Capítulo XII
Noite da Fogueira – I Parte
Georgiana digitava ferozmente em seu laptop, tentando concluir um trabalho. Embora fosse o meio da madrugada, ouvia o som de violões e violinos através da parede de seu quarto, a voz melancólica de Damian Rice invadia os seus ouvidos. Sabia que Rebecca ainda estava acordada, escutando música em seu rádio. Ela ainda estava triste com o que aconteceu da última vez em que saíram com os meninos.
Já fazia dias desde o ocorrido. Georgiana sabia que Betsy tinha visto Max pelo campus; ela mencionara duas ocasiões em que ele a acompanhou até a sala de aula, caminhando com ela e conversando enquanto atravessavam o campus de um pavilhão a outro. Ela, particularmente, tinha cruzado com Eric e Patrick, mas somente se cumprimentaram rapidamente.
Já Rebecca compartilhava uma aula inteira com Eric. E, ainda assim, mantinha-se distante dele. Nenhuma das garotas sabia ao certo porque ela se comportava assim, se estava com raiva dele ou por qualquer outra razão. Isto porque Rebecca se recusa a discutir o assunto desde que ele a rejeitou.
Mas Georgiana tinha a impressão de que Rebecca estava triste – o que era normal – e envergonhada. Ela não sabia como se comportar em sua presença, por isso o evitava. Georgiana acreditava que era apenas uma questão de tempo para que voltassem a se falar.
Concluindo o seu trabalho, salvou-o e decidiu se preparar para dormir. Mas, antes, conectou-se a internet, para descobrir se ele estava no chat. E assim que se conectou, uma janela se abriu em sua tela. Era ele.
Ikarus: já estava perdendo as esperanças de você aparecer por aqui hoje...
Georgiana abriu um largo sorriso ao ler esta mensagem – o seu coração acelerou de imediato.
Smurfete: confesso que estava pensando em você quando me conectei...
E, calmamente, esperou pela resposta dele, já prevendo que ficariam horas a fio conversando sobre nada e tudo ao mesmo tempo.
Mentalmente, fez uma lista das coisas que já sabia ao seu respeito: ele tem 23 anos, faz medicina, sabe jogar basquete e tocar violão; não gosta da própria voz, por isso nunca se aventurou a cantar em público, embora tenha tocado baixo em uma banda na escola durante o ginásio.
Smurfete: por que Ikarus?
Ikarus: Ícaro, na mitologia grega, era filho de Dédalo, um dos homens mais criativos e habilidosos de Atenas
E passou a relatar a história de Ícaro.
Ikarus: um dos maiores feitos de Dédalo foi o labirinto do palácio do rei Minos de Creta, para aprisionar o Minotauro...
Ikarus: Dédalo provocou a ira do rei que, como punição, ordenou que Dédalo e seu filho fossem jogados no labirinto...
Ikarus: para escapar do labirinto, Dédalo projetou asas, juntando penas de aves, fixando-as com cera...
Ikarus: e ensinou Ícaro a voar... então, antes do vôo final, advertiu Ícaro que deveriam voar a uma altura média: nem tão próximo ao Sol, para que o calor não derretesse a cera que colava as penas; nem tão baixo, para que o mar não pudesse molhá-las...
Ikarus: Ícaro deslumbrou-se com a bela imagem do Sol e, sentindo-se atraído, voou em sua direção, esquecendo-se das orientações de seu pai; talvez inebriado pela sensação de liberdade e poder.
Ikarus: a cera de suas asas começou rapidamente a derreter e logo caiu no mar...
Georgiana acrescentou a sua lista mental: “ele gosta de mitologia grega”.
Smurfete: vejo que você gosta de mitologia grega...
Smurfete: a maioria das pessoas que conheço só sabem da existência de Zeus, Afrodite ou Apolo...
Smurfete: e mesmo aqueles da nossa idade que conhecem mitologia grega, se identificariam mais com Dionísio[1] que qualquer outro...
Eles presseguiram com esta conversa sem muita consequência por algumas horas. O céu já estava clareando quando Georgiana se deu conta que ficara conversando com ele praticamente a madrugada inteira.
Smurfete: já está amanhecendo...
Smurfete: eu geralmente não fico acordada até tão tarde...
Ikarus: nem mesmo quando sai com suas amigas?
Smurfete: nem mesmo quando eu saio com as minhas amigas...
Ikarus: onde você costuma ir quando sai com elas?
Georgiana hesitou um pouco antes de responder. Ficava imaginando as chances de se encontrar com ele em um destes lugares após dar-lhe tal informação. Mas depois deduziu que não teria como ele saber quem era ela, a menos que lhe dissesse seu nome.
Então, disse-lhe o nome do clube noturno que freqüentavam e do bar em que Patrick trabalhava. Estes eram os dois locais que mais costumava ir quando saía com as meninas – pelo menos, era onde costuma ir, até Rebecca se “declarar” para Eric.
Ikarus: eu geralmente vou lá também...
Ikarus: você acha que já nos vimos?
Smurfete: não sei... talvez...
Para evitar que se detivessem naquela conversa sobre um possível encontro, redirecionou o assunto com um tema mais seguro.
Smurfete: você já provou Guinness alguma vez?
Ikarus: sim... por quê? Vai me dizer que é sua bebida favorita?
Georgiana passou a relatar a história daquela cerveja para ele; de como seu primo, após voltar de viajem, estava fissurado na bebida. Como tentou convencer o seu irmão e primo a provarem, mas não permitiram que ela fizesse o mesmo. E de como matou a sua curiosidade quanto à bebida há poucos dias – omitindo, é claro, a parte sobre a brincadeira Bartender’s Kiss.
E ficou esperando uma réplica por parte dele, algum comentário. Mas ele demorou bastante para responder. Georgiana sentiu-se apreensiva com a sua demora. Perguntava-se se ele poderia estar no bar na mesma noite em que ela pediu a guinness e presenciou o beijo que trocou com Patrick.
Mas refutou as suas suspeitas, ponderando que é bastante remota a possibilidade de ele, um estranho, descobrir que se tratava dela por este simples detalhe.
Ikarus: e o que achou?
Ikarus: era o que esperava?
Respirou aliviada, prosseguindo com a conversa.
Smurfete: eu nunca gostei muito de cerveja...
Smurfete: Guinness é razoável, eu acho...
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Charles foi buscar as irmãs Bennet cedo naquela quinta-feira, 5 de Novembro[2]. Estava animadíssimo com a perspectiva de ter a sua Jane só para si durante quatro dias seguidos na Escócia.
Foi recepcionado, como da primeira vez, pela sra. Bennet. Quem despejou-lhe muita amabilidade e atenção. Por sorte, igualmente a ocasião pretérita, Elizabeth cuidou de apressar a partida deles, lembrando a sua mãe de que os outros convidados de Bingley deveriam estar a sua espera.
Assim que saíram do prédio em que as Bennet residiam, depararam-se com um Bentley Continental Flying Spur, prata, com o emblema da empresa do pai de Bingley em seu pára-brisa. O que levantou a curiosidade de Jane quanto a algum problema com o carro de Bingley.
--Não. Ele só não tem espaço para nós três... – Ele explicou e Jane lembrou-se que o carro só havia lugares para duas pessoas. – e ainda a bagagem... Eu tenho uma irmã e sei como vocês, mulheres, sempre viajam com mais bagagem do que realmente precisam. – Comentou, distraído, depois fitou as duas irmãs, alarmado que pudesse estar ofendendo-as.
Elizabeth riu e Jane parecia não ter dado muita importância ao seu comentário, então Bingley voltou a relaxar.
Enquanto o motorista ajeitava as malas das irmãs Bennet, Charles abriu a porta do passageiro do fundo para que pudessem se acomodar. Assim que terminou de organizar as bagagens, o motorista entrou no carro e deu partida.
O excitamento de Charles quanto àquela viagem era visível para ambas as irmãs. Ele passou o percurso inteiro até o aeroporto London Luton, a apenas 30 milhas da central de Londres, discorrendo sobre aquela viagem.
Elizabeth percebeu que a sua irmã estava tão animada com aquela viagem quanto Charles. Embora o escutasse em silêncio, o sorriso em seus lábios e o brilho em seus olhos a denunciasse.
Sentindo-se deslocada entre o casal de pombinhos, preferiu manter-se quietinha no banco traseiro. Escutava ocasionalmente o que Charles e sua irmã conversavam, para o caso de um deles lhe dirigir a palavra. Mas também permitia se perder em pensamentos.
Charles havia informado a elas que estariam viajando de jatinho particular da empresa de seu pai, para que não perdessem muito tempo em aeroportos e pudessem aproveitar cada segundo daqueles quatro dias.
E ela estava entusiasmada com esta experiência. Nunca viajara de jatinho antes, somente em aviões comerciais. E nunca estivera na Escócia. Por isto também estava excitada. Tratou de colocar em sua mala a sua câmera fotográfica analógica Leica M6, assim como vários rolos de filme.
Quando chegaram ao aeroporto, ao hangar 63, encontraram Caroline Bingley, Darcy, e outro casal, todos já os esperando. Elizabeth mandou o seu coração se calar, porque, embora Darcy fosse um homem irresistível fisicamente, era um ser insuportável na questão personalidade.
Ao lado dele estava uma morena muito bonita e os dois conversavam entre si. Caroline estava um pouco afastada e não parecia contente com o fato de Darcy estar dando total atenção à morena ao seu lado. O outro homem estava ao lado da morena, mas parecia estar com os pensamentos distantes – não participava da conversa.
Enquanto caminhava em sua direção, Elizabeth imaginava o que poderia passar pela cabeça de Darcy ao vê-la. Ele devia se lembrar da sessão de fotos, quando ela deu-lhe uma lição que, tinha certeza, ele nunca mais irá esquecer. Ele deve ter aprendido a nunca mais ofendê-la.
Lembrava-se perfeitamente de quando Bingley comentou que acreditava que ela era uma mulher inteligente durante o desfile e Darcy disse: “para uma modelo”, com um tom de menosprezo em sua voz. Sequer a conhecia e já deduzia que se tratava de uma mulher fútil e egocêntrica somente por ser modelo. Pois bem, agora ele sabia como era estar em seu lugar.
Observou que, como sempre, ele estava vestido com um terno – provavelmente um Ralph Lauren ou Valentino Uomo. Mas notou que não estava de gravata e os primeiros botões de sua blusa social estavam desabotoados. Deixou uma gargalhada escapar-lhe dos lábios quando ponderou que ele poderia estar seguindo seus conselhos ao se vestir.
Darcy instantaneamente virou o rosto em sua direção, ao ouvir sua gargalhada.
--O que é tão engraçado? – Charles perguntou-lhe, chamando sua atenção para ele.
Elizabeth virou o rosto em sua direção e o fitou, ali ao lado de sua irmã, caminhando de mãos dadas. E disse.
--Eu estou animada com esta viagem.
--Eu também. – Charles concordou, sorrindo, aceitando a sua justificativa.
Elizabeth voltou a olhar na direção de Darcy. Lá estava ele, com aqueles olhos azuis enormes, fitando-a com aquele ar de superioridade.
--Finalmente! – Caroline reclamou. – Sabe há quanto tempo estamos aqui esperando você? – Dirigiu a sua tirania ao seu irmão assim que se aproximaram o suficiente.
--Honestamente, sei. – Charles replicou, indiferente ao comportamento dela. – Jane, Lizzie, vocês se lembram da minha irmã, Caroline? E do meu amigo, Darcy? Estávamos juntos no Royal Opera House...
--Sim, eu me lembro. – Jane respondeu, sorrindo amavelmente para todos. – É um prazer revê-los.
--Igualmente. – Caroline retribuiu com um sorriso calculista.
--Como vai? – Darcy cumprimentou Jane.
Elizabeth o analisava. O modo de se vestir não era a única coisa alterada em sua aparência. Ele tinha cortado o cabelo, deixando-o repicado e com um aspecto mais desordenado. “Eu gostei!”
Elizabeth voltou a sorrir com esta constatação. Poderia ter tamanho efeito sobre a aparência dele?!
--Olá. – Ele voltou-se para ela, fitando-a nos olhos.
“Oh, fique quieto, coração!”, ela reclamou consigo mesma.
--Oi. – Replicou, sustentando o seu olhar.
--E... estes são Richard Fitzwilliam, primo de Darcy e um grande amigo, e Moira Reynolds, assistente pessoal de Darcy e amiga. – Charles prosseguiu com as apresentações. – Estas são Jane Bennet, minha namorada, e Elizabeth, sua irmã.
Ao ouvir a palavra “namorada”, Elizabeth olhou para Jane e viu a irmã corar violentamente. E sentiu-se satisfeita, pensando consigo mesma: “sabia que podíamos gostar de Charles! Totalmente diferente de Peter e toda aquela história de ‘amiga’!”
--Nós ouvimos falar muito ao seu respeito, Jane. – Moira comentou ao cumprimentar Jane. – Eu estou muito contente em finalmente conhecê-la.
--Obrigada. – Jane respondeu. – Eu estou feliz em conhecê-los também.
--Elizabeth, prazer em conhecê-la. – Moira voltou sua atenção a ela, sorrindo com sinceridade.
--Me chame de Lizzie. – Elizabeth replicou, notando que Moira não era necessariamente igual à Caroline em seus modos; pelos menos, até agora parecia sincera. – É um prazer conhecê-la.
As apresentações foram breves porque Caroline estava impaciente para que entrassem no jatinho. Não gostava de não ser o centro das atenções – que, neste dia, estavam concentradas primeiramente em Jane.
Todos entraram no jatinho executivo e se acomodaram em suas poltronas. Elizabeth percebeu que tudo naquele jatinho esbanjava requinte e muito conforto. Nada nele lembrava um avião comercial, com suas milhares de fileiras de poltronas estreitas e sem comodidade alguma para os passageiros.
Elizabeth assistiu divertida enquanto cada um se acomodava em algum lugar no jatinho. Sentaram-se lado a lado: Charles e Jane, e a frente deles Darcy e Moira. Na fileira ao lado, Caroline sentou-se sozinha, olhando de soslaio para Darcy e sua acompanhante.
Elizabeth ultrapassou as poltronas de Jane e Charles, ocupando um das poltronas vagas logo após eles, ao outro lado do corredor, sentando-se a janela. Tendo uma visão privilegiada dos outros quatro.
Acreditava que passaria senão toda, ao menos boa parte da viagem sozinha. Então, tirou o seu IPod de dentro da bolsa de mão e ligou-o, passando a escutar música e observar a janela. Imaginava que não demoraria muito para que o jatinho começasse a taxiar.
Perguntava-se se a morena ao lado de Darcy, Moira, era mais que sua assistente pessoal e amiga. Caroline não parecia gostar nem um pouco dela.
Sentiu a poltrona ao seu lado ser ocupada e virou o rosto na direção de seu vizinho, encontrando o primo de Darcy a observá-la com um sorriso charmoso de canto de boca.
--Então, você é a famosa Elizabeth Bennet. – Ele disse no instante que Elizabeth retirou os fones de ouvido e guardou o IPod em sua bolsa.
--Famosa? – Replicou, simplesmente.
--Charles falou-me a seu respeito.
Riu consigo mesma antes de comentar.
--Eu duvido que isto seja verdade.
Richard arqueou uma das sobrancelhas, surpreso pelo seu comentário.
--Nós, Charles e eu, mal trocamos meia dúzia de palavras nas ocasiões em que nos encontramos... E creio que a atenção dele estava focada em outro lugar nestas mesmas ocasiões... – Ela explicou-lhe, indicando a própria irmã sentada a sua frente com um aceno sutil de cabeça. – Por isto, creio que ele tem pouco a falar a meu respeito a quem quer que seja.
--Touché. – Ele riu. – Mas isto não é um problema. Será um prazer desvendar tudo a seu respeito nestes próximos dias. – Comentou galante, fazendo-a rir gostosamente.
Elizabeth constatou ali, naquele instante, que o primo de Darcy era um malandro. E poderia ser bastante divertido passar os próximos dias em sua companhia.
Quando voltou os olhos para frente, notou que Darcy os observava com uma expressão fria no rosto. Assim que o cumprimentou antes de entrar no jatinho, percebeu que ele tinha sombras escuras embaixo dos olhos e a sua barba estava por fazer. Ponderou naquele instante que ele parecia cansado e que aqueles dias na Escócia poderia ser justamente o que ele estava precisando para relaxar.
Sacudindo a cabeça, para afastá-lo de seus pensamentos, voltou o rosto na direção de Richard e passou a conversar com ele. Indiferente ao fato de que Darcy já não era o único a observá-los; a sua vizinha de poltrona também lançava o olhar em sua direção de tempos em tempos.














