Citações

Porque eu não adotarei este mesquinho e desastrado hábito, que têm os autores de romances, de depreciar, para descrédito do gênero, toda uma categoria de obras das quais eles mesmos têm aumentado o número. (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo LVI

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Capítulo 56

 

As irmãs Abbott sentaram-se a mesa do café da manhã em sua casa em silêncio, vindo a receber um “bom dia” seco de sua mãe e um amoroso do sr. Abbott. Assim que elas terminaram de tomar seus respectivos desjejuns, seguiram para a escola, aproveitando a carona do sr. Abbott. Assim que o sr. Abbott parou o carro enfrente a entrada de Austen House, Jane colocou a mão na maçaneta da porta e tentou abri-la. Mas o Sr. Abbott voltou-se para Elizabeth, sentada ao banco traseiro do carro, e lhe disse.

--Lizzie, não dê importância ao que a sua mãe lhe disse ontem à noite. – Ao ouvir a voz do pai, Jane desistiu de sair do carro temporariamente e voltou-se de lado, olhando do pai para a irmã. – Você é uma menina linda, inteligente, única... – Ele tinha uma voz calma, profunda, e um olhar intenso, qual transmitia pura sinceridade. Elizabeth o fitava com atenção. – Você pode namorar o menino que você quiser. Aposto que deve haver uma fila de espera para lhe namorar que você nem sabe a respeito! – Completou, exageradamente, sorrindo para filha, que lhe correspondeu o sorriso. – E se Bill voltar a lhe importunar, dou-lhe permissão para socá-lo bem no meio do nariz. – Elizabeth abriu um sorriso ainda maior, enquanto Jane exclamava:

--Papai! – Espantada com o que ouvira.

            Elizabeth e o sr. Abbott olharam para Jane e, ao vê-la olhando para o pai com espanto, Elizabeth começou a gargalhar. Só então Jane percebeu que o sr. Abbott estivera brincando quando dera permissão a Elizabeth para agredir Bill Collins.

            As duas meninas despediram-se do pai com beijos suaves nas bochechas daquele senhor e desceram do carro. Elizabeth estava com o seu bom humor elevado depois desta conversa com o seu pai, principalmente quanto à parte referente a Bill Collins. E não permitiria que Caroline, Bill e, até mesmo, Fitzwilliam Darcy o estragasse esta manhã.

            As irmãs entraram na escola e caminharam pelos corredores juntas, sem dar muita atenção aos demais colegas de escola. Já estavam cansadas daquela situação – dos olhares indiscretos e cochichos – por isso, decidiram ignorá-los completamente. E, por alguma razão, Elizabeth estava tendo sucesso em fazê-lo; não estava só fingindo que não se importava com eles, hoje ela realmente não estava se importando.

            Quando entraram no corredor de suas respectivas salas, se separaram. Elizabeth seguiu em direção a sala dela e Jane, ao invés de seguir em direção a sala dela, caminhou em direção a sala de Charles. Passou por ela, como quem não quer nada, e espiou, em busca da figura de Charles. Ele não estava lá, então ela seguiu para a sua sala. Guardou os seus materiais e retornou ao corredor.

            Conseguiu ver Richard chegar, quem lhe cumprimentou e parou a porta de sua sala para procurar por Charlotte – quem veio lhe cumprimentar, com um curto beijo nos lábios – e viu Will também. Este olhou rapidamente em sua direção e a cumprimentou com um breve aceno de cabeça. Jane correspondeu com um sorriso ameno, além de um próprio curto aceno de cabeça. Mas ela não viu Charles chegar, o que começou a estranhar, se perguntando se seria possível que ele houvesse adoecido.

            Decidiu-se por entrar na sala e assistir a sua primeira aula. Durante o intervalo voltaria a procurar por ele, se não o encontrasse perguntaria a um dos meninos se havia acontecido alguma coisa com ele. E foi o que fez, quando saiu da sala de aula ao fim do primeiro período. Quando estava se aproximando da porta da sala de Charles, um colega de classe de Charles saiu da sala e ao vê-la ali, sorriu-lhe, vindo em sua direção.

--Oi, Jane. – Disse ele.

--Oi. – Jane respondeu, com a testa franzida; ela não se lembrava de já ter falado com ele em qualquer momento antes, mas não custava ser educada.

--Meu nome é Victor Grant... – O menino se apresentou, estendendo-lhe a mão. Jane a aceitou, o cumprimentando rapidamente. – Sou um colega de classe de Charles. – Ele comentou, sorrindo de forma desconfortável; Jane sorriu de volta, também se sentindo desconfortável. Estaria ele querendo lhe perguntar algo com relação aos boatos sobre ela e Charles que andava circulando pela escola? – Eu... eu... – O menino gaguejava, colocando as duas mãos dentro dos bolsos da sua calça jeans. – Eu queria lhe convidar para ir à festa do Halloween comigo. – Ele disse rapidamente, para não perder a coragem.

            Jane o fitou, surpresa. Por que um menino da mesma escola que ela e Charles lhe convidaria para ir a uma festa como sua acompanhante, quando todos sabiam que ela e Charles estavam namorando? Este boato já estava dando mais trabalho que ela imaginava que seria possível!

--Desculpe-me, mas não posso. – Jane replicou, amigavelmente.

--Por quê? – O menino quis saber, perguntando-se se outro menino houvera a convidado para ser sua acompanhante antes dele.

--Eu... É por que... – Jane sabia o que dizer, mas não sabia como dizer. “Eu ainda estou namorando Charles!” ficava piscando ao fundo de sua mente como um outdoor florescente. Mas considerava esta resposta um pouco brusca e estava decidida a não passar por nenhuma situação remotamente similar a do Basement novamente.

--É por causa de Charles? – Victor inquiriu, imaginando que a hesitação dela poderia ser fruto do recente término do namoro. E quando ela respondeu-lhe com um tímido aceno de cabeça, positivamente, ele voltou a lhe sorrir. – Ah, não se preocupe! – Ele disse, tentando reconfortá-la. – Eu já falei com ele e ele não se importa!

--O que?! – Jane ficou ligeiramente pálida ao ouvi-lo dizer-lhe tais coisas.

--Eu conversei com ele, antes de lhe convidar... – Victor respondeu e apressou-se em lhe explicar. – Eu sei que você pode ficar chateada por eu ter ido pedir permissão ao seu ex-namorado para convidá-la para sair, mas... eu achei que deveria fazê-lo porque nós somos colegas de classe e eu não queria que rolasse nenhum clima estranho entre a gente. – Victor relatou, ignorando os sinais de transtornos no rosto de Jane (quais ela já começara a lutar para disfarçar).

--Você falou com ele a meu respeito?

--Falei. – Victor afirmou. – E ele disse que não se importava se eu lhe convidasse para sair. – Ele garantiu, sorrindo. – Ele me pareceu tranqüilo com a idéia, mesmo que vocês tenham terminado há pouco tempo.

--Ele... Terminamos... – Jane não sabia o que pensar ou o que dizer. Imediatamente começou a dar passos para trás, até que deu as costas a Victor e afastou-se dele rapidamente.

            Elizabeth viu a irmã conversando com um menino da sala de Charles e, como ela estava parada a frente à sala de Will, decidiu-se por permanecer a certa distância. Quando Jane se afastou do menino com quem estivera conversando, mais pálida que o normal, Elizabeth soube que havia acontecido algo de errado. Então se acercou da irmã.

            Quando Jane ouviu a voz melosa de Elizabeth chamando por ela, lutou para se recompor. Lembrou-se que estava na escola e que não poderia deixar ninguém perceber o seu transtorno. Erguendo o olhar para a irmã, dirigiu-lhe o melhor dos sorrisos que conseguiu naquele momento. Mas não conseguiu enganar a irmã, quem logo inquiriu.

--O que aconteceu? – Jane despiu-se daquele falso sorriso e, respirando fundo, disse, no tom de voz mais corajoso.

--Charles terminou comigo.

--O que? – Elizabeth exclamou, boquiaberta. – Como? Quando? Por quê?! – Aquela era a novidade mais surreal que já ouvira; eles não podem ter terminado por causa de uma discussão! – O que ele disse a você?!

--Ele não disse nada. – Jane replicou, com amargura. – Eu fiquei sabendo através de Victor, um colega de classe dele.

--Ah, Jane. São só boatos. – Elizabeth replicou, não evitando o sorriso de alivio que brotou em seus lábios.

--Não, Lizzie. Não são só boatos. – Jane garantiu, seriamente. – Victor acabou de me convidar para sair com ele, dizendo que Charles lhe dera permissão.

--Ele fez o que?! – Esta exclamação de Elizabeth fez com que alguns rostos virassem na direção delas duas, chamando a atenção de algumas pessoas para a conversa que elas estavam tendo.

--Por favor, Lizzie, fale baixo. – Jane pediu. – Eu não quero que ninguém sabia disso.

--Ahh, quando eu puser as minhas mãos nele... – Elizabeth murmurou, raivosa. – não vai sobrar nenhum fio naquela cabeleira loira para contar história! – Ela soava mortalmente sincera. - Quem deu permissão a eles para ficar nos oferecendo aos amigos quando deixam de nos querer?! – Persistiu no murmúrio raivoso, lembrando-se da ocasião em que Will lhe oferecera a Richard. –Ahh, mas ele vai se arrepender! – E quando estava preste a marchar até a sala de Charles, para arrancá-lo de lá pelos cabelos, Jane a segurou pelo braço, firme, implorando.

--Por favor, Lizzie, não faça nada a Charles. – Elizabeth a olhou surpresa, com o fato da irmã ainda querer defender Charles, e depois seu olhar se transformou em um contrariado.

--Jane, não me peça isso!

--Por favor, Lizzie. – Jane insistiu. – Eu estou implorando! Prometa-me que não irá fazer nada!

--Jane...

--Prometa! – Jane clamou à irmã.

--Eu... prometo que... – Elizabeth hesitou, procurando em sua mente uma forma de acalmar as preocupações da irmã, mas sem se comprometer. – Eu prometo que não vou arrancar a cabeça dele fora! – Ela disse, sorrindo maliciosamente.

--Não, Lizzie! Prometa-me que você vai ficar longe de Charles.

--Jane... – Elizabeth tentava resistir àqueles olhos castanhos-esverdedos clementes.

--Prometa, Lizzie.

--Tudo bem. – Elizabeth concedeu. – Eu prometo. – Elizabeth disse, cruzando os dedos atrás das suas costas.

            Jane escoltou Elizabeth até a sua sala, permanecendo em sua companhia até o professor de geometria entrar na sala de Elizabeth – garantindo que Elizabeth não teria a chance de sair da sala e ir procurar por Charles no instante que ela lhe desse as costas. Elizabeth passou aquele segundo horário procurando uma forma de esganar Charles sem que Jane tomasse conhecimento, mas não conseguiu ter uma boa idéia de como fazer isso.

            Ao fim do segundo período, quando estava preste a sair da sala, viu a sua irmã a esperando do lado de fora. Logo percebeu que Jane iria passar aquele dia se certificando de que Elizabeth cumpriria a sua promessa a ela. Elizabeth se aproximou da irmã, com um sorriso inocente no rosto e decidiu lhe fazer companhia. Afinal, talvez Jane só não desejasse ficar sozinha naquele momento.

            Charlotte estava na companhia de Jane, mas a abandonou assim que Elizabeth se aproximou e foi se juntar a Richard, quem já caminhava em sua direção. Elizabeth não podia deixar de sorrir ao ver os dois juntos e ficar contente que pelo menos algumas, dentre elas, estavam felizes àquele momento – já que Catherine e Daniel estavam tão bem quanto Charlotte e Richard.

            Charlotte notou que Richard estava ligeiramente agitado, aparentando estar preocupado com alguma coisa. Perguntou-lhe o que era, mas ele desconversou. Jane houvera lhe contado sobre Charles e lhe feito prometer que não falaria nada com Richard, o que Charlotte estava lutando para cumprir. Richard dirigiu um breve, mas preocupado, olhar na direção de Jane e Elizabeth, e depois o direcionou a sua namorada. Charlotte fingiu não notar o foco de seu olhar e o fitou inocentemente. Richard, então, disse.

--Charlotte, Jane lhe disse... – Mas antes que ele pudesse concluir a sua pergunta, Charlotte replicou.

--Eu não tenho permissão para discutir este assunto. – Normalmente, deixando Richard com a boca entreaberta.

--Mas... – Ele tentou de novo, mas ela voltou a impedi-lo de prosseguir.

--Não tenho autorização para falar sobre isso. – De forma decidida.

            Richard voltou a dirigir um olhar preocupado para Jane e Elizabeth, e voltando a fitar sua namorada, franziu a testa ao dizer.

--Nós não vamos terminar também, vamos?! – E foi a vez de Charlotte ficar boquiaberta.

--Por que você está me perguntando isto? – Charlotte replicou, alarmada.

--Bem... É que... todo mundo está terminando. – Richard respondeu, inseguro. – Você não vai terminar comigo também, vai?

--Não. – Charlotte respondeu, permitindo que ele respirasse aliviado.

            Charlotte sorriu, satisfeita, ao ver o alivio dele transparecer em seu rosto ao ouvir a sua resposta. E, pela primeira vez desde o passeio ao parque de diversões, tomou a iniciativa e o beijo nos lábios. Depois deu-lhe as costas e seguiu para a sua sala, deixando Richard parado a observá-la se afastar, com uma expressão boba no rosto. Jane passou ao seu lado, seguindo Charlotte e Richard ouviu:

--Ahh, o amor! – Elizabeth exclamou, parando ao seu lado. E quando Richard virou o rosto em sua direção, permitindo que ela visse a sua expressão de satisfação, Elizabeth começou a rir. – Você é tão fofo! – Ela comentou, deixando-o corado de vergonha e fazendo-o desviar o olhar para o chão. – Ele só pode estar brincando! – No entanto, esta exclamação furiosa de Elizabeth o fez reerguer o olhar e dirigi-lo na mesma direção em que ela estava olhando.

            Jane e Charlotte tinham parado de andar enfrente a porta de sua sala e olhavam para o mesmo que Elizabeth e Richard olhavam. Assim que o cérebro de Richard processou o que os seus olhos estavam vendo e ele voltou-se para fitar Elizabeth, pronto para lhe fazer a pergunta que tentara fazer a Charlotte, ela abandonou a sua companhia, seguindo em direção a Charles decididamente – Richard sentiu que Charles estava em sérios apuros ao vê-la se dirigindo a ele daquela forma; por algum motivo, a imagem de David Fitzgerald caindo ao chão após Elizabeth nockouteá-lo surgiu em sua mente como um flash.

__________________________

            Ao fim do segundo período Charles continuava com o mesmo comportamento distante para com seus amigos. Richard e George preferiram deixá-lo em paz, indo ocupar-se com outras coisas. Richard saiu da sala com o intuito de encontra-se com Charlotte e George o seguiu, embora não pretendesse permanecer em sua companhia – não tinha intenção alguma de segurar vela para o amigo.

            Will, no entanto, permaneceu sentado ao lado de Charles, embora não lhe dirigisse a palavra. Ficou ponderando as informações que Richard lhe concedera. Jane e Charles haviam discutido porque cada um estava defendendo seus melhores amigos; da parte de Jane coincidia da melhor amiga dela ser exatamente a sua irmã. Charles repetiu, com suas palavras, o que Will houvera lhe relatado aquele mesmo dia.  Jane, por outro lado, acusou Will de ter magoado Elizabeth quando terminou com ela por um motivo injusto – esta foi a palavra que Richard lhe garantira que ela usara. É claro, além de acusá-lo de egocêntrico e hipócrita.

            Agora Will estava ali, sentado, fitando o amigo, se perguntando se houvera sido injusto com ela por estar temporariamente cego e surdo após ouvir as alegações de George quanto ao seu relacionamento com Elizabeth. Ultimamente, ele vinha recebendo pequenas evidências de que houvera cometido um grande erro, mas ele ainda não sabia com toda a certeza de que houvera errado. Como poderia descobrir isso?!

            Surpreendeu-se, de repente, quando Charles se ergueu de sua carteira e caminhou em direção a porta da sala. Will não sabia ao certo porque, mas sentiu que devia acompanhá-lo. Charles não estava se comportando como ele mesmo este dia e o melhor que ele (Will) podia fazer, como seu amigo, era estar sempre por perto e garantir que o ajudaria quando fosse necessário.

            Pouco depois que cruzou a porta de sua sala, encontrou Charles parado no meio do corredor, cercado por duas meninas de sua classe. As duas meninas estavam flertando com ele abertamente, sem se incomodar de estarem sendo vistas nesta atividade pelas demais pessoas ao corredor da escola. Charles, por sua vez, estava tão distraído – a ponto de sequer estar ouvido o que elas estavam falando – que não tinha nenhuma atitude quanto a dispensar as atenções que elas dirigiam a ele. Ele apenas estava parado entre as duas meninas, aparentando estar totalmente perdido.

            Quando Will se acercou do amigo, uma das meninas se aproximou dele. Suas suspeitas quanto ao que elas estavam conversando com Charles foram confirmadas assim que escutou a conversa das meninas. Elas tinha tomado conhecimento sobre a conversa de Charles com Victor, assim como várias outras pessoas no colégio também já estavam ficando a par deste novo detalhe, e decidiram convidá-lo para acompanhá-las a festa de halloween àquele sábado. Logo uma delas também estava flertando com Will, convidando-o a acompanhá-la a festa de halloween em Johnson’s High.

--Eu prefiro ir sozinho. – Will replicou, friamente, ao convite que lhe fora feito e deu-lhe as costas, se afastando delas.

            Ele esperava que Charles aproveitasse o fora que ele dera na menina – que ficara com um olhar ofendido enquanto o observava se afastar – e o acompanhasse. Mas Charles não o fez, permanecendo no mesmo lugar em que Will o deixara. Logo a menina que estivera flertando com Will voltou as suas atenções a Charles, novamente, reiterando o seu convite a ele; enquanto a sua amiga fazia o mesmo.

            Will voltou-se para procurar por Charles, vindo a notar que ele não o acompanhara. Encontrando-o ainda entre as duas meninas; uma delas estava com a mão erguida, sobre a camisa dele, e mexia nas costuras desta, sorrindo de forma insinuativa para Charles, enquanto a outra mexia no cabelo de Charles – o qual, Will notara só naquele momento, estava com um penteado muito estranho – e também lhe sorria da mesma forma que a amiga, enquanto lhe dizia algo bastante sugestivo.

            Will estava preste a retroceder seus passos e arrancar o amigo das garras daquelas meninas, quando escutou a exclamação “Lizzie, não!”, na voz aflita de Jane. E ele virou-se na direção da voz de Jane, vendo Elizabeth caminhando decidida em sua direção, enquanto Jane e Charlotte tentavam alcançá-la.     

            Elizabeth passou por Will sem sequer vê-lo parado ali, bem próximo a Charles e aquelas duas meninas. Jane e Charlotte pararam no meio do corredor, um pouco antes de Will, quando notaram que Elizabeth já estava muito próxima a Charles e não havia mais nada que pudessem fazer para impedi-la de agir com relação ao comportamento de Charles.

            Elizabeth, ao invés de tirar satisfações com Charles, como todos estavam esperando que ela fizesse, parou a um passo de distância de onde Charles estava entre as meninas, e decidiu beber água no bebedouro. Ela colocou a mão nas laterais no bebedouro, usando o polegar direito para tapar o orifício por onde a água saia e, com o polegar esquerdo, acionou o bebedouro, curvando-se, fingindo que bebia água. Com o canto do olho, observava a interação entre os três parados praticamente ao seu lado.

            Quando a pressão da água aumentou consideravelmente em seu polegar direito, Elizabeth ficou ereta, saindo da linha de mira, e tirou o polegar direito do orifício por onde saia à água, mas sem deixar de acionar o bebedouro com o seu polegar esquerdo. A pressão fora tanta, que um jato de água saiu por aquele orifício atingindo a blusa de Charles e o braço da menina que mexia nas costuras da camisa que Charles usava (pelo avesso), fazendo-os dirigirem um olhar de surpresa para Elizabeth.

--Oops... – Elizabeth exclamou, inocentemente. – Mil desculpas! – Ela implorou, cinicamente. – Não faço idéia de como isso aconteceu! – E, segurando o sorriso, deu as costas aos três (enquanto as duas meninas dirigiam-lhe um olhar incrédulo, duvidando de sua palavra, e Charles a fitava com um olhar confuso, como se não fizesse a menor idéia de onde estava e o que estava acontecendo).

            Quando Elizabeth voltou a cruzar o seu caminho, sem lhe dar o mínimo de atenção, se acercando de sua irmã e Charlotte, Will pode ver em seu rosto a expressão de mais pura satisfação. Ele a fitou atentamente, com a certeza que aquele jato de água atingira Charles de propósito e não por causa de um acidente, como ela quisera dar a entender que houvera sido. Will sabia por que ela havia feito aquilo; ela estava defendendo a sua irmã, assim como Jane houvera a defendido de Charles. Sinal de que Elizabeth não queria ver Charles com outra menina a não ser sua irmã, possivelmente porque Jane assim também o desejava – Will deduzia.

            Outra coisa que estava martelando na cabeça de Will, à medida que ele observava Elizabeth caminhando na direção de Jane: aquele olhar. Ele conhecia aquele olhar, ele já o havia visto antes. Só não conseguia se lembrar onde, quando e por que. Will varreu a sua mente em busca daquela lembrança, então, como um raio que atingiu a sua cabeça, ele se recordou.  Quando estivera conversando com Madison e Caitlin ao parque a seu respeito e Elizabeth se aproximara deles com suas amigas, o provocando.

--Oh meu Deus! – Will exclamou, sorrindo. – Ela estava com ciúmes!

            Aquela possibilidade cruzou a sua mente por um segundo quando ela se acercou deles no parque. Mas ela agiu com tanta naturalidade, ao provocá-lo, seguindo o seu caminho como se nada houvesse acontecido, que ele descartou a possibilidade com um piscar de olhos. Mas agora tinha certeza: ela estava com ciúmes dele com Madison! Ela se acercou dele, assim como ele fazia com ela sempre que a via conversando com outro menino, e fez questão de mostrar a Madison quem tinha poder sobre ele.

 --Ela estava com ciúmes! – Will repetiu para si mesmo, sentindo uma alegria dominar o seu peito.

            Ela estava demarcando o seu território, como o fizera agora: demarcando o território de sua irmã.

--Ela estava com ciúmes! – Ele repetiu, sentindo-se estupidamente feliz.

            Enquanto isso, Elizabeth estava completamente inconsciente de estar sendo observava por Will. Acercou-se de sua irmã, quem a recebeu com uma expressão dura.

--Eu te pedi para você não fazer nada! – Jane a recriminou. – Você me prometeu!

--Charlotte,... – Elizabeth disse a amiga, mas continuando a olhar para sua irmã. – por acaso, Charles ainda está de pé?

--Sim. – Charlotte respondeu, sorrindo, enquanto Jane continuava a dirigir um olhar recriminador a Elizabeth.

--Ele está respirando? – Elizabeth continuou a questionar Charlotte; quem olhou para Charles e disse.

--Não sei dizer ao certo... – Respondendo de forma divertida. – Mas ainda está vivo! – Completou, voltando a olhar para Elizabeth, sorrindo.

--Viu? – Elizabeth perguntou a Jane, ainda a fitando. – Eu não descumpri a minha promessa! – E, dando um beijo na bochecha da irmã, disse. – Relaxe, maninha, e vá para a sua sala! – Tomando o seu caminho e indo para a própria sala.

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            Jane passou o resto daquela manhã se assegurando de manter Elizabeth bem longe de Charles. Embora Jane tivesse permanecido o resto da sua manhã preocupada com futuros incidentes, nada ocorreu. Durante o recreio elas se sentaram juntas – Mary vindo a se juntar a elas a primeira vez durante o intervalo – e conversaram sobre a festa de Halloween àquele fim de semana. As meninas se prometeram que iriam se divertir imensamente em tal evento, independente de ter ou não a companhia de algum menino. E Lydia prometeu a Mary que a faria gostar de não ter de atuar como DJ durante esta festa, embora Mary continuasse a duvidar.

            As irmãs Abbott voltaram para casa em um silêncio confortável ao fim daquela manhã. Ambas auxiliaram a sra. Abbott a colocar o almoço à mesa e, depois do almoço, retiraram os pratos da mesa, os lavaram e guardaram ao armário da cozinha. Só então cada uma recolheu-se em seu quarto.

            Após tomar um banho, Elizabeth organizou um pouco à bagunça de seu quarto e saiu em busca da irmã. Ia bater a porta do quarto de Jane, mas pôde ouvir o seu rádio ligado, tocando uma melodia muito triste – In the Sun de Joseph Arthur. Elizabeth desistiu de incomodá-la, por ora. Tomou o seu caminho até a escada, desceu os degraus e foi para a cozinha.

            Meia hora depois, retornou ao quarto de Jane e bateu a sua porta, suavemente. Abriu a porta e encontrou a irmã deitada a sua cama, fitando o teto de seu quarto. Jane não estava chorando ou estava com os olhos vermelhos. Elizabeth, então, disse-lhe.

--Eu fiz brigadeiro e coloquei Doce Lar (Sweet Home Alabama) no aparelho de DVD. – Sorrindo para a irmã, porque sabia que ela não poderia recusar comer o seu doce predileto e assistir ao seu filme favorito pela milionésima vez. – Quer me acompanhar?

--Sim. – Jane respondeu, levantando-se da sua cama e indo desligar o seu rádio.

Sabia que Elizabeth estava tentando animá-la e estava disposta a cooperar com ela. As duas sentaram-se ao sofá da sala de estar, passando a tarde assistindo ao filme e comendo brigadeiro. Quando a sra. Abbott chegou em casa, encontrou as duas filhas ainda ao sofá, deitadas, assistindo a uma das séries de TV que acompanhavam diariamente. A vasilha com os últimos vestígios de brigadeiro estava depositada a mesinha enfrente ao sofá.

A sra. Abbott não fez comentário qualquer a nenhuma delas, fosse a respeito de como as encontrou ou sobre qualquer fofoca que houvera tido conhecimento durante o seu dia à sede de sua comunidade. Elizabeth já estava começando a ficar incomodada com o seu silêncio, mas preferiu dizer a si mesma que era melhor aproveitar enquanto durava. Sabia que, dentro de alguns dias, o que quer que o sr. Abbott houvesse dito a sra. Abbott seria esquecido por ela e a sua mãe voltaria a lhe importunar, voltando a exigir que ela encontre um novo namorado. 

O sr. Abbott não demorou a chegar e logo a família estava jantando. O sr. Abbott, notando o completo silêncio de suas duas filhas e mulher, decidiu fazer comentários sobre o seu dia no trabalho – algo que não fazia por iniciativa própria, geralmente a sua esposa precisava insistir por muito tempo antes que ele lhe concedesse alguma informação. Elizabeth, notando o esforço de seu pai, decidiu ajudá-lo e fez-lhe algumas perguntas referentes aos seus comentários, para que a conversa não fosse em vão.

Mas esta noite também fora encerrada mais cedo que de costume, porque ela e Jane logo se recolheram em seus respectivos quartos. Ela se arrumou para dormir e deitou-se em sua cama, mas não conseguiu adormecer. Ficava repassando em sua mente os acontecimentos daquela manhã; embora Jane não houvesse lhe feito nenhuma confidência ainda de como estava se sentindo, preferindo guardar seus sentimentos para si mesma, Elizabeth sabia que ela estava chateada.

Como não conseguia dormir, decidiu procurar Jane em seu quarto e tentar conversar com ela sobre Charles mais uma vez. Quando abriu a porta do quarto de Jane e a luz da lâmpada do corredor iluminou parte do quarto de sua irmã, qual estava escuro, viu Jane se remexendo em sua cama, virando-se de lado – voltando-se de frente para a parede, escondendo o rosto – e escutou um soluço.

Elizabeth entrou no quarto e fechou a porta, caminhando até a cama de Jane. Puxou o edredom da irmã e se sentou à cama da irmã.

--Chegue mais para lá. – Disse a Jane.

--Lizzie, o que está fazendo? – Jane perguntou-lhe, sem se virar para ela, com um tom de voz baixo, mas evidentemente choroso.

--Tentando me deitar com você. – Elizabeth replicou. – Chegue mais para lá.

--Lizzie, eu estou com sono. – Jane replicou, sem se mexer.

--Eu também. – Elizabeth respondeu, já enfiando as pernas por debaixo do edredom e se deitando ao lado da irmã.

--E você pretende dormir aqui?! – Jane questionou, surpresa.

--Onde mais? – Elizabeth respondeu, como se Jane houvesse lhe feito uma pergunta qual a resposta fosse obvia.

--À sua cama. – Jane replicou.

--Nah... – Elizabeth disse, cobrindo-se melhor com o edredom e se aconchegando na cama da sua irmã. – eu prefiro a sua.

--Lizzie, esta cama é muito pequena para nós duas. – Jane comentou.

--Não é não. – Elizabeth rebateu, virando-se de lado para caber melhor na cama. – Viu? Cabemos nós duas direitinho! ...A não ser que você esteja insinuando que eu estou gorda. – Disse em tom de brincadeira. – Eu teria que dizer que é você quem tem uma bunda grande! – Dizendo isso, deu um leve tapa na bunda da irmã, fazendo Jane rir um pouco.

            As duas se acomodaram melhor na cama e ficaram em silêncio. Jane deitada de lado, fitando a parede azul claro de seu quarto, e Elizabeth de lado, fitando as costas de sua irmã. À medida que o silêncio dominava todos os cômodos de sua casa, Elizabeth passou a ouvir com mais clareza os soluços abafados de sua irmã – quem estava tentando chorar em silêncio. Elizabeth passou a acariciar o seu cabelo, até que Jane adormeceu.

            Elizabeth acordou com Jane chamando por seu nome à manhã de quarta-feira. Tentou ignorar o seu chamado e revirar-se na cama, procurando outra posição para dormir. Mas o espaço que ocupava na cama de Jane era muito pequeno e ela acabou caindo no chão, com um baque alto.

--Lizzie, você está bem?

Ela ouviu a voz de Jane acima de sua cabeça, soando preocupada. Quando abriu os olhos, Jane estava com a cabeça para fora da cama, olhando para ela deitada ao chão, completamente descabelada.

--Uau, Jane, a cada dia você me surpreende com uma maneira diferente de me acordar! – Comentou, fingindo estar mal humorada. – Como se pular em cima de mim na minha cama não fosse o suficiente, você decidiu que me empurrar para fora da sua é melhor ainda! – Jane não resistiu ao vê-la naquela situação e começou a rir, contagiando Elizabeth, quem permaneceu no chão às gargalhadas.

            Após que as duas conseguiram se controlar, Elizabeth se levantou do chão e voltou para o seu quarto, enquanto Jane tratava de começar a se arrumar para ir à escola. Elizabeth começou a tomar o seu banho, já imaginando uma estratégia para conseguir conversar com Charles sem que Jane tomasse conhecimento e tentasse impedi-la; isto porque, depois de ter conhecimento do verdadeiro estado de espírito de sua irmã, não podia ficar de braços cruzados, assistindo-a sofrer. Precisava fazer alguma coisa para ajudá-la, mesmo que fosse preciso partir a cabeça de Charles ao meio para ver se conseguia enfiar um pouco de juízo nela.

            Dentro da sala de aula, durante o primeiro período de aula, Elizabeth finalmente encontrou a sua solução. Era bem simples, na verdade. Ela não conseguia entender como não havia pensado naquilo antes. E, imediatamente, ergueu a sua mão no ar e pediu ao professor de química para deixá-la ir ao banheiro. Conseguindo permissão, levantou-se de sua carteira e saiu da sala; mas, ao invés de ir ao banheiro feminino, foi parar à porta da sala de Charles – afinal, como mais ia conseguir conversar com Charles pelos corredores da escola sem que Jane a visse conversando com ele?

            Bateu a porta da sala e a abriu, pronta para pedir ao professor (a) que estivesse dando aula na turma de Charles para falar com ele. Mas encontrou a sala completamente deserta. Ficou imaginando em sua mente onde uma sala inteira, da mais de trinta alunos, poderia estar àquela hora. Para ela, existiam três opções possíveis: o laboratório de química, o auditório ou a quadra interna de esportes. Como o professor de química estava dando aula em sua sala, a primeira opção foi facilmente descartada. Deduziu que auditório também poderia ser descartado, já que Jane – quem também é terceiro ano, embora de outra turma – não lhe mencionara nenhum tipo de palestra; restou-lhe, apenas, a última opção, a quadra de esportes interna.

            Enquanto se dirigia ao andar da quadra de esportes interna, repetia a si mesma que se a turma de Charles não estivesse lá teria que retornar para a sua sala e tentar procurá-lo novamente em outro período de aula, mesmo que isso leve aos seus colegas de classe a acreditar que ela estava sofrendo de diarréia.

Parou diante da porta da quadra de esportes e já começou a ouvir o apito do professor de educação física, o que a deixou aliviada. Entreabriu a porta e espiou o ambiente. Realmente a turma de Charles estava tendo aula de educação física; no entanto, somente as garotas estavam tendo aula àquela quadra de esportes – estavam jogando vôlei. Não havia sinal de nenhum menino em toda a quadra, nem mesmo na arquibancada.

De repente, Elizabeth teve um sobressalto. Uma porta as suas costas foi aberta e ela pode ouvir o barulho inconfundível de vários meninos reunidos em um lugar só. Quando Elizabeth fechou a porta por onde espiava e voltou-se na direção a porta que se abrira a suas costas, viu um menino do terceiro ano da turma de Charles andando pelo corredor, afastando-se dela.

Elizabeth fitou a porta por onde ele tinha saído e disse a si mesma: “Mas é claro: eles tinham de estar na piscina!”. Caminhou até a porta e a entreabriu, espiando o ambiente lá dentro.

 

 

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