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Não me enfrente diretamente com seu olhar. Um olhar pode ser rápido demais ou lento demais. (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo LI

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Capítulo 51

 

Will guiou os amigos até o seu quarto, encontrando o seu laptop ligado e conectado com o site de música, ainda tocando as músicas do CD de Lifehouse. Fechou aquela janela, desconectou-se da Internet e desligou o aparelho, o pondo de lado. Seus amigos, em sua maioria, haviam se sentado espalhados pelo quarto; exceto Richard, quem ficara de pé às suas costas e agora o fitava com um olhar de interrogação.

--Vai explicar que merda aconteceu ontem?! - Ele inquiriu, aparentemente muito irritado com o seu primo. - Hank fez o que para conseguir que você terminasse com Lizzie?!

--...Hank?! - Will exclamou, surpreso. - O que aconteceu comigo e Lizzie vai além de qualquer coisa que Hank pudesse ter feito!

--O que foi que aconteceu, então?! - Charles questionou. - Porque o boato que ouvimos foi que Lizzie e Hank... e você... Aí...vocês terminaram. - Charles relatou, de forma relapsa.

--Não. - Will respondeu; “Não foi por isso que terminamos, embora...”, ele pensava com raiva.

--O que foi então, Will? - Richard voltou a interrogar. - Porque estava tudo bem entre vocês num minuto e no outro...

--... - Will olhou de relance para George, quem desviou o seu olhar; ele esperava que George já houvesse contado parte da história, mas, pelo visto, não dissera nada a ninguém. Então, disse. - George me contou que Lydia disse a ele que Elizabeth só estava saindo comigo para se ver livre de Collins!

--Ele o que?! - Charles e Richard exclamaram, voltando-se para olhar George; Charles caiu da beirada da cama de Will, onde estivera sentado, quando tentou se levantar rápido demais. - De onde você tirou esta história?! - Richard bradou para George, fazendo dele o seu alvo do interrogatório. Enquanto Charles se levantava do chão e rearrumava as suas roupas, desistindo de ficar sentado.

--Lydia me contou. - George respondeu, defensivamente, também se levantando e indo para um canto do quarto, próximo ao guarda-roupa de Will.

--Quando?! - Richard se aproximou mais de George, quem começava a se encolher ao canto do quarto. - Porque você e Lydia só andam brigando ultimamente, é muito pouco provável que ela resolvesse lhe fazer este tipo de confidência.

--Ela me contou quando estávamos namorando. - Ele rebateu, deixando de se encolher e enfrentando Richard. - Quando Will convidou Lizzie para sair, na época do desafio. - Ele explicou, enraivecido com Richard por estar falando com ele daquela forma, como se o acusasse.

--E por que você veio contar a Will isso só agora?! - Richard rebateu, continuando a caminhar na direção de George; este balbuciava as palavras, mas não dizia nada. Enquanto Charles e Will assistiam os dois amigos discutindo, em silêncio.

--Eu achei que ele precisava saber. - George finalmente disse, sem muita confiança em suas palavras.

--Eu não acredito que você terminou com Elizabeth por causa do que este idiota disse! - Richard bradou para Will, voltando-se para ele, mas apontando um dedo acusador para George quando proferiu a palavra “idiota”. - Será que você não percebeu que ele está com raiva de todo mundo?!

--Ela admitiu. - Will replicou, estranhamente calmo, e se sentando a cadeira de sua escrivaninha.

--O que?! - Charles inquiriu, olhando seriamente para Will; Richard, quem não esperava aquela revelação, ficara sem palavras por um momento; e George, por sua vez, ficou orgulhoso por estar certo por uns meros segundos, até que olhou para o amigo e viu que ele estava abalado com tudo aquilo, e logo começou a se sentir mal. Talvez devesse ter ficado de boca fechada!

--Ela admitiu que só estava saindo comigo por causa de Bill Collins. - Will repetiu. - Acabou! ...O motivo porque George me contou não importa, o que importa é que era verdade. Fim de história.

--Eu não acredito! - Richard resmungou, mas para si mesmo que para os outros.

--Ela me disse na minha cara! - Will bradou, ficando com raiva de seu primo por sua falta de confiança nas palavras dele. - Acabou!

--Ela gosta de você, Will! - Richard afirmou, com veemência.

--Acabou! - Will exclamou, ainda mais alto, pondo-se de pé. - Eu não quero mais ouvir nada sobre esse assunto, especialmente sobre ela! ...A-C-A-B-O-U! Entendeu?! - Nenhum dos outros disse mais nada.

            Richard, no entanto, ainda tinha as suas dúvidas. Estava decidido a descobrir a verdade de toda esta história. Assim que saiu da casa do primo, acompanhado de Charles e George, teve a idéia de ligar para Charlotte e marcar um encontro com ela para aquela noite ao Basement. Quando pensava no dia em que ia convidar Charlotte para sair, nunca imaginou que seria por um motivo como este. Mas, dentro das circunstâncias, não tinha outra escolha.

            Combinou com Charles de ele ligar para Jane e convencê-la a juntar-se a eles; assim poderiam conversar os quatro e encontrar uma solução para este problema. George, é claro, decidiu não participar. Não fazia idéia do que podia fazer mais naquela situação.

_____________________________

            Assim como Will, Elizabeth foi bombardeada por suas amigas com perguntas quanto ao acontecido ao fim do dia anterior. E, como ele, também contou-lhe o que havia se passado entre os dois desde o momento em que se separaram – ela, Lydia e Mark de Will e George – ao momento em que se reencontraram. E, por ser uma menina, o seu relato foi muito mais preciso e recheado de detalhes.

--...e ele não me deu chance de explicar! - Ela terminou o seu relato, emocionada, mas sem chorar (o que custou-lhe muita força de vontade, porque sentia que estava preste a explodir em lágrimas a qualquer momento).

            As meninas a fitavam com pena, realmente sentidas com a sua situação. Mas nenhuma delas ousou ser a primeira a falar.

--De onde ele tirou a idéia de que você estava com ele por causa de Bill Collins?! - Mary questionou, sendo a primeira a quebrar o silêncio.

--Eu não sei. - Elizabeth replicou, desolada.

--Ahh, Lizzie... - Lydia começou a se lamentar, já adivinhando a sua participação naquela confusão. - É tudo minha culpa! - Ela exclamou, realmente arrependida do que fizera.

--O que você está dizendo, Lydia? - Jane perguntou; serena como sempre, mas estranhando a afirmação de sua amiga.

--Eu contei a George que você só tinha aceitado ser “uma das namoradas de Will por um mês” por causa de Bill Collins e ele deve ter dito a Will! - Lydia se explicou, já com uma expressão de quem pede desculpas em seu rosto.

--Deus, Lydia, por que você fez isso?! - Charlotte a recriminou.

--Ele ficava comentando que Lizzie tinha humilhado Will em público quando ele a convidou para sair, mas que depois não resistiu ao charme do seu amigo ou a fama de ser uma de suas namoradas... - Lydia continuou a se explicar. - Eu me vi na obrigação de defender Lizzie! - Completou, indignada.

--Tudo bem, Lydia! - Elizabeth decidiu não ficar chateada com Lydia por causa disso, porque ela não fizera por mal.

--Eu não devia ter dito nada! - Lydia exclamou. - Eu e a minha boca! - Dando um tapa na própria boca.

--Tudo bem, Lydia! - Jane apressou-se a reafirmar, segurando a mão de Lydia antes que ela voltasse a bater na própria boca.

--Eu acho... - Mary começou a dizer, como de costume fazia, como se estivesse falando para si mesma. - que ele logo irá se arrepender do que fez e pedir desculpas!

--É! - Charlotte seguiu o mesmo caminho que ela, tentando reanimar a amiga. - Will é um cara inteligente, logo irá perceber que o que aconteceu entre vocês naquela época não tem nada a ver com o que vocês têm agora!

--Concordo! - Catherine disse, veemente.

--Eu também concordo! - Lydia também imitou a amiga.

--Afinal, seria muita hipocrisia da parte dele te crucificar por causa disso... - Mary continuou, como se ninguém houvesse interrompido a sua linha de raciocínio. - quando ele mesmo não foi nenhum santo nesta história toda! Ele namorou cinco meninas ao mesmo tempo!!

--Apoiado!! - Lydia e Catherine exclamaram em união; chamando a atenção de Mary para elas, quem as olhou como se notasse a presença de ambas pela primeira vez.

            A expressão de surpresa no rosto de Mary fez com que as outras meninas começassem a gargalhar de repente, deixando-a ainda mais confusa. Até mesmo Elizabeth estava rindo.

            Elizabeth ficou observando as suas amigas por um bom tempo, contente de tê-las como amigas. Todas elas vieram a sua casa porque se preocupavam com ela e estavam ali, naquele exato momento, tentando reanimá-la. E já começou a se sentir um pouco melhor.

--Não vamos mais falar sobre coisas tristes... - Ela disse, quando Catherine continuou a fazer afirmações superpositivas para animá-la, com a ajuda de Lydia. - Vamos conversar sobre outra coisa.

--Você quer conversar sobre o que? - Lydia inquiriu.

--Richard... - Elizabeth respondeu, deixando as meninas de olhos arregalados. - e você. - Completou, olhando diretamente para Charlotte. - Conte-me tudo e não me esconda nada! - Ordenou, avidamente.

--Ham... - Charlotte começou a ficar vermelha, ao se encontrar como o foco da atenção de todas as meninas.

--É... Vocês sumiram depois da roda-gigante... - Lydia exclamou. - Para onde vocês foram? O que vocês ficaram fazendo? - Conseguindo deixar Charlotte ainda mais envergonhada.

--Anda, Charlotte! - Mary a apressou. - Até eu estou curiosa para saber. - Afirmou, com o seu ar sonele, fazendo as meninas voltarem a rir.

--Ahh... meninas, a gente... foi passear... - Charlotte respondeu.

--Ahh, Charlotte!!! - As meninas exclamaram juntas, num assomo de decepção pela resposta dela. - Ahh, diz a verdade! - Catherine disse. - Depois sou eu a sonsa!

            Após muita insistência das meninas, Charlotte relatou, com detalhes – porque as meninas não aceitaram de outra forma – para onde ela e Richard haviam ido após a roda-gigante e o que fizeram. Todas elas estavam extasiadas de alegria pelo que Charlotte havia lhes relatado. Elizabeth, em especial, estava muito feliz que a sua amiga finalmente estava se relacionando com a pessoa certa para ela, alguém que realmente gosta dela. E ainda mais satisfeita por vê-la tão feliz por estar gostando dele também – sim, gostando! Porque Charlotte ainda não estava preparada, psicologicamente, para admitir que estava perdidamente apaixonada por Richard Maverick; embora, todas as meninas podiam perceber que o que ela sentia por ele ia além de “gostar”.

            Não demorou muito tempo depois disso para a sra. Abbott bater a porta do quarto de Elizabeth, abrindo a porta e aparecendo para as meninas para anunciar o almoço. Todas as meninas foram convidadas a almoçarem com os Abbotts e nenhuma delas recusou o convite – Elizabeth logo fez uma pequena chantagem, alegando que não aceitaria ser abandonada por elas num momento destes, e nenhuma delas teve a coragem de declinar o convite da sra. Abbott. Assim, o almoço à mesa de jantar foi bastante animado, repleto de conversas divertidas. E tanto a sra. Abbott como o sr. Abbott notaram que Elizabeth estava bem melhor, diferentemente de como estava àquela manhã. Muito mais viva e comunicativa.

____________________________

            Richard parou o seu carro a entrada da casa de Charlotte e desligou o motor. Permitiu-se ficar contente de estar preste a sair do carro e tocar a campainha da casa dela, para que pudessem sair juntos. Neste instante, não se preocupou com o principal motivo do encontro dos dois àquela noite, apenas estava feliz com a perspectiva de estar com ela mais uma vez.

            Ele saiu do carro e andou, a passos apressados, até a porta da casa dela. A varanda estava iluminada e havia um banco de madeira em um canto, próximo a um canteiro de flores. Richard tocou a campainha e em pouco tempo a porta foi atendida por um menino de treze anos – irmão mais novo de Charlotte, Peter.

--Boa noite. - Cumprimentou o menino, ainda de pé ao batente da porta. - Charlotte está em casa?

--Quem quer saber? - O menino perguntou, com as sobrancelhas erguidas para Richard.

--Eu me chamo Richard... eu sou o nam... - Richard ia dizer “namorado”, mas, ao ver o pai de Charlotte aparecer a porta logo após o irmão dela, ficou em silêncio. - Boa noite, senhor. - Cumprimentou o pai de Charlotte também.

--Charlotte, seu namorado está aqui. - O sr. Hudson disse, abrindo um sorriso para Richard. - Entre, filho, não fique aí parado a porta! - Deixando Richard boquiaberto, certamente não esperava esta recepção. - Peter, deixe o rapaz passar! - O sr. Hudson ordenou, deixando de sorrir ao fazer o seu filho mais novo sair da frente da porta. - Vamos, entre! - E voltou a sorrir para Richard, quando ele entrou em sua casa. - Vamos, venha para a sala. Sente-se! - Apressou-se a acomodar a visita.

            Richard, hesitante, caminhou até o sofá e se sentou. O sr. Hudson sentou-se a uma poltrona, de modo a ficar de frente para ele, e Peter sentou-se ao seu lado, também o fitando – pai, amistosamente, e filho, como se estivesse diante de um inimigo mortal.

--Peter, vá chamar a sua irmã ao quarto dela. - A sra. Hudson apareceu a sala, vindo a ocupar o lugar que o filho mais novo estivera sentado.

--Boa noite, senhora. - Richard apressou-se a cumprimentá-la também.

--Boa noite. - A sra. Hudson sorriu para ele como o seu marido houvera feito. - Há quanto tempo você e Charlotte estão namorando? - Ela perguntou, curiosa.

            Richard ficou apreensivo com aquela pergunta, olhando do sr. Hudson para a sra. Hudson. Então disse:

--Um dia. - Nervosamente. - Senhora. - Completou, apressadamente.

--Um dia?! - A sra. Hudson repetiu, sorrindo ainda, e olhou para o marido.

--Cadê ele?! - Uma menina de onze anos apareceu à sala correndo e quase escorregou e caiu ao chão, ao parar bruscamente ao entrar à sala de estar.

--Mariah, isto são modos?! - A sra. Hudson a recriminou, deixando a menina corada.

            Mas Mariah estava mais interessada em olhar para Richard, a dar ouvidos a sua mãe. Atrás dela, apareceu Peter novamente.

--Onde está Charlotte? - O sr. Hudson perguntou.

--Ohh, era Charlotte quem eu devia chamar?! - Peter perguntou, fingindo estar surpreso. - Eu pensei que fosse Mariah! - Recebendo olhares atravessados de sua mãe, mas conseguindo arrancar uma gargalhada de seu pai.

--Pode deixar, mamãe! - Mariah disse, alegre. - Eu vou chamar Charlotte! - E fez o caminho de volta, ainda correndo.

--Então... você disse que se chama...? - O sr. Hudson inquiriu.

--Richard. - Richard respondeu. - Richard Maverick. Senhor.

--E você é da mesma sala de Charlotte? - O sr. Hudson continuou a questioná-lo.

--Não, senhor. - Richard replicou, tentando transparecer tranqüilidade. - Eu não sou da mesma turma que Charlotte, embora estou cursando a mesma série, senhor.

--E há quanto tempo você gosta da minha filha? - A sra. Hudson o questionou, recebendo um olhar alarmado de Richard.

--Ham... Há... - Ele começou a se remexer ao sofá, mas sem se levantar. - Há... algumas semanas? Um mês, talvez. - Respondeu, sinceramente, de forma que ficasse evidente o seu desconforto. - Senhora.

--E por que só começaram a namorar agora? - O sr. Hudson preferiu ignorar o desconforto do menino e seguir adiante com a sua linha de interrogatório.

--Charlotte estava namorando outra pessoa, senhor. - Richard respondeu, ainda sinceramente, já se perguntando quando Charlotte apareceria para socorrê-lo de seus pais.

--Ela estava?! - A sra. Hudson inquiriu, realmente surpresa com a alegação do menino.

--Ham.. Sim, senhora. - Richard ficou apreensivo de ter dito algo que não deveria; mas viu a sra. Hudson voltar a olhar para o seu marido e lhe sorrir, sendo correspondida por ele. 

            Antes que o sr. ou a sra. Hudson pudesse fazer qualquer outra pergunta a Richard, Charlotte apareceu a sala, sendo seguida por Mariah. Richard pôs-se de pé num pulo, tão ansioso que estava para sair dali.

--Mãe, pai, nós vamos ao Basement e – Charlotte informou, caminhando para perto de Richard e o tomando pela mão. - estarei de volta não muito tarde. - Concluiu, já abrindo a porta da sala e saindo a frente, sendo seguida por Richard.

--Tudo bem. - O sr. Hudson e a sra. Hudson os acompanharam até a porta. - Divirtam-se!

            Charlotte estava com tanta pressa quanto Richard de chegar ao carro dele e sair dali. Ela sabia como os seus pais eram – estranhamente amistosos com todos assim que os conheciam, além de extremamente curiosos. E isso seria triplicado com relação a Richard, porque ele era o primeiro namorado que ela trazia para casa. Ela estava se perguntado o que os seus pais deviam ter perguntado a Richard a sua ausência e, especialmente, o que Richard devia estar pensando naquele momento.

            Os dois entraram no carro, Richard o ligou e tirou o carro da vaga que ocupava enfrente a casa de Charlotte. Richard estava aliviado de ter conseguido sair da casa dela àquele momento, antes que houvesse dito algo realmente comprometedor. Esperava que não houvesse dito nada realmente alarmante; estava em dúvida com relação a última pergunta que respondera, no entanto. Ficou claro que os pais de Charlotte não souberam do romance que ela teve com David, se é que se pode chamar aquilo de romance! Só de relembrar isso Richard ficou com raiva.

            Mas, à medida que dirigiam-se ao Basement, esqueceu-se do sr. Hudson e da sra. Hudson. Voltou a ficar contente por estar saindo com Charlotte, um encontro de verdade. “Está certo que vamos nos encontrar com Jane e Charles, mas não precisamos passar a noite inteira conversando sobre Will e Lizzie!”, ele ponderava consigo mesmo. E olhou para Charlotte, sorrindo para ela. Charlotte lhe sorriu de volta, ficando aliviada ao notar que ele não parecia afetado por seus pais.    

             Quando entraram ao primeiro salão do pub, não tiveram dificuldade em encontrar Charles e Jane. O outro casal estava sentado a uma das mesas ao fundo do salão, em um canto reservado – o que agradou Richard, já que a conversa que pretendiam ter deveria ser administrada da forma mais discreta possível. Ele sabia que boatos com relação ao fim do namoro de seu primo com Elizabeth circulavam como rastilho de pólvora em chamas; não podia fornecer aos curiosos mais munição.

            Charles houvera ligado para Jane como Richard lhe pedira e a convidara para sair esta noite com o intuito de conversarem sobre Will e Elizabeth. Diferentemente das outras vezes que convidara Jane para sair, desta vez ela hesitou em aceitar. Tentou desfazer-se daquele convite de forma educada, alegando cansaço e o fato de o dia seguinte ser uma segunda-feira. Mas, ao fim, aceitou, porque a sua mãe e irmã insistiram – Charles conseguiu ouvir as vozes de ambas ao fundo, quando conversava com Jane ao telefone.

            Jane não queria deixar Elizabeth sozinha, mas Elizabeth se recusou a aceitar que ela ficasse em casa por sua causa. E, com a ajuda de sua mãe, conseguiu convencer Jane a aceitar o convite de Charles e sair um pouco – afinal, tinha passado o dia inteiro dentro de casa, preocupando-se em animar Elizabeth.

            Quando Charles apareceu em sua casa para buscá-la, encontrou-se rapidamente com Elizabeth. Ela sorriu educadamente para ele e o cumprimentou brevemente. Charles correspondeu-lhe ao sorriso e cumprimento, mas permaneceu a observá-la quando ela retornou a sua antiga ocupação. Elizabeth estava lendo um dos manuscritos que seu pai trouxera para casa, principalmente as suas observações ao roda-pé das folhas – sempre gostou de ler os comentários inteligentes e, por muitas vezes, sarcásticos de seu pai em seus trabalhos como editor.

            Para Charles, Elizabeth aparentava estar bem, tão bem quanto em qualquer outra ocasião em que se encontraram. Ao contrário de seu amigo, ele ponderava. Sabia que Will estava em casa àquele momento, provavelmente enfurnado em seu quarto, tentando, sem sucesso, tirá-la de sua cabeça – ele conhecia o seu amigo e, embora Will estivesse estranhamente calmo durante a conversa que tiveram aquela manhã, ele sabia que por dentro Will estava se torturando.

            Quando ele e Jane saíram da casa dela, Charles estava convencido de que nada do que Richard, Charlotte, ele e Jane conversassem esta noite poderia mudar a situação entre o seu amigo e a sua cunhada. Parecia obvio para ele que Elizabeth não gostava de Will da mesma forma e com a mesma intensidade que Will gostava dela. Ela, certamente, não estava sofrendo tanto quanto o seu amigo com o fim do namoro. E começou a acreditar nas palavras de Will, de que ela tinha aceitado namorá-lo unicamente por causa de Bill Collins e que a história deles tinha chegado ao fim definitivamente.

            Ele passou a viagem da casa de Jane ao pub em um silêncio constrangedor. Jane estranhou muito o comportamento dele, porque ele parecia estar fazendo tudo automaticamente – o beijo que lhe dera ao se cumprimentarem, a forma que segurou em sua mão para guiá-la até o seu carro e a forma que a guiara até uma das mesas ao fundo do salão do pub. Especialmente, o fato de que ali estavam eles, sozinhos, esperando Richard e Charlotte, e Charles comportava-se como se ela não estivesse ali com ele. Mal dirigia-lhe o olhar, tão pouco a palavra. Sempre olhando para as mesas ao seu redor e olhando para o seu relógio de pulso, agitado e, evidentemente, ansioso para que Richard e Charlotte chegassem.

            Jane ficou aliviada quando Charlotte e Richard chegaram, porque o clima entre ela e Charles já estava a deixando nervosa. Richard e Charlotte, ao contrário deles, estavam sorridentes e comunicativos. Entraram ao salão do pub de mãos dadas e se aproximaram da mesa em que eles estavam sentados rapidamente. Os cumprimentaram alegremente, ao ocuparem dois lugares vagos à mesma mesa.

            Depois que o novo casal fez os seus pedidos de bebida ao garçom e serem servidos por ele por duas batidas não alcoólicas, os quatro puderam finalmente começarem a discutir o assunto principal para aquela reunião. Como nenhum dos quatro sabia ao certo por onde começar ou o que dizer, o assunto demorou a ser introduzido à conversa. Até que Richard cansou-se dos rodeios e foi direto ao assunto.

--Como é que Lizzie está? - Ele perguntou a Jane, quem arregalou os olhos para Richard.

            Ela, no entanto, ainda estava esperando que eles demorassem um pouco mais para tocar neste assunto. Olhou para Charlotte e viu que a amiga estava olhando para Richard de soslaio. Charlotte, igualmente a Jane, estava surpresa com a forma que o seu namorado houvera levantado o assunto assim tão de repente. Jane voltou a olhar para Richard e notou que ele, por sua vez, estava olhando fixamente para ela, aguardando a sua resposta.

--Ela está... bem. - Jane respondeu, pouco convincente, olhando para o seu copo de refrigerante e o erguendo até a boca. - Como Will está? - Rebateu, desistindo de beber o seu refrigerante, erguendo o olhar para Richard; foi a primeira vez que Richard viu uma expressão dura no rosto de Jane.

--O oposto de “bem”! - Charles resmungou, demonstrando estar irritado.

            Richard olhou para Charles com as suas sobrancelhas erguidas; nunca vira Charles responder uma pergunta de Jane com um tom de voz assim tão rude. Charlotte também estava surpresa com a forma que o outro casal estava se comportando, vindo a notar que Jane dirigira um olhar incrédulo a Charles – só não tinha certeza se aquele olhar estava relacionado ao tom de voz de Charles ou a alegação que Charles fizera quanto a Will.

--Que bom! - Jane resmungou, voltando a olhar para Richard e terminando de levar o copo de refrigerante a boca, tomando um gole da bebida.

--Como é?! - Charles a interrogou, olhando para Jane com mais raiva ainda.

--Ele merece! - Jane replicou, olhando para Charles, desafiadoramente.

            Richard percebeu que este era o momento que devia se intrometer na conversa, antes que ela se transformasse em uma discussão.

--Gente, calma! - Disse, sorrindo desconfortavelmente para os dois que voltaram-se para olhá-lo. - Não estamos aqui para discutir, certo?!

            Charles deu-lhe de ombros, olhando em outra direção. Jane voltou a levar o seu refrigerante a boca e tomar outro gole.

--Certo. - Richard afirmou. - Jane, o que Elizabeth lhe disse que aconteceu entre ela e Will no fim daquele passeio? - Richard tentou recomeçar a conversa, cautelosamente.

--Que ele terminou com ela. - Jane replicou, sem entrar em muitos detalhes e ainda soando enojada. Charles resmungou algo incoerente e continuou a observar o ambiente a sua volta.

--Ela disse como isso aconteceu? - Richard voltou a perguntar a Jane, quem estivera olhando a nuca de Charles com uma expressão incrédula no rosto mais uma vez. - Por que ele terminou com ela? - Completou, conseguindo que ela voltasse a olhar para ele.

--Claro. - Jane replicou, mal humorada.

--O que ela lhe disse? - Richard interrogou, ao notar que ela não iria elaborar a sua resposta.

--Que ele terminou com ela porque acreditava que ela estava com ele porque queria se livrar de Bill Collins. - Jane respondeu. - Qual foi a razão mais estúpida e ridícula que ele pôde ter usado para terminar com ela! - Jane completou, fazendo Charles olhar para ela, admirado (não em um bom sentido) com o que estava ouvindo. - Sem falar hipócrita! - Jane continuou, ainda olhando para Richard, quem estava em completo silêncio (não esperava esta explosão de Jane). - Julgar a minha irmã por isso, quando ele mesmo só a convidou para sair porque você o desafiou!!

--E isso é desculpa para ela usar o meu amigo, fazendo pouco caso dos sentimentos dele por ela, só para não ter de sair com Bill Collins?! - Charles explodiu.

--Ela nunca fez isso!! - Jane replicou, quase gritando aquela resposta no rosto de Charles.

--Ahh, não, é?! - Charles inquiriu, com um tom sarcástico na voz. - O que ela estava fazendo então?! - Charles questionou-a, enfurecido. - Fingindo que estava interessada nele... - Charles ia continuar, mas Jane o interrompeu, exclamando:

--Lizzie nunca fingiu sentir algo que não fosse verdadeiro por ninguém! Nunca!! - Richard e Charlotte estavam atônitos com o que viam e ouviam; nenhum dos dois sabia ao certo o que fazer, além de ficar ali em silêncio e ouvir aquele casal, que até aquele momento era calmo e amoroso, aos gritos, um com o outro. - Até mesmo no começo, quando eu entendi errado a desculpa que ela deu a minha mãe para não sair com Bill e pus o nome de Will no meio... Fui eu quem ligou para você e pediu para convidá-lo! - Jane estava extremamente exaltada, já começando a chamar a atenção de seus vizinhos de mesa ao pub. - Minha irmã nunca quis que ele fosse! Ao contrário, quando ela o viu lá em casa ela ficou furiosa! - Charles não conseguia rebater nenhuma das alegações de Jane, porque ela sempre voltava a falar quando ele abria a boca. - Ela nunca fingiu sentir algo por ele que ela realmente não sentia, nem mesmo por um segundo! Nem mesmo naquele dia! - Jane voltou-se para olhar Richard, mas logo abaixou o seu olhar para o seu copo de refrigerante. A sua mão estava tremendo, por ela estar nervosa e agitada, então ela apoiou o copo de refrigerante na mesa e o soltou, colocando as suas duas mãos ao seu colo. - Você tem a cara de pau de acusar a minha irmã de fazer pouco caso dos sentimentos do seu amigo, quando, na verdade, foi ele quem nunca teve qualquer tipo de consideração pelos sentimentos dela! - Jane disse, duramente, mas em um tom de voz mais controlado. - Os sentimentos dele por ela!! - Ela resmungou, num tom irônico. - Que sentimentos?! - E voltou a olhar para Charles, quem estava mudo ao seu lado, olhando-a como se não a reconhecesse. - Will não nutre sentimentos por ninguém, além dele mesmo! - E voltou a alterar a voz ao dizer isso. - Se ela chegou a machucar alguma coisa, foi o ego dele! - Charles conseguia ver faíscas saindo dos olhos de Jane. - E isso porque ela não caiu de quatro por ele à primeira vista, como as outras meninas do colégio! ...E por que ela deveria?! - Jane voltou a questioná-lo, mas sem lhe dar a chance de replicar. - Ela sequer o conhecia! ...E um cara precisa ter mais do que uma boa aparência para conquistar a minha irmã! - Jane finalmente se calou, voltando a olhar para Richard e Charlotte.

            Ninguém disse mais nada por um tempo. Os outros três ocupantes daquela mesa, assim como alguns outros ocupantes das mesas vizinhas mais próximas, apenas olhavam para Jane, surpresos. Nenhum deles sabia como responder a explosão de fúria dela. Jane, notando o olhar de várias outras pessoas ao pub direcionados a ela, começou a ficar constrangida.

--Quer saber... - Ela disse, no seu tom normal de voz. - eu vou embora. - Já se levantando do seu lugar à mesa. - E você... - Ela voltou-se para Charles e apontou um dedo acusador para ele, dizendo-lhe ainda com bastante raiva, quando ele abriu a boca para lhe dizer alguma coisa. - nunca mais abra a sua boca para falar mal da minha irmã de novo! - E foi embora rapidamente.

            Richard e Charlotte se entreolharam, quando Jane saiu apressada do pub, deixando Charles para trás, ainda boquiaberto. Richard começou a resmungar mentalmente que não houvera convencido Charles a convidar Jane para sair para que eles brigassem; ele queria concertar o problema entre Will e Elizabeth e não criar um entre Charles e Jane. “Como é que isso aconteceu?!”, ele se perguntava, porque ainda não conseguia compreender como eles chegaram àquela discussão com uma simples pergunta sua.

            Charles ficou sentado ali, aparentando estar desorientado. Depois de alguns minutos, ele se levantou e saiu também, mas sem dizer nada a nenhum dos outros dois, e não voltou mais. Richard voltou-se para Charlotte, quem lhe retribuiu o olhar confuso e disse.

--O que acabou de acontecer?!

--Eu não sei! - Richard colocou a mão na cabeça e passou a se crucificar por sua brilhante idéia de discutir Elizabeth e Will com Charles e Jane.

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