Capítulo XVII
Inesperado
Mary ficou incumbida de tomar conta de suas duas irmãs mais novas e suas amiguinhas naquele sábado. Blackjack era um espaço de shows fechado que somente permitia a entrada de menores com a presença de um adulto responsável.
Lydia conseguiu convencer a sua mãe que precisava ir ao show e por isso Mary foi obrigada a acompanhá-las, exercendo o papel do adulto responsável àquela noite. Mary resmungava pela milionésima vez a incapacidade de sua mãe dizer ‘não’ a Lydia, “um adulto não devia se deixar dominar por uma adolescente inconseqüente como Lydia.”
Após irem buscar as duas amiguinhas de Lydia e Catherine – Sunny, quem já esteve em sua casa inúmeras vezes, e Lexi, quem nunca vira ou ouvira falar a respeito até aquela noite – seguiram de metrô até o centro da cidade.
Observando as meninas, percebeu que Lexi parecia deslocada no meio das outras três. Quase nunca falava nada e, quando o fazia, recebia olhares cruzados das meninas. Por isso, a maior parte do tempo ficava trocando torpedos em seu celular.
Quando chegaram ao Blackjack, as meninas fugiram de seu controle. Antes mesmo que pudesse estabelecer algumas regras para que nenhum incidente acontecesse, Lexi sumiu e as outras três não demoraram a seguir o seu exemplo. Deixando Mary completamente sozinha naquele mar de gente.
Catherine olhava a sua volta em busca de Robbie. Tinha a leve desconfiança que Lexi teria as deixado para se encontrar com ele e sentia uma fisgada na boca do estômago de inveja de sua arquiinimiga.
A casa de show estava começando a ficar lotada e a banda que abriria o espetáculo daquela noite estava em cima do palco, arrumando seus instrumentos musicais.
Sunny chamou-lhe a atenção para um rapaz em cima do palco que lhe parecia ligeiramente familiar. Catherine não soube definir os motivos que levaram o seu coração a dar um salto daqueles ao ver Zackary. Justificou-se com a desculpa de que estava nervosa com a sua reação a sua presença no show.
Afinal, só porque a ajudou no dia do Bonfire Night fingindo ser seu namorado não significa que está a sua disposição para continuar esta encenação. Imaginou neste momento a possibilidade de ele estar interessado em alguma outra menina, ou até mesmo namorando alguém presente naquele show. “Terá ele que fingir ‘terminar’ um namoro de mentira comigo na frente de Robbie?”
Dizia para si mesma que esta era a única razão para o seu coração estar descontrolado e suas mãos suarem daquele jeito. Receio de ser desmascarada na frente de todos e fazer papel de boba.
Não notou o momento em que Robbie parou praticamente ao seu lado, acompanhado de Lexi. Somente percebeu a sua presença quando ele lhe disse.
--Você já foi falar com Zack?
Assustando Catherine, quem lhe dirigiu um olhar alarmado.
--Ham?
--Você já foi falar com Zack? – Ele repetiu, fitando-a.
Catherine percebeu neste instante que Lexi estava com uma expressão de poucos amigos ao assisti-los trocar aquelas palavras.
--Ainda não. – Catherine respondeu, voltando a observar o objeto daquela conversa no palco. – Ele parece ocupado... Eu não quero atrapalhá-lo. – Justificou-se.
--Que tipo de música eles tocam? – Lydia se intrometeu na conversa, questionando Robbie.
Ele, por sua vez, direcionou seu olhar a Catherine, como se esperasse que ela respondesse a pergunta de sua irmã. Como Catherine sustentou o seu olhar, em silêncio, ele replicou.
--Pop-rock...
Lydia e Sunny começaram a discutir quais meninos da banda no palco eram mais bonitos e com quem pretendiam ficar aquela noite.
--Gostei daquele de cabelos pretos... carregando o violão. – Lydia apontou para um menino alto que subira no palco e falava com Zackary.
--Aquele é Adam. – Robbie esclareceu.
“Adam...”, Catherine ponderava. “Seria ele o irmão de Zack?”, perguntava-se ao fitá-lo em busca de alguma semelhança.
--Irmão de Zack. – Lexi completou, acabando com as dúvidas de Catherine.
Catherine percebeu que Lexi voltara a lhe dirigir aquele mesmo olhar curioso, desconfiado; como se achasse estranho o silêncio de Catherine com relação a informações banais a respeito de Zackary.
--Eu o quero. – Lydia proclamou, ainda admirando Adam.
--Ele tem namorada. – Catherine apressou-se em dizer, percebendo que Lexi iria fazer o mesmo. Pois, logo estava fechando a boca e desviando o seu olhar desconfiado para o palco.
Ficou satisfeita em não esquecer esta pequena informação. Não podia levantar muitas suspeitas.
--Que pena. – Lydia resmungou. – Ok... então eu quero... – E começou a procurar outro rapaz para paquerar.
Lexi revirou os olhos, desgostosa com o comportamento de Lydia, enquanto Robbie ria.
Catherine sorriu, sentindo borboletas em seu estômago ao fitá-lo sorrindo. Quando Lexi lhe lançou um olhar raivoso, virou o rosto na direção do palco. Teria de ter mais cuidado para não dar tanta bandeira.
E neste instante, sentiu seu coração parar. Zackary estava olhando na sua direção. Diretamente para ela. Sua expressão era de surpresa – era como se pudesse ler sua mente e ouvisse-o se perguntar o que ela estava fazendo ali.
E naqueles instantes que ele a fitou, Catherine pensava: “ai, eu sabia que era um erro vir aqui!”, gritou consigo mesma, mentalmente. “Sabia que não ia dar certo. Não devia ter vindo!”.
Então, ele sorriu. E Catherine soltou a respiração que estivera prendendo, com grande alivio. Ele acenou para ela do palco e Catherine sorriu, sem graça, e acenou de volta, timidamente.
Lydia a cutucou, achando graça do fato da irmã estar corada. E Sunny soltou uma piadinha, a qual Catherine não deu muita atenção. Observava Zackary falar algo rapidamente com o irmão, fazendo-o olhar em sua direção, e depois descer do palco.
--Ele está vindo pra cá! – Sunny exclamou, excitada. – Ele está vindo para cá!
Ela e Lydia estavam praticamente aos pulinhos.
--Fiquem quietas. – Catherine pediu, constrangida, olhando rapidamente para Robbie para ver sua reação.
Ele parecia estar se divertindo muito com o comportamento espevitado das outras meninas. Quem continuava incomodada era Lexi, as observava com uma expressão de censura no rosto.
Catherine voltou a sua atenção para Zackary, quem já estava caminhando em sua direção, driblando as outras pessoas presentes ali para ver o show.
“Agora, fique calma.”, pedia a si mesma em silêncio. “Se ele lhe perguntar o que está fazendo aqui, você diz... você diz...”, tentava encontrar uma desculpa plausível. “Ai meu Deus, o que eu digo se ele me perguntar o que estou fazendo aqui?!”, entrando em pânico.
--Bonequinha. – Ele disse, sem aparentar surpresa alguma com a sua presença.
Os pêlos da nuca de Catherine se arrepiaram quando ele colocou uma das mãos em sua cintura e beijou-lhe o canto da boca levemente. Para aqueles que os assistia, parecia que ele havia beijado os seus lábios, mesmo que rapidamente.
Então ele cumprimentou Robbie e as outras meninas, enquanto Catherine tentava recuperar a sua compostura.
--Vocês se incomodam se eu roubar minha bonequinha rapidinho? – Ele dirigiu a pergunta a Lydia e a Sunny, ao tomar uma das mãos de Catherine nas suas.
--Nem um pouco. – Lydia replicou, sorridente.
--Leve-a a embora! – Sunny urgiu, também sorridente.
Suas amigas comemoraram extasiadas após a saída deles, enquanto Robbie continuava achar graça de seus comportamentos e Lexi a fitá-las com despeito.
Zackary guiou-a em direção a lateral do palco, aproximando-se sem demora de uma menina japonesa que estava sentada em um amplificador. Os seus pés, cobertos por botas de exercito pretas, balançavam displicentemente, enquanto ela observava o movimento dos componentes da banda organizando os instrumentos.
Quando a menina lançou o seu olhar na direção de Zackary, sorriu e, ergueu-se com um pulo, pondo ambos os pés no chão e se afastando do amplificador.
Estava vestida com uma saia de prega roxa na altura dos joelhos, meia-calça arrastão preta, uma blusa branca de manga curta e um colete preto por cima. Como o colete estava aberto, permitia que se vissem o desenho gravado na sua blusa branca – um anime muito conhecido. O seu cabelo negro e longo estava parcialmente preso, mechas caiam sobre o seu ombro.
--Zack, esta é ela? – A japinha perguntou quando já estavam próximos o bastante.
--Sim, esta é Kitty. – Zackary replicou, satisfeito. – Bonequinha, esta é Rachael, namorada do meu irmão.
Enquanto as meninas se cumprimentavam, um rapaz alto desceu do palco e parou ao lado da japinha. Observava Catherine em silêncio. Quando Catherine voltou sua atenção para ele, deparou-se um par de olhos azuis num rosto levemente familiar. Os cabelos negros, com madeixas grossas e desalinhadas, emolduravam um rosto amigável.
--Como vai, cunhadinha? – O rapaz sorriu-lhe.
Catherine ficou ligeiramente espantada pela forma que ele se dirigiu a ela, causando risadas entre ele e Zackary.
Sem muitas reservas, Zackary a enlaçou pela cintura e falou em seu ouvido, em um cochicho.
--Este é meu irmão Adam.
Assim de perto, ele lhe parecia mais alto e tão bonito quanto Zackary.
--Oh... oi. – Catherine tentou transparecer tranqüilidade.
Em seguida, foi apresentada aos outros componentes da banda, cada vez que um deles acontecia de passar por perto.
Discretamente, cochichou no ouvido de Zackary.
--Todo mundo pensa que estamos namorando de verdade?
Ele lhe lançou um breve olhar e respondeu também em um cochicho.
--Eu contei para o meu irmão como nos conhecemos.
Então os meninos voltaram a subir no palco e deixou-a a sós com Rachael.
Catherine informou a ela que estava ali com a irmã e uma amiga, e as duas voltaram para perto de seu grupo. A caminho, Rachael vislumbrou Lexi e Robbie perto das meninas que Catherine lhe indicou como sendo Lydia e Sunny, e comentou.
--Você conhece Lexi? Ela é sua amiga? – Parecia-lhe curiosa.
--Conheço... Ela veio conosco... – Catherine replicou; hesitante, completou. – Mas não posso dizer que somos amigas.
--Eu entendo. – Rachael retribuiu, mas não elaborou com nenhum comentário.
--Vocês são amigas? – Catherine quis saber, curiosa.
Algo no tom de voz de Rachael e no olhar que lançava para Lexi lhe dizia que havia algo que ela não estava lhe falando.
--Não. – Rachael foi categórica. – E nunca vamos ser.
--Por que? – Catherine não conseguia imaginar outra pessoa que tivesse tantos motivos quanto ela para não gostar de Lexi. – Ela lhe fez alguma coisa?
--Não, não. – Rachael respondeu. – É algo mais do tipo... – Pensativa, completou. – Eu não gosto do tipo dela como pessoa.
--Oh. – Catherine pensou que ela não entraria em detalhes, porque Rachael fez uma longa pausa.
--Por exemplo, nós moramos no mesmo quarteirão... – Mas Rachael logo prosseguiu. – Então, nós nos conhecemos bem. Todo mundo sabe que ela é apaixonada por Zack, mas ele nunca lhe deu atenção...
--Mas ela é namorada de Robbie?! – Catherine exclamou, indignada.
Rachael lhe lançou um olhar desconfiado pelo seu arroubo de emoção, mas deixou as suas desconfianças de lado quando Catherine retribuiu-lhe o olhar o mais inocentemente que conseguiu naquele momento.
--Sim. Ela namora Robbie... – Rachael prosseguiu. – Ela começou a paquerar Robbie para fazer ciúmes em Zack... Como isso também não deu certo, ela decidiu namorar Robbie logo de uma vez.
Catherine estava boquiaberta, atônita. Quer dizer que Lexi está namorando o menino que ela gosta enquanto ela fingia namorar o menino que Lexi gosta? “Que confusão! Talvez fosse melhor fazermos uma troca.”, ponderou, ao olhar na direção de Robbie.
O barulho de alguns acordes a tirou de seu devaneio. Catherine olhou para o palco e viu Zackary posicionando-se no palco com o seu baixo, enquanto seu irmão ajustava a altura do microfone.
Lançou um olhar rápido na direção de Lexi e de volta para Zackary. “Não. Ela não o merece. Não merece nenhum deles.”, suspirando, resignada, reclamou em silêncio. “A vida não é justa!”.
Aproximou-se da sua irmã e de Sunny, apresentando Rachael às duas garotas. E finalmente voltou a sua atenção para o show que estava preste a começar. A banda tocava uma música que agradou as meninas e logo estavam se divertindo.
Lydia e Sunny dançavam, enquanto Rachael observava Catherine observando Zackary no palco. Ficou satisfeita ao constatar que Catherine sempre corava e sorria quando Zackary olhava em sua direção.
Quando a banda de Zackary desceu do palco, ele e seu irmão não demoraram a se encaminharem para o grupo delas. Lydia não se preocupou em limitar seu flerte com Adam, embora Rachael estivesse bem ao seu lado.
Mas a menina não pareceu se incomodar muito, porque Lydia logo cansou-se e redirecionou sua atenção para rapazes desacompanhados.
Robbie ficou surpreso quando Tristan apareceu no show acompanhado por uma menina e Lydia não pareceu se interessar muito por isso. Sabia que os dois tinham ficado, mas Lydia parecia não se incomodar com isso. Continuava a comentar com Sunny sempre que algum rapaz lhe chamava atenção.
Quando Mary as encontrou, Lydia se encolheu e escondeu-se fora de seu alcance de visão, levando consigo Sunny pela mão. Catherine, quem estivera rodeada por Zackary e alguns componentes da banda, não notou sua presença. De forma que não se escondeu dela em tempo.
--Então, é aqui que você estava? – Mary resmungou, segurando a irmã pelo braço, exigindo sua atenção. – Onde está Lydia e Sunny?
--Ham... – Catherine olhou a sua volta, surpresa por não encontrá-las ali.
--Oi... Você é? – Zackary se dirigiu a Mary, tentando entender o que estava acontecendo.
--Mary, minha irmã. – Catherine respondeu num sussurro, corando profusamente; odiava o fato de estar sendo repreendida pela irmã na frente de Zackary e seus amigos.
--Nós vamos embora agora, Kitty. – Mary declarou. – Despeça-se dos seus amigos e me ajude a achar Lydia e Sunny... Não estou para brincadeira... Já aturei demais por uma noite.
--Tudo bem, Mary. – Catherine concordou, soltando o braço do aperto da irmã.
--E você, venha conosco. – Mary se dirigiu a Lexi.
--Não. – Lexi respondeu, naturalmente. – Eu vou voltar com meu namorado. – Declarou, abraçando-se a Robbie.
--Não vai não. – Mary demoveu-a desta idéia. – Você veio comigo, vai voltar comigo. – Apressou-se a ordenar. – Nem adianta fazer esta cara! ...Eu lido com Kitty e Lydia a mais de dez anos, não vai ser uma aspirante a aborrecente que irá me dobrar!
Ofendida, Lexi lançou um olhar para Robbie. Esperando que ele a defendesse.
--Nem olhe para ele. Ele não irá salvá-la. – Mary desdenhou. – Vamos logo. – Apressou-se a pegar Lexi pela mão e arrancá-la dos braços de Robbie. – Vamos, Kitty.
Catherine não hesitou em segui-la; não daria mais motivos para Mary constrangê-la na frente de todos.
--Deixa só eu pôr as minhas mãos em Lydia! – Mary ameaçava.
~#~
Georgiana estava começando a gostar daquela nova rotina. Podia simplesmente passar suas noites livres conversando com Ikarus pelo chat de bate-papo. Mas sabia que precisavam fazer alguma coisa para tirar Rebecca daquela deprê.
Enquanto não imaginava uma forma de elevar o espírito da amiga, conversava sobre violão com Ikarus; em como ele havia se interessado em aprendê-lo durante o ginásio e um colega de turma o ensinara.
Ele lhe perguntou.
Ikarus: você toca algum instrumento?
Smurfete: eu costumava tocar piano.
Respondeu-lhe, após hesitar um pouco. Sabia que ele ficaria curioso quanto à razão de não tocar mais.
Ikarus: costumava? não toca mais? por quê?
Pensou que se fosse divertida poderia ser evasiva com mais facilidade. Por isso, replicou.
Smurfete: acho que não era tão talentosa quanto você deve ser... J
Ikarus: eu duvido muito – rsrs...
Mas ele não se deixou convencer, nem o assunto morrer tampouco.
Ikarus: por que você não toca mais?
Desanimada consigo mesma, mentiu.
Smurfete: perdi o interesse...
A porta do seu quarto foi escancarada e Betsy entrou por ela como um míssil. Jogou-se na sua cama e disse, excitada.
--Tive uma grande idéia de como tirar Becca desta fossa.
--Como? – Georgiana quis saber.
--Temos que lhe arranjar outro paquera! – Declarou.
--Como se isso fosse simples. – Georgiana desdenhou.
--Não é tão difícil quanto você pensa. – Betsy resmungou, ofendida com a atitude da amiga. – Eu já arranjei tudo. – Proclamou, satisfeita consigo mesma.
--Como assim? – Georgiana sentiu uma leve apreensão ao ouvir esta declaração da amiga.
--Eu conheci este rapaz aqui no campus... O nome dele é Caleb Eurich. Ele faz direito com Max... Foi Max quem nos apresentou. – Betsy começou a discorrer. – Ele me convidou para sair e eu estava meio incerta de aceitar... Mas ele disse que tinha dois outros amigos e que podia apresentá-los a vocês, e eu topei.
--O que? – Georgiana sentiu seu estômago contrair. Odiava ser armada com desconhecidos.
--Nós vamos nos encontrar com eles hoje. – Betsy prosseguiu como se Georgiana não houvesse se manifestado. – Marquei numa discoteca mais distante do campus para não corrermos o risco de nos encontrar com Eric. Então, vá se arrumar! – Completou o seu discurso com uma ordem, saindo do quarto e fechando a porta.
Georgiana fitou a porta de seu quarto por alguns segundos, até que ouviu o seu computar protestar. Ikarus estava impaciente com seu silêncio. Voltou-se para a tela do seu laptop e suspirou.
Ikarus: onde você foi?????
Smurfete: acabo de me enfiar em uma gelada...
Ikarus: o que aconteceu?????!!!!!!!
Sentiu-se reconfortada pela preocupação dele.
Smurfete: nada muito preocupante... coisas de amigas...
Ikarus: entendo.
Smurfete: vou ter que sair...
Despediu-se, já marcando o próximo encontro no mesmo chat. Desconectou-se da internet e desligou o laptop. Pensando que se esta saída terminasse cedo, talvez pudesse ainda encontrá-lo no chat mais tarde.
--Ouviu que nós vamos sair? – Rebecca apareceu na porta de seu quarto.
--Sim. Já vou me arrumar. – Georgiana replicou.
--Precisa de ajuda? – Rebecca se ofereceu, indo abrir a porta do guarda-roupa da amiga.
Georgiana hesitou, mas decidiu permitir que ela escolhesse o que vestiria. Qualquer coisa para deixá-la mais alegre.
Chegaram as três na discoteca no carro de Georgiana. Neste ponto ela se sentia mais segura, estava dirigindo e não dependia de carona ou táxi para voltar para casa quando sentisse que deveria ir embora.
Não tinha muitas expectativas com relação aos rapazes que conheceria esta noite. Não acreditava que fosse possível alguém se apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo. E ela já estava completamente apaixonada por Ikarus, mesmo que não soubesse quem ele é.
Tampouco acreditava que Rebecca fosse se interessar por alguém, estando deprimida por causa de Eric. Queria estar errada neste ponto. Mas tinha pouca fé nisto.
Caleb Eurich não tinha aquela beleza exuberante de seus dois amigos – Vincent Haken e Russell Quillens, donos de portes físicos mais atléticos. Mas compensava com sua simpatia incomparável.
No mais, a noite não estava sendo tão ruim. A companhia era agradável e a conversa inteligente. Pois sim, embora todos estivessem na faculdade, era comum deparar-se com pessoas com conversas desestimulantes e enfadonhas.
Não demorou muito a perceber o porquê de Betsy mostrar-se relutante em aceitar o convite de Caleb para sair. Assistindo-os interagir, percebeu que Caleb estava interessadíssimo em Betsy, enquanto sua amiga dava mais atenção a Vincent.
Rebecca, por outro lado, parecia estar se entendendo bem com Russel. Em dado momento, os dois se levantaram e foram para a pista de dança, deixando os outros quatro a mesa. Pessoalmente, Georgiana ficou feliz ao constatar que estava errada. E torcia para que ele conseguisse fazer sua amiga sair daquela maré de má sorte.
Dentre os três, considerou-o o mais interessante – tanto fisicamente, como psicologicamente. Por isto, estava começando a acreditar na possibilidade daquele plano de Betsy dar certo.
Foi pega de surpresa quando Vincent lhe convidou para dançar. Olhou de relance para Betsy, quem lhe sorriu e lhe deu de ombros – como se lhe desse permissão. Afinal, era só uma dança e não era como se Betsy estivesse apaixonada por ele.
Assim, aceitou o convite. Enquanto caminhavam para a pista, Vincent explicou.
--Caleb me mataria mais tarde se não lhe desse esta oportunidade à sós com Betsy.
--Ahh... – Foi só o que conseguiu dizer.
Não que pretendesse conversar com ele na pista de dança. Numa discoteca este tipo de coisa é quase impossível, a menos que você quisesse ficar gritando ao ouvido da outra pessoa o tempo inteiro. Mas pensou consigo mesma que era bom ele não estar tentando seduzi-la. Afinal, sabia que não teria sucesso neste intento.
Estava se divertindo dançando com Vincent. Nunca tinha conhecido um rapaz que conseguisse se mexer como ele, mas que não perdesse a sua masculinidade. Sentia-se mais confiante, até que ele a envolveu pela cintura com uma mão.
Sentiu uma sensação estranha diante de sua ousadia, certa apreensão. E também tinha a impressão de estar sendo observada. Procurou a sua volta pela origem da sua desconfiança, quando o viu.
Instantaneamente, olhou na outra direção, procurando por Rebecca e Russell. Não os encontrou em parte alguma. Redirecionou o seu olhar para a mesa, pensando que eles deviam ter voltado para lá; mas só viu Betsy e Caleb juntos, e aos beijos – “Hum, inusitado!”, pensou, ao desviar o olhar.
Estava redirecionando o seu olhar para ele, quando a mão de Vincent envolveu a sua nuca e a puxou para um beijo. Foi tão de repente que Georgiana não soube o que fazer. Ficou ali em seus braços, olhos arregalados, sentindo-se ser beijada – com muita gana – por um rapaz que acabara de conhecer.
“Ok. E daí que ele beija bem? Muito bem, na verdade!”, pensava enquanto deixava o beijo rolar. “Não é como se eu estivesse traindo Ikarus. Nós ainda não nos conhecemos!”
Quando Vincent encerrou o beijo, permitindo que respirassem, os pensamentos voltaram a circular por sua mente a mil. E, ao mesmo tempo, sentia-se inebriada pela presença dele. Era como se o seu cérebro fosse dividido em dois: uma parte estava consciente de tudo e todos a sua volta, prevendo uma confusão iminente; e a outra parte só enxergava ele.
Quando ele tentou lhe beijar de novo, Georgiana colocou as duas mãos sobre o seu peitoral e o impediu.
--Calma! – Pediu, tentando sorrir. Parecia-lhe que todas as suas terminações nervosas estavam em alerta.
Vincent sorriu-lhe com todo o seu charme e deu-lhe um pouco de mais espaço. Mas não soltou a sua cintura.
Georgiana voltou a lançar um olhar para a mesa, percebendo que Betsy e Caleb estavam muito entretidos um com o outro para dar atenção a mais ninguém. Voltou o seu olhar na direção dele e notou pela primeira vez que Eric não estava sozinho.
Por um segundo, seu cérebro paralisou pela segunda vez. Registrando a imagem que se retratava a sua frente lentamente.
Respirando com dificuldade, Georgiana voltou a olhar para Vincent. E, desvencilhando-se dele, pediu.
--Você me espera... um minutinho? Eu já volto.
E sem esperar por uma resposta, dirigiu-se a Eric. Parou diante dele, quem a fitava com uma expressão muito estranha no rosto.
--Olá. – Tentou sorrir para ele, mas seu nervosismo transformava seu sorriso em uma aberração.
Redirecionou o seu olhar para Max, quando este a cumprimentou. Seguido por Patrick e Holly. No segundo em que Holly lhe dirigiu a palavra, Georgiana sentiu o seu estômago embrulhar. Lançou-lhe um olhar frio, sendo correspondida por um sorriso falso.
--Onde estão Betsy e Becca? – Max quis saber.
Georgiana indicou a direção em que Betsy se encontrava, mas não entrou em detalhes sobre o paradeiro de Rebbeca. Max não demorou a seguir em direção a mesa. Patrick e Holly o acompanharam. Holly olhou-a com um ar de desafio ao passar por Georgiana de mãos dadas com Patrick.
Georgiana decidiu-se por priorizar os problemas mais urgentes; por isto, tomou a mão de Eric e guiou-o em direção da saída da discoteca antes que ele pudesse seguir os demais.
Do lado de fora, ao voltar-se de frente para ele e soltar a sua mão, pôde finalmente se dar conta que a expressão dele era de raiva. “Teria ele visto Rebecca com Russell e estava com ciúmes?”, perguntava-se.
Temia a reação dele diante do que estava preste a fazer. Mas sabia que era necessário, tinha de fazê-lo. Tomou um longo suspiro para criar coragem e disse:
--Olha, eu sei que não tenho o direito de te pedir isto, mas... Por favor, por favor, por favor, você poderia ir embora?! – Falou tudo de uma vez para não perder a coragem. – Por favor!
Eric a fitou com um assombro evidente.
--Não me leve a mal. Eu não tenho nada contra você, pelo contrário...
Tentou se explicar, decidindo-se por ser sincera. Mesmo que estivesse revelando mais do que devia sobre os sentimentos de sua amiga por ele.
--O problema é que Becca... esteve triste estes dias todos... Muito triste, na verdade. Por sua causa. E Betsy teve a idéia de armá-la com um carinha esta noite... E parece que pode dar certo. Isto é, se ela não lhe vir hoje.
A expressão do rosto dele aos poucos foi se modificando. De assombrado, para preocupado.
--Por isso eu acho que... seria melhor se você fosse embora. Para que ela não o visse. – Concluiu. – A menos que você esteja interessado nela e queria... Você sabe. – Acrescentou, tardiamente.
--Quem é aquele cara com quem você estava dançando? – Eric quis saber, tomando-a totalmente de surpresa.
--Vincent? – Georgiana replicou, confusa; “O que aquilo tinha a ver com o que estavam conversando?”
--Vocês estão ficando? – Ele prosseguiu, agitado.
Georgiana achou tão estranha a forma com que ele se portava. Negou, com um aceno de cabeça. Ainda sem entender o sentido daquelas perguntas.
--E por que ele estava lhe beijando? – Eric insistiu, fitando-a diretamente nos olhos; ela notou, ele estava furioso. – Se não estão ficando, por que ele estaria lhe beijando?!
--Ele me tomou de surpresa. – Se explicou, embora não soubesse por que o fazia.
--Mas você correspondeu ao beijo. – Ele acusou.
--E o que isto tem a ver com o que estávamos falando? – Interrogou-lhe.
Ele parou por um instante, respirou fundo. De um jeito como se precisasse para se acalmar. E com um tom resignado, disse.
--Você quer que eu vá embora. – Esperou que ela confirmasse, mas ela não o fez.
Algo no tom de sua voz e a forma com que a olhou a deteve.
--Eu vou. – E dizendo isto, deu-lhe as costas e começou a se afastar.
--Eric, espere. – Georgiana pediu, arrependida. – Você não precisa ir embora. Me desculpe.
Mas ele não voltou. Sequer olhou para trás.
Algo dentro de Georgiana a estava alertando. Tinha feito uma besteira. E das grandes. Tinha certeza que se arrependeria profundamente. Na verdade, já estava arrependida.
“Para quê foi pedir a ele para ir embora? Não é como se Rebecca fosse incapaz de lidar com ele. Eles se vêem praticamente todos os dias, na sala de aula. E desde quando evitar o problema o soluciona?!”
Retornou para dentro da discoteca e sentou-se ao lado de Vincent, sentindo-se um lixo.
--Tudo bem? – Ele lhe perguntou, preocupado, após descansar o braço no encosto da cadeira em que Georgiana estava sentada.
Georgiana acenou, positivamente, e sorriu discretamente. Não queria chamar atenção de ninguém para si. Principalmente ao perceber que Holly já estava atenta a interação entre Vincent e ela.
--Tem certeza? – Vincent insistiu. – Aquele era o seu ex?
Georgiana lançou-lhe um olhar alarmado.
--Quem? Eric? – Patrick se pronunciou, ganhando a atenção dos dois. – Não! – E, rindo, completou. – Eric já está comprometido.
Georgiana estranhou aquele comentário. “Eric está namorando? Quem?”. E, com estes questionamentos em pensamento, olhou para Betsy. Percebendo que a amiga partilhava de suas dúvidas unicamente pelo olhar que lhe retribuiu.
--Que bom. – Vincent replicou, recuperando sua atenção.
Georgiana ficou ruborizada diante de seu olhar. Era muito difícil permanecer indiferente a ele estando assim tão próximos.
--O que acha de voltarmos para a pista de dança? – Ele lhe perguntou, num tom de voz reservado e carregado de sedução.
Georgiana queria aceitar. Pelo menos, uma parte dela queria. A outra se negava, veemente – aquela que considerava uma traição ficar com outro que não fosse Ikarus.
Foi poupada de dar uma resposta pela chegada de Rebecca e Russell a mesa, seguida pela troca de cumprimentos entre eles e os recém-chegados. E Rebecca logo demonstrou curiosidade em saber como havia se desenvolvido o relacionamento entre Holly e Patrick.
--Eu acertei a bebida do bartender alguns dias atrás. – Holly explicou. – E preferi o prêmio. – Sorria amorosamente para Patrick ao falar, mas Georgiana a fitava com desconfiança.
--Nós ficamos conversando no fim do meu turno... – Patrick prosseguiu com as explicações. – E descobri que vocês já se conheciam. Que na verdade, Holly e Georgie são amigas da época de colegial.
Qualquer um que houvesse olhado para Georgiana naquele instante notaria que ela discordava daquela afirmação profundamente. Betsy e Rebecca trocaram olhares de entendimento, pois notaram este fato. E desde já ficaram com uma pulga atrás da orelha. Ali havia um mistério a ser desvendado.
--E no fim daquela mesma noite eu já estava caidinha por ele. – Holly retomou o relato, brincalhona; fazendo Patrick rir por sua postura desencanada. – Também, quem consegue resisti-lo?
Redirecionou a pergunta às três meninas, por fim encarando Georgiana.
--Sabe o que eu estava pensando agora há pouco? – Questionou Georgiana, segurando o queixo de Patrick e fazendo-o encará-la. – Ele não te lembra alguém?
Georgiana a encarou com olhos arregalados. Um calafrio percorreu o seu corpo e seu estômago protestou pela segunda vez.
--Talvez nem tanto fisicamente... – Holly prosseguiu, olhando para Patrick como se buscasse por detalhes de sua fisionomia para ressaltar. – Mas definitivamente possuem o mesmo charme... O mesmo jeito de... Não sei... Cafajeste? – Concluiu, voltando-se para fitá-la, como se esperasse por sua opinião.
Os meninos riram com a descrição que ela fez de Patrick.
--Devo ficar com ciúmes? – Ele perguntou a Holly, galante. – Algum amor do passado?
--Não! – Holly esclareceu. – Quem me dera! – Rindo-se. – Um homem maduro como ele... Nossa, bem que eu quis! – Alardeou. – Mas ele preferiu a Georgie!
Por um segundo, aquelas palavras ecoaram em seus ouvidos – ‘Mas ele preferiu a Georgie!’, com o seu tom de deboche. E Georgiana viu as cabeças de seus amigos voltarem-se em sua direção, fitando-a. Alguns surpresos, outros simplesmente divertidos.
--Com licença. – Pediu, quase sem voz, pondo-se de pé.
Cambaleou para fora de sua cadeira e se afastou da mesa com pressa. Queria estar bem longe dali.
Lembrou-se da conversa que pôs fim a sua amizade com Holly. Se é que se pode chamar a sua história com ela de amizade!
--Por que você não me ajudou? – Perguntava-lhe, com os olhos cheios de lágrimas; estava desesperada. – Você devia ser minha amiga!
--Sua amiga?! – Holly retorquiu. – Amizade é algo recíproco, minha querida. Quando você foi minha amiga?! Quando o roubou de mim?! – Acusou-a, sem piedade. – Mas não se sinta culpada... Para ser sincera, nunca gostei muito de você. Só te aturei porque você É ALGUÉM... Mesmo que só no nome.
Lágrimas já escorriam no rosto de Georgiana, quem estava ainda mais abalada com esta revelação.
--Esta é a única razão para qualquer um se aproximar de você. Até ele! Não se iluda acreditando que foi o seu charme de menininha pura. Pura?! – Riu-se, debochada. – Ontem você se revelou! Pura e ingênua Georgiana... Ah sim, eu vi a sua pureza. E não fui a única, fui?! – Tinha um olhar diabólico.
Georgiana começou a sentir seus joelhos fraquejarem. O ar gelado que batia em seu rosto, agora que já estava do lado de fora da discoteca, não serviu-lhe de alivio algum.
--Se não estava preparada para as conseqüências, deveria ter pensado melhor antes de decidir brincar com gente grande! – Holly a recriminou.
Georgiana escorou-se no poste e curvou-se, pondo para fora o seu jantar daquela noite. Sentiu duas mãos masculinas a agarrá-la pelo antebraço e mantê-la de pé.
--Você está bem? – Max lhe perguntou.
--Está passando mal, Georgie? – Era a voz angustiada de Betsy; ambos a seguiram para fora da discoteca ao notarem seu transtorno.
--Acho que devíamos levá-la para casa. – Max declarou.
--Eu vou chamar Becca. – Ouviu Betsy afirmar e seus passos se afastando.
Tentou endireitar o corpo, mais ainda sentia os joelhos fracos. A sua boca estava dominada por um gosto azedo e estava suando frio. Com a ajuda de Max conseguiu chegar até o seu carro. Ele tomou-lhe a bolsa das mãos e após achar a chave do carro, o abriu, fazendo-a entrar no banco traseiro e deitar-se.
Ficou ali, encolhida e de olhos fechados. Não os abriu nem mesmo quando ouviu as vozes de Rebecca e Betsy. Uma das meninas entrou no carro e sentou-se no fundo, puxando-a para deitar com a cabeça em seu colo. Uma mão delicada e feminina acariciou o seu cabelo o percurso inteiro, de vez em quando se demorando a sua testa – sentindo sua temperatura.
Ao chegarem ao apartamento, foi direto para o quarto e se trancou no banheiro. Tirou a roupa e entrou de baixo do chuveiro sem demora. Esfregava o corpo com uma esponja vegetal de banho com força, como se tentasse apagar uma mancha invisível em sua pele e não conseguisse.
Encolheu-se no cantinho do box e abraçou os joelhos, revivendo aquele pesadelo.
Mal conseguia abrir os olhos. Sentia as suas pálpebras pesadas. E quando os abriu, a claridade do quarto a cegou por um breve momento. Quando sua visão se ajustou, tentou sentar-se, mas sua cabeça estava muito pesada.
A coberta que a cobria escorregou de seu corpo e uma brisa fria atingiu os seus seios. Olhou o próprio corpo desnudo alarmada. Onde estavam suas roupas?
Olhou a sua volta, estava num quarto estranho. Numa cama que não era sua. Algumas peças de roupas masculinas e femininas estavam espalhadas no chão do quarto, entre a bagunça de móveis revirados e objetos de decoração. Onde estava?
Tentou se reerguer da cama, mas sentiu uma vertigem e caiu sentada na beirada do colchão. Tudo cheirava a um odor de suor e perfume barato. A sua cabeça estava vazia. O que havia acontecido ali? Como viera parar ali? Onde estavam suas roupas?
Pôs se de pé com muita dificuldade e seguiu em direção a uma porta. Procurou pelo chão por suas roupas, finalmente encontrando sua blusa e a calça jeans. Mas e a calcinha? E o sutiã? Não estavam em parte alguma. Encontrou cuecas e uma calcinha desconhecida, assim como algumas peças de roupas que não eram suas.
Abriu uma porta e deparou-se com o banheiro. Ao fitar-se no espelho, assustou-se. O seu cabelo estava uma loucura. Mas não foi isto que a aterrorizou. Que marcas roxas eram aquelas em seu corpo? Como as conseguiu? Por que não conseguia se lembrar de nada?!
Queria chorar! Queria sumir!
Vestiu-se com pressa com as peças que conseguira encontrar e seguiu em direção a outra porta. Do lado de fora, pelo corredor, encontrou mais bagunça. Copos no chão, sujos, assim como garrafas de bebidas espalhadas.
Em uma sala, alguns desconhecidos ainda dormiam – seminus e ainda embriagados. Lembrava-se de estar ali, naquela sala, sentada naquele sofá, com ele... Lembrava-se do beijo. Depois tudo ficou muito confuso.
Seguiu para a porta da rua e saiu por ela com os pés descalços. Precisava sair dali!
Batidas ocas na porta a despertaram de seu delírio.
--Georgie?! – Vozes aflitas de suas amigas chamavam por ela. – Acho que ela desmaiou.
--Por que deixamos Max ir embora? Ele podia ter arrombado a porta!
E continuaram a bater, cada vez mais forte.
--Georgie?! – E chamar por ela.
Georgiana esforçou-se para se erguer do chão e desligar o chuveiro.
--Eu estou bem. – Respondeu, para tranqüilizá-las. – Já estou saindo.
Na verdade, não estava bem. Mas não queria preocupá-las. Elas iam querer uma explicação e não podia dá-la. Precisava mentir.
Enrolou-se na toalha e saiu do banheiro.
--Você teve uma queda de pressão? – Rebecca questionou. – Você está pálida. Comeu alguma coisa hoje?
--Devo ter comido algo que não me fez bem. – Explicou-se. – Mas o enjoou já passou. Eu só preciso dormir um pouco.
Rebecca não parecia muito convencida. Ficou tentando encontrar uma causa para o seu mal estar; afinal, ela e Betsy fizeram todas as refeições daquele dia juntas. Por que somente Georgiana passara mal?
“Por que Rebecca tinha de fazer Medicina?”, Georgiana reclamava mentalmente, enquanto tentava convencê-la de que só precisava descansar e se sentiria bem.
Arrumou-se para dormir sob o olhar atento das amigas e deitou-se. Após supervisioná-la por algum tempo, as duas se recolheram em seus próprios quartos.
Georgiana perguntava-se se devia ligar para o irmão. Sabia que William largaria o que estivesse fazendo e viria vê-la. Estaria batendo a porta de seu apartamento ainda naquela mesma madrugada, após dirigir feito um louco para chegar depressa.
Mas recusou-se. Estava se recuperando muito bem até Holly aparecer. E não deixaria que ela a destruísse assim facilmente. Precisava ser forte por si mesma e apreender a enfrentar os seus problemas sem recorrer ao irmão ou aos pais a todo o momento.
Respirando fundo, fechou os olhos e tentou dormir. Prometendo-se estar melhor no dia seguinte.














