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Há casos em que um conselho pode ser tanto bom quanto mau - dependerá dos acontecimentos. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo XI

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Capítulo XI

‘A vida é um labirinto
E o amor é um mistério’

 

Lydia contava os minutos para a aula terminar, sendo uma das primeiras a sair da sala assim que o sinal tocou. Sunny Foster a acompanhou e não tardou para que Catherine as encontrasse.

Juntas, as três meninas seguiram o aglomerado de adolescentes até a saída da escola, conversando entre si e rindo muito. Fora dos portões da escola, as meninas avistaram Robbie Nixon e Tristan Danvers. Dois dos mais populares garotos da escola – e mais bonitos também.

Secretamente, Catherine sonhava com o dia em que Robbie olharia para ela. Lydia, sua irmã e confidente, conhecia suas aspirações quanto a ele; divertida, cutucou Sunny e deu uma piscadela. Sunny riu-se, o que chamou a atenção de Catherine, fazendo-a corar.

As três caminhavam há passos de distancia dos meninos, observando-os. Seguiram-nos pelas ruas londrinas discutindo cenários imaginários de como seria falar com eles e, mais além, tornar-se suas namoradas.

Tristan olhou para trás ao ouvir o risinho abafado das meninas e comentou algo com o amigo, fazendo Robbie olhar para trás também. As três meninas pararam enfrente a uma banca de revista e fingiram estar procurando algo para comprar, tentando disfarçar.

Assim que percebeu que eles continuaram a andar, Lydia apressou as outras duas a segui-los novamente. Alcançaram-nos próximo ao acesso do metrô subterrâneo e continuaram a acompanhá-los à distância.

Há mais de uma semana que isto virara rotina. Seguia-os pelas ruas após a aula, tomavam a mesma condução – embora se sentassem algumas cadeiras afastadas – e só se separavam quando precisavam desembarcar. Mas nunca se falaram, nem mesmo um “Oi!”.

--Meninas, onde estavam? – A sra. Bennet quis saber quando as suas filhas chegaram em casa. – Por que demoraram tanto para chegar da escola?

--Ham... A professora estendeu a aula hoje, mamãe. – Lydia justificou-se, prendendo um risinho, ao lançar o olhar para Catherine (quem estava completamente ruborizada).

--Esta sua professora anda fazendo isto com muita freqüência nestas últimas semanas. – Elizabeth comentou, notando a troca de olhares significativos entre suas duas irmãs mais novas.

Mas Lydia, simplesmente, deu de ombros e seguiu em direção ao seu quarto, para trocar o uniforme da escola. Catherine não demorou a segui-la. E da cozinha foi possível ouvir as duas aos risinhos dentro do quarto.

~#~

Georgiana fitava a tela do seu laptop, ansiosa pela resposta que ele lhe daria. Sentia-se boba por se sentir assim. Quando começou a se corresponder pela internet não imaginava que poderia estar dando inicio a um relacionamento. Principalmente porque sabia dos ricos que tais relacionamentos traziam.

Embora possa estar trocando e-mails e tendo longas conversas em chats de bate-papo com qualquer pessoa, sem ter como saber se esta pessoa está lhe dizendo a verdade ou não, sentia-se terrivelmente segura com a perspectiva de não poder ser identificada também. Uma sensação imensa de liberdade que somente o anonimato lhe proporcionava.

Mas com ele tudo estava começando a ficar complicado. Enquanto a sua amizade florescia com o decorrer dos meses de trocas de e-mails e intermináveis horas conectados pela internet, sentia sua curiosidade a pequenos detalhes a seu respeito aguçar. Queria saber mais sobre ele, queria saber tudo. E, conseqüentemente, ele também queria.

Eles tinham conversado sobre livros, filmes, música, estudos, sonhos e aspirações. Exceto o que muitas pessoas considerariam fundamental, básico até. Como seus respectivos nomes.

Ele queria encontrá-la e conhecê-la pessoalmente. Especialmente após descobrir que freqüentam a mesma universidade, o mesmo campus. Mas Georgiana estava relutante. Embora desejasse saber, proibiu-o de contar-lhe o seu verdadeiro nome, atendo-se aos seus nicknames cibernéticos, e também se recusou a marcar um encontro. Não estava pronta ainda.

Naquele momento, sentia-se Meg Ryan em “Mensagem para Você”, sentindo suas mãos suarem e o coração acelerar diante de uma tela de computador. Em várias ocasiões, flagrou-se olhando para rapazes ao campus e se questionando se poderia ser ele.

Ikarus: do que vc tem tanto medo?

Ele finalmente escreveu. E ela suspirou; ali estava outra pergunta qual ela não poderia lhe responder.

Ikarus: serio? O que e?

Ele persistiu, ao notar que ela não estava lhe respondendo.

A porta de seu quarto se abriu e Georgiana desviou o rosto do computador, fitando Rebecca, quem estava parada a porta de seu quarto.

--Já está pronta?

--Sim. – Georgiana replicou, voltando as costas para a amiga e fitando a tela do computador.

Ikarus: as vezes me pergunto pq eu insisto tanto.

Ikarus: vc ñ quer me conhecer.

--Vamos, Georgie! – Rebecca a apressou. – Nós vamos nos atrasar... Max já está nos esperando.

--Estou indo.

Smurfete: eu vou precisar sair

Smurfete: minhas amigas e eu vamos a um bar

Smurfete: nos falamos depois

Ela saiu da sala de bate-papo e se desconectou da Internet. Desligou o laptop e ergueu-se da cadeira enfrente a sua escrivaninha, saindo do quarto e seguindo Rebecca até a sala.

--Você tem certeza que ele vai estar lá? – Rebecca perguntava a Max.

--Ele disse que ia. – Max respondeu.

--Das outras vezes também. – Rebecca resmungou, colocando o seu casaco.

Eric estava sempre prometendo encontrar-se com eles em barzinhos ou discotecas e depois não aparecia.

--Betsy, vamos?! – Rebecca gritou, impaciente.

--Pronto. – Betsy replicou, surgindo à sala também. – Já estou aqui. Onde está Patrick?

--Já está lá... Ele tem de trabalhar esta noite. – Max explicou, enquanto se dirigia a porta.

--E Eric?

--Ele irá nos encontrar lá mais tarde. – Respondeu, mas olhando para Rebecca.

E eles finalmente saíram. Georgiana queria ir de carro, porque geralmente ia embora mais cedo que seus amigos. Mas Rebecca não permitiu, afirmando que Max viera buscá-las e seria uma desfeita se fossem em carros diferentes.

Chegaram ao bar fora do campus universitário quando o movimento estava começando a triplicar. Afinal, era uma noite de sexta e os jovens estavam começando a aproveitar o fim de semana.

Max guiou as meninas até o balcão do bar, onde encontraram Patrick servindo as pessoas.

--O que se é preciso fazer para conseguir uma bebida aqui? – Max perguntou de forma a chamar a atenção do amigo.

--Nós só servimos pessoas respeitáveis. – Patrick replicou, servindo uma mulher ao lado de Max.

--Vou reclamar com o seu gerente! – Max persistiu, rindo, e, no mesmo instante, Patrick lhe serviu uma cerveja.

Rebecca tentou fazer o seu pedido, Max não permitiu. Faltavam poucos minutos para meia noite, quando aconteceria uma brincadeira, ele explicou.

--Hoje é noite do Bartender's Drink. – Ele argumentou, como se esta informação esclarecesse tudo.

--Uma o que? – Quis saber Betsy.

--Você vai ver. – Ele disse, misterioso.

As meninas não tiveram outra escolha, a não ser esperar até meia-noite.

Quando o momento chegou, uma daquelas sirenes comuns em batalhão de bombeiro soou, chamando a atenção de todos. O gerente do bar, um senhor barrigudo, exclamou.

--Senhoras e senhores! Hoje é a famosa noite do Bartender's Drink... Aquele que pedir a bebida favorita do bartender, sua próxima bebida será de graça ou receberá um prêmio do bartender.

Aqueles que já estavam familiarizados com a brincadeira seguiram para o balcão do bar para fazer seus pedidos. Outros os imitavam, curiosos para descobrir do que se tratava.

Max encorajou as meninas a fazerem seus pedidos, aproveitando que Patrick ainda estava do lado do balcão do bar mais próximo a elas. E assim poderia atender aos seus respectivos pedidos.

Rebecca e Betsy fizeram seus pedidos, seguindo o conselho de Max para pedir algo alcoólico. Mas nenhuma das duas acertou a bebida favorita do bartender.

--E o que você vai querer? – Patrick questionou Georgiana, quem ainda lia a lista de bebidas do bar.

--Uma Guinness[1].

Patrick ergueu as sobrancelhas, surpreso. O gerente do bar tocou a sineta novamente.

--Temos uma vitoriosa. – Ele alardeou.

O que fez Georgiana olhar ao seu redor, procurando quem o gerente estava falando. Unicamente para descobrir que todos olhavam para ela.

Patrick serviu-lhe um copo da cerveja preta, enquanto as meninas e Max assistiam tudo com bastante interesse. Georgiana tomou o copo de cerveja em mãos, esquecendo momentaneamente que estava sendo observada com bastante expectativa, e provou aquela cerveja, saboreando-a com cuidado. Depois tomou um gole maior.

Satisfeita, abaixou o copo e fitou Patrick, quem a assistia com um olhar de surpresa. Georgiana olhou ao seu redor e notou que várias pessoas ainda a assistiam, e não conseguia imaginar o que havia de demais no que estava acontecendo.

--Você vai querer outra Guinness? – Patrick questionou-lhe. – Ou o prêmio?

--Eu ainda nem terminei esta. – Ela replicou.

--Qual é o prêmio? – Rebecca interrogou, curiosa.

--Ela terá que escolher o prêmio para saber. – Max argumentou, ainda misterioso, piscando com um olho para Patrick.

--O que vai ser? – Patrick persistiu.

Georgiana olhou para o seu copo de cerveja preta ainda cheio e depois voltou a fitá-lo.

--Quero o prêmio.

Houve uma pequena algazarra dos espectadores, deixando as meninas insertas quanto ao motivo. As três meninas trocaram olhares e Rebecca e Betsy riram da expressão um tanto assustada de Georgiana. Parecia que ela estava preste a mudar de idéia.

Quando Georgiana voltou sua atenção a Patrick, ele estava se inclinando sobre o balcão do bar. E, antes que ela pudesse questioná-lo o que ele estava fazendo, ele já tinha pressionado seus lábios sobre os dela.

Houve outra comoção entre os espectadores, que bateram palmas e assobiaram, enquanto suas amigas os assistiam de olhos arregalados e bocas abertas.

Ao fim do beijo, Georgiana estava paralisada. Patrick voltou a ficar com a postura correta atrás do bar e a encarava, aguardando a sua reação.

--O que foi isso? – Ela finalmente perguntou.

--Você escolheu o prêmio. – Ele replicou.

--Este é o prêmio? – Betsy questionou, rindo.

--Nem para Eric trabalhar aqui. – Rebecca murmurou consigo mesma.

Todos escutaram o seu comentário, mas os meninos preferiram fingir que a não a ouviram. E então a sirene tocou novamente e o gerente do bar alardeou a vitória de outra moça do outro lado do balcão.

Georgiana assistiu o momento em que o outro bartender se inclinou sobre o balcão do bar e beijou a menina; quem, ao ser beijada, passou os braços envolta do pescoço do bartender e puxou-o para si, aproveitando ao máximo o seu prêmio – causando uma comoção ainda maior entre aqueles que assistiam a tudo.

Georgiana ficou boquiaberta, enquanto Rebecca e Betsy se juntavam ao público e batiam palmas. Georgiana estava preste a redirecionar sua atenção a sua cerveja, quando uma cabeleira loira chamou a sua atenção.

Instintivamente, virou-se na direção contraria, com o intuito de esconder-se antes de ser notada; mas esbarrou-se em alguém, quase derrubando sua cerveja nesta pessoa.

--Desculpe, Eric. – Pediu, ao erguer o olhar e depara-se com um par de olhos castanhos, firmes, que já lhe era familiar.

--Todo bem. – Ele replicou, ainda com as duas mãos em sua cintura, tentando equilibrá-la.

--Eric, você está aqui. – Rebecca exclamou, contente com a sua aparição.

Eric soltou Georgiana e ela deu um passo para trás.

--Ora, ora, ora. O que nós temos aqui? – Uma voz soou a suas costas, fazendo os pêlos da nuca de Georgiana se arrepiar. – Georgiana Darcy.

Georgiana voltou-se em direção a voz e encarou um par de olhos azuis.

--Há quanto tempo! – Holly Younge comentou, dirigindo-lhe um de seus sorrisos cínicos. – A última vez em que nos vimos nós ainda estávamos no colegial. O que você anda aprontando?

Todos perceberam que Georgiana estava estranha. Ela não conseguia abrir a boca, apenas encarava Holly como se estivesse diante de um fantasma.

--Não esperava encontrá-la aqui... Não me diga que freqüenta a Universidade de Cambridge[2].

--Ela freqüenta. – Betsy respondeu por ela.

--Eu pensei que você fosse estudar na Royal Academy of Music[3] ou em algum conservatório de música de prestígio. – Holly comentou, para maior desconforto de Georgiana. – Eu me lembro que você tocava piano muito bem.

--Georgiana está cursando Administração aqui em Cambridge. – Rebecca informou.

--Nossa, como o mundo é pequeno. Eu também. – Holly comentou, demonstrando animação com a sua descoberta. – Engraçado como nunca nos vimos pelo campus. Talvez devêssemos marcar para nos encontrarmos e pôr a conversa em dia... Eu sei que vamos nos divertir a beça, como nos velhos tempos!

Eric percebeu que Georgiana encolheu-se um pouco.

--Vamos procurar uma mesa para nos sentar. – Propôs aos seus amigos, numa tentativa de encerrar aquela conversa.

Como somente Max se moveu, Eric impulsionou Georgiana para seguir o seu exemplo. Depois fez o mesmo com Rebecca e Betsy.

--Nos vemos por aí, Georgie. – Holly despediu-se, permitindo que Georgiana seguisse o seu caminho.

Por sorte encontraram uma mesa em um cantinho. Sentaram-se todos e o clima estranho de antes persistiu. Georgiana segurava o restante de sua cerveja com mãos trêmulas e evitava erguer o olhar para seus amigos.

--Eu não sabia que você toca piano. – Rebecca foi a primeira a se pronunciar.

--Eu não toco mais. – Foi a única resposta que recebeu.

Todos perceberam o tom de voz abafado que usou e souberam que aquele era um assunto delicado demais para se tratar ali. Max logo mudou de assunto.

--Por que você gosta de Guinness? – Questionou, curioso.

Georgiana ergueu o olhar para ele e tentou sorrir. Gostava de Max, sempre conseguia conversar com ele com mais facilidade que com os outros dois. Embora já não se sentisse tão incomodada com a presença de Patrick, como se sentiu da primeira vez em que o viu.

--Meu primo, Noah, passou alguns meses a trabalho na Irlanda e quando voltou de lá, estava fissurado nesta cerveja. Um dia o vi tentando convencer o seu irmão, Richard, e o meu irmão a prová-la. – Aos poucos a sua voz foi voltando ao normal. – Eu quis prová-la também, mas nenhum deles permitiu. Hoje eu finalmente matei a minha curiosidade.

--E o que achou? – Eric quis saber.

--Eu gostei.

--Você e Patrick têm isso em comum. – Comentou, pensativo.

--Ela está ciente disso. Max informou, sorridente. – Ela a pediu no Bartender's Drink.

--Ahh... – Eric a fitou, notando como as bochechas de Georgiana estavam coradas.

--Hei, o que acontece quando um rapaz acerta a bebida e não quer outra bebida de graça? – Betsy questionou e os dois meninos gargalharam de imediato.

--Você devia perguntar isto a Patrick! – Foi a resposta que recebeu de Eric.

A noite entre os amigos prosseguiu com tranqüilidade. Entre muita conversa e risadas. Como passar do tempo, ficou claro que alguns participantes daquele grupo estavam ficando embriagados além da conta.

Betsy estava evidentemente sonolenta, escorada no ombro de Max, quem já tinha um braço envolta de sua cintura para estabilizá-la. E Rebecca estava sorrindo por qualquer besteira e com um pique altíssimo.

Impulsivamente, agarrou Eric pelo braço e forçou-o a se por de pé. Estava tocando uma música com um ritmo gostoso e ela queria dançar, embora não houvesse espaço entre as mesas para fazê-lo.

Eric aceitou de bom grado, notando que ela não estava em seu estado normal por estar bêbada. Ela passou as mãos entorno de seu pescoço e ele a envolveu pela cintura. E os dois ficaram se balançando de um lado para o outro, sem realmente sair do lugar.

Max e Georgiana os assistiam, juntamente com algumas pessoas das mesas vizinhas mais próximas. Betsy continuava a dormir.

A maior parte do tempo, Rebecca o fitava nos olhos, com um sorriso estampado no rosto. Eric sustentava o seu olhar, com uma expressão engraçada no rosto. Era como se tentasse ficar sério, mas sentisse uma vontade grande de gargalhar.

De repente, Rebecca parou de sorrir.

--Vamos falar sério?

Eric arqueou uma sobrancelha e permaneceu em silêncio; sua expressão perdeu o ar divertido instantaneamente.

--Se eu lhe fizer uma pergunta, você me dirá a verdade? Mesmo que eu não goste do que vou ouvir?

--Sim. – Ele respondeu, com sua voz grossa; seu tom de voz era bastante sóbrio.

--Você nunca teve a intenção de ficar comigo, não é? – Ela quis saber.

Eric olhou para a mesa em que seus amigos estavam e eles os observavam – mas desviaram os olhos quando ele os flagrou. Eric sabia que ainda o escutavam, assim como as pessoas das mesas vizinhas mais próximas de onde estavam dançando.

--Você não quer ir conversar lá fora? – Perguntou, voltando a fitar Rebecca nos olhos.

--Não. Pode dizer aqui mesmo. – Rebecca replicou, igualmente séria.

Eric suspirou.

--Becca, eu... gosto de você. – Disse, tentando falar o mais baixo possível, mas alto o suficiente para que ela o escutasse. – Mas não do jeito que você quer que eu goste de você.

Ela parou de dançar imediatamente e tirou seus braços de seu pescoço. Como ele continuou a segurá-la pela cintura, temente que ela pudesse se desequilibrar devido ao seu grau de embriaguez, Rebecca se viu obrigada a forçá-lo a soltá-la. Depois voltou-se para a mesa em que seus amigos estavam – Max e Georgiana não tentaram esconder que estavam os observando e escutando – e disse.

--Eu quero ir embora agora.

Georgiana voltou-se para Betsy e tentou acordá-la. Max a acordou e prontificou-se a levá-las de volta ao apartamento, mas Rebecca recusou a oferta.

--Mas vocês vieram comigo. – Ele protestou.

--Nós pegamos um táxi, não precisa se preocupar. – Georgiana replicou, ajudando Betsy a pôr-se de pé e seguindo Rebecca até a saída.

Eric sentou-se novamente e pôs as mãos na cabeça.

--Ah, merda!

~#~

Mary estava sentada a sua mesa predileta da biblioteca da Universidade de Londres. A sua mesa estava repleta de livros sobre física. Ela tinha o seu caderno aberto e rabiscava ferozmente.

Trabalhou assim por horas, até que se deparou com um impasse. Pegou dois livros de autores diferentes e comparou as suas teorias. Foi capaz de identificar falhas em ambas. Mas encontrava dificuldade em acreditar em suas constatações. Afinal, quem era ela para questionar o trabalho de cientistas renomados – verdadeiros gênios – quando o resto do mundo aceita tais teorias como verdades inabaláveis?

Está certo que sabia que no mundo da ciência não existe uma teoria que não pudesse ser contestada. Só não se considerava apta para tanto ainda. Já que era uma mera estudante.

Tomou outros livros, procurando respostas em Albert Einstein, Werner Heisenberg, John Von Neumann, Richard Feynman[4] e outros, mas nenhum destes cientistas solucionou o seu problema.

Frustrada, começou a proferir uma série de impropérios em um murmúrio raivoso. Ouviu uma risada baixinha à suas costas, mas escolheu ignorar. Limitou-se a se calar. Até que ouviu.

--Você não vai encontrar suas respostas aí.

Mary virou-se em sua cadeira, de forma a poder enxergar quem estava às suas costas, e deparou-se com ele – seus olhos acinzentados e seu sorriso zombeteiro de canto de boca.

--Você é Mary Bennet, estou certo? – Lucian quis saber, caminhando para perto dela e parando de pé ao seu lado, observando os livros que ela tinha espalhado sobre a mesa.

--Sim. – Ela respondeu com um fio de voz quando ele voltou a fitá-la nos olhos.

--Profº Kraven me falou a seu respeito... De que você estava precisando de ajuda com o seu trabalho de conclusão deste semestre. – Ele continuou a falar e, sem pedir permissão, pegou o caderno dela e leu o que tanto escrevia. – Eu posso ajudá-la, se você quiser. Mas vou logo adiantando que você não vai achar suas respostas nos livros. Eles só ajudam até um ponto...

--O que você sugere que eu faça, então? – Questionou; não tinha a intenção de soar cética, mas também não queria parecer uma boba qualquer diante dele.

Lucian colocou o caderno dela de volta sobre a mesa e dirigiu-lhe outro sorriso de canto de boca, antes de se afastar, dizendo:

--Venha se encontrar comigo no laboratório... e eu te mostro. – O sorriso em seus lábios só aumentou quando a viu virar o rosto em sua direção e notou que ela ficou boquiaberta com a sua sugestão. – Eu sempre estou no laboratório as quinta, no fim da tarde. – E foi embora antes que ela pudesse lhe dar alguma resposta.

~#~

Elizabeth estava voltando do trabalho no shopping à loja de sapatos, quando, ao sair do acesso do metrô subterrâneo, cruzou com uma banca de revistas. Os exemplares da revista Profile estavam em destaque e foi impossível ela não notar aquele par de olhos azuis hipnotizantes.

Ela caminhou até a banca e tomou uma das revistas em mãos, olhando para ele ali naquela capa – o mais selvagem e sedutor que já vira – e não conteve um suspiro. O vendedor da banca perguntou-lhe se iria comprar a revista e, impetuosamente, respondeu em afirmativa, catando em sua bolsa a sua carteira e pagando ao vendedor.

Saiu dali com a revista em mãos. Prometeu-se que só abriria a revista quando chegasse a casa.

~#~

Após um dia exausto de trabalho, Darcy só teve tempo para passar em seu apartamento e tomar um banho, antes de ir à casa de seus pais, no bairro Kensington[5], para jantar.

A sra. Perkins, a governanta, abriu a porta para ele e o cumprimentou, informando-lhe que a sra. Darcy estava a sala. Ao surgir a sala, a sua mãe pôs uma revista que estava lendo de lado e o fitou com atenção.

--Boa noite, mãe. – Caminhou em sua direção e curvou-se sobre ela, beijando-lhe a face.

--Bao noite, Will. Como está?

Darcy notou que a sua mãe tinha um pequeno sorriso nos lábios. Emily Darcy tinha este jeito de olhar para as pessoas, com os seus olhos castanhos esverdeados, emoldurado pelos seus cabelos negros na altura dos ombros, que deixava qualquer um inquieto. Principalmente Darcy.

--O que a senhora quer realmente saber? – Perguntou-lhe, desconfiado.

Ela riu um pouco, antes de lhe questionar.

--Quem foi que lhe convenceu a dar uma entrevista a Profile?

E ergueu a revista que estava lendo minutos antes para que ele pudesse ver a sua capa. Lá estava ele, com o cabelo bagunçado, a blusa aberta mostrando parte de seu peitoral, os braços cruzados sobre o peito e uma expressão de poucos amigos estampada no rosto. A chamada em letras garrafais dizia: William Alexander Darcy III revela tudo sobre carreira, família e amor.

Darcy fechou os olhos, segurando a revista, ao sentar-se ao lado de sua mãe.

--Richard. – Replicou, abrindo os olhos e fitando a revista; preferiu não entrar em detalhes sobre como Richard o convenceu. – Meu pai já viu isto?

--Sim. – Sua mãe respondeu; ele notou que em sua voz havia uma pitada de divertimento.

--E o que ele disse?

--Eu tenho certeza de que ele lhe dirá.

Darcy abriu a revista com toda cautela, preocupado com o que encontraria ali. Os tablóides e revistas de fofocas tinham a mania de destorcer as palavras conforme seus intentos, para vender mais revista.

Mas, lendo a matéria feita por Mirian Siqueira, notou que ela não escreveu nada fora do contexto. O que só serviu para confirmar a sua prévia opinião ao seu respeito. Eram raras as jornalistas neste ramo que sabiam se até aos verdadeiros fatos.

Sorriu quando leu a parte em que ela o descrevia como um homem seguro e charmoso, dono de um par de olhos azuis irresistíveis e sorriso encantador.

Folheou a revista, distraidamente, enquanto a sua mãe lhe preparava uma bebida. Foi quando viu a propaganda de inauguração de uma loja de roupas da estilista Kiki Glouce.

E lá estava ela, radiante, vibrante em seu vestidinho verde esvoaçante. Sentada no balanço, com a cabeça inclinada para trás, os cabelos caindo com cascatas de cachos grossos no tom castanho avermelhado. Uma das pernas estirada, a outra dobrada e com o pé tocando a água. Folhas avermelhadas caiam ao seu redor. E ela tinha um sorriso arrebatador nos lábios.

--Oh, você já chegou. – O sr. Darcy chamou a sua atenção, ao entrar na sala.

Um homem imponente, mesmo com os seus poucos cabelos já brancos. A sua postura e os seus olhar perspicaz por detrás daquele mar azul exigia respeito.

William fechou a revista e a deixou de lado, fitando o pai.

--Boa noite, meu pai.

O sr. Darcy fitou rapidamente a revista que ele estivera lendo e voltou a encará-lo.

--Como isto aconteceu? – Ele estava com o semblante sério, mas não parecia enraivecido.

--Richard me convenceu a dar a entrevista. – Respondeu, escolhendo com bastante cuidado cada uma de suas palavras; não gostava de mentir, mas decidiu que omitir algumas informações seria necessário. – Ele conhece a editora chefe da revista.

--E você achou que seria uma boa idéia permitir uma revista de fofocas explorar a nossa intimidade para ajudar o seu primo em mais uma conquista?

--Não foi nada parecido com isto. – William replicou. – Além do mais, não há nada nesta revista com que nenhum de nós já não tenha lidado antes.

--Alexander, eu acho que foi uma boa matéria. – A sra. Darcy opinou. – Eu gosto da forma com que esta Mirian escreve... E a capa ficou linda.

William ficou ruborizado, seu pai revirou os olhos e foi preparar o seu próprio drinque.

--A senhora tem noticias de Georgiana? – William questionou, para mudar o foco daquela conversa.

--Sim, a sua irmã tem ligado para casa com alguma freqüência. Ela esta indo bem nos estudos e gosta muito de suas colegas de apartamento. – A sua mãe respondeu.

~#~

Elizabeth chegou a casa e seguiu para o seu quarto. Deixou a revista sobre a cama e foi tomar um banho. Depois de se trocar, sentiu o seu estomago roncar. Mas a sua curiosidade era tamanha que levou a revista consigo até a cozinha.

A cozinha estava deserta àquela hora e ela deixou a revista sobre a mesa, indo procurar na geladeira algo para comer. Encontrou um pedaço consideravelmente grande de torta de chocolate – de seu pai – e retirou a bandeja da geladeira.

Cortou um pedaço para si e guardou o restante na geladeira. Sentou-se em uma cadeira e abriu a revista, lendo a matéria sobre Darcy enquanto degustava de seu pedaço de torta.

Surpreendeu-se com o que lia a seu respeito. Era estranho perceber que os dois poderiam pensar de forma parecida, principalmente quando se trata do amor. É claro, notou com satisfação, que ele não mencionou nada a respeito de uma paixão avassaladora. O que para ela era uma falta grave quando se discute o amor – têm de haver paixão em um amor verdadeiro, senão poderia ser facilmente confundido com amizade.

Fechou a revista ao terminar de ler a matéria e fitou a sua capa.

--O que você está lendo? – Ouviu a voz de Jane retirando-a de seu devaneio.

Assustada, virou a revista – de forma que o fundo da revista ficasse para cima e a capa para baixo sobre a mesa – e olhou para Jane.

--Nada.

--Isso aí é a torta de chocolate de papai que você está comendo?

--Sim. – Elizabeth replicou, com um sorriso sapeca no rosto.

Sabia que não deveria estar comendo aquilo e que a sra. Bennet a estrangularia se a flagrasse. Mas não conseguiu evitar, aquela torta era uma tentação e ela precisava de algo para aplacar a sua ansiedade com relação ao artigo que estivera lendo. E somente algo gostoso como uma torta de chocolate conseguia fazer isto.

--Por que você está comendo a torta de papai? – Jane questionou, pegando um garfo e juntando-se a ela.

Estava claro que Jane tinha suas desconfianças, pois conhecia bem Elizabeth.

--Mamãe não está por perto. – Elizabeth replicou, continuando a comer.

Jane, como sempre, aceitou a sua desculpa.

--E você? – Elizabeth a questionou, arqueando a sobrancelha.

Jane corou e pôs o garfo de lado, desconcertada.

--Charles me convidou para passar o feriado de 5 de Novembro[6] com ele na casa de temporada de sua família na Escócia.

--Oh meu Deus! – Elizabeth exclamou, descansando o garfo também.

Jane e Charles estavam saindo há algumas semanas e sua irmã estava perto de se ver perdidamente apaixonada por ele. Mas o relacionamento ainda estava começando e, até então, não tinham aprofundado tanto em termos de intimidade. Passar o feriado juntos, sozinhos, em uma casa de temporada da família dele é um grande passo, com certeza.

--Você aceitou? – Perguntou, excitada.

--Por nós duas. – Jane respondeu.

--Como é? – Elizabeth ficou ainda mais surpresa.

--Charles disse que a sua irmã, três de seus grandes amigos, entre eles o Sr. Darcy... Você se lembra dele, não lembra? O conhecemos no desfile... Bom, eles todos irão para Escócia. E Charles nos convidou para irmos com eles.

--Ele nos convidou, ou convidou você e você me incluiu, dona Jane? – Elizabeth exigiu saber.

Jane ficou mais uma vez ruborizada.

--Bem, eu não poderia ir sozinha. – Replicou.

--Por que não? – Elizabeth quis saber.

--Ahh Lizzie, eu não ia me sentir a vontade com todos eles lá... se estivesse sozinha. – Jane justificou-se. – Eu quero ir... Mas eu preciso que você venha comigo! E Charles ficou encantado com a minha sugestão... Ele diz que está morrendo de vontade de conhecê-la melhor também.

--Ahh, Jane. – Elizabeth temia aquele convite; o que seria de seu juízo se precisasse dividir o teto com o Sr. Não Gosto de Perder O Meu Tempo Com Mulheres Fúteis e Egocêntricas ?

--Por favor, irmãzinha querida, faz isto por mim! – Jane implorou.

--Tudo bem. – Elizabeth concordou. – Mas você está me devendo! – Ameaçou.

Jane não se importou com sua ameaça; saiu da cozinha contentíssima. Elizabeth retomou o garfo e voltou a comer a sua torta. E virou a revista novamente, fitando a sua capa. Agora realmente precisava acalmar a sua ansiedade.

 


[1] Guinness é uma cerveja irlandesa criada em 1759, quando Arthur Guinness alugou uma fábrica em Dublin, na Irlanda, e começou a produzir sua cerveja. Em 1862 adotou a Harpa irlandesa como símbolo. Composição: malte irlandês, água de Dublin, lúpulo e levedura.

[2] A Universidade de Cambridge situada na cidade de Cambridge, em Inglaterra, foi fundada em 1209. Cambridge e a Universidade de Oxford são rivais na aspiração a serem a melhor universidade do Reino Unido.

[3] A Royal Academy of Music é um conservatório em Londres destinado ao ensino de jovens. A maioria dos músicos influentes do Reino Unido estudaram na Royal Academy. Royal Academy fica no centro de Londres próxima ao Regent's Park.

[4] Os alicerces da mecânica quântica foram estabelecidos durante a primeira metade do século XX por Albert Einstein, Werner Heisenberg, John Von Neumann, Richard Feynman e outros. Alguns aspectos fundamentais da contribuição desses autores ainda são alvo de investigação.

[5]Kensington é um bairro do oeste de Londres, na Inglaterra e está localizado no borough ou distrito de Kensington e Chelsea.

[6] Guy Fawkes Night é realizada anualmente em 5 de Novembro. Por vezes, é conhecido como Bonfire Night e marca o aniversário da descoberta de uma conspiração organizada por católicos para derrubar as Casas do Parlamento, em Londres, em 1605. Muitas pessoas acendem fogueiras e lançam fogos de artifício.

 

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Germany flag <1%Germany (353)
France flag <1%France (318)
Netherlands flag <1%Netherlands (302)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (302)
Latvia flag <1%Latvia (152)