Citações

Nada é mais enganoso do que a aparência de humildade, que é frequentemente apenas a falta de personalidade. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XVIII

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Capítulo XVIII

O recém-chegado

 

Uma visita inesperada de um sobrinho do sr. Bennet, com o qual não tinha contato desde que fora morar no exterior com a sua família,  estava pondo o apartamento da família Bennet em completo alvoroço aquela manhã.

--Lizzie, o que está fazendo? – A sra. Bennet interrogou sua segunda filha, parada à porta do quarto desta.

Elizabeth estava com seu armário de roupas abertos e com uma mala sobre a cama, onde já se encontravam algumas das suas peças de roupa mais intimas. Enquanto ela juntava outros objetos particulares.

--Estou arrumado as minhas coisas para levar para o quarto de Jane. – Elizabeth esclareceu.

--Isto não é necessário, menina. – Sua mãe a reprovou. – Você estará dormindo no quarto ao lado, tenho certeza de que se precisar de algo poderá vir buscar aqui. Seu primo não se incomodará.

A idéia de deixar suas calcinhas ao alcance das mãos de seu primo, quem, em suas lembranças de infância, era um rapaz corpulento, baixinho para sua idade e de personalidade esquisita, lhe dava calafrios.

--Não, obrigada. – Replicou, estremecendo somente em pensar nesta possibilidade. – Prefiro ter as minhas coisas comigo.

--Isto não será necessário. – O sr. Bennet, parado ao corredor enfrente a porta do quarto logo atrás de suas esposa, se pronunciou. – Collins irá dormir no sofá-cama em meu escritório.

--Isto não tem cabimento, Joseph. – A sra. Bennet protestou. – O seu escritório é um cubículo empoeirado. Dificilmente o lugar ideal para se acomodar uma visita.

--Collins é meu sobrinho, portanto família... Irá entender que temos espaço limitado para acomodar a todos da melhor forma possível. – Sr. Bennet contrapôs. – Ele não irá gostar de saber que estamos desalojando uma de suas primas para poder acomodá-lo. Certamente, não deseja impor-nos nenhum inconveniente.

Elizabeth conseguia imaginá-lo dizendo algo do tipo, mas, na realidade, não se importando nenhum pouco em ser um estorvo.

--E caso não se sinta acolhido o bastante, poderá procurar facilmente dependências de um hotel de luxo que o hospede de última hora. – O sr. Bennet concluiu, seguindo o seu caminho.

--Mas, Joseph... – A sra. Bennet o seguiu, ainda tentando remediar a situação.

Elizabeth sabia que suas tentativas seriam infrutíferas. O seu pai e o seu tio tinham uma rusga antiga, a qual seu pai, pelo visto, ainda não superara. E como seu primo, Adolfo Collins, era uma cópia do próprio pai – tanto fisicamente, como em personalidade – não era de se estranhar que a animosidade que o sr. Bennet sentia pelo seu irmão fosse transferida para o seu sobrinho.

Elizabeth ainda se lembrava dos episódios em que o seu primo afirmava que se casaria com Jane quando esta crescesse, como se estivesse lhe fazendo um favor. Por isto, não se sentia nem um pouco culpada com tais arranjos.

~#~

Georgiana pensara que estaria se sentindo melhor pela manhã. Como estava enganada! Não tinha a mínima vontade de sair da cama, queria poder se esconder embaixo de suas cobertas eternamente.

Mas foi impedida pela invasão de seu quarto por suas duas amigas, as quais ainda estavam preocupadas com ela.

--Está se sentindo melhor? – Rebecca curvou-se sobre ela e tentou sentir sua temperatura.

--Sim. – Mentiu; pensou que já deveria saber como fazê-lo a esta altura de sua vida.

E, para comprovar, ergueu-se, sentando-se na cama. Betsy acomodou-se na beirada, aos seus pés, e Rebecca um pouco mais a sua frente. Ambas a encarando.

--Você irá nos contar o que está acontecendo? – Rebbeca perguntou-lhe, seriamente.

--Eu não entendo. – Georgiana replicou, alarmada.

--Você pode confiar em nós, Georgie. – Betsy proclamou.

--Nós sabemos que há algo que você não está nos contando. – Rebecca assumiu a liderança daquela conversa. – E tem a ver com Holly.

--O jeito que você se comporta perto dela. E as suas reações às coisas que ela diz a seu respeito... são suspeitas. – Betsy completou.

Após hesitar muito, Georgiana decidiu revelar alguns fatos de sua história com Holly. Pelo menos, aqueles fatos menos comprometedores.

--Nós não somos amigas.

--Isto nós já sabíamos. – Rebecca declarou.

--No passado, eu pensei que fossemos... Mas nunca fomos. – Georgiana prosseguiu. – No colegial, eu não tinha muitos amigos. Eu tocava piano, disso vocês já sabem.

As meninas a escutavam atentamente.

--E, fora o circulo de amigos que fiz nas aulas de música, ninguém mais prestava muita atenção em mim. Eu nunca fui muito extrovertida e não fazia amizade com muita facilidade.

Nenhuma das meninas se surpreendeu com esta afirmação. Georgiana ainda é muito reservada.

--Eu tive meu primeiro contato com Holly em um jantar de negócios de meu pai. O seu pai, o sr. Younge, estava tentando fundir a sua companhia com a de meu pai... O que mais tarde não aconteceu por causa de visões divergentes quanto ao rumo dos negócios... O que importa é que, naquele jantar, nós fomos apresentadas oficialmente.

Georgiana estava relatando tudo com bastante calma e com cautela. Não queria correr riscos de se emocionar e revelar mais do que pretendia.

--Eu já a vira pelos corredores da escola, mas nós não andávamos com o mesmo grupo de amigos. Holly, ao contrário de mim, sempre foi bastante popular... Então, pode-se dizer que eu fiquei bastante surpresa quando, após aquele jantar, ela se aproximou de mim, tentando ser minha amiga.

Agora, pensando a respeito, soube que deveria ter sido mais atenta. Os motivos para esta aproximação estavam claros.

--Eu não sabia naquela época que ela o fez, unicamente, por causa de quem eram os meus pais... Pelo o que o nome “Darcy” representava. E porque eu estava começando a receber reconhecimento por causa do piano...

Fez uma pequena pausa, para respirar fundo. Odiava aquele assunto.

--Aquela época eu estava feliz por fazer novas amizades, por ser notada por garotos... Sim, porque, uma vez que comecei a andar com ela, outras pessoas desejaram me conhecer e garotos começaram a me dar atenção.

Nenhuma das meninas disse nada. Estavam inteiramente concentradas naquela narrativa.

--E ela me parecia sincera quando estava comigo... Eu realmente pensei que fossemos amigas, confiei nela.

Georgiana não escondia sua indignação por se deixar enganar pelas aparências.

--Eventualmente, sua máscara caiu... e ela mesma admitiu para mim que não gostava de mim, que apenas me aturava por causa de quem eu era.

Empertigando-se na cama, declarou resolutamente.

--Então, não... Nós não somos amigas. Nunca fomos. E eu reajo de forma estranha quando estou perto dela porque eu sei que todas as coisas que faz e todas as coisas que diz, seja a meu respeito ou não, tem segundas intenções por detrás. – Concluiu sua narrativa. – Eu simplesmente não confio nela. Não gosto dela nenhum pouco.

--Eu suspeitei que ela não fosse confiável. – Rebecca declarou, pensativa. – Eu acho que ela usou o seu nome para se aproximar de Patrick.

--Eu pensei nisto também. – Confirmou Betsy. – Aquela história de como eles ficaram pela primeira vez... Suspeita. Muito suspeita!

--Eu acho que ela se aproximou dele por minha causa. – Georgiana contou-lhe suas desconfianças.

Diante dos olhares estranhos de suas amigas, explicou-se.

--Ela deve estar com alguma idéia errada de que me passou a perna, ficando com ele em meu lugar.

--Porque naquela noite em que vocês se reencontraram, você tinha acabado de receber um beijo de Patrick por causa do Bartender’s drink. – Rebecca não demorou em acompanhar o seu raciocínio.

--Menina psicótica. – Betsy declarou, fazendo uma careta.

Suas amigas riram.

--Acha que devíamos contar ao Patrick? – Betsy interrogou as duas.

--Não. – Rebecca disse. – Ele sabe se virar. Além do mais, quando ela perceber que Georgie não está nem aí para quem Patrick namora, ela irá se afastar.

--Ela errou feio nesta tática de vingança. – Betsy declarou. – Seu coração já pertence a outro.

-Ahh... Ikarus! – Rebecca suspirou, dramática.

Georgiana corou e Betsy riu.

--Ah, não se esqueça de Vincent! – Betsy declarou. – Ele parecia encantado por ela ontem.

--Verdade. – Rebecca concordou. – E então? Como ficam as coisas?

--Eu não sei do que está falando. – Georgiana se apressou em afirma. – Foi coisa de uma noite só.

--Quero só vê se ele vier a te procurar! – Betsy proclamou, maliciosa.

--Você devia conhecer este Ikarus de uma vez e descobrir se vocês têm futuro como namorados. – Rebecca aconselhou. – De nada vai lhe adiantar ficar dispensando caras maravilhosos como Vincent por um namoro virtual.

--Está certo. – Georgiana não pôde discordar dela neste ponto. – Mas vamos falar de vocês duas, sim? O que aconteceu com vocês duas?

As duas se entreolharam e nenhuma se pronunciou.

--Becca? – Georgiana começou por ela; afinal, fora o motivo para a saída da noite passada. – O que achou de Russell?

--Ele é ótimo. – Declarou, sem muita animação.

--Ótimo? – Betsy questionou, de forma exagerada. – Apenas “ótimo”?! Eu ponho um deus grego no seu caminho e o máximo que você consegue dizer é: “ele é ótimo’?!

Georgiana e Rebecca riram da atitude da amiga.

--Olha, nós conversamos. – Rebecca se explicou. – Ele é inteligente, divertido... e lindo. Não nego. Mas...

--Não, não, não. Não há “mas”! – Betsy estava indignada.

--Calma, Betsy. – Georgiana pediu.

--Vai me dizer que você não o beijou. – Betsy continuou mesmo assim.

--Não beijei. – Rebecca declarou.

--Não acredito. – Betsy estava evidentemente decepcionada.

--Eu contei a ele sobre... o meu predicamento... e ele entendeu. – Rebecca se justificou. – Nós estamos nos conhecendo. Não há porque precipitar as coisas.

--Concordo plenamente. – Georgiana a apoiou. – E você? – Voltou o interrogatório para Betsy antes que ela pudesse continuar com os seus protestos. – Eu pensei que você não quisesse ficar com Caleb.

--Eu não queria. – Betsy afirmou, simplesmente.

--Mas eu vi vocês se beijando. – Georgiana acusou.

--E nos beijamos. – Betsy não negou.

Rebecca começou a rir.

--Ah, por favor, vai me dizer que nunca ficou com um menino só porque ele soube exatamente como lhe cantar. – Betsy disse, impaciente. – Está certo que ele não faz lá o meu tipo, mas... Ele me tratou de um jeito... Foi tão atencioso e carinhoso comigo que foi difícil dizer “não” pra ele.

--Te venceu pelo cansaço. – Rebecca sugeriu, divertida.

--Pode-se dizer que sim. – Betsy concordou. – Além do mais, ele sabe como beijar! Eita beijo bom! – Suspirou, por fim.

As meninas gargalharam. E Georgiana se deu conta de que já estava se sentindo muito melhor.

~#~

Adolfo Collins não mudou muito desde a juventude. Continuava baixinho, embora já não fosse tão rechonchudo quanto na adolescência. Em termos de personalidade, continuava o mesmo.

Ao ser acomodado no escritório do sr. Bennet, virou o nariz para o sofá-cama. Mas agradeceu a hospitalidade do sr. e da sra. Bennet pela gentileza de recebê-lo sem prévio aviso de sua visita.

Não tardou a crivar a sra. Bennet de perguntas a respeito dos negócios da agência de modelo, oferecendo-lhe ajuda caso precisasse de conselhos para investimentos mais rentáveis.

Quis saber do sr. Bennet se ainda estava lecionando e seus planos de aposentadoria. Informando que o seu pai já estava colocando os negócios em dia para passá-los para suas capazes mãos.

E não tardou a questionar suas primas também, querendo saber sobre tudo – trabalho, escola, relacionamentos.

Na altura do jantar, informara a família o motivo de sua visita.

--A sra. Catherine De Bourgh solicitou a minha presença aqui. – Disse, com orgulho. – Como vocês devem saber, esta incrível senhora é uma grande empresária.

E entre muitos elogios a tal senhora, relatou-lhes que tinha negócios com ela há longa data. Estes iniciados por seu pai. Como estava assumindo os negócios, agora estaria tratando com a senhora pessoalmente.

E, em vistas disto, a grande lady solicitou sua presença no país porque está necessitada de sua assistência com os investimentos que a sua filha, Anne De Bourgh, planejava fazer com a herança de seu falecido pai.

--Anne está envolvida com um ator hollywoodiano e sua atenciosa mãe está preocupada quanto à influência deste jovem sobre as escolhas de sua filha. – E, com ar de confidência, revelou. – Aparentemente, Anne está pensando em produzir um dos filmes deste rapaz e sua obsequiosa mãe solicitou os meus serviços. Para caso este fato venha se concretizar, possa se sentir segura de que o negócio seja devidamente planejado e lucrativo.

~#~

Aquela semana passou bastante depressa. Na quinta Mary estava sentada ao refeitório no campus da universidade, começando a almoçar.

Quando acontecia de almoçar na universidade, geralmente o fazia sozinha. Por mais que o refeitório estivesse lotado, era raro algum colega seu desejar partilhar uma mesa com ela.

Foi com bastante surpresa que viu os dois meninos sentarem-se a sua mesa, terminando uma conversa que estavam tendo. Ficou parada olhando para eles por alguns momentos, estranhando tal comportamento.

--Hei, Mary. – Lucian finalmente lhe dirigiu a palavra.

--Oi. – Respondeu.

Craig cumprimentou-a com um simples aceno de cabeça e os dois continuaram a conversar, enquanto comiam. Mary voltou a comer e tentou acompanhar a conversa dos dois, mas não se intrometeu no assunto.

Quando estava quase terminando seu almoço, um grupo de garotas passou por sua mesa e se sentaram também. Desta vez Mary parou de comer definitivamente e ficou a observá-las, atônita. O que estava acontecendo com as pessoas hoje?

--Você irá a minha festa amanhã, Lucian? – Uma delas questionou. – Vocês dois?

--Claro. – Lucian replicou, aceitando por ele e Craig. – E quanto a você, Mary? Quer ir?

Mary viu que o convite feito a eles não se estendia a ela pelo olhar que a menina que o fizera estava lançando em sua direção agora. Por isso, respondeu.

--Não, obrigada. Eu não gosto de festas.

--Como é? Você não gosta de festas? – Outra menina inquiriu de forma exagerada.

--Estar em um local cheio de jovens embriagados, sem a mínina capacidade de ter uma conversa coerente, ouvindo música nas alturas não é a idéia que tenho de “diversão”. – Respondeu com seriedade, sustentando o olhar que as meninas ali presentes lhe lançavam.

--Esquisita. – Uma delas resmungou, prendendo um risinho.

Mary decidiu encerrar o seu almoço por ali e saiu da mesa.

--Vemos você mais tarde? – Craig quis saber, fazendo-a parar um pouco mais adiante e voltar-se para a mesa.

Lucian e Craig a olhavam com expectativa, enquanto as outras meninas trocavam olhares de incredulidade.

--Mais tarde. – Confirmou e seguiu o seu caminho.

Decidiu ir cedinho para o laboratório, para poder estar lá quando os meninos estivessem começando a usá-lo. Só precisou esperar dois minutos para que eles chegassem e a encontrasse ali.

Os dois estavam com bom humor, porque riam ao entrar no laboratório. E ao se aproximarem da banca em que ela os agradava, um disse ao outro.

--‘Cérebro, o que você quer fazer esta noite?’ – Craig perguntou, pegando seus óculos transparentes e colocou-o no rosto.

--‘A mesma coisa que fazemos todas as noites, Pinky.’ – Lucian respondeu. – ‘Tentar conquistar o mundo!’ – Fazendo o mesmo.

E, ao dar início a experiência, começaram a cantar a música de abertura do desenho animado.

--‘O Pinky e o Cérebro... O Pinky e o Cérebro...

Um é um gênio... o outro imbecil...

Não cansam de tentar... mundo dominar...

É o Pinky, o Pinky e o Cérebro... O Cérebro e o Pinky e o Pinky e o Cérebro...’

Era tudo tão bizarro e inesperado que Mary não conteve uma gargalhada.

~#~

Estava saindo da sua sala, ao fim de mais um expediente, quando se deparou com o seu primo. Este estava cumprimentando com sua usual galantearia a recepcionista.

--O que está fazendo aqui, Richard? – Perguntou-lhe, caminhando em direção ao elevador.

--Boa noite, sr. Darcy. – Margot, a recepcionista, despediu-se de seu chefe.

--Boa noite, Srta. Keston. – Darcy retribuiu.

--Vim convidar você e Charles para um drinque de fim de noite. – Richard afirmou, desviando sua atenção da recepcionista e concentrando-a em Darcy, ao acompanhar o primo até o elevador.

--Você sabe que não estou bebendo nada alcoólico por estes dias.

--Ahh... certo. Por causa do remédio para insônia. – Richard argumentou, parecendo realmente ter se esquecido deste fato. – Quanto a Charles? ...Moira?

--Não sei quais são os planos de Charles para esta noite, mas Moira já foi para casa.

--Verdade? Tão cedo? – Richard interrogou. – Ela geralmente sai depois de você.

--Ela tinha planos para esta noite e me pediu para sair mais cedo. – Darcy informou.

--Planos? – Richard alarmou-se. – Que tipo de planos? Com quem?

--Acalme-se. – Darcy respondeu, com um sorriso debochado nos lábios. – Ela saiu com as irmãs Bennet. “Noite das garotas”.

--Ahh... – A expressão no rosto de Richard logo se suavizou. – Então, isto quer dizer que Charles não vai sair com Jane hoje?

--Não. – Darcy concordou. – Não irá.

Depois de ter esta informação confirmada por Darcy, Richard acabou por convencê-lo a esperar que descobrissem quais seriam os planos de Charles para aquela noite, para que pudessem sair os três juntos. Charles, por sua vez, foi ainda mais fácil de se deixar convencer por Richard.

Os três foram para um pub próximo ao prédio em que a sociedade de Darcy e Bingley se localizava, e cada um pediu uma bebida – Darcy, claro, limitou-se a uma batida de frutas virgem.

Surpreendeu-se quando o seu primo limitou-se a paquerar as mulheres a distância, assim como Charles. Se a fidelidade que via no comportamento de Charles para com Jane não fosse motivo de surpresa suficiente, a de seu primo para com Moira era algo inesperado. Eles sequer estavam envolvidos e seu primo já estava agindo como se estivessem comprometidos.

--Estou perplexo com você, Richard. – Darcy, enfim, se pronunciou.  – O que ocasionou esta mudança de atitude? Estamos aqui há mais de uma hora e você ainda não cantou nenhuma mulher.

--Estou apenas seguindo um conselho de uma mulher muito inteligente. – Richard replicou, enigmático.

--Finalmente decidiu dar atenção ao que tia Alice lhe diz desde que entrou na puberdade? – Darcy brincou.

Sua tia vivia tentando pôr um pouco de juízo na cabeça de seu filho mais novo, mas sem ter muito sucesso.

--Minha mãe é muito sábia, mas não estou me referindo a ela. – Richard contrapôs.

--Quem, então? – Charles quis saber.

--Elizabeth Bennet.

Darcy não gostou muito do tom de admiração que detectara na voz do primo.

--E qual foi o conselho maravilhoso que ela lhe deu? – Perguntou, um pouco mal-humorado; não conseguiu controlar sua curiosidade.

--Disse-me, resumidamente, para manter o foco no que quero. – Richard respondeu. – E é o que estou fazendo.

--Bom conselho. – Charles concordou.

--Você devia fazer o mesmo. – Richard dirigiu-se a Darcy.

O primo o fitou com desconfiança. “O que Richard poderia saber?”, Darcy se perguntava. Principalmente pela forma que o primo lhe olhou ao falar isto.

~#~

O táxi em que as irmãs Bennet se encontravam parou enfrente a um prédio residencial elegante e Charlotte adentrou o veículo. As três seguiram viagem no táxi conversando sobre as novidades. Ainda teriam de fazer mais uma parada, para apanhar Moira, antes de começar a aproveitar o happy-hour daquela noite de sexta-feira.

--Conte-me sobre o curso de fotografia. – Charlotte pediu a Elizabeth. – Começou esta semana, não?

--Sim. – Elizabeth respondeu com entusiasmo. – E estou amando.

--Não só o curso. – Jane contrapôs, sorrindo.

--Ooh... Tem um gatinho na parada! – Charlotte se animou.

--Gatão, é mais preciso! – Elizabeth riu. – O seu nome é George Wickham e ele é instrutor do curso.

--Me conte mais. – Charlotte pediu, excitada.

--Ele é simpático, muito bom profissional... Ahh e como é gostoso! – Elizabeth declarou, se abanando. – Loiro, alto, forte...

--Solteiro?! – Charlotte interrogou de imediato.

--Aparentemente sim. – Elizabeth não demorou a responder. – Eu ainda não tive muito contato com ele, pessoalmente... Mas o curso só está começando, então...

--Muitas oportunidades! – Charlotte concordou.

--Pelo que fiquei sabendo, ao escutar a conversa de duas outras alunas do curso, ele costumava ser modelo quando mais jovem... Que já chegou a fazer campanhas para Calvin Klein.

--Será que há alguma chance de você achar uma fotografia dele de cueca para me mostrar? – Quis saber Charlotte, espevitada.

Jane e Elizabeth riram.

--Foi como modelo que se interessou pela fotografia. – Elizabeth não demorou a prosseguir com o relato.

--Como Lizzie. – Jane comentou, alegre; gostava de ver a sua irmã com este entusiasmo.

Desde o dia em que Elizabeth caiu no colo de um estranho no metrô que não a via tão entusiasmada com o sexo oposto.

--Precisava ter ouvido as duas alunas... Lembraram-me tanto Lydia e Kitty. – Elizabeth comentou. – Falando que mal podiam esperar pela aula no quarto - escuro!

As três riram.

--Fiquei com a impressão de que elas estavam fazendo o curso por causa dele. – Elizabeth declarou. – Pela forma que pareciam saber tanto a respeito da vida dele.

--O que mais elas sabiam?

--Que ele esteve “ausente” do país estes nos últimos três anos.

--Ausente? – Charlotte estranhou.

--Elas não sabiam dizer ao certo. Mas ele devia estar viajando a trabalho. – Elizabeth esclareceu.

--E você, Jane? – Charlotte redirecionou o seu interrogatório a outra Bennet, quando o assunto do “instrutor gatão” se esgotou. – Como anda o país das maravilhas?

--Maravilhoso. – Elizabeth respondeu por ela, porque sua irmã corou profusamente. – Charles é o verdadeiro príncipe encantado!

Charlotte suspirou, com aquela conhecida inveja saudável. Era uma mulher prática, nunca fora chegada a arroubos de paixões pessoalmente. Mas suspirava com histórias alheias que fossem regadas por uma boa dose de paixão e drama.

--E vocês já mandaram ver?! – Quis saber, não contendo a curiosidade.

--Charlotte! – Jane estava estupefata com a audácia de sua pergunta.

--O que?! – Fez-se de desentendida, enquanto Elizabeth gargalhava.

Jane estava ainda mais vermelha e olhava de relance para o retrovisor, para saber se o motorista estava escutando a sua conversa.

--E então? Irá me dizer como o príncipe encantado é na cama? – Charlotte não desistiu, mas fez a bondade de diminuir o seu tom de voz.

--Eu não sei... ainda. – Jane sussurrou a resposta, timidamente.

--Como não sabe?! – Charlotte voltou a exclamar. – Você não quer...?

Jane voltou a olhar para o retrovisor, antes de cochichar.

--Claro que quero. – Sentia a vontade de esconder o rosto com as mãos. – Só que... Charles me respeita muito.

--Estou completamente confusa. – Charlotte declarou.

--Eu disse a ele que levava este aspecto de uma relação amorosa muito a sério e... Bem, agora sempre as coisas começam a esquentar entre nós... ele pede uns minutos para se recompor. – Jane explicou, terrivelmente embaraçada.

--Por que você não diz a ele que já chegou o momento? – Charlotte propôs.

Jane parecia ainda mais pasma com esta proposta.

--Char, esqueceu com quem está falando? – Elizabeth a interrogou. – Jane nunca conseguiria fazer algo do tipo. Eu não tenho certeza se eu teria coragem.

--Isto porque você é virgem! – Charlotte exclamou e o taxista pigarreou.

--Hei! – Elizabeth reclamou, olhando para o retrovisor; mas o taxista não estava olhando por ele para vê-las. – Eu gostaria muito de não discutir a minha vida-sexual-não-existente. – Resmungou, baixinho.

--Eu não me preocuparia muito com isso, se fosse você. – Charlotte contrapôs. – Se o instrutor gatão descobrir isto ficará muito contente em resolver o seu probleminha.

--Char, você está impossível hoje! – Elizabeth declarou, mas ainda assim riu.

--Humm... Vamos ver, então.

Charlotte voltou sua atenção para Jane novamente, tentando encontrar uma solução para o seu problema.

--Você poderia aproveitar uma de suas saídas com o príncipe encantado e, depois de se produzir inteira para ele, alega cansaço e pede que a leve para o apartamento dele. Para que possam fazer um programa mais caseiro, como um filmezinho no sofá da sala e comidinha entregue em casa. E, então, quando os dois estiverem bem à vontade, sozinhos, e começar a pegar fogo, tudo o que você terá de fazer é não deixar que ele tome os minutinhos para “se recompor”.

Podiam contar com Charlotte para ter idéias racionais e lógicas, muito fáceis de pôr em prática. Elizabeth não tinha certeza se sua irmã teria a ousadia de seguir o seu conselho. Mas imaginava que se Moira estivesse presente naquela conversa e depois a relatasse a Charles, não duvidaria muito que Charles batesse a porta de sua casa amanhã com um DVD em uma mão e um cardápio de delivery na outra.

O táxi parou enfrente a outro prédio residencial elegante e Moira entrou no táxi. As apresentações foram feitas.

--Charles pareceu muito decepcionado em não poder vê-la esta noite. – Moira disse a Jane.

Jane sorriu, meigamente.

--Eu também estou. – Proclamou, tímida.

--Ele não pode ter ciúmes. – Elizabeth disse. – Afinal, vamos fazer programas de mulheres. E eu também tenho o direito de aproveitar a minha irmã.

--É uma pena que Caroline não aceitou o meu convite. – Jane disse, sentida. – Mas eu entendo que já tinha outros planos.

Elizabeth dirigiu um olhar para Charlotte e segurou um sorriso. Depois percebeu que Moira o captara e também sorria discretamente.

--Então, seu primo está hospedado em sua casa? – Charlotte perguntou, para mudar o foco da conversa.

--Sim. Que figura! – Elizabeth riu.

--Lizzie. – Jane a reprovou.

--Por favor, ele age como se tivesse o rei na barriga. – Elizabeth não mediu palavras.

E passou a relatar tudo que acontecera desde o momento em que descobriram que ele estava vindo para Londres.

--E por que seu pai não gosta dele? – Moira perguntou.

--Não é exatamente dele. – Jane esclareceu.

--É dele também. Mas porque ele se parece muito com o seu pai. – Elizabeth argumentou. – Meu pai e meu tio têm desavenças desde muito jovens. – Continuou. – Nossos avôs nunca foram para a universidade, fizeram a vida com o comércio. E conseguiram sustentar muito bem os filhos, até pagar-lhes uma universidade. Meu tio seguiu um rumo de vida voltado para os negócios, fez faculdade visando expandi-los e mais tarde abriu uma consultoria de investimentos. Enquanto meu pai preferiu o ramo acadêmico. E este foi o primeiro motivo de discórdia entre os dois.

--Meu tio nunca aprovou o modo de vida que meu pai escolheu. – Jane interpôs.

--Depois meu pai se apaixonou pela minha mãe e se casou com ela, uma modelo. – Elizabeth acrescentou mais um motivo.

Charlotte e Moira franziram a testa, sem entender como isso poderia ser motivo de discórdia.

--Naquela época mulheres que trabalhavam com entretenimento eram consideradas “mulheres da vida”. Modelos, atrizes... eram vistas como prostitutas. – Elizabeth explicou. – E meus avôs, conseqüentemente meu tio, tinham uma visão conservadora do mundo... Preconceitos deste tipo são muito difíceis de combater.

--Minha mãe ter deixado a sua profissão quando me teve serviu para aplacar o preconceito deles só por um determinado tempo. – Jane completou.

--O fato de meu pai ter tido cinco filhas, as quais precisava sustentar com o salário de professor, não ajudou muito. – Elizabeth prosseguiu com a narrativa. – E tudo piorou quando nos mudamos para cá e meu pai permitiu que minha mãe nos transformasse em modelos.

--Uau... Eu não podia imaginar. – Charlotte declarou.

--Bem, é isso. – Elizabeth disse. – E Collins é igual ao meu tio. Pensa como ele. Acha que a sua família e o seu modo de vida é o certo, o nosso o errado. A condescendência com que nos trata é irritante. E olha que ele está hospedado em nossa casa, mas age como se estivesse nos fazendo um grande favor ao nos agraciar com a sua presença. – Resmungou, contrariada.

--Ele continua dizendo que irá se casar com você? – Charlotte perguntou a Jane, divertida com toda a situação.

Moira achou estranho e Elizabeth começou a rir.

--Não. – Jane respondeu, constrangida.

--Minha mãe deixou “escapar” que Jane está namorando Charles e Collins diminuiu suas atenções para com minha querida irmã Jane. – Elizabeth esclareceu, debochada.

--Na verdade, ele redirecionou as atenções dele para outra pessoa. – Jane corrigiu, dirigindo um olhar significativo para Elizabeth.

Elizabeth fez uma careta e as outras mulheres riram.

--Perdendo tempo, coitado. – Voltou a resmungar.

Ao chegarem ao cinema, as quatro racharam a conta do táxi e foram para a bilheteria. Nada como um bom filme para entreter as quatro mulheres.

~#~

Darcy espreguiçou-se sem pressa e abriu os olhos lentamente, um perfume familiar dominava o ar a sua volta – era o perfume dela. O seu quarto estava banhado por claridade, iluminado pela luz do dia que entrava pela porta da varanda – as cortinas estavam totalmente abertas, assim como as portas.

Mas foi a imagem que lhe acolheu que lhe tirou o fôlego. Ela estava de pé ao seu lado da cama, vestida com uma camisola de seda de alcinhas rendadas, branca.

Ao vê-lo desperto, subiu na cama ao seu lado. A saia da camisola subiu alguns centímetros com este movimento e descobriu ainda mais as suas coxas torneadas. Darcy sentiu um anseio de tocá-las, mas ainda estava muito surpreso com aquela visão inesperada para agir conforme seus desejos. Limitou-se a admirá-las pelo momento.

Ela apoiou a mão no seu travesseiro, ao lado de seu rosto, e inclinou a cabeça sobre o próprio ombro. A cascata de cachos longos e castanhos despencou para um lado, formando uma cortina. Darcy abandonou-se hipnotizado pelo alvo de sua pele, quando este movimento deixou completamente exposto o outro lado de seu pescoço.

Sentia uma urgência de se sentar na cama, envolvê-la pela cintura e cobrir seu pescoço de beijos molhados. Sentir o gosto de sua pele suave sob seus lábios. Despir seu corpo daquele tecido, desvendar cada centímetro dele.

Quando estava preste a pôr o seu plano em ação, ela ergueu a sua mão livre e, com a ponta do dedo indicador, passeou pela sua têmpora. Fez o caminho pelo contorno do seu nariz e deslizou pelos seus lábios, desenhando-os. Continuou descendo pelo seu queixo e pescoço, contornando o seu pomo-de-adão.

Enquanto ela fazia isto, Darcy tinha fechado os olhos sem se dar conta. Vindo a abri-los quando ela depositou a sua mão aberta sobre o seu peito, sobre o seu coração. Fitou-a, enquanto ela deixava um sorriso lindo tomar conta de seus lábios à medida que olhava para a própria mão sobre o seu peito, maravilhada com as batidas fortes de seu coração.

Ela ergueu o olhar para o seu rosto e seus olhos se encontraram. Ela inclinou-se sobre ele, até que pôde sentir o seu hálito quente sobre seus lábios. Fechou os olhos em expectativa daquele toque e suspirou contentemente quando os sentiu – os lábios dela pressionados aos seus.

Ela demorou-se ali, permitindo que sentisse o gosto de sua boca. Mas quando tentou aprofundar aquele beijo, ela retirou-se. Darcy sentiu-se compelido a tentar acompanhar os seus lábios, não queria perder o seu contato.

Então, ergueu a cabeça ao seu encontro, tentando segui-los. Mas só conseguiu prolongar o contato até certo ponto, então ela pôde se afastar por completo.

Fitou-a desapontado, completamente consciente de que ela estava o provocando e tendo bastante sucesso nisso. Ela continuou a sorrir-lhe docemente à medida que se erguia da cama. E logo se encaminhava em direção à porta de seu quarto.

Darcy deitou-se de lado para observá-la melhor e, apoiando o cotovelo no colchão, ergueu parcialmente o corpo. Ela não podia provocá-lo daquele jeito e ir embora em seguida.

--Aonde vai? – Perguntou, alarmado.

Mas ela continuou a se afastar. Quando estava preste a cruzar a porta e sair do seu alcance de visão, Darcy exclamou.

--Lizzie!

Ela virou o rosto na sua direção, hesitando ao chegar à soleira da porta. O sorriso que lhe lançou desta vez estava carregado de malicia, o brilho de seus olhos só acentuavam o clima de sedução.

--Admita. – Ela disse, com a sua voz melodiosa. – Você sente saudades de mim.

Então, virou-lhe o rosto e cruzou a porta, sumindo.

Sua mente comandou-o a segui-la, não permitir que ela lhe escapasse assim. Então, Darcy fez um esforço para sair da cama.

Abriu os olhos e despertou, ainda chamando por ela.

--Lizzie!

Então, percebeu que o quarto não estava tão iluminado. As portas e cortinas da varanda não estavam abertas e não havia sinal de Elizabeth em parte alguma; sequer conseguia sentir aquele aroma floral.

--Foi só um sonho. – Murmurou, decepcionado.

Não era o primeiro, tampouco. Durante estas semanas que se passaram deste a última vez em que a viu, estivera sonhando com ela todas as noites. Então, concluiu que era verdade. Estava sentido a sua falta.

 

 

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