Citações

Quando as pessoas se decidem a adotar um tipo de conduta que sabem errada, sentem-se injuriadas quando se espera algo melhor da parte delas.(Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo LIX

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Capítulo 59

 

Elizabeth colocou a sua fantasia sobre a sua cama e voltou-se para o seu armário. Pegou o restante de seus apetrechos e depositou ao lado da fantasia, sobre a cama. Ligou o seu rádio, em um volume bastante alto, ao sintonizá-lo em sua estação preferida. Assim pretendia se arrumar para a festa de Halloween que seria em Johnson’s High, tentando entrar no clima de festa.

            A verdade é que passara a sexta-feira inteira invejando a sorte de sua irmã. Charles houvera sido um namorado dos sonhos, ao assumir o seu erro e fazer de tudo para redimir-se com Jane. Na verdade, um ex-futuro-namorado, já que os dois não tinham reatado propriamente. Tão romântico quanto Jane, Charles decidira cortejá-la como se houvesse a conhecido no momento em que se desculpara. Transformara a ida a esta festa como o seu mais novo primeiro encontro.

            Elizabeth não se cansava de suspirar todas as vezes que recordava o relato que sua irmã lhe fizera assim que chegaram a casa na quinta-feira e puderam conversar mais a vontade. O discurso de Charles foi de tirar o fôlego de qualquer mulher, sem sombra de dúvida. “Eu estive perdido sem você... Mal dormi todos estes dias!”, Jane houvera lhe afirmado que ele lhe dissera. 

            Em comparação, Will sequer lhe dissera um “bom dia” ou um simples “olá” a semana toda. O máximo que fez foi fitá-la fixamente nos dois últimos dias. Elizabeth considerava isso bastante irritante; se ele não tinha intenção de tentar reatar o namoro dos dois, por que ficava a encarando desta forma?! Seria melhor que ele não a olhasse em momento algum; pelo menos assim, se continuasse a agir com indiferença, ela não ficaria alimentando falsas esperanças quanto a eles dois. Mas não! Ele tinha de torturá-la deste jeito!

            “É a minha sina: apaixonar-me pelo garoto errado!”, ela exclamou, mentalmente, à medida que caminhava em direção ao banheiro. A estação de rádio que escutava anunciou uma música de Mariah Carey e Elizabeth deteu-se a porta de seu banheiro por um momento, esperando que a música começasse. Como a música lhe agradou, ela retornou ao seu quarto e aproximou-se do seu aparelho de som, aumentando ainda mais o volume. Retornou ao banheiro logo em seguida, balançando-se ao ritmo da música It’s like that.

            Ouvindo àquela música, Elizabeth começou a se despir e depois começou a tomar banho. Dizendo a si mesma que não devia ficar se torturando com aqueles pensamentos que só a deixariam deprimida; dizendo a si mesma que aquela era uma noite de festa e ela devia querer comemorar a felicidade de sua irmã, diverte-se com suas amigas e esquecer-se de Fitzwilliam Darcy de uma vez por todas.

'Cause it's my night

(Porque esta é a minha noite)
No stress, no fights

(Sem estresse, sem brigas)
I'm leaving it all behind

(Estou deixando tudo para trás)
No tears, no time to cry

(Sem lágrimas, sem tempo para chorar)
Just making the most of life

(Apenas aproveitando o melhor da vida)

            Quando terminou o banho, já estava com um humor completamente diferente. Começou a se arrumar para aquela festa já com um espírito mais leve, até sentindo-se animada com a perspectiva do evento daquela noite. Passou hidratante com o cheiro de maça verde no corpo, perfumou-se com um dos aromas cítricos suaves que mais lhe agradava e começou a vestir a sua fantasia.

            Vestiu a saia rodada branca de bolinhas pretas, a blusa Polo de algodão preta, de botões brancos, deixando os três primeiros botões desabotoados; colocou o cinto preto de fivela prateada na cintura, calçou as meias brancas e o tênis All Star preto e branco. Caminhou para frente do espelho atrás da porta do banheiro – no qual tinha uma visão do corpo inteiro – e ajeitou bem a roupa, antes de entrar no banheiro e começar a pentear os cabelos.

            Fez um rabo de cavalo, fazendo cachinhos como acabamento. E começou a se preocupar com a maquiagem. Como estava fantasiada no estilo rock’n roll anos 50, delineou os olhos e usou de uma sobra nos olhos de tons suaves, mas com brilhos. Deixou as bochechas suavemente rosadas e passou um batom igualmente discreto, cor de boca, apenas para realçar os contornos dos seus lábios.

            Retornando ao seu quarto, pegou o lenço de seda de cor branca de bolinhas pretas e reaproximou-se do espelho atrás da porta do banheiro. Colocou o lenço no pescoço e retornou até a sua cama, pegando as luvas de renda preta, as calçando. Voltou para frente do espelho e apreciou o seu visual, ficando satisfeita com o resultado. Sorriu para si mesma, considerando que a música que estava tocando na estação de rádio àquele instante não podia ser mais perfeita para aquele momento.

There's a new me coming out

(Há uma nova “eu” nascendo)
And I just had to live

(E eu só quero viver)
And I wanna give

(Eu quero dar)
I'm completely positive

(Estou completamente otimista)
I think this time around

(Eu acho que desta vez)
I am gonna do it

(Eu vou fazer)
Like you never do it

(Do jeito que você nunca fez)
Like you never knew it

(Do jeito que você nunca soube)
Ooh, I'll make it through

(Eu vou conseguir)
The time has come for me

(É o momento para eu)
To break out of the shell

(Sair desse casulo)
I have to shout

(Eu tenho que gritar)
That I'm coming out

(Que estou me libertando)

--Está pronta? – Jane disse, ao abrir a porta do quarto de Elizabeth e vê-la parada diante do espelho, já vestida e bastante perfumada.

--Sim. – Elizabeth respondeu, voltando-se e sorrindo para o “anjo” Jane (vestida de Julieta, com o majestoso vestido branco e as asinhas de anjo, com o mesmo penteado, em que uma trança feita com o próprio cabelo transformasse em auréola, mas com os cabelos com delicados cachos louros descansando em seus ombros).

I'm coming out

(Eu estou saindo)
I want the world to know

(Eu quero que o mundo saiba)
Got to let it show

(Tenho que me exibir)

--Charles já está nos esperando lá embaixo. – Jane replicou, quando Elizabeth se aproximou do seu aparelho de som e o desligou, caminhando em direção a porta.

--E do que ele está vestido? – Elizabeth questionou, curiosa.

--Você não vai adivinhar! – Jane respondeu, rindo-se.

            Elizabeth ficou ainda mais curiosa, apressando-se a descer a escada à frente de Jane. Sua irmã, por sua vez, caminhou calmamente e desceu a escada como se descesse de uma nuvem. Quando as duas entraram na sala de estar, Charles se levantou do sofá – onde estivera sentado, as aguardando, na companhia do sr. e da sra. Abbott – vestido de Romeu (fantasiado de armadura de cavaleiro, prata).

--Como você soube? – Elizabeth exclamou, boquiaberta; por algum motivo, Elizabeth custava a acreditar que aquilo era uma coincidência.

--Eu tive sorte, eu acho. – Charles replicou, sorrindo; de forma alguma iria denunciar o seu amigo. – Você está linda!

--Obrigada! – Elizabeth disse, sorrindo, e deu uma voltinha de 360º, fazendo sua saia flutuar. – Vamos?

            Os três saíram da casa dos Abbott sorridentes e animados com a festa.

____________________________________

            Will fitava-se diante do espelho do seu quarto, após ter tomado um banho demorado e feito a barba. Era o primeiro Halloween que se fantasiava desde os dez anos de idade, pelo que se lembrava. Mas, ponderando a respeito, ele não acreditava que estava deixando a desejar em seu look. Ele terminou de abotoar as mangas de sua blusa de linho social preta, e ergueu os suspensórios da calça social do terno de risca de giz preta. Colocou a gravata branca e demorou-se em seu nó, qual tinha que ficar perfeito.

            Recordava-se dos dois últimos dias à escola, quando se comportara como um covarde. Ele não conseguiu adquirir a coragem para falar com Elizabeth depois daquele incidente da escada, passando todos os momentos seguintes a este em que se encontravam a apenas observá-la de longe. Era verdadeiramente patético, ele sabia.

            Mas estava decidido a mudar isto esta noite. Esta festa seria a ocasião perfeita para concertar as suas idiotices e ele estava determinado a não deixar esta oportunidade lhe escapar, como fizera na ocasião do esbarrão à escada. Espelhando-se na festa de casamento da prima de Elizabeth, imaginava que só precisaria convidá-la para dançar uma música lenta. Assim, com ela em seus braços, poderia lhe dizer o quão arrependido estava, o quanto sentia a sua falta. E se ela não acreditasse, demonstraria a ela – sorriu para si mesmo ao imaginar-se a beijando de novo.

            Caminhou até a sua cama e pegou o blazer do seu terno de risca de giz - riscas grossas e com 2 centímetros de distância uma da outra. Vestiu o blazer e pegou o chapéu preto, retornando para frente do espelho. O par de sapatos social preto, lustroso, combinava perfeitamente com o terno alinhado de risca de giz preto, a blusa de linho social preta e a gravata branca. Completou o visual de gangster nova-iorquino das décadas de 20 e 30 com o chapéu preto, com o pequeno detalhe de linha branca em sua aba. O qual ele posicionou em sua cabeça, ligeiramente inclinado para um lado.  

Please allow me to introduce myself

(Por favor, permita-me me apresentar)
I'm a man of wealth and taste

(Eu sou um homem rico e de bom gosto)
I've been around for a long, long years

(Eu estive por aqui por muitos, muitos anos)
Stole many a man's soul and faith

(Roubei a alma e a fé de muitos homens)
And I was 'round when Jesus Christ

(Eu estava por perto quando Jesus Cristo)
Had his moment of doubt and pain

(Teve seu momento de dúvida e dor)
Made damn sure that Pilate

(Me certifiquei de que Pilatos)
Washed his hands and sealed his fate (woo)

(Lavasse suas mãos e selasse o seu destino – woo)

            Will pegou o seu celular e colocou no bolso da calça, indo desligar o rádio de seu quarto.  Caminhou em direção a porta, a abrindo. Desligou a luz e saiu do quarto, fechando a porta às suas costas. Ao surgir à sala, o sr. Darcy soltou um assovio longo ao avistá-lo, ocasionando um sobressalto em sua esposa e sua filha. As duas damas logo se viraram para fitá-lo também e sorriram.

--Uau! – Georgiana exclamou, erguendo-se do sofá e acercando-se do irmão. – Você irá fantasiado! – Ela brincou, ao caminhar a sua volta, o olhando dos pés a cabeça. – Você não dizia que se fantasiar é coisa de criancinha! – Ela o abusava, enquanto o sr. e a sra. Darcy riam, e Will a ignorava propositalmente. – E o que você é, exatamente? – Ela insistiu, parando a sua frente e erguendo o olhar para ele, com a testa franzida. – MIB: Homens de Preto (Men In Black)?! – Fazendo Will devolver-lhe um olhar incrédulo.

--Eu sou O Poderoso Chefão (The Godfather)! – Will replicou, impaciente; só conseguindo aumentar os sorrisos de seus pais.

--Quem?! – Georgiana rebateu, fingindo-se de desentendida.

--Sou um gangster! – Will explicou, ficando ainda mais nervoso.

--Ohh... – Georgiana persistiu com a sua charada; mas logo riu-se e disse. – Ainda parece MIB para mim!

--E do que é que você entende?! – Will rebateu, pegando a chave de seu carro. – Eu estou indo. – Disse a todos, sem voltar-se para encará-los novamente, caminhando em direção a porta.

--Divirta-se. – A sra. Darcy respondeu, rindo-se ainda mais do comportamento dos seus filhos.

            Will entrou em seu carro e fechou a porta. Colocou a chave na ignição, acendeu as luzes dos faróis e retirou o carro da garagem. Ligou o aparelho de som do seu carro, ainda conseguindo escutar parte da música dos Rolling Stones que estivera ouvindo em seu quarto antes de sair; seguindo o caminho até a sua antiga escola tamborilando os dedos no volante do carro no ritmo de Sympathy for the Devil.

Just as every cop is a criminal

(Assim como todo policial é um criminoso)
And all the sinners saints

(E todos os pecadores são santos)
As heads is tails

(Como cara é coroa)
Just call me Lucifer

(Chame-me de Lucifer)
'Cause I'm in need of some restraint

(Porque eu estou precisando de autocontrole)
(who who, who who)

(quem, quem, quem, quem)
So if you meet me

(Então, se nos encontrarmos)
Have some courtesy

(Seja um pouco cortês)
Have some sympathy, and some taste

(Seja simpatico e tenha bom gosto)
(woo woo)
Use all your well-learned politesse

(Use todo o seu talent para a política)
Or I'll lay your soul to waste, um yeah

(Ou eu tomarei a sua alma, oh sim!)
(woo woo, woo woo)

Pleased to meet you

(Um prazer lhe conhecer)
Hope you guess my name

(Espero que você adivinhe o meu nome)
But what's puzzling you

(O que está confundindo você)
Is the nature of my game

(É a natureza do meu jogo)

____________________________________

            Elizabeth desceu do carro de Charles e admirou o prédio de Johnson’s High. Verdade seja dita, ela sempre gostou dos prédios com as estruturas antigas, quais se assemelhavam a castelos. Sim, Austen House era uma escola de estrutura física perfeita, mas as suas instalações foram construídas recentemente, nos anos 90. Nada comparado ao casarão antigo fundado nos inícios dos anos 20 que era Johnson’s High. Parecia-lhe, Elizabeth ponderava, racional que uma escola tradicional, de renome como Johnson’s High possuísse algum diferencial se comparado a Austen House – a qual, embora já possuísse certo reconhecimento por sua boa qualidade de ensino e instalações, é uma escola consideravelmente nova.

            Elizabeth ficou ali parada, ao estacionamento privado de Johnson’s High, com a cabeça erguida, admirando aquele esplendoroso casarão – na tonalidade vermelho escuro, cor de tijolo; telhados cinza; inúmeras janelas, algumas retangulares e outras em formatos de arcos. Respirou aquele ar noturno gélido, o qual lhe fez recordar uma noite com propensões a neve. E aconchegou-se em seu caloroso casaco – o qual vestira por cima de sua fantasia.

            Jane e Charles já se dirigiam a entrada da escola, precisando parar e voltar-se para Elizabeth, chamando por ela, para conseguir que ela os acompanhasse. Elizabeth apressou os passos e juntou-se a sua irmã e ex-futuro-cunhado; o casal andava lado a lado, mas não estavam de mãos dadas. Em um momento ou outro, eles se olhavam e sorriam timidamente um para o outro. Elizabeth seguia atrás deles, os observando felizes daquela forma e também sorria.

            Eles atravessaram os portões de ferro da entrada da escola e escalaram os degraus da escadaria, passando pelo porteiro – o qual conhecia Charles e o cumprimentou amistosamente. As meninas seguiram Charles pelos corredores da escola, o qual estava mal iluminado – dando todo o clima sombrio para a ocasião. Notando alguns outros jovens também perambulando pelos corredores, conversando animadamente, todos devidamente e criativamente fantasiados.

            Charles guiou as meninas até uma sala, onde uma servente da escola estava recebendo os casacos de cada aluno e os guardando, entregando-lhe pequenos bilhetes com números correspondentes às etiquetas colocadas em cada casaco. Charles tratou de guardar os bilhetes dos três ao bolso de sua calça e eles puderam seguir o caminho em direção à quadra de esportes interna de Johnson’s High – onde estava se sediando a festa.

            À medida que se aproximavam do corredor que os levariam a quadra de esportes interna, a quantidade de jovens fantasiados aumentava e, com eles, o barulho. Contudo, os três puderam distinguir facilmente o som de uma música que escapava pelas frestas das portas da quadra de esportes – uma melodia que inspirava magia; à medida que pensava nisso, Elizabeth reconheceu a música tema de Harry Potter e riu-se.

            Quando as portas da quadra de esportes foram abertas, revelou-se um mundo completamente imaginário. Elizabeth viu-se entrando em um cemitério assustador: as paredes que cercavam aquela ampla quadra de esportes foram transformadas em murais, nelas estavam pintadas uma floresta funesta, com árvores de galhos sem folhas e olhos em tons vermelhos e amarelos florescentes que pareciam seguir-lhe aonde quer que você fosse; à arquibancada fora construído uma grande maquete em formato de uma igreja sinistra ao topo de seus últimos degraus, a qual crescia até o teto, e vários túmulos em tons acinzentados estavam espalhados entre seus degraus inferiores, cercados por cruzes e estatuas de gesso de anjos da noite; em uma das extremidades da quadra houvera sido armado uma longa mesa de aperitivos, disposta enfrente a um mural que representava um casarão antigo mal assombrado; mesas cobertas por panos brancos, de aspecto antigo, meio amarelados, possuíam castiças com velas artificiais ao seu centro, coberto por teias de aranha igualmente artificiais; as cadeiras a sua volta também estavam cobertas por lençóis branco-amarelados; estas mesas cercavam a pista de dança ao centro da quadra, a qual estava coberta por uma camada de nuvem de vapor, não permitindo que ninguém conseguisse enxergar os seus próprios pés; o teto houvera sido transformado em mais um mural, representando uma noite estrelada, de lua cheia; e, ao centro deste, havia uma daquelas bolas de espelhos encontradas em discotecas e casas noturnas.

            Procurando por o DJ, Elizabeth visualizou Mary. Ela estava parada de pé próxima ao cubículo do DJ – o qual estava igualmente decorado, representado por uma velha árvore oca. Mary estava de costas para o cubículo do DJ, de braços cruzados e observava o movimento dos demais jovens a sua volta. Parecia entediada, o que só transformava a sua caricatura ainda mais fiel a fantasia que decidira usar em tal ocasião. Mary estava perfeita como Vandinha da Família Adams, ninguém podia negar – o vestido negro, longo, de mangas cumpridas; as tranças bem feitas e deitadas em seus ombros; a maquiagem que cobria o seu rosto e deixavam-no ainda mais pálido, com os olhos devidamente delineados.

            Elizabeth caminhou decididamente até ela, satisfeita por tê-la encontrado ali ao meio de tantas pessoas. Charles e Jane a seguiram, um pouco depois – Charles estivera procurando por Will com o olhar, pois vira o seu carro ocupando uma vaga ao estacionamento privado de Johnson’s High. 

--Mary. – Elizabeth chamou por ela, para conseguir chamar a sua atenção. – Ou devo dizer: Vandinha! – E, dizendo isso, sorriu para Mary.

--Oi, Lizzie. – Mary a cumprimentou, aparentemente aliviada por não estar mais sozinha. – Jane, Charles. – Sorriu amistosamente para o casal, quando eles se juntaram às duas.

--Oi, Mary. – Jane correspondeu-lhe ao sorriso.

--Oi! – Charles, por sua vez, demonstrou uma animação excessiva. – Adorei a sua fantasia!! – Conseguindo que Mary ficasse com a testa franzida por um segundo e, logo após, respondesse.

--Obrigada. – De forma contida, mas com sinceridade.

--Julieta,... – Charles voltou-se para Jane; com muito charme, pegou em sua mão e ergueu aos seus lábios, a beijando. – eu já volto. – E saiu, deixando uma Jane corada a observá-lo se afastar e sumir entre os outros alunos.

            Elizabeth e Mary trocaram olhares significativos ao observar aquela cena; Elizabeth sorriu ao olhar para irmã e Mary balançou a cabeça, negativamente, mas também sorriu, ao virar o rosto em outra direção. Jane estava bastante ruborizada após tal galanteria da parte de Charles.

--Você viu alguma das meninas? – Elizabeth questionou Mary.

--Lydia está aqui em algum lugar. – Mary replicou, olhando a sua volta.

            E, como se houvesse ouvido o chamado, Lydia se juntou às meninas. Ela estava vestida de Madonna, na época do álbum Like a Virgin. Estava vestida com um espartilho preto, uma saia curta de renda rodada igualmente preta, meia calça arrastão preta, botas de salto fino e cano alto preta; estava usando luvas de rendas similares a de Elizabeth; uma gargantilha de couro e um pingente prateador com a letra L; brincos prateados e um penteado bastante ousado, deixando-a com um ar selvagem; maquiagem sexy e pesada.

--Oi, meninas!

--Uau, Lydia! – Elizabeth e Jane exclamaram juntas. – Você se superou! – Elizabeth completou, quando Jane ficou sem palavras.

--Gostaram? – Lydia questionou sorridente e dando um giro de 360º em volta de si mesma para se mostra às amigas.

--Não fomos as únicas. – Elizabeth murmurou, quando um garoto fantasiado de Huck passou por elas e olhou Lydia dos pés a cabeça, ficando boquiaberto.

--Ótimo! – Lydia respondeu, entendendo o sentido do comentário de Elizabeth; pensava consigo mesma que se George não tomasse uma atitude definitiva para com ela, trataria de esquecê-lo definitivamente esta noite.

            Naquele exato instante, os pensamentos de Lydia foram interrompidos quando ela avistou um menino. Ela tratou de segurar Mary pelos ombros e virou-a na direção contrária a que ela estava olhando; dizendo:

--Cuidado, ele pode ver você! – Surpreendendo a todas as meninas.

--Quem?! – Mary, Elizabeth e Jane perguntaram; as duas últimas olhando ao seu redor, em busca do pivô da ação de Lydia.

--Bill Collins. – Lydia respondeu, olhando por sobre o seu ombro, o vendo passar as suas costas, olhando em todas as direções como se procurasse alguém. – Ele se intrometeu em meu caminho um minuto atrás, querendo saber se eu havia lhe visto. – Lydia explicou-se para Mary, quem permanecia de costas à direção em que ele estava e, conseqüentemente, fitava o cubículo do DJ.

            Desde o pequeno incidente com Elizabeth, Bill decidiu que ela não merecia o seu desgaste e o seu precioso tempo; então, concentrou toda a sua energia em encontrar uma substituta para a sua afeição. Recordando-se dos momentos maravilhosos que passara conversando com Mary ao parque de diversões, lembrando-se de quão inteligente e bem humorada Mary demonstrou ser – assim como fizera com Elizabeth, ele estava criando um personagem ao seu gosto para Mary – e decidiu que ela era a candidata perfeita para a sua amabilidade.

            Elizabeth e Jane o fitaram por um bom tempo. Bill Collins também soubera escolher a sua fantasia de Halloween adequadamente para a sua figura. Nenhum outro personagem cairia-lhe tão bem quanto Severo Snape; ele estava vestido com uma longa capa verde musgo, de mangas cumpridas, cheia de botões – todos devidamente abotoados até o pescoço – com uma blusa de manga cumprida branca por debaixo da capa, mas que ficava ligeiramente a mostra em seus pulsos. O seu cabelo estava partido ao meio e devidamente escovado – Elizabeth questionou-se se ele teria ido ao salão escovar os cabelos – mas sem perder aquele aspecto oleoso de sempre. E, à medida que ele andava, a capa esvoaçava ao chão, pela nuvem de vapor frio de gelo seco, lembrando-lhe as cenas em que Severo Snape entrava em sua sala de aula, nas masmorras.

            Ele logo sumiu em meio à multidão de alunos fantasiados e Mary pode retornar a sua antiga posição. Ao fitar Mary, Elizabeth percebeu que ela parecia chateada com alguma coisa. Com um pesar no peito – imaginando que era porque ela nutria alguma afeição por Collins e tinha vergonha de admitir para elas – Elizabeth questionou-lhe.

--Tudo bem, Mary?

--Sim. – Mary respondeu, defensivamente. – Por quê?

--Você parece um pouco irritadiça. – Elizabeth explicou, ganhando a atenção das duas outras meninas, que se voltaram para fitar Mary.

Assim como Elizabeth, Jane e Lydia imaginaram que Mary podia estar interessada em Bill. Jane começou a se sentir culpada, por fazer Mary se sentir desconfortável com aquela situação, e Lydia a ficar inconformada, não queria que uma amiga sua – sim, já considerava Mary uma amiga – se apaixonasse por um garoto como Bill Collins; “é tão decepcionante!”

--Oh,... – Mary começou a responder, olhando para alguém à suas costas. – aquele DJ.

--O que tem ele? – Jane questionou, olhando para o DJ (ele estava fantasiado de presidiário, com uma blusa e calça branca de listras pretas; à blusa havia uma numeração de seis dígitos; e ainda estava usando um chapéu igualmente branco de listras pretas).

--Ele fica acenando para mim o tempo todo, com aquele sorriso convencido! – Mary explicou, chateada.

--Ele é um gato! – Lydia exclamou, voltando a sorrir; ponderando: “Ele, certamente, dá de 10 a zero em Bill Collins!”

--Ele é um cretino! – Mary replicou, deixando as amigas a fitá-la, confusas quanto a sua alegação.

--Você o conhece? – Elizabeth perguntou-lhe, curiosa.

--Não. – Mary respondeu. – Quero dizer,... eu fui até ele... – Mary começou a relatar com tranqüilidade. – e me apresentei, oferecendo a minha ajuda... – Enquanto as meninas a ouviam com atenção e, ao mesmo tempo, observavam o DJ. – Sabe? Como DJ... Caso ele ficasse cansado, eu o substituiria. – Neste ponto, Mary passou a demonstrar mais a sua irritação. – E o idiota fez questão de dizer que nunca confiaria em uma mulher para fazer o seu trabalho, mas que tocaria uma música do meu agrado para mim... Que era só eu pedir, ele nunca deixaria de atender ao pedido de uma “gatinha”! – E, ao pronunciar a palavra “gatinha”, Mary soou ainda mais indignada, causando um assomo de risos entre as meninas.

--E como você respondeu a este insuslto, Mary? – Elizabeth inquiriu, divertida.

--Eu o chamei de porco chauvinista, que é o que ele é, e o deixei falando sozinho! – Mary replicou, ainda zangada; causando mais uma assomo de risos em suas amigas.

            As meninas voltaram a olhar para o DJ e, quando ele viu que Mary estava olhando para ele, acenou para elas, sorrindo. Ele logo colocou uma música - a música tema da família Adams – que chamou ainda mais a atenção das meninas para ele. Mary ficou ainda mais irritada, principalmente quando ele ergueu as duas mãos no ar e estalou os dedos, no ritmo da música. Mary deu-lhe as costas e cruzou os braços, fazendo as amigas se divertirem ainda mais com o comportamento dos dois.

--Eu acho que ele gostou de você, Mary. – Jane comentou, animadamente.

--O que a fez pensar isso? – Mary questionou-a, surpresa por seu comentário; mas não parecia contente com aquela perspectiva.

--Ele sempre acena para cá e sorrir... – Jane disse.

--A música que está tocando... – Elizabeth e Lydia disseram em união, completando os argumentos de Jane.

--Ele deve estar tentando se divertir às minhas custas! – Mary replicou, com indiferença.

--Se você diz! – Elizabeth disse, sarcasticamente; e, sorrindo de forma significativa para Lydia e Jane, ergueu os braços como o DJ e estalou os dedos ao ritmo da música, sendo acompanhada por Jane e Lydia. As três gargalhando logo em seguida.

 

 

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