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Quando lhe falta o que ambiciona, o verdadeiro filósofo contenta-se com o que tem.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo XIV

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Capítulo XIV

Bem me quer, mal me quer...

 

Elizabeth tivera uma manhã muito lenta. Acordara após as dez e, ainda assim, permaneceu na cama por mais meia hora, apenas aproveitando aqueles minutinhos de moleza e preguiça deliciosa.

Quando surgiu à presença dos outros, descobriu que todos já haviam tomado café. E Caroline, sorrindo-lhe amigavelmente, informou-lhe que a mesa do café fora recolhida. Praticamente alegando que havia um horário considerado apropriado para tomar-se o café-da-manhã e que Elizabeth não o estava respeitando, acordado tão tarde.

Elizabeth não se incomodou em tomar café à cozinha, sozinha. E não deu importância ao olhar vitorioso que Caroline lhe lançou quando tomou esta decisão. Elizabeth percebeu que Caroline ainda não estava totalmente recuperada do episódio em que lhe chamou de interesseira e parecia disposta a revidar a injúria de alguma forma.

Quando se juntou aos demais após tomar café, encontrou somente Richard e Charles à sala. Sentou-se ao lado de Richard e escutou a conversa que estavam tendo. Charles estava tentando encontrar algum programa que pudesse agradar a todos.

--Não seria melhor reunir todos para tomarmos uma decisão quanto ao que vamos fazer? – Perguntou aos outros dois.

Ambos deram os ombros, indecisos.

Elizabeth viu de relance que Darcy estava à sala ao lado, conversando com alguém ao telefone. Ficou a observá-lo e comentou com Richard.

--Ninguém nunca disse ao seu primo que estes dias de descanso são feitos para o “descanso” e que ele nunca vai relaxar se ficar enfurnado no trabalho dele o tempo todo?

Richard olhou na direção em que ela estivera olhando e viu o primo ao telefone.

--Você está presumindo que aquele é um telefonema de negócio. – Richard comentou, fitando-a com um olhar perspicaz.

--Não é? – Elizabeth não percebeu a forma que ele a olhava; estava distraída demais com Darcy para notar que a sua curiosidade a estava denunciando.

--Não. – Ele replicou, mas não se aprofundou no assunto até que Elizabeth lhe fitasse nos olhos, expectativamente. – Ele está falando com a irmã. – Informou-lhe.

--Ah... – Elizabeth voltou a focar o seu olhar em Darcy, continuando a não dar atenção ao sorrisinho malicioso no rosto de Richard.

--Ela resolveu ficar com as amigas de universidade este feriado, ao invés de ir para casa de seus pais... – Ele continuou.

--E ele está preocupado que ela se envolva em alguma confusão. – Ponderou, admirada com o irmão zeloso que ele parecia ser.

--Algo do tipo. – Richard replicou, de má vontade, voltando o rosto na direção de Charles como se pretendesse encerrar aquela conversa.

Elizabeth voltou a fitá-lo, percebendo que dissera algo que não devia. Então, preferiu mudar o assunto.

--É impressão minha, ou todo mundo está meio devagar esta manhã? – Disse, tentando soar distraída.

--Hum... – Richard deu de ombros, novamente.

--Eu quase não consegui sair da cama. – Insistiu, tentando mudar o clima estranho que pairava entre os dois.

--Deu para perceber, dorminhoca! – Ele finalmente recuperara seu ar brincalhão.

--Lizzie é uma preguiçosa de carteirinha. – Jane comentou, ao entrar na sala acompanhada por Moira e foi se sentar perto de Charles.

--Desculpe-me, mas vivo sendo privada do meu sono no dia-a-dia. Quando posso, aproveito para ficar na cama o tempo que for possível.

--O que há de tão atrativo em uma cama para despertar tamanho magnetismo em você? – Quis saber Richard.

--Bem, uma pessoa pode ter todas as coisas básicas que uma cama é obrigada a ter, como um travesseiro, cobertor e lençóis. Mas... como isso pode se transformar em um dos prazeres simples da vida depende do proprietário da cama.

Darcy entrou na sala neste instante e parou perto a porta em silêncio, com as sobrancelhas erguidas. “Que conversa era aquela?”, ele se perguntava.

--Você pode explicar o que quer dizer? – Moira pediu, também estranhando o teor daquela conversa; “É impressão minha, ou ela está flertando com Richard?”.

--Bem, isso depende de quanta atenção o proprietário dá a detalhes particulares de sua cama. – Ela começou a explicar. – Eu só posso falar por mim, mas eu sou muito particular sobre o tipo de cama em que eu me deito.

Richard lhe lançou um sorriso cafajeste de canto de boca, mas Elizabeth escolheu ignorá-lo. Não deixaria com que as suas palavras se transformassem em algo diferente de sua verdadeira intenção. Pela expressão no rosto de Moira, notou que ela também estava seguindo a mesma linha de raciocínio de Richard.

--Eu gosto de uma cama em que possa me esticar totalmente e meus pés não fiquem pairando nas beiradas. Um colchão macio também ajuda. Mas eu acho que é o tipo de lençóis que podem realmente fazer uma diferença na maneira como uma cama pode ser confortável.

Esperou que alguém fizesse algum comentário, mas até Charles parecia interessado em que continuasse com sua explicação.

--Eu gosto de lençóis que são macios contra a minha pele, como algodão. Suave de modo que há uma sensação aconchegante quando estou dormindo que me faz querer ficar na cama em vez de ir ao trabalho.

Quando ouviu o começo de sua explicação, Darcy pensou que era encantador como ela parecia obter algum tipo de prazer nas coisas cotidianas. Agora, a discussão parecia ter se voltando para um assunto mais atraente.

Elizabeth não era abertamente sugestiva de qualquer forma. Na verdade, foi o que provavelmente o afetou tanto. Ela estava simplesmente a falar de suas próprias opiniões, mas de certa forma, criou imagens em sua mente que ele não podia apagar.

As palavras pele, macia e suave deixaram impressões duradouras em sua mente. Embora tivesse ouvido tudo o que tinha sido dito, estas foram às palavras que ficaram gravadas em sua mente. As imagens criadas por aquelas palavras estavam deixando sua respiração instável.

--Isso foi esclarecedor. – Richard comentou, com naturalidade.

--Eu nunca vou olhar para uma cama da mesma forma novamente. – Charles ponderou, admirado.

--Conseguiram entrar em consenso quanto ao que vamos fazer hoje? – Caroline interrogou, parada às costas de Darcy.

Todos olharam em sua direção e Darcy atravessou a sala, dirigindo-se a janela. Precisava de algo para distrair a sua mente e se ficasse olhando para Elizabeth não conseguiria mudar o foco de seus pensamentos naquele instante.

A sra. Farquar fez com que a cozinheira prepara-se cestas de piqueniques bem fartas e o sr. Farquar providenciou material de pesca – varas, iscas e demais equipamentos – para que os rapazes pudessem aproveitar àquela tarde de sexta no rio Tweed.

O rio Tweed, que serpenteia através de seu amplo vale, é conhecido mundialmente como um dos melhores rios de pesca de salmão na Escócia. Além do salmão, os pescadores podem ir atrás de truta selvagem e grayling, ou a truta arco-íris nos lagos locais.

Saíram todos juntos, seguindo a trilha indicada pelo sr. Farquar. Todos estavam satisfeitos com a atividade daquele dia, exceto Caroline. Quem preferia estar fazendo qualquer outra coisa a se aventurar ao ar livre. Mas que não teve muita escolha, por não desejar passar o seu dia sozinha.

--Eu me lembro perfeitamente do dia em que Charles lhe conheceu... – Moira comentava com Jane, deixando-a corada. – Na verdade, foi o dia seguinte... Ele não parava de falar em você!

Jane voltou o olhar para Charles e ele lhe sorriu, amoroso.

--Jane não foi diferente. – Elizabeth decidiu participar. – Quando ela chegou a casa na mesma noite parecia estar pisando em nuvens...

E foi a vez de Jane ficar embaraçada.

--Você sabia que até ganhou um apelido? – Elizabeth perguntou a Charles, ganhando um beliscão da irmã.

--Qual? – Charles se interessou.

--“Sr. Mercadinho-24-Horas”. – Elizabeth riu.

--Lizzie! – Jane recriminou-a, suas bochechas ficando de um vermelho escarlate.

Ninguém parecia ter entendido a piada.

--Esse apelido não faz o mínimo sentido! – Caroline a reprovou.

--Charles ofereceu uma bebida a Jane, ela recusou por não beber nada alcoólico e ele se ofereceu a ir a um mercadinho vinte e quatro horas caso o bar não tivesse alguma bebida não-alcoólica a oferecer aos seus clientes. – Elizabeth explicou, após afastar-se de sua irmã para evitar que Jane continuasse a beliscá-la.

--Jane também ganhou um apelido. – Darcy informou, olhando rapidamente para Elizabeth e desviando logo em seguida.

Elizabeth fitou-o, surpresa por ele estar participando daquela conversa. Estivera totalmente calado o dia inteiro.

--Ganhei? – Jane questionou, olhando para Charles, quem estava tão constrangido quanto ela.

--“Anjo”. – Richard respondeu por ele. – Porque ele se esqueceu de perguntar-lhe seu nome quando a conheceu. – E riu, por fim.

Todos riram, exceto Caroline. Ela não achava aquela conversa a respeito da vida amorosa do irmão nada interessante.

--Eu não devia deixar barato, dona Lizzie. – Jane ameaçou, ainda rindo.

--E o que você poderia fazer, irmãzinha?! – Elizabeth perguntou, faceira.

--Se me lembro corretamente, eu não fui a única a estar andando nas nuvens naquela noite. – Jane alfinetou, olhando de relance na direção de Darcy.

Elizabeth perdeu a cor e o riso imediatamente.

--Quer dizer que o seu coração esteve comprometido este tempo todo e a senhorita falhou em me informar?! – Richard exclamou, fingindo contrariedade.

--Meu coração não está comprometido! – Elizabeth se apressou em contradizer. – Minha irmã está iludida! – E dirigiu um olhar atravessado a Jane, quem riu baixinho e continuou a lançar olhares furtivos a Darcy.

Elizabeth olhou para Darcy e o viu fitá-la com o semblante sério. Até que desviou o olhar novamente.

Quando chegaram ao córrego do rio, organizaram-se: as mulheres estenderam uma toalha no campo aberto, enquanto os homens preparavam suas varas de pesca e suas iscas.

Charles, Richard e Darcy entraram no rio paralelamente, com certa distancia entre seus corpos para facilitar no lançamento da isca. Quando a água alcançava a altura dos joelhos, pararam e prepararam-se para o primeiro lançamento.

Não havia muita conversa entre eles. Outro fato que os agradava na pesca. Raramente conversavam, apenas aproveitavam a companhia um do outro naquele tranqüilo e relaxante ambiente. Cada um parecia ligeiramente perdido em pensamentos particulares.

Darcy ainda estava pensando como fora a sua manhã naquele dia – desde o instante em que abriu os olhos.

Acordou, sentindo a sua cabeça ligeiramente pesada. Virou-se na cama e pegou o seu relógio de pulso sobre o criado-mudo. Já estava no meio da manhã e ele ainda estava na cama.

Darcy sentou-se e verificou o relógio. 09h42minm da manhã, conferiu. “Dormi tanto assim?”, sequer se lembrava da última vez em que conseguira permanecer na cama, adormecido, enquanto as horas avançavam pela manhã.

Recostou-se novamente no travesseiro e se espreguiçou lentamente, satisfeito: “eu consegui dormir!”. Não conseguia lembrar-se de ter sonhado com nada àquela noite. “Devo ter apagado por completo.”, ponderou.

Respirou fundo e um aroma cítrico suave invadiu as suas narinas. Virou o rosto na direção do vazio ao seu lado na cama e teve uma sensação estranha. Respirou fundo novamente e aquele cheiro persistiu. Agarrou o travesseiro ao lado e cheirou-o, procurando a origem daquele cheiro. Não era o travesseiro.

Inspecionou os lençóis e ainda assim, não achou a sua origem. Tinha consciência de se tratar do perfume feminino, um perfume de mulher – sabia exatamente a quem pertencia.

Lembrava-se do momento em que a encontrou ao corredor dos quartos e, embora sua consciência estivesse um pouco embaralhada naquele momento, podia recordar da sensação de tê-la em seus braços.

Puxou a gola da camisa e a cheirou. Percebeu que o perfume estava impregnado nele. Inconsciente de seus atos, fechou os olhos e inspirou lentamente, permitindo que o perfume cítrico invadisse suas narinas.

Não era um cheiro forte, enjoativo. Mas sim suave, transmitia uma sensação de frescor – como uma leve brisa perfumada por flores.

Como se isto não fosse suficiente, desde então não era somente o seu cheiro que perturbava a sua mente. As palavras pele, macia e suave, ou melhor, as imagens que elas produziam em sua cabeça estavam conseguindo acabar com o pouco de sanidade que ainda lhe restava.

“Deus, passei a maior parte da minha manhã imaginando com que roupas ela se deita na cama para dormir... Pior, fantasiando a ausência delas.”. Sacudindo a cabeça, para afastar aquela lembrança, Darcy tentou se concentrar na pesca.

Mas voltou a pensar nela, quando as palavras de Jane – “eu não fui a única a estar andando nas nuvens naquela noite” – somadas às de Richard – “o seu coração esteve comprometido este tempo todo” – vieram lhe assombrar.

Enquanto isto, Richard ponderava a hostilidade que Moira estava dirigindo a ele desde que chegaram à Escócia. Sim, sempre viveram em guerra, como cão e gato. Mas ela estava muito pior agora; era como se ela sequer suportasse a sua presença. Precisava resolver o seu problema com ela, ou enlouqueceria.

Já Charles se lembrava da noite maravilhosa que tivera ao lado de Jane, quando conseguiram escapulir da presença dos demais. Do namoro no sofá numa sala reservada, aquecidos pelas chamas na lareira – dos beijos e carícias partilhadas.

Sorria para si mesmo, ao admirar-se com as novas sensações que Jane despertara nele. Sentia-se como um colegial, com a sua primeira namorada. Cada novo avanço alcançado a fim de aprofundar a intimidade dos dois era motivo de celebração.

Tinha certeza que nenhum dos seus dois companheiros poderia entendê-lo. Richard só consegue pensar em sexo sem compromisso e Darcy não tem nenhuma interação com uma mulher há meses; como algum deles poderia entender o que ele está sentindo?

Distraidamente, começou a assobiar. Richard olhou para ele, contrariado com tamanha demonstração de felicidade, quando ele, pessoalmente, estava com a mente cheia de preocupações.

Então, ouviram um grito agudo. Que logo se transformou em uma comoção à beira do rio.

~#~

O sol de outono estava agradavelmente morno no rosto das três mulheres, sentadas sobre o lençol xadrez em que estava disposto o piquenique. Mas, desde que os homens começaram a pescar, Caroline não parou mais de reclamar.

--Se eu tiver que passar mais um dia fazendo programas de índio como este... eu me enforco!

Notando que Elizabeth estava preste a fazer um de seus comentários, o qual imaginou ser algo do tipo: ‘Jura? Posso lhe arranjar uma corda?!’, Jane decidiu interferir.

--Caroline, não diga que não está gostando de ficar aqui... – Comentou, gesticulando para a paisagem a sua volta. – Tudo é tão lindo...

--Ora Jane, não diga que não acha isso monótono! – Caroline revidou, com desdém. – Sinceramente, a propriedade é linda sim, mas... é muito longe de tudo... Não há nada para se fazer aqui se você não for fã de pesca ou golfe!

Elizabeth revirou os olhos e pôs-se de pé, dizendo.

--Eu vou caminhar e tirar algumas fotos. – E se afastou do piquenique.

--Amanhã nós iremos a Edimburgo, de volta à civilização... Não vou aceitar nenhuma desculpa de Charles... – Caroline prosseguiu como se Elizabeth não houvesse se pronunciado. – Temos os carros de aluguel a nossa disposição e Edimburgo não fica tão longe assim...

Moira estava tentada a seguir Elizabeth, porque não estava gostando da ladainha de Caroline. Mas ficou com receio de abandonar Jane sozinha, quem demonstrava ter uma alma tão bondosa e ser incapaz de proferir uma opinião desfavorável sobre ninguém. E, certamente, não tentaria refrear a irmã de seu próprio namorado. Ao contrário, esforçava-se para agradá-la na medida do possível.

Ficou ali, fingindo estar interessada nos planos de Caroline para o dia seguinte, observando Elizabeth se afastar cada vez mais de onde estavam. Ela, de vez em quando, parava e tirava uma foto – do rio, dos arbustos, dos homens pescando, de uma águia que passou voando por sobre a sua cabeça. Até que encontrou um caminho entre os arbustos e sumiu de vista.

De repente, Moira sentiu algo em seus cabelos. Passou a mão sobre algumas mechas, distraidamente. Alguns minutos depois, sentiu algo caminhando em seu pescoço. Paralisada, sentia as patinhas ásperas tocando a sua pele, subindo pela sua nuca e se aproximando da sua orelha.

Pôs-se de pé num pulo e começou a sacudir o cabelo, agoniada. Caroline gritou com o susto, não estava esperando por nada parecido com aquilo.

--O que você está fazendo? Enlouqueceu? – Caroline reclamou, pondo-se de pé também e se afastando de Moira.

--Moira, o que está acontecendo? – Jane perguntou, com a voz alarmada.

--Tira! – Moira exclamou, irracionalmente. – Tira isso de mim! – Ainda podia sentir as patinhas ásperas caminhando pelo seu pescoço e tentava de todas as formas arrancá-las de lá, mas o seu cabelo a estava atrapalhando.

--Tirar o que? – Caroline quis saber, mas mantendo a distância; não se preocupou em esconder a sua expressão de nojo.

Jane tentou se aproximar e assessorar Moira, já imaginando que algum inseto estava em seu cabelo. Mas Moira estava inquieta, não permitindo que Jane conseguisse lhe ajudar.

De repente, Richard passou apressado em sua frente, segurou Moira por um braço e a puxou para si.

--Fique quieta! – Ordenou.

Moira soltou os próprios cabelos e segurou-se em Richard, cravando as unhas em sua roupa, ainda agoniada.

-- Tira isso de mim! – Ela implorou, nervosa.

--Shiuu!!! – Ele murmurou, tentando acalmá-la, enquanto mexia em seu cabelo em busca do inseto. – Pronto. – Disse, ao capturar o bichinho, que não passava de um simples besouro. – Olhe, é só um besouro.

Moira desviou o rosto do inseto e o escondeu no ombro de Richard, resmungando algo inteligível. Richard jogou o besouro fora. Moira continuava com as unhas cravadas em sua roupa e com o rosto escondido em seu ombro.

--Está tudo bem agora, Moira. – Ele a confortou. – Eu já joguei fora. – E, instintivamente, começou a acariciar os seus cabelos, tentando ajeitá-los.

Lentamente, ela retirou o rosto de seu ombro e olhou para ele. Por alguns segundos, permaneceu assim, permitindo que ele acariciasse seu rosto e olhando-o nos olhos. Até que se afastou lentamente, direcionando o rosto e o olhar para o chão. Sozinha, começou a ajeitar os cabelos, prendendo-os para que não caíssem sobre o seu rosto.

--Você se arranhou... – Jane comentou, já que estava praticamente ao seu lado e tinha uma visão privilegiada de seu pescoço.

E o pescoço de Moira estava repleto de arranhões vermelhos, feitos por ela mesma enquanto tentava se livrar do besouro.

--Acho que você devia limpar com anti-séptico para não ficar irritado mais tarde. – Jane sugeriu.

Moira concordou, em silêncio, com um aceno de cabeça. Parecia constrangida, principalmente ao perceber que Darcy também saíra do rio, trazendo sua vara de pesca em mãos, e Charles vinha logo atrás.

--Deve ter anti-séptico na casa. – Richard chamou a sua atenção de volta.

--Eu lhe acompanho até lá. – Jane se prontificou e as duas seguiram em direção ao caminho que as levaria de volta a casa.

--Tudo bem com Moira? – Darcy perguntou a Richard.

Os dois trocaram informações por olhar apenas.

--Eu tentei pegar a sua vara, mas... – Darcy justificou, apontando para o estado de sua roupa (molhada até acima da cintura). – ...desceu riu abaixo.

Richard não deu a mínima atenção àquilo, pouco lhe importava a perda de uma vara de pescar. Continuou a olhar para o caminho que as duas mulheres seguiram, em silêncio.

--O que aconteceu? – Charles perguntou, assim que se reuniu aos demais.

--Um inseto qualquer subiu no cabelo de Moira. – Caroline respondeu, sem dar a mínima importância ao ocorrido. – Francamente, Moira fez um enxame por algo tão ... insignificante. – Comentou com desdém.

Darcy e Richard lhe dirigiram olhares azedos, mas ela não deu atenção.

--Era só um besouro! – Continuou com seus comentários.

Richard marchou em direção ao caminho que as mulheres tomaram, deixando os outros para trás.

--Você devia restringir a sua opinião para as suas criticas de moda. – Darcy disse, zangado, antes de reunir os equipamentos de pesca e seguir o primo.

Deixando para trás os irmãos: Caroline com uma expressão de ultraje no rosto e Charles com um sorriso discreto de canto de boca. Sua irmã já estava passando dos limites com os seus resmungos e merecia um puxão de orelha, em sua particular opinião.

~#~

Richard chegou à mansão e perguntou a Gillian onde poderia encontrar Moira. A jovem empregada informou-lhe que a Srta. Reynolds e a Srta. Bennet estavam no quarto da primeira.

Sem hesitar, Richard foi até o quarto de Moira. A porta do quarto estava entreaberta, então entrou sem pedir licença. Parou à soleira da porta do banheiro e ficou a observá-las. As duas estavam de costas para a porta, por isso não o viram de imediato.

Moira havia retirado a suéter que estivera vestida e estava usando apenas uma camiseta regata que estivera usando por debaixo do suéter. O seu cabelo estava preso em um coque e Jane aplicava o anti-séptico com um pedaço de algodão. Enquanto isso, contava-lhe anedotas de seu passado.

--Minha mãe odiava quando aparecíamos com machucados, então minhas irmãs mais novas geralmente vinham até mim quando se machucavam para que lhes fizesse curativos... – Contava-lhe isto, enquanto passava o algodão molhado sobre os arranhões com muita delicadeza. – Especialmente Lizzie, quem tinha uma proeza para aparecer com arranhões e cortes quando éramos criança.

--Você e Elizabeth são muito unidas. – Moira comentou, observando Jane pelo reflexo do espelho.

--Sim. – Jane confirmou. – Das minhas quatro irmãs, me entendo melhor com Lizzie... Não sei se por causa da diferença de idade entre nós e as outras três... Por alguns anos, fomos somente Lizzie e eu... Mas é verdade, somos muito amigas... Confidentes, até. – Sorria ao falar da irmã. – Nós nos completamos. – Riu.

--Eu queria ter tido uma irmã, ser filha única não é tão bom quanto às pessoas pensam. – Comentou. – Eu tenho Will, mas ele é homem... não é a mesma coisa. E Georgie é muito nova. Embora nós nos entendêssemos muito bem, nós não fazemos confidências uma à outra.

Jane demorou um pouco para entender que Moira estava falando de Darcy e sua irmã.

--Vocês se conhecem há muito tempo? – Perguntou, por fim.

--Fomos criados juntos. – Moira respondeu. – Meu pai é o administrador das terras da família no interior da Inglaterra e minha mãe é a governanta de Pemberley... Passamos praticamente todos os verões juntos quando criança.

--E quanto a Richard? – Jane também notara o clima estranho entre eles e sabia que havia alguma história por detrás disto.

--Eu fui criada com ele também, mas nós nunca nos entendemos bem. – Respondeu o mais evasivamente que pode. – Eu me entendo melhor com Noah, irmão de Richard... Embora Noah seja mais velho que o próprio Richard... e não tenha estado tão presente na minha infância quanto Richard e Will estiveram.

Moira evitou olhar para Jane através do espelho enquanto dizia isto e por isso viu a imagem de Richard parado à porta do banheiro, observando-as. Seus olhares se cruzaram no reflexo do espelho e ambos se perderam em lembranças do passado.

Era um dia quente de verão. Noah seguia a frente, com passadas largas e rápidas. Will e Richard o seguiam quase correndo. Fora um sacrifício convencer seu irmão a permitir que eles o acompanhassem até a cachoeira – onde Noah estaria se encontrando com seus amigos.

Também, quem poderia esperar que um jovem de dezessete anos ficasse contente em ter de tomar conta de dois meninos de dez anos quando está tentando se divertir com seus amigos de mesma idade?

Noah conhecia um atalho pelo bosque atrás da casa anexo de Pemberley, onde o administrador das terras, o sr. Reynolds, mora com a sua família. Quando se aproximaram da casa anexo, viram uma menina de seis anos no jardim de rosas de sua mãe.

O sol batia nos seus cabelos negros, lhe dando um brilho indescritível. Ela estava agachada. Cavava um buraco com uma mão, enquanto a outra segurava uma rosa pelo talo. Quando ouviu-os se aproximando, ergueu a cabeça com expectativa. Sorriu e pôs-se de pé com um pulo, largando a flor no chão de terra.

Correu até eles. Seus cabelos balançando com os seus pulos.

--Will, Will, ...posso ir com vocês? – Pediu, seguindo os meninos.

--Você nem sabe para onde vamos, pirralha. – Richard reclamou, olhando para ela.

--Pra onde vocês estão indo? – Ela perguntou para William.

--Para a cachoeira e você não pode vir com a gente. – Richard respondeu.

Ele não gostava da forma que os olhos da garota brilhavam quando olhava para seu primo. Ela olhava para ele com tamanha veneração que irritava Richard.

--Por que não? – Ela insistiu.

--Porque não.

--Will? – Ela voltou o olhar suplicante para William.

--Ela pode vir com a gente, Noah? – William perguntou ao primo mais velho, para o desgosto de Richard.

--Quem é que vai tomar conta dela? – Richard interrogou.

--A mãe dela não vai deixar. – Noah respondeu.

--Ela vai deixar sim, eu peço! – Moira insistiu.

Noah suspirou, parando de andar por um segundo quando já alcançavam o fundo da casa anexo e observou aquela menininha a sua frente, com aqueles olhos castanhos enormes lhe suplicando.

--Se sua mãe deixar... – Noah cedeu, Richard resmungou baixinho. – Mas vá rápido pedir a sua mãe.

--Vem comigo? – Pediu a William.

E os dois foram correndo até a casa principal. Voltaram depois de cinco minutos, a menina corria e ria, saltitante de tanta felicidade. Gritou a certa distância:

--Ela deixou, ela deixou... – Enquanto corria para alcançá-los.

--Vamos logo, então. – Noah disse, voltando a andar em direção ao atalho que já estava visível entre alguns arbustos.

Ele foi à frente, Will e Moira logo atrás e Richard ficou por último, ainda indignado. Não gostava de ter aquela menininha os seguindo. Ele queria andar com os meninos mais velhos e não ser jogado na companhia dos garotos mais novos. Moira só atrapalharia seus planos.

Foi então que teve uma idéia!

Enquanto caminhava atrás dos outros três, procurava entre as folhas e galhos das árvores, ou plantas rasteiras, um besouro. Se conseguisse achar um poderia pôr o seu plano em ação. Mas precisava fazê-lo enquanto estavam na trilha, para ninguém saber que foi ele e não apenas o acaso.

Conteve uma exclamação de animação quando encontrou um besouro. Parou para apanhá-lo, deixando que os outros tomassem à dianteira. Quando conseguiu prender o besouro seguro em mãos, correu para alcançar os outros.

Noah ia bem à frente, William um pouco atrás. De vez em quando, diminuía os seus passos para que Moira o acompanhasse. Richard aguardou um dos momentos em que a menina ficou para trás e se aproximou sorrateiramente.

Moira estancou no meio do caminho quando sentiu-o segurar a gola de sua camisa por trás e colocar o besouro dentro de sua camisa. Richard a ultrapassou logo em seguida, como se não houvesse feito nada.

Moira sentia aquele bichinho cascudo, frio, por dentro da sua blusa, caminhando em suas costas com as suas patas ásperas. Tentou retirá-lo, tentou alcançá-lo. Mas seus braços eram demasiados curtos para alcançá-lo em suas costas, independente de quantas formas tentasse.

Em pânico, gritou, fazendo os três meninos pararem de andar já distante dela e voltarem suas atenções em sua direção. William foi o primeiro a retroceder seus passos, ao ver a menina lutando contra si mesma, agoniada. Noah seguiu o seu exemplo, preocupado.

O único que ficou parado no mesmo lugar se deliciando com a vista daquela cena que se desenrolava a sua frente foi Richard. A sua obra prima!

Lentamente, com o ar mais inocente, se aproximou dos demais, enquanto seu irmão e seu primo tentavam descobrir o que estava acontecendo.

--Tira! Tira isso de mim! – Moira implorava, com a voz chorosa.

Mas estava tão agitada que não permitia que nenhum dos meninos se aproximasse dela para ajudá-la. William e Noah se entreolhavam, confusos. Nenhum dos dois sabia o que fazer.

No segundo seguinte, Moira arrancou a blusa que estivera vestida pela cabeça e atirou-a no chão, continuando a se debater. Os três meninos ficaram paralisados, com os olhos arregalados.

Richard não pensara nesta possibilidade, então não sabia o que fazer. A brincadeira que pregara nela estava fugindo do seu controle.

Quando Moira se deu conta que estava sem blusa – embora fosse muito nova e não tivesse seios para esconder, era uma menina e sua mãe sempre lhe ensinara a não tirar a roupa na frente de meninos ou estranhos – ficou mortificada.

Com os olhos cheios de lágrimas, agachou-se e pegou a sua blusa, escondendo o seu corpo com ela. Lançou um olhar na direção de Richard, quem desviou-o, sentindo-se culpado. Depois saiu correndo em direção a sua casa, chorando.

~#~

Após trocar de roupa, Darcy retornou a sala principal para encontrar Charles e Caroline sozinhos. Caroline ergueu o olhar para ele, mas manteve-se calada. Parecia magoada com ele.

Darcy perguntou a Charles onde estavam os outros e Charles lhe passou a informação que recebera de Gilliam. Que Moira, Jane e Richard estavam no quarto da primeira.

--Onde está Elizabeth?

Charles deu de ombro. Darcy voltou o seu olhar para Caroline, quem o fitou por um minuto em silêncio. Como ele persistiu a fitá-la, cedeu.

--Ela saiu andando... para tirar fotos. – Comentou displicente. – Deve estar por aí. No meio do mato.

--Ela não voltou com vocês? – Darcy soou preocupado, deixando Caroline mais irritada ainda.

--Ela já é grandinha. – Caroline reclamou. – Eu não vou ficar correndo atrás dela como se fosse sua babá.

Darcy seguiu em direção a porta sem dar mais explicações.

--Espere, Darcy. – Charles o seguiu. – Eu vou procurá-la com você.

Os dois seguiram o mesmo caminho que os levaria ao rio e quando chegaram ao ponto em que estiveram pescando, se separaram. Cada um seguiu em uma direção, combinando de se encontrar no mesmo lugar.

Darcy caminhou cerca de cinco minutos à beira do rio, antes de encontrar um caminho que o levaria pelos bosques, então tomou este caminho. À medida em que adentrava o bosque, o caminho ficava mais estreito, até que se transformou em uma pequena trilha.

Então, encontrou-se em uma pequena ponte de madeira que o levava a um túnel feito de arbustos. Passou por este túnel e do outro lado deparou-se com um show de árvores com suas folhas alaranjadas, vermelhas e amarelas cobrindo rio.

Encontrou mais duas passagens naquela trilha. Uma o guiaria até o rio e a outra permaneceria no bosque. Tomou a que o levava até o rio.

Quando saiu da trilha, reparou que aquela parte do rio possuía mais pedras, além de encontrar alguns barcos de pesca de pescadores da região. Seguiu caminhando ao lado do rio até encontrar uma pequena represa natural, onde as águas do rio ficavam mais agitadas.

Parou um pouco onde estava. Não tinha certeza se continuava ou retornava dali mesmo. Ainda não encontrara Elizabeth ou qualquer sinal de que passara por ali. Perguntava-se se Charles não teria a encontrado.

Retrocedeu seus passos, voltando para a trilha. Até que chegou novamente na parte da trilha que se repartia em duas. Por mera precaução, seguiu o outro caminho. Se não a encontrasse ali, teria de voltar e procurar por Charles – torcendo para que ele tivesse mais sorte.

E lá estava ela, parada com sua câmera fotográfica nas mãos, de costas para Darcy, registrando a imagem a sua frente. Darcy caminhou até ela, parando às suas costas, com meros centímetros separando seus corpos.

Admirou-a de sua posição. Vendo uma pequena pintinha preta que ela tinha no pescoço, próxima a orelha.

--Esta foto vai ficar muito bonita. – Comentou, com a voz suave ao seu ouvido.

Elizabeth gritou de susto, pulando.

--Está tentando me matar de susto?! – Reclamou, ao voltar-se de frente para ele com a mão no coração e a outra tentando equilibrar a câmera fotográfica.

--Desculpe. – Darcy replicou. – Eu pensei que você tivesse me escutado enquanto me aproximava. – Justificou-se.

Elizabeth duvidou da sinceridade de suas palavras, porque jurava que ele estava com um ar de satisfação na sua postura e forma de olhar para ela.

--Você anda bastante. – Ele comentou, observando o local onde se encontravam.

--Eu gosto de andar. – Ela respondeu, observando-o, desconfiada. – O que está fazendo aqui? Não devia estar pescando?

Darcy voltou o rosto na sua direção e a fitou por alguns minutos. Elizabeth começou a se sentir inquieta sob seu olhar.

--Houve um... imprevisto e todos retornaram para a mansão. – Ele, enfim, disse. – Eu vim procurá-la... – A sobrancelha de Elizabeth ergueu-se, numa interrogação muda. – Charles também... Mas tomou outro caminho. – Darcy apressou-se a completar. – Nós devemos começar a voltar... e encontrá-lo antes que escureça.

--Claro. – Ela concordou, mas permaneceu no mesmo lugar, aguardando que ele fosse à frente.

Mas Darcy apenas indicou para que ela fosse primeiro e só tomou o caminho de volta quando ela passou a sua frente. Caminharam em silêncio o caminho inteiro. Até alcançarem a parte do rio onde estiveram ao começo daquela tarde.

Ali precisaram esperar por Charles, quem ainda não havia retornado. O silêncio era constrangedor, mas Elizabeth estava decidida a não puxar assunto com ele se Darcy não fazia esforço algum para ser agradável.

A única coisa que ele parecia saber fazer era deixá-la desconcertada. Primeiro a insulta, depois diz que gosta de seu cheiro. Então, passa praticamente o dia inteiro sem lhe dirigir a palavra e agora vem a sua procura, lhe assusta e lhe observava em silêncio de um jeito estranho.

Não conseguia entendê-lo.

--Você não prefere uma máquina fotográfica digital? – Ele disse, para sua surpresa.

Elizabeth notou o olhar dele recaído em sua câmera e quando recuperou-se do espanto por ele estar criando conversa fiada para passar o tempo, disse.

--A máquina digital tem muitas facilidades para uma pessoa que está aprendendo a arte da fotografia.

--Tais como?

Não conseguia evitar olhar para ele, admirada por ele tentar manter a conversa rolando.

--Bem,... – Ponderou melhor a sua resposta. – Você pode tirar um numero maior de fotos, pode voltar e apagar aquelas de que não gostou... Isto permite que o fotógrafo seja mais displicente com as fotos que tirar...

Acabou se empolgando com o assunto e continuou falando.

--Com a câmera analógica você precisa pensar melhor antes de tirar a foto... Você precisa saber exatamente o que quer na foto, qual ângulo usar, quais elementos estarão presentes quando enquadrá-la...

E em questão de segundos estava gesticulando.

--Porque você tem um numero limitado de fotos e não pode simplesmente apagá-los, caso não goste delas... Você corre o risco de perder um filme inteiro se tirar fotos desatento.

Fez uma pausa para recuperar o fôlego, antes de concluir.

--Além do mais, a revelação de fotos de uma câmera fotográfica analógica é muito mais divertida do que da digital, no qual você escolhe as fotos que quer na tela do computador e imprime.

Quando terminou sua explicação, notou que ele estava com aquela mesma expressão estranha em seu rosto, observando-a atentamente em silêncio. Ficou em silêncio, fitando-o nos olhos de volta.

--Ahh... você a encontrou, Darcy! – A voz de Charles os tirou daquela troca de olhares. – Já estava com receio de não encontrá-la e precisarmos pedir ajuda... Pelo que vi, esses caminhos levam a vários lugares...

~#~

Àquela noite o jantar foi ainda mais silencioso que o normal. Todos os participantes estavam com pensamentos perdidos. Os únicos comunicativos eram Charles e Jane.

Caroline estava irritadíssima com Darcy, pela reprimenda àquela tarde, com Moira, por ser a causa, e com Elizabeth, por ser inconveniente.  Então, recolheu-se em seu quarto mais cedo.

Quando Jane e Charles os deixaram sozinhos como na noite anterior, Elizabeth também decidiu se recolher. Richard não estava muito eloqüente e Darcy retornara ao seu jeito normal.

Darcy seguiu o seu exemplo, ao notar o clima estranho entre Richard e Moira. Ele não tinha intenção de interferir. Quando informou que estava indo dormir, Moira olhou-o alarmada por um instante. Depois se ergueu do sofá, alegando cansaço e dizendo que também iria dormir.

Separaram-se no corredor e cada um seguiu para o seu quarto. Moira entrou no quarto, fechou a porta e começou a se preparar para dormir. Quando se deitou na cama, ficou olhando o teto, sem conseguir dormir.

Pemberley estava lotada de gente àquela noite. Como um dos mais bem sucedidos vinhedos da região, naquele ano Pemberley estaria sediando o Festival da Uva, realizado logo após a primeira colheita. Produtores de vinho de todo o país estavam presentes.

A festa para aqueles entendidos de vinho se concentrava na degustação do vinho. Mas para os jovens, filhos de produtores de vinho e de moradores da região que estavam presentes na festa, a sensação era a paquera.

Richard e William, ambos aos 19 anos, tinham suas próprias expectativas para aquele evento. Passaram o verão inteiro paquerando duas garotas diversas e àquela noite lhes fazia promessas.

Mas não eram os únicos com sonhos e planos para aquela noite. Moira arrumou-se com esmero pela primeira vez num Festival de Uva. Nunca se divertira muito neste evento.

Seu pai, como administrador das terras, tinha um apreço imenso por este evento. Algo que planejava com cuidado juntamente com o sr. Darcy e o sr. Fitzwilliam sempre que o evento era realizado em Pemberley. E a sua mãe, a sra. Reynolds, ficava louca com os preparativos da festa e com a chegada dos milhares de convidados.

Por isso, nenhum dos dois gostava muito quando ela ficava perambulando pela propriedade com Richard e William, causando confusões.

Mas esta noite era diferente. Estava com 15 anos, era uma mocinha. Nunca namorara ninguém antes, mas havia um menino em sua escola que estava lhe paquerando. E gostava dele.

Sabia que ele estaria presente na festa e esperava ter uma oportunidade de conversar com ele a sós. Talvez, quem sabe... finalmente arranjasse um namorado!

Quando chegou a festa, viu seu pai rodeado por homens – todos produtores de vinho, entre eles estavam o sr. Darcy e o sr. Fitzwilliam. Cumprimentou-os rapidamente antes de sair em busca de William.

O viu em um canto conversando com Richard. Os dois estavam observando duas garotas mais adiante – Kayleen Fredenberg e Harriet Delenbaugh; as quais olhavam para eles e sorriam de vez em quando.

Moira viu aquela cena e, irritada, deu meia volta. Não precisava da companhia deles, afinal. Iria à procura de Luke McQuirk, seu paquera.

--Você está aí, pirralha! – A voz de Richard, às suas costas, chamou-lhe a atenção.

Voltou-se de frente para ele, com o olhar estreito.

--Uau, Moira, você está linda! – William a elogiou, arrancando-lhe um sorriso tímido.

Nunca gostara de usar vestidos. Preferia calça jeans e blusa, eram mais práticos e confortáveis. Mas decidiu que a ocasião pedia por algo mais feminino.

--Obrigada. – Replicou, corando.

Richard revirou os olhos, fazendo uma careta que não passou despercebida a Moira. Mas ela preferiu ignorá-lo, olhando ao redor da sala, procurando por Luke.

--Está procurando por quem? – Richard quis saber.

--Não é da sua conta. – Rebateu, com um tom zangado.

Richard resmungou algo inteligível. Até que avistou algo que fez um sorriso brotar em seus lábios. E, se aproximando de Moira, passou o braço envolta de seu ombro – ignorando seus protestos – e redirecionou-a para que olhasse do outro lado da sala.

--Ali. – Disse, apontando para um rapaz alto e loiro que estava de mãos dadas com uma menina de cabelos castanhos claros. – Era ele quem você estava procurando?

Um nó se formou em sua garganta e Moira permaneceu calada. Apenas segurou o pulso de Richard e manobrou-o, para que retirasse o braço dele de seu ombro. Deu as costas àquela cena e seguiu em direção a saída principal da mansão, sem olhar para trás uma vez sequer.

--Para que você fez isso? – William reprovou o primo.

Richard fitou-a se afastando em silêncio, já não estava mais sorrindo.

--Eu vou lá falar com ela. – William disse.

--Não, eu vou. – Richard o impediu.

--O que? – William estranhou. – Para que? Você só vai piorar as coisas. – Ponderou, racionalmente.

--Eu já disse que vou. – Richard insistiu. – E não ouse vir atrás de mim! – Ordenou, já seguindo em direção a saída principal da mansão.

William observou-o sair pela porta, confuso. Tinha algo muito estranho acontecendo com Richard, disso tinha certeza. Mas podia tentar remediar o estrago que ele fizesse no dia seguinte, conversando com Moira com mais calma. Esta noite, no entanto, estava contente em ter uma desculpa para ficar onde estava. E, assim, voltou a sua atenção a Kayleen Fredenberg.

Richard correu um pouco para alcançar Moira, quem caminhava com passos rápidos em direção a casa anexo da propriedade. Os jardins para àqueles lados estava completamente deserto e mal iluminado. Mas ambos conheciam os terrenos muito bem e não tinham problema algum em se guiar pela luz das estrelas.

--Hei, pirralha, espere! – Pediu, ainda correndo para alcançá-la.

--Vá embora, Richard! – Moira gritou.

--Você está chorando? – Quis saber; detectou em sua voz um tom choroso.

--Não me enche! – Ela apenas apressou os passos.

--Não acredito! – Ele já não corria mais, apenas andava a alguns passos atrás dela. – Você está chorando por causa daquele... daquele... idiota! – Reclamou, furioso.

--Vá enfrente!

Ela gritou, parando de andar e voltando-se de frente para ele; fazendo-o estancar no meio do caminho para não colidir com ela.

--Pode rir. É isso o que você quer, não é?! – Limpou as lágrimas com as costas das mãos com violência. – Pois vá enfrente, ria! Ria de mim! – Ordenou.

--Por que você está chorando? – Exigiu saber. – Vai dizer que está apaixonada por ele? – Resmungou, tentando não soar alarmado.

Moira deu-lhe as costas novamente, não respondendo a sua pergunta, e continuou a andar.

--Não pode ser. – Richard reclamou. – Você acabou de conhecê-lo, não pode estar apaixonada por ele!

--Ai, Richard, por favor, me deixa em paz. – Ela pediu; já não gritava mais.

--Me diz o que há de extraordinário naquele cara para você estar apaixonada por ele. – Ele continuou a segui-la, sem desistir de conversar. – Hem? Diz para mim.

Ela não respondeu, continuou a andar. Já estavam se aproximando da varanda da casa, então ele se apressou e a segurou pelo braço, impedindo-a de continuar andando.

--Me diz de uma vez, está apaixonada por ele ou não? – Exigiu, prendendo-a pelo braço com força.

Moira o fitava nos olhos, mas permaneceu em silêncio. Libertou-se de seu aperto e tentou ir para casa.

--Volta para a festa, Richard. – Aconselhou-o. – Se você demorar demais é capaz de Harriet arranjar outro.

Estava subindo o primeiro degrau quando o ouviu dizer.

--Vou voltar para a festa sim. – Sua voz estava carregada de ameaça. – E vou ter uma conversinha com aquele idiota.

Moira parou onde estava e voltou-se para ele a tempo de vê-lo dar-lhe às costas e começar a caminhar em direção a mansão.

--O que? – Ela gritou, aproximando-se dele. – Ficou maluco?! – Impediu de prosseguir com seus planos. – Quer parar com isso. – Reclamou com ele, fazendo-o parar onde estava momentaneamente.

A última coisa que queria era que Richard criasse confusão no meio do Festival de Uva por sua causa; seus pais ficariam furiosos.

--Qual é o seu problema, hem? – Recriminou-o, olhando para ele como se estivesse diante de uma criança malcriada. – Por que você se importa? Você nem gosta de mim!

E, dizendo isto, afastou-se dele mais uma vez. Subia os primeiros degraus da varanda quando o ouviu dizer.

--Isso não é verdade. – Em alto e bom som.

--Ahh é? – Perguntou, céptica, sem se incomodar de voltar-se de frente para ele; continuou a subir os últimos dois degraus.

--Eu gosto de você... – Ele disse; sua voz chegou a falhar no finalzinho. – de verdade.

Algo no tom de voz dele a fez parar de andar antes de alcançar a porta. Deu meia volta e se aproximou do primeiro degrau, mas não o desceu. Ficou ali, olhando para ele.

--Você gosta de mim? – Perguntou, ainda sem acreditar.

--Gosto. – Respondeu, sem pestanejar.

Moira se encostou a pilastra da sacada da varanda e cruzou os braços sobre os seios.

--Gostas de mim... Como? – Interrogou-o. – Gosta ...gosta? Ou apenas gosta?

Tinha consciência de que sua pergunta soou meio idiota, mas sabia que ele entenderia o que queira saber.

Richard se aproximou do primeiro degrau da varanda. Olhando para ela, colocou as mãos dentro do bolso de sua calça jeans. Parecia desconfortável com aquela situação.

--Eu gosto... de você.

Ambos ficaram em silêncio por alguns minutos. Até que ele começou a subir os degraus. Moira descruzou os braços de imediato e virou-se de frente para ele, pressionando as costas na pilastra da varanda, quando Richard parou a sua frente.

--E então? – Sua voz denunciava o seu nervosismo. – Vai responder minha pergunta ou não?

--Você está falando sério? – Ela inquiriu-lhe, erguendo a cabeça para poder olhá-lo nos olhos. – Você quer conversar sobre Luke? ...Agora?! – Evidentemente, incrédula.

--Agora mais do que nunca eu preciso saber se você está apaixon...

Ele não teve tempo de terminar a pergunta. Moira ficou na ponta dos pés e pressionou os lábios aos dele, suavemente.

--Você vai ter que fazer melhor do que isso se quer me fazer esquecer que estava paquerando aquele idiota, pirralha. – Resmungou, tentando transparecer uma tranqüilidade após aquele simples roçar de lábios que realmente não sentia.

--Não me chame de pirralha! – Moira reclamou, beliscando-o.

Richard calou seus protestos com um beijo demorado e lento, cheio de paixão.

Richard fitou-a, ali deitada em sua cama, adormecida. Não sabia como viera parar no quarto dela no meio da noite. Na verdade, recordava-se de parar diante da porta do quarto dela quando estava se dirigindo para o seu, para dormir.

No entanto, não percebeu o momento em que entrou e sentou-se a beirada de sua cama. Tampouco há quanto tempo estava ali, velando o seu sono. Sabia que precisava ir embora antes que fizesse uma loucura.

Ergueu a mão, tentado a afagar o seu cabelo e acariciar o seu rosto. Mas desistiu segundos antes de tocá-la, sentindo seus dedos formigarem de antecipação. Tinha esquecido o quão bom era tocá-la até esta tarde. E agora se sentia como um viciado, tentado a tocá-la mais uma vez. “Só mais uma”, prometia-se.

Levantou-se da cama e caminhou até a porta, decidido. Tinha de sair dali o mais rápido possível. Quando segurou a maçaneta da porta, hesitou. Inspirou, fechando os olhos e expirou lentamente. Estava travando uma luta interna furiosa e estava preste a sucumbir.

Quando abriu os olhos, já estava perdido. Sua mão recaiu sobre a chave e deu uma volta, trancando a porta. Retrocedeu os seus passos até a cama, mas pelo outro lado. Retirou os sapatos e suspendeu o cobertor que a envolvia.

Moira sentiu o seu braço envolvê-la pela cintura e o hálito quente dele em seu pescoço, seus lábios roçando na pele sensível por causa dos machucados. Virou o rosto em sua direção, sonolenta.

--Richard... – Murmurou, confusa. – O que está fazendo aqui?

Sentiu-o pressionar um beijo sobre um dos arranhões, sentindo um ardor. Então os lábios dele seguiram para sua orelha e ele sussurrou.

--Estava com saudades de você. – Entre beijos cálidos. – Saudades do seu cheiro, do seu gosto...

--Richard. – Já estava mais desperta e tentou se desvencilhar dele. – Você não pode fazer isso.

Mas ele apenas apertou mais o seu abraço, continuando a provocá-la com os seus lábios.

--Richard, por favor... Não somos mais adolescentes. – Moira desviou o rosto antes que ele alcançasse seus lábios. – Você não pode mais invadir o meu quarto como quando namorávamos.

Ele soltou a sua cintura e segurou-a pelo rosto, voltando-o em sua direção. Quando ela criou coragem de olhá-lo nos olhos, disse-lhe.

--Eu ainda amo você.

Ela prendeu um suspiro. Ele encostou os lábios aos dela, suavemente. E Moira não pôde mais resisti-lo, não quis mais resisti-lo. Beijou-o avidamente, virando-se de frente para ele por inteiro.

Richard desceu a mão para sua cintura novamente e puxou-a mais para si, intensificando aquele beijo cheio de saudade e sentimentos reprimidos por muito tempo. Moira enroscou sua perna na dele, pressionando todo o seu corpo ao dele. Passou a mão envolta de seu pescoço e agarrou-se a ele.

E daí que isso era uma loucura? Não pensaria nisso agora. Naquele instante, queria ser dele e nada mais.

 

 

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