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Podem existir sintomas mais otimistas? Não é a desatenção que nos rodeia a própria essência do amor? (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo XXIII

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Capítulo 23

 

Will decidiu que a primeira menina a quem ia convidar para sair seria Clarice Betran. Ela é uma menina loira, muito bonita, de olhos azuis cor de água. Um pouco menor que ele, mas com um aspecto físico digno de uma modelo de passarela. Quando Richard lhe informou que ela seria uma das meninas que ele devia chamar para sair, Will ficou preocupado. Pois, pelo que sabia, a menina tinha um namorado. O capitão do time de basquete da escola (maior que Will, mais forte que Will e com um temperamento não muito amigável). Will pensou que o primo estava se vingando dele, querendo que ele fosse espancado pelo capitão do time de basquete. Mas Richard lhe garantiu que o namoro dos dois havia terminado na semana passada, pelas informações que recebeu.

            Ainda assim, Will estava preocupado. Ela é uma menina muito bonita, poderia ficar com qualquer menino daquela escola facilmente. Por que aceitaria sair com ele naquelas condições? Richard, é claro, afirmou-lhe que aquele era um problema dele. O desafio era exatamente convencer as meninas saírem com ele e manter a decisão delas durante todo o mês. Para isso, Richard também afirmou, Will devia usar de todo o seu charme e poder de convencimento para conseguir. “Eu tenho certeza que não vai ser tão difícil assim!”, Richard tinha lhe dito, com um tom de quem está tirando sarro de sua cara.

            Então, Will estava decidido a tentar fazer isso. Para o bem da sua sanidade, ele ia convidar quantas meninas precisasse, sairia com quantas meninas fossem necessário, mas esqueceria Elizabeth! O único problema era que ele não conseguia encontrar o momento certo para falar com Clarice. Ela estava sempre rodeada por garotas em todos os lugares que ia: ao corredor da escola, no refeitório, na biblioteca. Ele não queria convidá-la para sair no meio de uma roda de meninas; elas o ouviriam e, com certeza, ririam dele quando Clarice lhe desse um fora.

            À saída do colégio, àquela quinta-feira, Will finalmente encontrou a sua chance. Ela estava completamente sozinha, dirigindo-se ao seu carro. Will desistiu de entrar no dele, disse para Georgiana ficar onde estava e esperar por ele, que ele já voltava, e foi atrás de Clarice. Abordou a menina com a muita cautela, não queria assustá-la.

--Clarice, oi! - Will se acercou da menina, quem parou de se dirigir ao seu carro e virou-se para fitá-lo, dando-lhe um belo sorriso.

--Olá. - Respondeu, com bastante charme.

--Ham... Você não me conhece... Eu sou... Meu nome é... - Ele começou a gaguejar. “Ótimo! Isso vai ser fácil!”, ele exclamava, mentalmente, com sarcasmo. - Meu nome é...

--Will Darcy. - Clarice resolveu ajudá-lo, o vendo assim tão agitado. Ela tinha consciência de que era este o efeito que tinha em muitos garotos. - Eu sei quem você é. - Ela completou, ainda sorrindo para ele; um daqueles sorrisos de comerciais de pasta de dente.

--Que bom! - Ele não conteve; já era uma coisa a menos para ele se preocupar, ele deduzia. Ela riu. - Eu estava tentando encontrar um momento para falar com você a sóis o dia todo. - Ele comentou, o que fez o sorriso dela aumentar.

--Sobre o que? - Ela inquiriu, fingindo-se de desentendida. Já imagina o que ele queria; estava recebendo milhares de convites para sair, de vários meninos da escola, desde que havia terminado o namoro com o capitão do time de basquete. Terminado não, ter sido largada pelo capitão; mas este era um detalhe que poucas pessoas sabiam (vamos dizer: ela e o capitão do time de basquete, somente!).

--Eu estava querendo te perguntar uma coisa. - Will respondeu.

--Pergunte. - Ela respondeu, jogando todo o seu charme para cima dele.

--Você sairia comigo... - Will começou a dizer e viu o sorriso dela aumentar. - por um mês? - E viu o sorriso dela diminuir um pouco e o olhar dela estreitar, como se começasse a estranhar alguma coisa. Ele sabia, ela devia estar o considerando bastante ousado, ao imaginar que podia convencê-la a se comprometer a sair com ele durante um mês, sem nem, ao menos, ter saído com ele uma vez sequer. - O fato é que... o meu primo, Richard,... - Will começou a explicar. Olhando ela ali, diante dele, o olhando daquela forma, o fez desistir de todos os disfarces e desculpas que pudesse ter pensado em usar para convencê-la a sair com ele durante aquele mês, enquanto ele estivesse saindo com outras meninas também. Já imaginava que ela não ia aceitar, então, para quê se dar o trabalho de mentir. - Bem, Richard me desafiou a sair com cinco garotas durante um mês. - Ele completou, rapidamente, para não perder a coragem. E viu a resposta no rosto dela, porque ela ficou, imediatamente, boquiaberta ao ouvi-lo dizer-lhe aquelas coisas. - Ele lhe escolheu... porque você linda e popular e... porque, com certeza, ia me dar um fora logo de cara! - Will completou, sem vergonha. O que, por fim, fez a menina voltar a sorrir. - Eh... - Ele coçou atrás da sua orelha, sem jeito, e disse. - Nem precisa dar a resposta, eu já sei qual é. - E começou a dar passos para trás, desejando sair da frente dela o mais rápido que conseguisse e enfiar a cabeça de baixo da terra, como uma avestruz, de tão envergonhado que tinha ficado.

--Espere! - Ela o fez parar. - Você tem certeza que sabe a minha resposta? - Ela o inquiriu, voltando a ter aquela mesma postura charmosa quando ele veio falar com ela. - Eu aceito... - Ela começou a dizer, sorrindo para ele, quem ficou boquiaberto. - por um mês.

--Você aceita? - Ele perguntou, descrente. Ela respondeu com a cabeça que sim, ainda sorrindo para ele. - Por quê? - Ele ainda não conseguia acreditar. - Você entendeu que o desafio é sair com cinco garotas, certo? - Ele perguntou, estranhando a reação dela. Ela continuava a sorrir e a confirmar com a cabeça. - Eu não entendo. Por que você aceitaria sair comigo nestas condições? - Enquanto a sua mente perguntava: “por que você aceitaria sair comigo em qualquer circunstância?” 

--Por que não? - Ela respondeu, tranqüila. - Não é como se você estivesse me pedindo em casamento. - Ela continuou, enquanto ele permanecia a olhá-la com espanto. - Nós só vamos sair juntos, nos conhecer. Certo?

--Certo. - Ele respondeu.

--Então, minha resposta é sim. - Ela concluiu, voltando a lhe dirigir um sorriso de comercial de pasta de dente.

--Ok. - Will não teve outra saída, a não ser concordar.

            Eles ainda conversaram por mais dez minutos, tempo este em que Will passou a lhe explicar as regras do desafio. E, ao fim, ficou acertado que o primeiro encontro deles seria no dia 1º de Outubro. Depois Will voltou para o seu carro e ela seguiu o caminho dela. 

            A verdadeira razão para Clarice aceitar sair com Will tinha um metro e oitenta e seis de altura, moreno, de olhos castanhos escuros, de nome: Michael Wood. Quem, Clarice recentemente descobriu, havia começado a sair com uma loira da mesma sala de Clarice.  Portanto, ela precisava de alguém com quem manter a imagem de superior. E Will servia para o trabalho; ele a ajudaria a colocar ciúmes em seu capitão do time de basquete.

___________________________

            Durante aquela sexta-feira todos já estavam sabendo que Will tinha convidado Clarice para sair com ele. Ela tinha feito questão de ligar para a uma de suas amigas, qual sabia ser fofoqueira de plantão, assim que chegou a casa e lhe contou que ele a havia convidado para sair ao estacionamento, à saída do colégio, e que ela havia aceitado. Não mencionou o desafio, porque esta parte da história não lhe favorecia. E esperou, tendo a certeza, que a sua amiga contaria a todo mundo. Assim, a notícia também chegaria aos ouvidos de Michael, que era o seu objetivo.

            Para arrematar a situação toda, durante o primeiro horário de aula ficou conversando, aos cochichos (não tão cochichos) com outra de suas amigas sobre como Will tinha abordado para chamá-la para sair, o quão nervoso ele tinha ficado e o quanto ela o achou bonitinho naquela situação. As meninas que estavam sentadas próximas a elas também ouviram o seu relato e trataram de espelhar esta parte da história também; o que, novamente, era o que ela queria.

            Assim, quando chegou a hora do segundo intervalo das aulas, era só sobre isso que as pessoas conseguiam conversar pelos corredores. Lydia e Catherine foram as primeiras a ouvirem e correram a contar a Elizabeth. Quem estava sentada em uma das escadas, com um livro aberto ao colo e os fones de ouvido, ouvindo música em seu MP3.

            Lydia foi o mensageiro; dando a volta em Elizabeth, desceu um degrau e parou de frente para ela. Quando Elizabeth ergueu o rosto para ver quem estava diante dela, Lydia já havia se inclinado em sua direção e tirado os seus fones do seu ouvido. Então, agachou-se diante de Elizabeth e lhe disse, num tom de segredo.

--Will convidou Clarice Betran, segundo ano, para sair com ele e ela aceitou. - Sem fazer nenhum rodeio. E ficou esperando pela reação da amiga.

--... - Elizabeth não fazia idéia do que dizer; ela não estava esperando por isso, mas isso era, com certeza, a última facada. - Ok. - Ela disse, depois de um bom tempo calada, sustentando o olhar que Lydia lhe dirigia. Lydia viu em seus olhos um vazio que nunca vira antes e ficou revoltada com Will. Ergueu-se imediatamente e saiu dali, puxando Catherine pelo braço.

            Elizabeth fechou o livro, ainda deixando-o sobre o colo, cruzou os braços sobre o livro e abaixou a cabeça, apoiando a testa sobre eles. Sentiu a sua testa mais quente que o normal e uma compressão no peito a impedia de respirar direito. Levantou a cabeça assim que ouviu as pessoas que estavam subindo a escada demorarem de subir o último degrau desta para poder observá-la e, até, inquirirem a quem estivesse por perto se havia lhe acontecido alguma coisa ou se ela estava passando mal. Elizabeth pegou os seus fones de ouvido, recolocou-os e pegou o seu livro, levantando-se do degrau da escada e indo embora dali.

            Elizabeth caminhou pelos corredores decidida, quase atropelando quem passasse a sua frente, e entrou no banheiro feminino. Escolheu o último cubículo privativo do banheiro, entrou nele e fechou a porta. Desceu a tampa do sanitário e se sentou sobre ela, puxando as pernas para cima e as envolvendo com os braços. Tinha o livro preso entre as pernas e sua barriga e a cabeça apoiada nos joelhos. Não chorou, ficou apenas tentando se acalmar. Não queria ver ninguém, conversar com ninguém enquanto não houvesse se recomposto. Não queria mais ser alvo de olhares de pena de suas amigas e irmã.

            Antes que Lydia conseguisse encontrar Will pelos corredores e fazer com ele a atrocidade que lhe viesse à cabeça, encontrou-se com Jane e Charlotte. As duas estavam procurando por Elizabeth pelo mesmo motivo que Lydia e Catherine tinham procurado por ela minutos antes. Catherine acabou-lhes informando o que tinha acontecido e Lydia explicou o que estava prestes a fazer. Jane e Charlotte a impediram, dizendo-lhe que Elizabeth não ia querer que elas fizessem nada. Sabiam que se as meninas o procurassem, mesmo que apenas para lhe dizer boas verdades, a escola inteira teria mais coisas para fofocar a respeito, o que só pioraria a situação de Elizabeth. Lydia resistiu o máximo que pode, mas cedeu aos pedidos de Jane.

            E, por fim, as meninas saíram em busca de Elizabeth. Nenhuma delas conseguiu encontrá-la.  Elizabeth saiu do cubículo em que se escondera, já se sentindo pronta para enfrentar quem quer que fosse, e se dirigiu a pia de lavar as mãos, enfrente a um grande espelho. Abriu a torneira, lavou as mãos e, juntando um pouco de água, jogou sobre o rosto (qual continuava inexplicavelmente quente). O enxugou com uma toalha de papel, descartou-a ao lixo e se fitou no espelho. Quando pegou o livro sobre a pia e se encaminhou a porta do banheiro, esta se abriu e Clarice entrou, seguida por duas de suas amigas. As meninas pararam a porta do banheiro e olharam Elizabeth, a medindo. Elizabeth seguiu o seu caminho e saiu do banheiro, chegando a ouvir, pouco antes da porta do banheiro se fechar as suas costas, as meninas caírem na risada.

            Quando se aproximava de sua sala de aula, viu a sua comissão de recepção a porta da sua sala. As meninas desistiram de procurar por ela e decidiram ficar a porta de sua sala, esperando pelo momento em que ela decidisse voltar. Elizabeth se aproximou delas, nada contente, e lhes disse.

--Eu não quero conversar sobre nada! - Assim que Jane abriu a boca para falar com ela. E entrou em sua sala, indo ocupar a sua carteira e retornar a sua leitura, como se nada estivesse acontecendo.

            Jane e Charlotte não tiveram outra escolha senão irem para as suas salas de aulas. Mas, antes, Jane pediu a Lydia e a Catherine para ficarem de olho em Elizabeth. Ao que as amigas aquiesceram sem pestanejar.

________________________________  

            A reação dos meninos com o novo rastro de fofoca foi o de se esperar. Nenhum deles fez comentários a respeito com ninguém de fora do grupo, para não aumentar os rumores. Enquanto que dentro do grupo havia uma grande discórdia.

            Charles culpava Richard, deixando de lhe dar o tratamento de silêncio e passando a lhe abusar verbalmente sempre que tinha uma chance (não que ele fosse muito severo; não era de sua natureza). Richard ainda estava confuso e perdido com o que estava acontecendo. Não estava preparado para lidar com a fofoca, porque nunca considerou a possibilidade de chegarem até àquele ponto; ainda não conseguia acreditar na façanha que o seu primo tinha conseguido fazer ao convencer Clarice a sair com ele nas circunstâncias em que se encontravam. E, ainda mais, depois de Will ter lhe explicado que havia lhe contado sobre o desafio, detalhadamente. Will estava furioso consigo mesmo, porque só conseguia se preocupar com o que Elizabeth podia estar achando de toda aquela história. Enquanto George se perguntava como ele ia conseguir descobrir isso, já que ele também estava curioso. Afinal, vinha passando muito tempo com ela, quando estava com Lydia.

            Então, decidiu: durante o recreio ele se juntaria a sua namorada, à mesa das meninas, e descobriria qual foi a reação de Elizabeth à novidade, para depois reportar-se aos seus amigos. E foi assim que prosseguiu, sendo o único do quarteto que não se sentou a mesma mesa que os amigos e lanchou, indo juntar-se a Lydia duas mesas após a que seus amigos estavam sentados.

            A sua idéia consistia em observar Elizabeth. Queria ver se ela lhe perguntava alguma coisa ou fazia algum comentário a respeito. Sabia que se ela estivesse com raiva ou, pelo menos, incomodada com toda aquela história de Will sair com outra menina faria algum comentário a respeito; ela não era do tipo de garota que ficava calada nestes momentos, sempre teve o que dizer.

            Para a sua surpresa, ela parecia não ter conhecimento dos acontecimentos ou, então, não se importava com eles. Porque passou aquele intervalo inteiro como sempre passava os intervalos. Lanchou com tranqüilidade; um pouco mais calada que o normal, mas não parecia chateada com alguma coisa – no ponto de vista de George. Depois afastou a sua bandeja, colocou um romance sobre a mesa e começou a lê-lo, ao mesmo tempo em que ouvia música em seu MP3.

            Lydia, no entanto, parecia estar mais interessada e mais chateada com toda aquela situação que a própria Elizabeth. Pois sempre tentava fazer perguntas a George a tal respeito, mas acabava por receber olhares atravessados de suas amigas quando tentava introduzir o assunto na conversa. Por fim, quando o intervalo acabou e as meninas seguiram para as suas salas, Lydia conseguiu levar George para um canto e lhe arrancar quase toda a verdade sobre o que estava acontecendo com Will.

            George, como havia prometido a si mesmo que faria, foi atrás de Richard para reportar o que tinha descoberto. Encontrou Richard ainda ao corredor, sem Will ou Charles por perto, o que lhe agradou. Não sabia qual seria a reação dos outros às suas novidades. Preferia lidar com Richard sozinho, parecia-lhe mais fácil.

--Tenho novidades... relacionadas a Lizzie. - Ele cochichou a Richard, quem imediatamente arrastou-o para um canto mais reservado.

--E então? - Inquiriu, impaciente.

--Bem, ... Ela sabe que Will convidou Clarice para sair, o que era de se esperar. - George disse, mas Richard percebeu que ele ainda não tinha dito tudo o que tinha para dizer, porque ele tinha uma expressão no rosto de quem ainda estava hesitando em falar alguma coisa.

--E?! - Ele o apressou, ficando ainda mais impaciente. - Ela disse alguma coisa?

--Aí é que está! Ela não disse nada! - George comentou. - Nem mesmo uma palavra.

--Isso é ruim! - Richard murmurou.

--Eu acho que ela não se importa. - George finalmente deu a sua opinião.

--Não. Ela se importa! - Richard garantiu. - Eu sei que ela se importa! E o fato de ela permanecer calada é o que me assusta! - Ele completou. - Ela não é do tipo de garota que não fica calada quando algo a incomoda!

--É disso que eu estou falando. - George replicou. - Se ela se importasse, teria dito alguma coisa a esta altura!

--Eu sei que ela se importa! - Richard voltou a afirmar. - Provavelmente, ela está tentando se controlar, mas... quando ela explodir... eu não quero estar por perto. - George o observou por um momento, percebendo que Richard estava falando sério. Então disse, tentando aliviá-lo de suas preocupações.

--Não se preocupe. Eu conversei com Lydia e contei sobre o desafio e... - Imediatamente após ouvir isso, Richard arregalou os olhos e ficou branco feito um papel. - ela deve estar contando a Lizzie neste momento; assim, Lizzie vai saber que Will não queria mesmo sair com Clarice, mas foi obrigado... de certa forma. - Completou.

--Você enlouqueceu?! - Richard bradou. - Por que você foi contar a Lydia sobre o desafio?

--Ela iria descobrir, eventualmente. - George respondeu, ficando na defensiva. Achava que tinha lhe feito um favor. - Ou você acha que ninguém ia descobrir que isso tudo não passa de um desafio entre você e o seu primo quando Will começar a convidar uma garota atrás de outra para sair com ele por um mês?! - calando Richard. - Além do mais, como eu disse: assim, pelo menos, Lizzie fica sabendo que Will está as convidando para sair porque você o desafiou e não porque está realmente interessado nelas.

--Oh, sim! Porque assim é muito melhor! - Richard comentou, com ironia.

______________________________

            Lydia entrou na sala feito um furacão assim que terminou de extrair a verdade de George e imediatamente se dirigiu até a carteira em que Elizabeth estava sentada àquele momento, lendo. Arrancou o livro de sua mão, violentamente, fazendo com que Elizabeth olhasse para ela, estranhando a sua atitude, e dissesse, à medida que tirava os fones do ouvido.

--O que pensa que está fazendo?

--Eu descobri porque Will chamou Clarice para sair. - Cochichou, porque sabia que muitas meninas dentro da sala estavam atentas a sua conversa com Elizabeth. Estavam, todas elas, doidas para saber o que Elizabeth pensava de toda aquela história.

--Eu não quero ouvir. - Elizabeth respondeu, no seu tom normal de voz, mas com um jeito ríspido. Chamando ainda mais a atenção das meninas.

--Lizzie! - Lydia exclamou, inconformada. Elizabeth a ignorou, voltando a colocar os fones nos ouvidos. - Lizzie! - Lydia continuou a tentar chamar a sua atenção, mas Elizabeth recostou-se em sua carteira e desviou o olhar da amiga, a ignorando completamente. Lydia pôs-se de pé, irritada, e exclamou, o mais alto que conseguiu. - Will só convidou Clarice a sair com ele porque Richard o desafiou. - Elizabeth, quem, mesmo estando com os fones de ouvido e o volume deste estar consideravelmente alto, conseguiu ouvi-la (quanto mais as outras meninas da sala); o que a fez voltar a olhar para Lydia. Quem continuou de pé e falando no mesmo tom, porque Elizabeth ainda estava com os fones nos ouvidos. - Richard o desafiou a sair com cinco meninas durante um mês inteiro... E nem foi Will quem escolheu as meninas que ele devia convidar, mas o próprio Richard. - Finalmente, conseguindo que Elizabeth tirasse os fones dos ouvidos.

--Lydia! - Mas dirigir-se a ela num tom reprovador. - Diminua a sua voz. - E indicou a entrada da sala a amiga, com um aceno de cabeça. Quando Lydia olhou na direção da entrada da sala, viu o seu professor de Línguas e o restante da sala a observando.

--Oh... Ahh... desculpe, professor. - Lydia disse e foi ocupar a sua carteira, sem graça. 

            À saída do colégio àquela sexta-feira, Elizabeth foi abordada por Richard. Ele correu ao seu encontro, antes que ela se aproximasse muito de Jane e Charles (no intuito de fazer o casal se despedir, para que ela e a irmã pudessem ir para casa), e a manteve afastada das outras meninas enquanto conversavam.

--Você está zangada comigo? - Ele inquiriu, passando a mão no cabelo nervosamente.

--Por que eu estaria zangada com você? - Elizabeth respondeu, com uma pergunta. Richard lhe dirigiu um olhar significativo, qual Elizabeth escolheu ignorar; na verdade, estava decidida a não tratar daquele assunto com ninguém. Então, mudou o foco da conversa, de certa forma. - O que?! Você já fez algo de errado a Charlotte?! - Perguntou-lhe, fingindo assombro com aquela possibilidade.

--Não. - Richard rapidamente respondeu. E antes que pudesse falar qualquer outra coisa, ela disse.

--Que bom! - Soando animada. - Porque seria decepcionante se você tivesse feito algo de errado a ela depois do que eu descobri ontem! - Richard a fitou, confuso; não sabia sobre o que ela estava falando. - Eu conversei com Charlotte ontem.

--Lizzie! - Richard soou alarmado.

--Acalme-se! - Elizabeth apressou-se em dizer. - Eu não mencionei você. - Ela garantiu e ele pareceu se acalmar. - Nós conversamos sobre ela e David. - E, ao ouvir isso, Richard voltou a ficar apreensivo, dando a Elizabeth motivo para sorrir genuinamente a primeira vez neste dia inteiro. - E... ela não está apaixonada por ele. - Elizabeth finalmente lhe disse, fazendo Richard ficar animado.

--Verdade? Ela disse isso? - E apressar-se a lhe inquirir.

--Ela disse. - Elizabeth garantiu, rindo ainda mais. - Com todas as letras. - Richard ficou pensativo, em silêncio, mas também começou a sorrir. - Boa noticia, hem?

--É. - Ele respondeu, ainda meio distraído com a novidade. Fazendo Elizabeth sorrir ainda mais.

--Viu? - Ela disse, pondo a mão em seu ombro. - Você ainda tem uma chance! - E lhe deu um beijo no rosto, antes de se despedir e se afastar, indo se juntar a Jane.

            Will, quem estava indo em direção ao seu carro, viu a cena e não ficou muito contente com o que viu.

            Elizabeth decidiu passar mais uma noite de sexta-feira em casa, para o desgosto não só a sra. Abbott, quem há muito considerava problemático o comportamento da filha, mas também seu pai e sua irmã. O sr. Abbott já havia percebido que a sua filha estava triste e não conseguia deixar de ficar preocupado. Enquanto Jane queria tentar ajudá-la, mas Elizabeth não lhe permitia.

            Elizabeth saiu de casa pouco antes de o dia começar a escurecer, foi a uma locadora e alugou o filme “Um Crime de Mestre” (Facture), qual há dias queria assistir, e “De Repente 30” (13 Going On 30), qual consistia numa comédia romântica. Voltou para casa e anunciou os filmes que havia alugado; seu pai logo se comprometeu em lhe fazer companhia durante aquela sessão de cinema caseiro.

            Jane, enfim, saiu sozinha para encontrar Charles. E respondia a todos que a questionavam quanto a ausência de Elizabeth a mesma coisa: ela tinha se comprometido com o seu pai em passar a locadora e alugar “Um Crime de Mestre” para assistir, como pretendia fazê-lo já havia algumas semanas.

            Mas Elizabeth mal chegou a assistir metade do filme, porque a sua mãe não a deixou em paz um minuto sequer enquanto ela esteve sentada ao sofá da sala na companhia de seu pai. Cantando a mesma ladainha o tempo todo.

--Eu não sei qual é o seu problema! - Ela dizia, com exasperação. - Por que você é assim? Eu não te criei para ser assim! - Enquanto Elizabeth fingia não a estar ouvindo. - Você veja a minha Jane... Ela sim me escuta! Porque você não é mais parecida com a sua irmã?

--Minha querida, será que você pode falar mais baixo? - O sr. Abbott pediu, fitando a mulher rapidamente. - Nós estamos tentando assistir a um filme aqui. - E voltou a dirigir a sua atenção a televisão.

--Eu ficaria em completo silêncio se você estivesse assistindo a este filme sozinho, Jonathan. - A sra. Abbott respondeu. - Lizzie não tem nenhum motivo para estar aqui! - Continuou, irritada. - Ela devia estar na rua com a irmã dela! - Garantiu, aumentando o tom de voz. - Não tem nem mais de uma semana que ela estava sendo cotada por três meninos e agora ela está aqui, sozinha! - Falou, com muito desgosto na voz. - O que você fez com os meninos desta vez, Elizabeth?

--Ora, mamãe! - Elizabeth finalmente se cansou de ouvi-la calada e disse, com raiva e ironia em seu tom de voz. - Eu me livrei deles, é claro! - E se ergueu de seu lugar ao sofá. - Eu vou dormir. - Disse ao pai, lhe dando um beijo no rosto. - Boa noite, mamãe! - E também lhe deu um beijo no rosto ao passar por ela e seguir para a escada.

--O que foi que eu fiz para merecer uma filha destas?! - Ela ouviu a mãe se lamentar à medida que subia a escada e seguia para o seu quarto.

            Como ainda não estava com sono, resolveu ligar o computador e navegar pela Internet por algumas horas. Checou o seu e-mail, entrou em um site de música, no qual demorou-se por bastante tempo, e depois entrou numa sala de bate-papo para fãs de Jane Austen, onde permaneceu por meia hora, discutindo “Persuasão” com uma menina de dezesseis anos do colégio Brighton High.

 

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