Citações

Uma mulher se faz elegante para sua própria satisfação.(Jane Austen)

Colisão - Capítulo I

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Eu estava me movendo na velocidade do som

 

Cabeça girando, não conseguia achar o meu caminho.

Não sabia que eu estava caindo.

Onde eu estava, bem, está tudo confuso

O que eu estava procurando, não tenho certeza

Tarde demais, eu não esperava por isto.

De algum jeito, eu não consegui me deter

Eu só queria saber qual era a sensação

Muito forte, eu não consegui agüentar

Parte I

 

 

De algum jeito, eu não consegui me deter

Eu só queria saber qual era a sensação

Muito forte, eu não consegui agüentar

 

 

 

Agora eu estou tentando entender como e por que isto aconteceu

Pra onde nós estamos indo, não há como saber

 

 

 

Então eu colidi em você e acendi em chamas

Poderia ter sido a minha morte, mas você respirou o seu ar em mim

 

 

 

Eu colidi em você como um trem desgovernado

Você vai me consumir, mas eu não posso evitar

 

Capítulo I

Opostos Perfeitos

 

William, aos seus 30 anos recém completos, tomava o seu devido tempo para vestir um de seus ternos Armani feito sob medida – no tom azul marinho – após ter se barbeado meticulosamente. Um perfeccionista convicto, só saía de sua cobertura com a aparência impecável. Admirou-se diante do espelho, ajeitando a gravata de seda na cor índigo com listras diagonais cinza, entre o colarinho alvo de sua camisa de seda branca. Sapatos lustrosos, cabelo negros penteados, relógio de ouro e anel grosso de formatura na mão direita.

Caminhou tranquilamente pelo seu espaçoso apartamento. Pegou a sua maleta de couro genuíno e seguiu em direção ao elevador de acesso ao seu andar. Como único dono dos dois apartamentos do último andar – transformado em um único imóvel – o elevador só se comunicava com o seu apartamento com a sua prévia autorização.

O elevador demorou de chegar, mas ele esperou com paciência. Acordou, como sempre, às 3 horas da madrugada; fez seus exercícios físicos em sua academia por uma hora e passou as três horas seguintes organizando documentos importantes de sua sociedade em seu escritório.

Às sete da manhã, tomou o seu café da manhã sozinho, enquanto lia os principais jornais do dia em seu laptop – ignorando, propositalmente, as manchetes sensacionalistas e seção de fofocas – e depois tomou um banho.

Tinha duas reuniões extremamente importantes: uma logo no inicio daquela manhã e a outra após o almoço. O seu negócio ia de vento em popa, concedendo-lhe reconhecimento numa área de negócio que seus antepassados ainda não tinham cogitado.

Ele sentia orgulho de si mesmo pelo que tinha conseguido conquistar. Embora nascido de família abastada, precisou trabalhar muito para chegar onde estava a esta idade. O dinheiro e status de sua família apenas lhe abriram as portas para milhares de oportunidades. Seu sucesso em seu meio, entretanto, era fruto de seus esforços. Muitos tiveram oportunidades como as suas, poucos tiveram sucesso. Nenhum outro excedeu as expectativas como ele!

Contudo, não podia se dizer o mesmo de sua vida amorosa. Todos os seus familiares esperavam vê-lo casado, pensando em aumentar a família a esta altura de sua vida. No entanto, via-se solteiro novamente, após o relacionamento de nove anos chegar ao fim repentinamente – para a alegria das solteiras socialites  e revistas de fofocas.

As portas do elevador se abriram e William adentrou no elevador, apertando o botão que o levaria até a garagem. Dois minutos até chegar à garagem; minutos, estes, em que contou mentalmente o número de revistas de fofocas que ainda comentavam sobre o fim de seu namoro com Anne De Bourgh.

Recentemente leu a reportagem escrita pela única colunista de fofoca qual poderia ser levada a sério, Mirian Siqueira. Com o seu dom com as palavras, escreve suas colunas semanais com uma leveza e inteligência, além de uma pitada de humor sórdido. Sempre bem informada, nunca escreveu sobre algo que não fosse genuinamente fático.

É uma verdade universalmente aceita que um homem solteiro, em posse de uma avultada fortuna, precisa de uma esposa.’[1] Perdoe-me, Jane Austen, mas atualmente é de conhecimento universal que um homem solteiro, em posse de uma avultada fortuna, procura mulheres belas para passar uma noite apenas ou, no máximo, ter uma aventurazinha passageira.

A mulher que conseguir fisgar um partido como este é considerada socialmente uma sortuda. E, até recentemente, era assim que todos viam a bela e rica Anne De Bourgh. A única mulher que conseguiu conquistar as atenções de William Alexander Darcy III, jovem arquiteto, primogênito do grande empresário fundador da Darcy & Fitzwilliam Corporation.

Agora o bom partido está livre, leve e solto no mercado em busca de ‘Deus sabe lá o que’, esperando pela mulher certa que fisgará o seu coração – e o seu bolso – definitivamente. Não é à toa o alvoroço que todas as socialites solteironas estão desde o fim do longo relacionamento – que tinha tudo para se transformar em um grande negocio matrimonial...”

Ele imaginava que as revistas já teriam encontrado uma novidade mais estimulante para comentar a esta altura. Afinal, fazia um mês desde o fim de seu relacionamento com a filha de um dos empresários mais importantes de seu meio – que acontecia de ser uma mulher: Catherine De Bourgh.

Anne é aquele tipo de mulher que as pessoas classificam como “perfeita”. Logo, a mulher ideal para ele, um perfeccionista. Bonita, inteligente, sofisticada e rica. E, após um relacionamento sério de nove anos, não é de se estranhar que Anne tivesse suas expectativas quanto ao futuro dos dois – ela não era a única!

Todos já os consideravam noivos, mesmo que William nunca tenha lhe feito proposta alguma neste sentido. Ele, às vezes, perguntava-se porque nunca lhe pedira em casamento. O que ele estava esperando, afinal?!

Enfim, o momento de tomar uma decisão definitiva surgiu um mês atrás, quando Anne, encorajada por sua mãe, lhe deu um ultimato – a proximidade do seu trigésimo aniversário serviu-lhe para lembrá-la de que, assim como ele, ela não estava ficando mais nova com o passar dos dias.

E, diante das opções de escolha, William optou por abster-se. Decisão errada, é claro! Anne terminou o relacionamento de muitos anos em meros segundos. E, agora, ele estava solteiro!

As portas do elevador se abriram e ele caminhou em direção ao seu carro, BMW Z4 coupé, azul. Acionou o controle remoto e abriu a porta do carro do lado do motorista. Entrou no carro, colocando sua maleta de couro no banco do passageiro e fechou a porta do motorista. Ligou o carro, o aquecedor e o rádio, tirou o carro da vaga do estacionamento e dirigiu em direção à portaria da garagem de seu prédio.

Cumprimentou o porteiro da garagem rapidamente e ganhou as ruas de Londres naquela manhã fria e cinzenta de outono.

~#~

O celular vibrou sobre o criado-mudo ao lado da cabeceira da sua cama e logo ela conseguiu ouvir um barulho incessante de uma música irritante, avisando-lhe que devia se levantar da cama. O dia amanheceu!

Elizabeth revirou-se na cama, descobriu a cabeça e estendeu a mão até o celular. Acionou o botão de “soneca” no visor do aparelho e deixou-o sobre o criado-mudo, cobrindo-se até a cabeça com o edredom novamente. Cinco minutos de preguiça não a mataria.

O celular vibrou pela segunda vez. Elizabeth irritou-se imensamente. Não era possível que cinco minutos passassem assim tão depressa. Sequer tivera tempo de fechar os olhos direito. Não, precisava de mais cinco minutos então. “Melhor, dez!”, pensou, ao alcançar o aparelho e reprogramar o despertador para tocar dentro de dez minutos.

Rolou na cama com o aparelho na mão, sem se incomodar de cobrir-se com o edredom novamente. Acomodou-se de bruços, com as mãos – inclusive aquela que segurava o celular – embaixo do travesseiro e fechou os olhos. “Mais dez minutos, é só o que peço!”.

Quando sentiu o seu travesseiro vibrar, sentiu vontade de atirar o celular na parede. Contendo-se, desligou o seu despertador – somente ela sabia quanto tempo demorou a conseguir comprar aquele especifico aparelho celular, com capacidade de armazenar aquela quantidade de músicas, para destruí-lo em um momento de fúria por privação de sono.

Ao erguer-se da cama, tinha certeza de que uma coisa somente: precisava trocar aquela música irritante. “Bom, preciso achar as minhas pantufas primeiro!”, ponderou, ao pousar os pés no piso frio de seu quarto e caminhar na ponta dos pés até a porta. Abriu-a e saiu pelo corredor, seus cabelos longos e em completa desordem recaiam sobre o seu rosto.

Posou a mão na maçaneta da porta do banheiro e a virou, mas a porta não se moveu. Bateu levemente na porta e ouviu um abafado:

--Não enche! – Na voz estridente de sua irmã caçula, Lydia.

--Lyd, eu tenho que usar o banheiro. – Argumentou.

--Eu entrei primeiro. – Lydia replicou, malcriada. – Aguarde a sua vez!

Elizabeth bufou, irritada. Além de acordar cedo – nunca fora fã de acordar de madrugada – ainda tinha de lidar com sua irmãzinha. Dividir um banheiro com quatro outras mulheres nunca foi fácil. Contentava-se com o fato de que Jane e ela, pelo menos, não precisavam dividir o quarto, como Mary, Catherine e Lydia faziam. Algo que deixava Lydia lívida – não podia desfrutar dos privilégios que as duas mais velhas da família Bennet possuíam.

Não que Elizabeth se incomodasse em dividir seu espaço com Jane – nenhum ser humano poderia se incomodar em dividir o que quer que fosse com a doce Jane, sua irmã preferida e melhor amiga. Mas não negava a ninguém: adorava aquela minúscula porção de privacidade em sua vida.

--Lyd, por que você não está vestida para ir a escola? – Perguntou, quando sua irmã finalmente abriu a porta do banheiro.

Lydia estava vestida com um minúsculo conjunto de short e blusa de alcinha – o que ela ousava denominar de “pijama”, embora estivessem no fim do outono e inicio do inverno londrino – ao invés do uniforme da escola particular caríssima que freqüenta.

--Eu tenho uma sessão de fotos hoje, Lizzie, não vou à escola. – Lydia respondeu.

--Sua sessão de fotos será de tarde, Lyd. – Elizabeth contestou. – Nada lhe impede de ir à escola pela manhã.

--Mas eu tenho muitas coisas para fazer... O cabelo, as unhas... – Lydia respondeu. – Não posso desperdiçar o meu tempo precioso indo à escola.

--Eles farão o seu cabelo antes da sessão de fotos, você sabe disso.  – Elizabeth ponderou. – E as suas unhas... – Fitou brevemente as mãos feitas da irmã, pintadas de vermelho sangue. – estão feitas.

--Olá! Eu fiz as unhas anteontem! – Lydia exclamou, como se fosse justificativa suficiente. – Além do mais, eu não posso sair de casa para ir à sessão de fotos parecendo um trapo... Tenho uma imagem a manter! – Concluiu, dando as costas a irmã e indo em direção ao seu quarto.

Elizabeth entrou no banheiro, decidindo ignorar a irresponsabilidade de sua irmã mais nova, e fitou a banheira, sentindo-se tentada a tomar um longo banho quente. Mas não podia se dar este luxo, pois não podia se atrasar. Precisava estar no centro da cidade às 8 horas em ponto.

Despiu-se da calça, blusa de manga comprida de algodão e calcinha sem demora e abriu a porta do box de vidro fumê, entrando naquele cubículo. Fechou a porta e ligou o chuveiro, esperando a água esquentar antes de se aventurar debaixo do chuveiro.

Sabia que já devia estar acostumada com a insipidez de sua irmã caçula. Catherine, embora mais velha que Lydia, seguia o seu exemplo em tudo. Segundo seu pai, ambas se espelhavam em sua mãe – Anita Bennet; quem fora conhecida por Anita Phillips, uma jovem muito bela do interior da Inglaterra que tinha um futuro brilhante na carreira de modelo. Mas que se apaixonou por um pobre e talentoso estudante de filosofia, Joseph Bennet, por quem trocou a sua carreira promissora.

Após tornar-se sua esposa, Anita teve a sua primeira, de cinco filhas: Jane. Verdade seja dita, Anita nunca se sentira tão completa antes de segurar a sua filhinha nos braços, aquele anjinho barroco – uma linda menina de cabelos loiros, encaracolados, e olhos verdes; cópia fiel da mãe. Soube ali que nascera para ser mãe e não tinha dúvidas de que nunca se arrependeria de suas escolhas. Viveria de forma dedicada ao marido e aos filhos que com ele tivesse.

Joseph Bennet não lhe decepcionou, tampouco. Amou-a como toda a mulher sonha ser amada; embora possuíssem personalidades diferentes, juntos formavam um todo. E os filhos que Deus lhe abençoara apenas acrescia para o amor dos dois.

Joseph formou-se com louvor e recebeu uma proposta para lecionar na mesma universidade em que se formara. Após adquirir o seu mestrado – trabalhando meio turno em um bar para sustentar a sua família – passou a lecionar Filosofia em uma Universidade tradicional do Reino Unido e a ganhar relativamente bem – conseguindo melhorar a qualidade de vida de sua família.

No entanto, Anita nunca perdera o sonho com o futuro promissor como modelo. De forma que, quando Lílian Gardiner – uma grande amiga de sua época de modelo, anteriormente conhecida por Lílian Tilsen – veio a sua procura, propondo-lhe uma parceria em uma agência de modelos que montariam juntas com o financiamento de seu esposo Edward Gardiner – brilhante advogado – Anita não se deteve ao convencer o marido em deixar o interior e mudar-se para Londres.

E assim a vida daquela família interiorana mudaria por completo. Joseph Bennet pediu demissão de seu emprego, vendeu o seu único bem herdado da família – o pequeno imóvel em que vivia com sua mulher e cinco filhas pequenas – e mudou-se para a grande cidade.

Com o pouco dinheiro que conseguiu com a venda do imóvel, somado ao montante proporcionado pelo sr. Gardiner, compraram um prédio de três andares em um bairro de classe média, onde os Bennet residiriam – no último andar – e seria montado a agência de modelo – nos dois primeiros andares. As cinco meninas frutos daquele amor seriam responsáveis em completar o sonho de carreira de sua mãe, guiadas para aquele mundo de glamour desde a infância.

Jane, a mais velha, atualmente com vinte e sete anos, tinha conseguido um sucesso relativo durante o desabrochar de sua beleza: aos dezessete anos. No entanto, não alcançara o estrelato que a sua mãe almejara para ela ainda.

Elizabeth, aos vinte e quatro anos, sentia-se empurrada naquela vida, a qual não escolhera para si mesma. Apesar de ser bela – com os seus cabelos castanhos dourados, encaracolados, e olhos castanhos amendoados – não possuía a beleza clássica de sua irmã mais velha. Faltava-lhe a estatura elevada de Jane, embora não pudesse ser considerada baixinha, e tampouco possuí as formas leves e esguia da irmã, sendo dona de um corpo muito mais volumoso e arredondado. Uma mulher capaz de fazer o trânsito parar, mas que não era o ideal de modelo para uma passarela.

Mary, a terceira filha, em seus 22 anos, é à exceção dentre as meninas Bennet. Anita soube desde os primeiros anos da filha que Mary nunca conseguiria ter sucesso como modelo. Baixinha, desengonçada e extremamente tímida, fora a única que pôde escolher para si o futuro. E, influenciada pelo pai, dedicou-se aos estudos desde muito cedo, conseguindo para si uma bolsa de estudos para cursar Física em uma Universidade renomada.

Catherine e Lydia, as duas mais novas, de 17 e 15 anos, eram uma mistura do sr. Bennet e da sra. Bennet fisicamente. Mas uma cópia fiel da mãe em termos de personalidades. Eram as únicas dentre as cinco filhas que tinham certeza de que escolheriam aquele futuro se lhes fosse dado à opção. Ambas ainda cursando o ginásio, sonhavam com o dia em que pudessem dedicar-se exclusivamente a ser famosa.

Elizabeth tomou o seu banho com cuidado, demorando-se ao lavar os cabelos. Ao sair do box, enrolou uma toalha na cabeça e vestiu o roupão, saindo do banheiro. Foi direto para a cozinha. Sentou-se em um dos banquinhos do balcão que separava a sala e a cozinha, ao perceber que Jane estava preparando o café.

“Hum, café!”, suspirou mentalmente ao deliciar-se com aquele aroma de café de grão feito na hora. Não demorou a pedir que a sua irmã colocasse uma caneca de café para ela. As duas assim permaneceram por alguns minutos daquele começo de manhã, tomando café juntas, desfrutando do silêncio confortável daquele inicio de manhã e, ocasionalmente, conversando sobre as atividades a que dedicariam àquele dia.

Quando se encaminhava para o quarto, após terminar de tomar café, Jane lhe disse:

--Eu coloquei um dos meus vestidos e par de sapatos que combina com ele em seu quarto.

--Oh, obrigada, querida! – Elizabeth agradeceu sinceramente; esquecera-se por completo de que deveria ter se preocupado com o que vestir esta manhã na noite passada. – Muito obrigada!

--Não foi nada... Você precisa causar uma boa impressão. – Jane replicou. – E eu sei que irá... O fez durante a primeira entrevista... Charlotte garantiu que Ariel Choo ficou impressionada com você. – Encorajou-a, sempre otimista.

--Sim, ela me disse também. – Respondeu, mas mantendo-se realista. Não era a primeira vez que deixava de ser contratada para desfilar por uma estilista em ascensão.

Entrou em seu quarto e encontrou o vestido azul celeste de modelo Galaxi sobre a cama e o par de sapatos scarpin de cetin negro, salto agulha, aos pés desta. Começou a vestir-se e depois foi pentear os cabelos. Arrumou-o em um coque elaborado, calçou os sapatos e maquiou-se levemente. Perfumou-se e pegou o sobretudo branco, assim como sua bolsa negra.

Ao pegar o celular sobre o criado-mudo, viu em seu visor – 7h25min. Percebeu que estava atrasada; se não se apressasse, não conseguiria pegar o metrô.

~#~

As ruas de Londres ainda estavam tranqüilas naquela parte da cidade, mas William sabia que não permaneceria assim por muito tempo. Principalmente quando se aproximasse do centro da cidade. No entanto, sentia a sua mente voltando a vagar para os seus problemas particulares. A sua vida amorosa – ou melhor, a inexistência desta – não era a única coisa que estava começando a lhe tirar do sério ultimamente.

Quando se formou em arquitetura – contra a vontade e expectativa de seu pai – e abriu uma sociedade com o seu melhor amigo e colega de universidade, Charles Bingley, William deixara-se guiar pela sua paixão pelo que fazia. Não queria ser o diretor executivo, além de sócio majoritário, de uma grande corporação como a Darcy & Fitzwilliam Corporation. Ele não queria ficar sentado atrás de uma mesa de carvalho em uma sala de escritório todos os dias, lidando com contratos e fusões. Ele queria criar, desde o primeiro rascunho até a magnitude da construção material daquilo que se via em um pedaço de papel.

E nos primeiros anos em sua profissão foi exatamente isto o que fez. Ele criou! As suas criações, em particular as duas últimas, lhe deram o reconhecimento que tanto desejava. Até mesmo o seu pai reconheceu o seu valor, ficando incrivelmente orgulhoso dele.

O seu negócio começou a expandir e os trabalhos agora lhe são oferecidos em uma bandeja de prata, ao contrário de quando ele precisava lutar com unhas e dentes para conseguir uma mísera oportunidade para demonstrar o seu valor. Sua sociedade ganhou um novo endereço, instalando-se em um dos prédios mais importantes ao centro do distrito financeiro de Londres, o Swiss Re Tower – uma obra contemporânea do arquiteto Norman Foster, pelo qual William tinha uma particular admiração.

Foi-lhe possível fazer novas contratações. Novas mentes brilhantes, recém-formadas de faculdades de arquitetura em todo o país sonhavam em trabalhar para ele. E William se viu ocupando aquele mesmo lugar do qual fugira poucos anos atrás. O de executivo. Afinal, alguém tinha de administrar aquele negócio de sucesso.

A cada dia via-se mais cercado por papéis e contratos ao invés de um canteiro de obras, ou, até mesmo, uma prancheta de desenho. Sim, ainda tinha o controle sobre as criações que assinava – sendo ele e Charles os últimos a avaliarem os projetos e darem o aval, ou fazer as devidas mudanças que achassem necessárias. Mas sentia falta de criar algo do nada, desde o seu primeiro traço numa folha de papel em branco.

Charles ainda se via mais cercado pelas criações que ele, já que se encarregara da chefia da área criativa de sua sociedade. O que o deixara com certa inveja – o que não daria para inverter as situações? Contudo, isto não era possível. Charles não tinha o que era preciso para comandar um negócio com a proporção que o deles estava tomando, faltava-lhe o pulso firme nas suas decisões – o que ele, William, tinha de sobra.

Tentou ignorar aqueles pensamentos negativos e se concentrar na direção. Olhando para o seu relógio de pulso, notou que tinha tempo de sobra para chegar ao trabalho. Embora pudesse chegar à hora que desejasse – sendo ele o chefe – preferia chegar cedo e dar o exemplo aos seus empregados. E, em dias como este, em que tinha reuniões importantes marcadas cedo pela manhã, preferia estar lá com antecedência.

O trânsito fluía tranquilamente esta manhã, permitindo a William acelerar o seu carro, ao dirigir por aquelas ruas conhecidas com bastante precisão. A estação de rádio em que estivera sintonizado anunciou as principais noticias do momento e começou a tocar uma música de uma cantora pop qualquer que não agradou nem um pouco William.

Ele acionou o CD de seu aparelho de som e uma das faixas do CD trilha sonora do filme Segundas Intenções (Cruel Intentions) soou pelos auto-falantes. Georgiana, sua única irmã, esteve com ele o fim de semana passado e estava convencida de que o influenciaria a escutar “boa música” – em sua particular opinião. Por isto, deixara alguns de seus CDs com ele.

William franziu a testa ao dar atenção à letra da música You blew me off, preferindo trocar os CDs. Colocando outro que a sua irmã também deixara ao compartimento do porta-luvas – CD de Chris Daughtry. Inconscientemente, seus dedos começaram a bater de leve ao volante do carro, acompanhando o ritmo e batidas da música Crashed.

Distraído com a música, olhava para as pessoas que já estavam nas ruas àquela hora da manhã – em sua grande maioria a caminho do trabalho, assim como ele. Seus olhos pousaram rapidamente em uma mulher que corria pela calçada, esbarrando em algumas pessoas pelo caminho e usando um pequeno poste de luz para auxiliá-la em uma curva à esquina da rua.

Ele não notou, mais manteve o seu olhar nela enquanto ela corria em seu salto alto agulha, permitindo que o seu sobretudo branco balançasse ao vento e deixando à amostra suas longas e torneadas pernas, além de um pouco do tecido do vestido azul celeste que usava – o qual estava enrugado pelo meio das suas coxas, graças as suas longas passadas. O seu cabelo, preso em um perfeito coque, começava a desmanchar. Mas nada parecia detê-la, pela forma decidida que ela corria pelo passeio.

Bang! William sentiu o seu corpo ser impulsionado para frente e o cinto de segurança puxá-lo de volta. O airbag foi acionado, tomando toda a sua visão. William ficou ali sentado, atordoado, por alguns segundos. Antes de esmurrar o saco do airbag, até que este murchou. E ele finalmente pôde ver o que lhe acometera.

Tudo o que viu foi a traseira de um carro econômico. Inspirando e expirando profundamente, frustrado, tirou o cinto de segurança e abriu a porta do carro. Um homem atarracado, meio careca, vestido com um terno marrom de segunda mão saiu do carro econômico em que batera e colocou as mãos na cabeça, ao deparar-se com o estrago que a batida causara em seu carro.

William caminhou em sua direção e parou ao seu lado, temendo olhar para o estrago que ficara o seu novíssimo carro – que sequer completara um ano.

--Você não viu o sinal vermelho, não? – O senhor atarracado exclamou, furioso. – Está cego?

Outros carros atrás do BMW Z4 coupé começaram a buzinar, assim que o sinal ficou verde. William, trabalhosamente, conseguiu convencer ao senhor atarracado a entrar em seu carro e movê-lo para o encostamento, para que pudessem liberar a rua. Isto sendo feito, voltaram a se encontrar ao passeio.

William tentou argumentar com o senhor e tranqüilizá-lo de que o seu seguro cobriria quaisquer danos sofridos com aquele acidente. Após alguns minutos, finalmente conseguiu extrair do senhor as devidas informações para solucionar aquele problema e lhe assegurou que não precisava se preocupar com nada. Ao fim, entregou ao senhor o seu cartão de negócios e recomendou-lhe ligar para ele, que qualquer outro pormenor seria tratado por sua assistente.

Quando as autoridades chegaram ao local do acidente, boa parte do problema fora resolvido amigavelmente entre os envolvidos. Enquanto era feito o boletim de ocorrência, William ousou averiguar o seu próprio carro. O estrago era visível, toda a frente do BMW Z4 estava amassada. William bufou, passando a mão em seu cabelo – ele amava aquele carro, que crime!

Quando foram liberados pelas autoridades, William entrou novamente em seu carro e seguiu o seu caminho. Sabia que estava perto de se atrasar para sua primeira reunião, mas desviou de sua rota. Resolveu que precisava colocar o seu carro em uma oficina urgentemente – não deixaria nas mãos da seguradora resolver aquele problema.

Não poderia esperar o seu carro passar por uma perícia para decidirem quem deveria arcar com os custos daquela batida. Colocaria o seu carro para consertar e pagaria as despesas do conserto do outro carro ele mesmo – afinal, a culpa do acidente era dele, que ficara olhando as pernas de uma desconhecida ao invés de dar atenção à direção.

Ligou para a sua assistente, a srta. Moira Reynolds, informando-lhe os acontecimentos e onde se encontrava. Pedindo-lhe para repassar a informação a Charles e prosseguirem com a reunião sem ele, que faria o possível para estar lá o mais rápido que conseguisse. Pediu-lhe também para ficar atenta a qualquer telefonema do senhor com quem colidira àquela manhã e para ligar para uma empresa de táxi, para que viesse buscá-lo na oficina.

Deixou o seu carro em uma das oficinas cadastradas da concessionária do veículo, após certificar-se de que o receberia “novo em folha”. O que mais demorou a ser acertado foi o prazo de entrega. A oficina, a princípio, lhe deu um prazo de 45 dias, o qual o deixou indignado. Por acaso eles não sabiam quem ele era?

William nunca foi muito apegado aos privilégios que o nome de sua família lhe trouxe na vida. Mas não se recusaria a aproveitar-se dele em um momento de necessidade como este. Discutiu com todas as pessoas que precisou para conseguir a garantia de que o seu carro lhe seria entregue no prazo de 15 dias apenas.

E ao sair da oficina, encontrou o taxi a sua espera, como imaginava que seria – a sua assistente sempre lhe foi eficiente em todas as situações. Sabia que podia contar com Moira para o que quer que fosse. Por isto mesmo que a contratara como sua assistente pessoal.

Entrando no táxi, finalmente seguiu em direção ao centro de Londres.

 



[1] Frase presente na obra literária Orgulho e Preconceito da autora Jane Austen.

 

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