Citações

Qualquer coisa nutre o amor que já é forte. Mas no caso de uma leve e diáfana inclinação, estou convencida de que um bom soneto irá matá-lo de fome completamente. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XIII

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Capítulo XIII

Noite da Fogueira – II Parte

 

O jatinho logo começou a taxiar. O vôo transcorreu tranqüilo e, dentro de algumas horas, estava pousando em Edimburgo[1], capital da Escócia. Dois sedãs Lexus, pretos, os aguardava ao aeroporto, alugados para o período em que permanecessem na Escócia.

Os passageiros se dividiram nos dois carros, de forma que ficaram: Jane Charles, Elizabeth e Richard em um carro, e Darcy, Moira e Caroline em outro. Antes de seguirem viagem, decidiram almoçar em Edimburgo. Darcy fez a sugestão de irem ao The Witchery Restaurant.

Enquanto entravam no carro, Caroline não deixou de comentar com Darcy.

--O seu primo não perde tempo, não é? – Com toda malicia.

Fazendo Darcy e Moira dirigirem seus olhares a Richard e presenciarem o momento em que ele abriu a porta do carro, galantemente, para que Elizabeth entrasse.

--Mas também... ela é justamente o tipo de garota por quem seu primo se interessa! – Prosseguiu, ignorando propositalmente o olhar de irritação que Darcy lhe lançou antes de entrar no carro.

Os dois carros seguiram pelas ruas de Edimburgo, passando pela vasta arquitetura medieval, de configuração robusta, incluindo numerosos cortiços de pedra.  Provando porque Edimburgo é considerada uma das mais pitorescas cidades da Europa.

The Witchery, localizado em Castlehill, Old Town, possui a decoração arquitetônica tanto no exterior quanto no interior. O interior tem importância histórica; consiste basicamente de uma sala quadrada, iluminada desde altas janelas velhas voltadas para o sul como por velas, por vezes suspensas por querubins.

As paredes são escuras, na sua maioria com áreas de pedra ouro, talha dourada e madeira escura. Há uma enorme tapeçaria na parede, a qual amacia a acústica do ambiente.

Eles ocuparam uma mesa apenas, próxima a uma das janelas. Em pouco tempo estavam fazendo os seus pedidos. As irmãs Bennet se recusaram a beber algo alcoólico. Quando interrogadas por Caroline, informaram que não costumavam beber álcool; somente em ocasiões muito especiais – uma taça de chapagne na virada de ano, por exemplo.

--Não irá beber comigo, Darcy? – Questionou-lhe Bingley, surpreso quando Darcy pediu apenas um suco para acompanhar o seu almoço.

--Não... Estou seguindo prescrição médica. – Darcy respondeu, sem aprofundar no assunto.

--Está doente, Darcy? – Caroline se intrometeu, soando alarmada.

--Não. – Ele replicou.

Darcy notou que todos os olhares na mesa estavam voltados para ele.

--Você finalmente decidiu se medicar, então? – Moira quis saber. – Nenhum dos tratamentos alternativos deu certo?

--Não. Nada mais deu certo. – Ele afirmou. – Mas estou apenas fazendo uma experiência... Não tenho a intenção de me tornar dependente químico.

--Cabeça-dura! – Moira murmurou, balançando a cabeça negativamente.

Darcy conhecia a sua opinião a este respeito, ela já lhe dera antes. Por isto, não se surpreendeu com o seu comentário. Olhou para os demais ocupantes da mesa, que ainda estavam olhando para ele. Percebeu que Elizabeth sorriu diante do comentário de Moira.

--Então, você está tomando antidepressivos? – Richard perguntou, ganhando a atenção de Darcy.

--Depressão e insônia são duas coisas diferentes, Richard! – Mas foi Moira quem respondeu, recriminando-o pelo seu comentário.

--Eu sei disso. – Richard resmungou, decidindo ocupar-se com a sua comida.

Darcy notou mais uma vez que Elizabeth estava rindo sozinha ao testemunhar aquela cena. Olhava de Richard para Moira como se entendesse algo que mais ninguém percebia. Darcy concluiu que Elizabeth não era uma daquelas modelos avoadas. Parecia-lhe bastante perspicaz.

Ela voltou a olhar para ele, sustentando o olhar que ele lhe lançava. Darcy percebeu que estava a encarando, então desviou o olhar; voltando a comer. O resto do almoço transcorreu com pouca conversa. Ao fim, tomaram a estrada novamente.

A propriedade ficava a cerca de meia hora de carro de Edimburgo, ao norte de Tweed – cidade-mercado do lado de Peebles. A mansão, no alto das colinas e vales de Tweeddale, situava-se subindo uma longa alameda privada através da floresta.

De estilo clássico do século 19, tratava-se de uma opulenta mansão de tijolo vermelho e torreões, telhado cinza, janelas retangulares com madeiras pintadas de branco. Assim que desceram do carro, as irmãs Bennet não esconderam a sua admiração com a propriedade.

Enquanto eram recebidos pela governanta, sra. Isla Farquar, e seu esposo, sr. Eoghan Farquar, que cuidavam da mansão na ausência dos proprietários, outros empregados cuidavam de levar a bagagem dos hospedes recém-chegados para dentro da mansão e para os respectivos aposentos de cada um.

Eles foram prontamente acomodados em suítes suntuosas – a mansão possuía 12 quartos ao total, todos com vista para o campo ou jardins, decorados individualmente com um estilo contemporâneo de campo que apresenta cores suaves, móveis estofados e de madeira polida. Cada uma das Bennet ocupou uma suíte.

Elas não demoraram a perceber que os banheiros das respectivas suítes não fugiam a regra – modernos chuveiros e banheiras de grandes dimensões, com hidromassagem. Tudo esbanjava muito requinte.

Elizabeth admirou a vista de seu quarto e logo sentiu vontade de caminhar ao ar livre. Estivera sentada por muito tempo desde aquela manhã. Precisava esticar um pouco as pernas. Por isto, retornou a sala. Ninguém ainda retornara de seus quartos, então informou a uma das empregadas que os recebeu que sairia para dar um passeio pelos jardins.

Pouco tempo após a sua saída, os restantes dos componentes daquele grupo se reuniram em uma das salas. Caroline queria levar os convidados do seu irmão em um tour. Notando a ausência de Elizabeth, questionou Jane.

--A sua irmã pretende juntar-se a nós em algum momento? – Todos notaram o tom condescendente em sua voz, embora Caroline estivesse com um sorriso nos lábios ao falar com Jane.

--Eu vou até o quarto dela. – Jane se prontificou, gentilmente.

Retornou minutos depois.

--E então? – Caroline soou impaciente ao ver Jane sozinha.

--Lizzie não estava em seu quarto.

--A Srta. Bennet foi dar um passeio. – Gillian, uma jovem empregada informou-lhe, quando notou o movimento dos hospedes na sala.

--Isto foi bastante imprudente de sua parte. – Darcy disse, seriamente. – Ela não conhece a região, pode vir a se perder.

--Irresponsável, eu diria. – Caroline reclamou, prontamente seguindo a opinião de Darcy. – O sol irá se pôr em poucas horas, como ela espera ser encontrada no meio destes bosques depois que escurecer?

Jane ficou constrangida, mas não soube como justificar no presente momento a atitude de Elizabeth. Ambos, Darcy e Caroline tinham razão. Mas Jane sabia que sua irmã estava meramente impressionada com a beleza local que vislumbrou ao caminho da mansão e ansiosa para explorá-la.

--Vocês dois são exagerados! – Richard saiu em defesa de Elizabeth. – Lizzie não é inconseqüente, como vocês dois parecem presumir. Ela deve estar caminhando pelo jardim.

Darcy e Moira fitaram-no com olhares desconfiados. Nenhum dos dois gostou da forma intima com que Richard se referira a uma pessoa que conheceu há menos de 24 horas.

--Eu vou procurá-la. – Jane se prontificou.

--Permita-me. – Richard ofereceu-se a ir em seu lugar, não demorando a se encaminhar em direção à porta.

Ele andou pelo jardim, cercado por gramados de cerca de 28 hectares de bosques. Veio a encontrá-la num caminho ao longo de um córrego, após atravessar uma pequena ponte de madeira.

--Exatamente como eu pensei. – Comentou, ao vê-la olhar em sua direção e sorrir-lhe. – Estava a sua procura.

--Bem, encontrou-me. – Ela replicou, parecendo preocupada em observar cada cantinho ao seu redor; totalmente deslumbrada.

--Todos nos aguardam para que possamos fazer um tour pela casa... Caroline insiste em ter todos nós presentes! – Ele informou, com um tom piegas.

--E eu não gostaria de afrontá-la tão cedo, estou certa? – Ela perguntou-lhe com mesmo tom de voz.

Ele apenas riu e guiou-a de volta a mansão.

--Esta casa é do estilo baronial do século 19... – Caroline enunciava à medida que guiava seus hospedes por cada cômodo da mansão.

Ela fazia questão de apontar cada alteração a que fora responsável, esclarecendo como visionara o conforto e conveniência que tais alterações trariam. Ela tinha conseguido equilibrar elementos tradicionais com a arte contemporânea. Havia uma bela coleção de pinturas, esculturas e outras artes, em sua maioria por artistas escoceses.

--Minha família é parte escocesa, eu já havia lhe dito isto. – Charles cochichava para Jane, para não atrapalhar o discurso da irmã. – Mas eles não eram ricos, era uma família comum... Foi durante a minha adolescência que meu pai adquiriu esta propriedade, uma vez que sua companhia estava indo tão bem.

Caroline ouviu o burburinho e alteou a voz, para se fazer ouvir ao invés dos cochichos do irmão. Ela não gostava de alardear esta parte da história de sua origem, principalmente na frente de Darcy – quem vinha de uma linhagem de homens importantes.

Logo ponderou que seria uma boa oportunidade para elogiar Darcy e sua família, além de fazer uma comparação entre a residência familiar de Darcy na Inglaterra com a residência de sua família na Escócia.

--São 28 hectares de terra, incluindo bosques e um córrego... Eu sei que não se compara a Pemberley. Mas é uma excelente propriedade, você não diria, Darcy? – Questionou-lhe com a voz toda melosa, sorrindo amavelmente para ele.

--Muito, Caroline. – Darcy replicou, com naturalidade.

--Pemberley? – Elizabeth perguntou a Richard, em um murmúrio, enquanto Caroline prosseguia com seus elogios às duas propriedades.

--É a propriedade da nossa família no interior da Inglaterra. – Richard respondeu de bom grado no mesmo tom de voz. – O primeiro William Darcy, meu avô, a comprou no inicio do século não sei quanto...

Elizabeth riu baixinho pela falta de interesse que ele parecia ter pela história da própria família.

--Mas tarde, com a sua morte, deixou a propriedade como herança para seus dois filhos... O pai de Will e minha mãe. Ao invés de vender a propriedade e dividir o dinheiro entre si, mantiveram-na como propriedade da família. O pai de Will assumiu a presidência da companhia, mais tarde fazendo a junção da Darcy Corporation com Fitzwilliam Limited Company, a companhia de meu pai, nascendo daí a Darcy & Fitzwilliam Corporation... Meu pai conheceu a minha mãe, se casaram e tudo permaneceu em família.

Eles voltaram a fazer silêncio quando Caroline lançou um olhar irritado em sua direção, alteando a voz novamente para se fazer ouvir ao invés dos cochichos dos outros dois.

Ela continuou com a sua tática, apontando esculturas ali presentes ou quadros de artistas escoceses famosos e comparando-os com as obras de arte que já vira em Pemberley em uma de suas visitas.

Richard suspirou, evidentemente entediado. Elizabeth revirou os olhos quando ela fez outra referência a Pemberley e deixou escapar:

--Interesseira. – Em um murmúrio.

--O que disse? – Caroline interrogou.

Elizabeth não demorou a perceber que todos a ouviram e a encaravam, alguns com expressão de surpresa no rosto. Richard tinha um sorriso malandro nos lábios, parecia que finalmente iria se divertir, e Caroline a fuzilava com o olhar.

--Eu? – Elizabeth se fez de inocente.

--Sim. – Caroline resmungou. – Você.

--O que eu disse? – Elizabeth perguntou, ainda se fazendo de desentendida. – “Interesseira”? – Replicou como se estivesse em dúvida se entendera bem a sua pergunta.

As expressões de surpresa permaneceram. Richard deixou escapar uma risada abafada ao fitar o rosto vermelho de fúria de Caroline. Jane cobriu a boca aberta de surpresa e continuou a fitar a irmã, alarmada. Enquanto Elizabeth fitava Caroline com uma expressão tranqüila, exageradamente inocente.

--É uma música. – Elizabeth esclareceu. – Gold Digger de Kanye West com participação de Jamie Foxx... Nunca ouviu?

Charles relaxou de imediato, enquanto Jane ainda parecia preocupada. Caroline, Moira, Darcy e Richard sabiam que Elizabeth estava dando-lhe uma desculpa. Richard continuou a achar graça, principalmente porque Caroline parecia se enfurecer mais com o fato de Elizabeth estar se livrando de tê-la chamado de interesseira com aquela desculpa.

--Ela é basicamente assim...

Elizabeth prosseguiu com a sua desculpa, cantando um pedaço da música para que todos ouvissem.

--‘She takes my money when I'm in need

(Ela toma o meu dinheiro quando estou em necessidade)

Yeah she's a trifling friend indeed

(Sim, ela é uma amiga da onça)

Oh she's a gold digger way over town

(Oh, ela é uma interesseira desta cidade)

That dig's on me

(que está interessada em mim)’

Ela parou de cantar e esperou uma represália, mas Caroline parecia concentrada em não explodir. Então continuou.

--O problema é que eu só me lembro desta parte... E ela fica repetindo e repetindo na minha cabeça, como um disco arranhado, e eu não consigo me livrar dela. – E, calmamente, continuou. – Geralmente, se eu cantar, eu me lembro da música por inteiro...

Caroline estava hiper-ventilando de tanta raiva reprimida.

--Desculpe-me se interrompi o que você estava dizendo. Não irá se repetir. – E, por fim, disse. – Você pode prosseguir. – Como se Caroline houvesse lhe pedido permissão para falar.

--Francamente... – Caroline resmungou, parecia a todos que ela ia explodir. – Elizabeth, você tem um gosto muito peculiar para música. – Concluiu, já assumindo controle de sua raiva e de seu tom de voz.

--Obrigada. – Elizabeth replicou, sorridente, como se o comentário de Caroline fosse um elogio; o que ela e todos presentes sabiam que não foi a intenção de Caroline.

Caroline tentou retomar a sua tática, mas não conseguiu. Por fim, coube a Charles tomar a frente do tour e guiar todos até a biblioteca. Charles, como guia, foi muito mais interessante e todos conversavam entre si; apenas Caroline permanecia muda na maior parte do tempo.

Em um determinado momento, Elizabeth se distanciou do grupo e percorreu algumas estantes de livro. Até encontrar um exemplar de Mundo Sem Fim (World Without End) do autor Ken Follet[2].

Tomou o livro em mãos e começou a folheá-lo. Ficou tão entretida que procurou um lugar para se sentar naquela biblioteca mesmo e passou a ler o livro. Não percebeu que fora deixada para trás pelos demais, que prosseguiram com o tour.

--Gillian, por acaso você saberia onde está Elizabeth? – Richard perguntou quando já estavam de volta a sala principal e empregada veio lhes oferecer um lanche do período da tarde.

--Ela está na biblioteca, senhor. – A jovem empregada responde.

--Obrigado. – Richard agradeceu, já se dirigindo em direção a biblioteca.

Darcy seguiu o primo e Moira o acompanhou; Charles não demorou a segui-los, carregando Jane consigo. Caroline hesitou, incredula que estava sendo abandonada por todos naquela sala. Mas depois os seguiu também, por não desejar permanecer sozinha.

Darcy entrou na biblioteca no exato momento em que seu primo curvava-se sobre Elizabeth e virava a folha do livro, procurando ver a sua capa e descobrir o que ela estava lendo, sentada ali próxima a janela.

--Mundo Sem Fim. – Comentou, aperentemente surpreso. – Está familiarizada com Ken Fullet?

--Eu já li alguns de seus livros. – Ela respondeu, olhando para as demais pessoas que entravam na biblioteca.

Darcy caminhou para perto da janela, postando a fitar os jardins lá fora – como se a conversa que entreouvia não lhe interessasse. Moira sentou-se em outro sofá, de frente para aquele que Elizabeth e Richard ocupavam.

--E gostou? – Richard parecia realmente não acreditar no que estava ouvindo.

--Mundo Sem Fim não é o meu favorito, mas é bom.

Charles e Jane entraram na sala e se sentaram perto de Moira, sem interromper a conversa. Caroline surgiu um pouco depois e sentou-se em uma poltrona individual, onde podia observar Darcy livremente.

--Qual é o seu favorito? – Richard perguntava a Elizabeth.

--Eu gosto de Os Pilares da Terra... – Elizabeth respondeu. – Eu acho que o autor pecou um pouco ao escrever Mundo Sem Fim, porque ele já tinha usado todas as boas idéias em Os Pilares da Terra...

Darcy deu as costas a janela ao ouvir isto e pasou a fitá-la com atenção.

--A história de Mundo Sem Fim ficou parecida com a de Os Pilares da Terra, apenas com um cenário diferente. – Elizabeth prosseguiu com sua explicação. – Em Os Pilares da Terra, os personagens principais lutavam contra a pobreza e com o risco de morrer de fome... Já em Mundo Sem Fim, os personagens enfrentam a epidemia com peste...

Richard balançava a cabeça, mudo, em concordância.

--Não estou dizendo que Os Pilares da Terra é impecável. – Ela continuou a argumentar. – Especialmente na parte em que Tom Construtor, literalmente após enterrar a esposa, tem relações com Ellen... Pelo amor de Deus, o que foi aquilo?! – Elizabeth questionou a Richard, quem começou a rir acompanhado por Charles.

No momento em que Richard abriu a boca para responder, ainda com um sorriso cafageste nos lábios, Elizabeth o interrompeu.

--Não venha me dizer que ele estava de luto e Ellen o estava consolando.

Charles caiu na gargalhada, porque sabia que era justamente isto que Richard ia dizer. Porque Richard fechou a boca de imediato após aouvir a tirada de Elizabeth, parecendo ter mordido a própria lingua.

--Esta é a pior desculpa que eu já ouvi... Tipica de homem cafageste! – Ela presseguiu.

Richard voltou um olhar divertido para ela, recuperando o seu charme.

--Você acertou em cheio! – Moira comentou, ganhando a atenção dos dois.

--Me diga uma coisa. – Richard voltou sua atenção a Elizabeth mais uma vez, decidindo não dar muita atenção ao comentário de Moira. – Se já leu os dois livros, por que está lendo de novo?

--É um bom livro. – Elizabeth respondeu, encolhendo os ombros. – Embora eu não goste muito de Caris.

--Você não gosta de Caris? – Foi a vez de Darcy ficar surpreso com o seu comentário.

Elizabeth ergueu o olhar para ele e disse.

--Não. Não gosto.

--Ela é uma das protagonistas... – Ele continuou incrédulo. – Você não gosta da heroína da história?

--Ela é irritante. – Elizabeth afirmou, simplesmente.

Darcy piscava os olhos repetidas vezes, ainda incrédulo quanto ao que ouvia.

--Como? – Ele praticamente exigiu saber.

Elizabeth suspirou antes de começar a falar.

--Ela se diz apaixonada por Merthin, mas se recusa se casar com ele usando a desculpa esfarrapada de temer se tornar nada mais que sua esposa, como se fosse se tornar submissa a ele. – Ela não pestanejou em esclarecer. – Quero dizer, dá para entender querer mais da vida que se tornar a esposa de alguém, ter uma profissão e como isso era um problema para as mulheres naquela época, mas... O medo dela neste sentido é infundado, porque Merthin é uma das poucas pessoas, senão a única, que a tratava como igual... Sempre a apoiou. Não havia motivo para ela pensar que ele ia mudar a maneira de agir com ela depois de casado.

--Faz sentido. – Richard concordou.

Darcy não fez nenhum outro comentário ou pergunta, apenas fitava Elizabeth.

--É incrível como muitas mulheres jovens se tornam excelentes profissionais estes dias, em comparação com antigamente. – Comentou Bingley, tentando continuar com a conversa. – Elas trabalham arduamente todos os dias, chegam a casa ainda cozinham e limpam, cuidam de suas famílias!

--Eu não conheço uma meia-dúzia de mulheres que satisfaz a minha idéia de uma mulher profissional. – Darcy replicou, voltando a fitar a paisagem pela janela.

--Oh, definitivamente. – Caroline se apressou em concordar com ele.

Estivera remoendo-se por não ter como participar daquela conversa. Queria que a atenção de Darcy estivesse voltada para ela e não para Elizabeth. E para acrescer em sua estima, completou.

--Nenhuma mulher pode ser realmente considerada uma profissional se não possuir também um brilho próprio no seu estilo de vestir, na sua maneira de andar, no tom da sua voz, em suas habilidades e perspectivas. – Pensando enumerar suas qualidades.

--E a tudo isso ela deve ainda acrescentar algo mais substancial... – Darcy deu às costas a janela novamente. – ao melhorar a sua mente pela leitura extensiva. – Proclamou, dirigindo um olhar rápido na direção do livro que Elizabeth tinha em mãos.

--Fico surpresa com a sua garantia de que conhece seis mulheres profissionais, Sr. Darcy.– Elizabeth o repudiou, fechando o seu livro. – Me admira que conheça sequer uma.

--Você é sempre tão dura com o seu próprio sexo, Elizabeth? – Ele a interrogou, sustentando o seu olhar; evidentemente surpreso com sua afronta.

--Eu nunca conheci uma mulher que poderia fazer tudo isso. – Ela não falhou em rebater. – Francamente, parecia-me que você estava descrevendo um eletro doméstico, com todas as suas mil e uma utilidades, ao invés de um ser humano.

Richard deixou escapar uma risada abafada. Mas nem mesmo este som foi capaz de quebrar aquela troca de olhares. Elizabeth continuou olhando para Darcy unicamente e vice-versa.

--Você não devia exigir perfeição de uma pessoa, a não ser que esteja pronto para oferecer perfeição você mesmo. –Aconselhou-o. – Diga-me, sr. Darcy: você se considera perfeito?

--Isso não é possível, ninguém é perfeito ...

--O senhor realmente acredita nisso ou está falando por pura modéstia? – O seu tom de voz denunciava o sarcasmo presente em suas palavras. – Eu devo confessar, está sendo bastante difícil encontrar sequer um defeito em você. – E, por fim, tinha aquele sorrisinho de impertinência presente em seus lábios ao fitá-lo nos olhos.

--Eu tento evitar essas falhas que possam expor uma pessoa a chacota. – Ele argumentou, friamente.

--Tal como arrogância... talvez? E orgulho? – Ela persistiu com suas indiretas.

--Sim, arrogância é uma fraqueza. O orgulho ... Quando é justificado e a pessoa não deixa-o subir-lhe a cabeça, o orgulho pode ser uma boa característica de se ter. – Darcy respondeu, racionalmente.

--Aí está, o senhor é um ser humano perfeito! – Declarou Elizabeth, com evidente deboche.

-- ... O meu temperamento, no entanto... – Darcy ignorou o seu comentário. – Posso ser chamado de rancoroso. A minha amizade uma vez perdida, está perdida para sempre.

--O seu defeito é uma propensão a odiar todo mundo. – Ela concluiu.

--E o seu é de se recusar a compreender os outros. – Ele refutou, já perdendo a paciência.

--Com licença. – Gillian entrou na biblioteca. – Sr. Fitzwilliam, o sr. Andrews deseja falar com o senhor ao telefone.

Richard ergue-se do sofá, dizendo.

--Vou atendê-lo. – E, lançando um olhar divertido para Elizabeth depois a Darcy, disse. – Esperem eu voltar antes de começar o 2º round, sim?! – Brincalhão.

Ninguém achou graça. Pelo contrário, um silêncio sepulcral tomou conta da biblioteca. Elizabeth deixou o livro de lado e ergueu-se do sofá.

--Com licença, vou para meu quarto, descansar um pouco antes do jantar. – Disse ao sair da biblioteca.

Jane despediu-se de Charles e a seguiu, alcançando-a ainda no corredor.

--Lizzie, o que está acontecendo? Por que esta animosidade com o sr. Darcy? É por causa do que ele falou a seu respeito no desfile?

--Não, minha irmã. – Elizabeth refutou. – Eu nem me lembro mais disso. – Mentiu. – Eu me deixei levar pela discussão do livro e tudo mais... Você me conhece, às vezes não consigo controlar minha língua.

Jane ainda a fitou desconfiada.

--Eu não devia tê-la forçado a vir comigo. – Comentou, com um tom culpado em sua voz. – Se você quiser, nós podemos retornar para Inglaterra. Eu invento uma desculpa para Charles.

--Não seja boba, Jane! – Elizabeth exclamou, exasperada. – Não deixe uma bobagem como uma discussãozinha estragar a sua viagem... Aproveite bem estes dias para conhecer melhor Charles. Ele me parece um homem maravilhoso, totalmente apaixonado por você!

Jane corou profusamente.

--Eu acho que ele irá lhe fazer muito bem. – Elizabeth prosseguiu, como se não notasse o constrangimento da irmã. – Além do mais, eu ainda não explorei a região como queria... Tenho muitas fotos para tirar! – Argumentou, com os olhinhos brilhando de excitamento.

~#~

Na biblioteca, os demais permaneceram em silêncio por alguns minutos. Depois Caroline tentou engajar Darcy em uma conversa, mas ele parecia perdido em pensamentos e respondia-lhe tardiamente, com respostas monossilábicas.

Contrariada, deixou a biblioteca também quando a sra. Farquar procurou-lhe para discutir o menu do jantar daquela noite.

Após a sua partida, Darcy ocupou o lugar em que Elizabeth estivera sentada e tomou o livro que ela estivera lendo, folheando algumas páginas.

--Eu pensei que você não tinha este livro, Charles. – Comentou.

--Ele é seu, na verdade. – Charles replicou, ganhando um olhar confuso de Darcy. – Se lembra de quando o tomei emprestado?

--Mas você o devolveu. – Darcy refutou.

--Bem, eu não sabia onde tinha deixado o seu livro, pensei que o havia perdido, então comprei um novo para você. – Charles explicou.

Darcy virou a capa do livro e lá na contracapa tinha as suas iniciais – W. A. D. III.

--E esqueceu-se de mencionar este detalhe? – Moira perguntou-lhe, bem humorada.

--Eu comprei um novo, não fazia sentido dizer que tinha perdido o livro.

--O que eu perdi? – Richard entrou na biblioteca perguntando isto. – Onde estão as irmãs Bennet? – Quis saber, caminhando ao sofá onde o seu primo agora estava sentado e sentando-se ao seu lado.

--Elas se recolheram em seus quartos para descansar até o jantar. – Moira informou.

--Hum.

Richard resmungou. Estivera esperando encontrar Elizabeth e Darcy em um duelo.

--Charles, eu, por acaso, notei que Jane tem um quarto só para si. – Comentou, por mera curiosidade.

--Ela tem. – Charles replicou, não parecendo compreender a indireta de Richard.

--Por que vocês não estão dividindo um quarto? – Decidiu partir para uma pergunta direta.

--Jane é uma mulher extraordinária, nada parecida com as mulheres com as quais saí antes. – Charles defendeu-a, zeloso. – Ela leva os relacionamentos bastante a sério.

--Você está tentando dizer que nunca dormiu com ela?

--Pare de ser enxerido, Richard! – Moira o recriminou.

--Há quanto tempo vocês estão saindo? – Quis saber Darcy, também surpreso com aquela revelação.

--Cerca de um mês. – Charles informou.

--E vocês nunca transaram?! – Richard alardeou.

--Como eu disse, Jane não é como nenhuma outra mulher que já conheci. – Charles respondeu, veemente. – Eu não me incomodo de esperar o tempo que for preciso.

--Isto é sério. – Richard comentou, num tom mais controlado.

--É. Muito. – Charles não negou.

~#~

Lydia e Catherine estavam passando a noite de 5 de novembro na casa de Sunny Foster. Foi fácil convencer a sra. Bennet permitir, já que no bairro onde a amiguinha de Lydia mora estariam comemorando a data com uma fogueira na praça principal, com fogos de artifício e barraquinhas com comida típica – caramelos, maçãs e batatas assadas na fogueira.

O que a sra. Bennet não sabia era que as meninas tinham outros planos para aquela noite. Como os pais de Sunny trabalhavam fora de casa o dia inteiro nos dias normais, tendiam a ficar reclusos quando surgia uma oportunidade. Permitiam a filha a participar da comemoração, mas não ficavam a vigiá-la. Recolhiam-se cedo e iam dormir.

Sunny sempre se comportara exemplarmente, mas Lydia acreditava ser uma boa idéia e ela acabou aceitando sua sugestão. Cerca de meia hora após seus pais se recolherem, foi até em casa e pegou a chave da porta de entrada. A trancou ao sair e foi à procura de suas amigas.

Assim que encontrou Lydia e Catherine, as três seguiram até um ponto de ônibus. Tomaram um ônibus que as levaria ao bairro vizinho, onde comemoravam o Halloween e a Noite da Fogueira em uma única noite, fazendo uma junção das duas festas por causa da proximidade das datas comemorativas.

Logo que desceram no ponto e seguiram para a praça principal, testemunharam várias criancinhas correndo com chuvinhas acesas em mãos, todas fantasiadas.

--Você não acha que iremos nos denunciar ao aparecer sem fantasias? – Interrogou Catherine, receosa.

--Não, Kitty. – Lydia respondeu. – Você acha que alguém da nossa idade vai sair por aí fantasiado de bruxa? Você acha que Robbie vai andar por aí com uma espada na mão, declarando-se um Cavaleiro da Távola Redonda?

Catherine se viu forçada a concordar com a irmã. Qualquer colega seu de escola ia morrer de vergonha de andar por aí fantasiado assim.

As três passearam pela praça, procurando por Robbie e Tristan. Assim que Lydia viu Robbie, apontou-o para Catherine.

--Viu, ele não está fantasiado.

Ele vestia roupas comuns: calça jeans, blusa de manga e jaqueta jeans.

--Aí está a sua chance, vá falar com ele! – Aconselhou a irmã.

--O que? Enlouqueceu? Eu não posso falar com ele! – Catherine exclamou, alarmada.

--Não seja frouxa, Kitty. Ele é só um menino! – Lydia a recriminou. – O máximo que ele pode fazer é te dar um fora.

--O que seria uma humilhação e tanto. – Sunny comentou, distraidamente.

--Não está ajudando, Sunny. – Lydia resmungou.- Vá, Litty! – Lydia empurrou a irmã na direção do menino. – Antes que outra garota te passe a perna.

--Lyd, não. – Catherine choramingou, dando as costas a Robbie e fitando a irmã, amedrontada.

--Vá de uma vez. – Lydia ordenou. – Eu não vim até aqui por nada!

Catherine virou-se na direção de Robbie e, com o coração querendo saltar de seu peito, começou a caminhar em sua direção.

Robbie estava sentado em um banquinho da praça, conversando com outro garoto. Quando Catherine estava perto dele, uma garota sentou-se ao lado dele e passou a mão em seu cabelo, recebendo um leve sorriso dele.

Catherine parou de andar instantaneamente. Assim que o amigo de Robbie saiu de perto dele, ele deu sua total atenção à menina que se sentara ao seu lado, quem Catherine reconheceu como sendo uma colega de classe sua chamada Lexi Paxton.

Quando viu Robbie passando o braço envolta de seu ombro e conversando alegremente com ela, Catherine deu a volta e notou que Lydia e Sunny não estavam em parte alguma.

Catherine retrocedeu seus passos e procurou por elas, mas não as encontrou em parte alguma. Deu uma volta na praça e ainda assim não as viu. Cansada e decepcionada com o resultado da noite, escorou-se em uma barraquinha e tentou recuperar um pouco do animo para assistir a queima de fogos.

Estava distraída olhando para o céu, assistindo ao show pirotécnico, quando ouviu.

--Kitty, o que está fazendo aqui? – Era Lexi.

--Oh, oi, Lexi. – Catherine não sabia ao certo o que dizer, principalmente para ela.

--Você está sozinha? – Lexi interrogou, enquanto Catherine olhava a sua volta, procurando por Robbie.

--Ham? – Catherine voltou a lhe fitar nos olhos. – Sozinha? Eu?

--Está aqui por causa de Robbie? – A menina exigiu saber, cruzando os braços sobre o peito, batendo o pé. – Você não acha que isto de ficar seguindo ele a todo canto é uma atitude desesperada?

Catherine a escutava de olhos arregalados e com o coração aos pulos.

--Afinal, ele nem sabe que você existe! – Lexi comentou; depois, sorrindo, acrescentou. – Não, minto. Ele sabe que você existe. Na verdade, ele e Tristan já deram umas boas gargalhadas as suas custas!

Catherine piscou duas vezes, incrédula. Por que aquilo estava acontecendo com ela?

--Só para você saber, ele e eu, nós estamos namorando. – Lexi informou-lhe, com o semblante sério. – Então, pare de segui-lo.

--Oi, eu lhe fiz esperar demais? – Um menino que Catherine nunca viu antes interrompeu a conversa das duas.

--Vocês se conhecem? – Lexi perguntou a Catherine.

O que só deixou Catherine confusa; pensara que ele estava falando com Lexi.

--Ham... – Catherine estava preste a negar, quando ele respondeu antes dela.

--Claro. Ela é minha namorada.

Catherine ficou boquiaberta, se denunciando. Lexi fitou um, depois o outro, desconfiada. O menino, então, disse para Catherine.

--Me dê a sua mão. – Estendendo-lhe a mão direita.

Catherine estendeu-lhe a mão direita, imaginando que ele fosse lhe cumprimentar – talvez se apresentar; porque aquela história de ser sua namorada era brincadeira, eles sequer se conheciam.

--A outra mão, bonequinha. – Ele riu. – Para que eu possa segurá-la. – Explicou.

--Ooh... – Catherine apressou-se a corrigir seu ato, estendendo-lhe a mão esquerda.

Ele a tomou, imediatamente entrelaçando seus dedos. Catherine fitou as duas mãos juntas por um longo minuto, como se estivesse hipnotizada. Nenhum garoto segurara a sua mão daquela forma antes.

--Vamos, bonequinha. – Ele a convidou, arrancando-a de seu devaneio.    - Com licença. – E não demorou a tirar Catherine de perto de Lexi.

--Eu lhe conheço? – Catherine perguntou a ele, assim que saíram do alcance dos ouvidos de Lexi.

Ele riu. Catherine o fitou com atenção pela primeira vez – “ele é lindo!”, pensou consigo mesma. “E está segurando a minha mão!”.

--Não. – Replicou. – Meu nome é Zackary McGlasson, você pode me chamar de Zack.

--Por que você fez aquilo, disse que eu era sua namorada? – Ela o interrogou. – Você nem sabe o meu nome!

--Eu ouvi... Ela estava te provocando. – Ele explicou, sem deixar de guiá-la pela praça.

--Por que você me chamou de bonequinha?

--Você mesma disse, eu não sei seu nome. – Replicou. Depois, fitando-a diretamente nos olhos, sorriu e disse. – Além do mais, você me lembra aquelas bonequinhas de louça.

Catherine ficou completamente corada.

--Catherine. – Disse, timidamente. – Meu nome. – Explicou. – Catherine Bennet, mas todo mundo me chama de Kitty[3].

--Combina com você. – Ele comentou, ainda fitando com toda a sua atenção; como se analisasse cada um de seus traços. – Mas acho que vou continuar te chamando de bonequinha.

Catherine desviou o olhar, ainda mais constrangida. Foi então que viu sua irmã.

--Lydia! – Exclamou, para chamar sua atenção.

Lydia estava aos beijos com Tristan e não havia sinal de Sunny.

--Lyd! – Catherine arrastou Zackary até onde sua irmã estava aos beijos com o outro menino. – Lyd! – Puxou a irmã pelo ombro, para fazê-la largar o menino. – Onde você e Sunny se meteram? Me largaram lá sozinha!

--Você não parece estar sozinha! – Lydia reclamou, olhando para o menino que estava de mãos dadas com a sua irmã. – Ao contrário, parece-me muito bem acompanhada. – E, aproximando-se do ouvido da irmã, cochichou. – Quem é ele? E o que aconteceu com Robbie?

--Isso não importa. – Replicou no mesmo tom de voz, com medo de serem ouvidas pelos outros meninos; principalmente Tristan, quem andava com Robbie. – Onde está Sunny?

--Não sei... Por aí... Ficando com um garoto. – Lydia respondeu, despreocupada. Parecia querer voltar aos beijos com Tristan. – O que você devia estar fazendo com ele! – Murmurou em seu ouvido mais uma vez, como se lhe desse uma ordem.

--Mas eu acabei de conhecê-lo. – Catherine murmurou de volta em seu ouvido.

--E daí? – Lydia resmungou, impaciente.

E voltou-se de frente para Tristan, quem não parecia interessado naquela conversa. Lydia não demorou a passar os braços envolta de seu pescoço e puxá-lo para mais um beijo.

Catherine ainda permaneceu ali por alguns segundos, assistindo àquela demonstração. Até que Zackary lhe puxou pela mão, afastando-a dali. Não demoraram a cruzar o caminho de Sunny, quem estava tão ocupada quanto Lydia naquele momento. Catherine sequer se aproximou dela, seria uma perda de tempo.

Estava criando coragem para conversar com Zackary, tentar conhecê-lo melhor. Ou, ao menos, descobrir onde ele mora, que escola freqüenta – porque sabia que eles não estudavam na mesma escola, lembrar-se-ia dele se já o tivesse visto antes. Mas ouviu alguém chamar a distância.

--Zack!

Viu Zackary acenar para alguém. Quando olhou na mesma direção que ele, viu que se tratava de Robbie. Lexi estava ao lado dele e, naquele exato instante, lhe dizia alguma coisa. Algo que fez Robbie olhar para ela, franzir a testa e depois fitar Catherine.

--Zack! – Ele chamou de novo, fazendo sinal para que se aproximasse.

Catherine se viu sendo levada para perto de Robbie e sentia suas pernas tremerem. Quando pararam a sua frente, Lexi tinha um sorrisinho fingido nos lábios ao fitá-los.

--E aí? Eu não vi Adam por aí. – Robbie comentou com Zackary, depois fitou Catherine.

Catherine corou e desviou o olhar.

--Meu irmão está na casa da namorada. – Zackary replicou, naturalmente.

--Então, vocês não vão tocar hoje?

--Não.

--Você tem uma banda? – Catherine perguntou; ficou tão surpresa com aquela informação que esqueceu-se de sua timidez na frente de Robbie. Olhava para Zackary e somente para ele.

--Sim. Com meu irmão e dois amigos. – Ele respondeu.

--E o que você toca?

--Baixo.

--Eu ouvi dizer que baixistas tem mãos grandes. – Comentou de forma inocente; ela se lembrava de ter ouvido isto em um filme, só não lembrava qual.

Zackary soltou a sua mão e olhou para as suas duas mãos, erguidas a sua frente, como se as analisasse a luz do comentário de Catherine.

--Acho que sim. – Replicou, por fim, voltando a tomar a sua mão.

--Peraí! – Lexi exclamou, ganhando a atenção dos dois. – Você é a namorada dele e não sabe que tem uma banda?!

--Eu ainda não tive tempo de dizer a ela tudo ao meu respeito. – Zackary explicou. – sabe como é, nós estávamos meio que... ocupados com outras coisas.

Lexi ficou boquiaberta ao ouvir aquela insinuação. Catherine estava escarlate de vergonha.

--Vambora, bonequinha? – Propôs, com uma leve aceno de cabeça, indicando o caminho. – Tchau. – Disse para os outros dois, ao levar Catherine dali.

Ele a guiou até a fachada de uma casa bonita e, apontando para ela, explicou.

--Eu moro aqui.

Os dois sentaram na calçada e passaram a conversar. Catherine descobriu em que escola ele estudava e que tipo de música a sua banda tocava. E ele descobriu que, quando não estava na escola, ela trabalhava como modelo.

Era quase meia-noite quando Lydia e Sunny a encontraram. Estavam com pressa de ir embora, senão perderiam o último metrô até a casa de Sunny – já que não havia nenhum ônibus circulando pela cidade àquele horário naquele dia.

Saíram correndo feito loucas pela calçada, aos risos, até acharem uma escada de acesso ao metrô subterrâneo. Quando estavam já sentadas no metrô, que estava quase deserto, finalmente conversaram sobre o que aconteceu aquela noite.

Catherine ainda estava mortificada com toda a situação envolvendo Robbie e Lexi. Mas não pôde evitar ficar corada sempre que uma das meninas insinuava algo com relação à Zackary.

~#~

Enquanto isto, na Escócia, o jantar daquela noite transcorreu sem maiores incidentes. Houve pouca conversa à mesa e, após o jantar, os participantes se dividiram em pequenos grupos.

Charles e Jane formaram um, logo abandonando os outros e indo procurar uma sala com lareira para namorar a sós. Darcy, Moira e Caroline formaram outro, tornando a conversa enfadonha e irritante. E Richard e Elizabeth outro, os quais conversaram alegremente por muito tempo.

Depois que todos se recolheram, Darcy se arrumou para dormir já em seu quarto. Tomou o comprimido na dose exata prescrita pelo seu médico e ficou esperando o sono chegar. Ficava repassando a conversa da biblioteca na cabeça e lembrando dos olhos castanhos em fogo de Elizabeth ao fitá-lo desafiadoramente.

Impaciente, ergueu-se da cama e saiu do quarto. Decidiu ir procurar na biblioteca um livro para ler enquanto esperava o remédio fazer efeito. Achou o exemplar de Mundo Sem Fim no mesmo lugar em que deixara àquela tarde. Resolveu lê-lo e tentar identificar as características que Elizabeth ressaltara em sua discussão.

Estava subindo a escada, quando sentiu uma vertigem. O último degrau pareceu sumir embaixo do seu pé. Segurou-se ao corrimão para não cair, largando o livro que tinha em mãos no chão. Foi quando ouviu.

--Sr. Darcy, está se sentindo bem? – Naquela voz melodiosa que reconheceria em qualquer lugar.

--Só um pouco tonto. – Respondeu.

Sentiu-a tentar ajudá-lo, envolvendo-o com os braços pela cintura e tentando fazê-lo recuperar o equilíbrio. Estranhamente, aceitou a sua ajuda, apoiando-se nela.

--Quer que eu chame alguém? Tem certeza que não está passando mal? – Sua voz estava aflita.

--Não, não precisa. É só o efeito do remédio para insônia. – Explicou-lhe.

--Qual é o seu quarto?

--Final do corredor. – Informou-lhe.

Elizabeth ajudou-o chegar até o quarto. Darcy passou o braço por sobre o seu ombro, ela continuou com os braços envolta de sua cintura e o guiou até o quarto. Abriu a porta e pôs na cama, sendo forçada a sentar-se na beirada momentaneamente ao fazer isto.

Assim que Darcy retirou o braço de seu ombro, Elizabeth ficou ereta e ergueu-se da cama. Ia se retirar do quarto, quando ele murmurou.

--O seu cheiro é gostoso. – Antes de fechar os olhos e cair em um sono profundo.

Elizabeth ficou ali, fitando o seu rosto, após este comentário. Velou o seu sono por alguns minutos, depois saiu do quarto e fechou a porta. Ao voltar pelo corredor, encontrou o livro no chão. Pegou-o e viu que se tratava do mesmo livro que estivera lendo àquela tarde.

Voltou a olhar na direção do quarto dele, perguntando-se o que estava acontecendo ali. Depois foi para o quarto, tentar dormir, esquecendo-se completamente do motivo de ter saído do quarto àquela hora. O sono lhe evadiria por algumas horas ainda.

 



[1] Edimburgo é segunda maior cidade escocesa, depois de Glasgow; localizada no sudeste da Escócia, fica na costa leste da faixa central, ao longo do Firth of Forth, perto do Mar do Norte.

[2] Kenneth Martin Follett é um escritor galês. Formado em Filosofia pela University College, de Londres, começou sua carreira como jornalista, primeiro no South Wales Echo e, depois, no Evening Standard de Londres. Seu primeiro best seller foi O Buraco da Agulha (Eye of the Needle). O tema primordial de seus livros é a ação de espionagem e de guerra. Em 1989 lança o seu livro de maior sucesso, Os Pilares da Terra (The Pillars of the Earth) que foge a regra dos seus temas usuais, por se tratar de um romance histórico passado na idade média européia; ganhou popularidade ao longo da década de noventa. Teve sua sequência publicada em 2007: Mundo Sem Fim (World Without End).

 

[3] Kitty significa gatinha (substantivo).

 

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