Citações

Mas a nossa própria vaidade nos engana. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo VI

  • PDF
  • Imprimir
  • E-mail

Capítulo VI

O desfile

 

Jane já estava pronta para entrar na passarela quando um burburinho atraiu a sua atenção. Uma das modelos chamava a outra para que observasse o movimento na platéia. Algo estava acontecendo, pois as duas modelos cochichavam entre si e olhavam em sua direção de forma suspeita.

Tentou ignorá-las, mas, à medida que as modelos chamavam a atenção de outras, sua curiosidade falou mais alto. Discretamente, espiou a platéia. O que viu fez o seu coração parar. “O que ele veio fazer aqui? E quem é aquela ao seu lado?”, ela se perguntava.

Notando o olhar e os risinhos das suas colegas direcionados a si, Jane afastou-se delas como se nada estivesse acontecendo na platéia que pudesse lhe interessar. Dizendo a si mesma para se acalmar, tentou se concentrar no que julgava importante: o desfile.

Fígaro, aos gritos, apressou Jane, assim como as outras modelos, a entrar em formação para o desfile. Neste momento Charlotte surgiu ao seu lado e lhe entregou o chapéu para completar o seu visual no estilo boyish – termo usado para definir essa moda mais masculina.

Este estilo é caracterizado por cortes mais retos (tipo alfaiataria) e cores sóbrias, como: branco, cinza e preto. As peças que não podem faltar: terninhos, calças pantalonas, sapatos Oxford, chapéus, gravatas, suspensórios e coletes.

Ariel Choo deu a alguns coletes, pantalonas e terninhos tons vermelhos, mostarda e quadriculados, dando ao visual um ar mais informal. Tinha a intenção de suavizar o estilo a cada modelo que pisasse na passarela, acentuando a feminilidade em cada criação gradativamente. Até que desse vazão as vestidos ultra femininos, mas sem deixar de inovar.

Charlotte notou o nervosismo de Jane enquanto ajeitava o chapéu em sua própria cabeça. Tomando-lhe o chapéu de suas mãos, ajeitou-o por ela. Estranhou o seu comportamento, porque nunca soube de Jane ficar assim nervosa antes de um desfile. Naquele exato momento, Jane brincava com as suas luvas de couro sintético, para logo depois passar alinhar o blazer do seu terninho na cor cinza.

Charlotte postou-se em sua frente e ajeitou a sua blusa interna no tom ameixa. Perguntou-lhe.

--Você está bem, querida?

--Ham... Sim. – Jane replicou, distraída com seus pensamentos.

Charlotte afastou-se, decidindo não interferir para não incitar mais nervosismo. E ao ver Elizabeth entrando em formação, três modelos após Jane, caminhou em sua direção.

Elizabeth estava vestida com um terninho preto: as calças um pouco folgada nas coxas e justas nas pernas, parecida com calças de montaria; cintura alta, com uma faixa de seda preta; blusa de manga longa branca, sem decotes, com um laço cumprido prendendo-a ao pescoço; blazer de corte fino e reto, aberto para deixar amostra à blusa por dentro.

Parecia tranqüila e satisfeita com o que vestia, Charlotte logo percebeu. Entre todas aquelas modelos, Jane e Elizabeth eram as únicas que ainda não reclamaram por não vestirem algo mais decotado com que pudessem exibir seus dotes femininos.

Passou ao seu lado, conferiu se estava tudo certo com o seu modelito e desejou-lhe boa sorte – preferindo não alardear o nervosismo de Jane. Pelo que conhecia de Elizabeth – e podia dizer que conhecia muito bem por serem grandes amigas – acreditava que se ela imaginasse que sua irmã está com problemas, tentaria resolvê-lo por ela imediatamente. Isso poderia ser problemático, porque teriam que entrar na passarela naquele mesmo instante.

Jane foi a primeira a pisar na passarela, como a modelo destaque do desfile. Caminhou com altivez, para dar ênfase ao estilo clássico da criação de Ariel Choo. Como se sentia confortável na passarela, após tantos anos atuando como modelo, logo se esqueceu do que lhe incomodava minutos antes.

A passarela tinha o formato de um perfeito retângulo. Ao meio do retângulo a platéia era formada por críticos de moda, estilistas e fotógrafos. Nas primeiras fileiras externas do retângulo sentavam-se pessoas famosas e os ricos em geral. Nas fileiras mais distantes, pessoas de algum poder aquisitivo, mas sem um status social em evidência.

Jane parou por um momento de frente para a platéia interna do retângulo, com a postura reta e os pés levemente separados, com o peso do corpo em uma perna. Inclinou a cabeça para baixo e, com uma das mãos enluvadas, ajeitou de forma sedutora a aba do chapéu em sua cabeça. Foi neste instante que seus olhos se encontraram e tudo a sua volta parou.

Jane olhava para ele com os olhos abertos, com aquela mesma expressão assustada da primeira vez em que se viram. Enquanto ele a fitava com um imenso sorriso nos lábios e uma evidente admiração.

~#~

Darcy permitiu que Caroline sentasse-se primeiro, como o cavalheiro que era. Escolhendo a cadeira vaga após Charles, mantendo-se, desta forma, o mais longe de Caroline possível. Se ela ficou insatisfeita com este arranjo, guardou sua opinião para si. Retirou de sua bolsa o seu blackberry para quando necessitasse registrar algum comentário importante para a sua critica.

William aguardou o inicio daquele desfile com uma apreensão inesperada, de forma bastante inquieta. Os minutos pareciam se estender infindáveis. Queria que o desfile começasse e pudesse vê-la diante de seus olhos. Somente assim acreditaria que sua mulher misteriosa, com quem teve inúmeras fantasias, não passa de uma modelo.

Sentia-se ligeiramente decepcionado com sua descoberta. Quem diria que passara duas semanas andando de metrô em busca de uma modelo?! Modelos, em sua opinião, são mulheres frívolas e superficiais, que vivem suas vidas focalizadas em roupas, festas e fama. Tinha uma regra pessoal que nunca violara antes, de nunca se envolver com uma modelo. E tentava se assegurar, agora, de que não a quebraria.

Sentir-se-ia pequeno se isto ocorresse. Sempre criticara seu primo e, até mesmo, Charles por se relacionarem com mulheres sem classe e conteúdo, unicamente por possuírem uma aparência fascinante. E, no entanto, sentia o seu estômago se contorcer só de imaginá-la bem diante de seus olhos novamente.

Em um telão, iniciou-se a exibição de um vídeo de um minuto e meio da filmagem do que parecia ser a sessão de fotos que estavam em exibição no outro salão.

“Não.” Prometia a si mesmo, ao vê-la naquela filmagem interagindo com o fotógrafo. “Não vou me envolver... Nem agora, nem nunca!” Não era chegado a relacionamentos corriqueiros e não conseguia imaginar-se tendo um relacionamento sério com uma mulher egocêntrica e vazia. “Sobre o que conversaríamos, afinal? A última moda em Paris? Se eu mencionar David Fischer[1], ela provavelmente pensará que estou me referindo a algum estilista novo!”, pensou com ironia.

Ao fim do vídeo, surgiu no telão à marca da estilista Ariel Choo e o DJ deu inicio ao seu show de música eletrônica. As luzes foram reduzidas, sendo concentradas na passarela, e a primeira modelo surgiu.

Ela estava vestida em um terno cinza quadriculado, um chapéu cobria parte de seu rosto e escondia a cor de seus cabelos. A ansiedade de Darcy o fez empertigar-se em sua cadeira e fitar fixamente a modelo, enquanto ela caminhava pela passarela com uma classe e desenvoltura digna de admiração.

À medida que se aproximava de onde estava, Darcy suspeitou que não se tratava de sua mulher misteriosa. Era mais alta e mais magra; seu corpo não apresentava as mesmas curvas, tampouco os mesmos volumes arredondados que tanto perturbavam o juízo de Darcy durante os últimos dias.

A modelo parou praticamente a sua frente, com a postura reta e os pés levemente separados, com o peso do corpo em uma perna. Ela inclinou a cabeça para baixo e ajeitou de forma sedutora a aba do chapéu em sua cabeça. E, de repente, algo aconteceu.

A expressão controlada e indiferente de há pouco sumiu de seu rosto. Seus olhos se arregalaram e seu rosto assumiu uma expressão assustada. William percebeu que ela mantinha os olhos fixos em Charles e, olhando brevemente para o amigo, não demorou a compreender o que estava acontecendo. Ela o reconheceu.

Darcy voltou a fitar a modelo, agora já a identificando como Jane Bennet, e notou a forma desconfortável, um pouco alarmada com que ela olhou ao seu redor, para depois prosseguir com o desfile. Assistiu-a caminhar, afastando-se de onde estavam. E ouviu o amigo suspirar, longamente.

--Viu?! – Charles voltou-se para ele, rapidamente; sorria de forma exultante. – Não é linda?

--Muito. – Darcy respondeu, em concordância.

Repreendeu-se, mentalmente, quando outra modelo passou por eles sem que Darcy lhe desse a devida atenção. E se fosse a sua mulher misteriosa? Observou-a se afastar, de costas para ele, e concluiu que não se tratava da sua mulher misteriosa. Embora também estivesse de chapéu e o seu cabelo estivesse escondido, reconheceria as curvas de sua mulher misteriosa mesmo estando de costas para ele.

William já estava impaciente quando ela finalmente surgiu, após outras duas modelos insignificantes. Ele não piscou uma vez sequer, observando cada um de seus movimentos, enquanto caminhava pela passarela em sua direção. Embora suas pernas não estivessem expostas, tampouco desfrutasse de um decote avantajado em seu figurino, as suas curvas acentuadas não podiam ser escondidas.

Ficou perdido com a visão daquela mulher, com os longos cabelos – notou naquele momento – recaindo por sobre seu ombro em formato de ondas.

Sentiu-se frustrado quando ela passou por ele, para parar um pouco mais adiante, sem lhe lançar um olhar. Parecia-lhe que ficara invisível! Uma sensação terrível tomou conta de seu peito, como se fosse insignificante. E teve inveja de Charles, quem, pelo menos, ganhara um olhar do seu “anjo”.

Ficou furioso com sua mulher misteriosa por ignorá-lo e por fazê-lo se sentir deste jeito; assim como ficou furioso consigo mesmo, por permitir que ela tivesse tamanho poder sobre ele – uma completa estranha!

~#~

De volta aos bastidores, Fígaro trouxesse para Jane o vestido branco, a calça de malha branca e um cinto fino branco. Uma assistente ajudava-a a tirar o terninho cinza, recolhendo as peças de roupa que Jane largava ao seu redor.

Enquanto vestida a calça de malha branca, sendo apressada por Fígaro a vestir o vestido de imediato, viu Elizabeth surgir aos bastidores. Estava tão perdida em pensamentos com quem vira na platéia que não notou a expressão transtornada de sua irmã. Elizabeth caminhava em sua direção rapidamente, enquanto Charlotte a seguia – tentando despi-la.

--Ai, Lizzie, ele está aqui! – Exclamou, assim que sua irmã estava próxima o bastante.

Sempre fora muito discreta, mas não conseguiu se preocupar com isso naquele momento. Notando que a assistente que lhe ajudava a se vestir parecia dar bastante atenção ao que as duas falavam.

--Você o viu também? – Elizabeth perguntou, soando irritada. – O que ele veio fazer aqui?

--Eu não sei... Mais o que eu faço? – Jane soou abalada.

A assistente segurou-a pela cintura, virou-a para si e fechou o vestido, antes de transpassar o cinto de couro sintético por sua fina cintura.

--Ahh minha irmã, fique calma. – Elizabeth percebeu que a sua agitação não ajudaria Jane em nada. – Não permita que Peter lhe abale deste jeito!

Entregou o blazer negro a Charlotte e começou a desabotoar automaticamente a sua blusa branca de linho. Charlotte não demorou a se ajoelhar em sua frente e começar a lhe ajudar a se livrar das botas.

--Peter? – Jane estranhou. – Não estou falando de Peter.

--Não está falando de Peter? – Elizabeth também estranhou; pensara que Jane o tinha visto na platéia, juntamente com a namorada. – De quem você está falando então?

--De Charles Bingley. – Jane respondeu; não conseguira esquecer nada a seu respeito.

Sentiu a assistente soltar o seu cabelo, que estivera preso em um coque, ajeitando-o, para que ficasse com mais volume.

--De quem? – Não se podia dizer o mesmo de sua irmã; quem tentava vestir as peças de roupas que Charlotte tentava lhe enfiar pela cabeça e ainda assim falar com Jane. Mas tendo dificuldades em vestir a blusa preta justa e decotada.

--Não se lembra do homem de que lhe falei? – Jane terminava de calçar os sapatos. – Quem eu conheci no pub...

--“Sr. Mercadinho 24 Horas”? – Perguntou sua irmã, divertida, prendendo a respiração em seguida, para que Charlotte fechasse o zíper da saia de cintura alta por cima da blusa. – Ele está aqui?

--Jane! – Fígaro gritou por ela, a apressando; faltava muito pouco para que ela precisasse entrar na passarela de novo.

--Sim. Ele está. – Jane respondeu, já caminhando em direção a entrada da passarela.

Elizabeth a acompanhou, enquanto Charlotte corria em seu encalço com os sapatos em mãos.

--Onde? – Elizabeth quis saber, espiando a platéia.

--Bem ali. – Jane apontou.

--Jane, vamos! – Fígaro a incitou a entrar na passarela e ela se foi.

Elizabeth continuou olhando na direção em que Jane apontou, mas ele estava muito distante para identificá-lo. Prometeu-se olhar diretamente para ele quando estivesse na passarela. Voltou-se de frente para Charlotte, para que ela terminasse de lhe arrumar e, enfim, pudesse calçar os sapatos que Charlotte largara ao chão, aos seus pés.

~#~

Quando Jane voltou à passarela – vestida inteiramente de branco, sem chapéu algum para cobrir o seu rosto delicado e com os cabelos louros soltos – Charles parecia pronto para subir na passarela e arrancá-la dali, pela forma que se remexia em sua cadeira à medida que ela se aproximava.

Mas sossegou por completo, quando ela parou no mesmo lugar, a sua frente, e como se não conseguisse resistir, olhou diretamente para ele. O sorriso suave que tomou conta de seus lábios fez Charles suspirar sonoramente ao lado de Darcy. Ele estava satisfeito; não só o seu “anjo” o reconheceu, como parecia contente com a sua presença.

Darcy olhou com desgosto para modelo que a seguiu no desfile, quem estava vestida com um sobretudo branco. E, ao se aproximar de onde ele estava, começou a despir-se dele, deixando à mostra um vestido tomara-que-caia, cheio de camadas, brilhante.

Darcy sentiu uma raiva dominá-lo. Fechou as mãos em punhos e esperou pelo momento que sua mulher misteriosa surgiria; perguntava-se se ela olharia em sua direção e o reconheceria. Sabia que a odiaria, e a si mesmo, se ela o ignorasse uma segunda vez.

Sentiu-se ser transportado para um mundo particular quando a vislumbrou caminhando em sua direção. As pernas longas descobertas, a saia de cintura alta demarcando sua cintura estreita. O movimento da saia preta como um sino balançando com o movimento de seus quadris, de um lado ao outro com cada passo que ela dava. A blusa preta, justa e decotada, delineando o seu colo com perfeição.

Ela parou no mesmo lugar que Jane minutos antes e pôs uma das mãos na cintura, fitando a platéia como se soubesse que tinha o mundo aos seus pés. Darcy prendeu a respiração quando ela fitou-o rapidamente, antes de desviar o seu olhar para Charles. E, de repente, voltou o rosto em sua direção.

O olhar penetrante que lhe dirigiu a principio era repleto de profunda incredulidade. Então, assistiu suas bochechas assumirem um tom rosado acentuado. Devorou com os olhos aqueles lábios carnudos. Lentamente, Darcy soltou o suspiro que estivera contendo até então, pensando: “Estou encrencado. Seriamente encrencado!”.

~#~

Elizabeth entrou na passarela a segunda vez com a intenção de identificar com precisão o homem que sua irmã está irrevogavelmente interessada. Caminhou confiante pela passarela até o lugar em que Jane indicara que ele estava sentado. Pela descrição de Charles Bingley, esperava deparar-se com um homem louro acobreado com uma fisionomia agradável e um sorriso irresistível.

Parou diante de uma ruiva, um homem de cabelos louro acobreados e um homem moreno. Não olhou diretamente para nenhum deles a princípio. Sustentou o olhar de toda a platéia de críticos, fotógrafos e demais estilistas com o queixo erguido, com um ar superior. Colocou uma das mãos na cintura, em uma pose elegante, para então focar-se em seu alvo.

Descendo o olhar para os três a sua frente, deixou-o passear pelo homem moreno. Já estava desviando o olhar para o louro, quando, com o canto do olho, realmente o viu. A imagem do homem moreno registrou-se em sua mente e foi obrigada, por um impulso incontrolado, a virar o rosto em sua direção novamente.

O coração acelerou descontroladamente, sentiu faltar-lhe o ar, assim como uma leve tontura se apoderou de seu corpo. Os flashes das câmaras dos fotógrafos lhe ofuscaram a visão por um instante e Elizabeth piscou os olhos. Sentiu o corpo oscilar para frente, perder o equilíbrio e caiu da passarela.

Quando abriu os olhos, se viu no colo dele mais uma vez. A ruiva próxima a ele estava com uma expressão transtornada, com o rosto avermelhado; o homem ao seu lado olhava para Elizabeth e para o moreno em quem ela estava sentada com uma expressão de surpresa. Elizabeth tinha medo de olhar para o homem do metrô, encontrando-se novamente naquela situação embaraçosa.

Podia sentir a respiração forte dele balançar os fios de seu cabelo em seu pescoço, sentia o calor que emanava das mãos dele – uma delas segurando-a pela cintura e a outra, Elizabeth preferia não pensar nesta, estava embaixo da saia, em contato direto com a sua perna. O atrito da pele com pele acendeu uma fogueira em seu íntimo.

A ruiva pôs-se de pé e ameaçou arrancá-la do colo do moreno, sendo detida pelo homem louro ao seu lado. Vários flashes de câmeras ofuscaram sua visão mais uma vez e Elizabeth voltou a piscar os olhos. Quando os abriu, estava de pé na passarela, ainda com a mão na cintura, com a sua postura de superioridade intacta.

Sentindo suas bochechas arderem de rubor, suspirou aliviada. Decidiu afastar-se dali antes que realmente lhe acometesse um acidente como este. Sorrindo com o canto da boca das loucuras dos seus sonhos acordados, desviou o olhar do seu homem do metrô e prosseguiu com o desfile.

Atravessou a passarela com os passos confiantes, com aquela mesma postura presunçosa. Embora seu coração ainda batesse acelerado e sentisse um frio na barriga, de puro nervosismo, não vacilou um segundo sequer.

Nos bastidores, viu Jane já usando um vestido preto, com decote em V transparente com detalhes em formato de losangos prateados, assim como barra em material idêntico ao decote. Ariel, pessoalmente, ajeitava o vestido, enquanto Charlotte cuidava de prender o cabelo de Jane em um coque elegante.

Ao ver Elizabeth, Ariel ordenou Fígaro a ajudar Elizabeth a colocar o vestido cinza, com detalhes em pluma na saia e nos ombros, assim como a prender o seu cabelo. Elizabeth esqueceu-se temporariamente do seu homem do metrô e passou a se despir. Ariel se aproximou logo em seguida, ao terminar com Jane e mandá-la de volta a passarela, para arrumar o vestido em Elizabeth.

Assim que terminou com Elizabeth, Ariel acercou-se de uma modelo que acabara de sair da passarela – Valentina ainda estava vestida em um tailleurs descolado, com uma saia curtinha. Fígaro trouxe-lhe de imediato o vestido rosa, com o detalhe em plumas.

O desfile prosseguiu sem maiores incidentes. Elizabeth preferiu tomar o devido cuidado de não parar mais na frente do seu homem do metrô. Mas não resistia a tentação de lhe lançar o olhar sempre que passava por ele; notando, desta forma, que ele não desviava o olhar dela.

Ao final, Jane entrou na passarela com o vestido longo tomara-que-caia prateado, enquanto Charlotte arrumava o vestido tomara-que-caia champagne brilhante, com um corpete dourado de alumínio que acentuava ainda mais silhueta de Elizabeth. E Fígaro apressava Ingra – que estava vestida com um vestido longo coberto por escamas amarelo e preto, que lha dava um ar de sereia – a entrar na passarela atrás de Jane.

As dezenas de modelos tomaram conta da passarela, aplaudidas pela platéia, para em seguida a estilista caminhar entre elas acompanhada da modelo destaque que retornava à passarela– Jane Bennet.

Jane entregou-lhe um boque de rosas brancas e passou a aplaudir a estilista juntamente com o público e as demais modelos. Ariel agradeceu pelos aplausos e todas elas saíram da passarela em seguida.

Retornando aos bastidores, Elizabeth sentia-se satisfeita. O sucesso de Ariel estava estampado no rosto da platéia, assim como em seus aplausos. E ficou aliviada. Queria trocar de roupa e sentir-se mais consigo mesma. Sabia que só se sentiria assim quando estivesse vestida com suas próprias roupas.

Prendeu o cabelo e olhou-se no espelho. Sabia que só conseguiria retirar a maquiagem em casa, então nem se deu ao trabalho. Por fim, foi procurar Jane.

Encontrou Jane também já vestida com suas próprias roupas – uma calça jeans azul marinho, blusa preta, de decote transversal com detalhes em rosa claro e estampa de flores de mesma cor. E ainda assim, estava deslumbrante. Elizabeth tinha intenção de ir embora de imediato, estava cansada e, embora tentasse ignorar, estava nervosa com a presença do homem do metrô.

Mas Charlotte juntou-se a elas em seguida, informando-lhes que a sra. Bennet, Catherine e Lydia as aguardavam no salão de exibição das fotos, após assistirem ao desfile. As irmãs Bennet logo perceberam que a sua mãe não permitiria que fossem para casa de imediato. Desejaria que as filhas socializassem com as modelos, estilistas, fotógrafos e, o mais importante, com os homens ricos ali presentes.

As três, então, seguiram para o salão de exibição das fotos juntas. Passaram por Peter e sua namorada, mas nenhuma delas lhe dirigiu o olhar. Quando estavam longe o bastante, Jane comentou com as demais.

--Aquela não é Viviane Blanch.

--Como você sabe? – Perguntou-lhe Charlotte.

--Porque aquela não é a mulher com quem eu vi Peter se agarrando no pub... Quem ele disse que se tratava de Viviane Blanch, sua ex-namorada. – Jane explicou. – Com quem alegara ter reatado o namoro.– E, fitando a mulher que acompanhava Peter brevemente, completou. – A mulher que vi tinha cabelos curtos, Chanel.

--Aquela é Irina Savoyer. – Charlotte informou. – Filha de Albert Savoyer, dono da Savoyer Industry.

Embora Jane não aparentasse estar abalada com a presença de Peter e sua acompanhante, Elizabeth não estava gostando daquela conversa.

--Não importa quem ela seja. – Elizabeth exclamou, recuperando a atenção das duas. – Peter é história, passado!

--Tem razão. – Jane concordou, ao visualizar Charles do outro lado do salão acompanhando por um homem alto e moreno, vindo a ficar corada.

Charlotte notou a distração das duas irmãs Bennet – porque Elizabeth também os vira e não parava de olhar para o seu homem do metrô. E, como presenciou parte da conversa delas nos bastidores a respeito de Charles, decidiu auxiliá-las.

--Hum... O louro a direita é Charles Bingley... Ele é arquiteto, tem vinte e oito anos... A ruiva que se juntou a ele é sua irmã, Caroline Bingley. Ela é crítica de moda, tem a minha idade, trinta e dois anos. – Fez uma pausa para o suspense, ganhando o olhar das irmãs, antes de completar. – Charles é solteiro.

Jane suspirou e as outras duas trocaram olhares maliciosos.

--E o que você sabe sobre o moreno, aquele com a expressão de poucos amigos? – Elizabeth quis saber, admirando o seu homem do metrô; quem tinha uma expressão de insatisfação no rosto enquanto a ruiva falava animadamente ao seu lado.

--Aquele é William Alexander Darcy III, amigo e sócio de Charles, tem trinta anos. – Charlotte respondeu.

--Parece estar se sentido miserável, pobre alma. – Comentou Elizabeth, divertida; assistindo-o virar o rosto na direção oposta a Caroline e fazer uma careta de impaciência.

--Pode até estar se sentido miserável, mas pobre com certeza não é! – Charlotte replicou.

--Conte-me! – Elizabeth exclamou, excitada com a fofoca; até mesmo Jane parecia divertida com aquela conversa.

--Ele é filho do empresário fundador e acionista majoritário da Darcy & Fitzwilliam Corporation, sendo assim, herdeiro da metade deste império!

Elizabeth voltou a fitá-lo, avaliativamente. Sorrindo com malicia, comentou.

--Da metade miserável, provavelmente. – Fazendo Charlotte rir.

--Lizzie! – Jane a reprovou. – Um dia alguém chamará sua atenção e você precisará tomar cuidado com o que diz!

--Nenhum homem vai me fazer deixar de ser quem eu sou. – Elizabeth refutou, teimosa. “Nem mesmo alguém como ele!”, pensou, admirando-o àquela distancia.

Pouco tempo depois, uma mulher parou ao lado da ruiva e trocaram algumas palavras. Logo elas se afastavam dos dois homens, deixando-os conversando entre si. Foi então que Charles olhou na direção delas e um sorriso enorme iluminou o seu rosto. E ele chamou a atenção do moreno, fazendo-o olhar na direção em que elas se encontravam.

As três os assistiram trocar alguns palavras com toda a expectativa. Até que Charles começou a caminhar na direção delas, sendo seguido pelo moreno.

 



[1] David Fischer é arquiteto italiano criou um arranha-céus de cerca de 80 andares em forma de torres que girariam em torno de uma coluna central no edifício.

 

Link us







Esqueceu seu login?
Sem conta ainda? Registrar

Conectados

Nenhum

Acessos


Hoje84
Neste mês2421
Desde Março de 200985443
Brazil flag 63%Brazil (49608)
United States flag 6%United States (4824)
Portugal flag 5%Portugal (3763)
Russian Federation flag 2%Russian Federation (1438)
Ukraine flag <1%Ukraine (473)
Germany flag <1%Germany (353)
France flag <1%France (318)
Netherlands flag <1%Netherlands (302)
United Kingdom flag <1%United Kingdom (302)
Latvia flag <1%Latvia (152)