Capítulo IX
Efeito dominó
William adentrou o prédio da editora da revista “Profile”, onde seria entrevistado pela colunista Mirian Siqueira. Ele pressentiu que estaria se metendo em uma encrenca sem tamanho quando deixou Richard arrastá-lo para aquela festa. E agora estava pagando o preço por isto, um preço bem alto.
Tudo começou algumas semanas após o desfile de moda no Royal Opera House. Charles saíra com Jane pelo menos três vezes e o relacionamento dos dois estava ficando mais sério a cada dia. Entretanto, William tinha conseguido evitar encontrar-se com Elizabeth Bennet repetidas vezes.
A princípio acreditava ser uma tarefa fácil tirar sua mulher misteriosa da cabeça. Afinal, a conheceu e percebeu que não havia motivo algum para entusiasmo com relação a ela. Assim, imaginava que esquecê-la seria tão fácil quanto respirar. Apenas precisaria deixar de vê-la e logo não pensaria mais nela.
Voltou a focar-se no trabalho e nos seus problemas mais urgentes – como, por exemplo, a sua situação na sociedade com Charles. Precisava descobrir uma forma de se tornar mais ativo quanto aos projetos que sua sociedade se dedicava, ao invés de viver cercado por contratos.
Estava tendo sucesso em seu intento. Uma idéia já estava começando a se firmar em sua mente; William tinha certeza de que só precisava amadurecê-la um pouco mais antes de pô-la em prática.
Contudo, com o relacionamento de Charles e Jane se solidificando, ficava quase impossível para ele não deixar sua mente vagar por rumos indesejados. Sempre que ouvia o nome de Jane Bennet, invariavelmente lembrava-se de sua irmã. E, então, não conseguia mais parar de pensar nela.
Para piorar tudo, as colunas sociais começaram a propagar comentários sobre o novo relacionamento de Anne De Bourgh com um ator americano chamado Albert Hurts.
E foi aí que Richard conseguiu metê-lo em uma enrascada sem tamanho!
--Você já viu isto? – Richard questionou o primo, atirando-lhe uma revista de fofoca qualquer sobre a mesa do escritório de William.
--Bom dia, Richard. A que devo esta visita inesperada? – Darcy perguntou-lhe, tomando a revista em mãos. – Você não devia estar trabalhando?
Darcy admirou a capa da revista em que estava estampada a foto de Anne e seu novo namorado, caminhando de mãos dadas pelas ruas de Londres. Compelido por sua curiosidade, Darcy abriu a revista e leu a reportagem.
“Anne De Bourgh, 28 anos, socialite filha da empresária Catherine De Bourgh, ex-namorada do arquiteto William Alexander Darcy III, 30 anos, tem sido vista acompanhada pelo jovem ator americano Albert Hurts, 32anos, nas últimas semanas.
Os dois se conheceram na premiere do filme “Indomável Paixão”, inspirado no livro de mesmo título da autora Dani De Angelis, em que o jovem ator está estreando como produtor e diretor. E, desde então, têm sido vistos freqüentemente juntos.
Amigos do casal declaram que ‘foi amor a primeira vista’...”
Ao lado da reportagem, havia fotos do mais novo casal em diversas ocasiões. E, mais abaixo, estava uma foto sua num evento social qual Darcy já não recordava.
“Enquanto isto, o herdeiro da Darcy e Fitzwilliam Corporation permanece solteiro...”
William fechou a revista assim que o artigo começou a discutir a sua vida amorosa – ou melhor, a inexistência desta.
--Eu não vejo como a vida amorosa de Anne seja de meu interesse. – Replicou Darcy, jogando a revista no lixo ao lado de sua mesa. – Nós terminamos há meses, ela tem o direito de seguir adiante. Eu não esperava que ela vivesse o resto de sua vida chorando suas mágoas porque me perdeu. – Completou, olhando o primo friamente nos olhos.
--Não estou questionando o direito dela em lhe esquecer. – Richard declarou. – Mas a sua de não seguir com a sua vida.
--E eu não estou seguindo com a minha vida? – Darcy abriu os braços, mostrando o seu trabalho sobre a sua mesa.
--Não estou falando do seu trabalho, e você sabe bem disso! – Continuou, com um tom de voz mais grave. – Acaso não leu a parte do artigo que lhe faz referência?
-- Eu não posso viver minha vida em função dos tablóides, Richard!
--Sr. Darcy, o sr. Weber está aqui para vê-lo. – A voz de Margot Keston, a recepcionista, soou pelo telefone.
--Richard, eu tenho que trabalhar. – Darcy declarou, apertando o botão do telefone e falando com Margot. – Mande-o entrar.
--Nós vamos sair esta noite. – Richard informou-lhe ao se encaminhar para a porta. – NÓS vamos sair esta noite. – Repetiu, gesticulando com as mãos, apontando para si e para o primo quando pronunciara a palavra “nós”. – Não adianta discutir comigo. Prepare-se, porque NÓS vamos sair esta noite!
Saiu da sala de seu primo sem esperar por uma réplica. O sr. Weber entrou em seguida, impedindo que Darcy fosse atrás de Richard e o demovesse desta idéia.
--Srta. Keston, mande a Srta. Reynolds vir aqui. – Darcy disse a sua recepcionista, apertando o botão do seu telefone, gesticulando para o sr. Weber ocupar uma das poltronas à frente de sua mesa.
Talvez o seu primo estivesse com a razão e ele não devesse ficar se afogando em trabalho. Se ia por o seu plano em prática, era melhor começar logo de uma vez.
--Sim, sr. Darcy. – Moira adentrou a sala.
--Quero que você participe desta reunião. – Darcy informou-lhe. – Por favor, sente-se. – Indicou-lhe a outra poltrona da sala.
Moira o fitou, confusa, por um instante. Mas obedeceu-o; fechou a porta às suas costas e sentou-se na poltrona indicada. Logo, Darcy deu inicio a reunião.
Darcy atravessou o hall de entrada do edifício e, após descobrir em que andar ficava a editora da revista, seguiu para o elevador. Acionou o elevador e aguardou a sua chegada. Estava dentro do horário programado para a entrevista e sentia suas mãos suarem de antecipação.
Estava odiando aquela situação. Não se incomodaria se estivesse ali para ser entrevistado por causa de seus negócios prósperos. No entanto, estava ali para discutir sua vida amorosa, o que diz respeito somente a ele e mais ninguém. E isto o enfurecia.
E tudo por culpa de Richard!
Richard parou o seu carro na frente do portão de entrada da mansão e informou ao segurança o seu nome, sendo-lhe assim permitida a sua entrada na mansão. Cuidou de informar ao segurança que o carro logo atrás ao dele estava o acompanhando. Entrou e viu pelo retrovisor que os seguranças permitiram a entrada de Darcy também.
Richard parou o carro enfrente ao valete e saiu do carro, aguardou pelo primo. Quando Darcy se juntou a ele, guiou-o até a porta de entrada da mansão – a qual se encontrava totalmente aberta, permitindo as idas e vindas dos convidados com bastante liberdade.
À porta da mansão de Mark Lyman, Darcy ainda se perguntava como permitira que seu primo o arrastasse até ali. Mark, amigo de farra de Richard, é um solteirão de família abastada, conhecido em todo o Reino Unido por suas famosas festas regadas a: muita bebida, mulher bonita e orgias.
A música dançante invadiu seus sentidos e Darcy seguiu Richard pelos cômodos elegantes da mansão, observando o movimento das pessoas ao seu redor. Homens conhecidos do seu circulo social se encontravam ali, todos cercados por mulheres jovens e belas. Até mesmo aqueles casados – Darcy não demorou a perceber que não havia sinal de suas esposas ou companheiras em parte alguma.
Não demorou muito para que cada um deles estivesse com um copo de uísque em mãos e Richard se envolvesse em uma conversa com uma modelo loira de cabelos longos e lisos.
Pouco tempo depois, Mark apareceu e os recepcionou. Parecia bastante surpreso com a presença de Darcy, mas não tardou a recomendá-lo a encontrar uma “distração” entre suas convidadas e divertir como bem aprouvesse. Disse-lhe para se sentir, literalmente, em casa; informando-lhe quais quartos ainda encontravam-se desocupados.
William gravitou para um canto da sala principal e assistiu aos convidados VIP de Mark Lyman, homens de elevado valor aquisitivo como ele, serem bajulados por modelos, dançarinas e aspirantes a atrizes. Todas em busca de um “padrinho” rico para ajudá-las a deslanchar em suas sonhadas carreiras.
Estava ficando entediado, quando seu primo o chamou para sentar-se com ele numa roda de mulheres – todas entre os seus 20 e 25 anos. Darcy recusou-se com um simples aceno de cabeça e decidiu circular pelos outros cômodos.
Não tardou para Richard o alcançá-lo e levá-lo para a roda de modelos com que estivera conversando minutos antes. Ao se aproximarem do sofá em L de couro em que elas estavam sentadas, entreouviram parte de uma conversa entre duas modelos.
--Você viu a mais nova aquisição da Kurt’s Modeling Agency? – Albinha disse.
--Bianca Pistch... Ela tem 13 anos. – Fátima comentou, com censura.
--Eu não notei nada de extraordinário nela! – Albinha, desdenhou.
--Se eu não conseguir aquele trabalho com Manolo Blahnik[1], estou perdida. – Fátima lamentou-se. – Você acredita que o meu agente disse que estou ficando velha?
Darcy olhou para Richard, quem sorriu e encolheu os ombros. Darcy voltou a fitar a modelo e percebeu que ela não devia ter mais de 22 anos.
--Querida, se não conseguiu sucesso até agora, muito improvável que irá conseguir. – Albinha se pronunciou novamente, com ar de superioridade.
Darcy a fitou com atenção e teve a leve impressão que já a vira em capas de revistas de moda. Mas não sentiu que isto justificava o seu esnobismo.
--Meninas, deixem-me apresentá-las ao meu primo, William Darcy. – Richard interferiu antes que aquela conversa prosseguisse por rumos tortuosos, chamando a atenção das modelos para si e seu primo. – Ele decidiu deixar a sua vida de monge recluso e se entregar aos charmes de uma linda mulher... Então, por favor, sejam muito gentis com ele!
Darcy dirigiu um olhar fulminante ao primo após tal discurso, mas foi poupado de uma resposta ao ser puxado para o sofá por duas das modelos. Viu-se sentado entre Albinha e Fátima. Perguntava-se como foi que coube naquele pequeno espaço; não duvidava que, se permanecesse ali, teria uma daquelas modelos sentada em seu colo em questão de segundos.
--Diga-me, sr. Darcy, o senhor foi realmente um monge ou seu primo estava fazendo uma brincadeira? – Fátima questionou-lhe; usando de um ar sedutor, fitava William dentro dos olhos.
Darcy sabia que nenhuma delas desconhecia a sua identidade e não estava com paciência para participar de joguinhos de sedução.
--Richard é um homem muito brincalhão. – Darcy respondeu, mal humorado. – Vocês logo irão perceber que não se deve levar nada do que ele diz a sério! – E se pôs de pé instantaneamente, afastando-se das modelos.
Richard o seguiu, impedindo de ir embora da festa – o que era o objetivo de Darcy.
--Vamos, Darcy, foi uma brincadeira inofensiva. Não há motivos para você estar tão ofendido.
--É por atitudes deste gênero que você nunca vai conseguir que Moira o leve a sério. – Darcy replicou, de forma mais controlada.
Richard empertigou-se com esta censura de seu primo e estreitou o seu olhar.
--Se ela não quer fazer parte da minha vida, não tem o direito de ditar como devo vivê-la! – Refutou, irritado. – Sou jovem e solteiro... A vida é curta demais, eu pretendo aproveitá-la ao máximo! – Mudando o seu tom de voz e pondo um sorriso descarado na cara, completou. – É o que você devia fazer. Afinal, se você for para casa, o que irá fazer? Ainda não consegue dormir! – Riu-se por fim. – Vamos pegar um drinque para você. – Concluiu, guiando o primo para o bar na outra extremidade da sala, ao notar que as mãos de Darcy já estavam vazias.
--Eu não tenho a intenção de dirigir até em casa embriagado.
--Duas doses de uísque não lhe deixarão embriagado. – Richard respondeu, entregando-lhe um novo copo. – E quem sabe não lhe ajude com o problema da insônia.
--Como você volta para casa após uma festa destas? – William quis saber, voltando-se para observar a cena ao seu redor. Duvidava que alguém ali conseguisse se manter sóbrio.
--Eu geralmente estou recuperado pela manhã. – Foi a resposta que recebeu; o que o fez fitar Richard, interrogativamente. – Mark lhe disse que tem quartos desocupados... Se você decidir que não tem condições de voltar para casa, fique a vontade para dormir aqui. – Richard esclareceu; embora Darcy soubesse que a oferta dos quartos por Mark tinha outro sentido.
Darcy percebeu que Richard estava o guiando para aquela mesma roda de modelos, as quais os observava do sofá com olhares de cobiça. Hesitou em segui-lo, parando no meio da sala por alguns segundos. E, então, foi cercado por um grupo de mulheres vestidas com saias longas de cores diversas, com detalhes sempre em dourado, e blusas decotadas, que se permitia ver as barrigas. Pés descalços, mãos e pés pintados, e cheias de apetrechos dourados no cabelo, olhos e pulsos.
Elas o cercaram, deixando o atordoado, sem saber o que fazer ou aonde ir. Uma música estrangeira começou a tocar e elas ocuparam o espaço central da sala, dançando sensualmente.
Olhou para o primo mais adiante e o viu voltar-se para fitá-lo, sorrindo, divertido com aquela cena. Darcy percebeu que os convidados de Mark estavam migrando para os cantos da sala, abrindo espaço para as mulheres de roupas esquisitas. Então, seguiu o seu exemplo, indo para um canto e voltando-se para elas, assistiu-as dançar.
Em determinado momento, as mulheres dispersaram entre os convidados e notou que uma em particular caminhava em sua direção. Sentiu uma apreensão, mas não se moveu. Ela tinha uma pele cor de canela, cabelos negros e cacheados, olhos vivos e brilhantes.
Ela continuou a dançar, fazendo símbolos desconhecidos com ambas as mãos. Até que fez surgir um lenço de seda em suas mãos, usando-o na coreografia da dança. Exibiu-o enfrente de seus olhos, o que fez Darcy segurá-lo, num impulso.
A dançarina deu a volta entorno dele, sedutora, envolvendo-o com o lenço de seda. E depois, enrolando uma ponta do lenço de seda no dedo, o puxou de volta, faceira. Afastou-se para o centro da sala em seguida. Darcy percebeu que as outras dançarinas faziam o mesmo. E assim a dança prosseguiu.
Ao fim da apresentação de dança, Mark surgiu ao seu lado juntamente com Richard. A dançarina que dançara entorno de Darcy aproximou-se deles, sendo apresentada a Richard e Darcy por Mark. O nome dela era Bia Taillor.
Em uma curta conversa, Darcy descobriu que Bia costumava fazer performances de danças em festas como aquela porque precisava do dinheiro que conseguia em tais eventos para pagar o seu curso universitário de contabilidade.
Era muito charmosa e inteligente, então se deteve em sua companhia por um bom tempo. Até que ela despediu-se dos três homens, com a intenção de trocar o saree por roupas comuns.
Darcy vislumbrou o display de seu relógio de pulso e viu que passara da meia-noite. Estava convencido que já permanecera naquela festa tempo suficiente. Mas, antes, decidiu passar no banheiro.
Quando abriu a porta do banheiro e pôs o pé no corredor, viu Bia Taillor parada diante da porta. Ela estava vestida com um vestido vermelho, simples e justo. O que ressaltou a cor de sua pele.
Ela dirigiu-lhe um olhar cheio de significados, antes de dar um passo à frente, por ambas às mãos sobre o seu peito e o empurrá-lo para dentro do banheiro. Com o pé ela empurrou a porta, para que se fechasse às suas costas; mas a porta bateu e voltou a se abrir.
Darcy quase não teve tempo de registrar isso, quando Bia o imprensou contra a pia de mármore, dizendo-lhe.
--Você beija bem? – E, transpassando os braços envolta do pescoço de Darcy, completou. – Me mostra? – Pressionando seus lábios macios contra os de Darcy, com bastante ímpeto.
Darcy grunhiu; estava sendo atacado por uma linda e sedutora dançarina de música indiana. Suas mãos entraram em contato com uma cintura fina e Darcy afastou-a com firmeza, interrompendo o beijo.
--O que você pensa que está fazendo? – Questionou-lhe, alarmado, tentando controlar o seu tom de voz.
--O que nós dois queríamos desde que nos vimos. – Ela respondeu, passando as mãos lentamente pelo peito dele, voltando a pressionar os lábios contra os de Darcy. Quem estava tendo bastante dificuldade de pensar direito no meio daquele ataque.
Por uma fração de minuto, Darcy permitiu-se se prender naquele beijo. Suas mãos passearam pela cintura estreita de Bia, apertando-a com suavidade. Mas, quando estava preste a perder o controle, ao senti-la tentar despi-lo do blazer de seu terno, Darcy segurou-a pelos ombros e a afastou novamente.
--Isto é loucura! – Mantendo-a longe de seu corpo, resistindo às tentativas dela de voltar a pressionar o seu corpo contra o dele. – Eu não sei como lhe dei a impressão de que queira ser atacado em um banheiro da casa de um mero conhecido, no meio de uma festa. Mas está enganada a meu respeito.
E caminhou para a porta do banheiro, saindo ao corredor, recolocando o blazer de seu terno e o ajeitando. Quando se debateu com um homem franzino, escorado na parede ao lado da porta do banheiro, com um copo de bebida em uma mão e o celular na outra. Tinha um sorriso zombeteiro no rosto, ao olhar para Darcy e dizer.
--Da próxima vez, certifique-se que a porta está fechada. Senão qualquer um pode assisti-los.
Darcy ignorou tal comentário, decidido a ir embora daquela festa imediatamente.
Saiu do elevador no andar em que funcionava a revista Profile e se encaminhou ao balcão de informação. Uma mulher de meia idade o atendeu. Quando informou-lhe o seu nome, pediu-lhe para aguardar por um momento. Então, uma mulher bem vestida surgiu ao balcão da recepção e o cumprimentou.
--Boa tarde, sr. Darcy. Eu me chamo Cinthya Rosa, sou a editora chefe da Profile. Por favor, queira me acompanhar.
Darcy seguiu a mulher até a sala da editora chefe, passando por um longo corredor – onde lhe foi possível ver vários colaboradores da revista em seus cubículos, no meio de seu expediente diário. Entrou na sala da editora chefe, sendo-lhe recomendado por ela para que se sentasse.
Darcy se sentou em uma poltrona bastante confortável e ela sentou-se a sua cadeira, atrás da mesa em seu escritório.
--A nossa redatora, Mirian Siqueira, virá entrevistá-lo aqui dentro de alguns minutos. – Cinthya informou-lhe. – Acreditamos que o senhor ficará mais a vontade se tiver um pouco mais de privacidade.
Darcy tinha certeza que não se sentiria confortável naquela situação, não importa em que ambiente da editora se encontrasse. “Ahh, nunca mais dou ouvidos a Richard!”, pensou Darcy, com amargura.
--William, você tem certeza quanto a isto? Eu não sou qualificada para este trabalho. – Moira protestou.
--Moira, você tem trabalhado como minha assistente nos últimos 4 anos... Formou-se em Administração de Negócios... – Darcy argumentou. – Francamente, você tem sido de grande ajuda para mim desde que expandimos...
--Mesmo assim, Will... Eu não me sinto confiante em...
--Você não estaria fazendo um trabalho diferente do que faz hoje. – Darcy a interrompeu. – Só estarei lhe dando um pouquinho mais de responsabilidade. No fim, ainda serei eu e, às vezes, Charles quem tomará as decisões mais significativas.
--Sr. Darcy, o sr. Fitzwilliam está na linha dois. – Ouviu a voz da Srta. Keston pelo vivo voz.
--Obrigado, Srta. Keston. – Darcy respondeu, acionando o botão do seu aparelho telefônico. Voltando sua atenção a Moira, disse. – Pense a respeito. Nós não vamos fazer nada às pressas. Por ora só quero que você esteja presente em todas as reuniões com novos clientes e, depois, lhe passo alguns projetos em particular para você acompanhar pessoalmente. – Com isto, apertou outro botão do seu aparelho telefônico. – Sim, Richard.
--Will, eu tenho más notícias. – Soou a voz de seu primo pelo vivo voz.
--Que tipo de má noticia? – Quis saber, Darcy.
--Uma amiga minha, editora da revista Profile, me ligou esta manhã para me dizer que... – Darcy ouviu o primo suspirar, pesadamente, o que o deixou apreensivo.
--Qual é o problema, Richard? – Darcy questionou, um pouco mais exaltado; consciente de Moira estava atenta aquela conversa e parecia igualmente apreensiva, embora permanecesse em completo silêncio.
--Havia um jornalista na festa de Mark Lyman e... ele tirou uma foto sua num... banheiro... – Darcy sentiu os pêlos de sua nuca se arrepiar; a imagem do homem franzino escorado a parede próxima a porta do banheiro, com um copo de bebida em uma mão e o celular na outra, com um sorriso convencido no rosto lhe assolou a mente. – Acompanhado e... em uma situação comprometedora?! – Ao fim, Darcy detectou um ar de curiosidade na voz de Richard.
--Eu sabia que você ia me enfiar em confusão! – Darcy exclamou, irado.
--Como o que você fez no banheiro é minha culpa? Eu nem sei o que você fez no banheiro! – Richard rebateu. – O que você fez no banheiro, hem?! – A voz de Richard voltou a ter aquele tom de curiosidade.
--Eu fui atacado! – Darcy exclamou, pondo-se de pé e dando a volta em sua mesa; sentindo-se muito irritado para ficar imóvel.
--Por quem? – Richard interrogou.
--Aquela dançarina indiana. – Darcy tentava ignorar o olhar especulativo que Moira lhe lançava naquele momento, continuando a andar pela sua sala, de um lado para o outro como um animal enjaulado.
--Hummm.... – Ouviu Richard grunhir, aprovativamente. – Ela era linda mesmo... Você conseguiu...
--Richard, Moira está presente e você está no vivo voz. – Darcy o interrompeu, antes que o seu primo dissesse algo na frente de Moira que viesse a se arrepender depois.
O que surtiu o efeito esperado. Richard ficou em silêncio por alguns minutos. Darcy deduzia que ele devia estar repassando aquela conversa em mente, para certificar-se de que já não dissera algo de que pudesse se arrepender.
--Os tablóides vão se divertir as minhas custas, estou até vendo! – Darcy resmungou; o que serviu para despertar Richard.
--Liguei justamente para lhe dizer que há uma forma de evitar que está foto vá parar nos tablóides.
Darcy parou de andar imediatamente e fitou o aparelho telefônico acima de sua mesa, como se estivesse cara a cara com o primo.
--Que forma seria esta? – Quis saber.
--A minha amiga, ... – Richard fez questão de frisar. – editora da Profile, concordou em não divulgar a foto, desde que você conceda uma entrevista a sua redatora colunista principal... e aceite ser a capa da revista da próxima semana.
--Deixe-me ver se eu entendi... Um jornalista desta própria revista tirou uma foto minha e agora a editora da revista está me chantageando para conseguir uma entrevista, usando esta mesma foto? – Darcy questionou, evidentemente irritado com aquela perspectiva.
--Olha, é melhor passar por isto, a ter uma foto sua estampada na revista com alguma historinha inventada para alimentar o falatório do público. – Richard argumentou. – Então, ... o que devo responder à minha amiga? Você topa fazer a entrevista, ou não?
--Tenho outra escolha? – Darcy replicou, sentando-se em sua poltrona novamente, frustrado.
Agora, olhando nos olhos de Cinthya, Darcy ficou curioso.
--Qual é a relação que você tem com o meu primo?
--Pode-se dizer que nós nos conhecemos bem. – Informou-lhe Cinthya, com um brilho intenso nos olhos.
--Eu diria muito bem. – Darcy murmurou, pensativo.
Mas Cinthya o ouviu e sorriu, corando.
--O seu primo é um homem muito... interessante. – Ela comentou, tranqüila. – É um bom amigo.
Ficou claro para Darcy que aquele “amigo” tinha significados além daqueles próprios ao nome.
--Eu imagino.
A porta da sala foi aberta e a redatora colunista Mirian Siqueira entrou na sala, fechando a porta às suas costas. Darcy pôs-se de pé, para recebê-la.
--Sr. Darcy, esta é Mirian Siqueira. – Cinthya os apresentou. – Ela estará lhe entrevistando esta tarde.
Os dois trocaram alguns cumprimentos iniciais. Darcy voltou a se sentar e Cinthya se despediu.
--Eu os deixarei sozinhos, para que o senhor fique mais a vontade. – E com isto ela saiu da sala, fechando a porta às suas costas.
Mirian sentou-se a poltrona próxima a Darcy, ao invés de ocupar a cadeira atrás da mesa da editora. Ela tinha um sorriso amistoso no rosto, quando se pronunciou.
--Vamos começar a entrevista, então?
--É para isto que estou aqui. – Darcy respondeu, tentando soar tranqüilo.














