Citações

Há pessoas que por mais que se faça por elas, menos fazem por si mesmas. (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo XXXVI

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Capítulo 36

 

Durante a tarde de terça-feira, Elizabeth recebeu a visita de Catherine, Lydia e Charlotte. Lydia teve a idéia de levar as suas anotações para Elizabeth conseguir acompanhar as aulas do dia; Catherine decidiu, então, fazer o mesmo, porque acreditava que as suas anotações estavam mais completas que as de Lydia; Charlotte, por sua vez, não tinha uma desculpa para ir vê-la, apenas o fez porque queria ver como a amiga estava.

            Com todas as amigas reunidas e a sra. Abbott já à sede da comunidade, Elizabeth e Jane resolveram fazer uma pequena sessão de comer besteira e assistir televisão, atacarando o armário da cozinha, em busca de guloseimas para comerem. Elizabeth fez três saquinhos de pipoca de microondas, Jane cuidou de fazer o brigadeiro e voltaram para a sala, onde as outras meninas aguardavam, com uma garrafa grande de coca-cola, dois baldes grandes de pipoca e uma panela de brigadeiro. Ligaram a televisão e deixaram em um canal qualquer, porque não estavam realmente assistindo televisão. Estavam muito ocupadas conversando.

            Elizabeth ainda estava preocupada com Charlotte, quem teimava em ignorar o que havia ocorrido na segunda-feira, recusando-se a discutir o assunto. Lydia, para desanuviar o clima, introduziu um tema muito mais interessante a conversa. A banda McFly estaria fazendo concerto em Londres aquele Sábado ao estádio de Wembley - é o estádio nacional inglês, situando-se em Wembley, a norte de Londres – e o pai de Lydia, como trabalhava na área de entreterimento, como um publicitário reconhecido, havia conseguido ingresso para ela e suas amigas para tal evento.

            Enquanto as meninas comemoravam a notícia, Elizabeth se entristeceu. O seu pai havia lhe dado um castigo, deveria passar o fim de semana em casa e não sair com a sua irmã ou amigas para se divertir, o que a impediria de acompanhar as meninas. Tal revelação voltou a desanimar as meninas; mas Elizabeth logo se confortou, mentalmente, ao saber que isso também a pouparia de sair com Will àquele fim de semana. Esta podia ser uma medida temporária para solucionar o seu problema com relação a este namoro fajuto, mas ela ainda precisava descobrir como terminar com esta história de uma vez.

            Ao fim daquela tarde, quando as meninas decidiram que deviam ir embora antes que o sr. e sra. Abbott chegassem, Elizabeth tinha conseguido convencer Lydia a convidar Mary para acompanhá-las ao show de McFly ao sábado em seu lugar; não sabia se Mary gostava da banda, mas considerou que esta era uma boa oportunidade de aproximá-la mais das outras meninas.

            A quarta-feira tornara-se insuportável. Já estava cansada de ficar em casa sozinha, sem ter o que fazer. Dois dias iguais dentro de casa, assistindo qualquer coisa na televisão, não era o seu ideal de como passar o seu dia. Preferia, até mesmo, ir a escola e assistir aula de biologia. Pelo menos, aos intervalos das aulas, podia ficar à companhia de seus amigos. Para piorar a situação, não poderia ir a escola a tarde, tão pouco; não poderia acompanhar a irmã a aula de dança e estava fadada a passar uma tarde igual a sua manhã, sozinha e sem ter nada para fazer.

            Quando Jane chegou em casa ao fim da manhã, contou-lhe que Lydia tinha conseguido convencer Mary a acompanhá-las ao show dos McFly. Que, na verdade, Mary não demonstrou muita resistência à idéia, chegando a afirmar que, embora não fosse uma fã da banda e do seu estilo de música, que considerava os componentes do grupo muito bonitinhos; conseguindo deixar Lydia boquiaberta, além de arrancar dela um “inacreditável! Mary Stuart repara em meninos!” – Jane imitou a pose que Lydia fez ao dizer isso e a expressão de surpresa de Mary com tal reação de Lydia, arrancando gargalhadas de Elizabeth.

            Jane, também, contou a Elizabeth que Will voltou a perguntar por ela, querendo saber se a mão dela estava melhor e o que ela estivera fazendo durante as suas manhãs, já que não pode ir a escola por estar suspensa. Elizabeth preferiu não fazer nenhum comentário a tal respeito, mas Jane notou que ela ficou tocada pelo interesse dele.

            Após o almoço, a sra. Abbott retornou para a sede e Jane recolheu-se em seu quarto, para arruma-se para voltar a escola para a sua aula de dança. Elizabeth não teve outra escolha a não ser passar o seu tempo ocupada com a prévia atividade – assistir televisão. Ela se sentou ao sofá e ligou o aparelho de TV da sala de estar através do controle remoto, ficou mais de vinte minutos trocando de canais até parar em um que, no momento, não estava passando nada de interessante, mas que dentro de dez minutos começaria um programa de televisão razoavelmente interessante.

            O telefone da sua casa tocou e ela se ergueu do sofá, indo tirá-lo da base à um criado mudo ao canto da sala, e o atendeu, voltando para se sentar ao sofá. Primeiramente, ninguém respondeu ao seu chamado, Elizabeth precisou dizer “alô?” três vezes antes de ser respondida. E, para sua surpresa, era Will quem estava ligando – ele tinha tentando ligar várias vezes, mas sempre desligava antes de começar a tocar. Até que, em uma de suas tentativas, deixou completar a ligação e quando ela foi atendida, ao reconhecer a voz de Elizabeth, entrou em pânico. Estivera torcendo para a sra. Abbott não atender o telefone, mas não estava preparado para falar diretamente com Elizabeth.

--Oi, Lizzie. - Foi a primeira coisa que disse a ela.

--Oi. - Elizabeth respondeu, sem reconhecer a voz. - Quem está falando? - A voz estava muito abafada.

--Ham... É ... Will. - Will respondeu, tentando se acalmar e soar como ele mesmo.

--Sr. Darcy? - Elizabeth replicou, ainda sem acreditar que era mesmo ele.

--Sim. - Will respondeu. - Eu.

--Oh... oi! - Elizabeth disse; não sabia mais o que dizer.

--Oi. - Ele respondeu, também sem saber mais o que dizer.

            Ambos ficaram em silêncio por um tempo, até que Elizabeth disse.

--Você quer falar com Jane? - “Por que ele está ligando?”

--Não. - “Vamos! Diga alguma coisa, idiota! Você não ligou para ficar calado!” - Eu liguei para falar com você. - Ele completou.

--Mesmo? Sobre o que? - “O que é que ele quer agora?”

--Eu... Eu... - “Pare de gaguejar!” - Eu...

--Sim? - Elizabeth prendeu uma risada; é um pouco fofo ouvi-lo gaguejar.

--Jane me contou que você esteve entediada ontem, porque ficou em casa sozinha e não tinha muito que fazer... - Ele sabia que estava enrolando para chegar ao assunto, mas não conseguia evitar. Só o que conseguia pensar era que: “pelo menos, você está falando e não está mais mudo ou gaguejando!”. - E, como eu sei que ela vai voltar à escola hoje, para ter a aula de dança, e você não vai poder acompanhá-la... Pensei em ligar para você. - Completou a sua linha de raciocínio. - Para conversar... Se você quiser... conversar comigo! - Ele concluiu e ficou em silêncio, esperando pela resposta dela. Elizabeth, por sua vez, estava muda, completamente sem reação. Certamente, não estava esperando por isso. - Lizzie? - Will chamou por ela, quando ela demorou a lhe responder.

--Oi? - Elizabeth respondeu.

--Você ouviu o que eu disse? - Will inquiriu-lhe, se perguntando se teria de dizer aquilo tudo de novo.

--Sim. - Elizabeth respondeu, novamente com um monossílabo. Era só o que conseguia proferir no momento.

--E? - Will voltou a inquirir, ansioso por sua resposta.

--Ok. - Elizabeth aceitou; “eu estou mesmo entediada e que mal fará conversar com ele pelo telefone só um pouquinho?”, ela ponderava.

--Ótimo! - Will respirou aliviado com a resposta que ela lhe deu. - Então... Ham... do que você quer falar? - Ele perguntou.

--Eu não sei. - Elizabeth respondeu. - Do que você quer falar? Foi você quem ligou! - E replicou em seguida, de forma impertinente.

--... - Will ficou em silêncio por um tempo, sem saber o que falar. - O que você está fazendo neste momento? - Resolveu perguntar.

--Nada. - Elizabeth respondeu automaticamente. E, decidindo ajudá-lo, completou. - Assistindo televisão.

--O que você está assistindo na TV? - Will questionou.

--Um programa qualquer... - Elizabeth respondeu, pensando que se era sobre isso que ele queria conversar, que preferia desligar o telefone. - Um programa chamado “Na Hora do Intervalo”... - Elizabeth completou a sua resposta e, decidindo explicar o que era o programa, acrescentou. - É um programa do Canal 42 que exibe os comerciais de TV mais engraçados.

--Canal 42? - Will perguntou.

--Sim. - Elizabeth respondeu, ouvindo barulho na linha, como se Will estivesse ligando a televisão.

--Achei. - Ele comentou.

--Você vai assistir televisão comigo? - Elizabeth questionou, com tom de deboche.

--Sim. - Mas Will respondeu com simplicidade e sinceridade. - Meu Deus! - Ele exclamou depois de um tempo assistindo ao programa de TV. - Ela sempre fica assim diante das câmeras? - Ele perguntou a Elizabeth, a respeito da apresentadora do programa.

--Sim! - Elizabeth respondeu, rindo da surpresa dele.

--Ela é cega ou não tem espelho? - Ele perguntou, ainda com incredulidade em seu tom de voz. A apresentadora tinha um cabelo afro-americano, um black power, colorido no tom abacate; tinha um tom de pele mulata e olhos bem grandes, muito maquiados, além de usar um terninho feminino vermelho berrante, com uma blusa listrada de linho por dentro do terninho, levemente deixada a mostra.

--Ela não é cega.... e, creio eu, que eles devem ter, pelo menos, um pequeno espelho nos sets do programa. - Elizabeth respondeu, levemente sorridente.

--Ela não se veste sempre assim, não é? - Ele perguntou, realmente interessado. - Ela deve se vestir assim para o programa, porque...nenhuma pessoa normal se veste desse jeito o tempo todo... - Elizabeth voltou a rir do tom de voz dele; ele realmente estava incomodado com a aparência da apresentadora.

--Talvez ela goste de se vestir assim! - Elizabeth comentou, deliberadamente provocando-o.

--Não é possível! - Ele exclamou. - Só se ela for maluca! - Conseguindo fazê-la rir de novo.

--Ohhh... Não diga que você não achou bonito! - E resolveu continuar a provocá-lo. - Eu estava pensando em passar a me vestir desse jeito!

--Você não está falando sério! - Ele exclamou, descrente nas palavras dela. Fazendo Elizabeth voltar a rir.

            Os dois persistiram nesta conversa sem muita conseqüência durante meia hora, discutindo os comerciais engraçados que assistiam juntos. Até que Jane apareceu à sala e despediu-se de Elizabeth, dizendo-lhe que já estava indo a escola para a sua aula de dança. Elizabeth apenas lhe acenou um breve adeus, porque estava concentrada na conversa que estava tendo com Will ao telefone. E Jane saiu, rindo. Houvera escutado Elizabeth dizer o nome “sr. Darcy” enquanto descia a escada, então sabia que ela estava conversando com ele ao telefone aquele tempo todo.

            Dez minutos após Jane ter saído, Elizabeth se lembrou de algo importante e disse a Will.

--Sr. Darcy, você não devia buscar Ana? - Demorando a receber uma resposta, porque ele estava concentrado em entender a piada do comercial que estava assistindo naquele momento.

--Ana? Que Ana? - E, parando para pensar no que Elizabeth lhe dissera naquele momento, exclamou. - Merda!! Eu esqueci de Georgiana completamente! - Arrancando gargalhadas de Elizabeth do outro lado da linha. - Eu tenho que desligar! - Ele respondeu, agitado, e Elizabeth ouviu vários barulhos ao mesmo tempo (Will se levantou do sofá em que estivera sentado, derrubou várias almofadas no chão, tropeçando em algumas delas e quase caindo; cambaleou até a televisão, a desligando, e caminhou em direção a porta da sala).

--Ok... Tchau, sr. Darcy! - Elizabeth disse, entre risos.

--Espere! - Ele exclamou, apressado, antes que ela desligasse.

--O que? - Elizabeth perguntou.

--Eu ligarei para você daqui a pouco, do meu celular. - Ele disse, procurando pela chave do seu carro na cômoda próxima a porta da sala.

--Ohh... não, senhor! - Elizabeth disse. - Eu não quero que você bata o “testosterona móvel” por estar distraído por estar falando ao telefone comigo. - Will sorriu ao ouvir isso: “ela está preocupada comigo!”.

--Está certo, então. - Will respondeu, satisfeito. - Eu ligo para você do meu celular quando chegar à escola.

--Tudo bem, então. - Elizabeth concordou.

--Até daqui a pouco. - Ele disse, antes de desligar.

--Tchau! - Elizabeth desligou o telefone, mas não o devolveu a base porque sabia que Will não demoraria a ligar.

            Dez longos minutos se passaram e ele finalmente ligou. Elizabeth já estava impaciente, mas decidiu esperar o telefone tocar duas vezes antes de atender, para não parecer que estivera esperando ansiosa por sua ligação.

--Você furou quantos sinais vermelhos para chegar à escola neste tempo recorde? - Disse assim que atendeu o telefone, arrancando uma risada gostosa dele.

--Nenhum. - Ele respondeu. - Eu sou um excelente motorista!

--E nem um pouco modesto! - Elizabeth comentou, rindo também. - E então, Ana estava te esperando há muito tempo?

--Eu não sei ainda. - Ele respondeu. - Ela ainda não entrou no carro, está vindo para cá, descendo a escada do colégio agora. - Ele explicou. - Quando eu parei o carro aqui, ela estava sentada no último degrau da escada.

--Tadinha! - Elizabeth disse, com pena da menina. - Também, com esse irmão desnaturado que se esquece dela...

--Hei, eu não sou desnaturado! - Will resmungou, fingindo estar ofendido, mas, na verdade, sorrindo; sabia que ela estava apenas o provocando. 

--Will, porque você demorou tanto! - Georgiana reclamou, assim que entrou no carro e fechou a porta de passageiro. Elizabeth, que havia escutado a sua reclamação, riu. - Esqueça! - Georgiana não esperou para ouvir as explicações do irmão. - Você sabia que Elizabeth foi suspensa por ter batido em um menino? - Will confirmou com a cabeça. - Por que você não me contou?! Eu tive que ouvir de Jane não tem nem quinze minutos! - Georgiana argumentou, um pouco irritada.

--Você ouviu isso? - Will perguntou a Elizabeth.

--Sim. - Quem respondeu, ainda rindo.

--Com quem você está falando? - Georgiana inquiriu, autoritária.

--Aqui, fale com Lizzie! - Will resolveu lhe passar o celular, já que teria que dirigir o caminho de volta para casa.

--É Lizzie? - Georgiana perguntou, aceitando o celular do irmão. - Oi, Lizzie! - E mudou completamente o seu tom de voz ao se dirigir a Elizabeth.

--Oi, Ana! - Elizabeth respondeu, igualmente animada por estar conversando com ela.

--É verdade? Você foi suspensa por bater em um menino? - Ela logo lhe perguntou.

--Sim. - Elizabeth não negou. - E ganhei uma luxação na mão direita, qual precisou ser imobilizada.

--Mesmo? E dói?

--Não mais. Mas doeu muito na hora. - Elizabeth esclareceu; não era um bom exemplo dizer que tinha batido em alguém e não tinha recebido nenhuma conseqüência por seus atos a uma menina de dez anos. - E eu estou de castigo, sem poder sair este fim de semana com as minhas amigas... E elas vão ao concerto dos McFly e eu não.

--Ahh, que pena! - Georgiana exclamou, com sinceridade.

            As duas seguiram conversando pelos quinze minutos seguintes; tempo que Will levou para fazer o caminho de volta. Quando estacionou o carro enfrente a sua casa, desligando o motor e descendo dele, teve de passar por uma pequena disputa com Georgiana para ter o aparelho de celular de volta; ela estava tendo uma conversa agradável com Elizabeth e não queria lhe devolver o celular.  Enquanto Elizabeth ria, ao ouvi-los discutindo por causa do celular. Ao fim, Will venceu – afinal, era o celular dele – e os dois voltaram a conversar.

--O que você está assistindo agora? - Will lhe perguntou, ao entrar em casa, por estar ouvindo um barulho de música através da sua ligação.

--Comercial. - Elizabeth respondeu.

--Ainda? - Ele questionou, indo para a sala de som, para ligar novamente a televisão.

--Não. Quero dizer, comercial mesmo... Propaganda. - Explicou-lhe, no momento em que Will ligava a sua televisão e via o mesmo que ela (a propaganda do concerto da banda McFly ao estádio Wembley).

--Ohh, estou vendo. - Ele respondeu, voltando a se sentar ao seu sofá. - Você quer ir ao show?

--Não. Eu estou de castigo. - Elizabeth respondeu, desanimada.

--De castigo? - Will perguntou, alarmado. O show é no dia do encontro deles.

--Sim. Meu pai me pôs de castigo. - Elizabeth lhe informou. - Eu não posso sair para lugar algum este fim de semana, com ninguém. - Explicou-lhe.

--Sério? - Ele ficou ainda mais alarmado com esta notícia. Não teria o seu encontro com ela este fim de semana?!

--É. - Elizabeth continuou, sem conhecer as suas preocupações com aquela notícia. - Lydia conseguiu ingressos para o show e irá levar as meninas, mas eu não vou poder ir! - Disse, ainda mais desanimada. - Eu vou ficar em casa, sem ter nada para fazer!

--Que merda!! - Ele exclamou; iria jantar com os pais de Caroline, sair com Clarice, Marianne e Hanna, mas não sairia com Elizabeth, a única razão para continuar com este desafio ridículo.

--É, concordo! - Elizabeth disse, tristemente. 

            Os dois ainda ficaram conversando por mais duas horas, até Jane chegar da escola e Elizabeth decidir que era hora de desligar o telefone – qual já estava até quente em sua mão. Os dois se despediram e terminaram a ligação. Elizabeth ficou contente com a atitude dele de ligar para ela, unicamente para que ela não passasse uma tarde entediante. E ele insatisfeito por descobrir que não sairia com ela este fim de semana, mas consolado com o fato de ela não aparentar estar ainda zangada com ele, como estivera na segunda-feira.

__________________________________

            Ao fim daquele dia, Will teve uma grande surpresa ao entreouvir, por acidente, a conversa de sua irmã ao telefone com Owen. Na verdade, não foi tão acidente assim. Imaginou que ela estava conversando com Elizabeth e, por isso, tentou escutar a conversa, ficando perplexo ao descobrir que ela estava conversando com um menino.

            Ele marchou pelo quarto dela, tomou o telefone de sua mão e começou a falar com Owen, enquanto Georgiana tentava tomar o telefone da sua mão.

--Quem está falando? De onde você conhece a minha irmã? Por que está ligando para ela? - Sem dar tempo para Owen responder nenhuma de suas perguntas.

--Will, devolva o telefone! - Georgiana gritava, correndo atrás do irmão pelo seu quarto, pulando para tentar tirar o telefone de sua mão. - Mamãe!!!!!!!

--Psiu! - Will disse a ela, afastando-se e tentando voltar a falar ao telefone. - Eu estou esperando, não vai responder?! - Disse, enfurecido, pelo telefone.

--Devolva! - Georgiana continuou correndo atrás dele. - Mamãe!!!!!!!

--O que está acontecendo? - A sra. Darcy apareceu a porta do quarto de Georgiana.

--Diga a ele para devolver o telefone! - Georgiana implorou a mãe.

--Will? - A sra. Darcy entrou no quarto da filha e se acercou dele. - O que está acontecendo?

--Ela está ao telefone com um menino! - Will replicou, como se ali existisse uma boa razão para ele agir do jeito que agiu, a qual sua mãe não podia negar.

--Devolva o telefone a Georgiana! - A sra. Darcy disse-lhe, sorrindo.

--Mas... - Will ia protestar, mas a sua mãe o interrompeu.

--Agora, Fitzwilliam. - E, apesar de sorrir para ele, Will sabia que ela havia lhe dado uma ordem; ela sempre falava sério quando usava o seu nome por inteiro.

            Will devolveu o telefone a Georgiana relutante e a sra. Darcy o tomou pelo braço, carinhosamente, e o guiou para fora do quarto da filha, fechando a porta às suas costas.

--A senhora vai deixar ela ficar aí dentro, conversando com um menino? - Will questionou-a, abismado com a atitude da mãe.

--É claro que vou deixar. - A sra. Darcy respondeu, com muita paciência. - Owen é um amigo da sua irmã, que ela fez durante a festa que ela foi com a sua Elizabeth. - Deixando Will boquiaberto.

            A sra. Darcy fez-lhe um pequeno relato sobre o que Georgiana havia lhe contado, deixando Will ainda mais transtornado com a notícia. “Elizabeth ajudou a minha irmã a conhecer um menino! O que ela estava pensando?!”

            Will chegou a escola naquela quinta-feira decidido a tirar esta história a limpo com Elizabeth. “Por que ela fez isso? Georgiana saiu uma única vez com ela e ela já conseguiu lhe arranjar um namoradinho... Um namoradinho que fica ligando lá para casa!”

            Não conseguiu encontrá-la ao corredor quando chegou, porque ela já tinha entrado em sua sala e estava conversando com as suas amigas – para fugir dos olhares curiosos, que a seguiam onde quer que passasse. A sua mão em uma tala imobilizadora tinha virado uma sensação, porque todos sabiam o que havia causado aquela luxação.

            Mas isso não o deteu. Apareceu à porta de sua sala e chamou por ela. Causando uma nova sensação, continuando a aumentar a atenção das pessoas para Elizabeth. No entanto, ela não se incomodou desta vez, porque ainda tinha a memória do telefonema da tarde anterior viva em sua mente. E por isso sorriu ao vir ao seu encontro.

--Bom dia, sr. Darcy! - Disse a ele assim que se aproximou.

--Bom dia. - Will respondeu, sério. E deu dois passos para trás, fazendo com que ela saísse da sala, ao imitar a sua atitude, só que dando dois passos para frente. - Dá para você me explicar que história é esta de que você ajudou Georgiana a arranjar um namorado? - À medida que ele ia dizendo cada palavra, o seu tom de voz ficava mais sério e mais alto. Ao fim, todos ao corredor, que estavam próximos a porta da sala de Elizabeth, haviam ouvido a conversa.

--Namorado? - Elizabeth perguntou, franzindo a testa para ele, confusa.

--Um tal de Owen! - Will replicou, sem notar que estava alterado. - Que você a ajudou conhecer durante a festa em que ela foi com você... Que agora fica ligando lá para casa para falar com ela!!!

--Owen ligou para ela?! - Elizabeth perguntou, abrindo um sorriso enorme no rosto.

--Então é verdade? - Will a questionou, ainda mais irritado. - Você arranjou um namorado para a minha irmã de dez anos?!

--Sim! - Elizabeth respondeu, orgulhosa.

            Caroline, que vinha passando por perto de onde eles estavam naquele momento, parou para escutar a discussão dos dois e ficou muito contente em constatar que Elizabeth tinha perdido alguns pontos com Will com tal atitude. Uma coisa que ela tinha percebido durante o almoço de domingo à casa dos Darcy, era que Will não gostava nada da idéia de sua irmã se interessar por meninos.

            Charles e Richard, quem também tinha retornado a escola este dia, também pararam para escutar a conversa. Richard não gostou daquela notícia, tão pouco – Georgiana é prima dele e tem apenas dez anos. Charles, por sua vez, não estava acreditando muito nesta história de namorado; Georgiana é muito nova para namorar, na opinião dele; ele acreditava que Will tinha entendido alguma coisa errada, Georgiana devia ter um amiguinho novo, e, quanto a Elizabeth, ele acreditava que ela o estava deixando acreditar nesta história de namorado para provocá-lo, ela sempre gostou de fazer isso.

--Ora, acalme-se, sr. Darcy! - Elizabeth disse, autoritariamente, ao perceber que ele estava realmente irritado com ela. - Como você disse, ela só tem dez anos! Aos dez anos, uma menina não namora de verdade! - Charles logo balançou a cabeça, concordando, pensando que estivera certo. E Elizabeth, diminuindo o seu tom de voz para um mais ameno, tentou explicar a Will. - Eles vão conversa ao telefone e mais nada. - Preferiu não mencionar a festa do Halloween em que eles iam se encontrar. - Ela pode até começar a fantasiar com a possibilidade de um primeiro beijo... - Mas, neste momento, notou que a sua explicação só o estava deixando mais agitado. - Mas, o máximo que pode acontecer, é eles darem as mãos... Isso é, se Owen tiver coragem para pegar na mão de Georgiana! - Elizabeth concluiu, voltando a sorrir.

--Ele não vai chegar nem perto dela! - Will garantiu, ainda alterado. - Eu não vou deixar! - O que fez Elizabeth gargalhar. - Eu estou falando sério! - Ele protestou, não gostando do fato de Elizabeth estar rindo-se dele.

--Eu sei. - Elizabeth replicou, entre risos. - É por isso que é engraçado!

--O que é engraçado?! - Ele inquiriu, ficando ainda mais furioso. Ela não parava de rir; será que não entendia a seriedade do assunto?

--Que você realmente acredita que pode impedir a sua irmã de namorar! - Elizabeth respondeu, com sinceridade.

--Eu posso! - Will rebateu, imediatamente, com emoção. Richard concordou, mentalmente, de onde estava.

--Por favor! - Elizabeth disse e, como se explicasse algo muito complexo a uma criança pequena, completou. - Dentro de uns anos, Georgiana vai começar a namorar realmente e você não vai conseguir impedi-la, nem mesmo que cole nela 24 horas por dia! - Garantiu-lhe isso, com a maior certeza. - Se você ainda não notou, sr. Darcy, Georgiana é um pequeno projeto de uma futura Jane e quando ela realmente se interessar por um garoto, ninguém vai conseguir impedi-la de namorá-lo! - Will e Richard ficaram boquiabertos, enquanto Charles ficava de olhos arregalados. Nenhum deles realmente tinha pensado nisso.

--Eu vou. - Will ainda insistiu, irracionalmente. - Meu pai e eu já planejamos tudo. - Garantiu. - Quando um menino aparecer na minha casa atrás da minha irmã, meu pai irá distrair Georgiana enquanto eu expulso o menino de lá. - Completou, com bastante seriedade em cada uma das palavras que proferiu. O que fez Elizabeth voltar a rir.

--Que fofinho! - Ela começou, sorrindo para ele. - Eu nunca pensei que você fosse assim tão ciumento, sr. Darcy! - E continuou a rir. - Mas... Faça o que quiser! Eu não vou ficar aqui e tentar lhe dizer como você deve desperdiçar o seu tempo! - E, ainda sorrindo para ele, retornou para dentro de sua sala de aula.

            O resto do dia transcorreu normalmente, sem muitos incidentes. Will foi acalmando-se à medida que as horas passavam e assistia as suas devidas aulas. E quando o intervalo principal ocorreu, ele já estava mais sobre o controle de si mesmo. Sentou-se a mesma mesa em que Elizabeth (quem estava curiosa para saber se ele voltaria a tocar no mesmo assunto) e lanchou em silêncio.

            Ao fim da manhã, ele tinha recuperado o dom da palavra e chegou a lhe dirigir um “tchau” a saída do colégio. Enquanto Elizabeth ainda continuava a considerar o comportamento dele, com relação àquele assunto, meigo e não ficando ofendida com a atitude dele para com ela. Além de estar incrivelmente satisfeita por Owen ter mantido a sua palavra e ter ligado para Georgiana.

 

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