Capítulo 75
Elizabeth estava sentada enfrente ao seu computador, navegando pela internet, lendo uma fanfic de Orgulho e Preconceito, tentando se distrair. Mas sua mente insistia em ponderar a recusa de Will em ir ao cinema com ela, Jane e Charles. Temia que ele estivesse desistindo dela, justamente quando ela estava disposta a voltar para ele. Irônico!
Sacudiu a cabeça, afastando este pensamento da mente. Amanhã o veria com certeza e daria um jeito de deixar bem claro para ele que o queria de volta. Mesmo que ele houvesse desistido dela no presente momento, estava certa de que ainda gostava dela e a aceitaria de volta quando ela pedisse para reatarem – sentiu um frio no estômago ao se imaginar dizendo a ele que queria voltar a ser sua namorada.
Suspirou tristemente ao imaginar que Jane e Charles estavam no cinema naquele exato momento e que ela poderia estar com eles, se ao menos Will houvesse aceitado o convite. A idéia de ir ao cinema com ele pareceu tão perfeita quando Charles sugeriu; poderiam repetir os eventos da primeira vez que foram ao cinema juntos. Exceto, é claro, a parte em que Bill Collins apareceu de surpresa, fingindo não estar a seguindo. Mas o fim do dia, aquele beijo dentro do carro de Will, ela fazia questão de repetir – várias vezes!
A porta de seu quarto se abriu e a sra. Abbott chamou por ela, estendendo-lhe o telefone sem fio que tinha em mãos.
--Telefone para você. – Disse, rindo alegremente.
--Quem é? – Elizabeth perguntou, desconfiada.
Matthew estivera ligando para ela durante esta semana e Elizabeth conseguiu evitá-lo todas às vezes com a ajuda de Jane e de seu pai. No entanto, se a sra. Abbott atendesse ao telefone era capaz de obrigar Elizabeth a sair com ele uma segunda vez – alegando que um encontro apenas não bastava para decidir se não valeria pena ter um relacionamento com ele, ou apenas manter uma amizade.
--Um menino chamado Gabriel... – A sra. Abbott respondeu, adentrando no quarto de sua filha mais nova e indo lhe entregar o telefone. – Disse que era um amigo seu de escola. – Comentou, erguendo uma das sobrancelhas sugestivamente, enquanto Elizabeth franzia a testa.
Elizabeth aceitou o telefone que a sua mãe lhe estendia e disse.
--Alô? – De forma hesitante.
--Alô, Elizabeth? – Gabriel respondeu, animado. – Oi... Você está ocupada agora? – Ele perguntou.
--Ahh... não. – Elizabeth respondeu, voltando-se para o computador. – Por que?
--Quer sair comigo? – Gabriel replicou.
--Sair com você?! – Elizabeth repetiu, estranhando o convite; logo sentiu uma cutucada no braço e voltou-se para olhar a sua mãe; quem permanecera no quarto, ouvindo a sua conversa, e balançava a cabeça, positivamente, encorajando-a a aceitar o convite. – Mamãe, por favor, vá embora! – Elizabeth exclamou, irritada, ao afastar o telefone da boca e reclamar com a sra. Abbott.
--Não seja mal educada, Lizzie. – A sra. Abbott resmungou, caminhando em direção a porta do quarto. – Isso é modo de tratar a sua própria mãe! – Completou, ao sair do quarto e fechar a porta; mas permanecendo ao corredor, ouvindo a conversa.
--Elizabeth? – A voz de Gabriel chamou a sua atenção de volta ao telefonema e ela decidiu ignorar a sombra que via por debaixo da porta. – Você está me escutando?
--Desculpe-me, minha mãe estava aqui! – Elizabeth explicou-se. – O que você disse?
--Eu ainda não conheci Londres e queria saber se você se importaria de me levar em um tour pela sua cidade. – Gabriel respondeu, de forma animada.
--Você ainda não passeou por Londres? – Elizabeth perguntou, incrédula. – Há quanto tempo você está na cidade?
--Umas três semanas. – Gabriel respondeu. – E só conheço o caminho da escola até minha casa, o caminho do aeroporto e da embaixada Australiana. – Ele enumerou, tranquilamente. – Então, eu estou muito necessitado de um guia turístico! – Ele comentou, implorando.
--Estou entendendo. – Elizabeth respondeu, ainda hesitante.
--Você aceita ser minha guia nesta aventura?! – Gabriel perguntou, galantemente.
Elizabeth permaneceu em silêncio por alguns minutos, tentando se decidir. Não tinha muito o que fazer em casa, podia muito bem sair com ele por algumas horas e tentar se distrair um pouco.
--Tudo bem. – Aceitou com naturalidade.
--Ótimo! – Gabriel exclamou, animado.
Os dois combinaram um ponto de encontro e Elizabeth desligou o telefone. No segundo seguinte, a sra. Abbott entrou novamente no quarto, elogiando a sua decisão sábia de aceitar aquele convite ao invés de passar o sábado dentro de casa. Elizabeth precisou se esforçar muito para tirar a sua mãe de seu quarto e voltar ao computador, tentando, pelo menos, terminar de ler o capítulo da fanfic que estava lendo.
Depois disso, arrumou-se e saiu de casa para se encontrar com Gabriel. Marcaram como ponto de encontro à embaixada Australiana, próxima a estação de metrô submersa Temple. Elizabeth chegou primeiro e ficou esperando Gabriel, observando os transeuntes. Ouviu a voz dele as suas costas, chamando por ela. Quando virou-se em sua direção, ele já se acercava dela. Gabriel parou em sua frente e roubou-lhe um beijo.
--Por que você fez isto? – Elizabeth exclamou, dando um passo para trás e tapando a sua boca com as mãos.
--Eu sei que é costume só beijar a garota no fim do encontro, mas... pensei que seria mais divertido se nós nos beijássemos logo e curtíssemos o resto do passeio sem esta preocupação em mente! – Gabriel explicou-se com naturalidade, como se lhe dissesse a coisa mais lógica do mundo. – Senão, correríamos o risco de passar o dia todo nos preocupando com o momento em que eu lhe beijaria!
--Você é louco?! – Elizabeth perguntou, ainda alarmada, mas já abaixando as mãos.
--Talvez um pouquinho. – Gabriel respondeu, fazendo pouco caso da reação de Elizabeth. – Então, aonde você vai me levar primeiro? – Questionou, olhando a sua volta.
Elizabeth tentou refazer-se do pequeno incidente e relaxar. Como ela sempre gostou muito da arquitetura de Londres, decidiu-se por mostrar a Gabriel as obras arquitetônicas de que mais gostava – demonstrando-lhe o contraste do novo com o antigo. Levou-o primeiro até Swiss re Tower - apelidado por Gherkin (pepino em português), a torre de escritórios que se tornou um dos ícones mais notáveis no skyline da City londrina, não apenas por sua audácia estética, como pela adoção de soluções de vanguarda, do ponto de vista ambiental, tecnológico, arquitetônico e social; o corpo cilíndrico originou um desenho singular para o edifício de 180 metros de altura e 40 pavimentos, localizado na cidade, o centro financeiro de Londres. O edifício utiliza 50 % menos energia que outros do mesmo tamanho.
Depois o levou ao British Museum – é um museu de história e cultura humana em Londres. Sua coleção é de um número maior de 7 milhões de objetos; o maior e mais variado, originado de vários locais do mundo, ilustrando e documentando a história cultural humana desde o começo até os dias atuais – onde se maravilharam com a nova cúpula. Cruzaram a Millennium Bridge sobre o rio Tâmisa, seguindo em direção ao Tate Modern, estação de trem reformada pela prestigiada dupla suíça Herzog & de Meuron, não deixando de passar pela Catedral de Saint Paul – a sede do Bispo de Londres; foi também nesta Catedral que Charles, Príncipe de Gales, casou-se com Lady Diana Spencer, em 1981.
--Como você conseguiu o meu telefone? – Elizabeth perguntou, quando já estava mais relaxada na companhia dele.
--Eu pedi a Kitty. – Gabriel respondeu, admirando a vista do London Eye. – Onde você vai me levar em seguida? – Perguntou, por mera curiosidade.
--Eu pensei em te levar ao Palácio de Westminster, Abadia de Westminster e Igreja de Santa Margarida... – Ela respondeu, distraidamente.
Até ao século XIX a Abadia de Westminster era o terceiro estabelecimento de ensino superior em Inglaterra, após Oxford e Cambridge. Ao longo dos séculos tem tido um papel relevante na história da Inglaterra e do Reino Unido, como palco de inúmeras coroações e casamentos reais. Muitos monarcas britânicos e membros da família real estão sepultados na Abadia. Lá esta enterrado o corpo do famoso físico inglês Isaac Newton e do escritor e naturalista britânico, autor da Teoria de Seleção Natural, Charles Darwin. O Palácio de Westminster é edifício em que funciona o parlamento inglês. E a Igreja de Santa Margarida é a igreja do parlamento.
--Se você me permitir perguntar... – Elizabeth começou, hesitante, observando Gabriel atentamente. – qual é o seu interesse em Kitty?
Gabriel esqueceu-se completamente da vista diante daquela pergunta e voltou-se para Elizabeth, sorrindo.
--Kitty é uma garota legal. – Respondeu, simplesmente.
--Ela tem namorado. – Elizabeth replicou, fazendo Gabriel esconder uma risada debochada.
--Eu notei! – Ele disse, ainda com ar de deboche. – Danny é engraçado. – Comentou, displicente, voltando-se para a vista.
--Engraçado?! – Elizabeth perguntou, não o compreendendo.
--Sim... Ele fica todo zangadinho quando eu estou conversando com ela, mas não toma nenhuma atitude. – Gabriel argumentou, divertido.
--Isso não é engraçado! – Elizabeth discordou. – Como você pode achar isto engraçado?! – Ela o inquiriu, conseguindo que ele voltasse a olhá-la.
--Ohh, por favor! – Ele responde, indiferente.
--Vai me dizer que você fica cercando Kitty de propósito, só para irritar Danny?! – Elizabeth parecia incrédula. – Você faz isto de propósito, não é?! – Diante do silêncio dele, quem não parecia constrangido, Elizabeth teve a sua confirmação. – Por que?
--Porque é divertido! – Gabriel respondeu, simplesmente.
--Não é divertido! – Elizabeth discordou, veemente. – Você já pensou no fato de que você pode estar criando confusão para Kitty?! Quando ela nunca lhe fez nada, além de ser legal com você? – Gabriel voltou a olhar a vista, preferindo não olhar Elizabeth nos olhos. – Você pode estar destruindo o primeiro relacionamento que ela já teve com um garoto!
--Se, ao conversar com ela, eu estou destruindo o namoro dela com Danny, então, talvez, este seja um namoro que não vale a pena manter! – Gabriel respondeu, um pouco irritado. – Se Danny se incomoda tanto é porque não confia nela, no que ela sente por ele! E se ele se sente assim, talvez o que ela sinta por ele não seja assim tão forte! – Argumentou, voltando ao seu comportamento descontraido.
--Kitty é muito inocente e se deixa impressionar facilmente. – Elizabeth começou a defender a sua amiga. – Eu não estou dizendo que ela irá se apaixonar por você e se esquecer de Danny só porque acredita que você gosta dela... – Argumentou, convicta, quando ele voltou a lhe dar atenção. – Mas não saberá como se comportar na sua presença, porque não vai querer lhe magoar... Então, ela lhe dará bastante atenção... O que poderá causar problemas com Danny, quem não vai entender isso! – Diante das explicações dela, Gabriel não tinha mais argumentos. – Além do mais, quem lhe deu o direito de julgar se vale a pena ou não para Kitty manter o relacionamento amoroso com Danny?! – Ela exigiu saber, ainda mais irritada. – Eu pensei que você pudesse ter algum interesse genuíno em Kitty, mas você só está dando em cima dela para irritar Danny, porque está entediado... Isso é maldade pura! – Ela o recriminou.
--Tudo bem! – Gabriel ergueu as mãos para o alto, em sinal de rendimento, e disse. – Eu não vou mais dar em cima de Kitty! Satisfeita?!
--Sim! – Elizabeth replicou, ainda o olhando atravessado. – Na verdade, não! – Voltou atrás logo em seguida. – É melhor você ficar longe todas as minhas amigas! – Completou, de forma autoritária, pensando em Lydia (quem poderia facilmente se envolver em novas confusões com George).
--Parece-me que você quer exclusividade! – Gabriel disse, sorrindo sedutoramente.
--Ahh... – Elizabeth ficou surpresa com o seu raciocínio, mas logo começou a rir. – Claro! Pense assim, se lhe agrada! – Comentou, fazendo pouco caso do comentário dele.
Os dois seguiam o passeio a pé pelas ruas de Londres, calmamente, quando Gabriel perguntou, da mesma forma em que ela o inquiriu minutos antes.
--E você se incomodaria de me contar qual é a história entre você e o boa-pinta, Will Darcy? – E a viu ficar boquiaberta por alguns segundos, depois estreitar o olhar. – E não adianta negar, porque eu já ouvi rumores na escola a respeito de vocês dois! – Resmungou, indignado, quando percebeu que ela estava preste a lhe dar uma resposta falsa.
--Neste caso você não precisa que lhe conte nada. – Elizabeth refutou. – Pergunte a qualquer um na escola, tenho certeza de que irá encontrar alguém muito bem disposto a lhe contar tudo!
--Eu prefiro saber por você. – Gabriel replicou. – Vamos! Eu não sou cego! E mesmo um cego consegue perceber que ele é perdidamente apaixonado por você! E vice-versa!
A princípio Elizabeth não disse nada. Até que o fitou alarmada e disse.
--Se você sabe que gosto dele, por que me beijou? – Ganhando um sorriso maroto de Gabriel.
--Porque, por alguma razão a mim desconhecida, vocês dois não estão juntos... De forma que eu ainda tenho uma chance! – Voltando a silenciá-la. – Não me custou nada tentar. – Riu-se, por fim. – E então, qual é a história?
--Nós namoramos... – Elizabeth disse, pensando em seguida: “Se é que um dia pode ser considerado namoro!” – e não deu certo. – Completou, de má vontade, sem dar muitos detalhes.
--E não tem volta? – Gabriel perguntou, curioso.
Elizabeth nunca lhe respondeu esta pergunta, mas Gabriel não precisou dela para saber que o máximo que seriam era amigos. E decidiu aproveitar o resto do passeio e a companhia dela.
Come Pick Me Up – Ryan Adams
When they call your name
(Quando eles chamam por seu nome)
Will you walk right up
(Você se aproxima imediatamente)
With a smile on your face
(com um sorriso no rosto?)
Or will you cower in fear
(Ou você se acovarda, amedrontada)
In your favorite sweater
(em sua suéter favorita)
With an old love letter
(com uma carta de amor antiga?)
I wish you would
(Eu queria que você)
I wish you would
(Eu queria que você)
Come pick me up
(Viesse me buscar)
Take me out
(Me levasse para passear)
Fuck me up
(Me arrasasse)
Steal my records
(Roubasse meus discos)
Screw all my friends
(Ignorasse meus amigos)
They’re all full of shit
(Eles são todos bobos)
With a smile on your face
(Com um sorriso no rosto)
And then do it again
(E então fizesse de novo)
I wish you would
(Eu queria que você)
When you’re walking downtown
(Quando você está passeando pela cidade)
Do you wish I was there
(Você queria que estivesse presente?)
Do you wish it was me
(Você queria que fosse eu?)
With the windows clear and the mannequins eyes
(Com as janelas limpas e o olhar de manequim)
Do they all look like mine
(Todos eles são parecidos com o meu?)
You know you could
(Você sabe que poderia)
I wish you would
(Eu queria que você)
Come pick me up
(Viesse me buscar)
Take me out
(Me levasse para passear)
Fuck me up
(Me arrasasse)
Steal my records
(Roubasse todos os meus discos)
Screw all my friends behind my back
(Ficasse com todos os meus amigos às minhas costas)
With a smile on your face
(Com um sorriso no rosto)
And then do it again
(E então fizesse mais uma vez)
I wish you would
(Eu queria que você)
I wish you’d make up my bed
(Eu queria que você fizesse a minha cama)
So I could make up my mind
(Para que eu pudesse me decidir)
Try it for sleeping instead
(Tente dormir, ao invés)
Maybe you’ll rest sometime
(Talvez você conseguisse descansar um pouco)
I wish I could
(Eu queria poder)
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Thomas apertou o botão do interfone do prédio em que Mary mora, sorrindo para si mesmo. Não houve resposta, então ele apertou o botão de novo. Um minuto depois, ouviu uma voz feminina soar pelo interfone, dizendo “já estou descendo!”, de forma curta e grossa. O que só aumentou o seu sorriso, pensando: eu vou me divertir muito neste encontro!
Ele deu as costas ao portão de ferro e caminhou para perto do seu carro. Colocando as mãos enluvadas dentro do bolso do seu casaco, encostou-se a porta de passageiro do carro, fitando o portão do prédio. Ela não demorou a surgir ao portão, vestida com uma calça jeans azul marinho, um suéter de lã verde musgo, uma jaqueta de inverno comprida preta, luvas pretas, botas pretas e um cachecol de lã do mesmo tom de seu suéter. Caminhou até ele com um ar de poucos amigos, parou a sua frente e cruzou os braços.
--Boa tarde, Vandinha! – Thomas a cumprimentou, sorridente. – Ou seria boa noite?!
--Meu nome não é Vandinha! – Mary refutou, entre dentes cerrados.
--Pronta para o nosso encontro, Mary? – Ele perguntou, com uma voz rouca e sedutora, desencostando-se do carro.
Mary, instintivamente, deu um passo para trás, tentando impedir qualquer proximidade física.
--Estou. – Respondeu, hesitante, mas querendo transparecer segurança.
--Ótimo! Vamos, então.
Ambos tentaram abrir a porta de passageiro do carro ao mesmo tempo, mas Thomas alcançou a maçaneta primeiro. Sorrindo, ao olhar dentro dos olhos de Mary, ele abriu a porta. Ela se apressou em entrar no carro. Ele ainda a fitou por alguns segundos, parado ao lado da porta de passageiro ainda aberta. Até que Mary a puxou, fechando-a. Ele riu e caminhou para o outro lado, entrando no carro também.
--Eu tenho duas mãos, posso muito bem abrir e fechar a porta do carro sozinha! – Mary reclamou, quando ele ligou o carro.
--Não seria muito cavalheiresco de minha parte permitir isto. – Thomas replicou, displicente.
--Eu lhe aconselho a guardar o papel de galã de novela de quinta categoria para outra garota; não vai funcionar comigo!—Mary rebateu, tentando prestar atenção na direção em que seguiam. – Onde você está me levando? – Perguntou-lhe, dirigindo o olhar para ele.
--É surpresa. – Thomas respondeu, com um brilho inconfundível no olhar.
Mary voltou a sentir aquele mesmo desconforto no estomago. Odiava se sentir nervosa, o que sempre acontecia quando ele estava por perto.
--Nós chegamos. – Thomas disse, animado, quinze minutos depois, ao estacionar o carro.
Mary ergueu o olhar para o prédio a frente de onde Thomas estacionara o seu carro e disse, erguendo uma sobrancelha.
--Uh, nós vamos a um mercadinho?!
--O que? – Thomas olhou na mesma direção em que ela estava olhando e viu que o prédio a frente era realmente um mercadinho. – Não, não, não. – Ele apontou para o prédio a esquerda. – É para lá que nós iremos!
Mary olhou na direção em que ele indicou e viu um prédio vermelho com uma placa enorme, em que se lia: LASER TAG – Laser Tag é um jogo individual ou coletivo em que os jogadores tentam ganhar pontos ao atingir alvos, tipicamente com uma arma com dispositivo infravermelho. Mary olhou desconfiada para Thomas. Este não era o tipo de encontro que ela imaginou que ele arquitetaria para os dois; esperava não gostar do encontro, no entanto, já estava começando a se animar. Sempre teve certa curiosidade em jogar este jogo, mas nunca teve uma oportunidade.
--Assustada? – Thomas perguntou, quando ela não comentou nada sobre a sua escolha para o encontro dos dois.
--De que?! Te vencer?! – Mary refutou. – Nem um pouco! – Abrindo a porta do carro e saindo, sentindo o vento frio no rosto.
Thomas desceu do carro em seguida, sorrindo ao distinguir certa animação no tom de voz dela, e a acompanhou até o prédio. Eles entraram no pequeno prédio vermelho, sendo acolhidos pelo calor do sistema de aquecedor. Mary tirou o seu cachecol e guardou-o dentro do bolso de sua jaqueta, juntamente com as luvas, observando o movimento de outras pessoas comprando ingressos no balcão de venda. Thomas seguiu o seu exemplo.
Eles se aproximaram do balcão de vendas e Thomas comprou dois ingressos, entregando o seu casaco, assim como o de Mary, a uma atendente, para que ela os guardasse na chapelaria.
--Você e a sua namorada se importam de se juntar àquele grupo? – A atendente perguntou. – Eles precisam de mais duas pessoas para completar o grupo.
--Por mim tudo bem. – Thomas replicou, voltando-se para olhar Mary. – E você, o que acha, amor?
--Não me chame assim! – Mary resmungou, estreitando o olhar, fazendo Thomas rir.
--Nós vamos nos juntar ao outro grupo. – Thomas disse, voltando-se para a atendente e percebendo-a olhar para eles de forma assombrada.
Eles se juntaram ao outro grupo, se apresentando, antes do instrutor do jogo começar a explicar as regras. O instrutor os guiou até outra sala, onde encontraram coletes e as armas de infravermelho para todos do grupo. O qual foi dividido em dois, amarelo e verde, ambos cor fosforescente – Thomas participando do grupo verde e Mary do amarelo.
--Ok... As regras são... – O instrutor disse, ao ver que a maioria do grupo já vestira seu colete e tinha a arma em mãos. – Vocês têm direito a duas horas de jogo... cada um deve vestir um colete e pegar uma arma. O objetivo é acertar o seu adversário... Quando você for atingido, o colete irá vibrar e a sua arma não funcionará por um trinta segundos. Caso o tiro tenha sido certeiro, a sua arma ficará sem funcionar por um minuto. Se você for atingido cinco vezes em menos de meia hora, você fica fora do jogo pelo resto das duas horas. Após as duas horas, o grupo que tiver atingido mais alvos vencerá e ganhará ingressos de meia hora para um novo jogo com o prazo de quinze dias. – Ao fim do discurso, o instrutor observou todos ao seu redor, ouvindo algumas provocações entre adversários. – Estão prontos?
Thomas procurou por Mary e a viu tentando fechar a fivela do colete de seu grupo, mas sem ter sucesso. Calmamente, caminhou até ela, depositou a sua arma no balcão ao lado e tomou a fivela do colete dela em mãos, fechando-a para ela. Enquanto Mary tentava ignorar a sensação estranha que sentiu nas pontas dos dedos quando Thomas tomou a fivela de suas mãos, assim como as batidas apressadas de seu coração ao fitar aquele par de olhos cor de mel.
--Aqui. – Thomas disse, entregando-lhe uma arma e retornando ao seu grupo.
Os dois grupos se enfileiraram em uma porta e quando ouviram uma sirene, as portas se abriram para um labirinto completamente escuro, iluminado por luzes negras. Cada grupo foi direcionado a uma das entradas do labirinto e as portas foram fechadas. Rapidamente, as pessoas se dispersaram, procurando seus alvos. Mary se viu sozinha em um corredor do labirinto. Ela sabia que em algum lugar daquele labirinto, Thomas a estava procurando para poder atingi-la e tirá-la do jogo.
Mary caminhava devagar e apreensiva pelo corredor escuro, tomando muito cuidado ao fazer uma curva. Ficando imóvel e em silêncio, sempre tentando escutar alguém se aproximando pelo outro corredor antes de se aventurar. Alguns minutos depois, já sentindo a adrenalina à flor da pele, ouviu passos pelo outro corredor, vindo em sua direção. Esperou imóvel em um canto e apontou a arma na direção do barulho. Como estava com roupas escuras, ficava fácil para se esconder.
Thomas parou na esquina de um corredor, cauteloso. Jurava ter escutado um barulho, uma respiração pesada. Sabia que alguém estava a sua espreita ao outro corredor. Apontou a sua arma e ao virar a esquina, acionou a sua arma. Mas sentiu o seu colete vibrar e a arma não funcionar. Ao erguer o seu olhar para o seu adversário, ficou boquiaberto ao se deparar com Mary – assim como ele, espantada por ter acertado-o antes que ele pudesse tê-la atingido.
Mary saiu correndo pelo corredor do labirinto, indo na direção contrária a dele. Sabia que assim que a arma dele voltasse a funcionar, ele viria a sua busca. Deixando Thomas ainda ali, boquiaberto, observando a sua figura em retirada desaparecer na escuridão do corredor daquele labirinto. Saindo de seu transe, Thomas olhou para a sua arma e viu um cronômetro contando um minuto regressivamente e pensou, “ela me acertou em cheio!”. Segundos depois, conseguiu ouvir a risada dela distante, “Ótimo! Ela está começando a se divertir!”
Thomas não esperou a sua arma voltar a funcionar para ir atrás dela. Inicialmente, atravessou o corredor escuro às pressas, mas, aproximando-se de uma outra esquina, parou de correr e ficou tentando escutar algum barulho. Não escutou nada, mas preferiu esperar a sua arma voltar a funcionar antes de se aventurar no outro corredor. Quando os cinco segundos restantes terminaram, estava pronto para virar a esquina, mas escutou passos. Ficou parado, apreensivo – “Mary não voltaria pelo mesmo corredor sabendo que estou aqui!”, pensou.
De repente, viu um borrão amarelo florescente virar a esquina. Imediatamente acionou a sua arma e atingiu um rapaz alto do grupo de Mary, fazendo o seu colete vibrar e a sua arma paralisar por trinta segundos. Apressado, passou pelo rapaz e continuou a sua busca por Mary, ignorando os resmungos do rapaz que tinha atingido.
Trinta minutos depois, Thomas ainda não tinha conseguido encontrar Mary. Tinha sido atingido duas vezes e acertara cinco adversários, mas não encontrava Mary. Enquanto isto, ela já tinha sido atingida três vezes e acertado oito adversários, do outro lado do labirinto. Perfeitamente consciente de que nunca se divertira tanto na vida.
Mais trinta minutos se passaram, quando eles finalmente se encontraram. Thomas a viu passar rapidamente enfrente ao corredor em que se encontrava e apressou-se a segui-la, vendo-a dobrar a esquina adiante. Cuidadosamente, continuou a segui-la. Quando virou a esquina, com a sua arma apontada e a acionou, sentiu o seu colete vibrar.
--De novo não! – Ele exclamou, contrariado, observando o cronômetro de sua arma ser acionado com um minuto mais uma vez.
Mas, ao erguer a cabeça, viu que o colete de Mary também estava vibrando e ela olhava para o cronômetro da própria arma.
--Merda! – Ela reclamou, erguendo a cabeça e o fitando.
--Ohh, eu lhe acertei desta vez, hem?! – Thomas riu-se, dando-lhe as costas e atravessando outro corredor às pressas.
Mary riu-se e seguiu o seu exemplo, atravessando o corredor em outra direção. E o jogo continuou. Mais cedo que imaginaram, o tempo se esgotou e as luzes da sala do labirinto foram acesas. O jogo terminou. Respirando com dificuldade, os participantes de ambos os grupos retornaram a sala de equipamentos e devolveram as suas armas e coletes. O instrutor surgiu em pouco tempo, anunciando que o grupo amarelo vencera o verde por dois pontos. De forma que, Mary ganhou um ingresso de meia hora para ser usado nos próximos quinze dias.
Ao sair do prédio do Laser Tag, Mary sorria de forma convencida para todas as piadinhas de Thomas, por seu grupo ter vencido a competição e por ela tê-lo acertado em cheio no começo do jogo. Admirada que Thomas não parecesse irritado por ter sido vencido por um a menina, mas sim contente por ela ter se divertido tanto.
Ele a guiou de volta ao carro e, mais uma vez, abriu a porta de passageiro para ela. No entanto, Mary se quer notou seu gesto, porque estava ocupada demais refutando a sua última piadinha. Eles seguiram o passeio, Thomas a levando para jantar em um restaurante de comida japonesa.
Ao vê-lo estacionar o carro enfrente ao restaurante, Mary o fitou desconfiada. Durante o jogo conseguira esquecer-se da forma que Thomas conseguiu convencê-la a sair com ele, mas ao deparar-se com o restaurante japonês, voltou a se lembrar de suas ameaças na tarde do dia anterior. Sabia que os avós de Shung tinham também um restaurante de comida japonesa na cidade, além da loja de eletrônicos. E ficou se perguntando se Thomas estaria a levando ao restaurante da família de Shung, em uma tentativa de encenar um jantar romântico de namorados para Shung.
--Algum problema? – Ouviu a voz dele ao seu lado e olhou em sua direção.
--Não. – Mentiu. – Nenhum. – Não iria admitir os seus receios, temia encorajá-lo mais ainda.














