteja envolvida com aquele...

Darcy sorriu diante da foto de Elizabeth aos seus cinco anos, vestida com o uniforme escolar – uma blusa de manga curta branca e uma jardineira azul marinho – com maria-chiquinha no cabelo. Parada enfrente a uma casa com um jardim florido, abraçada à Jane, aos oito anos, também vestida com o mesmo uniforme.

--...sei que a sua mãe tinha expectativas maiores... – A voz arrastada de Collins chegava abafada ao seu ouvido e Darcy só tomava consciência de algumas de suas palavras.

--Pronto, mulher, já estamos aqui. – Ouviu uma voz rouca reclamar, num tom de voz bem-humorado, vindo do corredor por onde a sra. Bennet sumira.

Voltando-se nesta direção, encontrou a sra. Bennet acompanhada de um homem que deduziu se tratar do sr. Bennet.

--Boa noite. – O sr. Bennet ergueu-lhe a mão em cumprimento. – Entendo que o senhor esteja aqui para levar a minha Lizzie para jantar.

Darcy não falhou em detectar um tom bastante possessivo na voz do sr. Bennet ao se referir a filha.

--Boa noite, sr. Bennet. – Correspondeu ao gesto, apertando firmemente a mão que lhe fora estendida. – Sim. Pretendo levar Elizabeth para jantar.

O sr. Bennet foi ocupar sua poltrona favorita e Darcy retornou ao seu lugar ao sofá.

--Posso lhe servir alguma coisa, sr. Darcy? – Indagou a sra. Bennet, ainda de pé próxima ao mural.

--Não, obrigado, sra. Bennet. – Darcy respondeu.

A sra. Bennet foi sentar-se no braço da poltrona do marido, ainda fitando Darcy com um sorriso nos lábios. Darcy percebeu que todos os olhares convergiam para ele e sentiu-se como um bicho de zoológico.

--Meu caro, o senhor sabia que o sr. Darcy é justamente o sócio do sr. Bingley, sendo arquiteto também? – A sra. Bennet comentou com o seu esposo.

--Tenho consciência de já ter ouvido isto antes, minha cara. – O sr. Bennet replicou, com um tom levemente impaciente.

--O sr. Bingley vem com muita freqüência a nossa casa, por causa da minha Jane. – A sra. Bennet argumentou, orgulhosa, voltando sua atenção para Darcy.

--Imagino que sim. – Darcy respondeu, por sua vez ficando igualmente impaciente.

--Mas ele vem e vai... Suas visitas são sempre muito rápidas. – A sra. Bennet continuou, com um quê de reclamação em seu comentário. – Tenho ainda que convencê-lo a ficar para um jantar... Talvez o senhor se sinta inclinado a participar deste jantar também.

Darcy não soube bem o que responder.

--Não seria maravilhoso, sr. Bennet? – Ela pediu o auxilio do marido.

--Certamente, minha cara. – O sr. Bennet assegurou, embora não demonstrasse o mesmo entusiasmo que a sua esposa com a circunstancia.

Neste instante, ouviu um cochicho e risinhos abafados vindos do corredor e, ao olhar naquela direção, viu duas adolescentes se esconderem apressadas. Enquanto uma terceira, um pouco mais velha, continuava a lhe fitar atentamente; sem desviar o olhar ou parecer constrangida por ter sida flagrada espiando a conversa alheia.

Franzindo a testa para a imagem daquela jovem, retornou sua atenção para o que a sra. Bennet continuava a dizer. Ela ainda estava tentando arrancar-lhe uma promessa de comparecer ao tal jantar.

~#~

--O que eu estou fazendo? – Elizabeth perguntou a Jane, amedrontada, parada diante do espelho e fitando a própria imagem. – Por que eu aceitei sair com ele?! Eu sequer gosto dele! – Exclamou, voltando-se de frente para a irmã.

--Ahh... – Jane ia dizer algo, mas diante do olhar que Elizabeth lhe lançou decidiu permanecer calada.

--O que? – Elizabeth quis saber, no entanto. – O que você ia dizer?

--Ora, Lizzie... Que é obvio que você não é indiferente a ele. – Jane respondeu. – Se o fosse, não gastaria tanto tempo e energia zangada com as coisas que ele diz ou deixa de dizer. – Argumentou racionalmente o seu ponto de vista. – E, evidentemente, ele também não é indiferente a você... Ou não teria lhe convidado para sair.

Elizabeth soltou um longo suspiro de frustração e uma expressão derrotada se apoderou de seu rosto.

--Nós não combinamos, Jane. – Elizabeth argumentou. – Ele é tão... – Mas não conseguiu encontrar palavras para descrevê-lo.

--Agora, tudo o que você precisa fazer é se acalmar. Tudo vai dar certo. – Jane a assegurou, percebendo o quanto a situação tinha se invertido de uma noite para outra. – Se você não gostar do encontro, não aceitará outro pedido como este. E o bom da coisa é que você não será corroída pela incerteza. Não haverá nenhum ‘e se’ perturbando o seu juízo.

--Você está certa. – Elizabeth concordou e, se aprumando, concluiu. – Afinal, é só um jantar... E ele é apenas um homem!

--Exatamente. – Jane riu-se. – Agora, vamos logo. Ele já deve estar ansioso lhe aguardando.

--Talvez eu devesse deixá-lo aguardando mais um pouquinho. – Elizabeth sugeriu, seguindo a irmã até a porta de seu quarto. – Quem sabe mamãe não o afugenta para mim? – Brincou, rindo-se nervosamente diante do olhar contrariado que Jane lhe lançou ao atravessar a porta de seu quarto. – Bingley deve estar chegando para lhe buscar, não?

--Sim. – Jane respondeu, corando levemente. – Nós vamos...

--Repetir a noite de ontem. – Elizabeth completou e o silêncio de Jane só confirmou as suas suspeitas.

Assim que as duas apareceram na sala, a sra. Bennet calou-se. Darcy, diante de seu silêncio e do olhar que a senhora lançava para o corredor, voltou a sua atenção naquela direção.

Ele se ergueu do sofá sem demora. Elizabeth assistiu-o fitá-la dos pés a cabeça, lentamente, sem perder aquele ar impenetrável. E sentiu um arrepio percorrer a sua espinha diante daquele olhar minucioso.

Tinha se dado ao trabalho de vestir-se elegantemente, mas sem exagerar. Um vestido preto inspirado no estilo 80’s, feito a mão, de malha de algodão orgânico. Com um busto similar a um corpete, delineando de forma lisonjeira a cintura. Que termina um pouco acima dos joelhos.

Adotou um sapato de salto alto combinando com o cinto e bolsa de mão. Deixou os cabelos soltos, levemente ondulados, com uma bela presilha em um dos lados do cabelo para dar efeito.

Sentia-se bonita ao se admirar no espelho. Mas, diante do olhar dele, era como se estivesse nua.

Trouxera de seu armário um sobretudo negro mais novo, o qual carregava dobrado no braço. Por isso não se incomodou em pegar o seu sobretudo branco no cabideiro próximo a porta.

--Está pronta? Podemos ir? – Darcy não demorou em inquirir.

--Sim. – Elizabeth respondeu.

--Bem, tenham uma boa noite. – O sr. Bennet desejou, lançando um olhar desconfiado ao casal.

--Volte sempre que desejar, sr. Darcy. – A sra. Bennet recomendou, alegre. – Será sempre bem-vindo nesta casa!

--Obrigado. – Darcy respondeu, já a porta. – Boa noite a todos. – E não demorou em sair atrás de Elizabeth.

Como um cavaleiro, abriu a porta do carro para ela e, assim que estava acomodada, fechou a porta. Deu a volta no carro e entrou pela porta do motorista. Sem hesitação, tirou o carro da vaga em que o estacionara e começou a dirigir pelas ruas londrinas naquela noite de outono – que estava se tornando cada vez mais fria com o passar dos dias.

Elizabeth ficou ligeiramente impressionada quando Darcy parou o carro enfrente ao The Goring, hotel ao lado do Palácio de Buckingham. E um manobrista abriu a porta do carro para que ela pudesse sair.

Assim que o fez, viu Darcy sair do carro também e entregar as chaves do seu BMW ao manobrista. Vindo juntar-se a ela na portaria de entrada do Hotel. Darcy guiou-a pela entrada do Hotel até o restaurante em seu interior, com uma das mãos nas suas costas.

Ele fizera reserva e assim que foram recebidos, seus sobretudos foram recolhidos e eles foram guiados até uma mesa mais reservada do restaurante. A decoração feita no estilo clássico e elegante, sendo especializado em pratos clássicos da culinária inglesa.

Enquanto atravessavam o salão, entre as mesas, Elizabeth não falhou em notar que era alvo de interesse de várias outras pessoas que ali jantavam. Embora Darcy parecesse indiferente a isto.

Notou também que as pessoas a sua volta estavam muito bem vestidas. As mulheres usavam vestidos longos e adornos elaborados. Até mesmo aquelas que escolheram vestir algo mais discreto, abusavam nas jóias caras.

E Elizabeth sentiu-se um pouco desconfortável, já que, embora seu vestido fosse de bom gosto, não era nada comparado com o que via ao seu redor. Mas já estava ali e não poderia voltar para casa e se trocar.

Acomodaram-se a mesa e não tardou para que um garçom viesse lhes entregar menus. Fizeram seus pedidos sem conversar muito. Darcy apenas lhe disse quais pratos já experimentara e que lhe agradara, permitido que ela escolhesse por si.

Após fazerem os pedidos, ficaram em silêncio total. O clima entre eles era um pouco constrangedor e os dois apenas se observavam por sobre a mesa elegantemente posta.

Até que Elizabeth começou a rir.

--O que foi? – Darcy perguntou-lhe, confuso quanto ao motivo da graça.

--Isto não é nenhum pouco estranho! – Ela respondeu, com sarcasmo evidente em suas palavras, mas ainda rindo.

--Nenhum pouco. – Ele foi forçado a concordar e também sorriu.

Para não permitir que aquele constrangimento recaísse sobre eles pela segunda vez, procurou algo sobre o que conversar.

--Ouvi sobre o passeio “de mulheres” que vocês fizeram recentemente. – Comentou. – Moira me disse que se divertiu muito.

--Sim, foi divertido. – Elizabeth afirmou.

--É uma coisa boa que vocês tenham se entendido e mantido contato. – Ele argumentou. – Moira não tem muitas amizades femininas aqui na cidade.

--Posso imaginar. – Elizabeth não conteve o comentário.

Imaginando que, se as companhias femininas mais freqüentes na vida dela fossem parecidas com Caroline, não era de se estranhar que tenha poucas amizades femininas na cidade.

--São poucas as pessoas que valem a pena manter contato... Moira é uma delas, definitivamente. – Completou.

--Você e Richard parecem ter se entendido bem na Escócia, também. – Ele incluiu, com um tom banal.

--Ahh sim. – Elizabeth não negou. – Ele me envia os e-mails mais engraçados.

--Vocês trocam e-mails?! – Não conseguiu disfarçar sua surpresa com esta revelação, tampouco o seu desagrado. Mas não demorou a se recompor.

--Hum-hum. – Elizabeth, no entanto, não deu muita atenção ao seu momentâneo arroubo. – Seu primo é um homem muito encantador.

--Com a sua longa lista de namoradas, não me surpreende nada que ele saiba exatamente como ser encantador. – Darcy replicou, friamente.

--Isso não foi uma coisa gentil de se dizer sobre o seu primo. – Elizabeth recriminou-o.

--É a pura verdade. – Darcy se justificou. – Eu sou honesto.

--Mas foi desnecessário. – Ela não cedeu em seu ponto de vista. – Seu primo não está aqui para se defender... E, afinal, o que você tem a ganhar ao tentar denegrir a imagem que faço dele?

Darcy sentiu-se como um menino de dez anos recebendo um sermão por ter sido malcriado. Mas manteve sua expressão inalterada e não procurou mais argumentar.

--Não que fosse ter sucesso neste intento... – Ela prosseguiu e não deixou de perceber que Darcy ficou ainda mais desconfiado com a sua defesa de Richard. – Já que creio que a imagem que tenho dele seja a sua verdadeira.

--Não me diga – Ele ironizou. – Então, você acredita que o vê como verdadeiramente é?

--Um homem irremediavelmente apaixonado. – Ela alegou e ele ficou em silêncio. Não tinha mesmo como contestá-la. – Mas não estamos aqui para falar sobre ele, estamos?

O garçom se aproximou da mesa e começou a servi-los. Eles fizeram uma pequena pausa na conversa enquanto o garçom ainda gravitava entorno de sua mesa.

--Devíamos estar falando de você. – Elizabeth prosseguiu assim que o garçom se afastou.

--O que você quer saber sobre mim? – Ele questionou-a, aparentemente não tão adverso ao novo tópico da conversa.

--Você já esteve? – Ela quis saber, com um sorriso enigmático agraciando seus lábios.

--O que? – Ele realmente não compreendeu o sentido da sua pergunta.

--Irremediavelmente apaixonado. – Esclareceu. E aguardou com grande expectativa a sua resposta.

--Não. – Ele não hesitou em responder.

--Nunca? – Elizabeth custava a acreditar.

--Nunca. – Darcy afirmou.

--Mas você namorou por uma década Anne De Bourgh. – Elizabeth não conteve o comentário;

Diante do olhar que ele lhe lançou, sentiu-se compelida a se explicar.

--Meu primo não fala em outra coisa desde que chegou a Inglaterra. É sra. De Bourgh isso, Srta. De Bourgh aquilo...

Apesar de sê-lo verdade, não tinha a intenção de explicar a ele que sabia sobre tudo isto antes mesmo de seu primo mencionar. Pois lera a sua entrevista no Profile.

--Adolfo tem a impressão de que vocês se casariam... Pelo menos, foi o que a sra. De Bourgh o fez acreditar.

--Ela estava enganada. – Ele respondeu, conciso; sem aparentar desejo algum em aprofundar-se naquele assunto.

--Por quê? – Mas Elizabeth estava curiosa.

--Por que o que? – Ele não estava gostando daquele tema, era evidente.

--Por que você não se casou com ela? – Elizabeth não estava pronta para desistir ainda. – Foram dez anos...

--Não foram dez anos. – Darcy corrigiu. – Nove.

--Detalhes. – Ela menosprezou a resposta que recebeu. – Por quê? – E insistiu na pergunta.

--Eu não a amava. – Enfim, disse, sem rodeios ou transparecer emoção.

Não havia como ela duvidar de suas palavras diante da sinceridade que via transparecida em seus olhos. Mas ainda ficou espantada com a frieza em sua voz.

--E levou nove anos para você se dar conta disso? – Ela inquiriu, incrédula.

Por um instante, acreditou que ele não comentaria mais nada àquele respeito. Principalmente pela forma que Darcy a observava naquele momento. Mas, após uma breve pausa, ele disse.

--Eu conheci Anne durante a universidade. – E já não havia frieza em sua voz. – Ela era tão bonita, inteligente e simpática quanto é hoje. E havia química entre nós... Sempre senti muito carinho por ela, como ainda tenho hoje. Mas nunca houve um sentimento mais forte entre nós, seja da minha parte como da dela. – Ele esclareceu, com naturalidade. – Nós, apenas, nos acostumamos um com o outro.

--Mas... foram nove anos! – Elizabeth ainda estava impressionada com suas palavras. – É muito tempo para manter um relacionamento sem amor... Especialmente, quando se trata de um simples namoro... sem as implicações de ter família e filhos em quem pensar.

Ele apenas a fitou dentro dos olhos, estes em chamas enquanto ela defendia o seu ponto de vista.

--Você soa como se não houvesse se apaixonado por ela desde o começo. – Ele continuou em silêncio. – Eu custo acreditar que você nunca tenha se apaixonado. Nunca sofreu por amor... – Elizabeth persistiu. – Nem mesmo na adolescência?

--Você já? – Ele interrogou, inclinando-se em sua direção; apoiando o cotovelo na mesa e encostando o queixo na mão. – Já amou alguma vez?

--Não. – Ela respondeu, sem pestanejar.

Ele sorriu, como se aquela resposta encerrasse a discussão.

--Amor é para sempre... – Elizabeth, no entanto, continuou a argumentar. – Se houvesse amado uma vez, continuaria amando agora.

Ele ficou hipnotizado com a paixão que via espelhada nos seus olhos.

--Mas já estive apaixonada... – Acrescentou. – Já tive meu coração partido... Já passei noites em claro pensando em alguém... Especialmente na adolescência. – E, rindo, debochada, disse. – Você é a primeira pessoa que diz nunca ter passado por isso... Nem mesmo na adolescência.

--Pois não passei. – “Pelo menos, não na adolescência.”, pensou consigo mesmo, ainda admirando-a sem disfarces.

O garçom voltou a se aproximar e servi-lhes a sobremesa.

--Então... – Darcy continuou a conversa quando o garçom se afastou. – ‘Amor é para sempre’?

--Sim. – Elizabeth reafirmou. – Vá enfrente. Pode rir. – Deu-lhe a liberdade. – Você deve estar achando que sou uma boba sentimentalista... Que a idéia que tenho de Amor é infantil e utópica.

--Estou apenas curioso. – Ele argumentou. – Qual é exatamente a idéia que você tem de Amor?

--Amor verdadeiro é incondicional, imprevisível, inesperado, incontrolável, insuportável. É algo que você não pode evitar ou esquecer. Você não pode, simplesmente, dar as costas ao Amor. Porque é mais forte do que você.

Darcy ficou em silêncio, abismado com suas palavras. Parecia-lhe que ela estava descrevendo justamente como se sentia quando estava perto dela. “Será que ela estava enxergando dentro dele? Será que estava certa? Poderia estar amando Elizabeth Bennet?”

Sacudindo levemente a cabeça, como se quisesse espantar estes pensamentos, tentou retomar a conversa.

--Isto soou como uma paixão obsessiva. – Argumentou. – E não Amor.

--E o que há de errado com um pouco de obsessão? – Elizabeth questionou, sorrindo charmosamente. – Com uma paixão avassaladora?

--Tudo para você tem que ser assim tão... intenso? – Elizabeth viu estampado nos olhos dele um brilho diferente, hipnotizante.

--Por que não? – Ela respondeu. – Em se tratando de Amor, qualquer outra coisa menos que isso não é o suficiente.

--Quem sou eu para discordar... – Ele murmurou; mais para si que para ela.

Eles continuaram a conversar inconscientes das pessoas ao seu redor. No avançar da hora, o garçom veio até a sua mesa para perguntar-lhes se ainda desejavam alguma coisa. Foi então que perceberam que o restaurante estava praticamente vazio. Havia apenas mais dois casais em mesas distintas, quais já estavam pagando a conta.

--O restaurante já está fechando? – Darcy questionou ao garçom, mas olhando o próprio relógio de pulso.

--Sim... Dentro de alguns minutos. – O garçom respondeu.

Elizabeth também olhou para o próprio relógio de pulso.

--Uau... já está tarde. – Comentou, surpresa.

--Você pode trazer a conta, por favor. – Darcy disse ao garçom.

Os dois foram os últimos a deixarem o restaurante. De volta ao carro, o silêncio se apoderou dos dois novamente. Ambos surpresos com o fato do jantar ter sido tão bom e ansiosos com o seu desfecho.

As ruas londrinas já não estavam tão movimentadas. E, ao estacionar o carro enfrente ao prédio em que reside os Bennet, notaram que não havia uma luz acesa em nenhum dos andares.

Darcy desceu do carro e abriu a porta para Elizabeth saltar do veículo. O coração de Elizabeth voltou a se agitar em seu peito e ela aguardou ao lado dele, próxima ao seu carro. Esperando que ele dissesse alguma coisa ou fizesse alguma coisa.

Diante de seu silêncio e imobilidade, ela disse.

--Bom... – Ligeiramente decepcionada. – Boa noite. – E seguiu em direção a entrada do prédio.

Tinha subido o primeiro dos três degraus, quando sentiu a mão dele se fechar em seu braço, por sobre o sobretudo, e puxá-la de volta para si. Enquanto virava-se de frente para ele, sentiu-o enlaçar sua cintura com a outra mão e aproximar os seus corpos com mais eficiência.

Aquele cheiro másculo de sabonete, loção pós-barba e pele a inebriou. Ele pressionou seus lábios quentes aos dela sem hesitação. E este beijo compensou aquele outro que fora interrompido.

Elizabeth sentiu como se estivesse sendo transportada para um mundo paralelo, onde só existiam os dois... Perdidos naquele momento.

Ao fim do beijo, a respiração dos dois estava entrecortada.

--Será que corro algum risco de você partir meu coração? – Ele questionou com a voz rouca.

Elizabeth, quem estivera ainda com os olhos fechados, abriu-os e fitou-o. Darcy mantinha a expressão controlada, embora ela sentisse por debaixo do sobretudo e terno o coração bater forte no peito dele.

--Creio ser a única correndo riscos aqui. – Replicou, não conseguindo ignorar tudo o que ouvira dele esta noite durante o jantar.

Darcy não demorou a beijá-la uma segunda vez, com um ímpeto desmedido. Os braços comprimindo o corpo dela de encontro ao seu cada vez mais forte. E o segundo beijo se transformou em terceiro, que evoluiu para um quarto.

--Eu devo ... Devo entrar... – Elizabeth tentou dizer, já sem fôlego algum.

--Não. – Darcy pressionou novamente seus lábios sobre os dela, exigente.

--Nós não podemos... Não podemos... – Elizabeth argumentou. – ...ficar a noite inteira aqui na rua. – Com esforço, conseguiu pronunciar as palavras por inteiro.

--Não vejo por que. – Mas Darcy estava irredutível.

--Bom senso. – Ela disse, inclinando a cabeça para trás e, assim, impedindo que voltasse a beijá-la.

--Superestimado. – Ele argumentou, com uma sombra de sorriso nos lábios.

Elizabeth deixou-se beijar mais algumas vezes, antes de conseguir se desvencilhar dele.

--Boa noite, sr. Darcy. – Disse, ao cambalear em direção a porta do prédio; sentindo-se levemente embriagada, embora não houvesse ingerido nada alcoólico.

--William. – Darcy corrigiu-a, num murmúrio; ali, parado, com ambas as mãos dentro dos bolsos laterais de seu sobretudo, observando-a se afastar.

Elizabeth voltou-se para olhá-lo ao ouvir isto e sorriu.

--Boa noite, Lizzie. – Ele correspondeu ao sorriso.

E, ao mesmo tempo, cada um seguiu o seu caminho. Elizabeth abriu a porta do prédio com a sua chave, entrando e fechando a porta. E Darcy entrou no carro, indo embora.

 

 

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