Capítulo 12
Naquela mesma quarta-feira, no período da tarde, Elizabeth estava perambulando pelos corredores da escola sozinha. Tinha vindo à escola antes de Jane àquela tarde porque queria passar na biblioteca antes da sua aula de dança, para escolher um livro literário para ler. A biblioteca sempre estava mais vazia durante a tarde e ela conseguia examinar com mais cuidado o livro que queria locar. E, por isso, tinha conseguido encontrar um livro de seu gosto para locar em tempo recorde, estando sem ter o que fazer neste momento. Ainda faltava muito tempo para que a sua aula de dança começasse; havia outra turma com a professora de dança naquele momento e Elizabeth ficaria até tentada em assistir a esta aula se não fosse à turma de Caroline que estivesse tendo aula naquele momento.
Então ficou perambulando pelos corredores da escola, abrindo uma porta aqui outra ali, procurando alguma coisa interessante para fazer. Podia começar a ler o seu livro, mas, se o fizesse, não teria o que ler depois; e teria que voltar a biblioteca e locar outro. O que acabaria com todo o propósito de vir à escola mais cedo para escolher um livro para ler pela manhã, durante os intervalos.
Já estava se aproximando do corredor que a levaria a sala onde teria aula de dança e ainda não tinha encontrado nada de interessante para fazer. Estava começando a se resignar com a idéia de que ia ter de ficar assistindo a aula de dança de Caroline e suas comparsas. Mas, ao passar enfrente a uma sala a portas fechadas, ouviu algumas notas de piano bem distante. O que fez surgir um sorriso em seus lábios; como poderia ter se esquecido das aulas de piano? Ela mesma tomara aulas de piano na escola durante alguns anos, não faz muito tempo! Era a solução para o seu problema: assistiria a aula de piano de quem quer que fosse que estivesse tomando aulas com a sra. Madeline Delacour.
Elizabeth lembrava-se perfeitamente do temperamento da sra. Delacour, por isso entrou na sala de aula—a qual se assemelhava com um conservatório de música: cheia de instrumentos musicais e um longo piano preto ao centro—fazendo o menor barulho possível e foi ocupar uma das cadeiras ao fundo da sala. A sra. Delacour estava tão concentrada em escutar a menina de cabelos loiros que estava tocando piano que nem escutou Elizabeth entrar e procurar um lugar ao fundo da sala para se sentar.
A menina de cabelos loiros tocava maravilhosamente bem, o que explicava o completo silêncio da sra. Delacour. Elizabeth lembrava-se perfeitamente bem das suas aulas com a sra. Delacour; a esta altura, a sra. Delacour estaria lhe dizendo, num tom bastante severo, o quanto ela precisava praticar e que se ainda não conseguia ter uma performance a altura de suas aulas era porque não praticava bastante. A sra. Delacour tinha sido uma das razões porque Elizabeth desistira de tocar piano; na verdade, de tomar aulas de piano. Porque ainda tocava piano sempre que tinha vontade.
Elizabeth observava a menina de cabelos loiros, atentamente, estando sentada
à suas costas, enquanto a sra. Delacour estava parada bem ao lado da menina, de pé, e a observava atentamente. Elizabeth estava admirada; a menina parecia estar bastante concentrada, ao ponto de não se deixar intimidar por sua professora—quem todos na escola consideravam bastante intimidadora. A menina de cabelos loiros não devia ter mais de dez anos, a mesma idade que Elizabeth tinha quando tomava aulas de piano. E parecia serena na situação em que se encontrava; olhava para a sua partitura e tocava lindamente a peça que estava disposta ali para tocar.
Quando terminou de tocar, a sra. Delacour permaneceu em silêncio por uns dois minutos. A menina também, ainda com o olhar fixo em sua partitura. A sra. Delacour lhe fez umas duas recomendações, explicando os pontos em que a menina precisava melhorar e depois se despediu da menina. Elizabeth permaneceu imóvel, nada surpresa. A sra. Delacour não fez nenhum elogio; apenas, recolheu os seus pertences e saiu da sala, deixando a menina de cabelos loiros ainda sentada ao banco enfrente do piano, olhando para onde estivera a partitura de música instantes atrás (a sra. Delacour a recolhera juntamente com os seus pertences). Elizabeth, se estivesse no lugar da sra. Delacour, teria feito algum tipo de comentário quanto ao desempenho da menina, para encorajá-la, assegurar-lhe que estava no caminho certo. Mas percebeu naquele momento que o máximo que um bom aluno conseguiria da sra. Delacour seria o silêncio.
A menina de cabelos loiros começou a se remexer em seu banquinho, como se estivesse se recuperando da saída brusca de sua professora naquele momento. Elizabeth resolveu dirigir-se a ela; ela parecia um pouco perdida naquele momento. Então, quando Elizabeth se ergueu de sua cadeira ao fundo da sala e encaminhou-se para perto da menina, dizendo-lhe:
--Aquilo foi maravilhoso!—A menina se revirou em seu banquinho, assustada, para olhar Elizabeth.—Você toca muito bem!—E Elizabeth sorriu para a menina, quem lhe devolveu o sorriso com um próprio, tímido.—Oh... Não se preocupe com ela.—Elizabeth tentou lhe tranqüilizar, percebendo que a menina olhava para a porta que sua professora saíra, preocupada.—Ela é sempre assim!—O que pareceu tranqüilizar a menina.—Na verdade, eu nunca a vi permanecer em silêncio durante toda uma performance de um aluno, como ela estava durante a sua. Então, você devia encarar isso como um elogio.—A menina voltou a lhe dar um sorriso, mas segura de si.—Ela nunca ficava em silêncio durante as minhas aulas.—Elizabeth fez uma careta e a menina pareceu se animar mais um pouco.
--Você toma aulas com ela?—A menina perguntou.
--Não. Não mais.—Elizabeth respondeu.—Eu costumava tomar aulas com ela.
--Você trocou de professor?—A menina parecia animada com esta possibilidade.
--Não. Eu não tomo mais aulas de piano.—Elizabeth respondeu.
--Ah... E por quê? Foi por causa dela?—A menina inquiriu, curiosa.
--Também.—Elizabeth respondeu com um sorriso.—O motivo principal era porque eu não tinha o mesmo talento que você tem e precisava treinar muito mais que qualquer outro aluno que conheci na época para conseguir aprender as mesmas peças. O que, depois de um tempo, deixou de ser divertido e passou a parecer mais com uma obrigação. Então eu desisti das aulas de piano e quis aprender a tocar outros instrumentos.—Elizabeth havia se sentado numa cadeira próxima a menina, quem ainda estava sentada no banco enfrente ao piano.—Mas eu ainda toco, de vez em quando, em casa.
--Você tem um piano em casa?—A menina inquiriu, ainda curiosa.
--Sim. Meu pai comprou para mim quando eu ainda tomava aulas de piano. Mas não tão caro quanto este.
--Ah... Eu também tenho um em casa.—Ela respondeu, animada.—Eu prefiro tocar piano quando estou em casa.—E completou, não tão animada.—Ela me assusta, as vezes.—A menina voltou a olhar para a porta por onde a sua professora tinha passado.
--Sei exatamente o que você quer dizer.—Elizabeth riu.
--O meu antigo professora era mais... bonzinho.—A menina loira explicou.
--Tenho certeza que era.—Elizabeth replicou, achando difícil que existisse alguém pior que a sra. Delacour em matéria de intimidação.—Mas a sra. Delacour é uma boa professora de piano.
--Eu acho que sim.—A menina respondeu, incerta.
--Você é nova aqui?
--Sim.
--Está gostando da escola?
--Até agora sim.—A menina voltou a falar com animação, mas foi diminuendo à medida que prosseguia.—Algumas meninas da minha sala acham ruim que eu esteja aprendendo a tocar piano.—Ela comentou, virando-se para o piano.—Dizem que é besteira aprender a tocar uma variedade de músicas de um monte de gente morta.—O que fez Elizabeth rir.—Que elas nem são músicas boas!
--Elas acham, não é?—Voltando a recuperar o olhar da menina.—Bem, da próxima vez que elas lhe disserem isso, você pode perguntá-las quais são as músicas boas na opinião delas. Garanto que elas irão responder: Britney Spears; quem nem é uma cantora de verdade!—O que fez a menina rir.
--Eu, pessoalmente, prefiro Christina Aguilera.—A menina loira confessou, esperando que Elizabeth criticasse o seu gosto por música.
--Eu também. Pelo menos, ela tem voz!—E a menina parecia aliviada ao ouvir tal resposta.—De qualquer forma... Existe um propósito em você aprender a tocar música clássica.—A menina estava observando Elizabeth atentamente.—Estas músicas de “gente morta”, além de serem perfeitas e belíssimas, são dificílimas, e, uma vez tendo aprendido a tocá-las, você aprenderá a tocar qualquer outra coisa com mais facilidade.—A explicação de Elizabeth pareceu satisfazer a menina.—E, particularmente, a maioria das músicas de que mais gosto são tocadas num piano.
--É mesmo?—A menina parecia ter se animado.—Qual é a sua música predileta?—E voltou a inquiri-la, curiosa.
--Ah... há tantas. Tem ahh... Colorblind, Counting Crows; Kissing You, Des’ree; This year’s love, David Gray; Wise Up, Aimee Mann…
--Você poderia tocar uma para mim?—A menina pediu, já se erguendo do seu banquinho.
--Claro.—Elizabeth se ergueu de sua cadeira e foi sentar-se ao banquinho enfrente ao piano. A menina ficou de pé ao seu lado, o que fez Elizabeth lembrar-se da sra. Delacour.—Ah, por favor, senten-se.—E puxou a menina, fazendo-a sentar-se ao seu lado, no banquinho.—Deixe-me ver.
Elizabeth tocou algumas teclas, acostumando-se com o piano. Então decidiu qual música ia tocar e começou a tocá-la.
--It's not… what you thought…When you first…began it…—Era uma música simples, com uma melodia melancólica, mas muito bonita.—You got… what you want…Now you can hardly stand it, though…By now you know…
Era uma das músicas que baixara da Internet recentemente e praticara no piano, em casa. A menina de cabelo loiro escutava Elizabeth tocar e cantar para ela admirada e em completo silêncio. Elizabeth não tinha a partitura, tocava a música de memória e em vários momentos chegava a fechar os olhos.
--No, it's not going to stop…Till you wise up…No, it's not going to stop…So just give up…
--Essa música é tão triste!—A menina de cabelos loiros exclamou, uma vez que Elizabeth tinha terminado.
--É sim. Eu adoro músicas tristes!—Elizabeth explicou.
--Você gosta? Por quê?—E a menina replicou, surpresa.
--Não sei. Apenas gosto. Parecem ser mais verdadeiras. Principalmente, as que são tocadas num piano.
--Oh… Eu gosto mais das mais alegres!—A menina ficou em silêncio por um minuto, pensativa. Depois disse.—Você disse que tinha parado de tomar aula de piano para aprender outros instrumentos. Quais outros instrumentos você toca?
--Nenhum.—Elizabeth respondeu, tristemente. E a menina parecia confusa.—Minha mãe não quis deixar meu pai pagar mais nenhum outro professor para mim.—E a menina permaneceu a lhe dirigir um olhar confuso.—Segundo ela, não ia desperdiçar dinheiro com aulas de violino, bateria e violão, os instrumentos que eu quis aprender tocar, para depois de um, dois ou três anos eu decidir que não queria mais tocar instrumento algum, como aconteceu com o piano.
--Oh...—A menina parecia ter finalmente entendido.
--Então, eu não aprendi mais nenhum instrumento. Ao invés disso, fiz dois anos de balé, porque minha irmã estava tendo aulas de balé naquela época.
--Mesmo?—A menina voltou a ficar animada e curiosa.
--Sim. Mas também desisti.—Elizabeth completou logo em seguida.
--Por quê?—E a menina já começava a achar graça.
--Bem, como o piano, eu não tinha a mesmo talento para o balé como as outras meninas tinham; a minha irmã, por exemplo, tinha mais elasticidade que eu, porque tinha começado a ter aulas de balé bem antes de mim; então ela aprendia os movimentos com muito mais facilidade que eu, além de que, não importava o quanto eu treinasse, nunca ficava tão perfeito quanto os dela.—Elizabeth explicou, sem vergonha alguma.—Então, eu desisti. Mas minha irmã também desistiu.
--Por quê?—A menina loira inquiriu, parecendo surpresa.—Se ela tinha mais talento que você!
--Eu acho que foi porque ela gostava de ter a minha companhia durante as aulas e, como eu comecei a tomar aulas de street dance, ela decidiu que queria ter aulas de street dance também. Que é o que nós duas fazemos até hoje… aqui na escola.
--Oh... Vocês parecem ser muito amigas.
--Nós somos.—Elizabeth garantiu.—E você? Tem irmãs?
--Não. Tenho um irmão, mais ou menos da sua idade.—A menina disse, observando Elizabeth.—Mas ele é legal.—E completou.
--Que bom.—Elizabeth sorriu da explicação da menina que o seu irmão era “legal” e, olhando para o seu relógio, disse.—Eu preciso ir agora. Minha aula de dança não vai demorar em começar.—E a menina também olhou para o seu próprio relógio.
--Eu também. Meu irmão já deve estar me esperando lá fora.—E se apressou a pegar a sua mochila e sair da sala, antes mesmo que Elizabeth saísse.—Tchau!
--Tchau!—Elizabeth respondeu, quase aos gritos, observando a menina correr pelo corredor, com os cabelos loiros balançando.
No final daquela tarde, Elizabeth não conseguia parar de pensar na menina loira que tinha conhecido. Mencionara a menina a Jane, uma vez que as duas se reuniram à aula de dança ainda aquela tarde. Elizabeth tinha realmente ficado impressionada com o talento da menina tocando piano e, ao mencionar a Jane que a sra. Delacour sequer falara durante a performance da menina, Jane também ficou impressionada; lembrava-se vividamente de como Elizabeth chegava em casa enfurecida com a sra. Delacour após as suas aulas de piano.
Elizabeth ficou mais de uma hora brincando em seu piano, tocando uma música ou outra. Vindo a perceber que todas as músicas que havia baixado da Internet—partituras, que contém por extenso as partes de canto e uma redução para piano das partes de orquestra—eram músicas tristes, melancólicas. Não havia umazinha só que fosse alegre. As únicas músicas mais animadas eram algumas das músicas clássicas, algumas das músicas de “gente morta” que ela praticava quando estava tomando aula de piano com a sra. Delacour.
E mesmo depois do jantar, ainda estava pensando nisso. Tinha tido uma idéia durante o jantar e resolvera começar a pô-la em pratica naquele exato momento. Voltou para a sala e abriu a gaveta de sua estante, começando a procurar entre as suas músicas uma que fosse animada e alegre para poder dar a menina de cabelos loiros quando a visse de novo. Sabia que havia uma chance de vê-la na sexta-feira, pela tarde. Porque sabia que os dias das aulas de piano em Austen House costumam coincidir com os dias das suas aulas de dança.
Não encontrou nenhuma música de seu agrado dentre as que possuía e como não sabia exatamente o que estava procurando, a sua tarefa começou a se mostrar mais difícil do que ela imaginava. Cansando de remexer nas suas partituras, guardou-as de volta a gaveta da estante a sala, próxima ao seu piano, e foi para o seu quarto. Pegando todos os seus CDs que se recordava possuir músicas tocadas em piano, passou a escutá-las atentamente. Depois da décima quinta música, voltou a perder a paciência e começou a escutar somente o primeiro minuto da música, mudando para a próxima ao deparar-se com uma música que ainda não lhe agradava o suficiente.
A sua mãe colocou a cabeça para dentro de seu quarto, por entre a porta aberta, e lhe disse para desligar o rádio e ir dormir, que estava muito tarde e ela teria que acordar cedo no dia seguinte para ir à escola. Elizabeth prometeu que assim faria e começou a reorganizar os seus CDs, os quais estavam espalhados pelo chão—onde ela estivera sentada, enfrente ao rádio, expectativamente, aquele tempo todo; mas sem desligar o rádio. Então, tirando o CD que estava tocando no display de seu aparelho de som, colocando-o de volta na sua capa, juntando o CD aos demais para colocá-lo no seu rack (onde ficava o seu computador), e devolvendo ao display do seu rádio o CD que estivera escutando aquela manhã—um que ela mesma tinha gravado, de músicas que tinha baixado da Internet—lembrou-se que havia uma música naquele CD que era tocada num piano, e que alegre e divertida.
Elizabeth estava exultada por ter finalmente encontrado a música que estivera procurando aquele tempo todo, mas, ao mesmo tempo, irritadíssima por ter estado procurando no lugar errado. A música estivera aquele tempo todo diante dos olhos dela e ela não a notou. Colocando a faixa certa para tocar, teve certeza que tinha encontrado a música. A única coisa que precisava fazer agora era entrar na Internet e baixar a partitura da música. E como quando começava fazer alguma coisa, não conseguia ficar satisfeita até que a tivesse terminado; ligou o seu computador e esperou a Internet ser conectada com bastante excitação.
Encontrar a partitura de Time, de Chantal Kreviazuk, foi um pouco mais demorado que Elizabeth imaginava que seria. Todos os sites de música que entrava e acontecia de encontrar a música, encontrava apenas a letra. Quando percebeu que passara da meia noite e já começava a sentir sono, além de já não poder mais ignorar a ardência que estava sentindo nos olhos, entrou em um outro site, prometendo-se que seria o último site que entraria naquela noite, e encontrou a partitura da música.
Ela logo baixou a partitura e a imprimiu, fazendo mais barulho do que pretendia. Quando a última folha estava sendo impressa, sua mãe reapareceu na porta de seu quarto, muito irritada por ela ainda estar acordada. Elizabeth disse que já estava desligando o computador, mas a sra. Abbott não saiu de seu quarto enquanto ela não tivesse feito exatamente o que tinha prometido fazer. Então, Elizabeth desligou rapidamente o computador, guardou a partitura da música na gaveta do rack e foi começar a se arrumar para dormir. A sra. Abbott só saiu do seu quarto quando a filha já havia se encaminhado para cama; sendo que fora ela quem desligou a luz do quarto de Elizabeth antes de sair e fechar a porta.
Em conseqüência da noite anterior, Elizabeth dormiu mais que deveria na manhã seguinte. Não viu o momento em que seu despertador tocou, que Jane entrou em seu quarto e tentou acordá-la, chamando por ela, ou quando voltou a aparecer em seu quarto e arrancou as cobertas de cima de seu corpo, numa segunda tentativa de acordá-la. Elizabeth chegou a abrir os olhos neste momento e a murmurar alguma coisa incompreensível a Jane, quem tomou tal atitude de sua irmã como um evidente sinal de que havia conseguido despertá-la, e voltou a sair de seu quarto; mas Elizabeth apenas virou para o outro lado e voltou a dormir.
Quando Jane voltou a sair do seu próprio quarto, pronta para tomar café, e passou no quarto de Elizabeth, esperando encontrar a irmã quase pronta, a viu ainda deitada na cama, descoberta, mas dormindo um sono profundo. Jane correu para ela e se jogou sobre ela, como fazia sempre que ela não queria se levantar, finalmente conseguindo acordar Elizabeth.
Elizabeth ficou chateada ao começo por ser acordada de tal forma, porque estava tendo um sonho muito agradável, mas esqueceu-se logo em seguida ao perceber que Jane já estava vestida para ir à escola. Correu para o próprio banheiro e começou a se despir, jogando a roupa pelo chão do banheiro sem nenhuma cerimônia. Teria que tomar um banho muito rápido, por isso não teria tempo de lavar o cabelo. Então, aproveitou a trança que tinha feito antes de dormir, e apenas a suspendeu e a prendeu com uma piranha, no formado de um coque. E entrou embaixo do chuveiro. Depois de tomar banho, correu a se enxugar e a se vestir; não tinha tempo para se preocupar com que roupa ia vestir, então pegou o primeiro par de calças jeans que encontrou no armário e uma camisa em uma das gavetas do armário, se vestiu. Tirou a piranha do cabelo e começou a desfazer a trança, perguntando-se se teria tempo de penteá-lo. Observou o estado que estava o seu cabelo no reflexo de seu espelho e, considerando que não estava tão ruim do jeito que encontrava (a trança o tinha deixado com algumas ondulações), deixou-o do mesmo jeito, vindo só passar a mão em alguns fios que estavam erguidos para acomodá-los melhor.
Quando apareceu a cozinha, sua mãe tinha colocado o seu café da manhã para ela, porque Jane tinha informado que ela estava atrasada. Elizabeth apenas se dirigiu a sua cadeira à mesa do café e começou a tomá-lo, ou melhor, engoli-lo.
--Você está muito bonita esta manhã, Lizzie.—Seu pai comentou, recebendo um sorriso da filha.
--Você sempre vai dizer isso, independente da minha real aparência, não vai?—Ela inquiriu, com um olhar brincalhão. Sabia, com toda certeza, que seu aspecto não era o melhor naquele momento.
--Unicamente porque você e a sua irmã são as meninas mais bonitas que eu já vi em toda a minha vida!—O sr. Abbott replicou, seriamente.
--Termine o seu café, Lizzie. Você já está atrasada.–A sra. Abbott ordenou, quando Jane terminou de tomar o café dela e saiu da cozinha, indo para o seu quarto.
____________________________
Will passou aqueles vinte minutos da manhã de quinta-feira antes de começar a sua primeira aula do dia ao corredor enfrente a sala de Elizabeth, na companhia de Charles e dois outros colegas de classe. Richard e George há muito tinham se encaminhado para sala, considerando a atividade dos outros dois uma perda de tempo. As meninas estavam atrasadas, já estava mais do que provado àquela altura. E era possível que nem viessem à escola naquele dia, na opinião dos outros dois, apesar de não saberem de nenhum motivo para que elas faltassem. A verdade era simples, George e Richard já tinham conversado com Lydia e Catherine por uns dez minutos antes de elas irem para a sala de aula e não viam mais motivo para permanecer ali, feito bobo, montando guarda, esperando a chegada das irmãs Abbott. Nenhum dos dois tinha interesse particular em nenhuma das garotas, como os seus amigos tinham; então, decidiram procurar algo interessante para fazer.
Para a insatisfação de Will, o sinal tocou antes que as irmãs Abbott chegassem ao corredor da sala de Elizabeth (embora já houvessem chegado à escola). Então, Will teve de seguir para a sua sala de aula com Charles, quem também estava decepcionado, sem vê-la. Ele passou o primeiro período de aula inseguro se a veria este dia e irritado com a possibilidade de não vê-la. Depois ficou os outros dois períodos de aula seguinte rabugento por não ter conseguido falar com ela, embora já soubesse que ela tinha vindo para a escola.
Quando saíram da sala após a primeira aula, encontraram com Jane (quem informou que Elizabeth também tinha vindo para a escola, para o alivio de Will). Mas Will não a viu, porque ela tinha decidido permanecer em sala de aula, lendo o livro que tinha locado e que houvera se esquecido por completo na tarde anterior, depois que voltou para casa após a sua aula de dança. E voltou a repetir o feito durante o outro intervalo; ou seja, Will viu Jane, Charlotte, Catherine e Lydia, chegando a conversar com elas por cinco minutos (na esperança de Elizabeth aparecer), mas não a viu. Até com Caroline ele trocou algumas palavrinhas, mesmo que a contragosto. Mas não falou com Elizabeth.
Mas durante o intervalo tinha certeza que a veria. Seguiu para o refeitório com Charles, Richard e George. Enquanto selecionava o seu lanche na cantina, ficou varrendo o refeitório com o olhar para saber onde ela estava sentada. Sorriu satisfeito quando a viu sentada com Jane e Charlotte, lanchando. Quando ele e seus amigos já estavam com suas bandejas postas, indo procurar uma mesa para sentar-se, Will disse.
--Charles, você não quer sentar-se com Jane?—Ao que Charles o fitou surpreso; ele sabia que os dois sentavam-se separados durante o intervalo porque gostavam de se sentar junto durante as palestras.—A gente podia se sentar com as meninas, se você quiser!—Mas Will persistiu, ignorando de propósito o olhar que o amigo lhe direcionou.
--Ham...—Charles não conseguiu recuperar-se da surpresa rápido o suficiente e permaneceu olhando para Will, estranhando a sua atitude.
--Sim, Charles! Eu não me importo, tão pouco!—George concordou; na verdade, estava adorando tal hipótese. Poderia continuar a conversar com Lydia, quando ela resolve se juntar às suas amigas (o que ele saberia que ela faria).
--Sim, Charles!—Richard riu-se.—Eu também não!—Percebendo imediatamente porque os seus amigos queriam sentar-se a mesa das meninas.
--O.k.!—Charles concordou, satisfeito; era improvável que ele fosse algum dia achar ruim sentar-se com Jane.
Os quatro se encaminharam a mesa das meninas, sendo recebidos por olhares surpresos e sorrisos amistosos. Charles sentou-se ao lado de Jane, quem estava sentada ao lado de Elizabeth; Richard sentou-se de frente para Charles, ao lado de Charlotte, e Will sentou-se do outro lado de Charlotte, de frente para Elizabeth. E George sentou após Richard. Pouco tempo depois, Lydia e Catherine juntaram-se a eles; Lydia ocupou o lugar vago após Charles, de modo a ficar de frente para George e Catherine sentou-se a cabeceira da mesa, entre Lydia e George, puxando uma cadeira extra para a mesa.
Todos estavam lanchando e conversando entre si. Richard, Charlotte e Catherine conversavam animadamente, Charles e Jane ouviam, participando da conversa ocasionalmente. Lydia e George estavam estranhamente calados, se entreolhando. Como se estivesse em uma disputa implícita para saber quem falaria ou piscaria primeiro, e nenhum dos dois parecia estar disposto a perder. Elizabeth terminou de lanchar e, colocando os seus fones de ouvido, colocou a sua bandeja de lado e depositou o romance que estava lendo sobre a mesa. Abriu-o na folha que tinha parado de ler e retomou dali, seguindo a sua rotina (inconsciente de estar sendo observada).
Will lutou muito contra a vontade que sentia de ficar a observando e tentou participar da conversa dos seus amigos. Mas, uma vez que ela terminou de lanchar e conversar com eles, e passou a ler o livro, ele desistiu de lutar. Esqueceu-se completamente da presença dos outros, só estava vendo ela. Ela estava com um dos cotovelos apoiado na mesa e com a cabeça apoiada na palma da mão. A outra mão mexia no cabelo, enrolando-o entre os dedos, e, ocasionalmente, virava uma folha (ele já a tinha observado assim outras vezes antes, mas não conseguia deixar de considerar aquela visão hipnotizadora). Desta vez, no entanto, ele podia observá-la com mais detalhe, graças à proximidade dos dois. Ela estava bem a sua frente! Se ele quisesse, podia estender a mão e tocar o seu rosto. E ele ficou a decorar cada detalhe do seu rosto, admirado em perceber como os cílios dela eram longos e fascinado com o tom castanho dos seus cabelos (olhando, vislumbrado, ela enrolar o cacho de cabelo entre os dedos).
Ele também notou que ela parecia estar com sono; a vira bocejar várias vezes (levando a mão a boca para tapar o bocejo em todas as ocasiões). Suspirando, começou a se sentir estúpido de novo. Ali estava ela, diante dele, e preferia ficar lendo um romance qualquer a lhe dar atenção; enquanto ele não conseguia fazer mais nada, a não ser olhar para ela! E, ainda assim, não conseguia evitar! Era mais forte que ele! Está na hora de você encarar os fatos, Will: quando o assunto é Elizabeth, você está completamente perdido!
Richard estava discutindo com Charles sobre o seu prévio comentário, quando, ao olhar de relance para Jane, a viu dirigir o seu olhar a Will e sorrir, desviando o olhar para a sua bandeja de comida vazia e corar. Richard estranhou tal comportamento dela, ficando incomodado com o que vira; como era possível que ela estivesse fazendo isso com Charles? E Charles estava sentado bem ao lado dela! Então, dirigiu um olhar irritado na direção de Will, para ver se ele estava olhando para Jane (seria uma traição enorme se ele estivesse flertando com a possível namorada de seu melhor amigo; e ele que acreditava que Will estiva interessado em Elizabeth!), vindo a vê-lo praticamente babando por Elizabeth, olhando-a fixamente. Soube, imediatamente, porque Jane tinha sorrido e também começou a sorrir. Will mal tocara na própria comida!
Com a distração de Richard, Charles procurou descobrir o que havia capturado a sua atenção; então, também dirigiu o seu olhar na mesma direção que Richard estava olhando, vindo a ver Will hipnotizado por Elizabeth. O silêncio dos dois, fez Charlotte, Jane e Catherine procurarem descobrir o que estava acontecendo, vindo a olhar na mesma direção que os dois estavam olhando para descobrir o que estava roubando a atenção deles. Jane voltou a sorrir. E logo a mesa caiu em completo silêncio, todos estavam observando Will observar Elizabeth (quem continuava inconsciente de estar sendo admirada). As únicas outras pessoas que continuavam ignorantes do que estava acontecendo eram George e Lydia (estavam mais concentrados neles mesmos para se incomodar com o silêncio do resto do grupo).
Richard acabou resolvendo chamar a atenção de seu primo.
--Will?—Mas Will continuou imóvel.—Will?! Will!!!!—Ele então dirigiu o olhar na direção de Richard, percebendo que todos estavam olhando para ele, exceto por Lydia e George que continuavam a se encarar.
--O que?—Will inquiriu, sentindo-se ridículo por ter sido pego naquela situação.
--Tem algo errado com a sua comida?—Richard demonstrou uma seriedade que não era real; mas Will replicou imediatamente, sem pensar muito na resposta.
--Não.—Sustentando o olhar que o primo lhe dava, ciente que Catherine, Charlotte e Jane estavam tentando se controlar para não rir.
--E por que você não está comendo?—Richard questionou, dirigindo um breve olhar a bandeja de Will.
--Ham... Eu...—Will também dirigiu o seu olhar a sua bandeja, notando que mal tocara na comida.—Eu não estou com fome.—E depois ergueu o olhar no momento exato em que Catherine deixou escapar um risinho abafado, enquanto Jane e Charlotte começavam a ficar vermelhas por estarem prendendo o riso. Até Charles estava com vontade de rir, Will percebeu.
--Entendo.—Richard, no entanto, se apiedou do primo e resolveu ajudá-lo.—Lizzie?—Ele dirigiu sua atenção a Elizabeth, ao que Will fez o mesmo (bastante inquieto com o que o primo pudesse vir a fazer em seguida). O restante dos componentes da mesa ainda olhavam de esguelha para Will.—Lizzie?—Elizabeth, por sua vez, estava com os fones de ouvido e não ouvia Richard chamar por ela.—Lizzie!—Jane se intrometeu, e cutucou a irmã, fazendo-a erguer o olhar do livro e dirigir-lhe o olhar de forma inquiridora. Ao que Jane indicou Richard, praticamente a sua frente, com a cabeça. Elizabeth tirou um dos fones do ouvido, ao mesmo tempo em que desviava o olhar para Will.—Lizzie,...—Mas redirecionou-o a Richard quando ouviu a sua voz.—eu estava me perguntando, como é que você consegue fazer isso?—O coração de Will estava batendo forte no seu pomo-de-adão. O que é que o seu primo estava querendo dizer com aquilo?
--Fazer o que?—Elizabeth também estava se perguntando à mesma coisa; e tinha impressão que todos estiveram a observando por mais tempo e fazendo algum comentário a seu respeito (porque Catherine a estava olhando e estava rindo, Jane evitava olhar para ela e Charlotte a fitava com interesse).
--Escutar música e ler um livro ao mesmo tempo.—Richard replicou, para alivio evidente de Will (quem passou a respirar com mais facilidade).—Eu não consigo me concentrar para ler enquanto eu estiver num ambiente barulhento.
--Bem,... eu acho que... eu também não consigo. Quero dizer,...—Ela se apressou a se explicar.—eu não consigo sentar-me em um canto e ler um livro tranquilamente se houver duas pessoas sentadas ao meu lado tendo uma conversa. Mas eu não me incomodo com o barulho pelo qual eu seja responsável!
--Oh, entendo. Quer dizer que o barulho que nós...—Ele fez um gesto para abarcar ele e o restante dos ocupantes daquela mesa—estamos fazendo a incomodaria?
--Provavelmente, sim. Mas não se preocupe; eu tenho os meus fones de ouvido.—Ela respondeu, com o seu jeito brincalhão. Richard riu.
--Sei. Então,... conversas alheias incomodam a sua leitura... E o que mais?—Ele perguntou, enquanto todos permaneciam em silêncio (alguns olhando Elizabeth, outros Richard e outros, ainda, olhando Will, quem permanecia a observar Elizabeth).
--Ah... eu não consigo sentar-me enfrente a TV, independente do que esteja passando na televisão, e ler. A não ser que seja um canal de música, por exemplo a MTV, e esteja passando algum clipe. Mas se estiver o VJ e ele estiver apresentado alguma entrevista ou fazendo algum comentário sobre o clipe/banda, eu perco a minha concentração.—Elizabeth respondeu de bom grado, ainda intrigada com o porque desse interesse nela tão de repente.—Por que você me perguntou isso?
--Curiosidade.—Richard respondeu, e voltou a dirigir o seu olhar para Charles, retomando a sua conversa. Elizabeth ainda permaneceu olhando para Richard, consciente que Catherine ainda olhava para ela e, de relance, para Will. Ela voltou a olhar para Will e ele a estava fitando. O sinal do fim de intervalo tocou e eles começaram a se levantar de suas cadeiras.














