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Mas a nossa própria vaidade nos engana. (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo LV

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Capítulo 55

 

Jane e Elizabeth chegaram a casa um pouco após a sra. Abbott ter começado a arrumar a mesa do almoço. As duas meninas depositaram os seus materiais de escola ao sofá da sala de estar e apressaram-se a auxiliar a sua mãe naquela atividade. Em menos tempo ainda, as três mulheres daquela família estavam sentadas à mesa, almoçando juntas em um clima de conversação animada – pelo menos da parte da sra. Abbott, quem discursava sobre as mais recentes fofocas que ouvira.

Enquanto as filhas ouviam algumas partes e concordavam com pequenos acenos de cabeça, ou respostas monossilábicas durante o restante da conversa – muitas vezes dando opiniões sobre assuntos que não faziam idéia do que se tratava, porque estiveram perdidas em seus próprios pensamentos ao invés de escutando atentamente ao que sua mãe dizia.

            Após o almoço, as irmãs Abbott recolheram os pratos e arrumaram a cozinha, enquanto a sra. Abbott se preparava para voltar a sede de sua comunidade. Elizabeth e Jane lavaram os pratos e guardaram-nos no armário da cozinha. Só depois disso seguiram para os seus respectivos quartos e tomaram banho, trocando de roupa.

            Quando Elizabeth saiu de seu quarto, com o intuito de ligar para Catherine e inquirir sobre as atividades que os professores das variadas matérias passaram aquela manhã – quais ela não fazia mínima idéia, porque também não estivera prestando atenção, por isso não tomara nota e agora estava completamente perdida – e procurou pelo telefone à sua base, a sala de estar, encontrou a base do telefone vazia. Procurou o telefone ao sofá da sala, embaixo das almofadas, ao escritório de seu pai, entre os seus papéis. Mas não o encontrou.

            Elizabeth gritou por sua irmã do pé da escada, para que ela viesse lhe ajudar a procurar pelo telefone. Mas Jane não apareceu ao topo da escada, ou, ao menos, respondeu ao seu chamado de seu quarto mesmo. Elizabeth subiu a escada e dirigiu-se ao quarto de sua irmã. Bateu levemente a porta e depois a abriu, colocando a cabeça para dentro do quarto e espiando. Jane estava deitada em sua cama, com os pés para cima, encostados na parede, com a cabeça despencando a beirada da cama. Ela olhou para Elizabeth, a vendo de cabeça para baixo, e sorriu levemente. Elizabeth entrou no quarto e fechou a porta, indo se deitar ao lado da irmã, na mesma posição – houvera visto o telefone a uma das mãos de Jane.

--Charles ainda não ligou? – Elizabeth inquiriu e Jane confirmou, com um aceno de cabeça.

            Jane finalmente relatou a Elizabeth o que havia acontecido entre ela e Charles durante o passeio na noite de domingo. Elizabeth ficou muito chateada com a notícia, ao saber que eles haviam discutido por causa dela e de Will. Tentou convencer a irmã que ela não devia ter discutido com Charles por sua causa, mas Jane insistiu que discutiria com quem quer que fosse para defender a sua irmã. E que Charles era quem estava errado em defender Will, porque fora ele quem terminara com Elizabeth por um motivo injusto. 

            Elizabeth tentou lhe explicar que Charles provavelmente não estava tentando ofendê-la, e, sim, apenas defender o seu amigo, assim como Jane estava defendendo Elizabeth. Jane tentou rebater que Elizabeth era sua irmã e que Will era apenas amigo de Charles, que isso fazia toda a diferença. Mas Elizabeth argumentou que para Charles Will é como um irmão, já que ele é filho único e Will é seu melhor amigo.

            Jane ainda tentou defender-se das argumentações da irmã, mas desistiu. Elizabeth conseguiu convencê-la de que tinha se excedido na discussão com Charles e, mais ainda, em não querer conversar com ele durante a escola esta manhã. Jane ainda lhe explicou que queria apenas evitar a repetição dos eventos ocorridos ao Basement nos corredores da escola e que só por isso não conversou com Charles aquela manhã. Mas que esperaria ele ligar para ela aquela tarde e conversaria com ele. 

--Por que você não liga para ele? – Elizabeth perguntou a irmã, inocentemente.

--Não. – Jane replicou. – Ele irá ligar. – Ela estava tão certa de que assim seria que Elizabeth não teve dúvidas de que ele ligaria.

            Horas se passaram, a tarde se fora, o céu escurecera e Charles não ligara. Elizabeth tentou convencer a irmã de ligar para ele, levantando a possibilidade de Charles acreditar que Jane já não queria mais falar com ele definitivamente. Quando Jane já estava cedendo a sua vontade, as meninas ouviram o grito histérico da sra. Abbott.

--Elizabeth Ann Abbott!!! – Ela houvera acabado de entrar em casa e já estava aos gritos, furiosa.

            Jane e Elizabeth sentaram-se a cama de Jane e se entreolharam, dizendo ao mesmo tempo.

--Ela sabe! – Temerosas.

            E levantaram-se rapidamente da cama, correndo para a porta do quarto de Jane e saindo, indo aparecer à sala de estar em questão de minutos.

--O que a senhorita tem na cabeça, mocinha, para agir da forma que agiu esta manhã com o jovem adorável dos Collins?! – A sra. Abbott bradou assim que viu a sua filha caçula. – O que, Diabos, a possuiu para você gritar com o coitado do Bill Collins diante de todos da sua escola, como você fez esta manhã?

Ela estava tão vermelha e com tanta raiva como jamais ficara antes, Jane e Elizabeth notaram. E por isso, ouviam caladas. Enquanto a sra. Abbott bradava o quão Elizabeth houvera sido impertinente e malcriada ao desfazer-se de Bill da forma que o tinha feito; o quão decepcionada com ela a sra. Abbott ficara durante a conversa com a sra. Collins aquela tarde, quando teve de ouvir o seu relato em completo silêncio e surpresa, não sabendo como responder as acusações daquela sua amiga de longa data.

A sra. Abbott reclamou com a sua filha caçula até o momento em que Elizabeth não pôde mais ouvir em silêncio e, com o máximo de respeito possível, defendeu-se.

--Eu não sei o que a senhora esperava que eu fizesse, mamãe. – Elizabeth começou a dizer, quando a sua mãe fez uma breve pausa para recuperar o fôlego para poder voltar a bradar com ela. E antes que a sra. Abbott replicasse, Elizabeth continuou. – Eu tentei de todas as formas possíveis mostrar a ele que não tinha interesse algum em ser a sua namorada. Eu juro que tentei ser delicada e paciente ao falar com ele esta manhã, mas ele não me ouvia... Ele não entendia. – Elizabeth explicou-se. – Eu não sabia mais o que fazer.

--É verdade, mamãe. – Jane tentou ajudá-la.

--Cale-se, Jane. – A sra. Abbott ralhou com ela, de uma forma que deixou Jane muda. – Não adianta tentar ajudar a sua irmã! O que ela fez não tem desculpa! – E voltando-se para Elizabeth, ainda furiosa, perguntou-lhe. – Como eu vou encarar a sra. Collins daqui em diante? Uma amiga fiel, de longa data! – Voltando a silenciar as duas filhas, prosseguindo com a sua ladainha.

            Após ouvir mais de meia hora de sermão, Elizabeth cansou-se de ser tratada daquela forma e explodiu.

--Eu o odeio! – Silenciando a mãe, quem estivera vangloriando Bill Collins. – Ele é asqueroso, nojento, inútil, insuportável! Eu o odeio!!! – Jane e a sra. Abbott olhavam Elizabeth abismadas com a sua revelação. – Eu nunca entendi por que a senhora queria tanto que eu saísse com ele, quando eu nunca escondi de ninguém o quão repulsiva a idéia de ter qualquer tipo de relacionamento amoroso com Bill Collins era para mim!

--Elizabeth, não exagere! – A sra. Abbott rebateu, tentando silenciar a filha, mas sem ter sucesso. Elizabeth estava desabafando finalmente tudo o que guardava dentro de si e ninguém a impediria de continuar.

--Eu não estou exagerando! – Elizabeth gritou; tão alto que o sr. Abbott, quem acabara de estacionar o carro em frente a sua casa, conseguiu ouvir e se apressou a entrar em casa para descobrir o que estava acontecendo. – Eu o desprezo! Ele me dá nojo! – Elizabeth gritou ainda mais alto. – Por que a senhora faz tanta questão de que eu o namore, mamãe?! A senhora realmente acredita que Bill Collins é o melhor que eu posso arranjar como namorado?! – Os olhos amendoados de Elizabeth estavam cheios de lágrimas e a sua voz, embora num tom alto, já começava a falhar, dando sinais de choro. – A senhora realmente acha que eu sou assim tão sem graça que o melhor que eu posso conseguir é Bill Collins?!

--Claro que não. – A sra. Abbott rebateu, indignada. – Você sabe muito bem que você não é sem graça, Elizabeth! – A sra. Abbott argumentou, acreditando que Elizabeth estava tentando reverter a situação, fazendo aquele tipo de comentário apenas para que ela se esquecesse do que ela aprontara com Bill.

--Não sou? – Elizabeth, no entanto, estava sendo o mais honesta que jamais fora com sua mãe. – Então, o que é que a fez crer que Bill Collins é o melhor namorado que eu posso conseguir?!

--Não diga sandices, Elizabeth! – A sra. Abbott persistiu, ainda irritada com as artimanhas da filha. – Eu nunca disse que Bill era o melhor que você podia conseguir! Você e a sua irmã são as meninas mais bonitas que eu já vi! – Ela afirmou isto da mesma forma que o Sr. Abbott sempre o fazia: exageradamente, mas, indiscutivelmente, com sinceridade.

--Mas eu não sou Jane! – Elizabeth rebateu. – Não é isso?! – Elizabeth persistiu, finalmente deixando escapar uma lágrima de raiva; e a sra. Abbott percebeu que ela estava sendo sincera neste momento. – Então o melhor que eu posso conseguir é um menino como Bill Collins!

--Sim. – A sra. Abbott respondeu, silenciando Elizabeth. – Você e Jane não são iguais! – Elizabeth sentiu o seu estômago afundar; sempre suspeitara da preferência da mãe por sua irmã mais velha, mas ela nunca admitira isso em sua cara antes. – Vocês duas são igualmente bonitas, não há como negar isto. Mas Jane é doce e gentil, enquanto você é teimosa e malcriada. – A sra. Abbott começou a explicar as suas alegações quando viu o olhar espantado de suas duas filhas, somados ao de seu marido (quem estava preste a intervir e assegurar a sua filha mais nova de que a sua mãe não fazia idéia do que estava falando). – Não se é preciso muito para agradar a sua irmã e ela sempre consegue ser estimada por todos da mesma forma, enquanto que você... Você parece sentir prazer em desafiar os outros, em pressioná-los até o ponto de que eles não resistam à pressão e se se afastem de você. – A sra. Abbott, no entanto, parecia extremamente lúcida ao dizer tais coisas a sua filha, sequer estava mais exaltada. – Eu cansei de assisti-la afugentar seus pretendentes com os mais diferenciados tipos de atrocidades que a sua mente criativa pudesse inventar. – E ignorando o olhar atravessado que estava recebendo do marido, prosseguiu. – Como sua mãe, está no meu dever tomar uma atitude para provar a você que você está desperdiçando a sua juventude com jogos desnecessários. ...Bill foi o único menino que me parecia um tanto... lento... para entender as suas artimanhas...

--Lesado, a senhora quer dizer! – Elizabeth comentou, num murmúrio raivoso. 

-- e tão teimoso como você, a ponto de persistir independente de quantas vezes e quantas formas você o destratasse! – A sra. Abbott, entretanto, escolheu por ignorar o comentário da filha. – Tudo o que eu queria era que você aproveitasse a sua juventude e se divertisse como outras meninas da sua idade! – Enfim, ela terminou a sua explicação.

--Me “divertisse”? – Elizabeth questionou-a. – Com Bill Collins?! A senhora está falando sério?! – Elizabeth também voltara se exaltar e a usar de seu tom impertinente ao se dirigir a sua mãe.

--Eu apreciaria se a senhorita me tratasse com o devido respeito, mocinha! – A sra. Abbott voltou a ralhar com ela.

--Eu apreciaria se a senhora parasse de me empurrar para meninos como Bill Collins! – Elizabeth rebateu, mas já sem o mesmo tom de voz. – Na verdade, para qualquer menino! – Acrescentou logo em seguida, ao pensar a respeito. – Eu posso muito bem arranjar um namorado, sozinha! – Quando a sra. Abbott ia replicar,  sr. Abbott se intrometeu.

--Por hoje chega! – Conseguindo atenção das três mulheres daquela família, as quais se voltaram para fitá-lo. –Elizabeth e Jane, vão para os seus quartos agora! – Ele soava mortalmente sério. – A sua mãe e eu precisamos ter uma conversinha. – E as meninas não se demoraram a obedecer.

            O jantar aquela noite demorou a ser servido. Às oito horas da noite o sr. Abbott foi chamar as duas filhas para irem reunir-se a mãe e a ele a mesa do jantar. Assim que as garotas ocuparam seus lugares a mesa, a sra. Abbott desculpou-se com Elizabeth. Não deu muitas explicações ou prolongou as desculpas, de forma que Elizabeth não sabia ao certo sobre o que ela estava se desculpando (se por tê-la feito sair com Bill ou se por todas as coisas que lhe dissera esta noite).

De qualquer forma, Elizabeth aceitou suas desculpas e desculpou-se ela mesma com a sua mãe, por ter gritado com ela durante a discussão. O jantar transcorreu sem nenhum outro tipo de conversa, pois todos permaneceram em silêncio. E, ao fim deste, as irmãs Abbott voltaram a se recolher em seus quartos, decidindo por dar aquele dia por encerrado e irem dormir mais cedo que o de costume.

Jane tinha tomado ainda outra decisão importante. Como Charles não houvera ligado, ela iria procurá-lo à escola no dia seguinte e esclarecer tudo logo de uma vez. 

_______________________________

            Will passou aquela tarde pensando no que Bill dissera sobre Elizabeth. Aquela simples afirmação (“Ela me disse que você costuma fazer todos os tipos de atrocidades com os seus pretendentes, tentando dissuadi-los de lhe cortejar, quando intimamente deseja a sua total atenção!”) ficava ecoando em seus ouvidos repetidas vezes. E ele se pegou recordando-se de todas as ocasiões em que ela se comportara de uma forma menos amistosa para com ele, tentando identificar nestas recordações as palavras de Bill.

            Lembrou-se da primeira vez que a viu, sentada ao refeitório da escola acompanhada de sua irmã e amigas. Até aquele momento, Will estivera de olho em Jane, mas ao ver Elizabeth ele sentiu a sua atenção sendo roubada por ela. Ela invadia a sua mente nos momentos mais improváveis, deixando-o constrangido na maioria das vezes.

--Olá, sr. Darcy.—Elizabeth sorriu, mas de uma forma diferente de Jane; Jane sorrira com sinceridade e delicadeza, enquanto que Elizabeth sorriu para ele com malicia no olhar, ao erguer a própria mão para cumprimentá-lo. Percebendo, satisfeita, que ele ficou sério de repente.

....

Will apenas segurou a sua mão por um segundo e permaneceu calado. Ela logo recolheu a própria mão e se afastou.

            Will recordava-se perfeitamente de como a sua mão parecia estar conectada a uma corrente elétrica àquele primeiro toque. E Will lembrou-se de como os seus olhos se encontraram através do retrovisor aquela noite, quando estivera a levando para casa.

            Will recordou-se da primeira vez que saíram e em como Charles tentara lhe convencer de que não seria um encontro de verdade; e de como ele estava decidido a torná-lo um encontro de verdade. Em como lhe parecia que Elizabeth sempre ficava buscando uma oportunidade para desafiá-lo, provocá-lo de alguma forma.

-- E... olá, testosterona móvel!—Ela exclamou ao se deparar com o carro de Will.

....

--O que você tem contra comedias românticas?—E virou-se para encará-lo, com um olhar de desafio.

--Eu não...—Mas antes que ele pudesse responder, ela disse.

--Eu sei!—Ela exclamou, como se houvesse tido uma revelação de repente.—Você não tem senso de humor!—Ela completou, com um sorriso no rosto. E, ficando séria de repente, disse.—Sempre tão emburrado!—Mas mantendo o seu tom de gozação.

Mas também se lembrava de como ela foi se abrindo para ele aos poucos.

--Vocês vão ficar comprando tudo para nós?—Elizabeth inquiriu.

--Sim.—Charles respondeu, enquanto Will confirmava com a cabeça.

--E eu posso pedir qualquer coisa e você...?—Elizabeth dirigiu a pergunta a Will.

--Eu compro.—Ele completou a pergunta dela, já a respondendo.

--Qualquer coisa?—Ela insistiu, já sorrindo.

--Qualquer coisa.—Ele respondeu, já imaginando que ela estava aprontando alguma coisa para ele.

--Deixa eu pensar, então.—Ela disse, ficando séria. E, depois de dois minutos, ela dirigiu um olhar malicioso a ele e disse.—Eu quero... um alemão.

E, após passar por tudo aquilo, conseguiu conquistá-la no final do dia. Recordava-se de quão contente ficou quando ela o arrastou pela mão para fora da loja quando vira Jane e Charles se beijando e de como ficara atônito ao ouvi-la dirigir-se a ele por Will.

--Bill teve a ousadia de insinuar que ia disputar com Will pela minha atenção!—Will fitou Elizabeth com muito interesse quando a ouviu dirigir-se a ele por “Will” ao invés de “sr. Darcy”, como geralmente fazia.

Lembrava-se de como se deitou em sua cama aquela noite com a certeza de que tudo aquilo valera a pena quando conseguiu beijá-la.

De alguma foram estúpida, tudo deu errado no dia seguinte e eles retrocederam. Desde então, tudo ocorreu da mesma forma. Na verdade, agora ele podia enxergar que era assim que o relacionamento deles era desde o começo, desde a primeira vez que se viram. Ele se encantou por ela, disse a maior das besteiras sem a intenção de ser ouvido por ela, ela começou a odiá-lo e ele passou a fazer de tudo para cair em suas boas graças. Ele teve sucesso, até pisar na bola pela segunda vez e tudo recomeçar do zero.

Parecia-lhe que eles estavam dentro de um ciclo vicioso, sempre dando um passo para frente e dois para trás. “Será que eu fiz mais uma besteira ao terminar com ela?! Será que estou repetindo os meus erros, só que de forma diferente?!”

_______________________________

            Charles saiu da cama sem a mínima vontade de fazê-lo; o fez unicamente porque não tinha outra escolha. A sua mãe não permitiria que ele faltasse à escola, a menos que estivesse doente – o que não era a sua situação. Então, tratou de se arrumar para ir à escola; como estava o mais desanimado que jamais estivera, vestira-se demoradamente. Estava tão distraído que vestiu a blusa pelo avesso e calçou pares de meias de cores diferentes. Não se deu o trabalho de pentear os cabelos, satisfeito apenas em deixá-los secar após o ligeiro banho – do qual esquecera se lavar as madeixas.

            Juntou-se aos seus pais a mesa do café e começou a colocar a sua xícara de chá – ele odeia chá – automaticamente. A sua mãe estranhou o comportamento e tomou-lhe a xícara da mão quando ele a erguia até a boca. Charles dirigiu-lhe um olhar surpreso, como se não houvesse notado sua presença até então, mas não lhe disse nada. A sua mãe perguntou-lhe se ele estava passando mal e Charles garantiu-lhe que estava bem.

            Quando ele tentou, pela segunda vez, servir-se do chá de ervas de sua mãe, ela tomou para si a tarefa de preparar-lhe uma xícara de café preto, como ele sempre gostara. Charles não demonstrou nenhum tipo de reação quanto a esta atitude de sua mãe, permanecendo sentado a mesa do café da manhã como se realmente não estivesse ali – apenas o seu corpo estivesse, mas a sua mente não.

            Depois que a sua mãe terminou de servi-lo, precisou encorajá-lo a comer, porque ele não estivera realmente lhe dando atenção. Charles tomou alguns goles do seu café – queimando a língua, porque o café estava muito quente, mas fato que ele deu pouca importância – e beliscou os pãezinhos de queijo que sua mãe pusera em seu prato. Processo este que demorou muito mais que geralmente ele demorava em tomar o seu desjejum – e, normalmente, ele comia como se estivesse esfomeado.

            Charles saiu de casa e entrou em seu carro, a contragosto por parte de sua mãe – quem tentara convencê-lo a ligar para Will e requisitar carona; não acreditava que no atual estado de distração de seu filho lhe era recomendável que dirigisse. Mas seu marido desfez-se de suas tentativas, assegurando que seu filho sabia dirigir muito bem, e encorajou Charles a ir à escola de carro.

            As preocupações de sua mãe provaram-se fundadas. Ele não chegou a sofrer nenhum tipo de acidente, mas dirigiu sem rumo por um considerável tempo antes de lembrar-se que estava indo a escola e tomar o caminho certo. Chegando a escola no exato momento em que o porteiro estava fechando os portões – como sempre fora educado e amistosos com o porteiro, John o deixou entrar.

            Charles passeou (sim, porque a velocidade que caminhava, aquele percurso cumprido em cinco/dez minutos no máximo, foi feito em vinte minutos) pelos corredores, por entre outros colegas de escola sem realmente enxergá-los – via somente vários borrões sem contornos diante de seus olhos. Quando entrou na sala, seguiu imediatamente para a carteira costumeira e sentou-se, permanecendo assim por todo o primeiro período.

Will estivera sentado à cadeira ao seu lado quando ele chegou e lhe dirigiu um olhar estranho, mas Charles não lhe deu atenção. Richard entrou na sala, seguido por George, quando o professor de história entrou na sala, e ocupou o lugar atrás de Charles. Mas Charles não deu sinal de ter notado nenhum destes fatos, porque permaneceu imóvel durante todo o tempo. Richard chegou até a fazer um comentário sobre a sua blusa, porque notara que ela estava pelo avesso quando viu a etiqueta aparecendo, além de estranhar ao notar que as costuras também estavam à mostra. Mas Charles não lhe deu atenção.

Quando o primeiro período foi encerrado e o professor de história recolheu os seus materiais para sair da sala, Will voltou-se para fitar Charles e inquirir-lhe sobre o que estava acontecendo – houvera notado o jeito do amigo e suspeitava que ele estivesse assim por causa de Jane. Mas outro colega de sala, quem Will nunca falara antes, sequer recordava o nome naquele momento, sentou-se na cadeira vaga a frente de Charles e, voltando-se para ele, inquiriu.

--Ham, e aí? Como vai, Charles? – Conseguindo que Charles lhe fitasse nos olhos, sem emoção. – É verdade que você e Jane terminaram?! – Will estava preste a escorraçar aquele menino dali, quando ouviu Charles responder (numa voz que não soou como a dele).

--É verdade. – Com a mesma emoção que seus olhos demonstraram ao fitar o colega ao primeiro momento.

            Will olhou para Charles, ainda mais surpreso. Richard, quem estivera preste a se levantar para sair da sala, permaneceu sentado e também olhava para Charles com espanto estampado no seu rosto. George tinha a exclamação “como é que é?!” na ponta de sua língua, mas não conseguia pronunciá-las.

--Então, é... – O colega de classe que houvera inquirido a Charles sobre o fim do namoro prosseguiu, aparentemente receoso quanto a sua próxima pergunta. – você se incomoda se eu a convidar para ir comigo a Festa do Halloween este sábado? Quero dizer, ir como meu par e não ir, no sentido de pegar carona ou qualquer coisa do tipo. – Se explicou, com um sorriso constrangido nos lábios, quando não recebeu nenhuma resposta imediata de sua parte.

            Will, mais uma vez, estava a um segundo de escorraçá-lo dali, quando Charles respondeu.

--Por mim. – Dando-lhe os ombros e se ergueu de sua carteira, caminhando à frente da sala.

            O colega de classe dos meninos também se ergueu da carteira onde se sentara para falar com Charles e tomou outro rumo, muito contente. E Will, Richard e George foram atrás de Charles, antes que ele conseguisse sair da sala.

--Que história é esta de que vocês terminaram? – Richard o questionou, parando a frente de Charles e barrando a sua passagem pela porta da sala.

--Ela não quer mais falar comigo, está certo. – Charles replicou, ainda sem emoção. – Eu tentei, mas ela me enxotou. – Ele se explicou, sem olhar nenhum dos amigos nos olhos. – Ela me deu fora! – E com isso, retornou para a sua carteira, sentando-se e permanecendo nela do mesmo jeito que estivera minutos atrás.

            Os outros meninos estavam paralisados com tal revelação e nenhum deles sabia o que fazer para ajudá-lo. Will ficou ainda mais aflito para saber o que tinha acontecido entre Jane e Charles, para que ela deixasse de falar com ele definitivamente, e Richard não pode mais se negar a dar-lhe satisfações. Finalmente vindo a relatar o episódio de domingo à noite ao Basement para Will e George – quem também estivera curioso quanto aos detalhes, porque já ouvira diversas versões do mesmo fato de pessoas diferentes da escola.

            Quando Richard notou que Will ficara revoltado com o que Charles dissera sobre Elizabeth, resolveu lhe chamar a atenção para um fato importante.

--Você não tem nenhum direito de ficar chateado com Charles pelo que ele disse a Jane sobre Elizabeth. – Richard o repreendeu, antes mesmo que Will manifestasse a sua opinião. – Ele o fez em sua defesa, baseado no que você disse a ele! Além do mais, você terminou com ela! – Richard completou, olhando o primo desconfiado. – Para que quer defendê-la agora?

--Eu não disse nada! – Will replicou, defensivamente.

            Richard continuou a olhá-lo desconfiado. Já começara a notar que Will mudara de idéia quanto à parte do fim do namoro dos dois ser algo “definitivo”.

 

 

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