Citações

Maridos e esposas passam a entender facilmente quando uma discussão é inútil. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo V

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Capítulo V

Sorte

 

Nos dias que decorreram àquele incidente, William passou a tomar o metrô como condução diária para o trabalho. Até mesmo fez uma lista mental das razões para que o fizesse, deixando de fora desta lista à verdadeira razão de fazê-lo – o desejo imenso de reencontrar aquela estranha mulher.

No topo de sua lista constava: beneficio ao meio ambiente. Pois sim, seria um carro a menos poluindo o meio ambiente ao queimar combustível; evitava os engarrafamentos desnecessários e o estresse que provinha deste. E... Bom, não conseguia pensar em mais nada.

E, então, desistiu de sua lista. Inconscientemente, imaginou no que aquela estranha poderia atuar. Ela estava muito bem vestida, parecia-lhe uma mulher de negócios. Perguntava-se que tipo de negócio seria este.

À medida que os dias foram passando, Darcy ficava cada vez mais frustrado. Já estava no meio da segunda semana, o seu prazo para encontrá-la “acidentalmente” estava esgotando, e não havia sinal da desconhecida.

Todo dia parecia-lhe a mesma coisa. Tentava manter a sua rotina o máximo que conseguia, mas dentro de si sentia uma grande ansiedade sempre que punha os pés fora de casa e caminhava em direção à via de acesso ao metrô subterrâneo. Perguntava-se se teria a sorte de vê-la este dia.

Então, tomava o metrô, sentava-se em um banco com uma visão privilegiada das entradas do metrô e aguardava por ela. Mas sua estranha nunca aparecia. Ponderou as razões por detrás disso, analisando que o metrô tinha vários compartimentos e ela podia estar em qualquer um deles.

Tentou tomar um compartimento diferente cada dia, a sua procura. Mas continuou sem ter sucesso. Decidiu que se ficasse parado em um lugar, talvez pudesse ter mais chances de vê-la, ao invés de ficar um dia aqui, outro dia ali. Assim eles podiam se desencontrar consecutivamente.

Mas continuou sem ter sorte.

Então, passou a se indagar quais motivos levariam uma pessoa parar de tomar o metrô como condução ao trabalho. Talvez tenha mudado de trabalho e não tomasse mais aquele especifico metrô. Ou, quem sabe, houvesse comprado um carro, ou, até mesmo, encontrava-se numa situação como a dele e o seu carro estivesse consertando até alguns dias atrás.

De qualquer forma, nenhuma destas conclusões resolvia o seu problema. Continuava sem vê-la, sem saber quem ela é e sem poder encontrá-la.

~#~

Jane estava sentada em uma das mesas próximas a janela do Caffe Nero, a 36A St. Martin's Lane, Charing Cross, aguardando a chegada de Peter. Se dependesse de Elizabeth, não viria a este encontro. Mas Jane não voltou atrás com a sua palavra, concordou com este encontro e não deixaria Peter a esperando.

Ele estava um pouco atrasado, então Jane prometeu a si mesma que se ele não aparecesse até o momento em que terminasse a sua xícara de café, iria embora. Estava ansiosa, não conseguia imaginar que tipo de desculpa ele poderia lhe dar pela forma que se comportou com ela.

Estava terminando sua xícara de café, sentindo-se magoada por ter dado-lhe a oportunidade de fazê-la de boba mais uma vez. Ele não veio ao encontro que ele mesmo procurou marcar, deixando-a plantada ali, sozinha.

Pediu a conta a garçonete que lhe serviu quando sentou-se àquela mesa no meio daquela tarde. Pagou a conta, sorrindo levemente para a garçonete que lhe dirigia um olhar condescendente – como se sentisse pena dela por ter sido esquecida por Peter.

Estava se erguendo quando ele surgiu às suas costas.

--Desculpe-me pelo atraso, Jane... – Sem nenhuma cerimônia, enlaçou-a pela cintura e tentou beijá-la.

Jane afastou o rosto a tempo de evitar o beijo e olhou-o de forma reprovativa. Peter sorriu-lhe, constrangido, e beijou-lhe a face mesmo assim, caminhando de forma displicente até a cadeira vazia enfrente a de Jane e se sentando.

--Poderia trazer-me uma xícara de café preto e o menu, sim? – Pediu à garçonete que ainda estava por ali, assistindo-os. – O transito estava horrível. – Comentou, como se assim justificasse o seu atraso.

Jane, relutante, voltou a ocupar a cadeira em que estivera sentada antes. Com uma expressão sombria, fitou-o atentamente. Peter continuou a sorrir-lhe, cínico. Inclinou a cabeça para o lado e uma expressão solene se apoderou de seu rosto.

--Uau, como você está bonita. – Disse e sorriu novamente, mas sem ser correspondido.

A garçonete trouxe-lhe uma xícara de café preto e o menu. O Caffe Nero é conhecido por servir uma seleção variada de cafés italianos, além de outros drinques, assim como sanduíches, pizzas, calzones (pizza recheada) e tortas.

Peter escolheu o que iria comer – um calzone com recheio de azeitona, anchova, cebola e alcaparra – e sugeriu que Jane fizesse o mesmo. Jane tentou negar-se, alegando que já havia feito o seu pedido e o degustado antes de sua chegada. Mas Peter insistiu tanto, que acabou cedendo mais uma vez. Pedindo um pedaço de torta e um copo de suco.

Até o momento de serem servidos, Peter falou a respeito do seu dia e suas atividades no trabalho de forma muito natural. Enquanto Jane o escutava atentamente, perguntando-se quando ele iria começar a se explicar e se conseguiria manter a sua posição com relação a ele. Não gostava nem um pouco de não conseguir lhe dizer “não” por muito tempo.

A garçonete trouxe-lhes o pedido e Peter solicitou outra xicará de café preto, enquanto provava o seu calzone. Jane seguiu o seu exemplo, provando de seu pedaço de torta e tomando um pouco do suco. Tentava manter-se o mais racional possível diante da situação em que se encontrava. Mas não estava gostando da forma que Peter agia – como se nada houvesse acontecido e estivessem ali apenas para aproveitar a companhia um do outro.

Assim que a garçonete serviu a outra xícara de café preto a ele, Jane deu inicio a verdadeira conversa daquele encontro.

--Você me convidou aqui, porque queria conversar... Se explicar... Bem, nós estamos aqui agora, você pode começar a falar quando quiser.

--Jane, você me surpreende. – Peter comentou, soando magoado. – Parece-me que estou diante de sua irmã Elizabeth, ao invés de estar aqui conversando com você.

--Não estamos aqui para falar sobre a minha irmã. – Ela refutou, defensiva e mais irritada ainda.

--Não, não estamos. – Ele concordou, notando que usara a tática errada. – Estamos aqui para discutir o nosso relacionamento.

-- O fim dele, mais especificamente. – Jane completou. – Se é que ele existiu.

--Não diga isso! – Peter se exasperou. Inclinando-se sobre a mesa, tentou segurar a sua mão. – Você sabe o quão importante você é para mim.

Jane retirou as duas mãos do seu alcance e depositou-as no colo, ao afastar-se e colar as costas no encosto de sua cadeira.

--Na verdade, não. – Refutou, concisa. – Eu tenho a impressão contrária. Se me lembro bem,... – Inclinando-se a mesa, colocou o cotovelo sobre ela e passou os dedos sobre os lábios, pensativa. Olhando para ele, completou. – você disse àquela mulher com quem estava aos beijos no pub dias atrás que eu era “ninguém”.

--Foi um erro. – Ele explicou.

--Que parte? – Perguntou-lhe, cética. – Beijá-la ou fingir que não me conhecia?

--Tudo. – Ele garantiu, com uma voz pesada. – Se eu pudesse lhe explicar...

--Eu pensei que estivéssemos aqui por causa disso. – Interrompeu-o. – Você quis uma oportunidade para se explicar.

--Você está sendo muito dura comigo. – Comentou, soando extremamente ofendido.

Jane dirigiu-lhe um sorriso de canto de boca, frio, calculista. Mas tarde, quando pensasse neste encontro, não conseguiria se reconhecer por tamanho controle e frieza. Pensaria que talvez ele estivesse certo, que ela estava tentando ser outra pessoa naquele momento, para preservar o pouquinho de orgulho que ainda tinha.

--Tudo bem. – Ele disse, suspirando, quando notou que ela não mudaria sua postura. – Viviane Blanch é uma ex-namorada minha... – Começou o seu relato, notando que a expressão de Jane mudou um pouco. – Nós nos encontramos por acaso naquele pub e ela se ofereceu para acompanhar Ethan e a mim em um drinque, colocar o papo em dia... Não vi nada de errado com isso a principio.

Jane o fitava atentamente, tentando detectar algum sinal de que ele estava mentindo para ela. Mas não conseguia; ele sempre pareceu sincero todos os momentos antes daquela noite fática, como parecia sê-lo no presente momento. Sabia que não teria como ter certeza se estava sendo sincero com ela agora.

--Uma coisa levou a outra... Quando dei por mim, estávamos nos beijando... e você estava lá. – Ele a fitou nos olhos e os viu marejados. – Eu não soube o que fazer... Entrei em pânico e menti.

Jane acenou uma vez com a cabeça, sem saber o que responder. O silêncio pairou sobre os dois por alguns minutos.

--Nós decidimos tentar mais uma vez... – Ele disse e viu o momento em que Jane o fitou, surpresa.

Ela não esperava por isto. Imaginava que ele pediu para vê-la porque queria desculpar-se e reconciliar-se com ela.

--Perdoe-me por magoá-la, Jane, eu não queria!

Jane abaixou a cabeça, tentando conter as lágrimas. Pensou em continuar a comer, para que pudesse ir embora de uma vez. Mas não conseguiria engolir nada com aquele nó em sua garganta. Então, recolheu sua bolsa, pôs se de pé e saiu do Caffe Nero sem olhar para trás uma vez.

Estava decepcionada. Não com ele, porque no fundo não queria reatar aquele namoro. Consigo mesma, por sentir que talvez nunca encontre o cara certo. Envergonhada por ter imaginado que Peter fosse ele; recriminando-se pelo possibilidade de tê-lo bem diante de seus olhos e não tê-lo notado, por estar envolvida com uma pessoa que nunca lhe amou.

Perguntava-se se o seu verdadeiro amor algum dia aparecerá. Porque deveria procurá-lo, quando sabe que fim tal procura terá? O que há de bom no amor, se só a tem feito sofrer?

~#~

Bingley, Darcy e Moira Reynolds atravessaram as portas do Hakkasan, restaurante chinês de luxo no SoHo, onde iriam almoçar. Foram bem atendidos e encaminhados a uma mesa posta com quatro lugares. Começaram a ler o menu, enquanto esperavam por Fitzwilliam juntar-se a eles.

Fitzwilliam não demorou a aparecer e, com um sorriso galante no rosto, aproximou-se da mesa em que os outros o aguardavam. Tinha em mãos algo enrolado em formato de cone.

Ao ocupar o seu lugar, comentou.

--Charles, depois de hoje você vai me amar, me idolatrar... Imagino, até, que se jogue aos meus pés de tão agradecido!

--E o que você fará por mim para merecer tal tratamento? – Perguntou-lhe Charles, desconfiado.

--Lembra-se do que andou fazendo nestas últimas semanas? – Richard perguntou, notando a curiosidade de Darcy e Moira também naquele assunto.

--Não, na verdade. – Charles replicou, ficando impaciente. – Estive muito ocupado.

--Se lamuriando por não ter encontrado o seu “anjo”. – Richard o lembrou, com uma leve arqueada de sobrancelha.

--Não me lembre disso! – Ele resmungou.

Charles ficou bastante decepcionado quando todas as suas idas ao pub renderam infrutíferas.

--Bem, ... Veja por si mesmo! – Richard exclamou, atirando-lhe algo que tinha em mãos.

A Style Magazine caiu aberta sobre a mesa, à frente de Charles, de cabeça para baixo. Ele ergueu o olhar para Richard e inquiriu-lhe.

--Por que eu estaria interessado em ler uma revista de moda em um momento como este?

--Abra na página 32, por favor. – Richard ordenou.

Charles fez o que lhe foi pedido, virando a revista e abrindo na página indicada. Deparou-se com um artigo sobre um desfile de moda previsto para aquele fim de semana no Royal Opera House, da estilista Ariel Choo – quem teve destaque no London Fashion Week.

Mas o que realmente chamou a atenção de Charles foi a foto da modelo destaque que desfilaria para a linha de Ariel Choo.

--O seu nome é Jane Bennet. – Informou-lhe Richard, sorrindo para a expressão perdida de Charles ao visualizar aquela imagem. – Tem 27 anos e... está solteira.

Moira inclinou-se na direção de Charles para poder ver a foto de Jane também. Enquanto Richard recostou em sua cadeira, relaxado, e abriu o seu menu.

~#~

Mary Bennet caminhou lentamente até a mesa em que o seu professor de Física Avançada estava sentado, juntamente com outros professores da universidade, almoçando. Precisava falar-lhe a respeito de sua pesquisa para o projeto de conclusão de seu curso, o qual se referia a Mecânica Quântica.

Professor Kraven ergueu o olhar para ela e sorriu-lhe encorajadoramente assim que notou sua proximidade. Não demorou a lhe convidar para sentar-se com ele e os outros professores, quando Mary lhe informou porque queria conversar com ele. Constrangida, Mary sentou-se e não tardou a expor suas dúvidas.

O professor Kraven foi bastante atencioso e propicio a solucionar o que estava ao seu alcance naquele momento. Mas sugeriu a Mary que procurasse um dos seus alunos exemplares do curso de Física Avançada, alegando que o jovem Lucian Scott ficaria satisfeito em ajudá-la com sua pesquisa.

Lucian Scott vibrou nos ouvidos de Mary a cada passo que dava ao se afastar da mesa em que o seu professor de Física estava sentado. Ela sabia exatamente de quem ele estava falando. Lembrava-se perfeitamente da primeira vez em que o viu.

Os olhos azuis, quase cinzas; o sorriso meio torto, gozador; os cabelos castanhos escuros curtos, repicado e totalmente desordenado; a pequena covinha que se formava em um dos lados de seu rosto sempre que sorria.

Lembrava-se dele porque o jovem pareceu-lhe um daqueles estudantes desinteressados. Ao contrário da maioria dos estudantes em sala de aula, os quais estavam concentrados em captar cada mínima palavra do que o professor estava dizendo e transcrevê-la em seus cadernos de anotações, Lucian estava sentado em sua cadeira com uma postura relaxada, um olhar perdido e sem nenhum material de anotação em mãos.

Mary chegou a classificá-lo como um rapaz de rosto bonito e sem conteúdo, o qual não merecia um terço da atenção que as outras meninas lhe dirigiam – afinal, beleza não é tudo. No entanto, próximo ao fim da aula, ele ergueu a mão e fez uma pergunta ao professor que fez com que o pobre coitado ficasse encabulado por não saber como responder.

Lucian, é claro, ergueu-se de sua cadeira e saiu da sala, para não mais voltar.

Mary caminhou até o laboratório de pesquisas, sabia que o encontraria lá. Temia não ter coragem de falar-lhe; todos os outros colegas de classe enxergavam em Mary uma CDF e nada mais. Ninguém lhe dirigia a palavra, a não ser que estivesse relacionado a algum problema físico que não conseguisse resolver. Então, Mary parecia-lhe a melhor pessoa com quem tirar dúvidas, além do professor.

Sentia-se incompetente. Era como se perdesse aquilo que a identificava, definisse; a capacidade de resolver os seus problemas e os problemas alheios sozinha. Não que se considerasse um gênio da física; na verdade, não tinha a facilidade que as outras pessoas presumiam, esforçava-se e estudava muito para ter sucesso.

Ela não era como Lucian. Ele sim é um gênio. Tudo parecia se encaixar perfeitamente diante de seus olhos e, o que uma pessoa normal levaria uma hora ou mais para compreender, ele entendia em alguns segundos. Então, era capaz de enxergar além e criar situações impensadas – foi exatamente assim durante aquela primeira aula.

Como falar com um gênio, expor suas dúvidas medíocres e não se sentir pequena, humilhada? Sabendo que ele não só sabe as respostas para todas as suas perguntas, também para tantas outras que você sequer sonhou.

Parou diante da porta do laboratório e espiou pela janelinha. Não demorou a encontrá-lo em uma das bancadas do outro lado do salão, sozinho e isolado. Abriu a porta do laboratório e o atravessou, indo a sua direção. Parou ao lado de seu balcão, sem saber como chamar a sua atenção.

Então ele dirigiu o seu olhar em sua direção, aqueles olhos azuis acinzentados a fitaram através dos óculos de proteção transparente. Mary abriu a boca para falar-lhe, mas a voz lhe escapou no último momento. Lucian ergueu uma das sobrancelhas, interrogativamente. Mary deu-lhe as costas e apressou-se a sair do laboratório, como um bichinho acuado.

~#~

William estava saindo de seu prédio dirigindo o seu BMW Z4 coupé que lhe fora entregue em perfeitas condições há dois dias, com o intuito de encontra-se com Charles no Royal Opera House naquela noite de sábado.

Quando Charles o intimara a acompanhá-lo em tal evento, pensou em esquivar-se. Mas o amigo o convenceu com o simples argumento: apoio moral. Precisaria de apoio moral ao falar novamente com o seu “anjo”. E Richard havia se programado com uma de suas namoradas e não estava disposto a mudar os seus planos para acompanhar Charles em um desfile – por mais que a idéia de ver dezenas de modelos lhe soasse tentadora.

William chegou a convidar Moira, para que lhe fizesse companhia uma vez que Charles se encontrasse com o seu “anjo” e o abandonasse. Mas Moira se recusou, declarando que não tinha a intenção alguma de passar sua noite de folga na companhia desagradável de Caroline Bingley.

Pois, Caroline Bingley, critica de uma revista de moda, fora quem conseguiu os convites de última hora para o irmão para o desfile daquela noite. Convites estes que lhes proporcionava assistir o evento nas primeiras cadeiras, próximas à passarela.

Darcy estava almejando passar a sua noite de sábado na companhia de Caroline Bingley tanto quanto Moira, mas tinha dado sua palavra ao amigo e não poderia voltar atrás agora.

Desceu de seu carro enfrente ao Royal Opera House e entregou as chaves ao manobrista, caminhando até a entrada da casa de ópera e principal casa de espetáculos no distrito de Covent Garden. Combinara com Charles de se encontrarem dentro do recinto, não havia sentido algum ficar do lado de fora recebendo o frio daquela noite de outono londrina.

Tinha acabado de entrar quando o seu celular começou a vibrar. Atendeu-o e falou por dois minutos com Charles, quem estava ansioso por sua ausência. Encontrou-o sem demora, assim como sua irmã Caroline Bingley.

Caroline estava linda, como sempre. Os cabelos longos, ondulados, muito mais ruivos que o do seu irmão jamais foi. Um vestido preto de seda, com decote profundo em V, preenchido por um colo avantajado e acompanhado por uma cintura fina, pernas longas de modelo.

Sabia que poderia ser uma das mulheres desfilando aquela noite, ao menos se assim desejasse. Beleza e desenvoltura não lhe faltava. Mas decidiu aplicar sua língua ferina em algo mais útil, tornando-se critica da única coisa que entendia – roupa.

Ela sorriu-lhe com um ar de uma felina, pronta para atacar de surpresa um rebanho de cervos distraídos pastando. Aproximou-se dele com um andar faceiro e passou a mão suavemente por seu braço, ao inclinar-se em sua direção e beijar-lhe o canto da boca – intencionalmente.

Olhou-o nos olhos por um longo minuto, sem se afastar um centímetro de seu rosto. Parecia ponderar qual seria a reação dele ao beijar-lhe nos lábios em seguida. Aterrorizado com tal possibilidade, Darcy afastou-se dela sem demora, tratando de cumprimentar o amigo.

Passearam pela primeira galeria entre outras pessoas ali presentes para ver o desfile – pessoas famosas ou simplesmente ricas, críticos de moda, estilistas diversos e fotógrafos. Caroline sugeriu que tomassem uma taça de champagne enquanto passeavam entre a exposição de fotos de algumas criações de Ariel Choo ali dispostas.

Estavam assim distraídos, olhando as imagens fotográficas de modelos com vestidos desenhados pela estilista da noite, quando Charles parou, petrificado, diante da imagem enorme de uma modelo loira.

Sentada de lado em um sofá branco, com as pernas cruzadas e amostra graças a uma longa fenda na saia do vestido longo, preto, que estava vestida. As costas nuas, expostas pelo decote do vestido e a posição em que estava sentada. O rosto de perfil, os lábios rosados, os olhos delineados e contornados por uma maquiagem muito bem feita. Os cabelos loiros ondulados, recaindo por sobre um dos ombros.

Ali estava Jane Bennet.

Caroline parou ao seu lado e observou com um olhar de desdém a imagem da modelo que estava roubando o juízo do seu irmão nas últimas semanas. Conhecia de vista Jane Bennet e sabia muito mais a seu respeito que Richard Fitzwilliam revelou a seu irmão – por exemplo, conhecia tudo sobre o seu envolvimento com Peter Firestone.

Perguntava-se se seria este o momento para destilar o seu veneno ou se não deveria se preocupar com o seu irmão, considerando que os interesses de Charles por mulheres bonitas tendiam a não dar frutos a longo prazo. E preferiu guardar as informações que tinha para um momento posterior, caso necessitasse.

Limitou-se a segurar o irmão pelo braço e guiá-lo adiante. Darcy ainda admirou por um momento a mais a foto de Jane. Não havia se interessado em ver a sua foto na revista que seu primo trouxera para o almoço de dias atrás, mas agora que a via podia entender perfeitamente bem a fixação enlouquecida de Charles por esta mulher.

Estava seguindo o amigo e sua irmã há alguns passos de distancia, quando a viu. A fotografia estava do outro lado do salão, mas o mero vislumbre daquela mulher fez o seu coração disparar. Atravessou o salão entre as pessoas e só parou diante daquela imagem.

Ela estava sentada de lado no chão coberto por um carpete cor de areia, encostada em um desnível da parede branca. Os cabelos castanhos recaindo sobre os ombros, uma expressão melancólica. Usava um vestido preto com mangas com bordas de renda branca e barras da saia com a mesma renda branca. Meia calça azul escura e sapatos fechados, delicados, como se pertencessem a uma boneca de porcelana.

Darcy sentiu-se atordoado. O que estava acontecendo? O que aquilo significava? Olhou ao seu redor, a procura de Charles e Caroline. Mas os seus olhos pousaram em outra fotografia dela. Sem hesitar, aproximou-se da outra imagem.

Vestido longo preto e branco, cheio de plumas. Luvas negras de cumprimentos até o cotovelo. Ela estava sentada em algo imperceptível. Com os cotovelos apoiados nos joelhos, sobre as penas brancas, e o queixo apoiado nas mãos cobertas pelas luvas negras. Os lábios contraídos em um biquinho rosado; cabelos presos em um coque desorganizado. Os olhos... Aquele olhar...

--Darcy? – Ouviu a voz de Caroline ao seu lado.

Voltou-se em sua direção e lá estava ela, juntamente com Bingley.

--Estávamos a sua procura. – Afirmou-lhe Caroline, olhando a foto da modelo a sua frente de forma desconfiada.

--Vamos, amigo. O desfile vai começar. – Charles o apressou, excitado.

 

 

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