Capítulo 1
Quando pôs os pés no pátio de entrada do prédio nomeado em homenagem a uma autora de romances açucarados — em sua opinião — chamado Austen House, Darcy não podia imaginar o que lhe aguardava aquele ano. O ano letivo estava apenas começando e ele havia sido transferido de escola, juntamente com a sua irmã mais nova e um de seus melhor amigos, para cursar o seu último ano do segundo grau.
O fato de sua escola ter o nome em tributo a Jane Austen não lhe agradava muito, afinal, ele mesmo tinha sido batizado com o nome de um dos personagens de um dos livros de tal autora, do livro predileto de sua mãe.
Darcy não gostava da autora ou do tipo de livro que ela escrevia, tão pouco do personagem que a sua mãe escolheu para homenagear através dele—‘Fitzwilliam Darcy era um bobo!’, ele sempre dizia desde que assistira ao filme Orgulho e Preconceito. ‘Se deixou manipular por uma mulher! Isso nunca vai acontecer comigo!’, ele replicava, com dentes cerrados, sempre que alguém fazia algum comentário a respeito de seu nome, o que acabava por alertar qualquer um a não fazer futuras referências a tal respeito.
O seu amigo, Charles Brown, já estava acostumado com o caráter anti-social do amigo e dava pouca importância quando Will deixava transparecer o seu mau humor com algo que ele, Charles, considerava interessante. Por mais que fossem, praticamente, opostos, eram inseparáveis. Uma das razões pela qual o fizera mudar de escola no último ano letivo: Darcy estava sendo transferido.
Ninguém parecia entender bem como era possível que os dois fossem amigos, eram tão diferentes. A verdade é que nenhum dos dois sabia explicar tampouco, simplesmente era assim. Charles era sensível, bem humorado, simpático, extrovertido, enfim, adorado por todos que tinham o prazer de conhecê-lo. Will, por outro lado, não era nada disso: ao contrário, era reservado, crítico, céptico e não conseguia deixar uma boa impressão na maioria das pessoas ao primeiro encontro. Mas não porque lhe faltava talento para ser agradável, podia ser e o era quando queria, apenas não via porque se dar tal trabalho.
Juntos estavam em equilíbrio e talvez fosse por isso que fossem tão amigos, quase como irmãos. Por Will ser o mais velho dos dois e Charles possuir um caráter amável demais, Will o tratava como a um irmão mais novo.
Charles era um dos poucos verdadeiros amigos de Will; dentre os quais constavam apenas Richard Maverick, que era seu primo, e George Donavon, um amigo de infância de seu primo – com qual tinha contato sempre que se encontrava com Richard.
Will e Charles foram transferidos para a mesma escola que o primo de Will freqüentava, e ambos foram matriculados na mesma turma que Richard e George cursavam. Assim os quatro formaram um grupo fechado e perambulavam pelos corredores sempre juntos.
Richard era o mais velho do grupo, o maduro, o mais centrado, mas, ao mesmo tempo, o divertido, inteligente e agradável. George era o mais novo do grupo, o mais audacioso, espontâneo e animado. E se perguntasse a qualquer garota da escola Austen House qual era o menino mais bonito da escola, a resposta sempre se reportava a um dos componentes daquele quarteto.
Cada um possuía uma beleza única, diferente da do outro, que ressaltava mais que a do outro a depender do gosto da pessoa que fosse questionada. Para aquelas que gostavam de meninos galantes, George era a perfeita escolha, pois distribuía elogios a qualquer garota que considerasse os seus cabelos loiros e seus olhos negros irresistíveis. Para as que gostavam de sutileza, não havia outro igual a Richard, quem discretamente esbanjava charme com os seus olhos cor de mel.
Para as que gostavam de um mocinho, um cavalheiro, Charles era o príncipe encantado, aquele loiro de olhos verdes descritos em qualquer conto de fadas. E para aquelas que gostavam de um homem misterioso, Will era quase uma miragem, principalmente para aquelas que se deixavam perder-se em seus olhos azuis.
Sempre que o quarteto estava pelos corredores, ouviam algum cochicho de alguma garota com uma amiga a respeito deles. Muitas delas ficavam a observá-los enquanto eles passavam pelos corredores, indiscretamente, durante os primeiros dias do ano letivo. Afinal, dois dos componentes daquele grupo eram desconhecidos e inteiramente novidade.
Um dia, no entanto, foi uma garota em particular que chamou a atenção do grupo. Dos dois novatos do grupo em especial, afinal, eles nunca a tinham visto antes. Ela era loira, olhos castanhos claros, esverdeados, e com um lindo sorriso que povoava o sonho de todos os garotos da escola Austen House.
Ela estava descendo a escada e cruzou o caminho dos meninos, passando em sua frente e seguindo o caminho contrário ao deles. Ao passar por eles, olhou para os dois novatos nos olhos e lhes dirigiu um simples sorriso, o que fez com que os dois virassem as suas cabeças para acompanhar o caminho que ela fazia, cada um sorrindo para si mesmo de satisfação.
Will logo voltou a dar sua atenção ao seu próprio caminho, acompanhando os outros dois. Mas Charles parou de andar e virou-se de costas, para poder observar melhor à loira se afastando deles. E somente voltou a acompanhar os seus amigos quando Will o agarrou pelo colarinho da camisa e o puxou, causando risadas em George e Richard.
--Quem ...?—Charles ia perguntar, mas Richard adiantou-se à pergunta e deu lhe a resposta.
--Aquela é Jane, Jane Abbott; ela é terceiro ano também, mas não é da nossa turma.
--E ela tem...—Charles continuou e Richard voltou a interrompê-lo.
--Não. Ela não tem namorado.
--Oh.—Charles sorriu com a resposta; mas Richard notou que, embora fosse Charles quem demonstrasse mais interesse em Jane, Will também estava prestando atenção nas respostas dele.
No intervalo deste mesmo dia, os meninos se reuniram em uma mesa no meio do refeitório e ficaram discutindo sobre o assunto predileto deles enquanto lanchavam: garotas. De onde estavam, tinham uma visão ampla de todos os lados do refeitório; ou seja, de toda garota que estivesse no refeitório com apenas uma virada de rosto. Em qualquer direção em que olhassem havia alguém para se observar e comentar a respeito, e por isso Charles agradecia aos deuses, veemente.
--Eu nunca vi tantas garotas bonitas em um lugar só ao mesmo tempo!—Ele dizia, virando o rosto em todas as direções, sem saber para que lado olhar.
Will sorriu pelo comentário do amigo e depois voltou a dar atenção a sua comida. Até que viu Jane caminhando entre duas mesas a frente dele e indo se sentar em uma das mesas com outra garota, iniciando logo de imediato uma conversa; então, disse:
--Eu só estou vendo uma garota bonita neste refeitório. —O que chamou a atenção dos demais para onde ele estava olhando.
--Ah, sim! Ela realmente é a menina mais bonita que eu já vi em toda a minha vida!—Charles disse, suspirando.
Duas outras garotas chegaram e sentaram-se a mesa em que Jane estava, e logo impediram que Will continuasse a ter uma visão de Jane. Ele então voltou a dar atenção ao seu próprio lanche, enquanto Charles continuava a fazer elogios a Jane — ele ainda tinha uma boa visão dela. Ele comentava sobre o seu cabelo, a forma que ela sorria timidamente das coisas que estava ouvindo de suas amigas e de como ela mexia no próprio cabelo.
Will voltou a erguer o olhar e tentar a ter contato visual de Jane, mas não conseguiu. Ao invés disso, seus olhos pousaram em outra menina que estava sentada ao lado de Jane, quem ele ainda não tinha reparado. Ela tinha cabelos castanhos escuros, longos, lisos, com uma franja que caia sobre os seus olhos castanhos escuros e um sorriso incomum, hipnotizador. Ela olhava para as amigas e sorria de alguma coisa que também ouvia, então olhou na direção de Will e seus olhares se encontraram. E ela o encarou com um olhar divertido, o que forçou Will a desviar o olhar.
Will esperou uns cinco minutos e depois voltou a olhar na direção da mesa em que Jane estava, mas já sem ter o interesse voltado para ela. Ele voltou a observar a menina de cabelos castanhos escuros, quem agora estava com a cabeça baixa. Ela estava lendo um livro e, ao mesmo tempo, estava ouvindo música, com fones de ouvido. Will achou aquilo ainda mais interessante: como era possível uma pessoa conseguir ler e ouvir música ao mesmo tempo?
Ela, então, sorriu, sem tirar os olhos do livro que estava lendo; certamente, leu alguma coisa engraçada. Então, uma das outras duas meninas que se sentara à mesa em que elas se encontravam puxou o livro das mãos da menina de cabelos castanhos e fechou o livro, tirando-o do alcance das mãos da menina de cabelos castanhos e escondendo-o embaixo da mesa, em seu próprio colo.
A menina de cabelos castanhos parecia estar protestando, mas, notando que não receberia o seu livro de volta, desistiu e acomodou-se em sua cadeira. Por algum motivo, voltou a olhar na direção de Will, quem logo desviou o olhar.
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Elizabeth sentou-se na mesa do refeitório da escola, colocou os seus fones de ouvido e começou a lanchar. Até que sua irmã, Jane, juntou-se a ela, sentando-se ao seu lado. Então, ela tirou os fones de ouvido, para poder ouvir o que sua irmã estava falando. Jane estava um pouco agitada e falava sem parar sobre alguma coisa que tinha lhe acontecido no intervalo entre as aulas. Elizabeth ficou um pouco perdida, porque não tinha escutado o começo da história.
--Então, eu olhei e sorri...— E quando Elizabeth ia perguntar sobre o que ela estava falando, Lydia e Catherine, duas colegas de sala de Elizabeth, sentaram-se em sua mesa.
--Do que vocês duas estão falando?—Lydia inquiriu, o que Jane logo replicou.
--Nada.—Corando levemente e passando a dar atenção ao seu próprio lanche.
--Bem, então... vamos falar sobre algo interessante!—Catherine sugeriu.—Que tal... Charles Brown e Will Darcy.—E completou, com animação, o que fez Jane corar mais violentamente.
--Os novatos?—Elizabeth inquiriu, mas, ao invés de olhar para Catherine, olhou de soslaio para a própria irmã.
--Sim.—Lydia respondeu.—Embora, o nome de Will seja, na verdade, Fiztwilliam.
--Como é?! “Sr. Darcy”?—Elizabeth disse, olhando com curiosidade para Lydia.
--Sim!—Lydia riu.—Mas, aparentemente, ele não gosta de ser lembrado disso!—Lydia argumentou, com seriedade e, diminuindo a voz, continuou.—Pelo que fiquei sabendo, ele deu uma resposta muito malcriada a Amanda Pierce quando ela o lembrou da semelhança entre o nome dele e o do personagem do livro de Jane Austen.
--Sério?—Elizabeth replicou, com um tom de gozação na voz e deu um leve sorriso.
--Ele é bonitinho!—Catherine disse.—O que você acha, Lizzie?
--Eu não sei. Qual deles é “sr. Darcy”?—Elizabeth questionou, o que Lydia tratou de responder.
--O de cabelos pretos, sentado bem atrás da gente.—Lydia virou um pouco o rosto ao dizer isso e indicou a mesa em que os meninos estavam sentados.
--Cabelos pretos?!—Elizabeth disse, ao olhar na direção que Lydia tinha indicado. Quando o viu, ele a estava olhando. Ela o encarou, com um meio sorriso nos lábios e disse.—Sim. Bonitinho!—Ela respondeu, concordando com Catherine.
E continuou olhando para ele, quem permanecia olhando para ela. É, ela tinha que admitir: ele é mais que bonitinho! Cabelos pretos, olhos azuis e um ar misterioso.
--Eu gostei.—Ela disse, baixinho para si mesma e continuou a olhar para ele, quem logo desviou o olhar.—O que você acha, Jane?—Elizabeth, então, voltou a dar sua atenção às meninas.
--Hum?—Jane voltou a ficar corada.
--Dos novatos. O que você acha?—Elizabeth observou atentamente a sua irmã, quem ficava cada vez mais constrangida.
--Eu não sei.—Jane respondeu.
--Ora, você tem que ter uma opinião!—Lydia replicou.—Qual deles é o seu favorito?—E virou o rosto de lado, novamente, e olhou na direção dos meninos.—Will ou Charles?—E pousou o olhar em cada um deles por uns minutos. Charles era loiro, tinha olhos verdes, um largo e contagiante sorriso.
--Eu teria que dizer...—Jane começou a responder, timidamente, olhando para os meninos.—Charles.—Elizabeth observou sua irmã corar ainda mais ao dar aquela resposta, o que chamou a sua atenção. E ela logo deduziu: “então ela gostou dele!”.
--Eu também prefiro ele ao “sr. Darcy”!—Catherine replicou, tentando imitar Elizabeth ao se referir a Will. —Eu sempre gostei mais de loiros do que de morenos!—E completou.
--Bem, eu ainda prefiro George!—Lydia disse, voltando a olhar para as meninas.
--É. Mas é uma pena que ele ainda não reparou em você!—Elizabeth comentou.
--Não é mesmo?!—Lydia concordou, veemente, o que fez todas as meninas rirem com vontade.
Elizabeth fez uma nota de observação na memória para conversar com Jane a respeito de Charles Brown quando estivessem a sós. Colocou os fones de ouvido de volta e abriu o romance que estava lendo. Faltavam vinte folhas para terminar; se conseguisse lê-las logo, poderia passar na biblioteca antes de ir para casa e pegar outro livro emprestado.
Leu três vezes à mesma linha e não conseguiu entender o que estava lendo. Por algum motivo desconhecido não conseguia tirar a imagem de Will Darcy de sua mente, a imagem de quando o olhara e ele a estava observando. Sorriu ao pensar no ‘sr. Darcy’ de Orgulho e Preconceito. ‘Será que os dois têm alguma semelhança?!’.
Então sentiu o livro ser arrancado de suas mãos e quando dirigiu o olhar para a pessoa que o pegou, viu Lydia esconder o livro embaixo da mesa ao mesmo tempo em que lhe dizia alguma coisa. A qual Elizabeth não escutou, por causa dos fones de ouvido, mas que deduziu, pela expressão do rosto de Lydia, ser uma provocação. Então, tirou os fones de ouvido.
--Devolva!—Exigiu, estendendo a mão para Lydia.
--Não.—Lydia respondeu.—Você está nos ignorando!—Ela argumentou.—Eu quero atenção!
--Você não está pedindo a pessoa errada?—Elizabeth inquiriu.—Você não devia estar dizendo isso a, eu não sei, ...George?!—O que fez Catherine e Jane rirem.
--Para que?—Lydia respondeu de forma malcriada.—Ele não vai me dar atenção mesmo!
--Você não pode ter certeza disso, se nunca tentou.—Elizabeth replicou, sorrindo.—Quem sabe ele não te surpreende!—Elizabeth disse, desviando o olhar de Lydia e olhando na direção da mesa em que George estava sentado.
Mas, ao invés de olhar para ele, seus olhos pousaram em Will novamente, quem a estava observando de novo e logo desviou o olhar. Elizabeth abriu um sorriso maior ainda ao notar a atitude dele.
--Até parece!—Lydia disse, fazendo com que Elizabeth voltasse a olhar para ela.
O intervalo não demorou muito para terminar e as meninas tiveram que voltar para as suas respectivas salas. As quatro seguiram pelos corredores juntas até o momento em que Jane teve que seguir em uma direção, para ir para a sua sala de aula e as outras três para outra, então elas se separaram.
Na saída da escola, quando seguia para o ponto de ônibus já na companhia de Jane novamente, Elizabeth foi abordada por Bill Collins, um garoto da turma de Jane. Elizabeth ia aproveitar a oportunidade para perguntar a Jane o que fora que aconteceu com ela no intervalo de uma das aulas daquela manhã, aquela história que ela tentara lhe contar no intervalo antes que Lydia e Catherine se juntassem a elas. E o que esta história tinha a ver com Charles. Porque alguma coisa dizia à Elizabeth que aquela história tinha tudo a ver com Charles. Mas Bill Collins surgiu em seu caminho inesperadamente e atrapalhou os planos de Elizabeth.
--Então, ansiosa pelo nosso encontro?!—Ele disse, ao se postar ao seu lado e começar a acompanhá-la.
--Morrendo de ansiedade!—Elizabeth respondeu, com um obvio tom de sarcasmo (o que passou despercebido aos ouvidos de Bill), assim que se recuperou do susto que levou ao vê-lo ao seu lado.
--Eu sabia!—Ele replicou, parando de andar.—Eu sabia!—Repetiu com mais entusiasmo, ao virar-se de costas e seguir o seu próprio caminho. O que causou um ataque de risos nas duas irmãs.
--Você é má!—Jane disse.
--O que?!—Elizabeth não conseguia parar de rir.—Eu tenho culpa se ele não reconhece o sarcasmo, mesmo que esteja materializado bem diante dele?! Em carne e osso!—Ela volta a fazer sua irmã rir ao comparar-se com o sarcasmo.
--Então, você já está conformada com este encontro?—Jane inquiriu, num tom mais sério.
--Você usou a palavra certa: conformada!—Elizabeth respondeu, também soando mais séria.—Já que eu não tenho escolha neste assunto.
--Vai! Não deve ser tão ruim assim!—Jane tentou amenizar o desgosto da irmã; o que apenas fez Elizabeth lhe dar um olhar de incredulidade pelo comentário e depois um sorriso agridoce.
Depois do almoço, tanto Elizabeth quanto Jane voltaram para a escola. Elas tinham aula de dança na mesma turma, era uma das poucas atividades na escola que tinham juntas. Catherine e Lydia também eram de sua turma. Assim, elas só retornaram para casa no finalzinho da tarde.
Chegando a casa, Elizabeth encontrou sua mãe. A sra. Abbott já tinha voltado de seu trabalho como conselheira da sua comunidade, uma espécie de sindica, e começou a tagarelar sobre o seu dia assim que as filhas entraram em casa, contando todas as fofocas que ouviu durante aquele dia de trabalho na sede da comunidade.
Como era uma pequena comunidade, a sra. Abbott conhecia todas as famílias intimamente e sabia contar detalhes da vida pessoal de várias pessoas. Como ela ficava sabendo de tantas coisas da vida intima das outras pessoas? As filhas tinham certeza que era através de outras mulheres, membros da comunidade, que eram tão bisbilhoteiras quanto a sra. Abbott.
Elizabeth deu um pouco de atenção a sua mãe, mas logo decidiu que já tinha ouvido o bastante. Quando ia começar a subir a escada, com a intenção de ir para o seu quarto e ir tomar um banho, sua mãe chamou a sua atenção.
--Ah, Lizzie, eu quase me esquecia!—O que fez Elizabeth estancar no momento em que punha o pé no primeiro degrau da escada, virando o rosto na direção em que a sua mãe se encontrava.—Aquele adorável menino dos Collins ligou e pediu para lhe informar que virá buscá-la as sete horas.—A sra. Abbott disse, entusiasmada; Elizabeth, por outro lado, revirou os olhos e começou a subir a escada.
--Certo.—Elizabeth respondeu, sem emoção.
--Escute bem, Elizabeth Ann Abbott!—A sra. Abbott disse, num tom irritado, à medida que se aproximava do pé da escada, fazendo Elizabeth parar mais uma vez. Desta vez no meio da escada e virar-se para encará-la.—Você vai se comportar bem neste encontro! Eu não quero ouvir nenhum relato da sra. Collins de como você destratou o filho dela, aquele jovem adorável!—Elizabeth voltou a revirar os olhos e a fazer uma careta ao ouvir a sua mãe referir-se a Bill Collins como um jovem adorável; ela, com certeza, nunca tinha se dado o trabalho de conversar com ele por mais de dois minutos!—Eu vi isso, mocinha!—A sra. Abbott replicou, ainda mais irritada.
--Tudo bem, mãe!—Elizabeth disse.—Eu não já concordei em sair com ele?! O que a senhora quer mais?!—E deu as costas à mãe, continuando a subir a escada, ignorando os seguintes comentários da mãe. E seguiu para o seu quarto.
Jane veio ao quarto de Elizabeth pouco tempo depois de ela ter se trancado nele. Jane encontrou Elizabeth diante do armário de roupas, pensativa.
--Eu não sei de onde ela tirou: “aquele jovem adorável’!—Elizabeth disse, imitando a voz da mãe.—Ou que eu gostaria de sair com ele!—Ela então tirou uma calça jeans de um cabide e jogou sobre a cama. Abaixou-se e pegou um tênis, e colocou-o aos pés da cama.
--Você sabe que ela pararia de arranjar encontros para você se você aceitasse um dos milhares convites para sair que você recebe na escola, voluntariamente.—Jane replicou, não recebendo nenhuma resposta imediata de Elizabeth.
Elizabeth nunca tinha tido um namorado. O primeiro menino por quem se interessou, quando conheceu Jane, perdeu o interesse em Elizabeth. Desde então, sempre que se interessava por um menino que demonstrava algum interesse nela, o convidava para assistir um filme em sua casa em uma tarde — tendo, assim, a presença de Jane durante toda a sessão de filme.
Se o menino viesse a dar mais atenção a sua irmã que a ela própria, ela nunca mais dava atenção ao menino. Era um simples teste, assim evitava se envolver demais com alguém que não estava realmente interessado nela. Um teste que nenhum menino tinha passado, até então.
--Por que se dar esse trabalho?!—Elizabeth finalmente respondeu, novamente sem emoção.
--Nem todos os garotos são tão ruins assim, Lizzie. – Jane contrapôs.
--Oh, eu tenho certeza que você pensa assim!
Jane, por outro lado, nunca teve problemas para arranjar um namorado. Já tinha tido dois namoros sérios, terminados por ela, e estava sozinha naquele momento de sua vida por escolha própria.
Elizabeth finalmente escolheu uma blusa e fechou a porta de seu armário, caminhou até a própria cama e depositou a blusa sobre ela. Depois foi para o seu pequeno banheiro, para poder começar a tomar banho.
Jane caminhou para a cama de Elizabeth e sentou-se numa beirada, pegando a blusa que Elizabeth tinha escolhido. Era um suéter de lycra vermelha sangue, simples, mas muito bonita. Qual combinava perfeitamente com a calça jeans que ela tinha escolhido, azul marinho. O tênis dava um ar despojado e transmitia a mensagem que Elizabeth queria transmitir: “não me produzi para você!”.
Passado alguns minutos, Elizabeth saiu do banheiro, enrolada na toalha e pegou a roupa que tinha separado, voltando para o banheiro. Só voltou a sair de lá depois de vestida, encontrando Jane ainda sentada em sua cama. Elizabeth começou a secar o seu cabelo com a toalha, para depois poder penteá-lo.
--O que você pretende fazer com o seu cabelo?—Jane inquiriu.
--Penteá-lo.—Foi a resposta de Elizabeth; usando um tom de voz que demonstrava que considerava a resposta daquela pergunta obvia, embora soubesse em que sentido a sua irmã fizera aquela pergunta.
--Posso fazer um penteado diferente no seu cabelo?—Jane não desistiu.
--Para que?—Elizabeth virou-se para encará-la.—Eu vou sair com Bill Collins!
--Eu sei.—Jane riu do jeito de Elizabeth.—Mas... vocês vão sair numa sexta-feira à noite, vão a um local público, onde encontraram com outras pessoas, outros rapazes... Quem sabe você não encontra o seu príncipe encantado e ele te salva de Bill Collins!—E com isso, ela se levantou da cama de Elizabeth e correu para o seu quarto, foi buscar os seus apetrechos para arrumar o cabelo de Elizabeth.
Jane conseguiu fazer um penteado diferente no cabelo de Elizabeth. Como Elizabeth queira que ele permanecesse solto, Jane resolveu fazer com que ele ficasse ondulado, ao invés de liso—como normalmente era. Depois disso convenceu Elizabeth a deixar que ela lhe maquiasse um pouco, nada exagerado — Elizabeth não gostava muito de maquiagem e não ia começar a usá-la para agradar justamente Bill Collins. O máximo que Jane conseguiu que Elizabeth a deixasse fazer foi: passar um delineador de cílios incolor, um lápis de olho e passar um gloss labial discreto.
Depois disso, Elizabeth começou a calçar o tênis. Estando pronta, seguiu para frente do espelho e se admirou. Estava bonita, bonita até demais para um encontro com Bill Collins. Quase decidia por desfazer tudo aquilo, tomar outro banho e se re-arrumar de forma mais desajeitada. Mas Jane não permitiria que ela destruísse o seu trabalho, então se conformou como estava. Virou-se para Jane e inquiriu.
--Conte-me aquela história sobre Charles de novo!
--Não foi nada!—Jane riu, corando.
Elizabeth tinha aproveitado a volta para casa da aula de dança aquela tarde para desvendar o que significava o jeito de Jane quando ouvia o nome do novato. Jane lhe contou, de novo, como o tinha visto nos corredores da escola, tinha sorrido para ele e ele tinha sorrido de volta. Contou, também, que o considerava o menino mais bonito do colégio e revelou o desejo de conhecê-lo melhor.
--Foi só uma troca de olhar... e um sorriso. Só!
--Só?! ...Sei!—Elizabeth riu.—Pela cor das suas bochechas toda vez que o nome dele surge numa conversa, foi um tremendo de um olhar e um tremendo de um sorriso!—O que fez Jane rir com vontade também.
As duas ficaram conversando sobre ele e os amigos dele pelos próximos minutos e depois mudaram de assunto. Quando a sra. Abbott começou a gritar por Elizabeth da sala, para avisar que Bill Collins já chegara e a aguardava, Elizabeth perguntou a Jane.
--Você vai ao Basement hoje?
--Estou pensando a respeito.—Jane respondeu.
E por aquela resposta, Elizabeth sabia que sua irmã ia ao point dos alunos da escola aquela noite. Era uma boa oportunidade para ela encontrar-se com Charles em um ambiente mais descontraído e as chances de ele ir ao Basement eram enormes. A maioria dos alunos da escola passava todas as suas noites livres naquele pub.
--E eu vou ter que passar a minha noite de sexta-feira com aquele idiota!—Elizabeth disse, quando pôs a mão na maçaneta da porta de seu quarto, abriu a porta e saiu, sendo seguida por Jane.
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