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Como nos lembramos rapidamente das razões para aprovar aquilo que desejamos! (Jane Austen)

Come Pick me Up and Take me Out - Capítulo LXXIV

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Capítulo 74

 

O discurso de Will na biblioteca deixou Elizabeth emocionada e confusa. Ela não sabia o que fazer; sabia o que o seu coração queria que ela fizesse, mas não sabia se tinha coragem de se expor novamente. Ainda se sentia muito insegura, embora acreditasse nas palavras dele. Sabia que se ele voltasse a lhe pedir para reatar o namoro não conseguiria dizer não. E conforme o dia foi passando, a certeza de que o queria de volta se fixava mais em sua mente. Mas não conseguia ter coragem de pedir a ele para reatar o namoro por conta própria.

            Os dias seguintes seguiram-se em uma tortura interminável; sempre que estavam juntos, Elizabeth imaginava se ele pediria para conversar com ela a sóis. Ou, quando ia a biblioteca, ficava esperando que ele aparecesse e se declarasse mais uma vez. Mas ele não o fez.

Elizabeth, então, passou a analisar cuidadosamente as palavras que ele lhe dissera na biblioteca, procurando por um indício de como deveria se comportar com ele. Será que ele estava esperando uma resposta dela?E que resposta seria esta? Ele não pediu para reatarem o namoro... Então, o que ele poderia querer que ela fizesse?!

            Ela deduziu que devia partir dela a reaproximação, já que lhe parecia que ele estava esperando uma reação de sua parte antes de tentar qualquer coisa. “Mas como agir?”, era a pergunta constante em sua mente.

            Quarta-feira foi se encontrar com Georgiana na sala em que ela toma aulas de piano com a sra. Delacour, antes de ir para a sua aula de dança. Jane decidira se juntar as outras meninas mais cedo, porque com a aproximação do mês de Dezembro o grupo de dança delas estava em frenesi tentando aprender a coreografia da música que dançariam durante a Festa de Natal da escola.

            Quando entrou na sala de música, Georgiana estava tocando um pedaço da música de Chopin, Nº1 Rondó – Vivace fragmento, sem a presença da sra. Delacour – quem saíra minutos antes, ao fim da aula. Notando a presença de Elizabeth, Georgiana parou de tocar a música e lhe deu sua total atenção.

--Esta é a música que você terá de tocar na Festa de Natal? – Elizabeth questionou, recebendo um aceno de Georgiana em confirmação. – Por que eu tenho a impressão de que você não está muito contente com isso?

--É que… eu não estou... – Diante da expressão interrogativa de Elizabeth, georgiana explicou-se. – Eu não queria tocá-la na festa de Natal da Escola. Todo mundo vai estar lá e vai me ver tocando! – Georgiana argumentou. – As meninas daqui já implicavam comigo por saberem que eu toco piano, quando me virem tocando esta música então...

--Eu pensei que você não se importasse mais com o que as meninas pensam sobre você tocar piano! – Elizabeth a lembrou.

--Eu não me importo! – Georgiana reafirmou. – Mas elas não vão ser as únicas a me verem tocando piano!

Por um instante, Elizabeth não soube do que Georgiana estava falando; até que se lembrou que a Festa de Natal de Austen House seria em união com a de Johnson’s High.

--Entendo. – Replicou, sorrindo para Georgiana. – Owen a verá tocando piano também. – Georgiana escondeu o seu rosto corado ao fitar o chão. – Ele não sabe que você toca piano, Ana?

--Sabe?

--E ele pensa da mesma forma que as outras meninas? – Elizabeth questionou, tentando entendê-la melhor.

--Não! – Georgiana disse. – Mas ele é um menino! – Georgiana disse, irracionalmente. – E meninos da minha idade não gostam deste tipo de música! – Completou, tentando convencer Elizabeth de que estava certa. – Se eu pudesse tocar uma música mais animada, uma música conhecida, talvez ele não viesse a pensar que eu sou tão chata!

--Você não é chata, Ana! – Elizabeth afirmou, veemente. – Owen não irá pensar que você é chata! – Elizabeth garantiu.

            Por um lado, Elizabeth entendia o receio de Georgiana. Ela já era criticada por suas amigas por tocar piano e ter de fazê-lo na frente de toda a escola, por si só, já era bastante intimidador. Somando a isto, a presença do menino de quem ela gosta e o medo de que ele também pense como suas amigas.

--Eu estou numa situação parecida com a sua, para falar a verdade. – Elizabeth disse a Georgiana.

--É mesmo?

--Sim. Como a Festa de Natal será em união com a Johnson’s High, o nosso grupo de dança foi obrigado a se unir ao de Caroline, para dar oportunidade ao grupo de dança de Johnson’s High também fazer sua própria apresentação. Desta forma, você pode imaginar como tem sido os ensaios nas últimas semanas! – Elizabeth explicou. – Caroline reclama de tudo! Da música que vamos dançar, da coreografia que é muito discreta... quando ela queria algo mais ousado; ou devo dizer, vulgar mesmo! – Georgiana riu-se, ao mesmo tempo em que fazia uma careta. – Chega a me deixar sem vontade de dançar! – Elizabeth continuou. – Como agora, por exemplo: Jane está na sala de dança com as meninas, aprendendo a coreografia, e eu estou aqui, adiando o momento de ter de ir para lá e ouvir as lamurias de Caroline! Ela conseguiu tirar toda a diversão das minhas aulas de dança!

--E o que você vai fazer? – Georgiana perguntou, interessadíssima; Elizabeth sempre lhe pareceu uma menina criativa, talvez ela pudesse se espelhar na solução de Elizabeth para resolver o seu problema.

--Eu não sei... ainda. – Elizabeth disse, mas, fitando Georgiana, sorriu. – Eu acabei de ter uma idéia! – Exclamou, animadíssima.

            Georgiana se empertigou em seu banquinho enfrente ao piano e ouviu tudo sobre a idéia de Elizabeth excitada. Como imaginara, Elizabeth conseguiu encontrar uma solução para o problema das duas. E não perdeu tempo em colocar o seu plano em ação; no dia seguinte tratou de conversar com todas as pessoas necessárias para que a sua idéia alcançasse o êxito desejado. Com certeza, a pessoa mais difícil de ser convencida foi a sra. Delacour – mas até mesmo ela caiu na lábia de Elizabeth, juntamente com o olhar pidão de Georgiana.

            Sentada no pátio de recreação no inicio de mais uma manhã, ouvindo a conversa distante de Lydia e Catherine sobre Daniel e seu comportamento “estranho” – Catherine não conseguia entender porque Daniel sempre agia de forma fria e distante quando Gabriel se aproximava dela para conversar – Elizabeth fitava Will, quem estava do outro lado do pátio na companhia de Richard e Charlotte.

            Ela finalmente sabia como era exercer o papel de admirador secreto (em seu caso, admiradora). Era a primeira vez que passava tanto tempo olhando fixamente uma pessoa sem ser notada. Ela tinha consciência de que os corredores da escola não era o ambiente apropriado para tentar uma reconciliação. Estava cansada de ser motivo de fofoca, por isso estava determinada a ser o mais discreta possível.

            Ao conceber outra idéia brilhante, como se um anjo lhe desse uma divina inspiração, voltou-se para as suas amigas e deu a sua total atenção a conversa delas.

--Como assim: ele está sempre zangado? – Lydia perguntava a Catherine.

--Ele quase não diz uma palavra e sempre se afasta de mim quando Gabriel se aproxima! – Catherine replicou.

--Talvez ele não goste de Gabriel. – Lydia respondeu, fazendo pouco caso da situação.

--Por que ele não gostaria de Gabriel? – Catherine inquiriu. – Que eu saiba, Gabriel nunca fez nada a Danny!

--Por favor, Kitty! – Lydia resmungou, impaciente. – Às vezes você é tão ingênua!

--O que?! – Catherine insistiu, não entendendo a insinuação de Lydia.

--Ele está com ciúmes, Kitty! – Elizabeth interveio; a atitude provocadora de Lydia a irritava algumas vezes.

--De quem?! – Catherine continuou sem compreender.

--De você com Gabriel! – Lydia exclamou, revirando os olhos.

--Por que ele ficaria com ciúmes? – Catherine insistiu.

--Porque ele está vendo outro menino cercando a namorada dele bem diante de seu nariz! – Elizabeth replicou, começando a perder a paciência com Catherine.

--Gabriel não fica me cercando! – Catherine negou, considerando a idéia de Elizabeth absurda.

--Ahh, eu desisto! – Lydia exclamou, erguendo-se do banquinho e se afastando das meninas; decidindo ir procurar o seu namorado.

--Danny está vendo você ser amável demais com o menino que você conheceu há pouco tempo. – Elizabeth, ao contrário de Lydia, não desistiu tão facilmente. Iria explicar a Catherine o seu ponto de vista. – Como você se sentiria se estivesse no lugar dele? Se ele conhecesse uma menina nova na escola e de repente ela não desgrudasse mais dele?

            A pergunta de Elizabeth silenciou Catherine por um bom tempo. A princípio, as feições dela ficaram duras e, até, tristes. Mas logo se iluminou e, sorrindo, Catherine disse.

--Ele está com ciúmes! – Animadíssima. – Lizzie, Danny está com ciúmes!! Ciúmes de mim!!! De MIM!!!!

Elizabeth ficou espantada com o comportamento da amiga, mas começou a rir da felicidade boba de Catherine ao descobrir que o namorado sente ciúmes dela.

  Ao ouvirem o sinal, anunciando o inicio das aulas daquele dia, Elizabeth incitou Catherine a segui-la. Antes de atravessar os portões do pátio, olhou na direção de Will – ele também já se dirigia aos corredores da escola. Quando seus olhares se cruzaram, Elizabeth desviou o olhar, constrangida por ter sido pega olhando fixamente para ele.

No final do terceiro período, antes do inicio do recreio, Elizabeth notou que a sua folha de caderno estava repleta de rabiscos com o nome Fitzwilliam, sr. Darcy e Will. Riu-se de si mesma, ao perceber que gastara os vinte minutos restantes de aula pensando nele ao invés de estar fazendo a atividade que o professor passara. Pensou: “Pelo menos, eu não desenhei milhares de coraçõezinhos!”, sentindo-se estúpida.

_____________________________

            Will tentava com todas as suas forças não ficar olhando para Elizabeth como de costume. No entanto, de minuto em minuto, rendia-se as suas desejos, erguia a cabeça de sua bandeja de lanche e fitava o rosto de Elizabeth. Ela estava olhando fixamente para o seu próprio lanche, beliscando uma coisa ou outra. Mas o seu lanche continuava, em grande parte, em sua bandeja, intacto.

            Ele pôde perceber também que ela parecia estar perdida em pensamentos; ocasionalmente, suspirando. O que ele não sabia, contudo, era que ela estava olhando para ele todas as vezes que suspirou. Isto sempre ocorria quando ele estava olhando para o seu próprio lanche, tentando parar de espiá-la.

            Em um determinado momento, ela ergueu a cabeça, o encontrando a fitá-la, e sem retirar os olhos dele, disse.

--O que vocês vão fazer amanhã?

            A pergunta dela o tomou por surpresa e Will continuou a fitá-la, em silêncio; perguntando-se se ela estaria falando com ele em particular. Entretanto, diante do silêncio dele, Elizabeth virou o rosto na direção de Richard e Charlotte.

--Richard tem um trabalho de Biologia para entregar na segunda-feira e eu vou ajudá-lo. – Charlotte respondeu.

--Charles e eu iremos ao cinema. – Jane replicou quando sua irmã lhe dirigiu o olhar. – Vamos assistir “A Outra” (The Other Boleyn Girl).

--Ohh, eu queria ver este filme! – Elizabeth exclamou.

--Por que você não vem conosco? – Charles sugeriu.

--Não, Charles! Obrigada, mas prefiro não atrapalhar o sábado de vocês dois. – Elizabeth replicou, consciente do inconveniente que seria para os dois.

--Você não atrapalharia nada se tivesse sua própria companhia! – Charles argumentou, olhando de soslaio para Will. Ele tinha notado o comportamento dos dois durante aquele intervalo. – Will poderia nos acompanhar, certo Will? – Questionou o amigo, rindo-se.

            Elizabeth tentou conter o sorriso que ameaçava estampar-se em seu rosto ao ouvir aquela proposta de Charles, mas dirigiu um olhar cheio de brilho e expectativa na direção de Will.

--Eu não posso. – Will respondeu despreocupado; até o momento em que viu o olhar desapontado de Elizabeth e teve a sensação de que ela murchou em sua cadeira, encolhendo os ombros. – Eu... Eu não posso. – Will repetiu, olhando para ela, inconformado.

            O que estava acontecendo?! Ele se perguntava. Seria possível que ela desejasse a sua companhia? Ou ela apenas estava decepcionada por não poder ir ao cinema, assistir “A Outra”? Mas a recordação da primeira e única vez em que foram ao cinema juntos invadiu a sua mente e fez o seu coração bater mais acelerado.

--Por que não? – Charles recuperou a sua atenção.

--Eu... Eu... – Will tentou se concentrar na pergunta de Charles e respondê-la coerentemente. – Minha tia está para chegar em Londres e meu pai disse que iríamos supervisionar a montagem dos móveis encomendados e da decoração da casa que ele comprou em nome dela este sábado.

--Hei Will, quando é exatamente que tia Eleonor chegará? – Richard perguntou. – Minha mãe me contou, mas não consigo lembrar...

--Meu pai não tem certeza ainda. – Will respondeu, olhando para o primo. – Entre a próxima semana e a seguinte. Depende de ela conseguir concluir a venda da filial nos EUA... – Argumentou, distante; sua mente teimava em querer se concentrar no porque do comportamento de Elizabeth. – Tia Eleonor garantiu que estaria aqui para a Festa de Natal da escola, ela quer ver Georgiana tocando piano. – Ele se forçava a não interpretar as atitudes de Elizabeth conforme os seus desejos. – Tia Eleonor ficou muito impressionada com os relatos de minha mãe sobre as aulas de Georgiana e, como quando ela foi para os EUA Georgiana estava começando a tocar piano, está ansiosa para vê-la durante o recital.

            Ele voltou a sua atenção a Elizabeth mais uma vez, mas ela já não estava mais olhando para ele. Estava olhando para o seu lanche e parecia ter retornado ao seu estado perdido em pensamentos novamente.

--Espero que ela não fique decepcionada com o repertório. – Elizabeth murmurou para si mesma, mas ele conseguiu ouvi-la.

--O que disse? – Ele perguntou, conseguindo que ela voltasse a olhar para ele.

--Nada. – Ela desconversou.

            Passado um minuto, em que ela sustentou o seu olhar, disse.

--E quanto ao domingo?

--Domingo? – Ele demorou a entender o sentido da sua pergunta.

--Ahh, este domingo nos vamos ter a nossa corrida anual de kart, lá em casa! – Charles respondeu, animado.

--Corrida anual de Kart? – Elizabeth questionou, intrigada.

--É! – Richard também se animou com o assunto. – Nós sempre fazemos uma corrida na pista de Kart da casa de Charles nesta época do ano.

--A pista fica ótima para derrapagens por causa do clima e temos que aproveitar enquanto ainda não está nevando! – Charles argumentou.

--Posso ir? – Elizabeth perguntou, com aquele mesmo brilho e excitação em seus olhos.

--Claro. – Charles respondeu. – Eu ia mesmo convidar Jane e vocês, meninas, para irem assistir!

--Charles, por favor! – Elizabeth disse, impaciente. – Diga-me: eu pareço o tipo de garota que fica sentada, assistindo os outros se divertir?! – Com o seu jeito impertinente de sempre.

--Não. – Charles respondeu, franzindo a testa.

--Você quer dizer que quer participar da corrida? – Richard perguntou, desconfiado.

--É claro! – Charlotte respondeu por ela, porque também se animara com a idéia.

--E você já dirigiu um carrinho de corrida? – Will perguntou a Elizabeth, ganhando sua atenção novamente.

--Não. – Elizabeth respondeu, calmamente. – Mas se você consegue, sr. Darcy, tenho certeza que não deve ser tão difícil assim! – Ela argumentou, com o tom petulante, mas sorrindo para ele.

            Os seus amigos riram da resposta dela e concordaram com que ela e as meninas participassem, incluindo uma aposta entre os meninos e as meninas, para saber quem ganharia. Enquanto Will sentia seu coração bater selvagem em seu peito; não conseguia lembrar-se da última vez que a ouvira se dirigir a ele de “sr. Darcy” com aquele jeito maroto, o desafiando a irritá-la. Tão pouco imaginava que ficaria tão feliz ao ouvir alguém se dirigir a ele desta forma, até este momento. Poderia ser que o seu pedido de desculpas sortisse o efeito desejado e ela estivesse começando a perdoá-lo?!

_________________________________

            Thomas fitava o portão do prédio em que Mary mora a cerca de uma hora. Sentia-se contrariado ao pensar que tudo poderia ser em vão; Mary podia, muito bem, passar o dia inteiro em casa ou já ter saído, sem que ele percebesse. No entanto, não tinha a intenção de sair dali.

            A sua semana foi turbulenta e por isso não pôde por o seu plano em ação com antecedência. Mas considerava que até mesmo isto seria para o seu beneficio. Pensava que Mary estava se sentido segura novamente sem a sua presença no decorrer dos dias e abaixaria a guarda, proporcionando-lhe a melhor oportunidade para atacar.

            E era isto o que ele estava esperando ali, sentado em uma livraria, tomando um latte – Latte é simplesmente "leite" em italiano. Em países de língua inglesa, refere-se normalmente a um dos vários tipos de bebidas de café, preparadas com leite. Em Itália é conhecido como "caffè e latte" (geralmente "caffellatte"), palavra a palavra "café e leite" e fingindo ler um livro qualquer que escolheu em uma das dezenas de instantes de livros. Esperando o momento em que ela sairia de casa e ele a seguiria, aguardando o momento certo de agir.

            Mais uma hora se passou e a paciência de Thomas já estava por um fio. Até que as suas preces foram atendidas e ele a viu sair por aquele mesmo portão de ferro que os separou algumas noites atrás. Thomas ergueu-se de seu banquinho próximo a janela, devolveu o livro a primeira estante que encontrou pela frente e pagou por aquilo que consumiu durante a sua vigília. Apressou-se a sair da livraria e vasculhou os dois lados da rua, procurando por ela.

            Achando o seu alvo, passou a segui-la a pé. Não queria correr o risco de perdê-la, caso ela decidisse se locomover por meio do metrô. Caminhou por um tempo, até que suas suspeitas foram confirmadas e Mary entrou na primeira via de acesso ao metrô que encontrou. Thomas continuou a segui-la, mantendo certa distância.

            Ambos tomaram o trem ao centro de Londres e a perseguição continuou a pé. Thomas percebeu que estavam indo em direção ao shopping e logo começou a se perguntar que tipo de loja Mary viria a fazer suas compras. Riu consigo mesmo quando ela entrou em uma loja de materiais eletrônicos.

            Aguardou um minuto e, aproveitando que um casal de estranhos entrava na mesma loja, entrou também, escondendo-se atrás de alguns stands de venda. Avistou Mary a um balcão ao fundo da loja, aguardando o momento em que seria atendida por um rapaz que, naquele momento, estava de costas para ela – e, conseqüentemente, para Thomas também.

            Quando o rapaz virou-se, Thomas reconheceu o seu rival, Oguri Shung. Ele, Shung, sorriu para Mary e, instantaneamente, os dois iniciaram uma conversa agradável. O seu impulso em agir foi maior que o seu autocontrole e frieza calculista. Thomas saiu de trás do stand de vendas e caminhou em direção a Mary com passos largos e decididos. Parou ao seu lado ao balcão, enlaçou a sua cintura, inclinou-se sobre ela e deu-lhe um beijo no rosto, dizendo.

--Comprou tudo o que queria, amor? – Em um murmúrio rouco e amoroso, mas alto o suficiente para ser ouvido por Shung.

            O espanto de Shung com a cena que presenciou só não foi maior que o de Mary, quem virou o rosto na direção de Thomas e o fitou, boquiaberta.

--Quanto deu? – Thomas inquiriu a Shung, levando a sua mão livre até o bolso da calça e retirando a carteira, sem direcionar o olhar a Shung.

            Mary se recuperou do susto e se afastou de Thomas com um movimento brusco; o qual Thomas disfarçou ao usar as duas mãos para abrir a carteira e retirar uma quantia alta de dinheiro. Finalmente erguendo a cabeça, fitou Shung nos olhos, quem ainda estava surpreso com o que via – Thomas nunca tinha visto os olhos de um japonês tão abertos antes.

--Hei, eu conheço você! – Thomas disse, fingindo surpresa ao “reconhecer” Shung. – Seu nome é Shung, certo? Nós freqüentamos o mesmo curso na universidade.

            Shung recuperou-se de sua admiração e concordou com um aceno de cabeça.

--Há quanto tempo você trabalha aqui? – Thomas perguntou, demonstrando um interesse amistoso que não possuía na realidade.

--Esta loja pertence a meu pai e eu trabalho aqui durante os fins de semana... – Shung respondeu, olhando sorrateiramente para Mary.

            Ela estava afastada de Thomas, mas ainda o olhava como se estivesse diante de um fantasma.

--E, então? – Thomas requisitou a atenção de Shung novamente. – Quanto deu? – Ele indicou a sacola de compras que Shung segurava em mãos, contendo alguns CD’s virgens que Mary selecionara.

--Ahh... – Shung baixou o olhar para a sacola e depois o direcionou a tela computador. Informando a soma logo em seguida, enquanto Thomas retirava algumas notas de sua carteira.

--Você enlouqueceu?! – Mary exclamou, finalmente recuperando a habilidade da fala. – O que você pensa que está fazendo?

--Pagando pelo que você comprou, amor. – Thomas respondeu, carinhosamente, entregando o dinheiro a Shung e tomando a sacola que Shung estendia para Mary.

--Eu não sabia que você tinha um namorado, Mary! – Shung comentou, observando-a atentamente.

--Eu não tenho namorado… – Mary começou a responder, mas Thomas a interrompeu.

--Há muito tempo assim. – Completando a resposta dela conforme os seus desígnios. – Nosso relacionamento é bem recente... – Continuou, sorrindo para Mary; quem voltou a olhá-lo, boquiaberta. – Uma semana, estou certo, amor?

--É verdade? – Shung perguntou, olhando para Mary.

            Ela virou o rosto na direção de Shung e abriu a boca, pronta para desmentir Thomas. Mas ele foi mais rápido e continuou com os seus comentários.

--Sim! Conhecemos-nos numa festa de Halloween... – Falava com animação. – Ela estava vestida de Vandinha! – Thomas sorriu genuinamente para Shung ao dizer isto. – Você precisava ter visto... A coisa mais linda que eu já vi! – Disse, olhando para Mary, quem voltara a fitá-lo e ficou ruborizada com o elogio.

            Thomas ergueu a sua mão livre e, carinhosamente, colocou uma mecha de cabelo de Mary que estava caindo em seu rosto atrás de sua orelha. Terminou o movimento acariciando o seu rosto avermelhado. Mary, instintivamente, mordeu a sua mão, o levando a disfarçar o susto que levou com uma risada, tirando a sua mão do alcance da boca de Mary o mais rápido que conseguiu.

            Shung assistia a tudo com a testa franzida; já não tinha mais dúvidas quanto à veracidade das palavras de Thomas. Nunca tinha visto Mary agir com tanta intimidade com um homem antes – eles até tinham suas próprias “brincadeiras de namorados”, ele assim acreditava, diante da cena que assistia.

--Nos reencontramos semana passada, na festa de Walter... – Thomas prosseguiu com o seu relato; decidira-se por dizer a verdade, mas de forma que Shung continuasse a acreditar que Mary e ele tinham realmente um relacionamento. – Ela precisava de uma carona... e eu dei. – Thomas concluiu com um movimento sugestivo de sobrancelhas para Shung.

            Mary cansou daquela encenação. Tomou a sacola das mãos de Thomas, despediu-se brevemente de Shung, deu as costas aos dois e dirigiu-se como um foguete à saída da loja.

--Nós precisamos ir… - Thomas disse a Shung, seguindo Mary com passos mais lentos. – senão vamos perder a sessão de cinema. – Completou, ao sair da loja e fechar a porta.

            Thomas procurou por Mary ao corredor do shopping em que ficava a loja de eletrônicos, mas não a viu. “Ela anda rápido!”, ele se divertia com este pensamento, caminhando em direção a esquina de outra loja. Antes que dobrasse a esquina, encontrou-se com ela. Ela estava voltando e aparentava estar furiosa.

--O que você pensa que estava fazendo ao dizer a ele que é meu namorado?! – Ela exigiu saber, parando enfrente a ele.

--Ele disse que eu era seu namorado, não eu! – Thomas replicou, rindo. – Eu só não corrigi a sua percepção equivocada, porque... você há de convir que é uma questão de tempo! – Este novo comentário deixou Mary ainda mais furiosa.

--Você vai voltar comigo agora mesmo e dizer a verdade! – Mary ordenou, agarrando-o pelo braço e o arrastando em direção a loja de eletrônicos.

--Claro, se é o que você deseja! – Thomas respondeu, não resistindo a ela. – Eu posso dizer a ele toda a verdade! – Afirmou, com um tom malicioso em sua voz, percebendo que Mary diminuía os passos, hesitante. – TODA a verdade! ...O que você acha que ele irá dizer quando eu lhe disser que você além de não ser minha namorada, está louca para ser namorada dele?! – Até que ela parou de andar. – Eu, pessoalmente, acho que ele vai ficar lisonjeado! – Thomas garantiu, ainda sorrindo tranquilamente para Mary. – Vamos! Vamos lá dizer a VERDADE a ele! – E ele passou a puxá-la pela mão, caminhando decidido em direção a loja de eletrônicos.

--Não! PARE!! – Mary exclamou, fincando os pés no chão e puxando-o para si.

--Algum problema? – Thomas perguntou, com uma expressão preocupada no rosto. – Você me parecia tão certa de que queria que eu lhe revelasse a verdade!

--Dá para você parar??!! – Mary continuou a exclamar, agitada. – O que eu tenho de fazer para você me deixar em paz?! – Ela perguntou, pela segunda vez.

--Eu acredito que já lhe respondi esta pergunta. – Thomas replicou, seriamente. – Mas, se quiser, eu ajudo-a a recordar: saia comigo! – Thomas disse, com a voz rouca, sedutora.

            Mary sentiu aquele conhecido frio na barriga que sentia sempre que Thomas se aproximava dela daquela forma e lhe dirigia a palavra daquele jeito.

--Tudo bem. – Respondeu num murmúrio, a contragosto. – Eu saio com você. – Vendo um sorriso vitorioso tomar conta dos lábios de Thomas.

--Perfeito! – Thomas disse, dando mais um passo em direção a Mary. – Amanhã, neste mesmo horário. – Disse, simplesmente.

            Mary deu passos para trás, desvencilhando-se da mão de Thomas em seu pulso com um movimento brusco.

--Tudo bem. – Mary concordou, já lhe virando as costas e seguindo o seu caminho.

--E quanto ao nosso cineminha, amor?! – Ele exclamou, divertidamente, para a figura em retirada de Mary; sendo ignorado por ela propositalmente.

            Thomas a deixou ir, rindo consigo mesmo – foi mais fácil que eu imaginava! Tomou o seu próprio caminho, já arquitetando o seu encontro do dia seguinte. No presente momento, precisava tomar o metrô de volta ao prédio da casa de Mary e pegar o seu carro, que deixara estacionado lá.

 

 

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