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A vaidade ao trabalhar em uma mente fraca é a fonte de todo tipo de discórdia. (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo XLIX

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Capítulo 49

 

Sem perceber, tomou o caminho sul e dirigiu-se a saída do parque. Quando estava chegando a Hocus Pocus Hall, esbarrou-se a coordenadora de Austen House e caíra sentada ao chão. O professor de educação física ajudou-a a se levantar e inquiriu-lhe se havia se machucado com a queda; mas não conseguiu extrair nenhuma resposta de Elizabeth, porque ela sequer lhe dirigia o olhar, quanto mais à palavra.

            A sra. Godmann, percebendo o estado em que Elizabeth se encontrava, despediu-se dos outros professores e levou Elizabeth para longe deles.

--A senhorita está bem, srta. Abbott? - Perguntou-lhe, gentilmente; enquanto Elizabeth persistia a olhar em todas direções, menos para os olhos da coordenadora. - Srta. Abbott? - A sra. Godmann insistia, tentando olhá-la nos olhos. - A senhorita está se sentindo bem? - Elizabeth respondeu com um aceno de cabeça, positivamente, ainda sem olhá-la nos olhos ou pronunciar uma palavra (tinha medo de se trair se o fizesse). - Srta. Abbott, a senhorita não é de poupar palavras; vamos, seja sincera, o que está sentindo? - Elizabeth balançou a cabeça, negativamente, e continuou a evitar olhá-la nos olhos. - Eu não acredito! - A sra. Godmann replicou, já ficando impaciente. - Olhe para mim! - Exigiu, educadamente. Mas Elizabeth continuou a evitá-la. - Srta. Abbott! - Mas a sra. Godmann não desistiu.

            Elizabeth respirou fundo, criando coragem, e virou o rosto na direção da coordenadora, a olhando nos olhos. Tentava manter-se impassível, mas sentia essa decisão se esvair a cada segundo que sustentava aquele olhar penetrante que a coordenadora lhe dava.

--Aconteceu alguma coisa com você? - A sra. Godmann lhe perguntou, ainda a olhando nos olhos. Elizabeth sorriu-lhe, um sorriso apagado, e voltou a balançar a cabeça, negativamente. - A senhorita está se sentindo bem?! - A sra. Godmann, no entanto, não estava confiante. E quanto mais ela olhava nos olhos de Elizabeth, mas tinha certeza de que algo estava errado. - Elizabeth? - Ela insistiu na pergunta, ao ver que a menina não conseguia respondê-la. Então, viu os olhos de Elizabeth se encherem de lágrimas.

--Eu... Eu.... - Elizabeth não agüentou mais e murmurou a resposta, com um tom de voz choroso. - Eu só quero ir para casa!

--Ahh, querida! - A sra. Godmann sentiu um aperto no coração ao vê-la naquele estado e a abraçou. A sra. Godmann, assim como os outros professores, sabiam do envolvimento de Elizabeth e Will; logo, imaginou que o estado dela devia estar relacionado ao mesmo motivo por ele não estar ao seu lado naquele momento.

            Elizabeth sentiu-se ainda mais ridícula, ao estar sendo consolada pela coordenadora da escola. Mas não teve forças para repelir aquela demonstração de afeto da parte da senhora. A coordenadora afastou-se um pouco para olhá-la, enquanto pensava em uma solução para o problema que se apresentava. Ainda era de tarde, o passeio só seria encerrado às oito horas da noite – quando todos voltariam aos ônibus e tomariam o caminho de volta à escola.

A sra. Godmann pegou as pranchetas que tinham os nomes dos alunos que estavam no passeio, identificou o ônibus em que Elizabeth viera ao parque e a encaminhou até ele. As duas, somente as duas, saíram do parque e se dirigiram ao estacionamento privado do parque. A sra. Godmann identificou o ônibus executivo que Elizabeth viajara pelo seu número e pediu ao motorista – qual estava sentado ao banco do motorista, ouvindo música em seu rádio à bateria, enquanto esperava o momento de levar todos de volta à escola – para abrir a porta do ônibus. Quando este o fez, informou-lhe que uma de suas estudantes ia entrar no ônibus àquele momento, permanecendo a este até o momento de irem embora do parque. Informou-lhe que ela não devia ser incomodada por ninguém, porque estava com dor de cabeça.

            Assim, Elizabeth subiu ao ônibus e foi ocupar uma das últimas poltronas do ônibus, a janela. E a sra. Godmann tratou de marcar um segundo X ao lado de seu nome a lista do sr. Robson, para que soubesse que ela já havia entrado no ônibus quando estivessem retornando à escola.

            Elizabeth viu a sra. Godmann retornando ao parque, enquanto olhava pela janela do ônibus. Desviou o olhar da janela quando a sra. Godmann atravessou os portões do parque e estes foram fechados às suas costas pelos funcionários do parque. Ela visualizou aquele ônibus completamente vazio, quase em total silêncio – conseguia ouvir alguns trechos das músicas que o motorista escutava; enquanto este permanecia no mais completo silêncio, porque tentava voltar a dormir.

You've found hope, you've found faith

(Você encontrou esperança, você encontrou fé)

Found how fast she could take it away

(Descobriu que rapidamente você pode perder isso)

Found true love, lost your heart

(Encontrou amor verdadeiro, perdeu seu coração)

Now you don't know who you are

(Agora você não sabe quem você é)

            Todas aquelas emoções que estava lutando para conter dentro de si explodiram. Elizabeth começou a chorar, baixinho, para não ser ouvida pelo motorista. Ainda não conseguia acreditar que aquilo tudo tinha realmente acontecido, mas a dor que sentia estava ali para provar que era verdade. Will havia terminado o namoro dos dois, assim, facilmente, com uma simples palavra - “acabou!”, a voz dele ressoou aos seus ouvidos, só aumentando o seu choro.

            Elizabeth começou a sentir raiva de si mesma por estar chorando por causa dele, tentando secar os seus olhos com as duas mãos, em gestos bruscos. Mas as lágrimas persistiam em rolar em seu rosto e o nó em sua garganta só aumentava. Odiava-se por ter se deixado envolver por ele. “Estava melhor sem ele, por que fui me apaixonar?! Por quê?! ...Eu não pedi por isso!!” - reclamava com Deus, em silêncio. 

            Trouxe os pés para cima da poltrona e abraçou os joelhos contra o peito, o mais forte que conseguiu. Escondeu o rosto nos joelhos e continuou a chorar. “Como é possível ter acabado?”, ela ainda se perguntava. “Como isso aconteceu?! Por que aconteceu?!”; ela ainda não tinha conseguido entender porque ele tocara neste assunto tão de repente. “O que o fez pensar nisso e ficar daquela forma?! Hank?! Por que?! ...Mas eu não fiz nada!”

It's a secret no one tells

(Isso é um segredo que ninguém partilha)

One day it's heaven, one day it's hell

(Um dia é o paraíso, um dia é o inferno)

            Tentou parar de chorar mais uma vez, dizendo a si mesma que não valia à pena. Se ele desconfiara dela só porque ela estava conversando com Hank, não a conhecia. Se não a conhecia, não podia gostar dela de verdade. Então, não devia gostar dele também. Mas pensar era muito mais fácil de que fazer; deixar de gostar dele assim seria impossível, ela sabia. E aquela música parecia estar de gozação com ela, debochando do jeito que ela se encontrava.

You laugh, you cry, no one knows why

(Você ri, você chora e ninguém sabe porquê)

            As palavras daquela música gravaram-se em sua mente e Elizabeth voltou a chorar, incessantemente.

You will fly and you will crawl

(Você voará e você rastejará)

God knows even angels fall

(Deus sabe, até anjos caem)

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            Lydia teve um trabalho enorme para explicar a Mark que queria “terminar” com ele, embora não estivessem namorando. Disse-lhe claramente os seus motivos para querer terminar o relacionamento dos dois, para que não o deixasse confuso quanto as suas razões. Mas o menino teimava em querer convencê-la a não terminar com ele, queria fazê-la acreditar que consegueria fazê-la esquecer-se de George e começar a gostar dele.

            Entretanto, lembrando-se de cada uma das palavras de Elizabeth, Lydia não se rendeu às suas súplicas. Persistiu em sua decisão, afirmando-lhe que o melhor que podia fazer neste momento era ficar sozinha, completamente sozinha. Mark, enfim, não teve outra escolha a não ser aceitar a sua decisão.

            Depois de deixá-lo a caminhar no parque sozinho, em busca de seus amigos de sala, Lydia resolveu procurar uma companhia para ela. Sabia que Catherine, Charlotte, Jane e Elizabeth estavam acompanhadas de seus respectivos namorados – ou ficantes, no caso de Catherine e Charlotte, ela presumia. A menos que já se considerassem namorados e aí a história mudaria de figura.

            Então, lembrou-se de Mary. Desde que deixaram Greedy Goblin Family Inn, após o almoço, que não vira mais Mary. Àquele momento, não havia dado muita atenção a sua ausência – também, estava mais preocupada em infernizar George naquele momento. Mas, agora que ponderava a respeito, não conseguia imaginar onde Mary se metera. Sabia que ela não havia os acompanhado a nenhum dos passeios ou idas e vindas nos brinquedos do parque. Então, o que ela estivera fazendo?!

            Logicamente, voltou ao local onde vira Mary pela última vez, para tentar desvendar um indicio de onde ela poderia ter ido depois que se separaram ao pub. Mas não precisou procurar por ela em mais nenhum outro local, porque era lá mesmo que ela estava. Mary estava sentada a um dos banquinhos da praça de Market Square, acompanhada por...

--Bill Collins!? - Lydia exclamou, abismada com o que via.

            Logo apressou os passos em direção de Mary, resmungando mentalmente que não acreditava que Mary decidira passar as últimas horas do seu dia naquele parque na companhia de Bill Collins. Assim que se aproximou o suficiente, percebeu que Mary e Bill estavam discutindo filosofia – o que fez Lydia revirar os olhos.

            Aparentemente, assim que o almoço terminou, Bill encurralou Mary a saída do pub e insistiu para os dois começarem uma nova disputa isolada, para saber qual dos dois sabia mais sobre todas as matérias que haviam sido testados naquela barraca de tortas-na-cara. Mary não estava com muita vontade de passar o resto do seu passeio discutindo assuntos de escola com Bill Collins, mas se viu presa àquela situação a cada conversa que tinham em que Bill mostrava-se um boçal arrogante e completamente incompetente.

            Lydia parou diante dos dois, ganhando logo a atenção de Mary – Bill estava entretido demais com o próprio discurso intelectual para notar a presença de Lydia. Ela, por sua vez, pegou a amiga pelo braço e fez com que Mary se levantasse do banquinho.

--Ohh, idiota, vá encher o saco de outra! - Disse a Bill para conseguir com que ele se calasse. - Vamos, Mary! - E saiu de lá, levando Mary consigo. - Olha, eu lhe garanto que a gente consegue arranjar coisa melhor para você! - Afirmou com veemência para Mary, olhando de soslaio para Bill.

--Como?! - Mary replicou, dirigindo-lhe um olhar confuso, enquanto franzia a testa; então, como se houvesse tido uma revelação repentina, respondeu. - Oh, Deus, não! - Finalmente entendendo a insinuação de Lydia com relação a ela e Bill. - Iu!! - Completou, surgindo uma expressão de nojo em seu rosto.

            Lydia começou a rir, lembrando-se de Catherine – era ela, dentre as suas amigas, que dizia “iu!” quando estava com nojo de algo; e a expressão que Mary fizera ao dizer isso a fez lembrar-se ainda mais da amiga. Logo começou a se perguntar como era possível conhecer Mary a tantos anos de convívio na escola e não tê-la realmente conhecido até agora.

            As duas estavam passeando por a Mexicana, tentando se decidir se experimentavam uma volta no Runaway Train ou na Rattlesnake, quando se encontraram com vários alunos do 2º ano da Johnson's High. Vários deles discutiam abertamente, entre si, a mais nova fofoca que andara circulando pelo parque.

            Aparentemente, Will Darcy, ex-aluno da Johnson's High, atual aluno da Austen House, havia terminado com a sua atual namorada porque a vira o traindo com Hank, aluno do 3º ano da Johnson's High.  Todos estavam comentando como já previam que algo assim aconteceria, já que não havia sido a primeira vez que Hank – notório rival de Will desde Johnson's High – roubava-lhe uma namorada.

            A história ainda prosseguia com a possibilidade de um confronto físico entre os garotos. Já que, diziam, Hank havia fugido da cena do crime quando Will apareceu, deixando a atual ex-namorada de Will para enfrentá-lo sozinha; e que Will, após terminar o namoro, saiu pelo parque em busca de Hank. Vários garotos à fila de Rasttlesnake discutiam a probabilidade de sair pelo parque em busca dos dois garotos e conseguir presenciar a briga entre os dois.

            Lydia e Mary entreouviram a conversa deles boquiabertas; sabiam de quem eles estavam falando e custavam acreditar que a história fosse verdadeira. Mas, se havia mínima chance de sê-lo, precisavam ter certeza. Sabiam que precisavam encontrar Elizabeth, Will ou qualquer outro membro de seu grupo de amigos para confirmar a veracidade desta história. Imediatamente, abandonaram a fila daquele brinquedo e saíram pelo parque, feito duas loucas, procurando por algum de seus amigos.

            Nenhuma das duas viu sinal de Will ou Elizabeth em nenhuma parte do parque a que estiveram durante a sua busca. Mas continuaram a ouvir versões diferentes da mesma história – uma até afirmando que Will por muito pouco não agredira fisicamente Elizabeth. O que só aumentou a aflição das duas meninas; por mais que Elizabeth gostasse de bancar o papel da durona e gostasse de se defender sozinha, até ousando socar um menino, duvidavam que ela fosse forte o bastante para enfrentar Will sozinha – Lydia já estava reafirmando, mentalmente, o seu juramento de ajudar Elizabeth a derrubar Will, se ele houvesse mesmo agredido a sua amiga.

            Ao Mystic East encontraram-se com Richard e Charlotte. Ambos já haviam ouvido os rumores sobre o término do namoro de Elizabeth e Will, e, assim como elas, estavam procurando por ambos ou qualquer outro membro do seu grupo de amigos. Juntos, eles encontraram-se com Jane, Charles, Catherine e Daniel. Todos já haviam ouvido sobre o fim do namoro de Elizabeth e Will e Jane estava aflita com o paradeiro da irmã.

            Nenhum deles conseguia acreditar que Elizabeth tinha realmente traído Will com Hank; na melhor das hipóteses, imaginavam que houvera ocorrido um mal entendido entre eles e Hank poderia estar envolvido no meio – o que tornava a situação pior ainda. Richard e Charles juravam que iam acabar com Hank se ele cruzasse os seus caminhos.

            E todos eles continuaram a procurar pelos dois amigos sumidos. Dividiram-se em duplas, novamente, e cada dupla seguiu uma direção diferente. Combinando de se encontrarem aos portões do parque na ala sul.

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            Alguns dos fatos daquela fofoca provara-se verdadeiro; além do obvio – o fim do namoro do recém-formado casal – a parte referente a Hank ter fugido do “local do crime” e a parte em que Will saíra a sua procura também eram verídicas. Hank realmente fugiu de Transylvania ao deparar-se com Will e, desde então, estivera escondendo-se em partes diferentes do parque, andando no maior numero de brinquedos lhe fosse possível.

            E, embora Will houvesse ido logo atrás dele, não conseguiu encontrá-lo. O parque era muito grande, em cada sessão existiam diferentes brinquedos e havia muitas pessoas circulando pelo parque – muitos alunos usando blusas de mesma cor. Encontrar Hank ali novamente seria uma obra do destino – Will implorava para que Deus permitisse que se encontrassem de novo; estava louco para pôr as mãos nele e dar-lhe a surra que ele merecia por ter atravessado o seu caminho de novo.

            A sua raiva era tanta que o fim do seu relacionamento com Elizabeth havia sido empurrado para um espaço bem ao fundo de sua mente, para ser ponderado mais tarde. Tudo o que conseguia pensar, neste momento, era em encontrar Hank e fazê-lo se arrepender por tudo que lhe fizera.

            Mas, por mais que andasse em todas as direções daquele parque, percorrendo cada cantinho dele, não conseguiu encontrá-lo. Conseguiu diminuir a sua energia, gastar aquela adrenalina que sentia em seu corpo. E, ao fim, começou a pensar no que tinha acontecido. O seu relacionamento com Elizabeth havia acabado, ele tinha terminado com ela.

            Lembrou-se do que George lhe dissera sobre Elizabeth, lembrou-se de vê-la com Hank – ele segurando a sua mão, dando-lhe um beijo nas costas da mão e depois se afastar dela as gargalhadas; os dois pareciam ter se dado maravilhosamente bem. Lembrou-se de como a encontrou e ela fingiu não ter tido nada além de uma simples conversa com Hank, que ele só quis se apresentar a ela – uma pessoa não precisa ficar tão próxima da outra quando estão apenas se conhecendo e Hank estava completamente em cima de Elizabeth, como se estivesse armando um bote.

            Lembrou-se da conversa, ou melhor, discussão que tiveram; momento em que ela confirmara que estava com ele só por causa de Bill Collins. “Como posso ter me enganado assim com uma pessoa? E, justamente, ela! Quem parecia ser a menina mais sincera que eu já conheci; que nunca tentou agir de forma diferente do que era ou pensar de forma diferente só para me agradar, como tantas outras já fizeram! Quem, pelo contrário, sentia prazer em me contrariar, desafiar... Como eu posso ter me enganado assim?!”

            Sentou-se próximo a grade de segurança da jaula do gorila, ao Chessington Zoo, a Trail of the Kings, e ficou repassando cada um dos momentos que vivera com ela. Já não sabia com que olhos ver tais momentos, sentia-se tão confuso. Todos os seus momentos de dúvida quanto aos sentimentos dela com relação a ele pareciam baseados em razões tão concretas, mas os momentos em que acreditava ser correspondido por ela pareciam tão mais reais que ele tinha consciência de só estar se sentindo mais perdido ainda.

--Pare com isso! - Recriminou-se. - Ela admitiu que estava com você por causa de Bill Collins; por que você ainda custa em acreditar?! - Ergueu-se do chão revoltado consigo mesmo e continuou a perambular pelo parque.

            O céu não demorou a escurecer, as luzes do parque foram acesas e os alunos começaram a demonstrar sinais de cansaço. Mais uma refeição lhes foi proporcionada antes de anunciar que o passeio ia ser encerrado e a ordem para que todos seguissem o caminho de volta à saída sul do parque fosse dada.

            Quando Will se reuniu aos seus demais colegas aos portões do parque, preparando-se para irem para os ônibus executivos que os levariam para casa, notou que se tornara o foco de novos olhares de seus amigos e de cochichos também. Desta vez, no entanto, tal evidência o irritava profundamente, porque sabia sobre o que eles cochichavam e o porquê de tanto olharem para ele – era obvio que já sabiam do fim de seu namoro com Elizabeth. Duvidava que soubessem o verdadeiro motivo, mas sabia que isso não os impediria de inventar um.

            Caroline tentou conversar com ele, mas Will logo se afastou – sequer lhe dirigiu o olhar, que dirá a palavra. Inconscientemente, procurou por Elizabeth entre os seus colegas de escola, mas não a viu em parte alguma – afastou a preocupação que invadira a sua mente o mais rápido que conseguiu.

            Viu Hank, ao longe; mas já não podia fazer mais nada. Tinha muitas pessoas ao seu redor e, alguns deles eram professores e coordenadores das duas escolas. Logo, se tentasse alguma coisa, seria impedido antes mesmo que conseguisse fazer algum real estrago naquele sorriso convencido que, naquele instante, Hank lhe dirigia.

            Charles e Richard não demoraram a abordá-lo. Ambos o enchendo de perguntas sobre o que tinha acontecido entre ele e Elizabeth, se era verdade que tinha terminado e por que. Will não queria falar sobre isso agora, principalmente com aquele bando de gente os observando e entreouvindo a conversa deles. Então apressou os passos até os portões do parque, assim que este foi aberto, sem dignar os amigos com uma resposta.

            Charles e Richard continuaram a seguir atrás de Will, insistindo nas perguntas que Will não queria responder. Mas foi Jane que se interpôs em seu caminho, o fazendo parar de andar em direção ao ônibus da escola.

--Onde está Lizzie?! - Ela questionou-lhe, autoritária; Will nunca a vira daquela forma antes. - Onde está a minha irmã?! - Ela exigiu saber, se negando a sair da frente dele.

--Eu não sei. - Will respondeu, dando a volta entorno dela e seguindo o seu caminho.

            Realmente não sabia e, por mais que tentasse não se preocupar com o seu paradeiro, a sua mente já estava imaginando milhões de possibilidades de onde ela poderia estar. Estava a ponto de retroceder seus passos e voltar ao parque, para procurar por ela, quando Jane voltou a passar por ele. Desta vez, no entanto, ela não o parou. Caminhou na direção da coordenadora da escola e pediu que lhe desse permissão a voltar ao parque, para que pudesse procurar por sua irmã.

            A sra. Godmann, calmamente, negou-se a dar-lhe permissão, deixando Jane e os outros meninos agitados. O sr. Robson tentou fazer com que todos entrassem no ônibus e se acomodassem para que pudessem ir logo embora. Mas nenhum deles quis entrar no ônibus, causando um tumulto – porque outros colegas de escola também passaram a se negar a entrar no ônibus porque queriam ver o que estava acontecendo.

--Srta. Abbott, entre no ônibus! - O sr. Robson ordenava, já perdendo a paciência (algo que já lhe era escasso).

--Minha irmã não está aqui! - Jane replicou e, cruzando os braços e fincando o pé no chão, em um gesto que lembrava muito Elizabeth, afirmou. - Eu não vou a lugar algum sem a minha irmã!

--A sua irmã já está no ônibus! - A sra. Godmann informou-lhe, ganhando a atenção não só de Jane, como de todos os outros ali presentes atentos a discussão. - Elizabeth já está no ônibus. - Ela garantiu a Jane, conseguindo que a menina descruzasse os braços.

--Agora, vão todos para o ônibus! - O sr. Robson ordenou.

            Ninguém mais se negou a obedecê-lo. Jane, principalmente; praticamente correu até o ônibus em que viera ao parque aquela manhã e entrou neste às pressas, se dirigindo ao fundo. Lá encontrou Elizabeth, sentada a última poltrona, à janela, com a cabeça encostada a esta e de olhos fechados, como se estivesse dormindo – um sono bem pesado, que nem mesmo com aquele barulho conseguia despertá-la.

            Jane sentou-se a poltrona vaga ao seu lado e segurou uma de suas mãos, que estava depositada ao seu colo. Elizabeth abriu os olhos lentamente e virou o rosto em sua direção. A pouca luz do ônibus a impediu de notar que seus olhos estava vermelhos, mas a expressão desolada no rosto de sua irmã não negava o seu estado de espírito.

--Você está bem?! - Perguntou-lhe, num sussurro.

            Elizabeth respondeu com um leve aceno de cabeça, negativamente. Depois voltou a virar o rosto na direção da janela e a fechar os olhos. Jane recostou-se a poltrona ao seu lado e continuou a segurar em sua mão, sentindo-se incapaz de consolá-la direito ali. Queria abraçar a irmã, garantir-lhe que tudo ia ficar bem; queria tentar descobrir o que tinha acontecido. Mas sabia que não poderia fazer nada disso ali, na frente de todos. Só aumentaria as fofocas.

            Charles, Richard, Lydia, Catherine, Mary e Daniel entraram ao ônibus logo depois de Jane e todos a seguiram ao fundo do ônibus. Ao ver as duas irmãs sentadas juntas, em silêncio, tomaram o seu exemplo e ocuparam as demais poltronas vagas, também em silêncio. Will entrou pouco depois e também caminhou em direção ao fundo do ônibus. Viu Lydia e Mary sentadas juntas, a frente de Charlotte e Richard, sentados juntos; Lydia lhe dirigiu um olhar raivoso, mas não lhe disse nada. Viu Daniel e Catherine sentados juntos – nas duas poltronas vizinhas as de Richard e Charlotte -  e atrás deles Elizabeth e Jane.

            Will parou de andar ao vê-la ali, sentada à janela, de olhos fechados, como se estivesse dormindo. Parecia tranqüila, como se nada demais houvesse acontecido – ficou furioso consigo mesmo por ter se preocupado com ela. Então, viu que Jane segurava a sua mão, vindo a apertá-la de leve ao notar que Will as observava.

            Elizabeth abriu os olhos, virou o rosto na direção da irmã, para, logo em seguida, direcioná-los a ele, erguendo o rosto. A pouca luz do ônibus estava deixando o seu rosto mais branco e abatido que devia estar na realidade – Will ponderava enquanto a olhava. Viu que o olhar que ela lhe dirigia parecia vazio de emoções, era como se ela não o estivesse vendo ali.

            Então, ela soltou a mão da irmã, levantou-se de sua poltrona e ultrapassou Jane cuidadosamente para não pisar em seus pés. Ele estava parado no meio do corredor, impedindo a sua passagem. Mas ela passou por ele como se ele não estivesse ali, esquivando-se dele com muita facilidade, e caminhou em direção a frente do ônibus.

            Will voltou-se a direção que ela tomara, mas permaneceu parado. Observou-a enquanto ela caminhava em direção a entrada do ônibus, deparando-se com o sr. Robson e a sua prancheta com lista dos alunos que deviam ir em seu ônibus. O sr. Robson, ao vê-la caminhando em sua direção, logo mandou que ela retornasse para o seu lugar.

--Eu quero ir em outro ônibus! - Elizabeth replicou, parando diante dele.

--A senhorita veio neste ônibus, a senhorita irá voltar neste ônibus! - O sr. Robson respondeu. - Agora volte para o seu lugar.

--Eu quero ir em outro ônibus! - Elizabeth reafirmou, sem se mover de seu lugar. - Por favor! - Murmurou estas palavras de forma que só o sr. Robson ouviu.

            Ele, por sua vez, viu que Will também decidira vir em sua direção naquele exato momento e, deduzindo o que estava acontecendo, resolveu permitir que Elizabeth fosse para outro ônibus (surpreendendo a si mesmo). Ele deu um passo para trás e para o lado, deixando que ela passasse e depois retornou a sua antiga posição.

            Elizabeth esbarrou-se em George ao sair do ônibus, mas não lhe dirigiu a palavra. Quando ele ia lhe perguntar a onde ela estava indo, Elizabeth já havia tomado o seu caminho, indo em direção ao outro ônibus executivo da escola. George entrou no ônibus, estranhando o que estava acontecendo, e viu momento em que o sr. Robson ordenava a Will que voltasse para o seu lugar.

--Mas eu... - Will tentava remediar.

--Mas você nada! - O sr. Robson o interrompeu. - Volte ao seu lugar! E a senhorita também, srta. Abbott! - Ele logo adiantou, quando viu Jane também se aproximar deles. - Volte ao seu lugar!

--Eu tenho que ir com a minha irmã!

--Ela está perfeitamente bem, sozinha, no outro ônibus! Agora, voltem para os seus lugares! - O sr. Robson ordenou.

            Will olhou para Jane, quem o dirigiu um olhar inquisitorial – como se lhe perguntasse o que tinha acontecido com ele e a irmã dela. Mas, como sabia que ele não responderia, deu-lhe as costas e retornou ao fundo do ônibus. Will a seguiu e viu que ela mudara para a poltrona vaga ao lado de Charles e os dois cochichavam entre si. Will sentou-se a poltrona em que Elizabeth estivera sentada e George sentou-se ao seu lado.

            Nenhum deles conversou durante a viagem de volta para casa.

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            Elizabeth caminhou até o outro ônibus lentamente, ciente que alguns colegas de escola dependuravam-se em suas janelas para olhá-la. Bateu a porta do ônibus e a sra. Godmann a recebeu, estranhando a sua presença. Elizabeth avisou que o sr. Robson autorizara a mudança de ônibus e a sra. Godmann a deixou entrar.

            O ônibus estava lotado e uma bagunça, estudantes andando para cima e para baixo, Mas tudo ficou em completo silêncio quando ela entrou no ônibus e todos se voltaram para observá-la, algumas pessoas chegando a ficar de joelhos em suas poltronas para vê-la. Houve outra batida a porta do ônibus e o sr. Robson entrou neste.

--A srta. Abbott retornará a escola neste ônibus e eu vim buscar o sr. Jorge Van Camp para voltar ao outro ônibus! - O sr. Robson disse, já chamando por Jorge (mesmo Jorge da sala de Will que tem fama de brigão).

            Jorge adorou mudar de ônibus, porque houvera sido obrigado a sentar-se à frente, a poltrona vaga ao lado de Bill Collins – porque estava fazendo algazarra ao fundo do ônibus. Então, levantou-se de sua poltrona sorridente e seguiu o sr. Robson até o outro ônibus – não imaginava, é claro, que viria a sentar-se ao lado do sr. Robson ao outro ônibus (coitado!).

            Elizabeth caminhou letamente pelo corredor do ônibus e sentou-se a poltrona que Jorge vagara. Viu que Bill sorriu quando ela sentou ao seu lado e ajeitou-se em sua poltrona, de forma que pudesse sentar-se quase de frente para ela – com o intuito de passarem a viagem conversando. Quando abriu a boca para lhe dirigir a palavra, Elizabeth disse.

--Nem pense em falar comigo! - Em um tom que faria as pessoas sentadas nas poltronas vizinhas se calarem, se estivesse falando naquele momento.

            Bill ficou boquiaberto, olhando para ela, mas não teve coragem de falar nada. Elizabeth recostou a cabeça na sua poltrona e fechou os olhos, implorando a Deus para, quando chegasse à escola, o seu pai já estar esperando por ela e Jane, para poder levá-las para casa. Deus atendeu ao seu pedido, pois assim que desceu do ônibus (o que se apressou em fazer, sendo uma das primeiras pessoas a descer do ônibus quando parou diante da escadaria da escola), viu o carro do sr. Abbott ocupando uma das vagas do estacionamento da escola.

            Elizabeth caminhou em direção ao carro do pai sem procurar por sua irmã e, abrindo a porta do carro, sentou-se ao banco de passageiro do fundo. O sr. Abbott a olhou pelo retrovisor, sorriu e perguntou.

--Divertiu-se, querida?!

            Elizabeth respondeu-lhe com um simples aceno de cabeça e um sorriso amarelo, voltando-se a olhar pela janela logo em seguida. O sr. Abbott soube que havia acontecido algo de errado instantaneamente e virou-se de lado, olhando para o banco do fundo, e abriu a boca para inquirir a Elizabeth o que tinha acontecido. Mas Jane abriu a porta do banco de passageiro da frente e entrou no carro, fechando a porta.

--Vamos?! - Disse logo em seguida.

            O sr. Abbott acolheu, tendo a certeza de que algo de errado havia acontecido. À volta para casa demorou mais que o de costume porque todos ficaram calados – completamente o oposto de como havia sido àquela manhã.

            Assim que estacionou o carro enfrente de casa, o sr. Abbott viu Elizabeth sair do carro às pressas e praticamente correr para dentro de casa. Jane a seguiu, também às pressas. Quando ele entrou em casa, encontrou as três mulheres de sua vida à sala de estar. A sra. Abbott tentava extrair das filhas alguma fofoca, mas ambas as filhas estavam relutantes a abrir a boca e falar qualquer coisa.

            A sra. Abbott aproximou-se de Elizabeth, para observar a filha melhor, ainda inquirindo-lhe como houvera sido o seu passeio. Viu os olhos vermelhos de Elizabeth e logo se alarmou.

--Você andou chorando?! - Exclamou, segurando o rosto da filha e o erguendo em direção da luz ao teto da sala. - Elizabeth, o que aconteceu?

            Elizabeth não respondeu, apenas tirou a mão de sua mãe de seu queixo e se afastou dela, caminhando em direção a escada.

--Elizabeth! - A sra. Abbott a seguiu.

--Não aconteceu nada! - Elizabeth respondeu, zangada.

--Elizabeth, volte aqui! - A sra. Abbott exigiu.

--Uma vez na sua vida, me deixe em paz! - Elizabeth exclamou, numa voz chorosa, ao subir os degraus da escada correndo.

            Todos a sala ouviram um baque surdo quando ela fechou a porta de seu quarto. O sr. e a sra. Abbott voltaram-se para Jane, expectativamente; mas Jane apressou-se a seguir a irmã, sem dar nenhuma explicação aos seus pais.

            Jane subiu a escada correndo e parou diante da porta fechada do quarto da irmã. Bateu a esta e tentou abri-la, mas havia algo impedindo que a porta se abrisse. Chamou por Elizabeth e tentou abrir a porta novamente; conseguindo abri-la, desta vez.

            Ao pôr a cabeça para dentro do quarto, o encontrou ainda escuro e viu que Elizabeth estava sentada ao chão, próxima a porta, encostada a parede. Jane entrou no quarto e fechou a porta, ficando de pé, olhando a irmã. Elizabeth ergueu o olhar para irmã, estando estes cheios de lágrima, e disse.

--Ele terminou comigo! - Num murmúrio choroso. - E eu não sei por quê... Eu não fiz nada de errado!

--Ahh, Lizzie! - Jane exclamou, num tom de voz igualmente choroso. Sentou-se ao seu lado e abraçou a irmã, quem começou a chorar instantaneamente. 

 

 

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