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Ter uma boa renda é a melhor receita para a felicidade de que já ouvi falar. (Jane Austen)

Come Pick Me Up And Take Me Out - Capítulo XIX

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Capítulo 19

 

Will acordou aquela manhã de segunda-feira da mesma forma em que havia dormido na noite anterior, espumando de raiva. A primeira imagem que surgiu em sua mente ao abrir os seus olhos àquela manhã foi a visão que teve de Richard e Elizabeth ao balcão da pizzaria, sozinhos, bem próximos um do outro—tão próximos quanto ele ficara dela quando a beijara a primeira vez. Em seu íntimo ouvia uma vozinha irritante que lhe dizia que se não houvesse aparecido naquele momento, era exatamente assim que a noite teria terminado para aqueles dois—num majestoso beijo.

            Will ergueu-se da cama, atirando as cobertas de lado ao mesmo tempo, e dirigiu-se ao banheiro. Passou o café da manhã calado, tentando digeri-lo. Mas estava tendo dificuldades de digerir qualquer coisa naquele momento, principalmente a traição de seu primo.

            Chegou à escola tão mudo quanto quando acordara, repleto de pensamentos inquietos e angustiantes. Georgiana falava com ele de tempos em tempos, mas não recebia resposta alguma. Havia percebido, há muito tempo, que ele estava chateado com alguma coisa. Mas não conseguia perguntar a ele o que tinha acontecido, para deixá-lo daquela forma, porque ele não parecia estar te escutando, independentemente do que ela estivesse falando.

            Mas quando ele estacionou o carro, tirando a chave da ignição e retirando o prórpio cinto de segurança, ela finalmente conseguiu capturar a sua atenção. Aproveitando o momento em que abriu a porta do carro, para sair, para lembrá-lo de dizer a Elizabeth que sua mãe dera permissão para ela fazer uma aula de dança com Elizabeth na quarta-feira.

            Georgiana saiu do carro logo em seguida e fechou a porta do carro, seguindo o seu caminho, sem perceber o irmão atordoado que abandonou no carro. Will ficou ali, sentado atrás do volante, olhando para o banco vazio em que sua irmã estivera sentada, lembrando-se da animação da irmã à possibilidade de Will namorar Elizabeth.

            E, então, lembrou-se do momento em que Georgiana tentou apresentar Elizabeth a ele; principalmente, quando ela inquiriu a Elizabeth: 'ele é um gato, não é?'; ao que Elizabeth respondeu: 'os dois são.'; incluindo Richard na pergunta. Se ele, ao menos, tivesse percebido então, não ficaria bancando o papel de bobo este tempo todo. Porque ali estava uma prova evidente de onde o interesse de Elizabeth estava focado: Richard!

            E foi lembrando cada momento que viveu na presença dos dois, sentindo um gosto azedo se acentuar na sua boca, que Will saiu do carro, fechando a porta e travando-as com o controle remoto de seu chaveiro. “Desde o começo que tem sido assim!”, ele ponderava. “Richard garantindo que aprovava o meu interesse nela, confirmando o quanto achava que ela era bonita!!”, ficando cada vez mais irritado. “Como eu não notei antes?!”

            Ele escalou os degraus da escada de entrada de Austen House e passou pelo porteiro da escola sem corresponder-lhe ao 'Bom dia!' que o sr. Jeferson lhe dirigiu; sequer, ao menos, lhe dirigindo o olhar.

            “Não! Não, Will! Você está se precipitado!” Ele tentava se dizer, tentando acalmar-se. “Afinal, ela saiu com você e não com Richard! Foi a você quem ela beijou no seu carro e não Richard!”. Mas logo a insegurança o dominava e até esta lembrança, que o agradava tanto, tornou-se contaminada pela dúvida. “Você a beijou! Ela não te beijou, você a beijou!!! ...Ela, simplesmente, ficou parada lá... te olhando! Ela, provavelmente, ficou tão surpresa que não soube como reagir... e quando finalmente teve controle sobre si mesma, terminou o beijo, impediu-o de beijá-la de novo! Ou você se esqueceu de como ela fugiu do seu carro na primeira oportunidade que conseguiu?”

            Ele seguiu o seu caminho de forma cega, andando pelos corredores do colégio sem ver ninguém a sua frente. Ele ficava cada vez mais confiante de estar certo de suas suspeitas, desta vez. Ficando, em consequência, cada vez mais enfurecido.

            “E aquela história com Caroline, mesmo! Aquilo foi uma desculpa! ...É isso! Ela queria que você e Caroline fossem um casal! Sempre quis! Ela sempre ria, de forma zombeteira, quando os via juntos, desde o dia em que você disse que ela não era bonita o bastante para lhe tentar! E você acabou por lhe fazer um favor quando apareceu àquela  tarde na casa de Richard na companhia de Caroline. ...Ou você não lembra o quão alegre ela ficou ao se ver como dupla de Richard no jogo de boliche?! ...Sim!!! Ela ficou feliz em ver você com Caroline! Assim não precisaria te dar um fora para poder ficar com o seu primo!”

            Ele virou o corredor que levava a sua sala, sem notar que o seu grupo de amigos estava reunido ao fim dele. “Como é que você não viu isso?! Ela te deu várias indiretas de que não estava interessada em você: quando você tentou falar com ela na própria casa de Richard na tarde do boliche, quando você a encurralou no banheiro, e ela disse claramente que não se lembrava de nada do que tinha acontecido no dia anterior!” Ele, ponderava, exageradamente. “E depois através de Charles, quando ele tentou explicar a sua situação com Caroline ainda naquele mesmo dia. Ela disse a Charles que não se interessava pelo que você fazia com a sua vida amorosa. ...E no refeitório da escola, no dia seguinte, quando você tentou explicar a situação com Caroline. Ela confirmou o que tinha dito a Charles, só que a você, diretamente.” Ele estava a beira de ter um ataque de raiva e tentar se enforcar ali mesmo, de tão estúpido que estava se sentindo. “Ela vem te dando indiretas e, até, diretas de como se sente em relação a você e só você não percebeu!”.

            Ele passou a reviver, mentalmente, cada uma daquelas situações, daqueles momentos vividos com ela, os averiguando com um novo ponto de vista. E, em cada um deles, encontrou um evidente indício do interesse de Elizabeth em seu primo e não nele. E, então, ele os viu. Os dois, juntos, sozinhos,  ao fim do corredor, conversando de forma absorta à presença de qualquer pessoa que estivesse ao seu redor. E sentiu uma vontade enorme de pular no pescoço do próprio primo.

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--Vamos, Richard, diga-me: o que quer? - Elizabeth inquiriu, olhando-o com bastante interesse. - Você fica aí enrolando, falando disso e daquilo, mas eu sei que você quer me dizer alguma coisa que ainda não disse.

--Eu sou assim tão transparente? - Richard questionou, sem jeito.

--Bem, você é o tipo de cara cujo charme se encontra em ser decidido e seguro de si. Vê-lo dar voltas numa conversa tão boba quanto a que estávamos tendo só me faz perceber que você está me escondendo alguma coisa!

--Eu não estou escondendo nada. Eu só estava...- Ele deixou a frase morrer.

--O que? - Elizabeth inquiriu, curiosíssima.

--Você não mencionou nada com Charlotte sobre aquela nossa conversa no mini-golfe, mencionou? - Elizabeth riu da figura dele, que ficou bagunçando o cabelo com a mão assim que começou a falar, de tão nervoso que estava se sentindo naquela situação.

--Mas é claro que... - Elizabeth começou a responder, demorando um tempinho justamente para deixá-lo apreensivo. - não! - Rindo do suspiro de alivio que ele deixou escapar.

--E você não vai dizer nada, não é? - Ele se apressou em inquirir. Ele estava tão focado em fazer um “controle de danos” na situação complicada de seu primo no dia anterior que se esquecera de pedir segredo a ela sobre o que tinham conversado sobre Charlotte.

--Não. Eu não vou. - Elizabeth garantiu.

--Eu não sei... como é que funciona... com vocês, meninas. - Richard argumentou. - Mas vocês parecem ser tão unidas e sempre que uma de vocês descobre alguma coisa, parece-me, que as outras, automaticamente, ficam sabendo também. - Esta afirmação tinha muita a ver com Lydia, George e todo o resto que acontecera nos dias anteriores a este. - Eu pensei que você... contaria a ela...

--E eu irei contar... - Ela viu Richard ficar branco quando disse isso. - se eu achar necessário. - Ela concluiu, ainda se divertindo com o jeito dele.

--O que isso significa? - Ele inquiriu, apreensivo.

--Vamos dizer que... enquanto você se comportar direitinho e não fizer nada de errado com relação à minha amiga, de que uma de nós venha tomar conhecimento, eu não tenho  porque me intrometer entre vocês dois!

--Ai, Lizzie! - Richard replicou, com um semblante sério. - Você diz isso como esperasse que eu fizesse algo de errado! - Elizabeth sustentou o seu olhar, com um misto de avaliação e divertimento. - Eu não vou fazer nada de errado a Charlotte! - Ele garantiu.

--Eu espero que não,... - Elizabeth respondeu. - para o seu próprio bem! - E sorriu, amigavelmente. - Porque... em uma coisa você tem razão. - Ela disse e ele a ouviu atentamente. Sabia que ela não estava brincando, embora ainda sorrisse para ele; tinha algo em sua voz que não a deixava mentir. - Nós somos muito unidas e... todas nós vamos levar para o pessoal qualquer coisa que aconteça com a outra! - “Isso é uma ameaça, não é?” Richard se perguntava.

--Nossa! - Ele exclamou, pondo as duas mãos sobre o coração. - Eu senti um peso no coração agora! - Ele completou, teatralmente, fazendo ela rir com gosto. - E quanto a Charles? - Ele inquiriu, olhando rapidamente para o seu amigo (qual estava sentado com Jane, um pouco afastados deles).

--Eu não me preocupo com Charles. - Elizabeth garantiu, com tranqüilidade. - Ele, sim, é um bom menino! - E Richard voltou a olhá-la atentamente; entendendo perfeitamente a que ela estava aludindo naquele momento. - Mas se ele algum dia, sequer, imaginar fazer alguma coisa a Jane, ...ele estará morto! - Richard não pode evitar ficar boquiaberto ao ouvir aquilo, porque os olhos dela brilharam de uma forma que o fizeram perceber que ela, realmente, estava falando sério. - E ele nem irá perceber o que foi que o atingiu!

--Ai, essa doeu! - E, voltando-se para fitar Charles, Richard completou. - Pobre Charles, nem sabe o que lhe aguarda! - O que fez Elizabeth rir mais uma vez.

            E, então, os dois viram Will se aproximando deles.

--Ei, Will! - Richard chamou por ele, voltando a sorrir. Mas recebendo um olhar fuzilador do primo, ao passar por eles calado e seguir o seu caminho. - Will?! - Richard ainda persistiu, virando-se a direção que o primo tinha seguido e olhando-o entrar na sala de aula, sem olhar para trás um vez sequer. - Que Diabos aconteceu com ele? - Richard inquiriu a si mesmo, mas em voz alta.

--Eu não sei. - Elizabeth respondeu, conquistando a atenção de Richard de volta. Ele percebeu que ela estava preocupada, ao ouvir o tom de voz com que ela respondera aquela pergunta e só teve suas suspeitas confirmadas quando dirigiu o olhar a ela, a vendo olhando na direção em que Will seguira, com um semblante sério.

--Não se preocupe. - Ele garantiu. - Não deve ser nada de importante! - Ganhando a atenção dela. - Ele, provavelmente, não dormiu direito e deve estar de mau humor. - Elizabeth lhe dirigiu um meio sorriso, qual demonstrava que ela não tinha acreditado muito nas suas palavras.

            “Ele nem falou comigo!” , ela ponderava, tristemente.

________________________________

             Will seguiu para a sua carteira, depositou os seus materiais ao chão, ao lado da carteira, e se sentou, bufando de raiva. Precisou de todo o seu autocontrole para não atacar o próprio primo ali mesmo. “Ele estava dando em cima dela de novo, descaradamente. E ainda queria que eu parasse para falar com ele. Aquele cara-de-pau! Traidor!!”

            Charles entrou na sala um pouco depois disso, o encontrando com a cabeça baixa, apoiada nos braços cruzados sobre o braço da cadeira, e o rosto escondido. Charles sentou-se em sua carteira e chamou por Will, quem ergueu a cabeça e o olhou nos olhos, seriamente.

--Você está bem? - Charles inquiriu, preocupado.

--Sim. - Will mentiu. - Eu não dormi direito ontem... - O que não deixava de ser verdade, dentro das atuais circunstâncias. - E ainda estou com sono.

--Oh... o.k., então. - Charles respondeu, o que foi suficiente para Will voltar a abaixar a cabeça. - Eu vou deixar você... - Charles começou a dizer, mas desistiu. Ergueu-se de sua carteira, ainda inseguro de que Will estava mesmo lhe dizendo a verdade, e saiu da sala.

            “Ele sempre aproveitou cada oportunidade que apareceu para ficar perto dela!”, Will ainda persistia. “No auditório, a escoltando a uma poltrona; depois a fazendo sentar-se perto dele, quando nós fomos nos sentar com ela e suas amigas pela primeira vez, cheio de galanterias! Ele sempre esteve atrás dela! Como foi que eu não vi isso?!”.

            Will ergueu a cabeça ao ouvir o barulho que os seus colegas começaram a fazer ao entrarem na sala de aula ao mesmo tempo e começarem a ocupar os seus devidos lugares, quando o professor de matemática entrou na sala e tentou começar a dar a sua aula. “Se é assim, eu não vou mais ficar no caminho deles!”, Will se prometeu, quando viu o primo entrar na sala, ainda sorridente, e se encaminhar em sua direção. “Eles que fiquem juntos!”. Ele se prometeu, respirando fundo e assumindo a postura que teria dali para em diante. Ele seria indiferente!

--Ei, o que aconteceu com você? - Richard perguntou, ao passar ao lado da carteira de Will e ir ocupar a sua.

--Nada. - Will respondeu e, como se nada estivesse mesmo acontecendo, pegou os seus materiais escolares do chão e os colocou ao braço da carteira, abrindo a mochila, tirando o caderno e voltando a depositar a mochila no chão.

            Passou aquela aula inteira compenetrado na atividade que o professor de matemática explicava na lousa e depois em aplicar o que conseguira aprender nos exercicios que ele mandara que os alunos fizessem.

            Durante o intervalo a sua prova foi ainda maior, já que tinha de ficar na presença e companhia de Elizabeth, além de seu primo. Agora que virara um hábito sentar-se juntos, se ele decidice que preferia sentar-se apenas com os meninos, todos estranhariam e perceberiam que havia algo de errado.

            Mas cumpriu bem o seu papel. Sentou-se a mesa, infelizmente no mesmo lugar que sempre ocupava (de frente para Elizabeth; já que, intencionalmente, os outros membros daquele grupo sentaram-se de forma a deixar os dois se fitando), e concentrou-se ao máximo em comer a comida que havia selecionado àquele recreio.

            Ele não conversou muito com ninguém, respondeu cada uma das perguntas que lhe foram feitas de forma rápida e a não estimular mais conversas. Depois recolheu a sua bandeija, indo descartá-la propriamente, para seguir para a sua sala de aula.

            Obviamente, todos perceberam que havia algo de errado com ele. Mas ninguém ousou perguntar sobre o que se tratava. Lydia, como sempre, tentou descobrir algo com George, mas ele, neste assunto, realmente não sabia de nada. Elizabeth estava igualmente, senão mais, curiosa que qualquer outra pessoa quanto ao que poderia ter acontecido com Will, mas se fosse inquirir a alguém sobre o que estava acontecendo com ele, seria a ele mesmo. E, como Will sequer dirigiu uma palavrinha a ela o dia inteiro, ela decidiu que não o faria.

            À saída da escola, Will encontrou-se com sua irmã. Georgiana, ao contrário dele, estava em um ótimo humor e sorria amigavelmente ao se aproximar dele. Will se desencostou do fundo de seu carro, onde estivera a mais de dez minutos esperando por ela, dizendo-lhe, irritado.

--Onde você estava? - O que fez Georgiana perder o sorriso do rosto.

--Lá dentro. - Ela indicou a escola. - Conversando com as minhas amigas.

--Por que? Não passou a manhã inteira conversando com elas? O que mais vocês tinham a conversar? - Ele continuou com a sua tirania.

--Qual é o seu problema? - Georgiana inquiriu, surpresa com o jeito dele.

--Eu não tenho problema algum. - Will respondeu, defensivamente. - Entre no carro. - Ele ordenou, dando-lhe as costas e se dirigindo a porta do motorista. - Eu quero chegar em casa ainda hoje. - Resmungou, ao abrir a porta do motorista, entrar e a bater com bastante força.

            Georgiana seguiu o seu exemplo, indo para a porta de passageiro e não demorando a entrar no carro. Assim que ela colocou o cinto de segurança, ele arrancou com o carro e o tirou da vaga ao estacionamento da escola.

            Quando estavam se aproximando do portão da sua casa, Georgiana lembrou-se de uma coisa importante e inquiriu-lhe, voltando a ficar animada.

--Você disse a Lizzie que mamãe permitiu que eu fizesse aula de dança com ela nesta quarta-feira? - Olhando para o irmão cheia de expectativa.

--Eu esqueci. - Ele respondeu, mentindo.

--O que? Mas... - Georgiana iniciou a frase, mas desistiu do que ia dizer. - Esqueça; eu procuro por ela na sua ala amanhã e digo a ela eu mesma! - E entrou em casa, decidida.

            “O que foi que eu fiz, Deus, para o Senhor me torturar desta forma?”, ele questionou, olhando para o céu cinzento de setembro, antes de entrar em casa atrás de Georgiana. Havia prometido a irmã que iria buscá-la neste dia, justamente porque queria ver se conseguia escapar de Caroline e assistir a aula de Elizabeth. Mas agora a última coisa que precisava era vê-la dançando!

______________________________________

            Elizabeth decidiu que o melhor que podia fazer naquele momento era esquecer-se de Will e ocupar a sua mente com algo mais agradável. Já que ele estava lhe dando um tratamento de silêncio, quando ela não tinha feito nada para merecer isso (que conseguisse se lembrar), iria fazer o mesmo. Se ele quisesse falar com ela de novo, agora, teria que ralar um bocado para conseguir.

            Enquanto isso, voltou a ocupar a sua mente com Richard e Charlotte. Aí está uma coisa boa com que ocupar a mente; Charlotte, como uma querida amiga, precisava tanto de um namorado em sua vida quanto qualquer outra de suas amigas. E, embora David Fitzgerald aparentasse ser um menino legal, ele vem enrolando Charlotte com relação a assumir um namoro há muito tempo. E Richard, embora nunca tenha ficado com mais de uma menina de cada vez, nunca houvesse permanecido com uma garota por muito tempo, desde que Elizabeth o conheceu; ainda assim, Elizabeth achava que ele podia vir a ser o cara ideal para a sua amiga, se ele estivesse mesmo interessado em Charlotte.

            Agora, só faltava Elizabeth descobrir como atuar como cúpido para estes dois sem se “intrometer”, como havia prometido a Richard que não faria. “Mas como?” E, então, soube. A solução simplesmente surgiu em sua mente de repente, como se ela houvesse sido atingida por um raio.

            Elizabeth imediatamente ergueu-se de sua cama, onde estivera deitada (meditando) e correu para o telefone. Precisava ligar para Lydia e descobrir se ela já havia terminado de ler o livro de Charlotte. Lydia, é claro, ainda não havia terminado. Mas disse que faltava muito pouco para concluí-lo. Então Elizabeth pediu-lhe para entregá-lo a ela quando terminasse; ao que Lydia lhe respondeu que tinha prometido a Catherine que entregaria a ela, já que ela também queria lê-lo. Ficando curiosa quanto ao motivo de Elizabeth querer o livro, já que Elizabeth já o havia lido. Não recebendo uma resposta tão sincera da amiga, quem desconversou e disse que precisa desligar o telefone.

            Na terça-feira Elizabeth foi atrás de Catherine e perguntou-lhe se ela se incomodaria de deixar Richard ler o livro de Charlotte antes dela; dizendo-lhe que ele tinha ficado muito curioso com relação àquele livro e à idéia de alguns dos personagens neles serem inspirados nas amigas de Charlotte, desejando lê-lo. Catherine, sem muitas resistências, concordou em deixar Richard ler o livro antes dela, ao que agradou e muito Elizabeth.

            Restava-lhe, apenas, esperar que Lydia terminasse de ler o livro e entregar-lhe, para que ela pudesse dá-lo a Richard. E, então, esperar que surtisse o efeito que ela desejava com relação a história dos dois. Afinal, se existia algum jeito de Richard descobrir a melhor forma de conquistar Charlotte, seria lendo as suas histórias e vendo, nas fantasias da amiga, o que ela, intimamente, esperava que um rapaz, por quem estivesse interessada, agisse com relação a ela.

            Pouco antes do intervalo, no entanto, Elizabeth teve uma surpresa. Georgiana apareceu a porta de sua sala, à ala dos alunos do segundo grau do ensino fundamental, acompanhada de uma amiguinha de turma, para lhe informar que a sua mãe havia autorizado que ela ficasse até mais tarde à escola na tarde de quarta-feira, para fazer aula de dança com Elizabeth. Não deixando de lhe informar, também, que Will se comprometera de buscá-la. O que, por fim, acendeu uma pequena chama de esperança dentro de Elizabeth.

            Durante o intervalo deste dia, Elizabeth estava tão distraída pensando nas suas armações com relação a Charlotte ou, ao menos, tentando focar-se nelas, ao invés de ficar se agarrando àquela minúscula brecha que Will parecia estar te dando, que nem notou que voltara a ser o foco das observações alheias. No entanto, aos olhares de outro, sem ser Will. Já que este, embora vivenciasse uma luta constante consigo mesmo, mantinha a sua decisão à risca. Sentava-se àquela mesa, comia na companhia de todos, mas evitava falar e olhar para ela. 

____________________________________

            Desta vez, quem a estava observando era Charles. Vendo o amigo do jeito que estava, ele não podia deixar de notar que era por causa dela. Desde que vieram estudar em Austen House, Will vem demonstrando uma fascinação por Elizabeth que ele nunca vira o amigo acalentar por nenhuma garota antes. E, vendo os dois juntos, ele conseguia notar que ela não parecia ela mesma, tão pouco. “Há algo de muito errado nesta cena!”, ele ponderava.

            Lá estão eles, sentados um de frente para o outro e ambos fitando as próprias bandejas de comida, embora Will mal tivesse começado a comer sua e Elizabeth já houvesse terminado a dela. Unicamente para evitar erguer o olhar e fitar a pessoa que estava sentada bem a sua frente. Como ninguém mais percebia isso estava além de sua compreensão! Será que ele poderia continuar a deixar o seu amigo se comportar dessa forma por mais tempo, sem tentar descobrir o que estava acontecendo e ajudá-lo a resolver?

            Com o final do intervalo, Charles despediu-se prematuramente de Jane e convidou Richard para uma conversa particular. Se havia alguém ali, além dele mesmo, capaz de entender melhor Will, este alguém era Richard. E como seu primo e, muitas vezes, cúmplice, sabia que Richard tentaria ajudar Will com o que estivesse dentro de seu alcance.

            Os dois tiveram uma conversa, o mais confidencial possível, ao corredor da escola, antes de seguirem para a sala e juntar-se a Will (quem já tinha ido para sala, àquele momento) e George (quem estava com Lydia), com uma decisão tomada: fariam uma séria intervenção à saída do colégio e descobririam o que estava acontecendo com Will.

            E a cena voltou a se repetir à saída da escola, porque Charles, mais uma vez, se despediu de Jane antes mesmo de Elizabeth aparecer e informa-lhes que desejava ir embora (como comumente acontecia; o que servia de “deixa” para o casal se despedir), e intimar Richard a seguir Will até o estacionamento.

            Por sorte, Will não havia como fugir daquela intervenção, alegando que precisava ir para casa; porque Georgiana ainda não havia aparecido e, por tanto, ele precisaria esperar por ela.

--Se importa de explicar o que está acontecendo com você? - Richard inquiriu, recostando-se ao carro de Will, ao seu lado. Sem receber uma resposta do primo.

--Will, conte-nos o que está acontecendo! - Charles pediu. - Tem a ver com Lizzie, não tem? - Will dirigiu um olhar frio a Charles, mas que não surtiu o efeito esperado. Porque Charles estava mais preocupado em ajudá-lo que em deixá-lo mais irritado, para desistir agora. - Nem adianta olhar para mim desse jeito! - Ele argumentou, o que fez Will desviar o olhar e ficar se perguntando por que Georgiana tinha que demorar tanto conversando com suas amiguinhas. - Eu sei que há algo de errado e que tem a ver com Lizzie!

--O que foi que aconteceu? - Richard perguntou a ele.

--Engraçado você me perguntar isso! - Will replicou, azedamente. Fazendo Richard se desencostar do carro e mover-se, indo ficar a frente de Will.

--O que você quis dizer com isso? - E inquirir-lhe, seriamente.

--Se há alguma pessoa aqui que sabe o que está acontecendo, está pessoa é você! - Will também se desencostou do carro e parou diante do primo, com os pés fincados no chão, paralelamente, e cruzando os braços.

--Eu?! - Richard estava surpreso e Charles logo notou que tudo era mais sério do que ele imaginava.

--Não venha com essa! - Will exclamou, descruzando os braços, largando-os às laterais do corpo, e fechando so punhos. - Não se faça de desentendido!

--Will...? - Mas, antes que Richard pudesse falar qualquer coisa, Will voltou a exclamar.

--Mas, pra mim, está tudo bem! - Voltando a cruzar os braços, deu dois passos para trás e recostou-se ao fundo de seu carro novamente. - Eu tomei uma decisão e não vou mais me incomodar com isso! Se você quer Lizzie... fique com ela! - Will disse, usando um de seus tons mais indiferentes e controlados; deixando o primo e o amigo boquiabertos. - Eu não a quero mais!

--Como é?! - Richard exclamou, abismado com o que ouvira do primo.

--Que merda!!! - Mas foi a exclamação de Charles que chamou a atenção dos meninos, fazendo-os olhar para Charles e o vendo olhar para alguma coisa a sua frente, do outro lado dos meninos, de olhos arregalados.

____________________________________

            Elizabeth estava saindo da escola, se aproximando de Jane, quem, surpreendentemente, estava sozinha e não na companhia de Charles, quando Catherine a alcançou. Ela veio lhe entregar o livro de Charlotte, pois Lydia, finalmente, havia conseguido terminar de lê-lo (aproveitando-se das duas últimas aulas daquele dia, de Literatura e História da Arte, para lê-lo) e entregara a ela antes de ambas saírem da sala e Lydia se encontrar com George, ficando um pouco para trás à saída.

            Elizabeth ficou satisfeitíssima ao segurar aquele livro em mãos; finalmente, poderia pôr o seu plano em ação. Só precisava descobrir onde Richard estava e entregar-lhe o livro. Vendo George e Lydia se aproximando delas, inquiriu-lhe se ele sabia onde estava Richard. Ele, por sua vez, disse-lhe que ele tinha saído da escola com Charles.

            Elizabeth, então, soube que precisava perguntar a Jane onde estava Charles, se queria descobrir onde estava Richard. E, acercando-se da sua irmã, perguntou-lhe o que queria saber. Recebendo a resposta desejada, pois Jane lhe indicou em que direção os meninos tinham seguido.

            Elizabeth ainda fez uma pequena pausa em seu plano de ação, para escrever uma pequena nota para Richard. Em que se lia:

“Para lhe dar inspiração!”

            E, prendendo-a a capa do livro com um adesivo, seguiu o seu caminho atrás de Richard. Foi ao se aproximar do local onde o carro de Will estava estacionado que ela ouviu: “Se você quer Lizzie...”, o que a fez apressar os passos e se aproximar mais de onde eles estavam. Havia reconhecido a voz, mas tinha que ver com os próprios olhos para ter certeza. “fique com ela!”. Elizabeth parou, tendo uma perfeita visão de Will encostado ao carro, de braços cruzados, e fitando Richard, quem estava parado a sua frente, boquiaberto (ambos de lado para onde ela estava e sem vê-la); e Charles parado de pé de frente para Elizabeth, mas ao lado dos dois amigos, e sem olhar na direção dela e, sim, olhando para Will (igualmente espantado com o que ouvira).

--Eu não a quero mais! - Will concluiu, falando cada uma daquelas palavras em alto e bom som, além de vagarosamente, como se quisesse ter certeza de que os outros o ouvissem direito e o entendessem direito.

--Como é? - Richard exclamou, assombrado, ainda fitando Will.

--Que merda!!! - Mas foi a exclamação de Charles, ao ver Elizabeth, que capturou a atenção de todos.

            Então, Will e Richard dirigiram o seu olhar para Charles, o vendo de olhos arregalados, olhando para um ponto fixo além dos meninos, do outro lado; os fazendo virar as cabeças na direção de Elizabeth. Will teve uma sensação de “deja vú” ao vê-la parada ali, com aquela expressão no rosto.

--No que diz a meu respeito, sr. Darcy,...  - Elizabeth começou a dizer, evidentemente, enraivecida com o que tinha ouvido. -  eu sou a única pessoa aqui que pode dizer com quem eu fico ou deixo de ficar! - Caminhando decidida na direção de Richard, mas olhando para Will. - Não você! - Completou, ainda o olhando. E, parando próxima a Richard, lhe estendeu o livro. - Aqui, tome! - Olhando para Richard, aguardou que ele aceitasse o livro. - E boa sorte! - Concluiu, dando as costas a todos os meninos e retrocedendo em seu caminho, assim que Richard aceitou o livro. 

___________________________________

            Will ergueu o seu olhar para o céu, desesperado, e exclamou, mentalmente: “por que isso sempre acontece comigo?!”; enquanto Richard olhava o que estava escrito no bilhetinho de Elizabeth, para depois abrir o caderno e descobrir que se tratava do livro de Charlotte. Então voltou a erguer o olhar para o seu primo, o vendo fitar o céu.

--Por que, diabos, você fica fazendo isso com você mesmo?! - Inquiriu-lhe, irritado.

            Will abaixou o seu olhar para o primo, mas quase não conseguiu enxergá-lo. Estava tão cego de raiva que só via vermelho a sua frente. E foi a voz assustada de Georgiana que o impediu de voar sobre o primo e descarregar toda a sua raiva nele.

--Eu cheguei! - Ela disse, observando os três garotos. Só de olhá-los, pode ver que havia algo errado. - Eu não demorei tanto assim! - Apressou-se a argumentar, ao ver o olhar homicida que o seu irmão lhe dirigiu.

--Entre no carro! - Will replicou, fazendo o que tinha ordenado Georgiana fazer. Pois, se ficasse onde estava, nem a presença de sua irmã o impediria de pular sobre o primo e tentar enforcá-lo.

--Tchau, meninos! - Georgiana apressou-se em dizer, ao mesmo tempo em que corria para porta de passageiro e entrava no carro.

            Assim que ela fechou a porta, Will ligou o carro e pisou no acelerador, ameaçando tirar o carro do estacionamento. Charles e Richard se apressaram a sair de trás do seu carro e Georgiana a apertar o cinto de segurança. Então, Will arrancou com o carro da vaga de estacionamento e seguiu o seu caminho, sem dizer mais nada.

________________________

Jane viu Elizabeth voltar apressada pelo estacionamento da escola e se reaproximar dela, transtornada. Inquiriu-lhe o que tinha acontecido, mas George, Lydia e Catherine se aproximaram das duas irmãs, também curiosos quanto ao que podia ter acontecido (porque Elizabeth parecia estar tão contente minutos antes), o que impediu Elizabeth de responder a pergunta da irmã sinceramente. Ao invés disso, disse-lhe.

--Nada que vale a pena mencionar! - Rudemente. - Vamos embora daqui! - Jane imediatamente acatou, sem muitas perguntas.

            E as duas irmãs tomaram o caminho do ponto de ônibus sozinhas. Jane se perguntando o que havia acontecido para fazer Elizabeth ficar assim tão irritada e Elizabeth controlando-se para não proferir todos os nomes feios que vinham a sua cabeça naquele momento. E todos eles estavam acompanhados do nome Will Darcy.

 

 

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