Capítulo VII
Nos encontramos de novo.
Darcy agradeceu quando Caroline abandonou-o junto ao seu irmão e reuniu-se aos seus colegas de trabalho ao fim do desfile. Todos ao salão de exibição de fotos aguardavam o momento em que a estilista apareceria para socializar.
Bingley e Darcy mantiveram-se a uma distancia considerável de Caroline e de seus amigos, pois não apreciavam o tom da conversa a que se dedicavam naquele momento. Para Darcy, embora não se interessasse por questões de moda feminina, críticos tendiam a ser mesquinhos e maldosos em suas avaliações. E Caroline Bingley não fugia a esta regra. Pelo contrário, adorava destilar o seu veneno.
Darcy desejava ir embora, antes que fizesse algo de que pudesse vir a se arrepender – como ceder aos encantos da sua mulher misteriosa. Crucificava-se mentalmente pelo seu comportamento quase adolescente de incontrolável fascínio durante todo o desfile.
Parecia que estava sobre efeito de algum feitiço, não conseguia tirar os olhos dela por um instante sequer quando ela punha os pés na passarela. E quando não a via, regozijava-se com a lembrança das suas formas e seu charme ao caminhar.
Mas sabia que Charles se oporia a sua partida repentina. Embora não dependessem um do outro para partir, não estaria cumprindo sua promessa de dar apoio moral a Charles se o abandonasse antes de ele falar com Jane Bennet. Por isso, ainda estava ali – apreensivo.
Caroline se aproximou deles e passou a discorrer sobre a conversa que tivera com Mair Talbot, colega sua de profissão. Aparentemente, ambas concordavam que a linha de Ariel Choo não excedia às suas expectativas. Além de garantir que a sua escolha de modelos para o desfile também deixava a desejar.
Darcy tentava ignorar sua tagarelice incessante, mas ficava difícil pensar em qualquer coisa racional quando ouvia a voz estridente de Caroline dentro de sua própria cabeça. Ela era uma prova concreta de que estava certo em sua decisão em não se envolver com mulheres superficiais e frívolas. Caroline não tem nada para oferecer, além da beleza física. E Darcy nunca se contentaria com tão pouco.
Mair voltou a solicitar a companhia de Caroline e as duas se afastaram, aproximando-se de um grupo de homens. Darcy agradeceu a sua partida em silêncio.
Nestes momentos irritava-se com o fim de seu relacionamento com Anne. Ela sim reunia todas as qualidades superiores que lhe agradavam num intelecto feminino, e ainda possuí uma beleza estonteante. No entanto, quando lembrava-se de seu romance nestes nove anos de relacionamento, sabia que lhes faltava algo indispensável – uma paixão avassaladora.
Darcy nunca vivera algo do tipo. Presenciara no relacionamento de seus pais, aquele amor inabalável e incontestável que sempre nutriram um pelo outro. Testemunhara uma vez em Richard e tinha uma estranha certeza que seu primo ainda amava em silêncio. Mas nunca vivera um, ele mesmo. E queria!
Sentia-se um pouco insatisfeito quando pensava nisto. Parecia-lhe contraditório, ele, uma pessoa que não gostava de perder o controle, queria viver algo totalmente irracional e irrefreável. Mas, ainda assim, deseja com todas as suas forças.
Era por isto que não admitia estar assim deslumbrado com uma simples modelo. Se uma mulher como Anne não conseguiu despertar tamanha paixão nele, achava improvável – não, melhor – impossível que uma modelo conseguisse.
--Ali está ela. – Charles chamou sua atenção para Jane Bennet, do outro lado do salão, acompanhada pela sua mulher misteriosa e uma mulher morena.
--Você pretende conversar com ela? – Perguntou-lhe, tentando ignorar o seu propósito inconsciente ao incitar o amigo a se aproximar de Jane justamente naquele momento.
--Absolutamente. – Mas não agiu de imediato.
--Quando? – Darcy perguntou, impaciente.
Charles ignorou sua pergunta, começando a andar na direção de Jane. Darcy o seguiu de perto, mas cuidando para estar sempre um passo atrás. Não queria dar a impressão de que estava ansiando aquela proximidade.
Mentalmente, tentava assegurar-se de que estava apenas querendo certificar-se de que estava certo em seu julgamento. Desta forma, poderia deitar a cabeça no travesseiro à noite, convicto de que não pensaria mais em sua mulher misteriosa após este episódio.
Ao se aproximar, observou-a com um olhar critico. Ela estava vestida com uma calça jeans escura, desbotada, de cintura alta; uma blusa preta sem detalhe algum; calçava uma bota preta pontuda, de salto alto agulha; os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo displicente. O rosto bastante maquiado, com sombras escuras nos olhos. Trazia no pescoço uma colar de pérolas de duas voltas, com uma flor delicada dependurada em um dos lados.
Dentro do contexto, estava simples demais para o ambiente em que se encontrava – rodeada de pessoas famosas e fotógrafos. Faltava-lhe sofisticação na forma de se vestir. Mas, contrária a sua vontade, aos olhos de Darcy ela estava maravilhosa. Precisou repetir várias vezes em sua mente: “Sem classe! Sem classe! Sem classe!”, para voltar a olhá-la com um ar de superioridade. “Ela não é mulher para você!”
A poucos passos, viu que também era o foco da atenção das três mulheres; quem os assistia se aproximar com expectativa. Notou que Jane sorria timidamente, com a face rosada – “rubor, talvez”, avaliou nos instantes em que a fitou. Sua mulher misteriosa e a morena ao seu lado pareciam divertidas, sorriam com malicia. Ponderou que deviam estar falando sobre eles.
--Boa noite. – Charles disse diretamente a Jane, ao parar a sua frente. – Lembra-se de mim? Nos conhecemos no pub há algumas semanas... – Argumentou, transparecendo certo nervosismo em sua voz. – Nós esbarramos. Eu sou Charles Bingley.
Darcy estranhou o estado de espírito do amigo; Charles sempre lhe pareceu bastante seguro ao falar com mulheres. Talvez a frustração da sua primeira tentativa com Jane o estivesse influenciando neste momento, acabando com a sua autoconfiança característica. “Ele realmente precisa do meu apoio moral, pelo visto”.
--Eu sou Jane Bennet. – Ela respondeu, fitando-o nos olhos timidamente.
--Eu sei! – Charles exclamou, sem pensar.
Darcy fechou os olhos, momentaneamente; mas os abriu ao ouvir um risinho abafado. Olhou para a origem do barulho e deparou-se com os olhos castanhos em fogo de sua mulher misteriosa, e sentiu os pêlos de sua nuca se arrepiar. Desviou o olhar rapidamente, dizendo a si em pensamento: “território perigoso”.
--Estas são: minha irmã, Elizabeth, e nossa amiga, Charlotte Lucas. – Jane decidiu apresentar as outras duas. – Charlotte é assistente de Ariel Choo. – Deduzindo que eles deveriam ter notado Elizabeth quando estava na passarela, não faria sentido esclarecer que sua irmã é modelo.
--É um prazer conhecê-las. – Charles garantiu, animado.
--Igualmente. – Responderam as duas.
Darcy ergueu as sobrancelhas ao ouvir a palavra irmã. “Ora, ora. Quem diria?! Então elas são irmãs!”
--Este é meu amigo, William Alexander Darcy III. – Charles sorria de forma exultante, sem se incomodar com o olhar reprovativo de William quando o ouviu dizer o seu nome por inteiro. – Ele prefere que o chamem de Darcy. – Comentou, displicente, como um pensamento corriqueiro.
--É um prazer conhecê-lo, sr. Darcy. – Jane preferiu ser polida ao se dirigir a ele, pois notou o seu semblante sério diante daquela conversa.
Darcy cumprimentou-a com um leve aceno de cabeça. Notou que sua mulher misteriosa o fitou com olhos arregalados, evidentemente surpresa com o seu comportamento contido. Mas decidiu que não se importava com o que ela pudesse vir a pensar ao seu respeito.
--Sr. Bingley, o que achou do desfile? – Elizabeth perguntou.
Darcy ouviu sua voz suave e envolvente inquirir ao seu amigo. Ficou insatisfeito quando ela redirecionou o seu olhar para Bingley e sorriu-lhe de forma doce. E para apaziguar sua raiva, decidiu que o teor da conversa proposta por ela comprovava a sua superficialidade de intelecto. “O que mais poderia esperar de uma modelo?”.
--Oh, achei-o fascinante. – Charles respondeu, galante. – Nunca tinha visto tantas mulheres belas reunidas em um só lugar. – Com a sua natural espontaneidade.
As três mulheres sorriram de sua resposta e Jane fitou os pés por alguns segundos, quando o olhar de Bingley recaiu sobre ela ao mencionar a palavra ‘bela’. “Sutil”, Darcy pensou. “Aparentemente, Charles já está recuperando o vigor. Logo poderei ir embora.”
--Creio que os bastidores de um evento como este deve ser emocionante. – Charles comentou em seguida, voltando a dar sua atenção a Elizabeth.
--Oh sim. – Elizabeth concordou, pensando: “Claro que sim. Ter de trocar de roupa na frente de estranhos, sentir-se apalpada em lugares inconvenientes e ainda ouvir gritos de impaciência... Muito emocionante!”.
Darcy desejou poder ler a sua mente quando notou uma expressão de divertimento dominar a face de Elizabeth. Ela prosseguiu com aquela conversa por mais alguns minutos, sem lhe dirigir o olhar. Até que, virou-se para ele, perguntando.
--E quanto ao senhor, sr. Darcy? Gostou do desfile? – Sorrindo da mesma forma agradável que sorrira para Bingley.
--Não muito. – Replicou, frio.
Elizabeth fitou-o novamente com aquela mesma expressão de assombro com a sua resposta. Então, suas sobrancelhas ficaram franzidas e o seu olhar ficou estreito. Ela continuou a fitá-lo, como se esperasse algum argumento da parte dele. Como se esperasse que ele elaborasse sua resposta.
Darcy apenas retribuiu o olhar, até que ela desviou-o novamente, cansada de seu silêncio.
“Ora! Se não quer conversar conosco, porque se deu ao trabalho de vir até aqui!”, ela pensou, irritada. “Pois muito bem, sr. Darcy, não vou ficar lhe importunando com mais perguntas. Você pode ficar aí, parado, como uma estatua grega. Não me incomoda!”. E, assim, voltou sua atenção ao que sua irmã e Bingley conversavam.
Em cerca de dois minutos, Charles e as três mulheres pareciam velhos amigos, e Darcy sentia-se quase invisível. Charles estava tão entusiasmado com Jane, que só tinha olhos para ela na maior parte do tempo. Elizabeth não dirigiu mais o olhar ou a palavra a Darcy. Apenas Jane e Charlotte o fitavam ocasionalmente, como se temessem em fazê-lo se sentir excluído como Elizabeth não parecia recear.
Até que Elizabeth esquivou-se da conversa, sem dar muitas explicações, levando consigo Charlotte ao se dirigir ao outro lado do salão. Darcy se viu a sós com Charles e Jane, os quais não pareciam ter notado a partida das outras duas mulheres.
Darcy aproveitou o momento para tentar escapar também. Seu amigo já não precisava de sua ajuda e sentia que quanto mais cedo se afastasse de Elizabeth, melhor. Caminhou para um canto do salão e aceitou uma bebida que um garçom lhe ofereceu. Recostou em uma parede e passou a observar o ambiente ao seu redor. Sentiu-se completamente fora de seu ambiente.
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--O sr. Bingley parece encantado por Jane. – Charlotte comentou, caminhando com Elizabeth pelo salão.
--Sim, muito. – Elizabeth concordou. – Mas você viu o comportamento de seu amigo?
--E vi o seu comportamento com ele também, Lizzie. – Charlotte replicou, com um tom de censura em sua voz.
--O que há de errado com a forma que agi? – Elizabeth questionou, fingindo-se de inocente.
--Você ignorou o pobre coitado! – Charlotte refutou.
--Ele não é pobre, Charlotte. Você mesma me disse isto! – Rebateu, rindo-se. – E o que mais queria que eu fizesse? – Mas logo voltou a exibir um semblante sério. – Forçasse-o a conversar conosco, quando, estava obvio, que ele não queria?! O bajulasse só porque ele é rico?
--Bonito... – Charlotte completou. – E solteiro.
Este pedaço de informação fez com que Elizabeth sentisse um frio na barriga.
--A questão aqui é que ... você poderia ter sido um pouquinho mais condescendente com a sua disposição... Ele me parece ser um homem bastante sério.
Charlotte tentou justificá-lo. Não conseguia compreender porque Elizabeth parecia estar tão ofendida com o silêncio de um homem que acabou de conhecer.
--Ele ficou observando-a avidamente durante toda a conversa... E, com certeza, notou que você o ignorava de propósito.
Elizabeth encolheu os ombros, como se não se importasse com isto. E mudou de assunto.
--Eu ainda não vi a minha mãe ou as meninas... – Comentou, olhando as pessoas ao seu redor, como se procurasse por elas.
Charlotte decidiu aceitar a mudança de assunto sem mais perguntas, passando a ajudá-la a procurar pela sra. Bennet e suas duas irmãs mais novas. Mas deparam-se com Peter e sua namorada.
--Boa noite, srta. Bennet... Srta. Lucas. – Peter as cumprimentou, com um sorriso contido nos lábios.
--Boa noite, sr. Firestone. – Charlotte respondeu, educadamente.
--Olá, Peter. – Elizabeth sorriu, animada, para a surpresa de Charlotte e Peter. – Como vai? – E desatou a falar como se reencontrasse com um grande amigo. – Eu não esperava vê-lo aqui esta noite.
--Ham... eu estou bem. – Peter replicou, confuso com o seu comportamento; Elizabeth nunca fora amistosa com ele.
--Você gostou do show? – Perguntou-lhe da mesma forma.
Charlotte a observou com o canto do olho, perguntando-se o que Elizabeth estava aprontando.
--Quem é a sua linda acompanhante? – Elizabeth continuou com seu questionamento, sem lhe dar chance de responder as perguntas. – Você deve ser a namorada de Peter, Viviane Blanch. – Dirigindo-se a Irina. – Peter já nos falou muito a seu respeito.
Charlotte contraiu os lábios, ao entender o que sua amiga fazia. E assistiu com satisfação Peter empalidecer.
--Não. Meu nome é Irina Savoyer. – Irina corrigiu Elizabeth, educadamente. Mas dirigiu um breve olhar na direção de Peter, o qual denunciou a sua insatisfação. – Mas acertou quanto à parte da namorada.
--Oh... – Elizabeth murmurou, fingindo constrangimento com a sua garfe. – É um prazer conhecê-la, Irina. – Disse após alguns segundos de silêncio constrangedor. – Se vocês nos derem licença, precisamos ir ali. – Simulou desconforto ao se despedir e levou Charlotte embora, deixando o casal sozinho.
Quando estavam há alguns passos de distancia, Charlotte comentou.
--Você fez aquilo de propósito. Você sabia que ela se chama Irina Savoyer!
--Eu estava apenas enviando um recado a ele. – Elizabeth replicou com naturalidade.
--Qual seria? – Charlotte quis saber.
--Que se ele for um homem esperto, vai se manter longe da minha irmã de agora em diante. Ou vai se arrepender!
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--Onde todos foram? – Jane perguntou em voz alta, ao olhar ao seu redor e notar a ausência de sua irmã, Charlotte e Darcy.
--Não faço a menor idéia. – Replicou Charles, divertido, também olhando a sua volta.
Aproveitando aquele momento a sós com ela, Charles deu um passo na sua direção, aproximando-se ainda mais de Jane, e disse com um tom de voz mais reservado.
--Jane, eu sei que... acabamos de nos conhecer... – Ele a fitava diretamente nos olhos, sem desviar por um instante sequer. – Confesso que desde que me esbarrei em você naquela noite não tenho pensado em mais nada.
Charles deliciou-se com o tom rosado que se apoderou das bochechas dela. Sabia que estava constrangida, tentada a desviar o seu olhar; mas ela continuou a fitá-lo nos olhos, o que o incentivou a continuar.
--Quero convidá-la para jantar comigo nos próximos dias. – Sentia-se tão nervoso e apreensivo com aquela pergunta, que não sabia como reagiria se ela o recusasse. – Eu quero conhecê-la melhor... Acho que enlouqueceria se não a visse de novo! – Concluiu, a sinceridade expressa em seus olhos e em cada uma de suas palavras. – Você aceita sair comigo? – Perguntou-lhe com bastante ansiedade.
--Aceito. – Jane respondeu de imediato, com um fio de voz.
Charles sorriu como uma criança ao ouvir a sua resposta positiva. Tinha vontade de gritar para que todos ouvissem que o seu “anjo” aceitou sair com ele.
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Elizabeth e Charlotte caminharam entre as fotos e as pessoas presentes no salão, conversando animadas. Assistiam divertidas modelos se insinuarem para homens ricos que estavam desacompanhados ou para fotógrafos – desejando ter suas imagens exibidas em revistas e jornais que comentassem algo sobre aquele evento.
Algumas olhavam para as duas amigas com recriminação, desaprovando a interação entre elas. Algumas pessoas não admitiam qualquer tipo de relação extra-profissional entre modelos e assistentes de estilistas, pensavam que não deveria existir misturas entre as duas “classes”.
Contudo, Elizabeth e Charlotte fingiram não notar seus olhares de censura e continuavam a caminhar juntas, conversando e rindo. Na maioria das vezes, riam das mesmas modelos que as observavam com desgosto.
Estavam assim quando tiveram suas atenções capturadas por uma conversa alheia que, acaso, ouviram.
--Jane é um “anjo”. Linda, maravilhosa...
Elizabeth voltou-se para olhar o homem que estava falando, presumivelmente, sobre sua irmã e viu Bingley ao lado de Darcy um pouco mais adiante. Ambos estavam de costas para ela e Charlotte, e não tinham notado a sua presença ali. E as duas passaram a escutá-los com atenção, não resistindo àquela tentação.
--Juro que nunca conheci uma mulher como ela. – Bingley afirmava, com empolgação.
--Estou contente que tenha tido sucesso em seu intento em vir aqui esta noite e Jane tenha aceitado jantar com você. – Darcy respondeu, com um mínimo sorriso de canto de boca. – Agora podemos ir embora.
--Ora, Darcy, por que eu desejaria ir embora agora? – Bingley o questionou. – A noite é uma criança e não estou disposto a me separar do meu anjo agora.
--Bem, eu, no entanto, não tenho motivos para prolongar a minha estada aqui. – Darcy refutou. – Estarei indo embora daqui há pouco.
--Não vejo por que. – Charles insistiu. – Fique mais um pouco... Tente se divertir. Você não tem feito muita coisa neste departamento ultimamente. – Argumentou. – Olhe a sua volta, há tantas mulheres bonitas aqui!
--Creio que você pôs os olhos na mulher mais bonita da noite. – Darcy gracejou, tentando voltar o foco da conversa para Charles e Jane.
--Sim, Jane é... Ela é... Eu nem tenho palavras para descrevê-la. – Bingley afirmou, com admiração estampada em seu rosto.
Elizabeth sorriu ao ouvir isto. E trocou um olhar cúmplice com Charlotte. Ambas compartilhavam da opinião de que Jane estava precisando encontrar um homem bom como Charles, que a fizesse se sentir especial e bela. E não que brincasse com os seus sentimentos, como Peter Firestone.
--Mas Elizabeth é linda, também. E muito simpática. – Bingley prosseguiu com seus comentários.
Elizabeth sentiu-se lisonjeada ao ouvi-lo falar a seu respeito daquela forma, voltando a olhar para Charlotte, deixando transparecer a sua satisfação.
--Conversei com ela e creio que seja uma mulher inteligente, também.
--Para uma modelo. – Darcy comentou, com desdém. – Ela é bonita, eu diria... Mas eu não tenho tempo para desperdiçar com mulheres fúteis e egocêntricas. – Disse isto de forma categórica; notando que seu amigo discordava de sua opinião pela expressão de espanto estampada em sua face. – Você devia retornar para perto do seu anjo e apreciar a sua companhia enquanto pode. – Prosseguiu, para encerrar com aquela conversa de uma vez. – Está perdendo o seu tempo permanecendo aqui comigo.
Elizabeth murchou, literalmente. Fitou-os em silêncio, sentindo o sorriso desbotar em seu rosto. Viu o momento em que Charles se afastou, deixando Darcy sozinho com um copo de whisky em mãos.
--Ah... Agradeça a Deus, Lizzie. – Charlotte logo tentou animá-la, dizendo. – Se ele se interessasse por você, você teria de ser, ao menos, cordial com ele!
O que serviu para Elizabeth fitá-la com aquele seu ar matreiro e replicar.
--Precisamente. – Sorrindo com malicia, completou. – Eu não desejaria agradá-lo nem mesmo se ele fosse dono de todo o império da Darcy & Fitzwilliam Corporation, quanto mais pela metade miserável!
As duas riram com gosto, voltando a observá-los. E perceberam o momento em que Darcy voltou-se em sua direção e as fitou com surpresa evidente em seu rosto. As duas trocaram olhares, divididas entre o constrangimento de serem pegas entreouvindo a conversa alheia e o divertimento com o inusitado da situação.
Quando voltaram a fitá-lo, Darcy já reassumira o seu ar indiferente. As duas voltaram a se fitar, riram e lhe deram as costas. Afastaram-se dele sem muita demora, deixando-o a se perguntar se elas o teriam escutado e por que estavam rindo daquela forma.
Pouco tempo depois, cruzaram caminho com Lydia e Catherine. As duas meninas estavam conversando com um jovem fotógrafo, tentando convencê-lo a tirar fotos delas para a reportagem de uma revista teen sobre o desfile.
--Lyd, Kitty... Onde está mamãe? – Elizabeth assim que se aproximou, inquiriu.
--Ela se encontrou com Jane e um homem rico e ficou conversando com eles, esperando por você. – Catherine refutou.
Lydia estava tão distraída, tentando convencer o jovem fotografo a tirar sua foto – fazendo poses – que sequer notou a presença da irmã.
Elizabeth notou que o fotógrafo era bastante bonito, mas tinha outras coisas mais importantes na cabeça naquele momento. Pelas palavras de Catherine, a sra. Bennet estava na companhia de Jane e Charles Bingley. Precisava ir resgatar sua irmã das loucuras de sua mãe.
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Darcy estava se dirigindo a saída do Royal Opera House, quando sentiu uma mão suave segurar-lhe o braço e forçá-lo a virar-se na outra direção.
--Will querido, aqui está você. Estava a sua procura. – Informou-lhe Caroline, forçando-o a acompanhá-la pelo salão. – Sei o que está pensando, Will. – Ela garantiu, com uma voz manhosa. – Está se perguntando o que está fazendo aqui.
--Acertou. – Darcy replicou, surpreso; ela raramente acertava em suas adivinhações de seus pensamentos.
--Não me admira. – Comentou ela, satisfeita. – Temos sentimentos iguais. – Completou, olhando-o de forma sugestiva; o que Darcy preferiu ignorar. – Este evento não está a nossa altura... Não sei o que ainda estamos fazendo aqui.
Parando de andar e forçando-o fazer o mesmo, fitou-o nos olhos.
--O que acha de acharmos o meu irmão e irmos embora? ...Quem sabe quando sairmos daqui não encontramos algo mais interessante para fazer com o resto da nossa noite. – Acariciou o seu braço sugestivamente, enquanto proferia estas palavras.
--Não creio que seu irmão tenha intenção de ir embora no presente momento. – Darcy replicou, indiferente a sua proposta implícita. – Particularmente, desejo ir para casa, dormir... Tive um dia exaustivo.
Caroline preferiu fingir que não ouviu a sua resposta, dizendo em seguida.
--Quem são aquelas? – Chamando a atenção de Darcy para as companhias de Charles um pouco mais adiante.
--Jane Bennet e... eu não sei quem é a outra mulher... – Darcy respondeu; a segunda mulher era mais velha, mas ligeiramente parecida com Jane.
Os dois se aproximaram de Charles no momento exato em que a outra mulher dizia.
--Então, o senhor tem o seu próprio negócio... como arquiteto?
--Sim, sim. – Charles respondeu, sorridente. – É uma sociedade com um grande amigo dos tempos de faculdade, William Alexander Darcy III. ...Oh, e aqui está ele. – Bingley completou, voltando-se para a figura altiva de Darcy. – Esta é Anita Bennet, mãe de Jane.
--É um imenso prazer conhecê-lo, sr. Darcy. – A sra. Bennet disse, muito afetuosa. – E quem é esta linda mulher em seus braços? A sra. Darcy, presumo. – Comentou, numa tentativa indireta de descobrir o estado civil daquele homem de porte físico elegante.
Caroline sorriu, satisfeita, ao ser confundida com a esposa de William – o que era seu grande desejo um dia se tornar.
--Não. Esta é Caroline Bingley. – Darcy respondeu prontamente; abominando aquela sugestão.
--Ela é irmã do sr. Bingley, mamãe. – Jane explicou, quando a sra. Bennet lhe dirigiu um olhar alarmado; certamente, pensando que se tratava da esposa de Charles.
--Mamãe? – Elizabeth se acercou deles neste exato momento, juntamente com Charlotte.
--Ahh Lizzie, aí está você! – A sra. Bennet exclamou, contente. – Sua irmã não soube me informar onde você teria ido. – Queria a presença de Elizabeth ali, já que estava na companhia de dois homens ricos e solteiros. Talvez conseguisse envolvê-la com um dos dois.
Elizabeth notou que Darcy a observava com o canto do olho.
--Eu estava do outro lado do salão... Na verdade, vim aqui só para buscá-la. Queria lhe mostrar uma foto minha maravilhosa que...
--Ora, Lizzie, eu já vi todas as suas fotos. – A sra. Bennet a interrompeu. – Além do mais, estou tendo uma conversa agradabilíssima com estes senhores. – Voltando a sorrir de forma indulgente para os cavalheiros.
Elizabeth soube ali que não teria chances de afastar a sra. Bennet de Bingley e Darcy. Dirigiu um olhar penoso a sua irmã, quem entendeu o seu recado. E depois olhou para Darcy, quem continuava a observá-la com o canto do olho.
Darcy pensava naquele exato momento em como Elizabeth parecia ser vaidosa, querendo receber a atenção da mãe por causa de suas fotos espalhadas pelo salão.
--Jane querida, aquele não Peter Firestone? – A sra. Bennet chamou a atenção de todos para o homem do outro lado do salão, de braços dado com uma mulher muito bonita. – Quem é aquela mulher em sua companhia?
--Aquela é Irina Savoyer, a sua namorada. – Caroline fez questão de responder, olhando brevemente para Jane com um ar superior; o que não escapou da percepção de Elizabeth.
--A namorada dele?! – A sra. Bennet questionou, atordoada. – Jane querida, vocês dois não estavam namorando? – Interrogou a filha de imediato.
--Mamãe,... – Elizabeth tentou chamar a sua atenção. – eles eram amigos... – Mentiu; afinal, era assim que Peter os definia para o público.
--Não diga bobagens, Elizabeth. – Sua mãe a recriminou, levemente irritada. – Peter estava completamente apaixonado por sua irmã. – Alegou em seguida. – Ele me disse pessoalmente. – E voltando a dar sua atenção aos demais presentes, continuou. – Eu estava convencida de que a pediria em casamento muito em breve.
--Mamãe, por favor. – Jane pediu, com fio de voz, constrangida.
--Uma vez ele a levou a um jantar romântico e...
--E este foi o fim do romance. – Elizabeth adiantou-se ao seu relato, alteando a voz para se fazer ouvir; evidentemente ansiosa para interromper a sua mãe. – Eles descobriram que não tinham muitas coisas em comum e decidiram serem só amigos. – E, para aliviar o clima da conversa, decidiu continuar falando. – Me admiro com a facilidade dos homens em se dizerem apaixonadas quando sequer conhecem a outra pessoa direito. E no momento seguinte, a paixão não existe mais.
--A senhorita está sugerindo que são somente os homens quem fazem isto? – Perguntou-lhe Darcy, com sua voz rouca e imponente. – Pensava que as mulheres fossem as mestras em dissimular...
Elizabeth olhou-o por um momento, em silêncio. Era a primeira vez que Darcy lhe dirigia a palavra sem se limitar a proferir um monossílabo.
--Não discuto o talento das mulheres para certas artes. – Disse por fim, com tranqüilidade; estava desejando uma oportunidade para enfrentá-lo. – Mas todos nós sabemos que os homens têm uma facilidade em dizer “eu te amo” aqui e ali sem que estas palavras tenham o verdadeiro significado que implicam. Somente para conseguir aquilo que desejam.
--A senhorita me parece segura ao afirmar que todos os homens se comportam desta forma.
--São raros os homens que não agem desta forma. – rebateu de imediato.
--E como a senhorita identificaria um homem que realmente fosse sincero em suas palavras? – Ele quis saber; não conseguia entender por que estava tendo aquela discussão corriqueira com ela, mas não conseguia se calar.
--Um homem com sentimento verdadeiro não se expressa somente com palavras, mas o demonstrado com a constância de seus atos. – Elizabeth explicou, fitando-o diretamente nos olhos. – Mesmo quando o objeto deste afeto seja uma mulher fútil e egocêntrica.
A alfinetada foi clara e direta. Darcy não teve mais duvidas. “Ela me ouviu.”
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Charles acompanhou Jane e sua família até a saída do Royal Opera House, enquanto sua irmã e Darcy os seguiam um pouco atrás. Ele queria levá-la em casa, assim descobriria logo onde mora. Mas Jane recusou a gentileza, alegando não querer incomodá-lo.
Assim, enquanto Elizabeth conseguia um táxi para ir para casa, Charles despedia-se da sra. Bennet, Lydia e Catherine. Quando as três se afastaram um pouco, propositalmente, deram-lhe a oportunidade de despedir-se de Jane em particular. Reafirmou os seus planos de jantarem juntos muito em breve antes de ela caminhar em direção ao táxi em que suas irmãs e mãe entravam.
Bingley retirou o celular do bolso e acessou a sua agenda, encontrando o número do celular de Jane – o qual conseguira aquela noite. E ligou para ela. Assistiu-a remexer na bolsa, procurando o celular, e atender a ligação.
--Alô?
--Oi, sou eu, Charles. – Disse, fazendo-a virar-se na sua direção e olhá-lo. – Estou ligando apenas para que você saiba qual é o meu numero... Assim, quando eu ligar para você esta semana, saberá que sou eu. – Ouvia-a rir baixinho pelo telefone e assistiu ao seu sorriso de longe.
--Boa noite, sr. Bingley. – Ela desejou, porque Elizabeth esperava que ela entrasse no táxi para que pudessem seguir viagem.
--Charles... – Ele se apressou em corrigi-la antes que desligasse o celular.
--Boa noite, Charles.
--Boa noite, Jane. – Ele respondeu, contente.
Jane desligou o celular, acenou e deu-lhe as costas, entrando no táxi e fechando a porta. O táxi logo partiu, deixando um enamorado Bingley para trás.
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Jane estava deitada na cama de Elizabeth, pronta para dormir, mas sem consegui-lo. Ficava revivendo mentalmente seu encontro com Bingley, as conversas que partilharam aquela noite e o seu convite para jantar.
Elizabeth entrou no quarto, vindo do banheiro, fechando a porta às suas costas. Retirou a toalha da cabeça e começou a esfregar o cabelo com ela, para retirar o excesso de água. Por fim, estendeu a toalha na cabeceira da cama e começou a pentear o cabelo.
--Ahh... – Jane suspirou. – Charles é o homem ideal... Gentil, engraçado...
--Bonito e, convenientemente, rico! – Elizabeth completou, rindo-se, ao se sentar na beirada da cama e deitar o cabelo em um dos ombros, para facilitar a desembaraçá-lo.
--Você bem sabe que o dinheiro não me importa. – Jane a recriminou.
--A mim tampouco. – Elizabeth respondeu. – Somente um amor verdadeiro me faria me entregar a um homem por inteira. Por isto estou convencida que ficarei para titia. – Continuou a gracejar.
--Lizzie, você acha que ele ligará para mim? – Jane ainda se sentia insegura; especialmente após a revelação de sua mãe sobre seu relacionamento com Peter.
--Jane, ele sequer conseguiu esperar um dia para ligar para você! – Brincou, fazendo a irmã sorrir, feliz. – O fez esta mesma noite. – Jane estava bastante corada, mas não conseguia apagar o sorriso dos lábios. – Mas lhe deu permissão para gostar dele. Você já se interessou por pessoas que não mereciam um terço da sua atenção. Todo mundo é perfeito no verde dos teus olhos! – Implicou, por fim, só para não perder a mania.
--Não o amigo dele! – Jane respondeu, ficando séria no final. – É uma pena que o seu homem do metrô seja o sr. Darcy. Eu ainda custo a acreditar no que ele falou a seu respeito.
--Eu poderia facilmente perdoar a sua arrogância se ele não houvesse me ofendido. – Elizabeth replicou, jogando os cabelos para trás e erguendo-se da cama. Pegou o secador e colocou-o na tomada. – Mas não se preocupe com isto. – Sabia que se a sua irmã viesse a namorar Bingley, poderia vir a ter algum contato com Darcy. Por isso, disse. – Não creio que o verei com tanta freqüência assim para chegar a me incomodar com sua presença irritante. – Ligando o secador e passando a secar os cabelos.














