Capítulo 78
Naquela tarde de sábado, ao prédio da Editora Black Stones ao centro de Londres, estava sendo realizada a XX Convenção de Anime e Mangás. As decorações dos stands de exibição dos variados graphic novellas coloriam aquele andar. O qual, normalmente, era de um tom cinza sombrio. Milhares de jovens circulavam entre as bancas de revistas e os funcionários da editora.
Mary chegou à editora minutos após o evento ser iniciado. Não queria perder um segundo de toda aquela festa, queria ver e participar de cada atividade por ele proporcionada. E quando Shung a encontrou, Mary já tinha visitado, pelo menos, cinco stands de animes diversos. Parecia ser uma criança solta em uma loja de brinquedos.
Não demorou muito a contagiar Shung com a sua animação, que a princípio parecia um pouco abatido. Levou-o ao stand do mangá Nana – uma série de mangá japonês escrito por Ai Yazawa, qual conta a história de duas jovens com mesmo nome: Nana; que se conhecem por acaso em um trem e passam a morar juntas. Embora muito diferentes, desenvolvem uma relação de amizade e respeito mútuo.
E depois ao stand do anime Love Hina - é uma série anime baseada no mangá de mesmo nome, qual conta a história de Keitarô Urashima, um rapaz de 20 anos de idade que já foi reprovado 3 vezes na Universidade de Tóquio, mas que continua tentando por ter feito uma promessa a uma menina há 15 anos. Ele se torna gerente de um alojamento feminino e acaba rodeado de garotas. Na maior parte do tempo Keitarô surpreende-as nuas sem querer (quase sempre em uma onsen, ou terma japonesa) e recebe golpes fenomenais de artes marciais.
No avançar da tarde, os dois se dirigiram a uma sala de retroprojeção, em que seriam exibidos os primeiros capítulos de alguns dramas japoneses que seriam lançados no inicio do ano seguinte. Ambos ficaram impressionados com a regravação de Densha Otoko (que em japonês significa: homem do trem), que é adaptação da obra literária (baseada em uma história real) de Nakano Hitori.
O protagonista é o jovem Yamada Tsuyoshi, de 23 anos, um rapaz viciado em animes e miniaturas de personagens. Junto com seus dois únicos amigos, freqüenta eventos com dubladores e lojas em Akihabara, famosa pela grande quantidade de produtos deste gênero. Seu lado social não é motivo de orgulho, Yamada é odiado pela irmã graças ao vício e caçoado no emprego, por ser extremamente desajeitado.
Um dia, enquanto estava a bordo de um trem, ficou encantado com uma garota rica e muito bonita, Aoyama Saori, de 25 anos. Enquanto contemplava a beleza da moça, um bêbado apareceu e começou a provocar os passageiros. Ao mexer com a garota, Yamada se levanta e muito nervoso, com seu jeito atrapalhado e tímido, pede para que o velho pare de perturbar. O bêbado se dirige ao jovem e uma briga começa, obviamente com a vitória do bêbado, mas dando tempo suficiente para a polícia chegar e o levar.
Aoyama fica agradecida pela coragem de Yamada e pede o endereço do garoto, para enviar um presente como forma de agradecimento. Totalmente eufórico e sem saber o que fazer, pois nunca tinha tido nenhum relacionamento com mulheres em sua vida, o jovem entra em um fórum da internet (conhecidos no Japão como BBS) e conta sua história, em busca de ajuda para seguir em frente e ter algum sucesso com a garota.
O fórum é repleto de pessoas com algum tipo de problema emocional, e todas tentam ao máximo aconselhar Yamada sobre o que fazer. Conforme os relatos do rapaz, freqüentadores vão tomando coragem para resolver seus próprios problemas, e devido a isso, o tópico de Yamada fica bastante conhecido. O local é totalmente anônimo, Yamada recebeu o nickname de Densha Otoko (Homem do Trem, em japonês) e a grande maioria dos postadores não se identificam ao postar. Todos tratam Aoyama como Hermes-san (Senhorita Hermes), devido a marca das xícaras que a garota enviou de presente para Yamada como forma de agradecimento.
Aoyama Saori tem um trauma em relação a homens devido ao casamento arruinado de seus pais. Sua mãe, Aoyama Yuki, está sempre arranjando casamentos para a filha, mas esta rejeita todos. Saori vê em Yamada um rapaz sincero e gentil, apesar deste sempre ficar sem jeito e gaguejando ao conversar. Acaba se fascinando ao descobrir que ele é um otaku, por achar que tal hobby e estilo o faz uma pessoa única.
Após a exibição de alguns dramas japoneses, os dois saíram da sala de retroprojeção e foram lanchar na area de referições do prédio da editora. Sentaram-se em uma mesa reservada e conversavam animadamente sobre a convenção enquanto comiam. Como em resposta aos dramas a que tinham assistido juntos, por se tratarem de romances em sua grande maioria, Shung introduziu na conversa que estava tendo com Mary o seu relacionamento com Inoue Mao.
--Parece-me que o nosso relacionamento durou este tempo todo porque é o que nossas famílias querem... – Ele dizia, com uma expressão séria no rosto. – Assim, não estou dizendo que nós não nos gostamos... Eu gosto muito de Inoue e tenho certeza de que ela gosta de mim... – Tentou remediar a sua afirmação, ao notar a expressão de surpresa no rosto de Mary. – É só que... Creio que nossa relação sempre foi baseada mais na amizade que na paixão.
--Mas está tudo bem entre vocês dois, não está? – Mary perguntou, curiosa; sempre ficava curiosa com relação a qualquer coisa que fosse a respeito dele.
--Está. – Shung respondeu, mas não lhe pareceu sincero. – E talvez seja este o problema. – Comentou em seguida, pensativo.
--Eu não entendo. – Mary refutou, observando-o mais atentamente.
--Tudo está sempre certo entre nós. – Shung explicou. – Nós nunca brigamos... Como eu disse: falta paixão. – Argumentou, dando ênfase na palavra paixão. – Às vezes me pergunto se não devia ter algo a mais numa relação... Na nossa relação! – Ele confessou. – Tenho certeza que ela também, mas... nunca comenta. Talvez por receio do que poderia acontecer se admitíssemos a verdade.
--A verdade? – Mary perguntou, inclinando-se em sua direção, ao apoiar os dois cotovelos sobre a mesa.
--Que nos gostamos como amigos. – Shung replicou, fitando Mary nos olhos.
Mary não sabia o que dizer em resposta a esta confissão de Shung. Um silêncio constrangedor caiu sobre eles e perdurou por uns minutos depois, enquanto eles terminavam de lanchar. Ao fim, ambos voltaram para a área principal da Convenção, com o intuito de prosseguirem com as atividades que aquele evento proporcionava. E foi quando Mary o viu, Thomas, do outro lado do salão de stands. E ele também os tinha visto; até já estava vindo na direção deles.
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Ao chegar ao cinema, Will observou as pessoas à bilheteria, ao mural de exibição das sessões de filme e às filas das salas do cinema. Não viu Elizabeth em parte alguma. Pensou em ligar para o celular dela – o qual descobriu o número alguns dias atrás, na agenda de telefones do celular da irmã. Estivera tentando descobrir se Georgiana ainda mantinha contanto com Owen, porque o garoto parou de ligar para a sua casa. Mas não de ligar para sua irmã, porque o celular dela estava repleto de ligações recebidas de Owen.
Porém, perguntava-se se Elizabeth não teria desligado o celular quando entrou na sala de cinema.
Caminhou até o mural de exibição de filmes e encontrou a sala em que “A Outra” (The Other Boleyn Girl) estava passando. Para sua sorte, só havia uma sala e a sessão começou há pouco tempo. Ele tinha visto suas portas abertas e alguns retardatários ainda entrando na sala de cinema quando procurou por Elizabeth às filas das salas assim que chegou ao cinema.
Apressou-se a comprar o ingresso na bilheteria e a se dirigir para a sala de cinema. A atendente da bilheteria informou-lhe que a sessão já havia começado, quando Will disse-lhe que queria o ingresso da sessão daquele horário. Ela ainda insistiu, afirmando que ele havia perdido os trailers e, possivelmente, o começo do filme. Mas Will não se importou, quis o ingresso ainda assim, já se irritando com a atendente. Tomou o ingresso que ela lhe estendia afoito e quase correu para a sala de cinema.
Ao se aproximar da sala, já não havia fila alguma e as portas da sala estavam fechadas. Um carrinho de pipoca postou-se em seu caminho e Will ia ultrapassá-lo sem lhe dar atenção; mas mudou de idéia, resolvendo comprar um pacote de pipoca e dois refrigerantes, não se esquecendo dos guardanapos. Entregou o seu ingresso ao funcionário do cinema e entrou na sala. Esta estava completamente escura, a tela de cinema exibia o filme – já na metade da primeira parte.
Will parou diante da primeira fila e observou as pessoas nas poltronas, procurando por Elizabeth. A sala de cinema estava ligeiramente cheia, mas havia vários lugares ainda desocupados. Will procurou por ela, mas não a encontrou naquela escuridão. Subiu alguns degraus, cauteloso, ainda procurando por ela às fileiras de poltronas, sem conseguir achá-la.
Ao chegar às poltronas do meio, onde recordava ter se sentado na ocasião em que esteve no cinema com Elizabeth, Jane e Charles, sentou-se na primeira cadeira, próxima ao corredor. E continuou a procurar por ela, ainda sem olhar uma única vez para a tela de cinema. Como um banho de água fria, Will avistou uma menina de cabelos escuros aos beijos com um menino de cabelos loiros, sentados em poltronas a duas fileiras acima da que ele se encontrava. Não conseguiu ver o rosto de nenhum deles por causa do escuro e porque a atividade a que se dedicavam estava atrapalhando a sua visão de seus rostos. Mas algo dentro de Will lhe dizia que era Elizabeth e Gabriel.
Will, finalmente, fitou a tela de cinema. Mas a sua mente estava concentrada demais em imaginá-lo arrastando Gabriel para fora do cinema e quebrando todos os seus ossos com as próprias mãos para prestar atenção no filme. Descansou a bandeja com o pacote de pipoca e os dois refrigerantes no colo e tapou os olhos com uma das mãos, odiando-se por estar ali. “Eu sou um idiota! Por que eu não cumpri com a minha palavra?! Por que não consigo desistir de você?!”
Ele estava preste a se erguer de sua poltrona e ir embora dali, mas algo dentro dele o impediu. Não tinha vindo até ali para ir embora daquela forma. E, subitamente, Will colocou a bandeja com o pacote de pipoca na poltrona ao lado, retirou o celular do bolso de sua calça. Discou o número do celular de Elizabeth – que ficou gravado em sua memória como se houvesse sido queimado em ácido – e aguardou, esperando para descobrir se o celular dela estava desligado ou não.
O telefone começou chamar, de forma que ele soube que ela não o havia desligado. Como não ouvia música alguma, deduziu que ela havia colocado no silencioso ou para vibrar. Voltou-se para observar o casal beijoqueiro, espumando de raiva ao constatar que eles continuavam a se beijar. Will estava bolando uma mensagem muito malcriada que deixaria na sua caixa de mensagem, quando o celular foi atendido.
--Alô? – Ele ouviu o sussurro de Elizabeth. – Alô? – Ela disse mais alto. – Alôoo? – Repetiu, ficando impaciente.
Will voltou à cabeça para frente, depois para os lados. Procurando por ela.
--Alô? – Elizabeth insistiu, conseguia ouvir a respiração pesada dele na linha. – Alô?
Will sabia que ela não tinha o número do seu celular e, por isto, não sabia que era ele quem estava ligando.
--Que brincadeira sem graça! – Ela resmungou, desligando o celular.
Will, finalmente, a encontrou sentada exatamente a sua frente, duas fileiras abaixo da sua. Seu coração deu um pulo de felicidade: ela está sozinha. Completamente sozinha!!! Como eu não a vi ali?!
Ele pegou a sua bandeja com a pipoca e os dois refrigerantes, erguendo-se de sua poltrona. Desceu alguns degraus e se sentou a poltrona vaga próxima ao corredor, uma fileira acima da dela e exatamente na poltrona atrás da dela. Elizabeth estava olhando para a tela de seu celular, tentando identificar o número da chamada que recebeu, quando ouviu:
--Quer pipoca? – Próximo às suas costas.
Olhou para o lado e viu um pacote de pipoca erguido em sua direção. Olhou para trás e ficou boquiaberta ao ver Will sentado ali. Ele sorriu para ela e Elizabeth voltou-se para frente, perguntando-se se estava tendo alucinações. Voltou a olhar para trás; Will não estava mais sorrindo, mas ainda estava ali e continuava a lhe estender o pacote de pipoca.
Will a assistiu se virar para frente uma segunda vez e agitadamente remexer em sua bolsa – guardando o celular, o qual ela tinha desligado por completo – e erguer-se de sua poltrona. Ficou preocupado que ela não estivesse feliz em vê-lo, que estivesse indo embora ou procurar outra poltrona para se sentar, uma longe dele. Quando ela voltou-se para ele novamente, subiu alguns degraus, passou entre ele e a fileira de poltronas a sua frente, e se sentou na poltrona vazia ao seu lado, em completo silêncio.
Elizabeth o ouviu suspirar, aliviado, antes de voltar a lhe estender o pacote de pipoca e dizer.
--Pipoca?
Ela olhou para ele, sorriu e disse.
--Obrigada. – Aceitando a pipoca que ele lhe oferecia.
Will não demorou a lhe entregar um dos refrigerantes, além dos guardanapos. Elizabeth só sabia sorrir diante de tamanha atenção por parte dele e não se incomodou em perguntar-lhe por que estava ali, o que o tinha feito mudar de idéia. Contentou-se em ter a sua companhia, permitindo-se ficar feliz.
E, estando sentado ao lado dela, Will finalmente deu atenção ao filme.
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Enquanto Thomas caminhava na direção deles, Mary sentia o seu coração bater acelerado em seu peito, imaginando o que Thomas iria aprontar para ela desta vez. Olhava de soslaio para Shung, para ver a reação dele a presença de Thomas. E notou que Shung também parecia estar apreensivo, ao observar Thomas vindo a sua direção.
Para a surpresa de ambos, Thomas meramente os cumprimentou com um aceno de cabeça e seguiu o seu caminho, ultrapassando-os e se juntando a um grupo de amigos em um stand às costas de Mary e Shung. Sequer dirigiu um segundo olhar a Mary ao passar por ela, indo cumprimentar os seus próprios amigos com excitação em seu tom de voz.
Mary, por outro lado, o seguiu com o olhar, virando-se na direção dele quando Thomas os ultrapassou. Shung pôde ver em seu rosto que Mary ficou confusa com o comportamento de Thomas e, logo em seguida, um pouco irritada. Ela apressou-o a se afastarem daquele stand, atravessando o salão, indo na direção oposto a em que Thomas se encontrava.
--Talvez fosse melhor você ir falar com ele. – Shung sugeriu, preocupado. – Eu não quero lhe causar problemas.
--Você não me causará problemas, Shung. – Mary replicou.
--Ele parece não ter gostado de nos ver juntos. – Shung observou. – Ele pode ter ficado com a impressão errada. – Comentou.
--Ele pode ficar com a impressão que quiser, pouco me importa. – Mary refutou, levemente irritada.
--Vocês dois brigaram? – Ele perguntou, estranhando a resposta de Mary. – Eu tenho certeza que se vocês conversarem, se acertarão. – Ele apoiou. – Ele parece gostar muito de você. – Comentou; embora tentasse soar animado com aquela possibilidade, não estava tendo muito sucesso.
--Nós não precisamos nos acertar, porque não estamos brigados. – Mary disse. – Na verdade, nós sequer somos namorados. – Explicou em seguida, deixando Shung de olhos arregalados.
--Eu não entendo. – Ele disse, somente.
--Aquilo que Thomas disse sobre nós, naquele dia à sua loja... Aquilo não é verdade. – Mary garantiu.
--Continuou sem entender. – Shung replicou. – Se não é verdade, por que...? – E deixou a frase morrer.
--Thomas estava tentando me irritar. – Mary explicou. – Por isto inventou aquela história de sermos namorados... Porque sabia que eu ficaria constrangida.
--Então, ...vocês não são namorados? – Shung perguntou, com um tom ansioso em sua voz. Mary respondeu com acenos de cabeça. – Nunca foram?
--Nunca fomos. – Mary afirmou, veemente.
--Ohh... – Foi a resposta de Shung.
E, pouco tempo depois, ele estava com humor renovado. Mas Mary não deu muita atenção a esta mudança, porque estava atordoada demais com o fato de ter sido ignorada por Thomas daquela forma. “Qual é o problema deste garoto, afinal?!”, ela se perguntava, sempre o procurando com o olhar pelo salão.
Após a aparição de Thomas, Mary não conseguiu mais se divertir. Estava sempre ansiosa, apreensiva. Como se estivesse se preparando psicologicamente para o momento em que Thomas se acercaria dela e de Shung, e estragaria o seu passeio de uma forma ou de outra. Cansada de se sentir assim, pediu licença a Shung e foi atrás de Thomas.
Quando se aproximou dele, viu um dos amigos de Thomas o cutucar e lhe indicar a sua presença. Thomas voltou-se em sua direção, demonstrando surpresa por vê-la ali. Afastou-se dos amigos e parou diante dela, mas ligeiramente afastado.
--Mary. – A cumprimentou novamente com um leve aceno de cabeça.
--Vai! Diz logo o que você está tramando! – Mary exigiu de Thomas.
--Eu? – Thomas questionou, inocentemente. – Nada.
--Ahh, por favor! – Mary resmungou. – Fala logo o que você quer! – Exigiu-lhe, sem paciência, enquanto Thomas a fitava com uma expressão confusa. – Qual vai ser a chantagem desta vez?! – Cruzando os braços, em um gesto irritado.
--Não tem chantagem alguma. – Thomas respondeu. – Pode relaxar, Mary, porque eu não vim aqui por sua causa. – Thomas a assegurou, seriamente. – Não tenho intenção alguma de lhe incomodar. – Afirmou, fitando-a nos olhos. – Volte para perto de Shung e aproveite bem o seu encontro. – Aconselhou-lhe, olhando na direção de Shung, que estava a observá-los a certa distancia.
--Eu não estou em um encontro. – Mary replicou, irritada com a suposição dele, mas descruzando os braços.
--Ah não? – Thomas voltou a dirigir o seu olhar profundo a ela, lutando para esconder a sua satisfação com aquela resposta.
--Não. – Mary reafirmou.
Thomas deu um passo a frente, deixando Mary apreensiva, e se inclinou na direção dela, lhe falando ao ouvido.
--É bom saber! – Com a voz sedutoramente rouca.
Ao se afastar dela, deixou Mary com os pés presos ao chão, como se fossem feitos de chumbo, e as pernas tremendo. Quando ela se voltou na direção em que deixara Shung, o encontrou a observá-la atentamente. Embora soubesse que ele assistiu a tudo que se passou entre ela e Thomas, Shung não fez nenhum comentário a respeito quando Mary retornou para o seu lado.
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Após a sessão de cinema, Will e Elizabeth foram lanchar. Como de costume, Will não deixou Elizabeth pagar por seu lanche. Enquanto comiam, discutiam sobre o filme que assistiram. Elizabeth cuidou de lhe informar as partes do começo do filme que ele perdeu ao chegar atrasado.
Em seguida, ficaram passeando pelos corredores do shopping. Não davam muita atenção às vitrines das lojas, focando a sua atenção um no outro. Will queria segurar a mão de Elizabeth, que de vez em quando esbarrava na sua enquanto caminhavam lado a lado. Mas não tinha coragem para agir, ansioso diante da corrente elétrica que circulava por seus dedos.
Estava mais que feliz por tê-la só para ele pela primeira vez. Nunca tinham saído sozinhos antes!
--E então, como foi o almoço de recepção de sua tia? – Elizabeth perguntou, meramente curiosa.
--Como de se esperar. – Ele respondeu tranqüilo; sua tia e prima continuavam as mesmas.
--Eu pensei que o almoço duraria a tarde inteira. – Elizabeth comentou de forma displicente, embora estivesse mais que curiosa neste aspecto. – Pelo menos, foi o que você me disse ontem à tarde. – Disse isso tentando não soar ressentida.
--Eu consegui ir embora mais cedo da casa da minha tia. – Will respondeu com certa ansiedade em seu tom de voz.
--Você quer dizer que não ficou até o fim do almoço de recepção de sua própria tia? – Elizabeth o fitou, levemente admirada.
--Eu fugi quando minha tia, meu pai e meu tio, pai de Richard, estavam no escritório. – Ele confessou, com ar de menino travesso.
--Você está brincando! – Elizabeth exclamou, ficando ainda mais surpresa. E começou a rir quando ele confirmou o que dizia com acenos de cabeça.
--É verdade. – Ele garantiu.
--Você não está preocupado com o que seu pai irá dizer quando não encontrá-lo? Ou o que sua tia irá pensar sobre você escapar do almoço de recepção dela desta forma? – Elizabeth questionou, estranho a calma dele.
--Não. – Will afirmou. – Nem um pouco. – Garantiu; naquele instante, a sua tia e seu pai eram as últimas coisas em sua mente. – Minha mãe inventará uma desculpa, já que ela me deixou ir embora mais cedo.
--A sua mãe permitiu que você fugisse no meio do almoço de sua tia?! – Elizabeth estava perplexa com aquela revelação.
--Eu disse a ela que vinha lhe ver! – Will respondeu, timidamente, notando que a face de Elizabeth ficou ruborizada com a sua resposta.
--Bem, então... Ham… – Elizabeth comentou, acanhada, ao desviar o olhar do dele. – eu estou ...feliz que você esteja aqui.
O coração de Will parecia que ia explodir em seu peito. E ele não hesitou mais, capturando a mão de Elizabeth na sua e a segurando firme. Elizabeth voltou a olhar para ele diante deste gesto e sorriu em resposta.
Eles caminharam de mãos dadas por um tempo. Cada passo que davam, ficavam cada vez mais próximos um do outro. Pessoas passavam por eles, com suas sacolas de compras e olhando vitrines, enquanto os dois pareciam satisfeitos apenas em estarem juntos, de mãos dadas.
--Você já fez as suas compras de Natal? – Will perguntou após uns minutos assim. – Comprou todos os presentes que pretende dar?
--Sim. – Elizabeth respondeu. – Comprei o último que faltava no meio da semana passada. – Informou-lhe, omitindo que o último presente que comprara fora justamente o dele e que a sua irmã, Georgiana, a havia ajudado.
--E... você irá me dar algum presente de Natal? – Questionou, fingindo inocência diante do olhar escrutinador que ela lhe lançara. – Afinal, vamos passar a noite de Natal juntos... Seria estranho se você presenteasse a todos, menos a mim.
--Seria. – Elizabeth concordou.
--Então? – Ele insistiu. – Você me dará algum presente?
--Talvez. – Ela respondeu, sorrindo. – E você? Me dará algum?
--O que você quer ganhar de presente de Natal? – Ele, simplesmente, perguntou-lhe isto.
--Oh... não, não, não. – Elizabeth replicou. – Eu não vou lhe dizer o que me dar de presente de Natal!
--Por que não? – Will indagou, insatisfeito; nunca fora muito bom para escolher presentes. – Como eu vou saber o que você quer ganhar se você não me disser? Quer que eu pergunte a Jane?!
--Não! – Elizabeth protestou. – E Jane não te diria o que comprar nem mesmo que você perguntasse. – Afirmou, convicta. – É você quem tem de saber o que quer me dar de presente de Natal. – Ao ouvir isto, Will ficou sério. – Você tem de me dar algo que te fez pensar em mim quando o viu ou que me fará lembrar de você quando me der o presente.
--Me dá só uma dica! – Will implorou.
--Mas do que já dei?! – Elizabeth refutou, incrédula.
--Eu sou péssimo para dar presentes, Lizzie! – Will explicou-se. – Você não irá gostar do que eu comprar para você! – Afirmou, convicto.
--É claro que vou gostar! – Elizabeth garantiu. – Porque será um presente seu! – Esta afirmação dela o fez sorrir, deixando-a constrangida. – Além do mais, quem lhe garante que não será você quem não irá gostar do que eu comprei de presente para você?! – Elizabeth comentou, tentando desviar a atenção dele para o que ela dissera antes.
--Então, ... – Will disse após uns minutes de reflexão. – você já comprou o meu presente, hem? – Rindo para ela.
Elizabeth lhe deu um tapa no ombro, fazendo-o se afastar um pouco dela. Mas ele logo a puxou mais para perto, entrelaçando os dedos de sua mão com os dela. Eles continuaram andando pelos corredores do shopping, conversando amenidades. Elizabeth sentia um frio na barriga sempre que Will acariciava as costas de sua mão com o polegar.
Já tinha anoitecido quando Will levou Elizabeth até em casa de carro. Eles conversaram amistosamente durante toda a viagem, de forma que nenhum dos dois sentiu o tempo passar. Mais cedo do que imaginavam, Will estava parando o carro na frente da casa de Elizabeth.
Ela parou de falar no meio de uma frase e olhou ao seu redor quando sentiu o carro parar. Sabia que deviam se despedir, para que ela pudesse entrar em casa. Mas não queria se despedir dele ainda, queria continuar em sua companhia. À medida que olhava pela janela do passageiro para a porta de sua casa, ficava tentando imaginar uma desculpa para permanecer com ele, ali mesmo.
Vagarosamente, retirou o cinto de segurança e olhou para ele. Will estava estendendo a mão para a chave à ignição, com o intuito de desligar o carro. Quando ela ouviu o locutor anunciar uma nova música na rádio em que o aparelho de som de Will estava sintonizado. Imediatamente se apegou àquela desculpa.
--Escute. – Disse a ele, aumentando o volume do rádio.
You're part time lover
(Você é um amante de meio-período)
And a full time friend
(E um amigo em tempo integral)
The monkey on the back is the latest trend
(O macaco em suas costas é a última moda)
Don't see what anyone can see
(Não vejo o que alguém consegue ver)
In anyone else
(em qualquer outra pessoa)
But you
(a não ser você)
--É a música da trilha sonora de “Juno”... – Explicou, olhando-o atentamente, enquanto Will desistia de desligar o carro e descansava a mão sobre as suas pernas. – É engraçada...
I kiss you on the brain in the shadow of the train
(Eu beijo sua cabeça na sombra de um trem)
I kiss you all starry eyed
(Eu te beijo com um olhar estrelado)
My body swings from side to side
(Meu corpo está oscilando de uma lado pro outro)
I don't see what anyone can see
(Eu não vejo o que alguém consegue ver)
In anyone else
(em qualquer outra pessoa)
But you
(a não ser você)
Here is a church and here is a steeple
(Aqui é uma igreja e aqui é uma torre)
We sure are cute for two ugly people
(Nós com certezas somos bonitos para duas pessoas horrendas)
Don't see what anyone can see
(Não vejo o que alguém consegue ver)
In anyone else
(em qualquer outra pessoa)
But you
(a não ser você)
Will começou a gargalhar ao ouvir aquela parte da música, contagiando Elizabeth. Aos poucos, a risada cessou e ambos permaneceram com sorrisos nos lábios, ouvindo a música. Elizabeth olhava de soslaio para ele de tempos em tempos, encontrando-o a fitar o seu aparelho de som, prestando atenção na letra da música.
I'm always trying to keep it real
(Eu estou sempre tentando ser realista)
Now I’m in love with how you feel
(Agora estou apaixonado pelo jeito como você se sente)
I don't see what anyone can see
(Eu não vejo o que alguém consegue ver)
In anyone else
(em qualquer outra pessoa)
But you
(a não ser você)
Ela não sabia como tomou aquela atitude tão impulsiva, mas apoiou uma das mãos na ponta da poltrona de Will e inclinou-se em sua direção. Colocou a sua outra mão no rosto dele, o virando em sua direção, e pressionou os seus lábios ao dele, fechando os olhos.
The pebbles forgive me
(Os pedregulhos me perdoam)
The trees forgive me
(As árvores me perdoam)
So why can't you forgive me?
(Então por que você não pode me perdoar?)
I don't see what anyone can see
(Eu não vejo o que alguém consegue ver)
In anyone else
(em qualquer outra pessoa)
But you
(a não ser você)
O beijo foi apenas um suave toque dos lábios, o qual ela tentou prolongar o máximo que conseguiu. Mas, lentamente, afastou se uns centímetros e fitou o rosto de Will. Ele ainda estava com os olhos fechados, com uma expressão serena no rosto. Elizabeth permitiu que seus olhos vagassem até os lábios dele, levemente abertos, e acariciou o seu rosto, delicadamente; o seu polegar contornando a linha do seu queixo até alcançar os lábios dele.
Quando voltou a fitar os seus olhos, Will já os tinha abertos. E, como na letra da música, os olhos deles estavam estrelados. Elizabeth abaixou as mãos no instante em que Will se inclinava em sua direção, sem perceber o seu movimento. Ela recostou-se em sua poltrona mais rápido que imaginava que conseguiria e abriu a porta do carro, saltando dele.
--Lizzie... O que...? – Will chamou por ela, notando o quanto a sua voz soou baixa até mesmo para os seus ouvidos. – Onde...? – Sentia-se atordoado; “onde ela estava indo, afinal?! – Volte aqui! – Ele conseguiu pronunciar mais alto, vendo-a seguir em direção a porta de sua casa.
Will abriu a porta do carro e tentou sair deste, mas acabou caindo sentado no mesmo lugar. Reparando que ainda estava com o cinto de segurança, tentou se livrar deste de forma afoita. Saiu do carro ainda atrapalhado, mas já era tarde. A viu entrar em casa e fechar a porta.
I don't see what anyone can see
(Eu não vejo o que alguém consegue ver)
In anyone else
(em qualquer outra pessoa)
But you
(a não ser você)
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