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Minha ideia de boa companhia é estar com pessoas inteligentes e bem informadas com quem possa ter uma boa conversa. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XV

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Capítulo XV

Esperto de um jeito estúpido

 

Moira estava sentada na poltrona próxima a lareira, observava Richard dormindo em sua cama. Ele estava deitado de bruços, as costas se encontravam descoberta, deixando a mostra provas da noite passada – vigorosos arranhões vermelhos.

Com o clarear do dia, Moira sentiu a necessidade de sair da cama e se afastar dele. O contato de pele lhe furtava a lucidez. E precisava dela neste momento. Agora podia ver o erro que cometera cedendo aos desejos na noite passada.

Ele se remexeu e mudou de posição, virando o corpo para o lado da cama que antes ela ocupava. Parecia que procurava por ela entre os lençóis e quando não a encontrou, ficou irrequieto. Moira sabia que não demoraria muito para que estivesse totalmente desperto.

Precisava se preparar para a conversa que teriam dentro de minutos. Teria de ser forte ao lidar com esta situação, não poderia mais ceder ao seu charme e ao poder que ele ainda exercia sobre ela.

Tinha certeza de que ele saberia como tirar vantagem disto se lhe desse uma brecha. E não poderia correr este risco. Fez uma promessa a si mesma no passado e a cumpriria – nunca mais deixaria com que Richard brincasse com seus sentimentos.

Ele se remexeu na cama novamente, mudando de posição. E quando abriu os olhos, a viu sentada na poltrona. Os joelhos estavam dobrados, os pés na beirada sob a poltrona e ela abraçava as próprias pernas. Assistia-o com uma expressão serena; mas por baixo da fachada tranqüila, ele pôde detectar todo tumulto de seus sentimentos.

Virou-se na cama, deitando-se de costas e passou as duas mãos sobre o rosto e cabelo. Queria adiar aquela discussão, desejava com todas as suas forças que ela voltasse para cama e permitisse tocá-la novamente. Mas sabia que as chances de que isso acontecesse não eram remotas, simplesmente não existiam.

--Você não devia ter entrado no meu quarto ontem à noite. – Ouviu a voz fria com que ela se dirigia a ele.

Ela sequer esperou com que estivesse totalmente desperto.

--Você se aproveitou da situação... – Acusou-o; parecia furiosa, embora não elevasse o tom de voz. – Aproveitou-se do fato de que eu estava dormindo para...

--Você podia estar dormindo quando entrei aqui... – Defendeu-se, sentando-se na cama e a fitando nos olhos. – mas estava bem desperta o resto da noite. Não invente desculpas para o que fizemos. Eu não lhe forcei a nada... O que fizemos, fizemos juntos!

--Não vou negar que você ainda mexe comigo. – Confessou a contragosto, ele pôde perceber. – Mas é pura carência, nada mais.

--Você não vai conseguir me fazer acreditar nisso! – Rebateu, exaltando-se um pouco. – Nós temos uma história juntos.

--Nossa história acabou há muito tempo. – Ela, no entanto, continuava com o mesmo tom de voz controlado. – Você mesmo se assegurou disso. – A referência ao fim de seu relacionamento foi o bastante para calá-lo temporariamente. – E, embora eu ainda me sinta atraída por você, não há mais nada entre nós.

--Você está mentindo. – Afirmou com a voz rouca.

--Atração física...

--Eu não acredito em você. – Interrompeu o que ela começara a dizer.

--Só porque sou mulher não significa que não tenho libido. – Ela concluiu, fria e calma.

Richard atirou a coberta para longe de seu corpo com violência e ergueu-se da cama. Atravessou o quarto catando a própria roupa, dando a Moira um show particular. Começou a se vestir.

Ela disse.

--Nunca mais entre no meu quarto no meio da noite e se enfie na minha cama como se eu fosse uma mulher qualquer. – Deixando transparecer em seu tom de voz a mágoa que sentia.

Richard voltou-se de frente para ela, já vestido com a sua calça, mas com o peito desnudo; e ficou surpreso com o arroubo de raiva que ela demonstrava naquele instante.

--Não sou uma das vagabundas que você está acostumado a pegar na rua e levar para cama... – Com o nariz empinado, ela disse. – Exijo respeito!

Ele catou a blusa e os sapatos, caminhando em direção a porta rapidamente. Quando ele saiu do quarto, batendo a porta, Moira enxugou uma lágrima teimosa que rolou em seu rosto.

~#~

Darcy acabara de sair do quarto, após acordar novamente depois das nove da manhã, quando cruzou com Richard ao corredor. Seu primo também acabara de sair de um quarto, jogara os sapatos no chão e calçara-os de qualquer jeito, enquanto enfiava a camisa pela cabeça.

Darcy seguiu pelo corredor, aproximando-se dele. Ao vê-lo, Richard parecia ainda mais apressado em enfiar os braços pela camisa e terminar de calçar os sapatos.

--Bom dia, Richard. – Disse-lhe.

--E o que há de bom nele? – Richard resmungou, antes de seguir na direção contrária e entrar em outro quarto, batendo a porta às suas costas.

Darcy observou-o confuso. “No quarto de quem ele passara a noite se o quarto de que saíra há pouco não era o dele?”, se perguntava. E por um instante fugaz temeu que fosse o de Elizabeth.

Parou diante daquela porta receoso. Mas, lembrando-se dos olhos cheios de lágrimas de seu primo que vira de relance ao se cruzarem naquele corredor, soube a resposta. “O quarto de Moira.”, e sentiu um grande alivio, depois um grande pesar.

“Esses dois nunca vão se entender.”, constatou, ao seguir o seu caminho pelo corredor e descer a escada.

As empregadas ainda estavam pondo a mesa do café e não havia sinal de mais ninguém no andar de baixo. Pensou em tomar um pouco de café na cozinha enquanto esperava os demais acordarem.

Quando cruzou a porta da cozinha, a visão que o acolheu o fez parar a soleira da porta. Elizabeth estava de costas para ele, estava vestida com um avental e fazia panquecas.

Ela já tinha peneirando a farinha em uma tigela. E adicionou o sal, açúcar, ovos, leite, água e manteiga, misturando bem até que conseguiu uma massa lisa, homogênea.

--Já está de pé. – Comentou, aproximando-se dela.

Elizabeth virou o rosto em sua direção rapidamente ao ouvir sua voz, mas depois voltou a dar a sua atenção ao que estava fazendo.

--Eu fui dormir cedo ontem. – Replicou.

Empregadas entravam e saiam da cozinha, carregando cestas de pães e jarras de suco, indiferente à presença dos dois.

Após concluir aquela etapa, Elizabeth passou à próxima. Pediu a uma das empregadas que estava ali para ligar o fogão elétrico e para providenciar-lhe uma frigideira. Então, colocou-a sob o fogo e derreteu a manteiga.

Aos poucos, despejou colheradas da massa já pronta sob a frigideira e aguardou o momento de virar a panqueca, para deixar que os dois lados fritassem igualmente.

Darcy assistiu-a em silêncio enquanto repetia este processo algumas outras vezes. Admirava a forma que fazia o flip do pulso com a frigideira para virar a panqueca no ar. Depois retirava a panqueca pronta e colocava em um prato maior.

--Então, você sabe cozinhar. – Darcy comentou, parado ao seu lado.

--A única coisa que sei fazer são panquecas. – Declarou. – Eu consigo queimar ovos, o meu café é um chá-fé... e, basicamente, sou capaz de incendiar uma cozinha com qualquer outra coisa... Exceto, panquecas.

Darcy sorriu com esta declaração.

Elizabeth espremeu um pouco de limão e polvilhou um pouco de açúcar sobre cada uma das panquecas antes de dobrar ao meio duas vezes, para fazer uma forma de leque. Por fim, colocou-as em um prato de servir, espremeu mais limão e espalhou um pouco mais de açúcar.

--Há muito tempo que não como panquecas. – Darcy informou-lhe, com um tom saudosista na voz.

Ela olhou em sua direção e o viu a observar a bagunça que deixara no balcão da cozinha. As vasilhas que usara para medir a quantidade de ingredientes estavam empilhadas em um canto, os potes de farinha, sal e açúcar estavam abertos, talheres estavam espalhados e uma camada de farinha cobria parte do balcão.

--Eu vou limpar tudo quando terminar aqui. – Avisou-lhe, antes que ele viesse pensar que era uma bagunceira.

--Um pouco de farinha espalhada sobre o balcão é o de menos, quando você poderia ter queimado a casa inteira. – Gracejou-a, rindo.

--Ha-ha! – Ela replicou. – Muito engraçadinho você, não?

--Eu acho. – Ele concordou, ainda sorrindo.

Ela não gostou de vê-lo rindo às suas custas, então pegou um pouco de farinha e atirou em sua direção. Tomando-o de surpresa e cobrindo parte de seu nariz e boca. Observou-o a sua frente, boquiaberto e de olhos arregalados, surpreso com aquele ataque repentino, com o rosto parcialmente coberto de farinha.

Riu-se dele, não agüentando vê-lo daquele jeito e manter-se indiferente. Em represália, ele pegou um pouco de farinha e atirou em sua direção. Antes que percebessem o que estavam fazendo, a cozinha inteira virara um campo de batalha.

Darcy a perseguia, correndo envolta da mesa com o pote de açúcar em um braço e um punhado de açúcar nas mãos, atirando nela. Enquanto Elizabeth fugia dele, esquivando-se de suas tentativas de atingi-la, com o pote de farinha em uma mão e um punhado dela na outra, atirando nele.

Inconscientes da presença de duas das empregadas à porta da cozinha, assistindo-os se comportarem como duas criancinhas.

Darcy conseguiu encurralar Elizabeth em um canto e tomou o pote de farinha de suas mãos, passando a ameaçá-la com a farinha. Ambos já estavam com as roupas e cabelos cobertos de açúcar e farinha.

Quando ia atirar a farinha no rosto dela, Elizabeth ergueu as duas mãos como uma barreira para se proteger dele, virou o rosto de lado e fechou os olhos. No entanto, Darcy não a atingiu com a farinha. Largou o pote sobre o balcão, segurou as suas duas mãos, as abaixando. Elizabeth abriu os olhos e virou o rosto em sua direção.

Darcy deu mais um passo em sua direção. O viu inclinar a cabeça levemente para o lado, enquanto seus olhos azuis fitavam os seus lábios e...

--O que está acontecendo aqui? – Ouviram a voz estridente de Caroline exaltada. – Darcy, o que está fazendo? Eu exijo uma explicação!

Fazendo-os se afastar um do outro imediatamente, como duas crianças pegas fazendo uma grande travessura.

--O que aconteceu nesta cozinha? Qual dos dois vai me explicar?

Caroline tinha as duas mãos na cintura e olhava para Elizabeth como se quisesse matá-la com as próprias mãos.

--Nós estávamos fazendo panquecas. – Elizabeth respondeu, recuperando o seu brio e soando inocente.

--E para isso precisa agir como uma vândala, destruindo a cozinha? – Caroline recriminou-a.

--Você está me chamando de vândalo, Caroline? – Darcy chamou-lhe a atenção.

--Eu não me referi a você, Will. – Ela riu, sem graça, perdendo a cor do rosto.

--Mas eu sou tão responsável por esta bagunça quanto Elizabeth.

--Eu sei disso... Eu só... – Ela ficou ali tentando se desculpar, mas sem saber como remediar aquela situação.

--Você não precisa se preocupar, Caroline. – Elizabeth assegurou-a. – Nós vamos limpar tudo. – Se divertindo em vê-la voltar a ficar com o rosto tão vermelho quanto os próprios cabelos ao lhe dirigir o olhar.

--Isso não é necessário. Nós temos empregados que são pagos justamente para fazer isto. – E sinalizou para as duas empregadas paradas às suas costas, para que arrumassem aquela bagunça.

--Mas nós somos os culpados, temos que arcar com as conseqüências. – Elizabeth tentou argumentar, mas as empregadas continuaram a arrumar a cozinha.

--Sinta-se a vontade para assessorá-las se quiser. – Caroline propôs, sorrindo com malicia. – Mas tenho certeza que você deseja se limpar e trocar de roupa antes do café da manhã, não quer Will? – Dirigindo-se a ele com a voz meiga.

--Se Elizabeth for limpar a cozinha, devo permanecer também e ajudar. – Ele respondeu.

Caroline fuzilou Elizabeth com os olhos, mas não pôde fazer muita coisa além de insistir com Elizabeth para que fosse trocar de roupa e pôr-se apresentável para o café da manhã.

Elizabeth se divertiu com a idéia de negar-se e descobrir se Caroline se ofereceria para ajudá-los a limpar a cozinha só para não deixá-la mais a sós com Darcy. Mas preferiu ir trocar de roupa, pois estava cansada de ouvir a sua voz.

Em sua mente martelava a imagem de Darcy se aproximando, como se fosse beijá-la. “Será que era isto mesmo o que ele ia fazer?”

O clima à mesa do café estava muito estranho. Exceto por Jane e Charles, o restante do grupo se manteve calado o tempo todo. Elizabeth estranhou o comportamento de Richard que, embora sentado ao seu lado, estava totalmente ausente.

--Lizzie, Gillian me disse que foi você quem fez as panquecas. – Charles comentou.

--Sim... Darcy me ajudou. – Elizabeth disse, apenas para provocar Caroline.

Quem continuou a fuzilá-la com o olhar.

--Não estou surpreso. – Charles prosseguiu o seu comentário, olhando brevemente para o amigo. – Darcy adora cozinhar.

--Verdade? – Elizabeth questionou-lhe, dirigindo-lhe o olhar.

--Sim, adoro. – Ele respondeu, retornando ao seu jeito sisudo.

--Ele é um excelente cozinheiro. – Caroline o elogiou com efusão.

--Não exagere, Caroline. – Darcy disse; parecia mal humorado.

Após o café, Elizabeth se aproximou de Richard a sala na frente de todos e disse.

--Vamos dar uma volta no jardim? – Convidando apenas ele.

--Ham... – Ele a fitou por um instante, confuso.

Estava consciente de Moira estar sentada ali em algum lugar.

--Claro. – Aceitou tardiamente, seguindo-a até a porta.

Caroline fitou Darcy, satisfeita pela atitude de Elizabeth em retornar suas atenções ao primo de Darcy. E ficou mais satisfeita ainda quando constatou que ele não parecia contente com isso.

~#~

Caminharam por um tempo em silêncio, até que Elizabeth lhe perguntou.

--O que você tem hoje? – Richard não parecia tê-la escutado. – Acordou do lado errado da cama? – Tentou fazer piegas para animá-lo.

--Na cama errada, seria o certo. – Ele resmungou.

Elizabeth não entendeu o comentário, mas continuou achar que havia algo de errado com ele.

--Quando você vai me contar a sua história com Moira? – Foi direto ao assunto, dando um tiro no escuro, esperando ter sorte.

--Como você...? – Ele a fitou, levemente alarmado.

--Não sou cega. – Replicou, contente por ter acertado no chute. – Nem burra.

Ele suspirou.

--Então? – Insistiu, quando o viu recair no silêncio.

--Nós namoramos... quando éramos adolescentes. – Ela acenou, em concordância, em silêncio, esperando que ele continuasse.

Mas ele voltara a ficar em silêncio.

--O que deu errado? – Questionou-lhe, não estava pronta para desistir ainda.

--Foi maravilhoso por um tempo... Durou um pouco mais de um ano. Começamos a namorar em um verão em que minha família estava em Pemberley. – Ele finalmente começou a relatar. – Todo mundo acreditava que, quando voltasse para Londres... para universidade, eu iria me esquecer dela... Afinal, Moira ainda estava no colegial e morava com os pais em Pemberley... Mas não terminamos. Quando chegou o Natal, eu passei dois dias em Londres com os meus pais e o resto do recesso em Pemberley, com ela e seus pais.

Ele omitiu, propositalmente, o fato de que foi nesta ocasião em que invadiu pela primeira vez o quarto de Moira no meio da noite.

--E o verão seguinte foi melhor que o primeiro. – Prosseguiu, sorrindo, saudoso. – Até que eu voltei para a universidade ao fim do verão. – E já não mais sorria. – Darcy conheceu Anne e ... Bem, andar com eles não era muito interessante para alguém cuja namorada está a quilômetros de distância... Então, eu fiz novos amigos... Amigos solteiros.

Elizabeth já começava a prever o fim daquela história.

--Eu ia a festas com eles... e... – Voltou a ficar em silêncio.

--E? – Instigou-o a continuar.

--Eu não queria traí-la, magoá-la deste jeito. – Ele afirmou, olhando Elizabeth nos olhos. – Mas eu sabia que eu acabaria fazendo mais cedo ou mais tarde, num dia em que saísse com os meus amigos e enchesse a cara... Eu acabaria ficando com alguém... E não queria fazer isso com ela... Eu a amava.

Ele ficou em silêncio e Elizabeth decidiu respeitar o seu momento.

--Eu sabia o que tinha de fazer. – Ele afirmou. – Então, eu peguei o telefone e...

--Você terminou com ela pelo telefone?! – Elizabeth deixou escapar esta exclamação de indignação.

--Eu era um estúpido, eu sei! – Ele recriminou-se.

--Desculpe-me. – Elizabeth se arrependeu de seu arroubo momentâneo; prometendo-se permanecer em silêncio.

--Mas isso não é tudo. – Ele alegou, miseravelmente.

Como ela permaneceu em silêncio, como havia se prometido, ele prosseguiu.

--No Natal seguinte, eu fiquei tentado a ir a Pemberley, mas resisti. Fiquei em Londres com os meus pais... – Olhando para Elizabeth, sorriu tristemente. – Minha mãe tinha comprado um colar de pérolas para dar a Moira de presente... Ela esperava que eu fosse a Pemberley como no ano anterior... Quando eu não fui, todos souberam que havia algo de errado. Mas ninguém comentou nada. Minha mãe acabou enviando o colar por outros meios.

Nova pausa. Parecia estar reorganizando seus pensamentos.

--No verão, eu sabia que teria de ir a Pemberley. – Retomou o discurso. – Eu tentei evitar, fugindo como um covarde. Programei uma viagem para a Espanha com meus amigos da Universidade. Mas meus pais fizeram questão que eu estivesse presente pelo menos para o Festival da Uva.

Não se deteve em explicar-lhe o que era o Festival da Uva.

--Então eu fui e lá estava ela. Linda, como sempre! – Nova pausa.

Parecia um martírio. Elizabeth se ruía de curiosidade, em silêncio. “Como ele poderia ter piorado a situação após o fim do namoro?”

--Eu a reencontrei quando Moira estava preste a se envolver com um carinha que ela tinha demonstrado interesse antes de nós começarmos a namorar. E é claro, eu fiquei louco de ciúmes!

Até mesmo agora, após tanto tempo, ele sabia que não se sentiria diferente; provavelmente não conseguiria agir de outra forma.

--Eu fiz de tudo o que você possa imaginar para mantê-los afastados... Infernizei a vida de Luke... – Ele tinha um sorriso diabólico nos lábios ao afirmar isto. – E ela me odiou. Porque eu não conseguia admitir com que ela pudesse se interessar por outro, mesmo depois de ter terminado o namoro com ela e nunca mais a procurado.

O sorriso já não existia mais. Ele voltara a ficar com o ar decepcionado.

--Eu disse que era estúpido? – Ele perguntou-lhe, voltando o rosto na sua direção brevemente de novo.

--O que mais você fez, Richard? – Elizabeth até temia lhe fazer esta pergunta.

--Ela não queria me escutar... Eu estava com raiva e indignado... E passei o resto dos dias que restava em Pemberley ficando com cada garota que cruzasse o meu caminho... Porque eu sabia que a magoaria e... eu queria que ela soubesse como eu me sentia.

Elizabeth não soube o que lhe dizer em resposta a esta revelação.

--Quando eu percebi a burrada que tinha feito já era tarde. E desde então, é assim que as coisas são entre nós. – Olhando para Elizabeth, disse. – Ela não confia em mim. Nunca mais irá confiar em mim.

--Eu sou forçada a discordar neste ponto. – Garantiu-lhe.

--Lizzie, ela olha para mim e vê o mesmo carinha que lhe partiu o coração na adolescência. – Ele refutou.

--Cabe a você mudar o jeito de ela lhe enxerga. – Elizabeth argumentou.

--Como? – Pararam de andar e sentaram-se em um banquinho mais afastado da mansão, mas ainda dentro de seus jardins.

--Bem, para começar... você terá de ser honesto com ela... – Aconselhou-o. – Não faça promessas que não pretenda cumprir... Se fizer alguma coisa, assuma os seus atos; mesmo que o resultado não seja aquele que esperava... E, mais importante, pare de galinhar!

--Eu não... – Ele ia negar, mas desistiu diante do olhar recriminador que recebeu.

--Você terá que ser paciente. Você não vai reconquistar a confiança dela de uma hora para outra.

Ele deu um longo suspiro.

~#~

Após o almoço, os homens foram pescar novamente, já que a tentativa da tarde passada rendeu infrutífera. E Caroline finalmente conseguiu forçar as mulheres a fazerem um programa completamente planejado por ela. Assim, tomaram um dos carros alugados até Edimburgo, para fazer compras na conhecida Victoria Street.

Victoria Street é uma rua situada no sopé do Castelo de Edimburgo. Ziguezagueando a vulcânica Castle Rock, a rua é um destino atraente para turistas e locais que migram para a área para passeios e compras. Mantém um charme do velho mundo com suas ruas antigas, arquitetura medieval e georgiana, pequenas lojas e cafés ao ar livre.

A contragosto, Elizabeth seguiu Caroline, Jane e Moira de loja em loja, à medida que percorriam aquela rua de paralelepípedos. Não que se negasse a admitir a beleza local daquela região. Mas preferia mil vezes explorar as ruas – talvez ir a uma das livrarias que possuíam uma seleção de livros raros de segunda mão – a ficar entrando em boutiques de luxo.

Após a vigésima loja, já perdera a paciência. Esperava uma oportunidade em que as outras mulheres estivessem distraídas para escapar. Estava com o seu celular e Jane a encontraria sem muita dificuldade quando estivesse indo embora.

Sorriu para si mesma quando o momento esperado se apresentou, já caminhando em direção a porta da loja. Ficou satisfeita ao constatar que fizera bem em trazer sua câmera fotográfica em sua bolsa, finalmente poderia tirar algumas fotos de Edimburgo.

Quando alcançou a calçada, ouviu.

--Dona Lizzie, onde pensa que vai? – Era a voz de Jane e ela não parecia nada contente.

Proferiu um impropério mudo, ao voltar de frente para a irmã, vendo que Moira a estava acompanhando.

--Não venha aplicar a manobra de Paris em mim de novo. – Jane a reprovou.

--Ahh, irmãzinha, por favor. – Implorou; foi pega, só lhe restava pedir humildemente para que Jane não a impedisse de fugir.

--Não, Lizzie. Caroline esta sendo simpática conosco durante nossa estadia em sua casa... Não custa fazer um programa de sua escolha por algumas horas. – Jane argumentou.

--Jane, estamos na Escócia... Em Edimburgo. – Elizabeth protestou. – Caroline já esteve aqui mil vezes, conhece a região... Mas eu não, nem você. E daí que ela acha deplorável sair por aí como uma turista qualquer? Eu não acho! Sou turista, quero conhecer locais turísticos, monumentos, praças, ruas, castelos velhos e tudo o que tenho direito. E não ficar entrando e saindo de lojas, experimentado roupas... Eu já faço isso no dia-a-dia quando estou na Inglaterra!

--São só mais algumas horas, depois podemos tentar convencê-la a ir até Grassmarket, que é aqui perto.

Grassmarket é o centro comercial mais próximo nomeado para uma antiga praça do mercado. É uma das melhores ruas de Edimburgo para aqueles que querem ter uma idéia da cidade história, que se estende ao longo abaixo de Castle Rock, com deslumbrantes vistas do Castelo de Edimburgo.

Historicamente, o Grassmarket era um local para enforcamentos e festas. Atualmente, é uma das melhores localizações para visitar bares assim como inúmeros pubs escoceses tradicionais, bem como restaurantes franceses e italianos.

--Há algum problema? – Caroline apareceu segurando um vestido verde água em mãos.

--Não. Está tudo bem. – Jane a assegurou.

--Ótimo, então. Jane, querida, achei este vestido lindo para você experimentar. – E, segurando Jane pela mão, levou-a para dentro da loja novamente.

Jane virou o rosto na direção de Elizabeth enquanto estava sendo arrastada por Caroline, lançando um olhar cheio de significados a Elizabeth. Quem, resignada, voltou para dentro da loja sem muita pressa.

--Manobra de Paris? – Moira lhe questionou, também as seguindo para dentro da loja.

--Nós estivemos em Paris há alguns anos para um desfile e num dia de folga, as outras modelos quiseram passear.

Elizabeth lhe explicou, permanecendo na companhia de Moira quando Jane e Caroline voltaram aos provadores.

--A maioria queria ir fazer compras, porque Paris é conhecida pela quantidade de lojas de estilistas famosos... Mas a minoria... – Corrigiu-se. – Na verdade, eu queria ir fazer um tour verdadeiro e não sair para fazer compras. Jane aceitaria o que a maioria decidisse e, como nós tínhamos esta regra para andar sempre em grupo quando estivéssemos viajando, eu não poderia fazer outra coisa a não ser seguir o bando de modelos de loja em loja.

--Mas você não seguiu. – Moira afirmou e não questionou.

--Eu segui, por alguns minutos apenas. – Elizabeth esclareceu. – Quando tive uma oportunidade, fugi sorrateiramente e experimentei as maravilhas de uma verdadeira Paris por algumas horas.

--Sozinha? – Moira parecia-lhe impressionada.

--O que eu podia fazer? Ninguém mais quis vir comigo. – Disse, simplesmente. – Jane ficou louca a minha procura depois que notou minha ausência. Acabou voltando para o hotel e esperou que eu voltasse também.  E me deu uma bronca quando eu apareci, porque a deixei preocupada.

Moira riu disto, finalmente entendendo porque Elizabeth e Richard pareciam ter se entendido tão bem logo de cara.

--Mas isso não aconteceria hoje, porque ela já tem uma experiência e eu estaria levando o meu celular para o caso de ela querer se comunicar comigo. – Prosseguiu com a mesma naturalidade de sempre. – Você já esteve aqui antes?

--Não. Sou turista como você e também preferiria andar pelas ruas a ficar entrando em lojas de roupas de grife.

As duas ficaram em silêncio alguns minutos, pensando em como esta era a primeira vez em que conversavam sozinhas e tão a vontade assim.

--Lizzie, posso lhe dar um conselho? – Moira dirigiu-se a ela hesitante.

Elizabeth sorriu-lhe, encorajadora. Gostou de constatar que a sua primeira impressão de Moira fora acertada e a mulher era realmente uma boa pessoa, e não outra esnobe como Caroline. E ficou satisfeita quando a tratou por seu apelido – sinal de que também gostara dela.

--Tome cuidado com Richard.

O tom sério que a conversa adquiriu fez com que Elizabeth parasse de mexer nas araras de roupas e voltasse a fitá-la com toda a sua atenção.

--Ele é um homem charmoso e sabe ser encantador quando quer, mas...

Elizabeth a interrompeu.

--Ele é inofensivo. – Proclamou, segura.

Sabia que devia tranqüilizá-la sobre o tipo de relacionamento que estivera estabelecendo com Richard estes dias.

--Não, não é. – Moira discordou.

Elizabeth riu da exasperação que Moira deixou transparecer com a sua contraposição.

--Richard é o tipo de homem que eu classificaria como paquerador patológico. – Elizabeth lhe explicou. – Flertar é a forma que ele sabe como se aproximar dos outros e quebrar o gelo inicial. Mas não pense que ele esteve me cortejando durante estes dias, porque ele não fez isso em nenhum momento.

--Talvez porque você não lhe deu uma brecha para tanto. – Moira rebateu. – Já que o seu coração está comprometido com outra pessoa. – Argumentou, racionalmente.

--Meu coração não está comprometido com ninguém. – Elizabeth repetiu, sendo a sua vez de ficar exaltada.

Moira lançou-lhe um olhar de incredulidade.

--O coração de Richard, no entanto, é outra história. – Elizabeth prosseguiu como se não houvesse notado o olhar que ela lhe lançou.

Moira se perguntou se Richard teria conversado com Elizabeth a seu respeito, mas preferiu não questioná-la – não queria discutir este assunto com ninguém. E assim retornaram a bagunçar as araras de roupas em silêncio.

~#~

Àquela noite, o grupo inteiro retornou a Edimburgo. Era a última noite que passariam na Escócia, pois, após o café da manhã de Domingo, estariam retornando para a Inglaterra. Já que todos retomariam a rotina a partir da Segunda.

Ao invés de experimentar um dos pubs locais, como o Black Bull, Caroline conseguiu encontrar um clube noturno comum para onde todos se viram obrigados a ir. Ela queria dançar.

Entretanto, quando estavam sentados na área VIP do clube noturno, Caroline não se apressou em ocupar a pista de dança. Sentada ao lado de Darcy, enchia-lhe de perguntas sobre a sua pescaria àquela tarde – como se aquele assunto lhe fosse extremamente interessante.

Charles e Jane foram os primeiros a deixarem a mesa com a intenção de dançar, deixando os demais participantes do grupo sentados sem que conversassem muito – exceto Caroline, que estava perdida em um monólogo qualquer que dirigia a Darcy.

Quando Richard cansou daquela situação constrangedora que pairava entre ele e Moira – sentados tão próximos, mas sem trocar uma palavra sequer – ergueu-se de seu lugar e foi para o balcão do bar.

--Vamos dançar, Moira? – Elizabeth convidou-a após alguns minutos da partida de Richard.

--Não tenho certeza se estou pronta para isso agora.

--Ahh, você não vai querer passar a noite inteira sentada aqui, vai? – Interrogou-lhe, sabendo que tinha um bom argumento.

Moira nada replicou. Elizabeth voltou o rosto na direção de Darcy e questionou-lhe.

--Você dança, Darcy?

Caroline fitou-a com olhos de águia.

--Quase nunca. – Ele respondeu, voltando ao seu jeito neutro e nada convidativo de ser.

Caroline sorriu, maliciosa. Elizabeth apenas virou o rosto na direção de Moira novamente, dizendo.

--Vamos, Moira. – Segurou-a pelo pulso e a tirou de seu lugar, fazendo-a acompanhá-la até a pista de dança.

Mesmo relutante, Moira a seguiu. Na metade do caminho, percebeu que ela já não estava ao seu lado. Quando procurou por ela a sua volta, viu Elizabeth se aproximando de Richard ao bar. Ele estava conversando com uma loira de vestido brilhante curtíssimo, que se insinuava descaradamente para ele.

Elizabeth surgiu por suas costas e falou em seu ouvido, inclinando-se sobre seu braço como apoio.

--Vamos dançar! – Puxou-o consigo, arrastando-o de perto da loira.

--Eu não sou bom dançarino, Lizzie. – Richard reclamou, com toda a intenção de voltar para perto da loira.

--Pare de dar tiro no próprio pé, Richard! – Elizabeth indicou a direção em que Moira estava parada com um aceno de cabeça discreto. – Lembra-se: chega de ser estúpido!

--Certo. – Concordou; e, olhando-a de soslaio, pensou “Somente Lizzie para puxar minha orelha numa hora como esta!”.

Quando se aproximaram de Moira, a sua expressão não fez com que Richard se sentisse melhor. Caminharam os três em direção a pista de dança, onde Jane e Charles já se encontravam.

Estavam dançando a terceira música agitada quando Caroline surgiu próxima a eles, trazendo Darcy consigo pela mão. Continuava com aquele sorrisinho convencido no rosto, quando se voltou de frente para ele e passou os braços envolta de seu pescoço, aproximando-se dele.

--Caroline, esta música não é lenta. – Darcy reclamou, segurando-a pelos pulsos e tirando seus braços de seu pescoço, afastando seus corpos consideravelmente.

Elizabeth escondeu um riso, enquanto Caroline tentava manter a mesma expressão vitoriosa no rosto depois daquela rejeição de Darcy à sua tentativa de sedução. Dançou envolta dele como uma cobra ardilosa se preparando para dar o bote.

Quando uma música lenta bastante envolvente começou a tocar, Elizabeth se aproveitou da presença dos outros a sua volta para se afastar de Richard e Moira sorrateiramente.

Moira não demorou a notar a sua ausência e com o olhar estreito fitou o rosto de Richard – quem viera a reparar no sumiço de Elizabeth àquele momento. Olhando de volta para Moira, encolheu os ombros. E, estendendo os braços na sua direção, perguntou.

--Quer dançar?

Ela hesitou, mas não o empurrou para longe quando Richard passou os braços por sua cintura, aproximando seus corpos. Com uma expressão séria, passou os braços envolta de seu pescoço, mas tomando o cuidado de deixar um espaço entre seus corpos.

--Muito esperto da sua parte pedir para Lizzie intervir a seu favor. – Comentou, levemente irritada.

--Eu não pedi nada a Lizzie, Moira. – Richard negou de imediato. – Nós só estamos dançando... Se você não quer dançar comigo, nós podemos parar agora mesmo. – Afirmou, parando de se mexer ao ritmo da música e quase soltando sua cintura.

--Vamos só dançar, por favor. – Ela pediu, como se estivesse passando por uma tortura que desejasse que terminasse logo.

--É assim tão ruim dançar comigo? – Ele perguntou, procurando por seu olhar. – Será que você não consegue nem fazer isso?

--Será que a gente pode não conversar sobre isso? – Ela, no entanto, evitava olhá-lo nos olhos. – Este não é o momento, nem o lugar para isso. Você sabe muito bem que este tipo de discussão só nos deixará miseráveis...

--Eu já me sinto miserável, Moira. – Ele afirmou, finalmente ganhando o seu olhar.

--Richard, por favor. – Ela murmurou, tentando se controlar.

--Tudo bem, vou ficar em silêncio. – Ele resmungou, desviando seu olhar.

Mas não demorou um segundo para voltar a fitá-la nos olhos e dizer.

--Mas fique ciente que é você quem está fugindo de mim agora.

--Richard! – Ela resmungou, parando de dançar e tentando se soltar dele.

--Vou ficar calado. – Ele garantiu, impedindo-a.

Ela voltou a hesitar, mas acomodou-se novamente em seus braços. Decidindo que a música já se aproximava do final, não tinha motivos para causar uma cena.

--‘Paciência é uma virtude’. – Ouviu-o murmurar.

--O que disse? – Quis saber.

--Nada. – Ele replicou. – Eu estava só pensando em voz alta.

--Você nunca foi muito paciente. – Ela comentou.

--Vou ter que aprender a ser, não é mesmo? – Ele arqueou a sobrancelha para ela ao lhe perguntar isso.

E Moira não teve dificuldades em desvendar o que ele queria dizer com aquilo.

Nos últimos acordes da música, ele a abraçou mais forte e sussurrou em seu ouvido.

--Eu não estou pronto para desistir de você ainda. – E beijou-lhe o seu pescoço atrás da orelha, fazendo o corpo dela estremecer.

Mas deixou-a sair de seus braços, sem lutar, quando ela assim desejou.

~#~

Enquanto se dirigia a mesa, Elizabeth percebeu que Darcy caminhava ao seu lado. Ela olhou a sua volta, procurando por Caroline e a viu tentando se aproximar deles. Ficou imaginando se Darcy teria abandonado-a na pista de dança sem um aviso.

--Não sabia que tinha talento para cúpido. – Ele comentou, capturando sua atenção ao se curvar em sua direção para falar mais próximo de seu ouvido.

--Tenho muitos talentos que você desconhece. – Replicou, enigmática.

Ele a fitou com uma sobrancelha erguida, fazendo-a sorrir por dentro.

--Eu aprendi cedo que, quando se trata daqueles dois, é melhor não interferir. – Ele prosseguiu, indicando Richard e Moira na pista de dança, ainda hesitantes em dançar juntos.

Elizabeth parou de andar e voltou-se de frente para ele, fazendo-o parar também.

--Dar um empurrãozinho na direção certa não é interferir, na minha opinião. – Rebateu; seu olhar estava estreito ao lhe dizer isto.

--Eu não estava lhe criticando. – Darcy decidiu se justificar.

--Seria a primeira vez. – Ela resmungou, com a intenção de voltar a andar.

Mas ele a impediu, passando a sua mão na cintura dela e a fazendo ficar ali.

--Quer dançar?

Elizabeth olhou-o surpresa.

--Por quê? – Escapou de sua boca antes que pudesse evitar. – Pensei que você não gostasse de dançar, Darcy.

--Esta noite é uma exceção. – Disse, com bastante charme.

E não demorou a guiá-la de volta a pista de dança, com a sua mão depositada à suas costas. Quando passaram por Caroline, Elizabeth viu que a ruiva estava boquiaberta.

Elizabeth realmente não entendia este homem. Lá estava ele, envolvendo-a em seus braços, guiando o seu corpo com maestria por aquela pista de dança ao som daquela melodia suave sem nenhuma hesitação.

“Que homem mais estranho!”

--Devíamos conversar sobre alguma coisa. – Propôs.

Darcy fitou-a nos olhos por um momento, como se estivesse surpreso em ouvir a sua voz.

--Por quê? – Questionou-lhe.

Elizabeth pensou que ele não gostou muito de sua sugestão; parecia-lhe que o arrancou de pensamentos muito interessantes com as suas palavras.

--Você precisa conversar quando está dançando? – Ouviu-o lhe perguntar.

--Às vezes conversar sobre alguma coisa é preciso, senão instaura-se um silêncio constrangedor entre as pessoas que faz com que os minutos se arrastem. – Elizabeth argumentou, racionalmente.

--Tem momentos em que é agradável aproveitar a companhia de outra pessoa em silêncio. – Ele contrapropôs.

--Quando duas pessoas são íntimas, talvez. – Ela rebateu. – O que não é o nosso caso.

Ele voltou a fitá-la daquela forma avaliativa que a deixava ansiosa, desconfortável.

--A não ser que você prefira ficar calado... – Disse, cansada de seu escrutínio. – Há quem prefira ser anti-social e taciturno. – Alfinetou-o, não resistindo esta oportunidade de provocá-lo.

--E do que você quer falar? – Ele escolheu ignorar a sua provocação.

Elizabeth deu de ombros, se perguntando por que se dava o trabalho de se incomodar com ele. E, suspirando, deixando transparecer seu estado de espírito, desviou o seu olhar. Decidindo-se por observar os outros casais a sua volta para se distrair.

--É a sua primeira vez na Escócia? – Ouviu perguntar-lhe e voltou a fitá-lo nos olhos.

Encontrando-o a observá-la ainda da mesma forma.

--Sim. – Respondeu.

--Está gostando da sua viagem? – Ele continuou a perguntar, como se estivesse determinado a atender ao seu pedido de conversar.

--Sim.

--Então está achando a viagem agradável?

--Sim. – Perguntava-se quando ele se cansaria de sua respostas monossilábicas; divertia-se com a idéia de que ele estava provando um pouco do próprio veneno.

E, verdade seja dita, ele estava se cansando de suas respostas curtas. Não estava acostumado a se encontrar na posição da pessoa que faz as perguntas e tenta manter a conversa fluindo sem muito encorajamento da outra parte.

--E há alguma coisa que não lhe agradou? – Fez uma última tentativa.

--Até agora tudo está maravilhoso. – Elizabeth respondeu, finalmente sendo mais eloqüente.

Sabia que não conseguiria se manter indiferente às suas perguntas por muito tempo.

--Isto é, houve alguns momentos imperfeitos... – Lembrou-se da tarde enfadonha que passou fazendo compras. – Mas... Bem, nada é perfeito, não é? – Sorriu, maliciosa, ao fim.

--Vamos voltar a este assunto? – Ele interrogou, entendendo perfeitamente a sua referência à discussão que tiveram na biblioteca.

Elizabeth riu baixinho. Sim, estava o perturbando e divertia-se quando suas tentativas davam certo.

--Você tem um lindo sorriso. – Ele disse, fitando-a daquele jeito estranho.

Elizabeth parou de sorrir ao ouvi-lo dizer isto. Sentiu aquela conhecida apreensão e mordeu o lábio inferior quando o sentiu tremer levemente, graças ao súbito nervosismo.

A música lenta acabou, mas ele não a soltou. A mão firme dele passeou nas suas costas e, fazendo uma pressão maior em um ponto determinado, ele trouxe o seu corpo mais para perto do dele. O seu coração batia a mil em seu peito, enquanto assistiu-o se inclinar em sua direção e os lábios dele se aproximarem dos seus...

 

 

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