Citações

Seus olhos erravam por aqui, por lá, por toda a parte, maravilhados. Ela viera para ser feliz, e já se sentia feliz.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo VIII

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Capítulo VIII

Apaixonar-me por você...

 

Mary não sabia o que lhe aguardava àquela tarde na biblioteca da Universidade de Londres. Era a primeira vez que se sentia deslocada em um ambiente que acreditava ser “território amigo”. E tudo isto se devia a presença de suas duas irmãs adolescentes.

Catherine e Lydia conseguiram fazer sua mãe forçá-la a levar as duas consigo ao Campus universitário, alegando estarem precisando fazer uma pesquisa para uma atividade escolar que só poderia ser feita em uma biblioteca de grande escalão.

Com isto, viu-se presa as duas, sob a pressão de responder por todas as suas maluquices enquanto estiverem em sua companhia pelo Campus. Mary nunca temeu tanto a palavra “responsabilidade” até este momento. Sabia que não conseguiria controlar suas irmãs mais novas.

Enquanto caminhavam pelo Campus, Lydia e Catherine pareciam a ponto de explodir de excitamento. Riam e cochichavam entre si animadamente. Flertavam com qualquer homem que cruzasse pelo seu caminho, ignorando os olhares atravessados que Mary já lhes lançava.

Segundos antes de entrarem no prédio em que se encontrava a biblioteca, Mary passou-lhes um sermão. Avisando-as para se manterem em silêncio, pois uma biblioteca não era local para comoções de euforia.

Guiou as duas meninas até uma mesa e lhes fez sentar-se, procurando descobrir sobre o que elas precisavam pesquisar.

--A coordenadora de estudos nos mandou fazer uma pesquisa sobre os cursos universitários em geral... As várias áreas em que poderíamos atuar uma vez que nos formássemos. – Catherine replicou. – Não aceitou a minha resposta de que não precisava pesquisar profissão alguma, porque já sei o que vou ser.

--Modelo, é claro. – Lydia completou. – Uma estrela! – Acrescentou, com um ar sonhador.

--E você, Lyd? – Mary quis saber, sempre objetiva. – O que você tem que pesquisar?

--O mesmo. – Lydia replicou, sem se dignar olhar Mary nos olhos; ficava observando todos à sua volta.

--Mas vocês não são da mesma turma, como é possível terem a mesma atividade? – Mary interrogou, ganhando o olhar aflito de Catherine.

--Na verdade, eu estou aqui apenas para auxiliar Kitty. – Lydia refutou, finalmente olhando para Mary. – Eu não tenho atividade alguma para fazer, mas, como sou uma excelente irmã, me ofereci para ajudá-la em sua pesquisa.

--É claro! – Mary comentou, com ironia.

--Óbvio. – Lydia riu, cínica.

--Ham... Fiquem aqui. – Mary ordenou, por fim. – Eu vou selecionar alguns livros para que possamos começar esta pesquisa.

Catherine suspirou aliviada assim que Mary lhes deu as costas e sumiu entre as estantes de livros; estava satisfeita que a desculpa de Lydia tinha funcionado.

Mary acabou se distraindo enquanto selecionava os livros. Animou-se com a possibilidade de influenciar as duas irmãs cabeças-ocas nos estudos e dedicou-se com grande empenho em encontrar livros de fácil compreensão, mas que despertasse o interesse das duas para algo além de roupas e assessórios.

Quando retornou para a mesa em que as deixara, com os braços cheios de livros, não encontrou nenhuma das duas. Colocou os livros sobre a mesa e olhou a sua volta, procurando pelas duas. Por um breve instante, sentiu-se ser dominada pelo pânico.

O que faria se não conseguisse encontrá-las? Como se explicaria a sua mãe ao voltar para casa sozinha, afirmando ter perdido suas irmãs adolescentes dentro de uma biblioteca? A certeza de que Lydia e Catherine estavam soltas pelo Campus de sua universidade era ainda mais aterrorizador que o pensamente do que a sra. Bennet irá fazer quando descobrir que as perdeu de vista.

Ouviu uma risada inconfundível e seguiu aquele barulho, encontrando Lydia e Catherine sentadas em uma mesa, acompanhadas por um rapaz desconhecido. O rapaz estava com vários livros espelhados na mesa, mas dava sua atenção às duas meninas – cada uma ocupava uma cadeira, com ele no meio das duas.

Lydia estava tirando uma foto do rapaz com Catherine pelo celular, depois as duas inverteram a situação: Catherine tirou a foto de Lydia com o rapaz.

--O que vocês duas estão fazendo? – Mary exigiu, assim que estava diante das irmãs. – Eu mandei que esperassem por mim lá... – E apontou para a mesa em que deixara a pilha de livros.

--Acalme-se, Mary. – Lydia pediu, de forma displicente. – Nós estávamos conversando com Johnny... Ele estuda aqui, como você... Entretanto, ele estuda Economia.

Lydia explicou, dando a Mary as informações que acabara de colher do rapaz com que conversavam.

--Esta é minha irmã, Mary; é ela quem estuda aqui. – Catherine disse a Johnny; quem olhou Mary rapidamente e depois focalizou sua atenção nas duas meninas mais novas.

--Matemática, ou algo do tipo. – Lydia completou.

--Física. – Mary resmungou, dizendo a si mesma para não se sentir ofendida pela falta de interesse das suas irmãs mais novas com a sua vida.

--Vocês nunca me disseram o que estudam. – Johnny comentou, olhando de Lydia para Catherine.

--Elas ainda estão no ginásio. – Mary respondeu por elas, ganhando um olhar atravessado de Lydia e um alarmado de Catherine.

--Ginásio?! – Johnny exclamou, surpreso. – Mas vocês disseram que estudavam em Oxford.

--Ah, é mesmo? – Mary inquiriu, rindo sem humor algum. – E você acreditou nisso?! – O tom de superioridade em sua voz fez com que Johnny a fitasse. – Então, diga-me, espertinho, se elas estudassem em Oxford, o que estariam fazendo aqui no meio da semana? Elas não deviam estar no Campus da sua própria universidade... a quilômetros daqui?

O menosprezo estava evidente em sua voz. Não havia nada que Mary desaprovasse mais que rapazes que se fingiam de ignorantes unicamente por que serviam aos seus propósitos exclusos.

--Vamos logo, levantem-se. – Exigiu de suas irmãs.

Mary não sabia que, naquele momento, estava sendo observada.

--Sua pesquisa não vai ficar pronta sozinha e ainda temos muitos livros para analisar. – Continuou, com o seu jeito autoritário.

--Mary, nós não viemos aqui para ficar enfurnadas em livros. – Lydia informou. – Se fossemos fazer este tipo de pesquisa, bastava procurar as informações na Internet... Seria muito mais prático!

--Isto é uma biblioteca, o que vocês esperavam fazer aqui? Por que me forçaram trazê-las comigo?! – Mary já estava perdendo a paciência e pouco se importava se era ela quem estava fazendo um alvoroço.

--Nós nunca te pedimos para nos trazer à biblioteca... – Mary fitou Lydia com um olhar contrariado. – Queríamos vir até o Campus da sua faculdade, fazer uma pesquisa com os alunos... não nos livros! – Ao fim, Mary estava boquiaberta com aquela revelação. – Como Johnny aqui... Ele estava justamente nos explicando o curso que faz e quais ramos profissionais ele está interessado. Não é verdade, Johnny?

--Desculpe-me, meninas, mas eu tenho muitas coisas para fazer... – Johnny começou a recolher os livros que estavam espalhados sobre a sua mesa. – muitas coisas para estudar ainda... – Ergueu-se da cadeira em que estava sentado e, com os livros em mãos, afastou-se delas.

--Viu o que você fez? – Lydia reclamou, escandalosa.

--Shiiiiu! – Outros alunas na biblioteca lhes chamou a atenção..

--Eu vou levar vocês duas de volta para casa. – Mary afirmou, decidida, moderando a altura da sua voz. – Se soubesse que viriam para cá para ficar flertando com rapazes que vão fugir das duas assim que descobrirem que têm 16 e 15 anos apenas... – Olhou para Catherine e Lydia de cada vez. – eu não as teria trazido comigo. Agora vamos! – Segurou cada uma por um braço e as guiou até a outra mesa, onde deixara os livros.

Mary soltou as meninas e começou a recolher os livros.

--Não saiam daqui, entenderam? – Ordenou, furiosa.

Quando Mary voltou-se em direção das estantes de livros, esbarrou-se em alguém e os livros caíram no chão. Mary permaneceu imóvel, olhando os livros espalhados aos seus pés com uma expressão enraivecida – como se os livros a ofenderam ao caírem de seus braços.

Suspirando, abaixou-se e começou a recolher os livros. Podia ver as mãos de outra pessoa a auxiliando e as vozes de suas irmãs mais novas às suas costas, aos cochichos.

Pôs-se de pé, equilibrando os livros nos braços. E quando ergueu o olhar para a pessoa a sua frente, deparou-se com um par de olhos azuis acinzentados. Ficou boquiaberta e completamente sem reação.

--Você precisa de ajuda? – Lucian perguntou-lhe, oferecendo para levar os livros que tinha em mãos.

Mary sacudiu a cabeça, negando, após alguns minutos fitando-o, abobalhada.

--Tem certeza? – Ele sorriu com o canto da boca, divertindo-se com a reação dela a sua presença.

Quando Mary afirmou, com acenos de cabeça, ele aceitou, colocando os livros que tinha em mãos sobre aqueles que Mary carregava. Ela estava tão distraída com ele, que sentiu o peso dos livros extras com uma surpresa, desequilibrando-os, quase deixando-os cair novamente.

Lucian ajudou-a a equilibrá-los, segurando-os juntamente com ela. Mary sentiu sua mão pegar fogo, quando sentiu os dedos dele sobre os seus embaixo daquela pilha de livros. Por pouco não puxou as mãos debaixo das dele, em pânico; mas sua racionalidade voltou a funcionar e percebeu que seria um papelão ainda maior se fizesse os livros caírem no chão novamente.

Segurando-os com firmeza, puxou-os para longe das mãos de Lucian, dando dois passos para trás. Depois seguiu o seu caminho, desviando dele. Martirizando-se por agir estupidamente em sua frente mais uma vez.

Então, ouviu Lydia dizer.

--Oi, eu sou Lydia e esta é Catherine.

--Meu nome é Lucian Scott. – Escutou a voz dele.

--Oh... aquela é a nossa irmã, Mary... – A voz de Catherine soou em seguida.

--Não se incomode com ela... – Mais uma vez, ouviu a voz de Lydia.

Mary sentiu-se compelida a olhar para trás e, ao fazê-lo, viu que Lucian estava virado de lado para suas irmãs e olhava em sua direção.

--Ela tem medo de homens. - Lydia comentou, ganhando o olhar de Lucian brevemente.

Quando Lucian voltou a olhar em sua direção, com aquele sorriso torto de canto de boca, Mary percebeu que estava parada, olhando para eles, com a boca aberta – espantada com o comentário de sua irmã a seu respeito. Ruborizando, deu-lhe as costas e apressou os passos, entrando em um corredor entre as estantes de livros.

--Então, qual é o curso que você faz? – Ainda conseguiu ouvir Lydia dizer, então parou naquele corredor e tentou continuar a escutar a conversa entre eles.

--Talvez eu devesse ir auxiliar a sua irmã. – Ouviu-o dizer.

--Não... Não é necessário. Mary conhece esta biblioteca melhor que a nossa própria casa. – Lydia afirmou.

--Ela praticamente vive aqui. – Catherine completou.

--Então, vocês poderiam me explicar por que a sua irmã entrou na fileira de livros sobre ciências humanas quando estava com os braços cheios de livros sobre exatas? – Lucian perguntou.

Mary olhou para as estantes de livros a sua volta e percebeu que ele tinha a razão; estava com tanta pressa de sair de seu campo de visão que não deu atenção onde estava indo.

--Você ainda não respondeu a minha pergunta. – Lydia insistiu. – Qual é o curso que você faz?

--Física. – Lucian respondeu.

--Este não é o curso de Mary? – Catherine perguntou a Lydia.

--Sei lá. – Lydia refutou, sem interesse.

Alarmada ao perceber que eles estavam vindo em sua direção, ao notar que as vozes deles estavam ficando mais nítidas, Mary apressou os seus passos pelo corredor, procurando uma forma de entrar em outro corredor; um que a levasse a estante de livros certa.

Contornou uma estante de livros e se achou. Mais um pouco e estaria na seção certa.

--Viu? – Ouviu a voz de Lydia novamente quando já começara a arrumar os livros na estante. – Eu lhe disse que ela conhecia isto aqui como a palma da própria mão.

Não escuto nada de imediato e ficou receosa de olhar na direção deles. Sentia-se ser observada e tentava se concentrar em organizar os livros nas estantes – arrumar os livros pelo nome dos autores ou por assunto sempre foi uma tarefa que lhe acalmava. O seu coração já nãos estava batendo tão acelerado e suas mãos não estavam mais suando. Embora sentisse os joelhos fracos.

--Bem, ...foi um prazer conhecê-las, meninas, mas eu tenho que ir. – Lucian disse, indo embora logo em seguida.

Mary olhou na direção deles, mas só encontrou suas duas irmãs. Terminou de arrumar os livros e depois as levou embora da Universidade de Londres.

Quando saíram do acesso ao metrô subterrâneo e caminhavam até em casa, Lydia viu na lateral de um ônibus a propaganda da marca da loja de roupas teen para qual era modelo.

--Olhem, sou eu! – Exclamou, chamando a atenção de mais gente na calçada que às próprias irmãs. – Diga-me, Kitty, não estou maravilhosa?!

Catherine murchou um pouco com a alegria exultante de sua irmã ao si ver na propaganda. Ainda não tinha alcançado o patamar de sucesso de Lydia e sentia inveja que sua irmã mais nova lhe estava passando a perna.

~#~

Charles estacionou o seu Porsche 997 turbo preto diante do prédio de três andares onde Jane reside com a sua família. Olhou pela janela de passageiro, admirando o prédio em que Jane mora. Desligou o carro e desceu, parando a entrada do prédio e o vislumbrando com cuidado.

Como arquiteto, sempre se perdia com a estrutura dos prédios que conseguiam equilibrar o estilo antigo com o novo. E o prédio a sua frente era exatamente um exemplo perfeito. A fachada do primeiro andar de pedras brancas, cercado por grades de ferro negras em sua entrada e luminárias antigas. Já o segundo e terceiro andar com fachadas de tijolos vermelhos, com várias janelas e plantas em suas sacadas.

Checou a sua aparência no vidro da janela do carro, antes de seguir em direção ao prédio. Acima da porta, em um arco em vidro, estava escrito B&G Modeling Agency. Acionou a campainha do interfone e aguardou alguns segundos. Então, ouviu.

--Quem é? – Numa voz de garota adolescente.

--Oh.. boa noite. Sou eu...– Bingley respondeu, aproximando-se mais do aparelho do interfone. – Charles... Charles Bingley. Estou aqui para buscar Jane...

Ouviu um barulho abafado e a voz distante da mesma adolescente dizendo:

--Ele está aqui... Ele está aqui... – Em um tom excitado. Então, o interfone foi desconectado e ele não pôde escutar mais nada.

Não demorou muito para que a porta fosse aberta pela sra. Bennet.

--Sr. Bingley, por favor, entre. – A senhora lhe ordenou, sorridente e amorosa. – A minha Jane está terminando de se arrumar... Sabe como somos nós, mulheres... – Riu-se por fim.

--Sim, sim. – Charles concordou; afinal, tinha uma irmã que não saia de casa a menos que estivesse perfeita.

A senhora o guiou pela recepção da sua agência de modelos – deserta àquela hora da noite – até uma escada. Subiram até o último andar, finalmente adentrando a residência dos Bennets.

--Por favor, sente-se... Fique a vontade. – A senhora o aconselhou, indicando um sofá à sala espaçosa. – Eu vou checar Jane e não demoro. – Saindo da sala em seguida, sumindo em um corredor.

Charles caminhou até o sofá, observando o ambiente a sua volta – a decoração da sala era simples, mas acolhedora. Transpirava harmonia, ele conseguia ver claras evidencias de que uma família de verdade residia ali.

Um livro sobre física estava em cima da banqueta de centro da sala, ao lado de revistas Teens. Um aparelho de televisão e outro de rádio estavam dispostos em uma estante, estrategicamente posicionados para que fosse possível ter-se uma visão clara da tela da TV de qualquer um dos sofás.

Uma das paredes era pintada na cor vermelho berrante, mas Charles aprovou a ousadia de tal escolha. À parede branca às suas costas havia um mural de fotografias. Charles ergueu-se do sofá e passou a olhar as fotos ali. Todas elas eram fotos da família, como suspeitava. Das meninas Bennets quando criança e dos seus pais. Havia também fotos de pessoas desconhecidas por Charles.

Estava tão distraído que só notou a presença do senhor parado ao seu lado, quando o sr. Bennet disse.

--Esta foto foi tirada no interior, dois meses após o nascimento de Lydia. – Apontando para a foto da família toda reunida em torno de uma árvore de natal enfeitada.

Bingley permaneceu em silêncio por alguns segundos, recuperando-se do susto de vê-lo ali, ao seu lado.

--Eu sou Charles Bingley... – Charles enfim disse, voltando-se de frente para o sr. Bennet e estendendo-lhe a mão. – Estou aqui para...

--Eu sou o pai de Jane, Joseph Bennet. – O sr. Bennet aceitou o seu cumprimento. – E sei o porquê do senhor estar aqui. – Completou, soltando a mão do rapaz. – A minha esposa não fala em outra coisa a semana inteira. – Comentou com um tom de leve contrariedade.

O sr. Bennet deu às costas ao mural e foi ocupar uma das poltronas. Bingley seguiu o seu exemplo, voltando a se sentar.

--Oh, aí está o senhor, meu caro. – A sra. Bennet reapareceu a sala. – Eu estava justamente a sua procura.

--Bem, encontrou-me afinal, minha cara. – Joseph respondeu.

--Sr. Bingley, Jane não demorará muito mais. – A senhora lhe informou, sempre sorridente. – Posso lhe servir alguma bebida enquanto espera? – Inquiriu-lhe, solicita.

--Não, obrigado, sra. Bennet.

--Meu caro, o senhor sabia que o sr. Bingley é arquiteto? – A sra. Bennet voltou a falar com seu esposo, indo ocupar a outra poltrona.

--Sim, minha cara, a senhora cuidou de me informar isto ainda alguns dias atrás. – O sr. Bennet replicou.

--Pois sim. Arquiteto. E tem uma sociedade com um amigo, não é mesmo, sr. Bingley? – A senhora continuou.

--Sim. Com um grande amigo, William Darcy. – Charles respondeu.

Enquanto isto, Lydia e Catherine espiavam a cena que transcorria a sala da entrada do corredor, cochichando entre si e abafando risinhos.

--Lyd, Kitty, o que estão fazendo? – Elizabeth apareceu. – O que eu já lhes disse sobre ficar espiando as pessoas?

--Oh, por favor, fique em silêncio. Estou tentando ouvir. – Lydia reclamou, em um sussurro.

--Lydia! – Elizabeth tentou desviar a sua atenção. – É muito feio ficar entreouvindo a conversa dos outros. – Falando com ela com mesmo tom de voz.

--Você tem alguma idéia de quem ele é? – Lydia perguntou-lhe, mudando o foco de sua conversa.

--Sim. – Elizabeth respondeu, com indiferença.

--De verdade? – Lydia persistiu, exagerada. – Ele é Charles Bingley... Filho de Anthony Bingley, sócio majoritário da BCTD – Bingley’s Communication Technology Development. Uma companhia que trabalha com o desenvolvimento de Websites, Sistemas, Marketing virtual, pesquisa de novas tecnologias de comunicação... Uma mistura de novo Microsoft[1] com a Apple[2].

--Como você sabe disso? – Elizabeth quis saber.

--Dah! Eu o pesquisei no Google. – Lydia replicou, impaciente.

--E por que você fez isso?

--Ai, Lizzie, você está tão lerda hoje. – Lydia disse, recebendo um beliscão de Catherine e um sinal para que falasse mais baixo, porque queria ouvir o que estava se passando na sala de estar. – Para Jane. – Lydia respondeu, falando mais baixo. – Para ela saber quem ele é e saber o que esperar.

De um jeito muito distorcido, Elizabeth percebeu que sua irmã mais nova tinha boas intenções. Mas, como diz o ditado: “o inferno está cheio de boas intenções”.

--Eu descobri que o nosso sr. Bingley é podre de rico! – Lydia prosseguiu. – Ele já foi visto com várias mulheres, modelos, etc... Mas não tem uma namorada fixa há algum tempo.

Neste ponto, Elizabeth se sentiu apreensiva. Será que Jane estaria lidando com outro Peter Firestone?

--Mulheres lindas dariam tudo para ter um encontro amoroso com ele... E fariam de tudo para prendê-lo, se tivessem uma chance. – Lydia explicou, com um olhar sério. – Jane deve agir rápido e fisgá-lo, antes que outra lhe passe a perna!

--Lydia! – Jane surgiu às costas delas neste exato momento. – Do que você está falando?

--Nada... – Elizabeth interveio, detendo Lydia antes que ela pudesse encher a cabeça de Jane de caraminholas. – de grande importância. – Lydia fez uma careta e voltou a sua antiga atividade, juntando-se a Catherine. – Você deve ir... Não é de bom tom deixá-lo esperando por muito tempo. – Aconselhou, sorrindo encorajadoramente para a irmã.

--O que você acha, Lizzie? – Jane deu um passo para traz e a fez olhá-la dos pés a cabeça.

Jane estava vestida com um elegante, mas simples, vestido preto. Decote nas costas e que terminava logo abaixo do joelho. Calçava um sapato alto cor de gelo e os cabelos estavam presos, deixando o pescoço à mostra. Tinha uma bolsa preta à mão.

--Você está magnífica, Jane. – Elizabeth respondeu, admirando-a.

--Você acha que ele irá gostar?

--Mas é claro, irmã! – Replicou, séria; por mais que conhecesse a irmã, surpreendia-se com a capacidade de Jane de se sentir insegura. – Agora vá, antes que mamãe o assuste! – Riu-se, ao fim.

Jane passou por entre suas duas irmãs mais novas e seguiu para a sala. Elizabeth a seguiu, preocupando-se em pegar o sobretudo de Jane ao cabideiro próximo a porta, para ajudá-la em uma escapada mais rápida.

--Jane, querida, aí está você! – A sra. Bennet exclamou, chamando a atenção de Bingley para a sua chegada.

Ele se pôs de pé com um pulo e a admirou sem disfarces, deixando Jane ruborizada pela forma com que a olhava – especialmente na presença de seus pais.

--Você está ...estonteante, Jane. – Ele a elogiou.

--Ahh, sr. Bingley, como o senhor é gentil. – A sra. Bennet comentou.

--Olá, sr. Bingley, como o senhor está? – Elizabeth se intrometeu na conversa, para evitar que a sua mãe começasse a se derreter em elogios ao sr. Bingley ou enumerar as qualidades de sua irmã.

--Estou bem, muito bem. – Ele replicou, ainda distraído observando Jane.

--Aqui está o seu casaco, Jane. – Elizabeth entregou a irmã.

--Obrigada, Lizzie. – Jane respondeu, com um fio de voz.

Elizabeth soube ali que Jane estava incomodada com tamanha platéia.

--Permita-me ajudá-la. – Bingley se ofereceu a ajudá-la a vestir o sobretudo, aproximando-se de Jane.

Elizabeth cuidou de sair de seu caminho. Ele tomou o sobretudo das mãos de Jane e ela voltou às costas para ele, aceitando a sua ajuda. Ele cuidou de deixar os dedos encostar “acidentalmente” em seu pescoço, ao arrumar o colarinho do casaco para ela. Jane estremeceu ao mero roçar de seus dedos e tentou disfarçar soltando a respiração lentamente.

--Mas, certamente, vocês não precisam ir neste exato momento. – A sra. Bennet reclamou.

--Mamãe, eles provavelmente tem reservas em algum restaurante... – Elizabeth replicou. – A senhora não quer que eles percam a reserva por estarem atrasados, quer?

--Verdade, sra. Bennet, nós temos reservas. – Bingley concordou. – E não podemos nos atrasar.

Ele não estava mentindo, mas também desejava estar sozinho com Jane e não cercado por sua família.

--Então, que vocês tenham uma excelente noite. – O sr. Bennet disse, os acompanhando até a porta.

Bingley tinha planejado aquele jantar com todo o cuidado. Pedindo a Moira para lhe ajudar com a escolha do restaurante e a fazer as reservas. Como seu desejo era deslumbrar Jane com um jantar romântico, sem cair em algum clichê, Moira o convenceu a levá-la para jantar ao Bateaux Restaurant Cruise[3].

Ele estava confiante que teria sucesso em seu intento. A única coisa que lhe preocupava naquele momento era chegar ao píer de embarque, ao lado norte do Rio Tamisa próximo ao Hungerford Bridge, antes das oito horas da noite, quando o barco Symphony estará deixando o píer, somente retornando às 22h45min.

Eles saíram do prédio onde ela mora e Bingley a guiou até o seu carro. Abriu a porta do passageiro para ela e a auxiliou a entrar, fechando a porta em seguida. Sorria como um bobo ao dar a volta no carro e entrar pela porta do motorista. Logo estavam seguindo para o píer de embarque do Rio Tamisa.

Os minutes da viagem até o píer foi feito praticamente em silêncio total. Jane tentou introduzir um assunto, ao inquirir a Bingley onde iriam jantar. Mas ele quis lhe fazer surpresa, então ficaram em silêncio.

Jane estava começando a temer que permanecessem em silêncio durante todo o jantar, sofrendo deste constrangimento usual em uma situação enervante.

O embarque foi bastante tranqüilo e eles foram escoltados pela hostess até a uma das mesas à frente do barco, com a melhor vista. Trouxeram um champagne e duas taças para eles.

--Eu realmente não bebo... nada alcoólico. – Jane disse a Charles.

Bingley sentiu vontade de se estrangular. “É claro que ela não bebe. Ela mesma lhe disse isso quando nos vimos pela primeira vez”.

Ao ver o seu constrangimento, Jane disse.

--Acho que uma taça não irá me matar.

Ele sorriu para ela, contente por sua delicadeza. Entregou-lhe uma das taças e tomou uma para si. Fizeram um brinde e provaram o champagne. Percebendo que o silêncio constrangedor iria voltar a dominá-los, Bingley inquiriu.

--Que mal lhe pergunte, por que você não bebe bebidas alcoólicas?

--Ham... Meu pai estipulou uma regra... Quer dizer, algumas regras, para mim e minhas irmãs quando começamos a exercer a profissão de modelo... – Jane explicou. – Nós éramos muito novas quando começamos e estávamos constantemente participando de coquetéis e eventos... Então, ele pensou que seria importante que nós seguíssemos certas regras.

--Entendo. – Charles replicou.

--A principio, Lizzie ainda questionou algumas regras,... Mas após algum tempo percebemos que era o melhor para a gente. – Jane prosseguiu. – E acabamos seguindo algumas destas regras ainda hoje em dia, porque aceitamos sua validade. ...Lizzie até mesmo diz que, nós não precisamos beber para nos divertir. Pelo contrário, geralmente desperdiçamos toda a diversão ao ficar bêbedas.

--Concordo plenamente. – Charles opinião. – Eu não costumo beber até ficar inconsciente. Mas aprecio um bom vinho de vez em quando. Estaria renegando a minha origem escocesa se não saboreasse um Scott.

--Não sabia que você era escocês. – Jane exclamou, surpresa, inclinando em sua direção e apoiando um dos cotovelos a mesa e o rosto na palma da mão.

--Meus avós maternos são escoceses, na verdade. – Bingley respondeu, sorrindo. – Herdei da minha mãe a cor do meu cabelo. Mas, claro, Caroline é mais ruiva do que eu.

O garçom se aproximou da mesa deles e entregou-lhes o menu. Após fazerem os pedidos, eles retomaram a conversa. Com o gelo inicial quebrado, a conversa transcorreu tranqüila durante todo o jantar.

--Você sempre quis ser modelo, Jane? – Charles perguntou-lhe, em um momento.

--Ham... Na verdade, eu nunca tinha me questionado isto até recentemente. – Jane respondeu. – Minha mãe era modelo quando tinha a minha idade. Então, ela conheceu o meu pai, eles se casaram e eu nasci. E ela se dedicou a ser esposa e mãe. – Ela explicou com tranqüilidade e ele a escutava com bastante atenção. – Quando minha tia, Lílian Gardiner, convenceu os meus pais se mudarem para Londres e fazer uma sociedade para abrir uma agencia de modelos, minhas irmãs e eu fomos levadas, por assim dizer, a atuar como modelos.

--Mas você disse que nunca tinha se questionado até recentemente. – Bingley a lembrou, quando lhe pareceu que ela tinha concluído a sua narrativa.

--Sim. Há alguns anos, Lizzie começou a demonstrar interesse em outras coisas... Mais especificamente, em fotografia. – Jane continuou a sua explanação. – Ela tomou conta da câmara fotográfica antiga de meu pai, montou um quarto - escuro improvisado na lavanderia de lá de casa... O que deixou minha mãe doida com a possibilidade de misturar os produtos químicos de revelação fotográfica com os produtos de lavagem de roupas e limpeza de casa. – Bingley riu deste comentário. – E ela está até pensando em fazer um curso... E vê-la tão entusiasmada com algo diferente me fez questionar-me se não teria outra coisa que eu desejaria fazer profissionalmente em minha vida também.

--E existe? – Ele quis saber imediatamente.

--Hum... – Ela começou a responder, hesitante. – eu estive me divertindo com a idéia de ir para faculdade... Me formar em línguas e me tronar professora... Como o meu pai. Mas não para universitários. Adultos já possuem suas mentes e crenças definidas, eles entram na universidade com metas definidas e interesses específicos. Um professor universitário apenas pode alimentar um interesse já preexistente em seus alunos. É no ensino fundamental que um professor pode realmente exercer uma influência... Ele tem o poder e o dever de despertar o interesse de seus alunos pela leitura, pelo conhecimento. – Ela explicou, entusiasmada. – Era o que eu gostaria de fazer.

--E fará? – Ele notou o brilho em seus olhos e sentiu compelido a encorajá-la a fazê-lo. Ela seria uma excelente professora, ele tinha certeza.

--Meu pai e Lizzie fizeram um complô para que eu me inscrevesse em uma universidade. – Ela disse, rindo-se. – Eles arranjam panfletos informativos de universidades e, de vez em quando, trazem o assunto para diferentes conversas... Minha mãe, por outro lado, diz que seria uma perda de tempo. Porque, se eu me aposentar do ramo de modelos, deveria me casar e ter filhos, e não ir a universidade...

--Eu acho que você deveria fazer faculdade. – Bingley finalmente disse o que estava pensando. – Eu, com certeza, teria amado a escola se tivesse uma professora como você para me dar aula todos os dias. – Comentou, galante, fitando-a nos olhos.

Jane desviou o seu olhar, ficando ruborizada graças ao seu elogio. E, para disfarçar, perguntou-lhe.

--E você? Sempre quis ser arquiteto?

--Não. – Bingley riu, recostando-se na sua cadeira; não tinha se dado conta que estava debruçando-se sobre a mesa durante aquela conversa, tão envolvido que estava pelo encanto de Jane. – Eu queria ser bombeiro, na verdade, quando garoto. Teve um Halloween que me fantasiei de bombeiro, com direito a capacete e machado. – Jane também riu.

--E o que o fez mudar de interesse? – Perguntou-lhe em seguida.

--Bem, eu cresci. – Ele replicou, com simplicidade, arrancando mais uma risada dela. – Durante o ginásio, eu não fazia idéia do que queria fazer... Mas acreditava que trabalharia com meu pai, em sua companhia. Mas, nos últimos anos na escola, percebi que era muito bom em exatas... Então, quando chegou o momento de fazer uma universidade, só precisei me decidir entre engenharia civil e arquitetura...

Ele estava muito tranqüilo e discorria tudo com um tom de sinceridade em sua voz, que deixou Jane cada vez mais a vontade. Ela ficava comparando aquele jantar com os jantares com Peter, quando o seu ex-namorado lhe fazia várias perguntas e demonstrava bastante interesse em suas respostas, mas falava muito pouco a seu respeito, sempre lhe dando respostas evasivas e redirecionando a conversa de volta para ela. Como se não desejasse partilhar seu desejos, pensamentos e esperanças com ela.

--Foi na universidade que conheci Darcy. – Bingley prosseguiu. – Nós cursávamos as mesmas matérias, quase sempre na mesma turma. E, no entanto, quase nunca nos falávamos. Ele tem esse jeito sério e caladão, e eu estava entusiasmado com as experiências da faculdade. Mas, no ano seguinte, quando já não cursávamos tantas matérias na mesma turma, ficamos amigos... E, ao fim do curso, éramos inseparáveis.

--Tanto que fizeram uma sociedade. – Jane comentou.

--Sim. Foi idéia dele, na verdade. – Charles esclareceu. – O pai dele não gostou muito quando ele decidiu fazer arquitetura, mas ele estava decidido a provar que tinha feito a escolha certa. E eu estava louco para ser totalmente independente... Então, nós fizemos um empréstimo no banco e abrimos nossa sociedade.

Jane estava cada vez mais impressionada com a quantidade de coisas que Charles estava lhe contando em seu primeiro encontro.

--Eu sei que foi o nosso sobrenome que tornou a aquisição do empréstimo possível, mas... Tudo o mais, nós fizemos por contra própria. – Ele esclareceu. – Alugamos um espaço e começamos a trabalhar, somente nós dois. E nos primeiros dois anos, todo o dinheiro que ganhávamos com os trabalhos pequenos nós usávamos para pagar o empréstimo e para manter o espaço.  Somente após o terceiro ano que começamos a ter lucro, nada de grande valor. Até um ano e meio atrás, quando conseguimos estes dois grandes projetos e realmente conseguimos deslanchar.

--Uma bela história de sucesso. – Jane comentou.

--E só está no começo, eu garanto. – Jane sorriu docemente para ele, adorando esta autoconfiança dele.

Ao fim do jantar, eles tinham apreciado uma boa conversa, um delicioso jantar, com uma linda vista de Londres noturna. E Charles, aproveitando a presença da banda que se apresentava no cruzeiro, a convidou para dançar assim que viu outros casais se dirigirem ao espaço reservado para a dança.

Quando a tomou em seus braços e depositou sua mão em suas costas, sentindo a delicada pele ali exposta, Charles precisou de todo o seu autocontrole. De nada lhe serviria assuntar Jane ao se precipitar. Mas não resistiu, acompanhar o cantor da banda, sussurrando em seu ouvido.

--Homens sábios dizem que apenas tolos se precipitam...

Mas eu não consigo evitar me apaixonar por você...

E senti-la estremecer ao ouvir a sua voz ao seu ouvido, aceitando ser acolhida em seu terno abraço.

Jane sentia o seu coração bater terrivelmente acelerado em seu peito e sabia que estava ruborizada diante de tamanha declaração. Então escondeu o rosto em seu ombro, sentindo o seu perfume másculo inebriá-la.

--Tome a minha mão, aceite a minha vida também...

Escutou-o acompanhar o cantor novamente, ao finalzinho da música, ao trazer a sua mão, aquela que tinha presa nas suas, até o seu peito, permitindo que ela sentisse as batidas apressadas do coração dele também.

Jane se sentiu compelida a olhá-lo nos olhos e, ao fazê-lo, ele completou.

--Porque eu não posso evitar me apaixonar por você...

Depois a beijou.



[1] Microsoft é empresa fundada por Bill Gates e Paul Allen, criadora do Microsoft Windows, uma popular família de sistemas operacionais.

[2] Apple desenha e cria o iPod, iTunes, os computadores e laptops Mac, o sistema operacional X e o revolucionário iPhone.

[3] Bateaux Restaurant Cruise: jantar a bordo de um cruzeiro pelo rio Tamisa, oportunidade de ver os deslumbrantes marcos da capital, incluindo as Casas do Parlamento, a Ponte da Torre de Londres, a Roda Gigante de Londres e a Tate Modern.

 

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