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Não desesperar nunca do que se quer esperar: Por uma aplicação infatigável alcançaremos o fim.(Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo L

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Capítulo 50

 

Will foi o último a sair do ônibus, caminhando-se ao seu carro lentamente. Charles o acompanhou em silêncio. Quando chegou ao seu carro, encontrou Georgiana, sorridente, a esperar por eles – ela não fazia a mínima idéia do que tinha acontecido.

            Perguntou por Elizabeth e Jane, por que de elas não estarem voltando para casa com eles – afirmando que Will podia muito bem deixá-las em casa. Charles respondeu-lhe que o pai delas já as estava esperando quando chegaram à escola, consciente de que Will não teria condições de dar uma resposta a própria irmã.

            Os três entraram no carro e seguiram viagem de volta para casa. Will e Charles em silêncio, enquanto Georgiana comentava o dia maravilhoso que passara. Charles ainda sorria para ela de vez em quando, mas Will estava sério, concentrado na direção.

            Deixou Charles em casa, despedindo-se dele com um simples “boa noite” e continuou o seu caminho para casa. Estacionou o carro enfrente de casa e saiu deste, o trancando. Caminhou até em casa, entorpecido. Quando entrou em casa, sua mãe e pai esperavam por eles dois, ansiosos para saber como tinha sido o passeio.

            Georgiana relatou o seu dia com muita animação, mas Will permaneceu calado. Quando sentiu que iria ser o foco das perguntas de sua mãe, alegou cansaço e recolheu-se ao seu quarto. O sr. e a sra. Darcy perceberam a mudança de humor nele e deduziram que algo não havia dado certo neste passeio. Mas não comentaram nada um com o outro enquanto estavam na presença de Georgiana.

            Will entrou em seu quarto, fechou a porta e começou a se despir das roupas que estava usando. Tirou a blusa com o emblema da escola e, quando ia jogá-la ao chão do quarto, sentiu o perfume de Elizabeth. O seu peito se comprimiu e o ar quase lhe faltou. Livrou-se daquela blusa com raiva e continuou a se despir, já caminhando em direção ao banheiro. Entrou embaixo do chuveiro e tentou não pensar nela, mas não conseguiu. Logo estava chorando, enquanto sentia a água percorrer o seu corpo.

______________________

Elizabeth houvera chorado por muito tempo aquela noite. Jane conseguiu convencê-la a tomar um banho e se deitar em sua cama, quando o seu choro cessou um pouco. E permaneceu com Elizabeth enquanto ela não adormeceu. Domingo não demorou a surgir; aquela manhã nasceu como outra manhã de outono qualquer, com um sol apagado e um vento frio que balançava as poucas folhas da árvore do lado de fora da janela do quarto de Elizabeth.

            Elizabeth acordou muito cedo, embora houvesse demorado muito tempo para conseguir dormir a noite anterior. Ficou deitada em sua cama, encolhida e coberta pelo seu edredom. Fitava a porta de seu quarto, esta fechada, e tentava escutar possíveis barulhos dos outros cômodos da casa – não havia nenhum. Deduziu que todos ainda dormiam, então permaneceu deitada – não tinha certeza, no entanto, se teria forças para se levantar qualquer momento daquele dia. Sentia uma necessidade de permanecer imóvel, deitada em sua cama, até que a dor acabasse.

            À medida que as horas se passavam, ela começou a ouvir barulho em outros cômodos de sua casa. Primeiramente, no andar de cima, mas logo ouviu passos ao corredor do lado de fora de seu quarto e mais barulho no andar de baixo. Soube que seus pais haviam acordado; sua mãe, em particular, porque conseguia ouvir o barulho distante das panelas à cozinha.

            Voltou a ouvir passos ao corredor do lado de fora de seu quarto, chegando a ver uma sombra parada a sua porta fechada. Fechou os olhos e fingiu estar dormindo ao notar que a maçaneta da porta de seu quarto estava se movimentando. Em questão de minutos sentiu uma mão suave e delicada passar por seus cabelos e soube que Jane era a pessoa que entrara em seu quarto. Continuou com os olhos fechados, fingindo estar dormindo. Jane sabia que ela fingia, mas permitiu que assim permanecesse. Saiu do quarto silenciosamente e fechou a porta as suas costas.

            Pouco tempo depois, a porta de seu quarto voltou a ser aberta e a sra. Abbott entrou nele. Elizabeth voltara a fingir que estava dormindo ao notar a maçaneta se mexer novamente. A sra. Abbott caminhou até a sua cama e, como Jane, passou a sua mão sobre o cabelo de Elizabeth. Também adivinhou que ela fingia que estava dormindo e disse.

--Vamos, querida, está na hora de acordar. - Com bastante carinho. - Eu fiz panquecas para o café da manhã e o seu pai já saiu para comprar geléia de framboesa, sua favorita.

            Elizabeth sabia que sua mãe estava preocupada com ela só de ouvi-la se dirigir a ela daquela forma e ter tamanho trabalho a esta hora da manhã de domingo só para agradá-la. E por isso abriu os olhos lentamente.

--Assim... - A sra. Abbott sorriu-lhe, meigamente. - Vamos, levante-se e tome um banho. - Disse-lhe com a mesma voz melosa, cheia de ternura, que lembrava-lhe tanto Jane.

            Elizabeth se sentou a cama, tirou o edredom de seu caminho e se levantou, caminhando para o banheiro. Enquanto fechava a porta, a sra. Abbott lhe disse.

--Vai ficar tudo bem! - Sorrindo-lhe com convicção.

            Elizabeth devolveu-lhe um sorriso amarelo e fechou a porta do banheiro. Quando apareceu à cozinha, recebeu três sorrisos amorosos. A sra. Abbott apressou-se a lhe recomendar que se sentasse, o que Elizabeth fez, sentando-se ao lado de Jane. A sra. Abbott rapidamente encheu o seu prato com três grandes panquecas e o sr. Abbott colocou o pote de geléia de framboesa a sua frente.

            Ela não estava com fome, mas comeu unicamente para não fazer desfeita aos seus pais. Depois do café da manhã, permaneceu a sala de estar com o seu pai e sua irmã, enquanto a sra. Abbott preparava o almoço. Normalmente, os seus pais, sua mãe em especial, aproveitaria a oportunidade para lhe crivar de perguntas sobre o dia anterior, mas ela não o fez. Elizabeth agradeceu mentalmente e decidiu tentar suportar aquele dia da melhor forma possível, sem ter de se trancar em seu quarto o dia inteiro.

_____________________________

            Will não dormiu nada aquela noite. Ficou a revirar-se na cama incessantemente, repassando a sua discussão com Elizabeth no fim da tarde do dia anterior. Dizia a se mesmo para não pensar mais naquilo, para esquecer logo de uma vez e ir dormir. Mas sempre que fechava os olhos, eram os olhos dela completamente vazios de emoção ao ultrapassá-lo dentro do ônibus que ele via. Quando o dia amanheceu, estava cansado, com dor de cabeça e com raiva do mundo.

            Levantou-se da cama e trocou a roupa que estava vestido para dormir por uma calça de moletom azul escuro, blusa de algodão branca e o casaco de moletom de mesma cor que a calça. Saiu de seu quarto, atravessando o longo corredor até a escada sem fazer muito barulho e desceu os degraus. A sua casa ainda estava em completo silêncio, imaginava que somente Mirian e os outros empregados estivesse a despertar àquela hora. Então, seguiu o seu caminho pela sala de estar, abriu uma porta que o levaria a varanda lateral e a atravessou também. Logo estava ao jardim, seguindo o caminho de pedras de mármore até a quadra de tênis ao fundo da sua casa.

            Will correu entorno da quadra de tênis até se cansar, por mais de uma hora. Depois seguiu para a sala de academia de seu pai – por trabalhar muito, o sr. Darcy não tinha oportunidade de freqüentar uma academia, como de costume em sua juventude, então montou uma em sua própria casa, vindo a fazer as atividades físicas de que mais gostava quando tinha uma oportunidade. Will, influenciado por ele, adquirira o interesse por boxe, praticando-o com mais afinco sempre que estava estressado.

            Ao passar das oito horas da manhã, retornou para casa. Encontrou-se somente com Mirian, quem já começava a dispor a mesa do café da manhã. Cumprimentou-a com um simples aceno de cabeça e saiu de sua presença o mais rápido que conseguiu, subindo os degraus da escada dois a dois. Trancou-se em seu quarto, logo despindo-se da roupa que estava vestindo e entrando no banheiro. Tomou um banho demorado, permanecendo de baixo do chuveiro ligado, paralisado, fitando os azulejos em um transe por vinte minutos.

            Quando retornou à mesa do café da manhã, já encontrou a sua mãe sentada a sua cadeira. Ela lhe dirigiu um breve olhar e um sorriso amoroso, retornando a sua atenção ao pequeno artigo em sua revista de Odontologia. Will sentou-se a sua cadeira, próximo a ela e começou a se servir. A sra. Darcy logo concluiu o que estava lendo e pôs a revista de lado, voltando-se para o seu filho e lhe dando toda a sua atenção.

--Se incomoda de me dizer o que aconteceu? - Perguntou-lhe, enquanto degustava de um mamão.

--Nada aconteceu. - Will replicou imediatamente, passando geléia de amora em sua torrada.

--Fitzwilliam, eu sei que você pensa que eu, de todas as pessoas, não lhe conheço bem... - A sra. Darcy disse, calmamente. - e, desculpe-me se estou lhe decepcionando ao lhe dizer isto, mas eu conheço...Muito bem! - Continuou, dirigindo um olhar profundo. - Agora, eu sei que há algo lhe atormentando quando você acorda às seis horas numa manhã de domingo e decide praticar atividades físicas, como correr em volta da quadra de tênis e depois se trancar na academia de seu pai... - E, retornando a sua atenção ao seu mamão, tirou uma colherada e levou-a a sua boca. - Além do mais, você saiu com uma expressão no rosto no sábado de manhã para ir ao parque de diversões e retornou com outra completamente diferente... Esta que está usando agora! - Concluiu, voltando a olhar para ele.

--Lizzie e eu terminamos. - Will respondeu, rapidamente, como se precisasse acabar com aquela conversa logo de uma vez.

--Mas ...já?! - A sra. Darcy exclamou, abaixando a sua colher tão apressadamente que a bateu em seu prato, fazendo um barulho agudo. - Quero dizer... - Tentou se corrigir, quando notou o olhar atravessado que recebeu do filho. - Por quê? O que aconteceu?

--Eu não quero falar sobre isso! - Will respondeu, evitando olhar condescendente que a sua mãe lhe dirigia.

--Will, meu amor, você não deve ficar resguardando as suas próprias mágoas. - Will voltou a olhar para sua mãe; ela raramente lhe chamava de Will, a menos que desejasse muito lhe agradar.

--Eu não posso conversar com a senhora sobre isso, mamãe. - Replicou, ainda assim.

--Você pode conversar comigo sobre tudo o que quiser. - A sra. Darcy afirmou, veemente.

--Eu não quero conversar sobre isso... com a senhora. - Ele replicou, tentando soar da forma menos ofensiva possível. Realmente não tinha vontade alguma de discutir este assunto com ninguém, muito menos com a sua própria mãe.

--Eu entendo. - A sra. Darcy disse, voltando a concentrar-se em seu mamão. - Mas eu... suponho que seu primo, Charles e George vão aparecer por aqui uma hora dessas. - Comentou, tentando soar displicente.

--Provavelmente. - Will respondeu, voltando a passar geléia em sua torrada. Então percebeu que a sua torrada já estava transbordado de geléia; logo começou a comê-la.

            Georgiana e seu pai não demoraram muito a se juntar aos dois à mesa do café; ambos estavam bem humorados. Georgiana continuava com a mesma disposição do dia anterior, ainda relatando a quem quisesse ouvir o dia maravilhoso que passara no parque. Ela tentou, em vão, fazer com que Will participasse da conversa, mas ele permaneceu calado durante o restante do seu café da manhã. Retirando-se da presença de seus familiares e recolhendo-se ao seu quarto assim que terminou o café. Georgiana precisou gritar para ele, de seu lugar a mesa do café, que tinha uma surpresa para ele em seu e-mail, para ele checar se já havia recebido, quando Will atravessou a sala de jantar a passos largos e ágeis.

            Will não estava com paciência para checar seus e-mails. Mas após passar praticamente uma hora deitado em sua cama, fitando o teto de seu quarto, tentando não pensar em Elizabeth (falhando miseravelmente), decidiu por ligar o seu laptop e navegar pela Internet. Primeiramente, procurou pelos sites que geralmente o distraiam quando estava entediado – sites sobre carros, sobre jogos, sobre filmes e sobre música, nesta ordem. Nenhum deles surtiu o efeito desejado, então rendeu-se a sugestão de sua irmã e abriu o seu e-mail. Não teve muita dificuldade para identificar a mensagem dela, dentre as inúmeras mensagens de propaganda de revistas e outros sites.

            Clicou sobre a mensagem que sua irmã lhe enviara no dia anterior e, como esta demorou em abrir, abriu outra janela, retornando ao site de música. O site de música estava fazendo propaganda de um CD acústico de Lifehouse; Will clicou sobre o seu link e aguardou que ele abrisse. Clicou sobre a primeira faixa, por curiosidade, e logo começou a escutar a música Storm.

How long have I been in this storm?

(Há quanto tempo eu estou nesta tempestade?)

So overwhelmed by the ocean’s shapeless form

(Tão oprimido pelo oceano informe)

Water's getting harder to tread

(Está ficando cada vez mais difícil atravessar a água)

With these waves crashing over my head

(Com estas ondas quebrando sobre a minha cabeça)

            Will deixou aquela janela aberta, com a música tocando, enquanto retornava a janela em que o seu e-mail estava aberto. Então viu a mensagem que a sua irmã lhe enviara. Mensagem não, imagem. Georgiana houvera lhe enviado a foto que tirara de Will e Elizabeth se beijando com o seu celular.  

If I could just see you

(Se eu pudesse te ver)

Everything would be all right

(Tudo ficaria bem)

If I had see you

(Se eu pudesse te ver)

This darkness would turn to light

(Esta escuridão se transformaria em luz)

            Will ficou olhando aquela foto por um bom tempo, hipnotizado. Reclamando com Deus, mentalmente, que não merecia este tipo de tortura, que já estava sofrendo o bastante. Ele arrastou o mouse e colocou a setinha sobre o botão de “excluir”. Mas hesitou, à medida que continuava a olhar aquela foto.

I know you didn’t bring me out here to drown

(Eu sei que você não me trouxe aqui para me afogar)

So why am I ten feet under and upside down

(Então, por que eu estou a dez pés de profundidade e de cabeça para baixo?)

Barely surviving has become my purpose

(Mal sobreviver se tornou o meu propósito)

'Cause I’m so used to living underneath the surface

(Porque estou tão acostumado a viver de baixo da superfície)

            Will acabou fechando a janela de seu e-mail por completo, permanecendo com o site de música ainda conectado. Levantou-se de sua cadeira à escrivaninha e começou a andar pelo seu quarto. Passou por seu celular, sobre o criado-mudo próximo a sua cama, três vezes antes de pegá-lo e retornar a sua cadeira enfrente ao laptop. Antes que conseguisse apertar o número da discagem rápida em que o número do telefone da casa de Elizabeth estava gravado perdeu a coragem. Colocou o celular de pé sobre a escrivaninha, cruzou os braços sobre a mesa, apoiou o queixo sobre os braços e ficou a fitar o celular, qual estava exatamente na sua linha de visão, tentando se decidir se devia ligar para ela ou não.

And I will walk on water

(E eu andarei sobre as águas)

And you will catch me if I fall

(E você me segurará se eu cair)

And I will get lost into your eyes

(E eu me perderei em seus olhos)

And know everything will be all right

(E saberei que tudo ficará bem)

And know everything is all right

(E saberei que tudo está bem)

Everything is all right

(Tudo está bem)

Everything is all right

(Tudo está bem)

            Will voltou a se levantar da sua cadeira e se afastar da escrivaninha, assim como do celular conseqüentemente, quando seus olhos começaram a se encher de lágrimas. Limpou-as com as costas das mãos num gesto zangado e saiu do quarto. Tinha que ocupar a sua mente com outra coisa, não podia mais ficar pensando nela.

            Foi procurar seus pais; sabia onde os encontraria àquela hora da manhã de domingo. Quando apareceu ao jardim, os viu sentados no banquinho de costume; o seu pai tinha o seu jornal em mãos e a sua mãe a mesma revista que estivera lendo durante o café. No entanto, não estavam concentrados em ler os seus materiais de leitura, mas sim envolvidos numa conversa. Quando Will se aproximou o suficiente para entreouvir o que eles estavam conversando, ouviu seu pai exclamar “mas ...já?!” e soube, imediatamente, sobre o que eles estavam conversando.

            Will fez o caminho de volta, desistindo de se aproximar deles. Não queria passar por um interrogatório de seu pai sobre o que aconteceu com ele e Elizabeth. Estava decidido a voltar para o seu quarto e permanecer nele o resto do dia quando, ao passar pela sala, foi interceptado por Mirian, quem guiava Richard, Charles e George à sala.

--Vamos conversar. - Richard disse, solenemente, ao fitar o primo. Will não teve outra escolha, a não ser resignar-se a vontade de seus amigos.

________________

Elizabeth estava sentada ao sofá da sala, na companhia de seu pai. Enquanto ela assistia televisão, ele lia um dos manuscritos que recebera em seu trabalho para fazer uma prévia edição – o sr. Abbott trabalha com uma editora de livros e tinha a função de editor chefe; sempre adorou o seu trabalho, porque era apaixonado pela língua escrita, e muitas vezes trazia o seu trabalho para casa.

            Elizabeth estava assistindo “A Bela e a Fera” (Beauty and the Beast) em um canal da TV a Cabo. Mas, na realidade, não estava realmente assistindo nada. A sua mente insistia em vagar pelo passado. Elizabeth analisou cada um dos momentos que passou com Will desde o dia em que o conhecera, avaliando cada uma de suas atitudes, tentando descobrir o momento em que tinha feito algo de errado para merecer tamanha desconfiança da parte dele.

            O sr. Abbott fechou o manuscrito, após fazer as suas primeiras observações ao terminar aquela primeira leitura, e olhou para a tela da televisão, vendo o que a sua filha assistia. Sorrindo ao ver que Elizabeth assistia aquele desenho animado pela milionésima vez, olhou para ela. Notou que, embora Elizabeth tivesse os olhos vidrados na tela da televisão, seu olhar parecia perdido. Começou a se perguntar o que poderia ter acontecido com ela para deixá-la deste jeito, enquanto observava os traços de seu rosto, vindo a notar uma marca escura em seu pescoço.

--Lizzie. - Ele disse, conseguindo que ela virasse o rosto em sua direção, saindo de seu transe. - O que é isso em seu pescoço? - Questionou-a, deixando a filha de olhos arregalados.

--O que é o que? - Elizabeth interrogou em retorno, assustada. Houvera se esquecido completamente da marca que tinha em seu pescoço.

--Esta marca em seu pescoço. - O sr. Abbott replicou.

--Foi um inseto que mordeu ela. - A sra. Abbott apareceu a porta que ligava a sala de estar a cozinha.

--Um inseto? - O sr. Abbott questionou, parecendo descrente na afirmação da mulher.

--É. - Elizabeth reafirmou a desculpa de sua mãe. - Um inseto... que me mordeu... No parque... - Ela continuou, nervosamente. - Eu cocei e ficou assim, irritado.

--Você devia colocar alguma coisa aí e não coçar mais. - O sr. Abbott recomendou, aparentemente aceitando a desculpa que lhe fora dada.

--Claro. - Elizabeth concordou. - Agora mesmo! - E se levantou do sofá, correndo para a escada e indo para o seu quarto.

            Elizabeth entrou em seu quarto e fechou a porta, encostando-se a ela. Pôs a mão no coração e o sentiu bater acelerado em seu peito. “Como posso ter me esquecido desta marca? Não podia ter deixado meu pai ver! E se ele ficar desconfiado?!”, ela se crucificava. Foi para frente do espelho, tirando o seu cabelo do caminho e ficou olhando a marca em seu pescoço. Já estava menor e mais clara; sabia que em poucos dias a marca sumiria.

            Colocou as pontas dos dedos sobre a marca e lembrou da ocasião em que sua prima Madeleine lhe perguntou, escandalosamente: “Isto é uma marca de chupão, não é?!”, na frente de todos. Voltou a ficar vermelha de vergonha só de lembrar daquele momento, nunca tinha passado por uma situação tão constrangedora antes.

            Elizabeth saiu da frente do espelho, caminhando pelo seu quarto. Ligou o seu aparelho de som e deixou-o sintonizado em sua estação de rádio predileta. Naquele instante o apresentador do programa estava falando sobre a banda All Saints – uma banda pop de garotas da Inglaterra, qual lançou o seu primeiro álbum de mesmo nome em 1997, composta por Melanie Blatt, Shaznay Lewis, e as irmãs Nicole e Natalie Appleton.

A few questions that I need to know

(Há algumas perguntas que eu preciso saber)
How you could ever hurt me so

(Como você pode me magoar tanto?)
I need to know what I've done wrong

(Eu preciso saber o que eu fiz de errado)
And how long it's been going on

(E há quanto tempo)
Was it that I never paid enough attention?

(Foi porque eu nunca lhe dei atenção o suficiente?)
Or did I not give enough affection?

(Ou foi porque eu não lhe dei afeto suficiente?)
Not only will your answers keep me safe

(As suas respostas não só me manterão segura)
But I'll know never to make the same mistake again

(Como aprenderei a não cometer mais este erro)

            Elizabeth caminhou até a sua cama e deitou-se a ela, de barriga para cima. Cruzou os braços por de baixo do travesseiro e apoiou a cabeça sobre ele. Ficou a fitar a janela de seu quarto, conseguindo ver algumas folhas avermelhadas da árvore do jardim. Fechou os olhos e lembrou da festa de casamento de sua prima Chloe, do momento em que estiveram a sós com Will no gazibo.

            Will se desencostou da pilastra, tirando as mãos do bolso da calça e caminhou na direção dela. Elizabeth o observou com apreensão – o seu coração voltou a bater acelerado e as mãos começaram a suar. Quando ele teve uma atitude parecida com esta, a beijou no rosto. Desta vez, no entanto, não sabia se a beijaria no rosto; e tinha certeza que não queria ganhar um beijo no rosto, o que a deixava ainda mais nervosa.

--Quer dançar? - Ele perguntou, parando bem perto dela.

........

            As mãos de Elizabeth estavam suando tanto que ela mão conseguia segurá-las, uma a outra, envolta do pescoço dele. Decidindo por transpassar os seus braços por debaixo dos dele, colocando as suas mãos abertas às costas dele. Apoiou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos, deixando-se levar por ele.

            Will, por sua vez, ainda a tinha presa pela cintura, tendo um de seus braços envolto dela, enquanto usava a outra mão para acariciar a linha de seu pescoço, sentindo a pele delicada dela na ponta de seus dedos. Encostou o seu nariz ao pescoço dela e sentiu o aroma de seu perfume irresistível.

            Quando os lábios dele tocaram a pele macia do pescoço de Elizabeth, ela sentiu uma gostosa sensação no estômago e um leve ardor no local em que os lábios dele tinham tocado. Ela sorriu de satisfação e, então, aconteceu! Elizabeth arregalou os olhos, surpresa, e parou de dançar. Will também parou de dançar, mas nenhum dos dois pareceu notar que estavam imóveis, no meio do gazibo, abraçados.

            Somente de se lembrar daquilo, Elizabeth sentiu aquelas mesmas sensações invadirem o seu corpo ao mesmo tempo. Como se o seu corpo se aquecesse e, ao mesmo tempo, sentisse seus pelos da nuca se arrepiarem.

Elizabeth tirou as mão de baixo do travesseiro e deitou-se de lado, virada para a janela do seu quarto. Continuou a olhar aquelas folhas avermelhadas, quais assumiam uma tonalidade alaranjada quando alguns raios do sol incidia sobre elas. Continuou a fitá-las, balançando a brisa suave do outono – o clima estava ficando cada vez mais frio ao passar dos dias. Então, voltou a fechar os olhos e a lembrar-se daquela festa.

I'm just waiting

(Só estou esperando)
'Cause I heard that this feeling won't last that long

(Porque ouvir dizer que este sentimento não vai durar muito tempo)

            Quando o beijo foi encerrado, Will exclamou, ainda com os olhos fechados e os lábios encostados ao dela.

--Você não faz idéia há quanto tempo eu queria fazer isso! - Em um sussurro.

--Tanto quanto eu queria que você fizesse, eu espero! - Elizabeth replicou, também em um sussurro abafado.

            Will abriu os olhos e a fitou; Elizabeth fez o mesmo, quando sentiu ele se afastar para olhá-la. E pensou: “meu Deus, eu disse isso em voz alta!”, ao olhá-lo nos olhos, o vendo sorrir contentemente para ela. Vindo a ficar ruborizada.

            Will sorriu ainda mais ao vê-la corar de vergonha, a beijando novamente, ainda mais empolgado.

Never ever have I ever felt so low

(Nunca, jamais, tinha me sentindo tão pra baixo)
When you gonna take me out of this black hole?

(Quando é que você irá me tirar deste buraco negro?)
Never ever have I ever felt so sad

(Nunca, jamais, tinha me sentido tão triste)
The way I'm feeling, yeah, you got me feeling really bad

(Sim, do jeito que me sinto; você conseguiu me deixar muito mal)

--Eu gosto de você! - Will murmurou, apertando o enlaço envolta de sua cintura. - Gosto muito de você! - E começou a deslizar uma das mãos pela linha de sua coluna, a pousando no meio das suas costas, e a puxando mais para si. E voltou a beijá-la.

I'll keep searching

(Eu continuou procurando)
Deep within my soul

(No fundo da minha alma)
For all the answers

(Por todas as respostas)
Don't want to hurt no more

(Não quero mais sofrer)
I need peace, got to feel at ease

(Eu preciso de paz, preciso me sentir bem)
Need to be free from pain

(Preciso me livrar desta dor)
Going insane

(Indo a loucura)
My heart aches

(Meu coração padece)
Yeah

            Elizabeth passou a se perguntar se devia ter sido mais explicita quanto ao que sentia por ele naquele dia; se devia ter dito a ele que também gostava dele, que gostava muito dele. Mas acabava se perguntando se não devia ter agido diferente em várias outras situações também, entrando num ciclo vicioso.

            Ela virou-se para o outro lado e ficou olhando o seu aparelho de som, dando a sua total atenção a música que estava tocando naquela estação. Nunca tinha ouvido aquela música antes; Jane era quem gostava de All Saints. Mas esta música, em particular, parecia estar relatando, precisamente, como ela se sentia.

Never ever have I ever felt so low

(Nunca, jamais, tinha me sentindo tão pra baixo)
When you gonna take me out of this black hole?

(Quando é que você irá me tirar deste buraco negro?)
Never ever have I ever felt so sad

(Nunca, jamais, tinha me sentido tão triste)
The way I'm feeling, yeah, you got me feeling really bad

(Sim, do jeito que me sinto; você conseguiu me deixar muito mal)

            A porta de seu quarto foi aberta e Jane liderou Charlotte, Lydia, Catherine e Mary para dentro de seu quarto, fechando a porta depois que a última menina entrou. Elizabeth se levantou de sua cama, sentando-se a cabeceira, de pernas cruzadas, com o seu travesseiro em seu colo. Cada uma das meninas sentou-se um a um lugar, de forma a ficar viradas de frente para Elizabeth – Mary sentou-se a cadeira enfrente ao computador, virando-a na direção de Elizabeth; Jane sentou-se ao seu lado e Charlotte ao lado desta; Lydia e Catherine dividiram um puff de cor verde musgo.

            Elizabeth sabia por que as suas amigas estavam ali, mas não tinha tanta certeza se estava pronta para conversar sobre este assunto ainda.

 

 

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