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Boa vontade com todos, mas não amizade com todos, faz de um homem o que ele deve ser. (Jane Austen)

Colisão - Capítulo III

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Capítulo III

Eu vi um anjo!

 

Charles estava sentado em um dos bancos elevados ao balcão do bar, brincando com o gelo do seu whisky, aguardando a chegada de Richard. O pub estava bastante movimentado, o que o impossibilitou de encontrar uma mesa vaga. Mas, como Richard preferia ficar ao balcão do bar ao começo de uma noitada, não se incomodou com este fato.

Levou um tapa na cabeça e, ao voltar-se para o lado direito, não viu ninguém. Olhou para frente, percebeu um movimento maior ao seu lado esquerdo. Virou o rosto nesta direção e viu Richard retirando o seu sobretudo negro, depositando-o no encosto do banco e afrouxando a gravata. Ele não demorou muito a sentar-se e pedir o mesmo que Charles estava bebendo ao bartender.

--Então, meu primo furou conosco mais uma vez. – Observou; não soou nenhum pouco surpreso.

--Preferiu ir para casa. – Explicou Charles. – Parecia-me cansado.

--Não vejo como vá conseguir descansar de qualquer forma. – Comentou Richard, provando a sua bebida antes de prosseguir com seus argumentos. – Não consegue dormir direito... Ele devia seguir o nosso exemplo e só ir para casa lá pelas duas da matina... E muito bem acompanhado... – Riu, maliciosamente, por fim.

--Não vejo como ele conseguiria descansar de qualquer forma. – Charles replicou, rindo-se também.

--Pelo menos, a sua noite não seria um desperdício! – Refutou Richard.

Girando o banco, de modo que o encosto deste ficasse ao balcão do bar, observou o movimento no salão de entrada do pub.

--William nunca foi chegado a transas corriqueiras com desconhecidas. – Charles ponderou.

--Meu primo se comporta como um ancião celibatário. – Resmungou Richard. – Há um mês que está solteiro, no entanto comporta-se como se fosse um homem casado, com dez filhos para alimentar... Só pensa em trabalho... Não me admira que esteja com problemas para dormir uma noite inteira!

De repente, Richard sorriu de forma diferente. Charles seguiu o seu olhar até uma mesa em que se encontravam duas jovens muito bem vestidas, ambas morenas. Uma delas olhava para Richard e sorria de forma convidativa. Charles previu que em poucos minutos estariam se juntado às duas mulheres em sua mesa.

No entanto, teve a sua atenção roubada por uma loira, de cabelos levemente ondulados na altura dos ombros, blusa branca de gola alta e calça jeans azul marinho, que passou bem em sua frente. O doce aroma de flores penetrou as narinas de Charles e ele acompanhou o seu delicioso andar enquanto ela atravessava o salão. Richard riu, ao seu lado, ganhando a sua atenção temporariamente.

--Belas curvas! – Comentou ele, inclinando a cabeça para o lado e apreciando as cadeiras da loira.

--Tira o olho! Eu vi primeiro. – Ordenou Charles.

Pondo-se de pé num pulo e, terminou sua bebida em um gole e abandonou o amigo ao balcão do bar.

~#~

Jane chegou ao pub e admirou o seu ambiente. Sabia, por informações de colegas modelos que estiveram ali antes, que o pub era dividido em dois ambientes. O primeiro salão, amplo e bem iluminado, era tomado por mesas e cadeiras, além do balcão de bar e suas incontáveis cadeiras giratórias suspensas. E o segundo salão, amplo e pouco iluminado, com mesas escassas circundando uma pista de dança modesta.

Por um momento, sentiu-se deslumbrada pelo lugar. Mas logo se lembrou de seu propósito em estar ali e se sentiu ansiosa. “Ah, quanta saudade tenho de Peter!”, pensou, ao dirigir-se a escada que levaria ao andar inferior e ao segundo salão. Conhecia bem seu namorado, sabia que ele preferiria o ambiente que lhe proporcionasse o máximo de privacidade possível.

À sacada, observou o segundo salão. Pôde ver as pessoas dançando na pista de dança e ponderou que Elizabeth gostaria daquele pub, que a sua irmã deveria ter concordado em se encontrar com ela ali. Talvez a convencesse a vir outro dia.

Caminhou até a escada e começou a descer o primeiro lance de degraus, já procurando seu namorado naquelas mesas aos cantinhos mais reservados do segundo salão – de onde estava, sua visão era privilegiada.

Parou de andar por um segundo, sorrindo consigo mesma, ao encontrá-lo. Peter estava sentado em uma das mesas do canto, como imaginara. Em um sofá em formato de L, com as costas para a parede. Estava acompanhado por uma jovem mulher risonha de cabelos Chanel chocolate e um homem bem apessoado, quem Jane reconheceu como seu colega de trabalho – Ethan Gordon.

Jane prosseguiu, descendo os degraus restantes e começou a atravessar a pista de dança, desviando das pessoas. Já estava bastante próxima quando viu Ethan erguer-se de seu lugar àquela mesa e deixar Peter a sós com a mulher. Ela, por sua vez, trocou de lugar rapidamente, indo sentar-se ao lado de Peter. Quem não demorou a passar o braço pelo encosto do sofá e fitá-la de forma charmosa.

Jane não soube dizer ao certo o que sentiu naquele momento, quase como um mau presságio. Mas preferiu ignorá-lo e continuou seguindo até aquela mesa. Mas parou, petrificada, a um passo de seu destino, quando viu Peter passar a mão no cabelo da mulher, colocando alguns fios deste para trás de sua orelha, e deitar os seus lábios sobre os dela.

Mentalmente, dizia a si mesma para dar meia volta e ir embora antes que alguém a visse ali – ele, principalmente. Mas não conseguiu. Assistiu-o descer a mão para a cintura da mulher e puxá-la mais para si, aprofundando o beijo. Havia tanta intimidade entre eles que lhe parecia difícil que aquela fosse a primeira vez que estivessem fazendo aquilo.

Quando Peter interrompeu o beijo, lançou a mulher aquele sorriso charmoso que Jane tinha a ilusão de pensar que pertencia a ela. Jane sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, embaçando a sua visão. Mas, ainda assim, não conseguiu mover os seus pés. Sabia que, a qualquer momento, ele olharia em sua direção e a veria ali. Porém, não conseguiu escapar daquela armadilha.

Assistiu-o inclinar-se pela segunda vez e capturar os lábios daquela mulher, mordiscando-o, enquanto sua mão brincava com a cintura dela e ela acariciava o seu rosto másculo. O terceiro beijo foi ainda mais longo e Jane percebeu que a mulher se pressionava contra o peito dele de forma ávida. Sentiu-se uma voyeur de mau gosto. Por que seus pés não a obedeciam? Já vira o bastante!

--Jane? – Ouviu uma voz masculina ao seu lado e virou o rosto brevemente na direção daquela voz, deparando-se com uma visão borrada de Ethan. – O que está fazendo aqui? – Ele perguntou, lançando um olhar preocupado na direção de Peter.

Jane seguiu o seu olhar e viu que Peter a fitava, assombrado. Sentiu uma lágrima escapar de seus olhos e tentou segurar o choro, mas estava sendo bastante difícil naquele momento. A mulher que estava com Peter olhou para Jane e de volta para ele, segurando-o pelo rosto e fazendo-o olhar para ela; inquiriu-lhe algo.

Jane não conseguiu ouvi-la àquela distancia e também por causa do barulho da música que tocava naquele momento, mas pensou compreender as palavras “quem é ela?”. Com grande surpresa, mas sem uma sobra de dúvida, leu nos lábios de Peter a resposta.

--Ninguém.

E Peter não mais olhou em sua direção. Jane deu-lhe as costas e, atordoada, atravessou a pista de dança rapidamente.

~#~

Georgiana Darcy tentava ajeitar o decote de sua blusa vermelha que Rebecca Casper lhe fizera pegar emprestado. As duas, juntamente com Betsy Grangh, estavam indo a um clube noturno próximo ao campus da Universidade Cambridge.

Desde que passara a freqüentar aquela universidade e dividir o seu apartamento com as duas meninas, desenvolveu uma grande amizade com ambas. Embora reservada ao extremo com tudo de mais íntimo ao seu respeito, considera as duas garotas suas amigas mais próximas e de confiança.

Rebecca tagarelava a respeito de um rapaz de nome Eric Walker, quem conhecera há pouco tempo e por quem estava apaixonada. Enquanto as duas outras meninas praticamente corriam pela calçada para alcançá-la, quem caminhava a frente de forma energética.

--Ele é... simplesmente maravilhoso! – Repetiu ela pela enésima vez. – Simplesmente maravilhoso! Alto, forte, lindo...

--Becca, por favor, devagar! – Pediu Betsy, atrapalhada com a sua mini-saia jeans.

--Nós já estamos atrasadas. – Rebecca reclamou, olhando para as duas meninas às suas costas. – Ah, Georgie, pare de puxar a blusa! – Ordenou, contrariada. – Vai estragá-la deste jeito. – Parando de andar, arrumou o decote da blusa da amiga. – É para ficar assim mesmo. – Comentou. – Não sei por que você tenta esconder a sua beleza.

Implicou, voltando a andar, ignorando as bochechas coradas de Georgiana.

--Chegamos! – Exclamou, excitada. – Como estou? – Voltou-se para as amigas, se arrumando também.

--Linda. – Georgiana respondeu, com sinceridade e admiração, recebendo um enorme sorriso em resposta de Rebecca.

--Ah, eu nunca conheci um menino que me fizesse ficar assim. – Exibiu para as amigas as mãos trêmulas. – Depois de tantos dias somente conversando, ele finalmente me convidou para vir aqui... Eu já estava até perdendo as esperanças! Ele não me dava nenhum sinal de que estava interessado. Estava indo a loucura!

Ela voltou-se para a entrada do clube noturno e hesitou. Então, Betsy a encorajou.

--Vamos entrar! – Caminhando à frente.

Rebecca a seguiu, apreensiva. Georgiana foi atrás, puxando a jaqueta para cobrir o decote da blusa vermelha. Arrependia-se imensamente por ter se deixado convencer por Rebecca a usar a sua blusa.

As três meninas apresentaram suas carteiras de identidade à entrada do clube e o segurança avaliou a sua veracidade. Como as três meninas são maiores de dezoito anos – Rebecca com 21 anos, Betsy com 19 anos e Georgiana com 20 anos – o segurança permitiu a entrada.

O prédio em que funcionava o clube noturno fora, antigamente, uma fábrica de peças automobilísticas e o dono do clube decidiu aproveitar-se do estilo urbano e metálico do ambiente, com suas grande caldeiras, escadas de ferro e compressores de ar quente.

As três meninas pararam no primeiro lance de escada de ferro e admiraram o movimento no nível mais baixo. O local mal iluminado, repleto de vapores de ar quente, com luzes piscantes e música às alturas tocada por uma banda rave metal ao vivo, além de superlotado de jovens.

Georgiana foi a primeira a alcançar o lance de escada, sendo seguida pelas duas meninas. Estava tão distraída olhando tudo a sua volta, que escorregou em um dos degraus da escada e desceu o restante tentando segurar-se ao corrimão, mas sem ter sucesso. Por fim, parando sentada no penúltimo degrau.

Podia ouvir as vozes assustadas de suas amigas, a seguindo de perto. Mas foi um par de mãos masculinas grandes que a seguraram pelos braços e a puseram de pé. Quando ergueu o rosto, para agradecer pela ajuda, deparou-se com um par de olhos castanhos, firmes. O rosto quadrado, acentuado, com uma barba rala, por fazer, sobrancelhas negras e cabelo curto, espetado, castanho escuro.

--Georgie, como você está? – Betsy perguntou, já ao seu lado, ganhando a sua atenção.

O rapaz soltou Georgiana e olhou para as suas companheiras.

--Oi, Eric. – Rebecca cumprimentou o rapaz, sorrindo timidamente.

--Oi, Becca. – Ele replicou, com uma expressão séria. E, voltando-se para Georgiana, inquiriu. – Você está bem?

Georgiana acenou, muda, em afirmativo. O rapaz aceitou a sua resposta e começou a se afastar das meninas sem dizer mais nada.

--Eric? – Rebecca apressou-se a chamar a sua atenção, quando o viu subir os primeiros degraus da escada. – Onde está indo? – Perguntou-lhe, quando ele deteve-se e voltou a fitá-la.

--Para casa. – Replicou, simplesmente, já virando-se novamente.

--Mas eu acabei de chegar! – Rebecca exclamou, fazendo-o encará-la novamente. – Quero dizer, ainda é cedo. – Apressou a si corrigir.

--Eu já estou aqui há tempo suficiente para saber que esta banda não presta e o melhor que faço é ir para casa, dormir. – Replicou.

--Bem, você podia ficar só mais um pouquinho... Para me fazer... Nos fazer companhia. – Corrigiu-se mais uma vez. – Nos apresentar aos seus amigos. – Sugeriu, esperançosa.

--Patrick e Max estão aí... em algum lugar. – Refutou ele, complacente. – Tenho certeza que ficaram satisfeitos em lhes fazer companhia. – Garantiu, dando-lhe as costas em definitivo.

--Ohh... Boa noite! – Ela ainda tentou ganhar sua atenção uma última vez.

Mas ele não voltou a olhá-la. Apenas acenou de costas, subindo os degraus restantes e saindo do clube.

Rebecca olhou para as amigas, as quais assistiam a tudo sem poder fazer muita coisa, não escondendo sua decepção.

--Eu soei muito desesperada, não foi? – Perguntou, triste. – Ele sempre faz isto comigo! – Reclamou, por fim. – Georgie, como está? Machucou-se muito? – Por fim, lembrou-se do acidente da amiga.

--Somente a minha auto-estima. – Georgiana refutou. – Que vergonha! – Exclamou, ruborizada.

--Não liga, não. Ninguém notou. – Betsy garantiu.

--E Eric já deve até ter esquecido. – Completou Rebecca. – Vem, vamos procurar os outros meninos.

~#~

Jane entrou no banheiro, sentindo suas mãos tremendo. Algumas mulheres a olharam assustadas com o seu comportamento, principalmente porque Jane dizia a si mesma em voz alta que não iria chorar – mas as lágrimas continuavam a escapar de seus olhos.

Aproximou-se da pia de rosto e depositou sua bolsa sobre a pia, enquanto lavava o rosto. Uma mulher mais velha parou ao seu lado e inquiriu-lhe se estava precisando de ajuda. O mais educadamente possível, recusou a sua oferta, procurando enxugar o rosto e livrar-se dos vestígios das lágrimas.

Fitando a sua bolsa, decidiu-se por ligar para irmã.

--Jane, querida, acabei de chegar a casa. – Elizabeth atendeu após dois toques apenas. – E você não imagina o que me aconteceu!

Jane queria falar algo, mas não conseguia pronunciar uma palavra.

--Como está Peter? – Elizabeth perguntou, com um tom de voz contrariado. E tudo o que ouviu como resposta de Jane foi um soluço. – Jane? O que foi? Qual é o problema?

--Ahh, Lizzie. – Jane, por fim, respondeu, com uma voz chorosa.

--Venha para casa! – Elizabeth disse somente, como se adivinhasse o que lhe aconteceu. – Eu estou lhe esperando.

~#~

Charles perdeu a loira de vista assim que ela se misturou às pessoas na pista de dança. Ficou parado à escada por alguns minutos, olhando as pessoas que ocupavam as mesas ao redor da pista e àquelas que estavam dançando, procurando por ela. Mas não a encontrava.

Estava preste a desistir, quando a viu se dirigir a entrada do banheiro feminino. Sorrindo para si mesmo, ficou a observando entrar no banheiro e não arredou o pé dali enquanto não a viu sair.

Jane estava tão atordoada com o que lhe estava acontecendo, que mal dava atenção a onde estava indo. Esbarrou-se em alguém e, sem lhe dirigir o olhar, desculpou-se, com a intenção de prosseguir o seu caminho – já conseguia ver a escada que a levaria ao primeiro salão e à saída do pub.

--A culpa foi minha. – Uma voz rouca replicou, eriçando os pêlos de seu braço.

Jane deteve-se por um instante e olhou para o dono daquela voz. Arregalou os olhos, sentindo o seu coração bater acelerado e suas mãos começaram a suar como uma adolescente em seu primeiro encontro com o menino por quem nutria um amor platônico por muito tempo. No entanto, fitava os olhos azuis de um completo estranho.

--Permita-me desculpar-me melhor pagando-lhe uma bebida. – O homem alto, de cabelos loiros acobreados, de sorriso amplo e encantador, pediu-lhe educadamente.

--Eu...Eu... eu não bebo. – Replicou, assustada. – Quero dizer, ... – Apressou-se a corrigir, sentindo-se estúpida. – bebida alcoólica.

--Não faz mal... Deve haver alguma bebida não alcoólica no bar... Um refrigerante ou, até mesmo, água. – Ele insistiu, ignorando o seu nervosismo quase infantil. – Se não houver, teremos que procurar um mercadinho vinte quatro horas e comprar um daqueles sucos prontos ou energéticos de framboesa. – Argumentou, de forma confiante, sem perder o sorriso do rosto.

Jane sentia-se hipnotizada. Perguntava-se o que estava acontecendo com ela. Aquilo não podia ser normal.

O estranho segurou-lhe a mão, em um cumprimento.

--Charles Bingley, é um imenso prazer me esbarrar em você!

O choque inesperado daquele toque deixou Jane apavorada e ela recolheu a mão apressadamente.

--Desculpe-me, com licença. – E fugiu dele, deixando-o confuso.

~#~

Georgiana concordou em número, gênero e grau com Eric a respeito da banda. Estava ali, no meio daquela multidão de jovens, desejando poder ir para casa, dormir. Mas Rebecca e Betsy ainda queriam permanecer ali, encontrar Patrick Farrell e Max Licon, amigos de Eric. Não querendo estragar a noite das amigas, permaneceu em sua companhia.

Quando se encontraram com os meninos, ela já estava se sentindo contrariada. Não queria estar ali, tampouco vestindo aquela blusa. Mas foi a presença de Patrick que a deixou desconcertada. Embora extremamente educado e simpático, o seu jeito entusiasmado e expansivo a deixou apreensiva. Algo nele a fazia se lembrar de outro alguém.

Não que ele fosse parecido com este certo alguém. Seus cabelos loiros, cacheados e curtos não se assemelhavam muito com as longas madeixas loira e lisa de Wickhan. E, embora donos de olhos azuis, o sorriso, assim como o porte físico, também o diferenciava.

Mas as maneiras de falar e sorrir eram idênticas. E por isto, Georgiana estava de guardas erguidas. O assistiu dançar e paquerar diferentes meninas, enquanto revezava o seu tempo conversando com Rebecca e Betsy.

O seu amigo, Max, pareci-lhe mais tímido. Ele escutava as conversas e comentava uma coisa ou outra quando lhe era solicitado a sua opinião. No mais, ouvia a conversa e sorria muito. Georgiana identificou-se com ele muito mais que com Patrick. E foi com grande alarme que o fitou, quando Patrick tentou tirá-la para dançar.

--Oh, claro que ela aceita! – Rebecca apressou-se a responder por ela, quando notou que Georgiana estava surpresa demais para responder.

Patrick segurou-a pelas mãos de imediato e puxou-a para si, sem hesitar. No entanto, Georgiana soltou-se dele bruscamente, exclamando.

--Eu não quero dançar com você! – Grosseiramente.

--Calma, Georgie! – Pediu Betsy.

--Eh, ele não está tentando lhe seqüestrar, nem nada. – Comentou Rebecca, displicente.

--Só queria dançar com você. – Ele se explicou, estranhando o comportamento dela.

Georgiana sabia que todos a olhavam reprovativamente, mas sentia-se dentro de seus direitos.

--Mas não aceitei dançar com você. – Refutou, irritada. – Não lhe conheço. Nunca lhe dei liberdade de me pegar deste jeito! – Fechando o casaco sobre o decote da blusa, cruzou os braços sobre os seios.

--Desculpe, não foi a minha intenção ultrapassar os limites. – Ele se explicou. – Só queria que você se divertisse.

E, por fim, deixou as meninas sozinhas. Max não demorou a segui-lo.

--O que foi isto? – Exigiu-lhe Rebecca.

--Ele só queria dançar com você, Georgie. – Betsy argumentou, também estranhando o seu comportamento exagerado.

--Eu vou voltar para o apartamento. – Georgiana disse, sem se explicar com as amigas quanto ao ocorrido.

~#~

Richard surpreendeu-se quando Charles o deixou sozinho com as duas morenas pouco após a meia noite e decidiu ir para casa desacompanhado. Parecia-lhe desapontado com o fiasco que resultara a sua tentativa de seduzir a loira no começo daquela noite. Mas Richard era do tipo que consideraria isto um motivo maior ainda para não ir para casa sozinho.

Agora se via preso em um dilema: qual das duas morenas levaria para casa consigo?“Nenhuma das duas tem uma conversa de alguma substância,” ponderava, “mas, para o que quero, as duas servem!” Sorrindo maliciosamente, pensou: “Quais seriam as minhas chances de elas toparem um ménage à trois?” Terminou a sua bebida, brincando com esta idéia.

Por fim, pegou o seu celular no bolso do terno e apertou um número do aparelho, que iniciou uma ligação com o número do telefone gravado naquela memória de discagem rápida.

--Você está acordada! – Exclamou, soando surpreso, quando o telefone foi atendido após tocar sete vezes.

--Não, você me acordou. – A voz replicou, irritada.

--Nervosinha. – Richard comentou, aborrecido com o tom de voz dela.

--O que quer, Richard?

--Não posso ligar para saber como está? – Ele perguntou, enquanto sinalizava para o garçom trazer a conta.

--Você sabe que horas são? – A voz soou ainda mais enraivecida com resposta dele. – 2 AM. Duas da MANHÃ. Você não pode estar me ligando esta hora para jogar conversa fora!

Richard coçou atrás da orelha, desconcertado.

--Diga de uma vez o que quer, para que eu possa voltar a dormir. – Exigiu a voz.

--Eu estou num bar... Naquele novo pub aqui no centro, sabe? – Mas não ouviu nenhuma resposta, então prosseguiu. – Estou acompanhado por duas lindas morenas e... não sei qual das duas levo para casa comigo. – Continuou, sorrindo para as suas acompanhantes. – Eu preciso que você me diga qual das duas levar para casa comigo. – Informou, ouvindo um suspiro exasperado como resposta. – A primeira é...

--Richard? – A voz o interrompeu antes que ele começasse a descrever as mulheres. – Vá para casa. SOZINHO!

--Você pode me dar uma boa razão para fazer isto? – Ele propôs, satisfeito; era isto o que queria.

--Você está bêbado. – A voz respondeu, simplesmente.

--Você sabe que não é isto o que eu queria ouvir. – Resmungou ele.

--Mas é o máximo que irá conseguir de mim. – Ela refutou, decisiva. – Vá para casa e pare de me ligar!

Richard precisou afastar o celular da orelha, porque ela estava gritando ao final. E, quando tentou responder, percebeu que ela tinha desligado. Insatisfeito, desligou o aparelho e guardou no bolso do terno. Pagou a sua bebida e despediu-se das morenas. Parecia que não era o seu dia de sorte, tampouco.

~#~

Quando Jane chegou a casa, encontrou tudo em completo silencio e Elizabeth a esperando ao sofá da sala, apreensiva. Sua irmã lhe acompanhou até o quarto e fechou a porta. Ambas caminharam até a cama e se sentaram de frente, uma para a outra. Elizabeth a fitou com atenção e percebeu que já não havia sinal de choro, ou tristeza. O que a deixou confusa.

--O que foi que aconteceu? – Perguntou, não agüentando aquele suspense.

E Jane passou a relatar o que lhe ocorreu, desde que pôs os pés naquele pub. A traição de Peter, a sua incapacidade de sair de lá antes de ser vista por seu amigo, ele e a mulher com quem estava, e toda a angustia, tristeza e vergonha com que ficou após testemunhar tudo aquilo.

Mas Elizabeth continuou sem compreender. Ali, na sua frente, Jane relatava tudo como se houvesse ocorrido com outro alguém. Ou, talvez, nem mesmo isto – porque, por se tratar de uma pessoa sensível, se compadeceria com o sofrimento alheio. No entanto, estava ali, com o olhar perdido, como se estivesse em um mundo particular.

--E? – Elizabeth insistiu, quando ela ficou em silêncio por muito tempo. – O que mais aconteceu? O que você não está me contando?

Jane despertou de seu delírio e fitou a irmã, de forma culpada.

--Ahh, Lizzie! – Disse, baixinho, envergonhada.

--O que foi? – Elizabeth ficou ainda mais curiosa. – Não me diga que você... deu uma de louca e derrubou a bebida de Peter em cima dele e da mulher? Ou fez um escândalo?

--Não! – Jane exclamou, exasperada. – Claro que não. Como você pode pensar uma coisa dessas de mim? – Perguntou, indignada.

--O que é, então? – Insistiu. – O que você está me escondendo?

--Você vai pensar coisas horríveis de mim. – Murmurou Jane, desviando o seu olhar.

--Não vou, não. – Elizabeth negou. – Diga-me.

--Eu me esbarrei neste... homem... – E Elizabeth detectou em sua voz e em seu jeito um ar deslumbrado. – E ele... – Ela suspirou.

--Safadinha! – Elizabeth riu alto. – Não perdeu tempo, hem? – Brincou, divertida.

--Ahh eu sou horrível mesmo! – Jane exclamou, cobrindo o rosto corado com as duas mãos.

--Ah, Jane, não seja boba! – Elizabeth segurou-a pelos braços e descobriu o seu rosto. Animada, exigiu. – Conte-me tudo, nos mínimos detalhes!

Jane relatou-lhe tudo sobre Charles Bingley, nos exatos e mínimos detalhes, como lhe foi pedido.

--Eu parecia uma boba... afirmando que não bebia... – Comentou exasperada. – Como se dissesse que nunca bebo... Absolutamente nada!

--É claro que ele não pensou assim, querida. – Elizabeth a assegurou. – Ele deve ter entendido o que você queria dizer.

--O que torna tudo ainda pior, porque eu me expliquei logo em seguida. – Elizabeth não conteve o riso com o jeito da irmã. – Você precisava ter visto... Ele deve ter me achando uma boba... Só faltou me oferecer um achocolatado! – Elizabeth gargalhou alto. – Mas não faz mal, eu não vou vê-lo de novo mesmo!

Elizabeth detectou uma tristeza em seu tom de voz.

--Hum... quem sabe! – Comentou. – Pelo menos, você não sentou em seu colo!

--Como? – Jane estranhou o seu comentário, fitando-a com atenção.

E foi a vez de Elizabeth ficar corada de vergonha. Notando isto, Jane exigiu.

--Conte-me tudo, não esconda nada! – Animada.

--Foi um acidente! – Foi só o que Elizabeth conseguiu dizer antes de começar a rir novamente.

 

 

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