Capítulo 24
O fim de semana passou como o esperado. Will não viu ou falou com Elizabeth. Também não falou sobre ela com ninguém, nem mesmo com Georgiana. Sempre que a irmã tentava falar sobre Elizabeth, contar-lhe sobre as visitas que ela e Jane vinham lhe fazendo constantemente ou sobre as partituras de músicas que Elizabeth passara a lhe dar com bastante freqüência, Will decidia que precisava fazer alguma coisa em seu quarto e se trancava nele, até que Georgiana esquecesse-se de tentar conversar com ele.
Quanto ao seu primo, ele não queria muita conversa com ele tão pouco. Depois que houvera conseguido convidar Clarice para sair, ficara indeciso em proceder com o desafio. A sexta-feira à escola, quando todos ficaram sabendo que ele a havia a convidado para sair, tinha sido bastante difícil para ele. Invés de deixar de pensar em Elizabeth, passou a se preocupar com o que ela pensava a seu respeito ainda mais. Mas, ao fim daquele dia, pareceu-lhe que as suas preocupações tinham sido em vão mais uma vez. Ela pareceu-lhe mais feliz que nunca, conversando com seu primo ao estacionamento da escola. Mais uma vez os dois estavam isolados dos outros componentes de seus grupos, conversando animadamente e ela, até, lhe deu um beijo no rosto em despedida.
Não havia mais dúvida em sua mente e nem esperanças. Elizabeth estava interessada em Richard e não havia ninguém que pudesse convencê-lo do contrário. E Richard, embora negasse ou, Will considerava, tentasse resistir aos seus sentimentos, em respeito a ele – Will –, não estava conseguindo. Para Will era igualmente obvio que Richard também tinha sentimentos por Elizabeth. E, por mais que se dissesse para não ficar com raiva do primo, pois, com certeza, ele não tinha se apaixonado por ela de propósito, não conseguia. A raiva se acumulava em seu peito e o sufocava.
Por isso, estava decidido. Na segunda-feira prosseguiria com o desafio. Convidaria as meninas que ainda faltava convidar para sair e na sexta-feira teria o seu primeiro encontro. Estava decidido, também, em se esforçar mais. Realmente tentar se relacionar com essas meninas, conhecê-las. Mesmo que não chegasse a se apaixonar por nenhuma delas – neste ponto, é claro, ele estava pensando em Caroline. Mas, pelo menos, tentar não transformar este um mês em pesadelo.
A segunda-feira, muito esperada por muitas outras pessoas além de Will, chegou com o clima de Outono já em seu auge. Quando Will entrou na escola já começou a ouvir cochichos a seu respeito. Todos já estavam sabendo do tal desafio entre primos e não falavam em outra coisa. Aparentemente, para sua surpresa, ao invés de ser visto por todos como um menino idiota por se submeter a um desafio tão ridículo como este, estava sendo admirado pelos colegas homens de toda a escola, e, mais surpreendentemente ainda, desejado pelas meninas. Todas elas, com exceção de poucas, queriam ser uma das meninas escolhidas por Richard para ser a “namorada” de Will por um mês. Este era um caminho rápido e fácil para adquirir mais popularidade.
E, ao fim do intervalo entre o segundo e o terceiro horário deste dia, Will já havia conseguido convidar outras duas meninas para sair com ele – Hanna Tsukasa, uma menina do terceiro ano, descendente direta de japoneses, e Marianne Portman, segundo ano, uma linda mulata de olhos cor de mel. Beleza não era o problema, mas Will logo percebeu a intenção de seu primo ao por estas duas meninas em sua lista. Elas eram tão cabeças-ocas quanto Caroline e igualmente enjoativas. Ele apenas trocou dez palavras com as meninas e já estava mais que certo que por estas tão pouco tinha chances de se interessar. E só teve as suas suspeitas confirmadas quando ambas lhe informaram que já haviam saído com o seu primo, logo que ele havia sido transferido para Austen House. Richard as tinha escolhido propositalmente para torturá-lo.
Mas Will logo se esqueceu deste detalhe por um bom tempo, porque tinha algo mais importante com que se preocupar. Desde que chegara a escola este dia, notara que o capitão do time de basquete da escola vinha o observando a distancia. Não sabia dizer quais eram as suas intenções, mas não gostava nada das probabilidades a sua mente.
Contudo, quando se esbarrou com Michael – sabendo que o capitão de basquete o tinha feito intencionalmente – surpreendeu-se com a vontade que sentiu que Michael estivesse procurando confusão com ele. Adoraria ter em quem descarregar toda raiva que estava acumulando há as últimas semanas. No entanto, Michael apenas lhe disse:
--Boa sorte! - Com um sorriso zombeteiro nos lábios. - Acredite! Você vai precisar! - Antes de seguir o seu caminho, como se não houvesse acontecido nada.
Will ficou ali, parado, no corredor da escola, relaxando os punhos e vendo Michael se afastar dele, sem entender nada.
Mas o pior golpe que recebeu naquele dia veio de ninguém menos que Elizabeth. Ele não a tinha visto ao refeitório da escola durante o recreio – por mais que tentasse não procurar por ela entre as mesas do refeitório quando ocupava uma mesa com seus amigos, os seus olhos sempre vasculhavam o salão inteiro à sua procura. Ele não sabia por que ela não estava ali, porque encontrou facilmente a mesa em que as suas amigas estavam sentadas. E a hipótese de ela não ter vindo à escola este dia sequer passou em sua mente, porque já a tinha visto uma vez ao corredor da sua sala aquela manhã. Então, não fazia idéia do porque de ela não está ali e, muito menos, onde ela estaria. Imaginava que ela poderia estar na biblioteca (ficou tentado em passar por lá, mas resistiu). Mas, ao fim, a encontrou fora da biblioteca.
Ele estava indo para a sua sala, descendo a escada, quando dobrou a sua esquina e a viu ali, bem a sua frente, no último degrau ao topo, com um livro aberto ao colo e com fones ao ouvido. Will ficou ali parado por mais de um minuto, olhando para o topo de sua cabeça, já que ela estava de costas para ele. Ao pé da escada havia um grupo de meninos sentados, todos igualmente de costas para Will e, conseqüentemente, Elizabeth também. Discutiam justamente Will e o desafio que lhe fora imposto pelo primo.
O sinal do fim do intervalo tocou, despertando Will de sua paralisia e fazendo Elizabeth fechar o livro que estava lendo, tirar os fones do ouvido e se erguer. Enquanto começava a descer os primeiros degraus, ouviu parte de um dos comentários dos meninos a respeito de Will e começou a rir.
--Eu daria tudo para ter cinco meninas disputando para ficar comigo! - O menino do primeiro ano exclamou, admirado. Então ouviu Elizabeth gargalhar às suas costas; ele e seus amigos viraram as cabeças em sua direção para poder olhá-la. - O que? - O menino que havia feito o comentário lhe inquiriu, ofendido. Não gostava do jeito que ela tinha rido, soou-lhe como se estivesse zombando dele.
--Vocês, meninos, são assim tão... burros?! - Ela inquiriu, ainda rindo. - Nenhuma dessas meninas está realmente interessada nele! - Ela garantiu.
--Ah não?! - Outro menino questionou, com um tom de sarcasmo na voz.
--Não. - Elizabeth respondeu, calmamente. - Porque uma menina realmente interessada em um menino não concorda em dividi-lo com outra menina nem por um segundo, que dirá com quatro, por um mês inteiro! - Ela passou a frente dos meninos e virou de frente para eles, mas com o olhar baixo, para os meninos, o que não permitiu que ela visse Will ao topo da escada, parado, a ouvindo.
--Se elas não estão competindo por ele, como você afirma, então por que elas aceitaram sair com ele? - Outro menino inquiriu.
--Elas estão competindo entre elas mesmas! - Elizabeth afirmou. - Da mesma forma que ele só está saindo com elas por causa de uma estúpida aposta com o primo e para ficar bem aos olhos de um bando de menininhos tão bobos quanto vocês, elas aceitaram sair com ele para ter mais popularidade. Para terem o título de “a garota mais linda e desejada da escola”!
--Eu não me importo com o motivo para elas terem saído com ele! - O menino de quem Elizabeth havia rido disse. - Eu ainda daria tudo para estar no lugar de Will Darcy e sair por um mês inteiro com cinco garotas tão gostosas como as que ele terá que sair!
--Eu também! - Ela ouviu a confirmação da boca dos demais meninos, o que só a fezela voltar a gargalhar.
--Vocês só confirmam o meu ponto de vista: garotos são burros! - E rindo, completou. - Patético! - Antes de lhes dar as costas e seguir o seu caminho.
Will ficou ainda ali, parado, pensando: “então, ela acha que eu sou patético!”
--Ela está com ciúmes! - Um dos meninos comentou.
--É. Por dentro, ela deve estar desejando ser uma dessas meninas também! - O outro concordou.
E Will ficou pensando que eles não podiam conhecê-la menos! “Ela tem razão; eles são burros!”.
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Elizabeth seguiu para sala ainda rindo da inteligência limitada daqueles meninos. Mas o seu sorriso logo sumiu ao ver a sua comissão de recepção à porta de sua sala de aula. Elizabeth se aproximou delas com cautela, já imaginando porque elas vieram a sua procura.
--Onde você estava? Por que não veio se juntar a nós ao refeitório? - Jane perguntou.
--Eu não estava com fome. - Elizabeth respondeu, com simplicidade.
--Lizzie, quando você vai parar de se esconder pelos cantos? - Charlotte lhe perguntou, chateada. - Quando você vai voltar a ser você mesma?! - Jane, Catherine e Lydia ficaram espantadas com o jeito de Charlotte falar com Elizabeth. - Mesmo que a verdadeira você queria ir até Will Darcy, dar-lhe um tapa na cara e dizer-lhe o quão idiota ele é por preferir sair com cinco meninas estúpidas a ficar com você! - E antes que Elizabeth pudesse responder, Charlotte prosseguiu. - Eu sinto falta da minha amiga! - Catherine e Lydia balançaram a cabeça em concordância. Enquanto Jane ficava apreensiva, olhando Elizabeth, esperando a reação dela. - Se você quiser, eu te ajudo. - Charlotte prosseguiu. - Eu seguro ele para que você possa bater! - Concluiu, num tom sério.
--E eu te ajudo a bater! - Lydia afirmou.
--Eu também. - Catherine garantiu. O que fez Elizabeth rir com vontade, fazendo as outras meninas rirem também.
--Tudo bem. Eu vou voltar a ser eu mesma. - Elizabeth garantiu, ainda rindo. - Eu prometo! - E, assumindo o seu ar impertinente, disse. - Agora, cuidado! Eu posso vir a pedir a sua ajuda e você não vai poder negá-la, mesmo se estiver com medo... Afinal, ele é meio grande! - E, rindo, entrou na sala.
Elizabeth sabia que cumprir aquela promessa seria mais difícil do que prometê-la. Mas estava disposta a tentar; pelo menos, manter as aparências. Charlotte tinha razão, ficar se escondendo pelos cantos não era a solução dos seus problemas. Tinha de enfrentá-los e, se fosse realmente preciso, faria exatamente o que Charlotte havia lhe proposto. Mesmo que ela só tenha falado hipoteticamente, Elizabeth não tinha descartado aquela opção por completo. Certamente, o pegaria de surpresa. E, pensando nisso, daria tudo para descobrir a reação dele ao ser nockouteado por uma menina – este pensamento lhe fazia sorrir feito uma criança que acabara de aprontar uma grande travessura.
Na terça-feira, pela manhã, viu a sra. Abbott a fitar de uma forma estranha. Passara o fim de semana e a segunda lembrando Elizabeth de quanto ela não era a filha exemplar. Mas esta manhã estava excessivamente calada, como se estivesse ocupada demais com seus próprios pensamentos para se preocupar em chamar a atenção de Elizabeth. Não fez nenhum comentário a respeito de suas roupas, de seu cabelo ou da falta de maquiagem, tão pouco fez comentários com relação a meninos e o fato de Elizabeth ainda não ter um namorado, quando Jane, à sua idade, já havia namorado pelo menos um vez.
Elizabeth apenas a ouviu murmurar, para os seus botões:
--É! Isso vai resolver! - Quando Elizabeth ergueu-se de sua cadeira à mesa do café da manhã. - Certamente, irá resolver. - Mas Elizabeth não lhe deu atenção.
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Will ainda estava relutante em convidar Caroline. Ficou adiando este momento enquanto lhe foi possível. Chegou a procurar o primo para lhe perguntar quem seria a quinta menina, ao que Richard ainda não tinha decidido. Em resposta às reclamações de Will – afinal, Outubro estava bem próximo e não seria culpa dele se ele não houvesse convidado as cinco meninas até lá, já que o primo ainda não havia terminado de escolher todas elas – Richard lhe disse que não demoraria muito a se decidir, embora ainda não fizesse idéia de quem esta menina seria, e questionou-lhe porque ele ainda não havia convidado Caroline.
E Will não teve outra escolha senão convidar a garota. Ela estava se comportando de forma distante nos últimos dias, o que agradava muito Will. Era um alívio não tê-la dependurando-se em seu braço toda vez que falava com ele. E agora teria de procurá-la, convidá-la para sair com ele durante um mês inteiro. Will sabia que estaria pagando todos os seus pecados durante aquele mês.
Na quarta-feira, então, Will deixou de evitar o inevitável e procurou Caroline. Assim que chegou a escola, a viu enfrente a sala de aula na companhia de sua amiga Sabrina. As duas meninas olharam em sua direção e fingiram não tê-lo visto. Will estranhou este comportamento, a esta altura Caroline já estaria se dirigindo a ele, chamando-o de “Will querido!”, e se apoderando de seu braço como apoio. No entanto, ela o olhou e desviou o olhar, continuando a sua conversa com Sabrina.
Will resolveu que o momento era aquele e se encaminhou para perto dela.
--Caroline. - Disse o seu nome em voz alta, fazendo com que ela voltasse a fitá-lo. - Bom dia.
--Bom dia. - Caroline respondeu, educadamente. Mas não sorriu como de costume.
--Posso falar com você? - Will perguntou, ao que Caroline concordou com um aceno de cabeça. E a Sabrina, como se entendesse que Will desejava falar com Caroline a sóis, afastou-se dos dois. --Eu tenho uma pergunta a lhe fazer. - Will informou-lhe, seriamente.
--Está certo. - Caroline permaneceu solicita.
--Você sabe sobre o desafio que Richard me fez, não sabe? - Ela voltou a afirmar com um aceno de cabeça. - Eu gostaria de saber se você estaria disposta a sair comigo durante o mês de Outubro. - Will concluiu e aguardou a resposta dela.
Pela primeira vez, Will percebeu que ela estava hesitando. Ela o fitava com uma expressão no rosto que ele não conseguia entender o que significava. Ela não parecia contente, mas não parecia estar ofendida. Por um breve momento Will pensou que ela fosse lhe dizer não; lembrou-se das palavras de Elizabeth aos meninos ao pé da escada na segunda-feira. “Será possível que Caroline esteja, genuinamente, interessada em mim?”, Will se perguntou naquele momento.
Mas logo Caroline sorriu e lhe disse:
--Eu ficarei encantada. - E adiantou-se até ele e tomou-lhe o braço como apoio. - Acompanha-me até a minha sala? - Questionou-lhe, amavelmente. Will concordou, surpreso com toda a situação. Além de pensar que, a sala dela não ficava nem a dez passos de onde eles estavam, então livraria-se dela rapidamente se a acompanhasse até a porta de sua sala.
A verdade é simples. Caroline sinceramente estava em dúvida se devia aceitar ou não aquele convite. Estava interessada nele, ou, pelo menos, acreditava estar interessada nele. Mas a sua vaidade falou muito mais alto quando o momento de tomar a decisão chegou e ela não pode deixar escapar aquela oportunidade de ser admirada pelos meninos da escola e invejada pelas meninas, ao aceitar tal convite. Então, o aceitou.
Com o pedido feito a Caroline e aceito por ela, a expectativa quanto quem seria a próxima menina a ser convidada a sair com Will apenas aumentava em toda a escola. Não havia outro assunto para ser tratado em Austen House até mesmo entre os funcionários e professores da escola. Ocorreu uma séria discussão entre os professores e coordenadores de ensino quanto à possibilidade de a escola intervir em tal assunto; afinal, não é exatamente normal uma situação como esta. Mas, ao fim, a decisão tomada foi a de não interferir enquanto não ocorrerem nenhum incidentes dentro do estabelecimento escolar. O argumento de tal decisão foi fundado no fato de que a juventude de hoje não é a mesma dos tempos passados; os namoros e relacionamentos atualmente têm muito pouco a ver com os relacionamentos de antigamente. Que não devia haver intervenção na situação enquanto esta não trouxesse problemas à rotina da escola.
Quinta-feira o suspense era tanto que Will tivera problemas para conseguir dormir a noite anterior. Chegou à escola com uma mistura de sentimentos; estava ansioso para ver o primo e descobrir quem ele havia escolhido, e, ao mesmo tempo, receoso quanto a escolha. Assim que estacionou o carro, viu o primo fazer o mesmo. Soube imediatamente que não conseguiria esperar nem mais um momento para saber quem era a menina. Saiu do carro, sem esperar por sua irmã, e acercou-se do carro do primo.
--Diga-me... - Disse-lhe, sem rodeios, sobressaltando Richard. - quem é a quinta menina?
--Olá, primo. Bom dia! - Richard respondeu, fechando a porta de seu carro e travando-a com o controle remoto.
--Diga-me, Richard! - Will exclamou, já nervoso. - Quem é a quinta menina?
Richard virou-se de frente para Will e o observou por um bom tempo. Houvera tido uma conversa com Charles à tarde anterior, em sua casa, a respeito deste desafio. Charles cansara de ficar em silêncio e decidira ser o mais direto possível ao falar com Richard. Dissera-lhe para terminar aquela história de uma vez, ou ele falaria com Elizabeth e a faria terminar a história por ele. E, então, eles finalmente ficarão sabendo quem está interessado em quem nesta história. E, naquele momento, Richard soube o que ele precisava fazer para acabar com aquela história, com Charles queria.
--Quem é a quinta menina?! - Will repetiu a pergunta da mesma forma exasperada de antes.
--Lizzie. - Richard respondeu, deixando o primo boquiaberto.
--Como é?! - Will exclamou, chamando a atenção de Charles, quem havia acabado de chegar. O que o fez juntar-se a eles.
--O que está acontecendo? - Charles perguntou.
--Eu escolhi a quinta menina. - Richard respondeu e Charles ficou emburrado instantaneamente. - Lizzie.
--O que? - E foi a vez de Charles exclamar.
--Eu não posso convidar Elizabeth para sair comigo! - Will replicou, irritando-se.
--Ela é a garota que eu escolhi; ela é a quinta e se você quer continuar com o desafio terá de convidar Elizabeth Abbott a sair com você! ...Eu não vou escolher outra! - Richard continuou decidido.
--Mas isso é loucura! - Charles exclamou. - Will não pode convidá-la para sair nestas condições!
--E por que não?! - Richard fingiu não entender as implicações de Charles.
--Porque foge completamente do objetivo deste desafio! - Will explicou.
--Não. Não foge! - Richard garantiu. - Qual é a melhor forma de você provar que não está apaixonado por Lizzie que a tratando como qualquer outra das meninas por quem você não tem interesse algum e só vai sair com elas porque eu te desafiei? - Charles estava boquiaberto e Will sem palavras.
--O que você está tentando fazer?! - Charles finalmente falou, empurrando Richard para trás. Pegando Richard de surpresa.
--Eu não vou convidá-la para sair! - Will disse, calmo e decidido. - Eu não vou fazer isso! - O que fez com que Charles também se acalmasse um pouco. - Você não pode me obrigar!
--Você sabe que se não convidá-la, acabou desafio? - Richard perguntou-lhe, apreensivo.
--Que seja! - Will deu de ombros ao primo e se afastou.
--O que foi isso?! - Charles voltou a questionar Richard, ainda irritado. - Você queria que ele convidasse Lizzie para ser uma das meninas com quem ele devia sair durante um mês?
--Não. - Richard lhe respondeu, calmo. - Você queria que eu acabasse com essa história, não queria? ...Aí está, acabou. - Richard respondeu, dando as costas Charles e seguindo para a escola.
Will entrou na escola se sentindo, estranhamente, aliviado. E passou o resto da manhã anestesiado. Não podia acreditar que realmente tinha acabado. Não precisaria sair com nenhuma daquelas meninas, poderia viver a sua vida tranquilamente. E agora que tinha acabado, não fazia idéia do porque de ter resistido tanto; tão pouco, por que deixou que chegasse até ali.
Isto é, até que o intervalo foi anunciado e ele pôs os pés nos corredores da escola. Pois, assim que o fez, Clarice acercou-se dele para discutir os planos para sexta-feira à noite, quando, supostamente, teriam o seu primeiro encontro. E, seguidas a ela, como se houvessem combinado, as outras meninas decidiram fazer o mesmo. Will quis aproveitar a oportunidade para desfazer o convite, mas, por alguma razão (elas falavam sem precisar de encorajamento e davam pouca oportunidade para uma réplica), ele não conseguiu.
Ao fim do intervalo, ele estava voltando para sua sala de aula, ainda comprometido com todas elas, e se sentindo desanimado novamente. Não conseguia imaginar o trabalho que ainda teria pela frente para dispensar todas elas.
Passou as últimas aulas daquele dia tentando bolar formas de livrar-se da cada uma das meninas sem causar muito tumulto. Mas não conseguia se concentrar. A única coisa que ocupava a sua mente naquele momento, desde o intervalo, era Elizabeth. Hoje ela tinha se sentado com as amigas para lanchar e prosseguiu o seu ritual de sempre com naturalidade. Lanchou, conversou com as amigas, ligou o MP3 e abriu um livro sobre a mesa, começando a lê-lo. Will sabia disso porque passou o intervalo inteiro olhando para ela. Mas uma vez não conseguiu impedir a si mesmo e se rendeu a tentação.
E agora estava dentro da sala de aula, com aquela mesma imagem na cabeça, pensando que tudo seria mais fácil se ela gostasse dele como ele gosta dela. Sim, já havia se cansado de negar isso. Não adianta negar nada! Eu gosto dela! Gosto... muito dela!”
Estava pensando nela quando se dirigiu a saída do colégio no fim daquela manhã de quinta-feira. Pensando nela ao refeitório, nas coisas que ouviu ela dizer àqueles meninos ao pé da escada, nas alegações dos próprios meninos sobre ela estar com ciúme e desejar ser uma das meninas que ele convidasse para sair, sobre o que o seu primo havia lhe proposto fazer, em transformá-la em uma de suas “namoradas por um mês”. E então a viu, ao estacionamento da escola, a poucos metros de distância, na companhia de Jane e Charlotte.
Will não viu o momento exato em que começou a ir em direção a ela, já estava às suas costas, chamando por ela, quando percebeu.
--Elizabeth. - Ela ouviu às suas costas e imediatamente sentiu um frio na barriga; havia dias que não ouvia aquela voz direcionada a ela diretamente. - Elizabeth? - Ele chamou por ela de novo, incerto se ela o teria ouvido. E Elizabeth finalmente parou de andar e virou-se para encará-lo. - Eu... Você... - Ele começou a falar, gaguejando. Ela notou que ele parecia nervoso. - Você quer sair comigo? - Ele, finalmente, disse; e, para a sua total surpresa, fez a pergunta num tom normal de voz e sem gaguejar. E aguardou.
--O que disse? - Elizabeth questionou-lhe; o havia escutado, mas pensou que estava imaginando coisas. Ele não podia tê-la convidado para sair! Ele não faria isso!!
--...- Will engoliu a seco; ele não tinha certeza se conseguiria dizer uma segunda vez. Estava tão nervoso que podia ouvir o seu coração bater tão alto quanto um tambor em seus ouvidos. - Você quer... quer sair comigo? - Ele repetiu; primeiro com a voz fraca, mas ao fim proferiu as palavras em tom audível.
Elizabeth o observou por um bom tempo, ainda estática com toda a situação. Tinha consciência de estar no estacionamento da escola, que Jane havia parado a alguns passos de onde ela estava, juntamente com Charlotte, e muitas outras pessoas estavam aos arredores, ouvindo a conversa dos dois. Mas, para ela, aquilo parecia com um sonho; um sonho ruim. Mas só um sonho.
Ela permaneceu calada, olhando para ele. Abriu a boca duas vezes para dizer alguma coisa, mas não conseguia encontrar as palavras. Não fazia idéia do que dizer, então permaneceu olhando para ele; o observando como se ele não fosse de verdade, apenas uma ilusão.
--Elizabeth? - Will chamou por ela. - Você me ouviu?
--Sim. - Ela respondeu, olhando para o chão. Quando ergueu o rosto novamente, viu Richard e George se acercarem deles, juntamente com Lydia e Catherine. - Eu só estava pensando... - Elizabeth completou com sinceridade e Will a fitou nos olhos, tentando ler a sua resposta neles; mas não conseguiu. Ele nunca os tinha visto daquele jeito. - Posso lhe fazer uma pergunta, sr. Darcy? - Elizabeth lhe inquiriu, já recobrando o seu controle.
--Pode. - Will respondeu. Estava nervoso; mas tinha certa esperança. Não sabia por que tinha, mas o fato de ela ainda não ter arrancado a sua cabeça fora após ouvir a sua pergunta o estava animando.
--Por acaso, ...está escrito na minha testa: “estúpida” ou “desesperada”? - E à medida que ela ia proferindo cada uma daquelas palavras a sua expressão facial mudava, de uma expressão vazia de emoções para uma cheia de raiva; os seus olhos se encheram de um brilho intenso, o seu tom de voz aumentou e se tornou áspero. - Porque você deve ter me tomado por uma destas coisas para vir me fazer esta pergunta! - Will, instantaneamente, começou a balançar a cabeça dele, negativamente. - Então, por favor, esclareça: qual destas sou eu?
--Nenhuma. - Ele se apressou em responder. - Eu não tive a intenção... Eu não quis... Eu não... - Ele tentava se explicar, mas não sabia como. Ele mal conseguia se lembrar como veio parar ali!
--Oh, por favor, pare de gaguejar! - Elizabeth continuou, usando um tom duro. - Você está ficando cada vez mais patético! - O que o fez ficar branco e mudo.
Charles estava vermelho de vergonha e irritação pelo amigo (“Ela não precisa falar com ele desse jeito! É só dizer não e pronto!”). Richard estava paralisado, confuso; não sabia o que fazer, estava custando a acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo (“O que ele pensa que está fazendo? Por que ele fez isso?”). George, pela primeira vez, sentiu pena de Will (“Meu Deus, alguém tira ele dali!”). Lydia estava orgulhosa da amiga, finalmente Elizabeth estava se comportando como ela mesma (“Isso, Lizzie! Mostra a ele quem é que manda!”). Catherine, mesmo achando que Will merecia estar passando por aquilo, ficou com pena dele (“Já chega, Lizzie. Deixa ele ir embora!”). Jane e Charlotte estavam igualmente alarmadas (“Por favor, não bata nele! Por favor, não bata nele! Por favor!!”)
Enquanto Elizabeth finalmente estava se sentindo segura de si novamente, verdadeiramente ela. E sustentava o olhar que Will lhe dava. Ele, por sua vez, não sabia o que fazer. Queria sair dali, mas as suas pernas não obedeciam ao seu comando. Queria desculpar-se, mas não tinha coragem de falar nada. Então, apenas ficou ali, parado, sentindo-se humilhado; aproveitando-se da palavra que ela mesma usou, sentindo-se patético.
--Parece-me que você ainda está esperando a sua resposta. - Elizabeth disse, tranqüila. Will tentou dizer alguma coisa; chegou a abrir a boca, mas não fez som algum. Então ela falou novamente. - Minha resposta é não. Eu não quero sair com você! - Respondeu isto de forma decidida, calma. - Eu não tenho desejo algum de perder o meu tempo com um menino como você! - Aquela última frase despertou uma raiva adormecida dentro de Will e ele finalmente recuperou o dom da fala.
--O que você quer dizer com: “um menino como você”? - O que fez Elizabeth fitá-lo um pouco surpresa com o fato de ele ainda querer questioná-la depois do que ela havia dito e depois sorrir de forma impertinente.
--Um menino arrogante, que se acha um máximo... Um menino que acha que pode namorar cinco garotas ao mesmo tempo sem ter que se preocupar com os sentimentos de nenhuma delas! ...Unicamente, porque o primo o desafiou a fazer isso e... não consegue resistir à possibilidade de provar que é o melhor, que pode tudo,... de parecer um máximo aos olhos de um bando de menininhos bobos, que não têm nada na cabeça e por isso se espelham em meninos como você! - Enquanto ela proferia aquelas palavras, ele desejava com todas as suas forças que o chão se abrisse e o engolisse vivo. - Esse tipo de menino!
--Lizzie? - Elizabeth ouviu a voz assustada de Georgiana e quando desviou o olhar na direção da voz, viu a menina parada ao lado do primo, a fitando amedrontada. - O que está acontecendo?! - Ela se apressou em perguntar.
--Desculpe-me, Ana! - Elizabeth disse, perdendo toda a postura de indiferente que tinha ao falar com Will. - Mas o seu irmão é um idiota! - Ela exclamou, finalmente deixando transparecer em sua voz a sua decepção.
E, dizendo isso, deu as costas a Will e foi embora. Jane, assim como as outras meninas, apressou-se em segui-la.
--O que foi que você fez de errado?! - Georgiana logo exigiu saber do irmão, aproximando-se dele e o inquirindo isto num tom autoritário e revoltado. - O que foi que você fez a Lizzie?! - Ela insistiu, com o rosto erguido para olhar o irmão. Mas ele não respondeu; apenas olhou de volta para ela, mas não parecia a estar vendo ali. - O que foi que você fez?! - Georgiana repetiu.
--Agora não, Georgiana! - Richard interferiu. - Vá para casa, Will! - Ele disse, empurrando o primo em direção ao seu carro.














